sábado, 9 de março de 2013

IV Domingo da Quaresma - ano C - 10 de fevereiro

       1 – O evangelho deste dia apresenta-nos uma das mais extraordinárias parábolas de Jesus, um exclusivo de São Lucas, conhecida como a Parábola do Filho Pródigo, mais adequado seria Parábola do Pai Misericordioso. Veremos por quê. É uma verdadeira pérola que nos fala de um Deus que ama sempre, sem reservas, absolutamente.
       Jesus prossegue o seu ministério, nem sempre bem compreendido, com o Seu jeito de se relacionar com as pessoas, sem privilegiar classes, ou melhor, privilegiando precisamente os que estão abaixo das classes. Para Jesus o menos é MAIS. Os desprotegidos pelo poder, pela riqueza, ou até pela religião, os que têm menos, merecem de Jesus maior atenção, maior cuidado, mais tempo e delicadeza, para que se sintam chamados, amados, se sintam filhos queridos de Deus.
       Jesus come com pecadores, maltrapilhos, doentes, pedintes, publicanos. Esta constatação envolve uma acusação grave feita pelos fariseus a Jesus. Ele dá-Se com todos aqueles que a sociedade se encarregou de excluir, a escumalha que não deveria ter lugar à mesa. Ele acolhe-os e come com eles. E comer com alguém implica e significa comunhão, proximidade. Senta-se à mesa comigo quem considero amigo, ou da família.
       2 – Jesus conta-lhes então uma parábola.
       Um homem tinha dois filhos. Para os quais vivia. Sem que nada o fizesse prever, o mais novo decide pôr cobro aos laços familiares, abandonando a casa. Pede a parte da herança que lhe caberá em sorte. Sai de casa. Tem tudo, mas não se sente completamente feliz. Vai em busca de algo mais. Uma razão maior. O homem ultrapassa infinitamente o homem. A ambição (com conta, peso e medida) leva a procurar o melhor dos outros e a dar o melhor de nós mesmos. A ganância destrói-nos, mais cedo ou mais tarde, e destrói os que estão à nossa beira.
       À medida que se afasta da casa paterna, sem saber ainda, afasta-se da felicidade e de quem suporta a sua vida. Investe em novas amizades. Experimenta tudo. Esbanja o que tem. Diverte-se. Gasta e desgraça a vida, sempre em busca de mais. Uma sede sem fim. Ávido de prazeres, ocupa todo o tempo cronológico para não pensar em mais nada. Ocupa o lugar dos afetos com muitas coisas. Abafa a voz que o liga ao pai. Procura ir além de tudo o que já antes viveu em sua casa.
       Logo se apercebe que a felicidade não está longe, ou no exterior, ou nas coisas, ou nas facilidades, ou nos outros. Sente-se abandonado. Cada vez mais só. Cai em si. O dinheiro não compra a felicidade, nem os amigos, nem a alegria de se sentir amado. A vida parece ter-se esquecido dele. Melhor, ele abandonou o sonho, entregou-se à perdição.
       Há, porém, dentro dele, algo mais forte, tão forte que é impossível não encontrar, a ligação ao PAI. Recorda-se como era feliz, tendo tudo, mas sobretudo tendo um Pai que o amava, o respeitava, o compreendia, o apoiava nas suas decisões.
       Vence o orgulho e o sentimento de culpa por ter abandonado a casa paterna. Regressa. À sua casa. Aos braços do pai. Nem se importa de ser tratado como um dos criados, pois mesmo o mais insignificante tem mais do que ele tem agora, tem a atenção do pai, uma casa, um refúgio, um ombro amigo, um olhar compassivo. Não se importa de não recuperar os direitos de filho.
       Se nos centrássemos na figura do filho mais novo – há momentos em que também nós nos afastamos do Pai, dos outros, de nós mesmos, da nossa consciência – veríamos, ainda assim, um homem em busca da felicidade. Procura ser feliz por todos os meios. Precisou de se afastar para descobrir que a verdadeira felicidade estava dentro (dele), em casa, ao pé do pai. Por vezes só reconhecemos o valor do que temos quando o perdemos. E às vezes é tarde para recuperar e para regressar. Este filho ainda foi a tempo de descobrir a razão maior da sua felicidade, o amor do Pai.
       3 – Aquele pai tinha outro filho. Mais velho. Mais responsável. Com menos tempo para a diversão. Tinha que tomar conta do irmão mais novo. E aborrecer-se com ele. Começou a trabalhar com o pai, muito antes do irmão. Quando o irmão nasceu, os mimos dos pais passaram para ele. É fácil perceber como se sentiria ao ver todas as atenções colocadas no mais pequeno, mesmo que soubesse que o carinho tinha sido exclusivo para ele durante alguns meses ou anos. E nunca recuperável pelo mais novo.
       Fica triste com a partida do irmão. Habituara-se a ele. Algumas tarefas eram divididas. Já não tinha que fazer tudo. Fica triste com a tristeza do pai, com o seu desgosto e a sua melancolia. Mas doravante terá a atenção do pai só para si, sem comparações. Os bens materiais divididos nem lhe fazem moça. Dividir as atenções e cuidados do pai era muito mais violento.
       Casa, trabalho, (pouco) descanso. Muito tempo passa sem se lembrar do irmão que está perdido pelo mundo. Sabe que o pai não esquece, mas que pouco a pouco a dor será menor e ele terá o pai só para si. Passam-se dias em que quase nem falam. Nem se veem. O pai está garantido. Não precisa de conquistar a sua atenção. O chão é seguro. Não pergunta pelo irmão. Não pergunta pelos sentimentos do pai. Tudo está na ordem natural das coisas. Tem para si que o pai tudo fará para o compensar por ter ficado em casa. Não precisa de investir nos afetos. Não precisa de agradar ao pai. Este não se habilitará a perder outro filho. O pai é que tem a obrigação de se curvar diante dele e é se o quer junto de si.
       Como está enganado! O pai não pode esquecer nenhum dos filhos. Conhece-os e ama-os nas suas limitações. Saíram do seu coração. Há espaço para os dois. O lugar do filho foragido não é preenchido. É deste filho. Não pode ser compensado. Mesmo que morra, o lugar no coração do pai não será ocupado.
       O irmão mais novo regressa. Já pouco se lembrava dele. E para mais, o pai faz-lhe uma festa, perdoa-o, passa uma borracha no sucedido, não quer saber da ofensa, ou dos pecados passados. Está tão feliz que só quer festejar. O mais velho não entende tanta algazarra. Tinha como adquirido que o irmão estava morto, para si e para o pai também. Como é possível que o pai o acolha de volta? E o perdoe? E lhe faça uma festa? E lhe devolva a dignidade de filho? Veste-lhe roupas novas, sandálias, coloca-lhe o anel no dedo. Gastou tudo e ainda é compensado! Não compreende a atitude do pai. O amor do Pai. Não aceita. Fica profundamente magoado tanto com o regresso do irmão como com a benevolência do Pai.
       4 – Fixemos agora o olhar no PAI. Como faz Jesus. Nesta parábola a figura principal é Ele. Depois de algumas murmurações, Jesus deixa claro que Deus é Pai, e ama como Pai e como Mãe, no mais profundo de Si mesmo, é um AMOR entranhado na vida, na história do ser humano. Por mais que nos afastemos, Deus não nos desampara, não nos abandona à nossa sorte. Está sempre pronto a dar-nos a mão. Assim nos é mostrada a história de Israel. Deus alia-Se com a humanidade, pelos patriarcas, pelos profetas.
       Ao longo de toda a parábola Jesus está centrado no pai e em Deus como Pai que não Se incomoda em partir a cara, acolhendo, perdoando, sem respeitos humanos. Não teme o comentário, ou a desonra. Os filhos valem tudo, toda a riqueza, toda a vida, todo o amor.
       Aquele pai cria as condições para os filhos (e para os servos). Trabalha em função dos filhos. Quer que eles sejam alguém, mas acima de tudo que não lhes falte um abraço, a presença dos amigos, a alegria de desfrutar da vida, diariamente, no meio das fragilidades, em dias mais alegres e em dias mais sombrios. Quer que os filhos aprendam a trabalhar, a ser responsáveis, a cuidar da casa, para que outros possam usufruir, viver. Os filhos acompanham-no nos negócios. Partilha com eles a responsabilidade. Não se esconde nas preocupações do trabalho ou na acumulação de fortunas. Os filhos vão para ao campo. Misturam-se com a criadagem, pois para o Pai também contam, também precisam de casa, de amigos, de apreciar a vida.
       Tudo corre bem. Mais ou menos. Os filhos já estão crescidos. Os cuidados são os mesmos, mas agora são os filhos que orientam a sua vida, assumem as suas responsabilidades e as consequências dos seus atos. Conhece os filhos como a palma das suas mãos. Ainda antes do próprio, deteta sinais de alarme no filho mais novo. Dá-lhe espaço, mas está mais vigilante. Vê-o inquieto, ansioso. Não vê motivos para isso. Mas sabe que os filhos têm de viver a sua vida e passar por momentos menos bons. Também assim se cresce. Que andará a turbar-lhe a mente? Com a naturalidade de sempre pergunta-lhe sobre o que lhe vai na alma. Não obtém resposta satisfatória. Vê que o filho se mantém distante e a fazer perguntas e mais perguntas aos servos e aos viajantes. O pai vê o filho mais sisudo, já não se diverte como antes. Já tem preguiça de o acompanhar para o campo ou para os negócios.
       Está a desligar-se. Está a crescer. Está a pensar pela sua cabeça. Há que esperar e dar tempo ao tempo. Eis que o filho mais novo se abeira cheio de si mesmo: "Pai, dá-me a parte da herança que me toca". E parte. O pai sente que lhe falta o ar. Uma parte de si é-lhe arrancada. Não quer acreditar. Morre um pouco. O pedido do filho é um desejo de morte. A herança herda-se pela morte dos pais, e não em vida. O filho deseja que o pai morra. O que mais importa é sair de casa.
        5 – Debrucemo-nos um pouco mais sobre a postura do pai. Respeita a opção dos filhos. Dá parte dos seus bens – para ele não existem bens que paguem o amor aos filhos, tudo é para os filhos –, não reclama com o filho mais novo. Não o repreende. Não o castiga. Poderia, ao menos, deixá-lo partir mas de mãos vazias. Os bens são seus, enquanto viver, não dos filhos…
       Durante a ausência do filho, cuida da casa, para que o outro filho se sinta protegido, amado, e aos servos não falte o zelo do Pater familias. O tempo cura as maleitas dos afetos e dos sentimentos. Pelo menos dilui. Não desiste. Fora está alguém que torna a sua casa incompleta. Por ora não pode fazer muito. Não desiste. Cada dia, o seu olhar se fixa no horizonte, aguardando que o AMOR profundo que nutre pelo filho o faça regressar. A sua aposta não é defraudada. Demorou demasiado tempo. Vê uma sombra ainda distante. Não tem dúvidas. Só pode ser o seu filho que “estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado”. Lança-se ao seu encontro. Abraça-o. Devolve-lhe a dignidade de filho. Para ele, continuou a ser filho. Não o avalia pelos desaires, mas pelo coração. O amor não tem preço. Não há nada que pague o regresso do filho. É a vez de esbanjar a sua riqueza com o regresso do filho. A sua maior riqueza é o amor. Pelos filhos. Não importa o que tem de fazer. “Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejemos”.
       A mesma atitude diante da intransigência do filho mais velho. Procura entender as razões que lhe assistem. Sempre esteve em casa. Certinho. Cumpridor. Fiel. De tão zeloso que não quer desculpar a safadeza e a rebeldia do irmão. Como é possível o regresso à normalidade? Como é possível que o Pai o trate como se nunca tivesse ido para longe, como se nunca lhe tivesse desejado a morte? Será que o pai perdeu o juízo e a vergonha? Só o amor do Pai/Mãe entende como o coração tem razões que toda a razão desconhece.
       O amor não permite cálculos. Quando é verdadeiro, genuíno. Também o filho mais velho não entende a predileção pelos filhos. Dá-lhes toda a atenção do mundo. O cuidado com o filho mais novo, não o desvia da delicadeza para com o filho mais velho. Tudo é para os filhos. Não importa os sacrifícios que tenha que fazer ou os gastos que tenha que efetuar. Tudo será para eles.
       Jesus mostra-nos como é imenso o amor de Deus por nós. Muito maior que a nossa fragilidade, gigantesco em relação ao nosso pecado. Se nós quisermos, não há nada que nos possa separar do amor de Deus.
       6 – Como outrora, também hoje Deus nos tira do opróbrio, da miséria. Deus vem para nos resgatar de toda a escravidão (primeira leitura). Dá-nos como herança, não uma parte, mas dá-Se todo, em Jesus Cristo, o Seu bem mais precioso, para que no Seu filho muito amado descubramos o caminho de regresso à Casa do Pai, onde jorra a vida.
       Deixemo-nos inebriar com as palavras do apóstolo:
“Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. As coisas antigas passaram; tudo foi renovado. Tudo isto vem de Deus, que por Cristo nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação. Na verdade, é Deus que em Cristo reconcilia o mundo consigo, não levando em conta as faltas dos homens e confiando-nos a palavra da reconciliação. Nós somos, portanto, embaixadores de Cristo… A Cristo, que não conhecera o pecado, Deus identificou-O com o pecado por causa de nós, para que em Cristo nos tornemos justiça de Deus”.


Textos para a Eucaristia (ano C): Jos 5, 9a.10-12; 2 Cor 5, 17-21 ; Lc 15, 1-3.11-32.

sexta-feira, 8 de março de 2013

São João de Deus, religioso

Nota biográfica:
       Nasceu em Montemor-o-Novo (Portugal) no ano 1495. Depois duma vida cheia de perigos na carreira militar, o seu desejo de perfeição levou-o a ambicionar coisas maiores e entregou-se ao serviço dos enfermos. Fundou um hospital em Granada (Espanha) e associou à sua obra um grupo de companheiros que mais tarde constituíram a Ordem hospitalar de S. João de Deus. Distinguiu-se principalmente na caridade para com os pobres e os doentes. Morreu nesta cidade em 1550.

ORAÇÃO COLECTA
       Senhor, que infundistes no coração de São João de Deus um grande espírito de caridade, concedei-nos que, praticando as obras de misericórdia, mereçamos ser recebidos entre os eleitos no reino da glória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Biografia mais completa na página da Paróquia de São João de Deus: AQUI!

Igualdade: a preservação das diferenças

O elogio da igualdade acontece pela valorização do que é distinto. Apresentando o tema que preside às actividades do Secretariado da Pastoral da Cultura durante o ano 2010, D. Manuel Clemente sublinhou a necessidade de, nas sociedades actuais, salvaguardar o que é diferente para que seja possível construir a igualdade entre as pessoas.
       “O género ou a raça não são necessariamente limites à igualdade a realizar, mas a possibilidade de se ser com os outros, dando e recebendo”. Para D. Manuel Clemente, “a igualdade só pode acontecer entre seres distintos”. “Entre seres absolutamente idênticos, não haveria campo para a igualdade” porque, referiu o Presidente da Comissão Episcopal da Cultural, Bens Culturais e Comunicações Sociais, a igualdade “pressupõe relação”.

Masculino e feminino:
       Para D. Manuel Clemente, hoje “temos de considerar um certo tropeço da ‘indistinção’ a surgir no caminho da igualdade. O que se deve à aceleração que a Europa conheceu no domínio da ciência e da técnica, com a “mentalidade conexa”.
       “Trazidas do campo da natureza para a pessoa humana, começou esta a ser encarada mais como algo a produzir do que simplesmente a reproduzir”, referiu D. Manuel Clemente.
       Mais do que como produto da natureza, o ser homem ou ser mulher começou a ser encarado com escolha livre. Para o Bispo do Porto, escolhe-se “o que se queira ou o que se sinta ser, alterando a fisiologia pela tecnologia”.
       Para D. Manuel Clemente, a igualdade garante especificidades: geográficas e de género. Ideias que desafiam a acção dos referentes da pastoral da cultura porque a norma dos tempos actuais sugere “vontade de ser tudo, sem limites naturais ou institucionais de qualquer espécie”.
       Culturalmente, andará por perto o tempo da “deriva libertária do liberalismo”. Ou seja, “a liberdade sem referência”, como um sentimento individual “sem relação”.

Desafios aos Referentes da Pastoral da Cultura:
       Aos participantes no VI Encontro de Referentes da Pastoral da Cultura, D. Manuel Clemente desafiou a “ligar propostas evangelizadoras e realidades locais valorizando, ou seja distinguindo positivamente, lugares, tradições e modos e potenciando-os para o futuro como identidades intercambiadas”.
       Por outro lado, o Bispo do Porto alertou para a oportunidade de aprofundar os “modos feminino e masculino”, dos autóctones e dos imigrados que vêm de outras culturas. Para D. Manuel Clemente, esse aprofundamento deverá ser feito nas dimensões bíblica, antropológica e cultural.

Elogio da igualdade:
       No VI Encontro, os Referentes da Pastoral da Cultura apresentaram as iniciativas a decorrer ou programadas nas instituições que representam. Foi também uma oportunidade para lançar as actividades para 2010, que este ano, quer propor “um novo elogio da igualdade”.
       “Dedicámos o ano passado a pensar os novos caminhos da liberdade”. Depois da igualdade, o próximo ano será para analisar temáticas sobre a fraternidade.
       O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura assinala assim o Centenário da República, “não como acontecimento do passado mas como realidade presente”. O Pe. José Tolentino Mendonça, Director deste Secretariado, referiu que esta é uma forma de “revisitar, em chave cristã, a herança tricolor de liberdade, igualdade e fraternidade”.

Notícia desenvolvida pela Agência Ecclesia.

O Homem e a Mulher

O homem é a mais elevada das criaturas.
A mulher, o mais sublime dos ideais.
Deus fez para o homem um trono; para a mulher fez um altar.
O trono exalta e o altar santifica.
O homem é o cérebro; a mulher, o coração. O cérebro produz a luz; o coração produz amor. A luz fecunda; o amor ressuscita.
O homem é o génio; a mulher é o anjo. O génio é imensurável; o anjo é indefinível;
A aspiração do homem é a suprema glória; a aspiração da mulher é a virtude extrema; A glória promove a grandeza e a virtude, a divindade.
O homem tem a supremacia; a mulher, a preferência. A supremacia significa a força; a preferência representa o direito.
O homem é forte pela razão; a mulher, invencível pelas lágrimas.
A razão convence e as lágrimas comovem.
O homem é capaz de todos os heroísmos; a mulher, de todos os martírios. O heroísmo enobrece e o martírio purifica.
O homem pensa e a mulher sonha. Pensar é ter uma larva no cérebro; sonhar é ter na fronte uma auréola.
O homem é a águia que voa; a mulher, o rouxinol que canta. Voar é dominar o espaço e cantar é conquistar a alma.
Enfim, o homem está colocado onde termina a terra; a mulher, onde começa o céu.

Victor Hugo

Bem-aventuranças da Mulher

  • Bem-aventurada a mulher que cuida do próprio perfil interior e exterior, porque a harmonia da pessoa faz mais bela a convivência humana.
  • Bem-aventurada a mulher que, ao lado do homem, exercita a própria insubstituível responsabilidade na família, na sociedade, na história e no universo inteiro!
  • Bem-aventurada a mulher chamada a transmitir e a guardar a vida de maneira humilde e grande!
  • Bem-aventurada a mulher quando nela e ao redor dela acolhe, faz crescer e protege a vida!
  • Bem-aventurada a mulher que põe a inteligência, a sensibilidade e a cultura a serviço dela, onde ela venha a ser diminuída ou deturpada.
  • Bem-aventurada a mulher que, em seu caminho, encontra Deus: escuta-O, acolhe-O, segue-O, como tantas mulheres ao longo da História, e se deixa iluminar por Ele na opção da vida!
  • Bem-aventurada a mulher que se empenha em promover um mundo mais justo e mais humano!
  • Bem-aventurada a mulher que, dia após dia, com pequenos gestos, com palavras e atenções que nascem do coração, traça sendas de esperança para a humanidade!”
       Reconheça e agradeça a DEUS pelas mulheres que foram e continuam a ser importantes na sua vida: a sua mãe, irmãs, esposa (se casado), companheiras de trabalho, amigas... Todas elas foram e continuarão a ser presenças da bondade e do amor de DEUS na vida de todos nós...
 
“SER MULHER É TRAZER EM SI MESMA A FORÇA E A SENSIBILIDADE QUE LHE PERMITE TRANSFORMAR A PRÓPRIA ESSÊNCIA EM UMA EXISTÊNCIA DE CARINHO E AFECTO.”
(Rosemére Cordeiro).
“A MULHER QUE TEME O SENHOR, ESSA SERÁ LOUVADA.”
(Provérbios 31,30).
“RECOMENDO-VOS A NOSSA IRMÃ FEBE, QUE ESTÁ SERVINDO À IGREJA DE CENCRÉIA, PARA QUE A RECEBAIS NO SENHOR... PORQUE TEM SIDO PROTETORA DE MUITOS E A MIM INCLUSIVE.”
(Rom 16,1-2a. Febe, uma mulher que exercia a liderança na comunidade cristã do século I)
 
BÊNÇÃO DAS MULHERES
Que o Deus de Eva te ensine a discernir o bem e o mal.
Que o Deus de Agar conforte a ti e a todas as mulheres quando se sentem sós no deserto da vida.
Que o Deus de Miriam te faça instrumento de libertação.
Que o Deus de Débora te conceda audácia e coragem para lutar pela justiça.
Que o Deus de Ester te conceda fortaleza para afrontar os poderosos.
Que o Deus de Maria de Nazaré abra o teu coração para que tu possas receber o gemem Daquele que vive para sempre.
JESUS E AS MULHERES:
       Jesus, que disse à Samaritana tudo aquilo que ela havia feito, te torne evangelizadora do teu povo.
       Jesus, que curou a mulher encurvada, liberte a ti e a todas as mulheres oprimidas pelas tradições culturais da escravidão.
       Jesus, que se deixou ungir a cabeça por uma mulher, te conceda ser profetiza para que o reconheça sempre como Senhor e Messias.
       Jesus, o amigo de Maria Madalena, te envie como uma apóstola para que possas levar a mensagem de libertação a todos os povos.
       Que o Espírito te consagre para que em Jesus Cristo, tu possas anunciar boas notícias aos pobres e liberdade aos prisioneiros, em nome de Deus que é, que era e que sempre será o Deus-connosco. Assim seja!!!

quinta-feira, 7 de março de 2013

Santa Perpétua e Santa Felicidade, mártires

Nota biográfica:
       Sofreram o martírio em Cartago no ano 203, na perseguição de Septímio Severo. Conserva-se ainda uma bela narração da sua morte, escrita em parte pelos próprios confessores da fé cartagineses e em parte por um escritor do tempo.

Oração de Colecta:
       Senhor nosso Deus, em cujo amor as santas mártires Perpétua e Felicidade encontraram a força para resistir aos seus perseguidores e vencer os tormentos da morte, concedei-nos, por sua intercessão, a graça de Vos amar cada vez mais. Por Nosso Senhor.

Aprender o caminho, caminhando... rumo à Páscoa

       A nossa vida é caracterizada pela dimensão do caminhar: de muitas e variadas formas fazemos essa experiência do caminho – umas vezes a sós, outras acompanhados; nalguns casos com gosto, noutras situações a custo e em sofrimento; umas vezes com ritmo e leveza, outras com sabor a luta; por vezes tendo em vista a meta, noutras titubeando em tropeções; umas vezes descalços e noutros casos usando um calçado mais ou menos consentâneo com o percurso...
       É sobre a vivência do nosso caminhar – sobretudo em contexto quaresmal – que deixamos breves referências ao nosso itinerário de via-sacra, lendo, analisando e interpretando a nossa condição de caminhantes e segundo o calçado que de nós revela as condições psicológicas e espirituais da caminhada... rumo à Pascoa

       = Pé direito/pé esquerdo – neste equilíbrio de ritmo podemos enquadrar as coisas correctas (pé direito) e os aspectos menos bons (pé esquerdo), que nos acontecem e que nós fazemos acontecer, onde Deus está, de quantas formas e feitios, a conduzir-nos ou a corrigir-nos... sempre numa leitura teológica do nosso existir. Quantos passos bem-andados e quantos outros por maus caminhos! Tudo faz parte da história de cada um!...

       = Pé descalço/pé calçado – estamos a nu sempre que experimentamos a rudeza do chão que pisamos, seja de terra dura e fria ou o fofo e alcatifado, sem precalços ou pejado de tropeços... O pé descalço sente as agruras do caminho, mesmo que ele seja mais ou menos sem obstáculos, enquanto o calçado com que envolvemos os nossos pés tem de estar à altura do momento que vivemos, sentimos ou percorremos... pois, sem o calçado apropriado, corremos o risco de não sermos capazes de caminhar correctamente.

       = Cada categoria de calçado revela, no entanto, quem o usa, muito para além das possibilidades económicas, ele revela a personalidade que através dele se manifesta... mesmo que de forma inconsciente:
  • Sandálias traduzem uma certa fragilidade, despojamento e leveza, que, por vezes, se usam em épocas de lazer, como em férias, ou ainda em espaços de maior exposição ao sol, deixando que os pés andem mais soltos e sem constrangimento;
  • Botas, embora envolvendo alguma rudeza relacionada com o trabalho e com as condições para enfrentarmos as condições da vida, do tempo, do ambiente adverso e mesmo das modas – sobretudo no contexto feminino – ou dos espaços onde se desenrolada a tarefa da vida... podemos ver a força e a segurança, na diversidade de acções, de momentos e de condicionamentos;
  • Sapatos – masculinos ou femininos – são mais do que meros adereços de circunstância, pois podem ser factor de afirmação no contexto social em que cada um está inserido, tornando-se recurso muito para além das capacidades económicas... Parafraseando, diremos: ‘Diz-me o que calças, que te direi quem és’ – poderia ser o aforisma para nos entendermos, nos enquadrarmos e nos reconhecermos na sociedade actual;
  • Sapatilhas ou ‘ténis’ – numa alusão à prática desportiva, pois também nesta área podemos encontrar uma razoável diversidade de tipologias... Bastará observar um jogo de futebol, onde nem todos calçam da mesma forma, quase parecendo mais um desfile de marcas do que a constituição de uma equipa;
  • Pantufas e chinelos – próprios para o conforto de casa e inseridos num ambiente de descontração e de intimidade, podemos relacionar estas formas de calçado com a pacatez de uma vida quase recatada no lar ou num espaço de maior recolhimento... que poderá ser mais do que o final da vida, mas antes uma oportunidade de meditação sobre o sentido último (que não meramente derradeiro) da existência humana e social.
       Ora, na nossa caminhada de via-sacra... rumo à celebração da Páscoa temos, segundo os vários intervenientes uma multiplicidade de referências, atendendo à sua forma da calçar: os pés descalços de Jesus crucificado, as botas rudes dos soldados romanos, as sandálias frágeis do pescador envergonhado Pedro, a subtileza feminina na consolação das mulheres de Jerusalém, a capacidade de seguimento (mais do que atlético) de Simão cireneu... para além do pé esquerdo da traição de Judas ou ainda os pés arrastados após a morte e sepultura de Jesus...
       Caminhemos com serenidade e exigência até à Pascoa da ressurreição, anunciando Jesus vivo ao mundo de hoje!

Pe. António Sílvio Couto, in AQUI & AGORA, também publicado na Voz de Lamego.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Sacramento da Reconciliação

(reposição deste post...)
        No tempo da Quaresma, valoriza-se o Sacramento da Penitência (da reconciliação). Diga-se, antes de mais, que a preocupação maior não deve ser a confissão dos pecados, mas sobretudo a descoberta da graça de Deus, deixando que o Seu Espírito nos faça entrar numa nova vida. O vídeo da Canção Nova é expressivo a falar deste Sacramento: é Deus quem perdoa. O sacerdote é intermediário da graça de Deus... Quando temos sede bebemos a água, ainda que a torneira não seja de ouro..

       Para reflectir um pouco mais sobre este Sacramento valerá a pena ler e meditar o texto que segue e que propomos:

1. O QUE É A CONFISSÃO?
       Confissão ou Penitência é o Sacramento instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo, para que os cristãos possam ser perdoados de seus pecados e receberem a graça santificante. Também é chamado de sacramento da Reconciliação.

2. QUEM INSTITUIU O SACRAMENTO DA CONFISSÃO OU PENITÊNCIA?
       O sacramento da Penitência foi instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo nos ensina o Evangelho de São João: "Depois dessas palavras (Jesus) soprou sobre eles dizendo-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem vocês perdoarem os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (Jo 20, 22-23).

3. A IGREJA TEM A AUTORIDADE PARA PERDOAR OS PECADOS ATRAVÉS DO SACRAMENTO DA PENITÊNCIA?
       Sim, a Igreja tem esta autoridade porque a recebeu de Nosso Senhor Jesus Cristo: "Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes sobre a terra será também desligado no céu" (Mt 18,18).

4. POR QUE ME CONFESSAR E PEDIR O PERDÃO PARA UM HOMEM IGUAL A MIM?
       Só Deus perdoa os pecados. O Padre, mesmo sendo um homem sujeito às fraquezas como outros homens, está ali em nome de Deus e da Igreja para absolver os pecados. Ele é o ministro do perdão, isto é, o intermediário ou instrumento do perdão de Deus, como os pais são instrumentos de Deus para transmitir a vida a seus filhos; e como o médico é um instrumento para restituir a saúde física, etc.

5. OS PADRES E BISPOS TAMBÉM SE CONFESSAM?
       Sim, obedientes aos ensinamentos de Cristo e da Igreja, todos os Padres, Bispos e mesmo o Papa se confessam com frequência, conforme o mandamento: "Confessai os vossos pecados uns aos outros" (Tg 5,16 ).

6. O QUE É NECESSÁRIO PARA FAZER UMA BOA CONFISSÃO?
       Para se fazer uma boa confissão são necessárias 5 condições:
       a) um bom e honesto exame de consciência diante de Deus;
       b) arrependimento sincero por ter ofendido a Deus e ao próximo;
       c) firme propósito diante de Deus de não pecar mais, mudar de vida, se converter;
       d) confissão objetiva e clara a um sacerdote;
       e) cumprir a penitência que o padre nos indicar.

7. COMO DEVE SER A CONFISSÃO?
       Diga o tempo transcorrido desde a última confissão. Acuse (diga) seus pecados com clareza, primeiro os mais graves, depois os mais leves. Fale resumidamente, mas sem omitir o necessário. Devemos confessar os nossos pecados e não os dos outros. Porém, se participamos ou facilitamos de alguma forma o pecado alheio, também cometemos um pecado e devemos confessá-lo (por exemplo, se aconselhamos ou facilitamos alguém a praticar um aborto, somos tão culpados como quem cometeu o aborto).

8. O QUE PENSAR DA CONFISSÃO FEITA SEM ARREPENDIMENTO OU SEM PROPÓSITO DE CONVERSÃO, OU SEJA, SÓ PARA "DESCARREGAR" UM POUCO OS PECADOS?
       Além de ser uma confissão totalmente sem valor, é uma grave ofensa à Misericórdia Divina. Quem a pratica comete um pecado grave de sacrilégio.

9. QUE PECADOS SOMOS OBRIGADOS A CONFESSAR?
       Somos obrigados a confessar todos os pecados graves (mortais). Mas é aconselhável também confessar os pecados leves (veniais) para exercitar a virtude da humildade.

10. O QUE SÃO PECADOS GRAVES (MORTAIS) E SUAS CONSEQUÊNCIAS?
       São ofensas graves a Deus ou ao próximo. Eles apagam a caridade no coração do homem e o desviam de Deus. Quem morre em pecado grave (mortal) sem arrependimento, merece a morte eterna, conforme diz a Escritura: "Há pecado que leva à morte" (1Jo 5,16b).

11. O QUE SÃO PECADOS LEVES (ou também chamados de VENIAIS)?
       São ofensas leves a Deus e ao próximo. Embora ofendam a Deus, não destroem a amizade entre Ele e o homem. Quem morre em pecado leve não merece a morte eterna. "Toda iniquidade é pecado, mas há pecado que não leva à morte" (1Jo 5, 17).

12. PODEIS DAR ALGUNS EXEMPLOS DE PECADOS GRAVES?
       São pecados graves, por exemplo: O assassinato, o aborto provocado, assistir ou ler material pornográfico, destruir de forma grave e injusta a reputação do próximo, oprimir o pobre, o órfão ou a viúva, fazer mau uso do dinheiro público, o adultério, a fornicação, entre outros.

13. QUER DIZER QUE TODO AQUELE QUE MORRE EM PECADO MORTAL ESTÁ CONDENADO?
       Merece a condenação eterna. Porém, somente Deus, que é justo e misericordioso e que conhece o coração de cada pessoa, pode julgar.

14. E SE TENHO DÚVIDAS SE COMETI PECADO GRAVE OU NÃO?
       Para que haja pecado grave (mortal) é necessário:
       a) conhecimento, ou seja, a pessoa deve saber, estar informada que o ato a ser praticado é pecado;
       b) consentimento, ou seja, a pessoa tem tempo para refletir, e escolhe (consente) cometer o pecado;
       c) liberdade, isto é, significa que somente comete pecado quem é livre para fazê-lo; 
       d) matéria, ou seja, significa que o ato a ser praticado é uma ofensa grave aos Mandamentos de Deus e da Igreja.

       Estas 4 condições também são aplicáveis aos pecados leves, com a diferença que neste caso a matéria é uma ofensa leve contra os Mandamentos de Deus.

15. SE ESQUECI DE CONFESSAR UM PECADO QUE JULGO GRAVE?
       Se esquecestes realmente, o Senhor te perdoou, mas é preciso acusá-lo ao sacerdote em uma próxima confissão.

16. E SE NÃO SINTO REMORSO, COMETI PECADO?
       Não sentir peso na consciência (remorso) não significa que não tenhamos pecado. Se nós cometemos livremente uma falta contra um Mandamento de Deus, de forma deliberada, nós cometemos um pecado. A falta de remorso pode ser um sinal de um coração duro, ou de uma consciência pouco educada para as coisas espirituais (por exemplo, um assassino pode não ter remorso por ter feito um crime, mas seu pecado é muito grave).

17. A CONFISSÃO É OBRIGATÓRIA?
       O católico deve confessar-se no mínimo uma vez por ano, ao menos a fim de se preparar para a Páscoa. Mas somos também obrigados toda vez que cometemos um pecado mortal.

18. QUAIS OS FRUTOS DE SE CONFESSAR CONSTANTEMENTE?
       Toda confissão apaga completamente nossos pecados, até mesmo aqueles que tenhamos esquecido. E nos dá a graça santificante, tornando-nos naquele instante uma pessoa santa. Tranquilidade de consciência, consolo espiritual. Aumenta nossos méritos diante do Criador. Diminui a influência do demônio em nossa vida. Faz criar gosto pelas coisas do alto. Exercita-nos na humildade e nos faz crescer em todas as virtudes.

19. E SE TENHO DIFICULDADE PARA CONFESSAR UM DETERMINADO PECADO?
       Se somos conhecidos de nosso pároco, devemos neste caso fazer a confissão com outro padre para nos sentirmos mais à vontade. Em todo caso, antes de se confessar converse com o sacerdote sobre a sua dificuldade. Ele usará de caridade para que a sua confissão seja válida sem lhe causar constrangimentos. Lembre-se: ele está no lugar de Jesus Cristo!

20. O QUE SIGNIFICA A PENITÊNCIA DADA NO FINAL DA CONFISSÃO?
       A penitência proposta no fim da confissão não é um castigo; mas antes uma expressão de alegria pelo perdão celebrado.


  •      A propósito de Confissão surgem muitos textos interessantes e sugestivos. Recomedaríamos uma leitura atenta de Confissão e Oração, no blogue da Dulce que seguimos: Degrau de Silêncio.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Escola da Fé - CREIO no ESPÍRITO SANTO - Pe. Bráulio

       Sexta-feira, 1 de março, de volta à Escola da Fé, para refletir, para rezar, para testemunhar a vivência da fé, centrados na terceira parte do CREDO - Creio no Espírito Santo. O Ano da Fé é um desafio a aprofundar as razões da nossa esperança, solidificando o que nos une a Jesus Cristo, e à Sua Igreja, da Qual Ele é a Cabeça e nós membros vivos. Uma das preocupações de Bento XVI, Papa Emérito, é que se refletisse no CREDO e nas Verdades que expressa, para que a Profissão de Fé não seja uma récita, mas um verdadeiro compromisso com Jesus Cristo, com a Igreja, com a humanidade.
       Connosco, o Pe. Bráulio para nos falar de Deus - Espírito Santo. Das três Pessoas da Santíssima Trindade, o mais desconhecido e o mais difícil de falar. Em todo o caso, o Espírito Santo está sempre presente, na criação, nos profetas, em Cristo Jesus, no Batismo, no horto das oliveiras, no alto da Cruz.
        Em qualquer situação da vida deveriamos evocar o Espírito Santo, na relação com os familiares, no compromisso eclesial, na resolução de probelas, nas dificuldades, como se reflete na Oração ao Espírito Santo, proposta para encerrar este encontro, e para rezar todos os dias, pelo menos na Quaresma:
Ó Espírito Santo, amor do Pai e do Filho!
Inspirai-me sempre aquilo que devo pensar,
Aquilo que devo dizer,
Aquilo que devo calar,
Aquilo que devo escrever,
Aquilo que devo sentir,
Aquilo que devo fazer,
Para procurar a Vossa glória,
O bem das almas e a minha própria santificação.
Ó Jesus, toda a minha confiança está em Vós.
Ó Maria, Templo do Espírito Santo,
Ensinai-nos a sermos fieis
Àquele que habita em nosso coração. Ámen.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Escola da Fé - CREIO NO ESPÍRITO SANTO - Pe. Bráulio

Bento XVI - Gravidade e inovação de um passo

       Se as encíclicas, os livros, as homilias, as mensagens e tudo o que foi dizendo e escrevendo ao longo do pontificado vai merecer releituras e estudos detalhados, muito mais este gesto de Bento XVI pela sua “gravidade e inovação”.
       Não se alcança nestes dias o horizonte da decisão de Bento XVI. Sabe-se, por enquanto, que a sua atitude é uma grande mensagem, um capítulo central do legado que deixa à Igreja Católica e um gesto que expressa a sua personalidade e a perceção acerca da missão de cada batizado, incluindo a do Papa, num momento específico da história.
       Se as encíclicas, os livros, as homilias, as mensagens e tudo o que foi dizendo e escrevendo ao longo do pontificado vai merecer releituras e estudos detalhados, muito mais este gesto pela sua “gravidade e inovação”.
       As palavras são do próprio Bento XVI e foram pronunciadas em português na sua última audiência na Praça de S. Pedro, em Roma.
       “Dei este passo com plena consciência da sua gravidade e inovação, mas com uma profunda serenidade de espírito”, disse Bento XVI após ter recordado o seu estado de espírito quando foi eleito Papa, no dia 19 de abril de 2005, nomeadamente o “peso grande” que lhe caía sobre os ombros.
       É esse mesmo realismo que permite a Bento XVI dar este passo. E ter prometido, já em ambiente de pré-conclave, obediência “incondicional” ao futuro Papa, depois de ter tomado a decisão “mais justa” para o bem da Igreja.
       Bento XVI comunicou a renúncia ao pontificado no dia 11 de fevereiro. Depois, no decorrer da agenda já assumida, foi explicando os motivos e o contexto em que tomou essa opção e as consequências que espera para a vida da Igreja, que liderou até ao último dia de fevereiro. E são essas palavras que interessa manter por perto quando se procura interpretar um gesto que introduz rutura na forma de entender e exercer o ministério de ser o sucessor de Pedro no contexto atual.
       Assim, as sensações e as emoções provocadas por este momento de viragem na história têm de ser geridas na consciência de cada pessoa: a dos crentes, interessados em contribuir para que a Igreja seja cada vez mais de Cristo; e a de todos os cidadãos, cativados por uma instituição que, na sua origem e identidade, tem por fim único propor a felicidade a todos.
       A isso nos ensina também o Papa que resigna. A decisão que tomou parte da sua consciência, depois de a “ter examinado repetidamente” e de o ter feito “diante de Deus”. Nesse diálogo, entre a consciência e Deus, num ambiente espiritual fundamentado e seduzido pelo exemplo de Cristo, encontra-se o segredo para decisões acertadas, voltadas não tanto para o bem próprio, antes para o bem de todos, o único capaz de gerar alegria.
       Uma convicção afirmada até ao último momento. No seu último tweet, Bento XVI escreveu, dizendo de si e desafiando todos: “Possais viver sempre na alegria que se experimenta quando se põe Cristo no centro da vida”.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

II Domingo da Quaresma - ano C - 24 de fevereiro

       1 – «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O». 
       Neste segundo domingo de Quaresma, um importante desafio salta à vista: a ESCUTA. Esta pressupõe atender, respeitar, acolher, tentar perceber, o que o outro diz. No caso concreto, é a VOZ que vem dos Céus: Eis o Meu eleito. Escutai-O. A Ele por inteiro. Cada um de nós é muito mais do que aquilo que diz. As nossas palavras podem expressar uma parte do que somos, mas fica sempre algo por dizer e, por outro lado, dizemos o que somos também pelo que fazemos, pelas escolhas, pelas obras, pela postura que nos aproxima ou distancia dos outros.
       No primeiro Domingo de Quaresma, o evangelho apresentava-nos o quadro das tentações de Jesus, sublinhando-se, porém, a intimidade e identificação de Jesus à vontade de Deus. Ele é guiado pelo Espírito. Na hora do batismo, do Céu a mesma voz – É o meu filho muito amado em quem pus toda a minha ternura, escutai-O. No deserto, escutando a Palavra de Deus, sem a manipular, Jesus contrapõe a vontade de Deus a vozes estranhas e desviantes. Ele faz deserto para compreender os nossos desertos e as nossas lutas. Faz deserto para nos fazer saber que, no final, só precisamos de Deus. Sem Deus somos nada, pó volátil, condenado a desaparecer. Com Deus, mesmo tendo poucas coisas, temos TUDO, agora e na eternidade.
       Vale a pena introduzir aqui o apelo do nosso Bispo, D. António Couto, para esta Quaresma:
“Apelo, portanto, a todos os irmãos e irmãs que Deus me deu nesta querida Diocese de Lamego a que, nesta Quaresma, deixemos a enxurrada da Palavra de Deus tomar conta da nossa vida. No meio da enxurrada, perceberemos logo que não salvaremos muitas coisas, e que aquilo que mais queremos encontrar é uma mão segura que nos ajude a salvar a nossa vida”. 
       O essencial para Jesus não é o pão, o poder, a adulação, mas a certeza de Deus na sua Vida, no deserto ou na cidade, na míngua ou na fartura. Deus O salva. E a nós também.
       2 – Vejamos o quadro completo do evangelho e encontraremos mais ligações com o quadro do batismo e das tentações:
“Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago e subiu ao monte, para orar. Enquanto orava, alterou-se o aspeto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente. Dois homens falavam com Ele: eram Moisés e Elias, que, tendo aparecido em glória, falavam da morte de Jesus, que ia consumar-se em Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele. Quando estes se iam afastando, Pedro disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Não sabia o que estava a dizer. Enquanto assim falava, veio uma nuvem que os cobriu com a sua sombra; e eles ficaram cheios de medo, ao entrarem na nuvem. Da nuvem saiu uma voz, que dizia: «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O». Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou sozinho. Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto”. 
       Quando sobe à montanha tem o mesmo fito da ida para o deserto, para rezar. A montanha aproxima-nos do alto, de Deus. É um lugar mais isolado, de onde se pode contemplar a cidade, a povoação. Mais perto de Deus para ver melhor a humanidade. “A existência cristã – diz Bento XVI – consiste num contínuo subir ao monte do encontro com Deus e depois voltar a descer, trazendo o amor e a força que daí derivam, para servir os nossos irmãos e irmãs com o próprio amor de Deus”.
       3 – Os discípulos hão de seguir Jesus, para aprender com Ele os caminhos a trilhar. Por ora Jesus prepara-os para as horas difíceis que estão para chegar. Então não haverá tempo para refletir, para entender, tudo passará muito rápido sem o afastamento necessário para assimilar e ultrapassar. Se o coração não estiver suficientemente alimentado pela oração, pela palavra de Deus, poderá não resistir diante de tantas dificuldades.
       O Mestre não lhes esconderá as nuvens carregadas que estão para vir. No entanto, das nuvens mais opacas irromperá, uma vez mais e sempre, a LUZ de Deus. Ele fará ouvir a Sua voz, através de Jesus. Falou-nos por Moisés. Nessa ocasião não estávamos preparados para ouvir. A voz de Deus feriria os nossos ouvidos. Falou-nos pelos profetas. Agora rasga os Céus dando-nos o Seu amado Filho. Se O escutarmos seremos salvos.
       A transfiguração é um compromisso permanente dos cristãos, dos discípulos de Cristo. A luz que vem de Deus permite-nos branquear, lavar, embelezar a nossa vida, tornando-nos translúcidos. A luz incidirá em nós como num cubo de vidro, que se enche de LUZ e por sua vez ilumina tudo o que está à volta. De novo, subimos ao monte de Deus para descermos ao encontro dos irmãos. Jesus antecipa a ressurreição, mostrando que nenhuma opacidade periga a força da luz de Deus. O caminho quaresmal é de preparação, de conversão, de mudança positiva de vida. Contudo, caminhamos na Luz da Páscoa. Só a Ressurreição de Cristo nos converte verdadeiramente.
       4 – Estamos alerta. Deus prepara-nos para grandes coisas. Alia-Se connosco. Jesus retira os discípulos da cidade para que eles vejam mais longe. E vejam para lá de todas as intempéries. Deus procede desta forma, para que não andemos a vaguear sem rumo nem esperança.
       Na primeira leitura, vislumbra-se a pedagogia divina:
“Deus levou Abraão para fora de casa e disse-lhe: «Olha para o céu e conta as estrelas, se as puderes contar». E acrescentou: «Assim será a tua descendência». Abraão acreditou no Senhor, o que lhe foi atribuído como justiça... Nesse dia, o Senhor estabeleceu com Abraão uma aliança, dizendo: «Aos teus descendentes darei esta terra, desde o rio do Egipto até ao grande rio Eufrates».
       Deus toma a iniciativa. Vem ao nosso encontro. Visita-nos em nossa casa. Leva-nos para o exterior de nós, para o deserto, para a montanha, para a entrada da tenda, para que o nosso horizonte seja o céu estrelado. Primeiro, Deus dá-Se, por inteiro. O que nos exige, em resposta? Que vivamos na inundação da Sua luz, do Seu amor.
       5 – A experiência vai-nos dizendo que dobrarmo-nos sobre nós vai-nos limitando, vai-nos deixando curvados, sem horizonte, sem abertura, sem futuro, sem o céu que nos rodeia. Se nos fixamos no chão, no umbigo, se nos colocamos no centro, o nosso mundo começa a ficar demasiado pequeno. Poderemos ficar com tonturas, raquíticos. O corpo habitua-se a ficar curvado.
       A águia deixada no galinheiro, que desaprendeu (ou não chegou a aprender) o que lhe traria a felicidade, voar, ser livre, ir pelo mundo, sem fronteiras. Habituou-se a ser galinha. As galinhas não voam, mesmo tendo asas. A tendência é agarrarem-se ao chão, apoiarem-se em algo sólido. Procuram o alimento na terra. A águia voa, procura o alimento a partir de um campo de visão muito alargado. Quando a jovem águia (quase galinha) viu outra águia a voar, o seu coração pequenino começou a palpitar, mas logo as galinhas lhe disseram para nem tentar, não era para ela… E em nós, pevalece a águia ou galinha?
       Deus faz com que Moisés olhe para o Céu. Jesus leva os discípulos à montanha, para se sentirem mais próximos de Deus, mais motivados a regressar para o meio das pessoas, e para verem a partir do olhar luminoso de Deus.
       Na segunda leitura, São Paulo, depois de convidar à imitação daqueles que estão em sintonia com Jesus Cristo, diz de forma clarificadora:
“A nossa pátria está nos Céus, donde esperamos, como Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso corpo miserável, para o tornar semelhante ao seu corpo glorioso, pelo poder que Ele tem de sujeitar a Si todo o universo. Portanto, meus amados e queridos irmãos, minha alegria e minha coroa, permanecei firmes no Senhor”.
        O caminho cristão é cíclico, melhor, em espiral. Como batizados avançamos em direção à Páscoa eterna, numa quaresma constante, preparamo-nos, renovamos a nossa vida. A nossa quaresma começa por nascer da Páscoa de Jesus. E de Páscoa em Páscoa, vamo-nos transformando, convertendo, caminhando, quaresmando.


Textos para a Eucaristia (ano C): Gen 15, 5-12.17-18; Filip 3, 17 – 4,1; Lc 9, 28b-36.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Um Papa tímido e sem medo

       Será exagero, ou talvez não. A entrevista que Bento XVI concedeu ao jornalista Peter Seewald diz mais sobre a sua visão do mundo, da história e do hoje, que o conjunto dos seus discursos. Exprime melhor a sua fé que os seus tratados de teologia. Define melhor o homem, o padre, o cidadão e o Papa que as imagens televisivas mais próximas dos momentos solenes do Sumo Pontífice. Porquê? Porque abre o coração de Joseph Ratzinger a um olhar íntimo, não esquematizado por ele mas pelas observações e perguntas que o jornalista lhe lança, envolvendo-o sempre na sua história pessoal e não na esfinge a que muitas vezes a imagem pública o condena.
       Sabendo embora que são muitas horas de diálogo, que o Papa não deixa escapar qualquer resposta impensada, que o texto foi revisto para aperfeiçoamento de algumas referências factuais, sobressai em toda a  conversa um homem que nunca separa o  seu pensamento  da sua história pessoal. Nada parte dum laboratório irreal mas duma reflexão experimentada da vida, da Igreja, de Deus, do homem, de Jesus Cristo, da história do mundo e dele próprio. Aprofunda o que pensa, deixa soltar algumas dúvidas sobre a forma de agir, exprime a sua concepção de poder enquadrado na sua actuação como Papa, pratica a colegialidade "como trabalho de equipa", mostra a importância e a limitação da Cadeira de Pedro, conversa com todo o rigor teológico e sentido pragmático. Sucede não a soberanos mas ao Pescador. Manifesta de forma luminosa a paixão de harmonizar razão e fé, não esconde alguma timidez sem qualquer tipo de medo em afirmar a verdade como obsessão. É um tímido sem medo de ninguém que até gosta dos adversários. Conhece o sofrimento e sabe que é este que tempera a alma e a desprende do relativo.
       Mas diz também que não é um homem de gabinete, que conhece e acompanha o mundo, não volta a cara aos sinais dos tempos, não se conforma com a cultura que quer viver sem Deus. Propõe vigorosamente a urgência da conversão, sem qualquer azedume para com a modernidade. E, sem qualquer  tom catastrófico, admite que  a Terra corre verdadeiro risco de sobrevivência sem dar por isso.
       Mais afeito às análises que às sínteses consegue derramar, nas poucas palavras que profere, todos os seus compêndios, numa espécie de oceano lógico, teológico e humano que o habita. Não diz tudo o que pensa, mas dá a impressão que nada do que pensa fica por dizer. E deixa - outro recato - o espaço aberto a quem dele discorda em qualquer matéria. Com a coragem de dizer que não é infalível.
       Fascinante este horizonte de homem, crente, cristão e Papa no abrir dum novo ano. Onde se não devem esconder os medos e perturbações. Mas onde prevalece a serenidade e a esperança. De quem reconhece a medida do tempo e o afronta com a eternidade.

António Rego, Editorial Agência Ecclesia.
(Reposição deste Editorial)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A primavera está por toda a parte. Até em nós?

       A primavera está por toda a parte. Em nosso redor a natureza parece vencer a imobilidade do inverno e amontoa os traços insinuantes do seu reflorir. Há uma seiva que revitaliza a paisagem do mundo. Mesmo nos baldios, nos pátios e quintais abandonados, nos jardins mais desprovidos a primavera desponta com uma energia que arrebata. Penso muitas vezes nos versos do Cântico dos Cânticos, o mais primaveril poema da Bíblia: «Fala o meu amado e diz-me: Levanta-te! Anda, vem daí, ó minha bela amada! Eis que o inverno já passou, a chuva parou e foi-se embora; despontam as flores na terra, chegou o tempo das canções, e a voz da rola já se ouve na nossa terra; a figueira faz brotar os seus figos e as vinhas floridas exalam perfume. Levanta-te! Anda, vem daí, ó minha bela amada! Minha pomba, nas fendas do rochedo, no escondido dos penhascos: deixa-me ver o teu rosto, deixa-me ouvir a tua voz; pois a tua voz é doce e o teu rosto, encantador» (Ct 2, 10-14).
        Neste poema, a primavera do mundo é uma representação simbólica da primavera interior que nos desafia. Na verdade, o nosso coração não pode continuar eternamente sequestrado pelos impasses dos seus invernos gelados. A nossa vida está prometida à primavera, é a mensagem que o despertar da natureza (e aquele mais íntimo) nos parece segredar.
       Mas também acontece que o renascimento do mundo nos parece incomparavelmente mais simples que o nosso. Por nossa parte, sentimo-nos soterrados e sem forças. Achamos que já passou demasiado tempo, que em algum momento do percurso nos perdemos e que talvez isso seja agora irremediável. Vamo-nos deixando ficar num conformismo tácito, insatisfeitos e adiados, a ponto de desistir. Certamente a voz da primavera não nos deixa indiferentes: ela há de sempre sobressaltar-nos. Mas olhamos para ela com mais nostalgia do que com esperança. Contemplámo-la à distância. Ou então defendemo-nos dela como podemos, fingindo não perceber o que significa. No fundo de nós mesmos, consideramos que a primavera já não é para nós. E no nosso coração andamos às voltas com aquela pergunta que também a Bíblia conserva e que não temos paz enquanto não conseguirmos responder: «Pode um homem, sendo velho, nascer de novo?» (Jo 3,4).
       Os cristãos começam por estes dias um tempo litúrgico que é uma espécie de pronto-socorro da primavera. Falo da Quaresma. Gosto de explicá-la a mim mesmo como um curso intensivo de jardinagem, pois trata-se de revitalizar a paisagem da vida, projetando-a dinamicamente, devolvendo-lhe intensidade e cor. A quaresma aprofunda três sulcos, afinal muito simples (o da oração, o da esmola e o da renúncia a que chamamos jejum), mas pode constituir uma alavanca de transformação que restaura em nós a liberdade de ser, que cimenta a capacidade de reconstruir a vida e de a viver fraternalmente, que nos dá um sentido de confiança capaz de abraçar criativa e serenamente a própria fragilidade, que melhora o nosso ânimo e até o nosso humor. Fazemos Quaresma para arriscar a Páscoa.

José Tolentino Mendonça, in Diário de Notícias (Madeira), de 14-01-2011.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

D. António Couto - A Quaresma é um tempo novo

       A Quaresma é este tempo novo, não nosso, de fazer um verdadeiro jejum na nossa vida. Jejuar não é deixar de comer hoje, para comer amanhã. De nada nos valeria. Jejuar é olhar para a nossa vida, para a nossa casa e para a nossa mesa, até perceber que tudo é dom de Deus, não apenas para mim, mas para todos os seus filhos e meus irmãos, e, agir em consequência, partilhando com todos a minha vida, a minha casa, a minha mesa.