domingo, 2 de outubro de 2016

Carta Pastoral de D. António Couto | 2016-2017


IDE POR TODO O MUNDO
E ANUNCIAI O EVANGELHO A TODA A CRIATURA

«A Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração: por atração maternal, por esta oferta de maternidade; cresce por ternura, por maternidade, pelo testemunho que gera sempre novos filhos» (Papa Francisco)[1].

Não animador ou monitor, mas transparência ou testemunha fiel de Jesus Cristo

1. Todo o discípulo missionário, enquanto testemunha e anunciador do Evangelho, não pode ser um simples animador ou monitor, mas transparência ou testemunha fiel da presença viva e operante do próprio Senhor no meio da comunidade. O discípulo missionário só tem autoridade na medida em que é fiel a Cristo e como Ele obediente, nada dizendo ou fazendo por sua conta e risco ou a seu-bel-prazer. A vida do discípulo missionário não é da ordem da criatividade, mas da fidelidade. Só pode dizer e fazer aquilo que, por graça, lhe foi dado ouvir, aquilo que, por graça, lhe foi dado ver fazer. O discípulo missionário é então também um contemplativo. É aqui que voltamos outra vez à configuração do discípulo missionário com Cristo e à sua transfiguração em Cristo e por Cristo. O discípulo missionário não é, portanto, aquele que vai apenas, com o relógio, o mapa e a caixa de primeiros socorros na mão, em auxílio de alguém. O discípulo missionário tem de passar do tempo do relógio e do mero auxílio para o dom total de si. A tempo inteiro e corpo inteiro. Missionário é aquele que, como Jesus e à maneira de Jesus, põe em jogo a própria vida, e não simplesmente as coisas ou os adereços. Tudo, e não apenas o supérfluo. Sempre, e não apenas um segmento de tempo. Em toda a parte, e não apenas na sua rua.
Missão «total»: todos, tudo, sempre, em toda a parte
2. Vale a pena começar por receber um extrato do chamado «segundo final» de Marcos, onde aparece inserida a frase que nos indica o caminho para o ano pastoral de 2016-2017:

«16,14Em último lugar fez-se ver aos Onze, enquanto estavam à mesa, e reprovou a sua incredulidade e dureza de coração, porque não acreditaram naqueles que o tinham visto ressuscitado. 15E disse-lhes: “Indo por todo o mundo, anunciai o Evangelho a toda a criatura”. 16Quem acreditar e for batizado, será salvo, mas quem não acreditar, será condenado. 17São estes os sinais que acompanharão os que acreditarem: no meu nome, expulsarão demónios, falarão línguas novas, 18e, se pegarem em cobras nas mãos e beberem veneno mortal, não lhes fará mal; imporão as mãos aos doentes, e ficarão bem.
19O Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi elevado ao céu, e sentou-se à direita de Deus. 20Eles, então, tendo saído, anunciaram o Evangelho por toda a parte, enquanto o Senhor cooperava e confirmava a Palavra com os sinais que a acompanhavam» (Marcos 16,14-20).

3. Trata-se da última página do Evangelho de Marcos, certamente tardia, talvez do séc. II, mas grandiosa e imponente, e cheia de referências significativas para a vida cristã de qualquer tempo e lugar. Esta página fecha o Evangelho de Marcos, condensa-o e encerra-o numa grande inclusão literária e teológica através dos termos «anunciar», «acreditar» e «Evangelho», usados a abrir o Evangelho (1,14-15) e a fechar o Evangelho (16,15-16). Mas o anúncio do Evangelho a toda a criatura (16,15) reclama também o início da Escritura, a página da Criação, com o ser humano a receber de Deus o mandato de dominar a criação inteira (Génesis 1,26 e 28). É ainda nesse sentido de inclusão literária e teológica com a Criação, que as cobras, uma das quais dominou então o ser humano (Génesis 3,1-5), são agora dominadas (16,18), do mesmo modo que é o bem (kalôs), em vez da cura, que agora se estabelece sobre os doentes (16,18). Outra vez o eco intertextual da Criação, onde, no texto grego dos LXX, o bem, bom e belo (kalós) impregna por completo a Criação inteira, atravessando-a por oito vezes (Génesis 1,4.8.10.12.18.21.25.31 LXX). No texto hebraico, é por sete vezes que soa esta nota com o termo tôb, que passa o mesmo significado de bem, bom e belo (Génesis 1,4.10.12.18.21.25.31). O «Senhor Jesus» (16,19), única menção em todos os Evangelhos, enche a cena, quer para recriminar a nossa incredulidade e dureza de coração (16,14), quer para continuar a manifestar a sua confiança em nós, dado que, não obstante a nossa incredulidade, e, talvez por isso mesmo, insiste em enviar-nos e acompanhar-nos na missão «total» do Evangelho que agora nos confia (16,15 e 20). Cai aqui por terra uma certa retórica de santidade, que falsamente defende que só os santos são idóneos para a missão de anunciar o Evangelho! E ganham espaço os que fracassaram, como os Onze e nós com eles e como eles, que anunciam a Ressurreição de Jesus, que continua vivo e atuante no meio de nós, e a prova somos nós, pois Ele mudou a nossa vida de fracassados e desistentes para testemunhas fiéis e transparentes! E esta mudança operada em nós tem de fazer parte do relato que fazemos do Evangelho.

4. Cinco temas enchem a página, o pátio, o átrio sempre entreaberto do Evangelho: 1) a autoridade soberana e nova de Jesus assente, não na distância e tirania, mas na proximidade e familiaridade; 2) a missão total a nós confiada; 3) o mundo novo e bom, sadio e otimizado que brota da prática do Evangelho; 4) o envolvimento de todos; 5) a Presença nova e sempre ativa e comprometida do Ressuscitado connosco.

4.1. A soberania nova, próxima e familiar de Jesus fica registada no facto de toda a operação ser realizada no «nome de Jesus» (16,17), mediante envio seu (16,15), com a sua Presença cooperante (synergéô) (16,20) e confirmante (bebaióô) (16,20), o mesmo verbo da Confirmação sacramental (bebaíôsis). Etimologicamente, deriva do verbo baínô, que significa «caminhar», e supõe terreno firme e sólido (bébaios) sobre o qual se pode caminhar com destreza e segurança. É esta destreza e solidez que a Confirmação confere aos confirmados. Sem esquecer nunca que firmeza e solidez, em chão bíblico, remetem sempre para fidelidade e confiança no domínio interpessoal. A não esquecer também, neste contexto, que só um verdadeiro soberano confia a sua história e a sua missão a gente como nós, que só deu até agora sinais de fraqueza e de pouca ou nula fiabilidade. Um grande tema bíblico desde a Criação: a omnipotência de Deus como que limitada pela nossa liberdade, concedendo-nos aqui a imensa dignidade de partilhar connosco a sua autoridade, deixando também nas nossas mãos a capacidade de fazer surgir um mundo novo, cheio de bem, de bondade e de beleza.

4.2. Esta missão total, que deve envolver «todos, tudo e sempre» (Bento XVI, Mensagem para o 85.º Dia Missionário Mundial 2011), é retratada com tinta excecional em Marcos, ao usar as expressões «indo por todo o mundo» (16,15), «anunciai o Evangelho a toda a criatura» (16,15), e «tendo saído, anunciaram por toda a parte» (16,20). É a missão total, e não por etapas. Jesus não recomenda: «a começar pela rua tal, ou pela cidade tal…». Portanto, esta missão total também não é para levar a cabo ao sabor das emergências (ver a decisão de Jesus em Marcos 1,38-39; Lucas 4,42-43). A ventania do Pentecostes ou o vento suavíssimo do Espírito deve levar alento a toda a criatura, da mesma forma que a semente do Evangelho é para ser lançada por toda a parte, em todo o tipo de terreno, como na parábola do semeador, sem qualquer estudo prévio de rentabilidade.

Pensar, querer, ver, falar, fazer bem, belo e bom
4.3. Mundo novo e bom, salvo, sadio e saudável, otimizado, sem forças demoníacas e sem ponta de veneno. Esta ligação e eco intertextual das narrativas da Criação faz ver a missão como nova criação, em que o homem, finalmente transparência do Deus criador e senhor, sem raivas nem ódios, ciúmes e violências, «domina» a terra e os animais, isto é, estabelece a mansidão, a doçura da palavra e a harmonia sobre a terra (Génesis 1,26-31). Até a cobra perde a astúcia e o veneno mortal que ostenta em Génesis 3,1-5, e mostra-se mansa e sujeita ao domínio das mãos do homem. À luz da missão salutar e salvadora, nenhuma criatura é portadora de veneno (cf. Sabedoria 1,14), e a doença é vencida pela bênção que sai das mãos e do coração do missionário, outra vez à imagem de Deus, que enche este mundo de bem (kalôs LXX) (16,18), que é uma nota que atravessa o texto da Criação, vincando ainda mais a inclusão literária e teológica já atrás acenada. Note-se que, em vez da presença do bem, em situação de doença, seria de esperar, não o advérbio bem (kalôs), mas o verbo curar, que se usa habitualmente em situações idênticas, dito com o verbo therapeúô (cf. Mateus 4,24; 8,16; 10,1.8; Marcos 1,34; 3,10; 6,13; Lucas 4,40; 6,18b; 9,1.6) ou iáomai (Marcos 5,29; Lucas 6,18a.19; 9,2). De notar que a nossa Eucaristia, que é com certeza a mais alta forma de oração, catequese e evangelização, assenta as suas raízes mais fundas na bênção e em bendizer, sendo a sua expressão mais antiga «O cálice da bênção que bendizemos» (1 Coríntios 10,16). Celebrar a Eucaristia é, pois, sempre um grande exercício de «bendizer», isto é, de dizer bem, e não mal, e implica mudar a nossa vida toda da clave do mal para a clave do bem. O mal divide. O bem une. Levar uma comunidade a celebrar a Eucaristia é sempre transmitir aos seus membros uma nova cultura. Não de maledicência, mas de aprendermos a pensar, querer, ver, falar e fazer bem, belo e bom, que é a fonte da comunhão.

4.4. Nós já sabemos, são muitos os documentos a dizê-lo, que esta missão do anúncio do Evangelho de Jesus compete a todos. É por natureza que a Igreja é missionária, diz-nos a Decreto Conciliar Ad gentes, n.º 2, e «evangelizar constitui, de facto, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua identidade mais profunda», insiste Paulo VI, na feliz Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi [1975], n.º 14. Por isso, «a pregação do Evangelho não é para a Igreja um contributo facultativo, mas um dever que lhe incumbe» (Paulo VI, Evangelii nuntiandi, n.º 5; Bento XVI, Mensagem para o Dia Missionário Mundial, 2012. É a maneira de ser da Igreja, e é a nossa maneira de ser, dado que é a sua e a nossa identidade, vocação e graça. Mas de entre todos os Evangelhos, só esta página seleta de Marcos diz expressamente que os belos e maravilhosos «sinais» que acompanham o anúncio do Evangelho são realizados por todos os que acreditam (Marcos 16,17-18). Esta extraordinária «democratização» das maravilhas operadas por Deus por intermédio de todos os que acreditam serve para datar este texto do século II. No século I, estes prodígios estavam confinados aos Apóstolos, e, a partir do século III, será o clero o seu proprietário. Magnífico texto este, que põe todo o povo de Deus a realizar maravilhas! Portanto, queridos irmãos e irmãs, sede o que sois, sempre e em toda a parte, e não deixeis por mãos e corações alheios, as maravilhas do Evangelho que Deus vos dá para vós realizardes! É este o combustível do «Evangelho da alegria», que Deus deposita largamente no coração de todos os seus filhos e filhas, para consolação nossa e de todos os nossos irmãos e irmãs.

4.5. Chegados aqui, à última página do Evangelho de Marcos, ainda podemos verificar dois gestos opostos e significativos. Jesus terminou o seu caminho, é elevado ao céu, e senta-se à direita de Deus (16,19), sinal de preeminência e de bênção. E os discípulos de Jesus, que têm agora o mundo inteiro pela frente, levantam-se, saem, e anunciam o Evangelho (16,20). «Sair», hebraico yatsa՚, é o verbo clássico do êxodo, mas é também, de forma muito significativa, o verbo do nascimento. «Sair de si» é um dos dinamismos mais poderosos do Evangelho, que o Papa Francisco lembrou e pediu à Igreja (Evangelii gaudium [2013], n.os 20.23.27.97.259.261. A Evangelização, que implica este dinamismo, continua a ser a tarefa central e sempre nova dos discípulos de Jesus de todos os tempos. «A Igreja existe para evangelizar» (Evangelii nuntiandi [1975], n.º 14). Fica ainda claro que a Ascensão de Jesus não o retira do nosso convívio, pois Ele continua connosco, cooperando e confirmando a missão da Evangelização que nos confiou.

Encontrar Jesus: sem Ele, todos os caminhos estão fechados
5. Aquando da escolha de Matias para «a diaconia (ou serviço) do apostolado» abandonada por Judas (Atos 1,25), Pedro pronuncia estas palavras indicativas:

«1,21É necessário, pois, que, dos homens que vieram connosco durante todo o tempo em que entrou e saiu à nossa frente o Senhor Jesus, 22tendo começado desde o Batismo de João até ao dia em que Ele foi arrebatado diante de nós, um destes se torne connosco testemunha da sua Ressurreição» (Atos 1,21-22).

Nas palavras de Pedro, «o serviço do apostolado», que consiste em tornar-se testemunha transparente e credível da Ressurreição do Senhor Jesus, requer, de todos aqueles que a ele se venham a dedicar, três condições fundamentais: 1) ter feito todo o caminho connosco, e sempre atrás do Senhor Jesus; 2) atrás do Senhor Jesus traduz a atitude do discípulo: sempre com o Mestre; nunca, porém, à frente do Mestre, mas seguindo-O sempre de perto no caminho; 3) o caminho tem um começo e um termo assinalados, sempre com referência ao Senhor Jesus: desde o Batismo até ao dia da Ascensão diante de nós. Bem assimiladas estas palavras de Pedro, é fácil compreender que é a familiaridade com Jesus que faz dos discípulos de ontem e de hoje mensageiros autênticos. Portanto, também hoje, os verdadeiros mensageiros do Evangelho serão aqueles a quem foi dada a graça de construir uma verdadeira familiaridade com Jesus, que chama aqueles que Ele quer, que os faz (verbo de criação), para estarem com Ele, e os enviar a anunciar o Evangelho (cf. Marcos 3,13-14).

6. Bem nos recordou o Papa Bento XVI, em missão Apostólica entre nós em maio de 2010, na homilia proferida no Porto (14 de maio): «Tudo se define a partir de Cristo, quanto à origem e à eficácia da missão». E deixou este desabafo: «Quanto tempo perdido, quanto trabalho adiado, por inadvertência deste ponto!». Uma vez encontrados por Cristo, não nos podemos mais desencontrar, pois é Ele que as pessoas nos pedem (cf. João 12,21), e, sem Ele, nada podemos fazer (cf. João 15,5). Temos mesmo de o procurar até o encontrar (cf. Lucas 2,44-46). Mas também Ele vem à nossa procura junto ao poço de Jacob (cf. João 4,1-42), ou nos caminhos de Emaús (cf. Lucas 24,13-35), ou de Damasco (Atos 9,1-19; 22,1-21; 26,2-23; Filipenses 3,12), ou quando estamos descrentes e acomodados (cf. Marcos 16,14-20). Recolhendo outra vez o bom ensinamento de Bento XVI, secundado por Francisco, é necessário compreender bem, compreender até ao coração, que «no início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo» (Deus caritas est [2005], n.º 1; Evangelii gaudium [2013], n.º 7). Mas é preciso compreender também que este lume novo aceso por Jesus sobre a praia (cf. João 21,9), não é para o deixarmos apagar e reduzir a cinzas. É para transportar com carinho no coração ou na concha da mão, vivendo diariamente com este lume dentro, hitlahabut, como dizem os hebreus, com uma chama dentro. E depois, é preciso apegar a outros este lume. Ou, lembrando os bons ensinamentos de São João Paulo II: «Quem verdadeiramente encontrou Cristo, não pode guardá-l’O para si; tem de O anunciar» (Novo millennio ineunte [2001], n.º 40). E o Sínodo sobre a Nova Evangelização para a transmissão da fé cristã, realizado em outubro de 2012, veio reafirmar que a fé não se decide com a invenção, uso e divulgação de novas estratégias, mas «na relação que instauramos com a pessoa de Jesus» (cf. Lineamenta, n.º 2; Instrumentum laboris, n.º 39). Uma comunidade que seja capaz de mostrar o quanto se alimenta e é transformada pelo encontro com o Senhor Ressuscitado é o melhor lugar para comunicar a fé.

Saber Jesus com «um coração que vê»
7. São Paulo, que Bento XVI apontou como «o maior missionário de todos os tempos» (Mensagem para o 46.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, 2008), e Paulo VI propôs como «modelo de cada Evangelizador» (Evangelii nuntiandi [1975], n.º 79), confessa que, no início da sua vida nova de seguidor de Jesus Cristo, está o facto imprevisível e irresistível de ter sido agarrado (katelêmphthên) por Jesus Cristo (Filipenses 3,12). Foi assim, nesta luta desigual (katelêmphthên, aor. pass. de katalambáno, supõe uma luta), que Paulo chegou ao sublime conhecimento de Jesus Cristo, seu Senhor, e do que vale a pena fazer e desfazer na vida (Filipenses, 3,8). Dada a excelência do conhecimento novo que o tomou de assalto e o levou a mudar tudo na sua vida, Paulo confessa com convicção e ousadia: «Decidi não outra coisa saber (eidénai) entre vós senão Jesus Cristo, e este crucificado (estaurôménon: part. perf. pass. de stauróô)» (1 Cor 2,2). Em termos gramaticais, eidénai é o infinito perfeito do verbo oîda, raiz id-, que, pelo seu uso semântico, também significa «ver», o que implica que só se conhece ou sabe bem o que se vê. Trata-se, todavia, de um conhecimento novo e de uma visão nova. Não se trata tanto daquele trabalhoso processo de conhecimento, que é próprio da filosofia, e que o verbo ginôskô ilustra, mas tão-pouco deriva da simples visão ocular. Na verdade, não se vê apenas com os olhos. «Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos», escreveu Saint-Exupéry. Há um conhecimento, um saber e uma visão mais profunda que envolve e impregna a pessoa toda e a vida toda. Corresponde talvez à expressão feliz «um coração que vê», usada por Bento XVI na Carta Encíclica Deus caritas est [2005], n.º 31, e deixa entender, à maneira do Papa Francisco, que «a fé não olha só para Jesus, mas leva-nos a ver do ponto de vista de Jesus, com os seus olhos: é uma participação na sua maneira de ver» (Carta Encíclica Lumen fidei [2013], n.º 18). Francisco volta a esta temática de «O olhar de Jesus», que tudo enche de beleza, na sua Carta Encíclica Laudato Si’ [2015], n.os 96-100.

8. Não se sabe, aprende e ensina Jesus, estabelecendo e cumprindo programas mais ou menos de cariz escolar. Não se aprende Jesus pelo caminho do «amor da sabedoria», mas pelo caminho da «sabedoria do amor». A ciência de Jesus é a sabedoria de um «amor crucificado», que mostra que, na base da minha existência nova, está Jesus que morreu por mim por amor, sem levar em conta os meus méritos, que os não tenho. Nem eu nem tu nem ninguém. Por isso é que, para Paulo, saber Jesus é saber Jesus crucificado por amor, isto é, na ação de dar a vida por amor, para sempre e para todos. Em Jesus, Paulo vê um amor novo, não apenas devido a um pequeno grupo de amigos, mas a todos, bons e maus, também aos inimigos. Este «amor crucificado», a todos devotado, é uma forma nova de viver, e rebenta as paredes dos nossos pequenos grupos de amigos, em que tantas vezes vivemos entrincheirados. A paróquia, que deve revestir-se desta nova fisionomia do amor, tem de ser uma comunidade acolhedora e aberta, «em saída». Vislumbra-se daqui a imagem da Igreja e da paróquia que o Papa João Paulo II belamente desenhou na preparação do Grande Jubileu do ano 2000, e que Bento XVI evocou em 2005: «Paróquia, procura-te a ti mesma e encontra-te a ti mesma fora de ti mesma». E o Papa Francisco não se cansa de repetir que «há duas imagens de Igreja: a Igreja evangelizadora, que sai de si mesma, e a Igreja mundana e autorreferencial, que vive em si, de si e para si».

Anunciar Jesus: uma necessidade que se me impõe
9. «Evangelizar não é para mim um título de glória, mas uma necessidade que se me impõe desde fora. Ai de mim se não Evangelizar!» (1 Coríntios 9,16). Portanto, no próprio dizer de Paulo, anunciar o Evangelho impõe-se-lhe, mais do que como uma paixão, como uma necessidade. Paulo anuncia convictamente a notícia da Ressurreição, e diz que o faz como se de uma necessidade se tratasse. E ilustra-o com o relato da sua vida. Mas porque é que este anúncio há de ser, para Paulo, uma necessidade? É uma necessidade porque Paulo considera o acontecimento da Páscoa de Jesus Cristo como único, singular e universal, que o afetou radicalmente na sua maneira de ser homem. A prova é que Paulo mudou tudo na sua vida. Mudou, ou foi mudado. É por isso que Paulo anuncia convictamente a força (dýnamis) de Cristo Crucificado e Ressuscitado (cf. Filipenses 3,10). Mas é ainda uma necessidade porque Paulo pressente que, se não anunciar o Evangelho, a sua vida se desmorona ou arruína, porque está construída sobre a areia e será facilmente arrastada por qualquer vendaval (cf. Mateus 7,26-27). É por isso que Paulo, quando contempla a riqueza de Cristo e do Evangelho, considera tudo o resto como lixo (Filipenses 3,8).

10. Já sabemos que a cultura de hoje não transmite a fé, mas a liberdade religiosa. Se há umas décadas atrás não se podia não ser cristão, hoje pode vir-se a sê-lo, mas ser cristão hoje já não é visto como necessário para alguém viver humanamente bem a sua vida. É por isso que voltamos às coordenadas de São Paulo, e precisamos urgentemente de passar de uma fé de mera convenção para uma fé de entranhada convicção, assente em pessoas e comunidades que sintam a necessidade de encontrar, saber e anunciar Jesus Cristo. Pessoas radicalmente afetadas por Jesus Cristo. Pessoas e comunidades que sintam Jesus Cristo desde as entranhas. No sentido deste único necessário, impõe-se que renovemos todas as coisas. Diz bem o Documento de Aparecida [2007] que «uma paróquia renovada multiplica as pessoas que realizam serviços e acrescenta os ministérios» (n.º 202), para que todos se sintam «fraternalmente acolhidos, valorizados, visíveis e eclesialmente incluídos», «membros de uma comunidade eclesial e corresponsáveis pelo seu desenvolvimento» (n.º 226), podendo dizer com alegria: «A Igreja é a nossa casa! Esta é a nossa casa!» (n.º 246).

11. Quer isto dizer, amados irmãos e irmãs, que, nas nossas paróquias, não pode haver cristãos, tipo «tanto se lhes dá como se lhes deu». Eu sei que há nas nossas paróquias catequistas, grupos corais, acólitos, leitores, grupos de jovens, ministros da comunhão, grupos sócio caritativos, zeladoras, sacristães, irmandades, associações diversas, movimentos diversos, conselhos para os assuntos económicos, conselhos pastorais... A todos deixo a minha gratidão. Mas também sei que há ainda muitos cristãos de convenção, ainda não radicalmente afetados por Jesus Cristo.

12. A listagem que fiz não pode servir para nos deixar descansados, porque já estamos inseridos em alguma missão. Nunca nos podemos esquecer de que, de acordo com o apelo do Papa Francisco, na Evangelii gaudium, «o objetivo destes processos participativos não há de ser principalmente a organização eclesial, mas o sonho missionário de chegar a todos» (n.º 31). A primeira palavra do lema da nossa Diocese para este Ano pastoral continua a ser: «IDE!».

Transforming Mission
13. Para isso, é preciso dar um colorido novo a tudo o que já existe. E é preciso que todos os que se dizem discípulos de Jesus Cristo, e que já frequentam as nossas paróquias, sejam transformados em verdadeiros Evangelizadores. É necessário que os grupos já existentes aumentem em quantidade e qualidade. É urgente fazer surgir novos grupos. Por exemplo, grupos de Evangelização, de acolhimento, de escuta, de oração, de visitação, de leitura, de estudo e reflexão, de caridade, escolas ou laboratórios de vivência e transmissão da fé.

14. A Evangelização é o nosso verdadeiro gerador de alegria e de energia. Ninguém pode ser apenas mero espectador ou recipiente do Evangelho. Esta atitude gera cansaço e desistência, falência a curto ou médio prazo. O Papa Francisco está outra vez cheio de razão quando escreve, na Exortação Apostólica Evangelii gaudium [2013] que é necessário «avançar no caminho de uma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão», e pede à Igreja que se coloque em «estado permanente de missão em todas as regiões da Terra» (n.º 25). E confia a cada um, um TPC, esclarecendo que «Há uma forma de pregação que nos compete a todos como tarefa diária: é cada um levar o Evangelho às pessoas com quem se encontra» (n.º 127). O anúncio do Evangelho, o anúncio essencial, o mais belo, o mais importante e o mais necessário (n.º 35), que soa «Este Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado, é o único Salvador» (cf. Atos 2,23-24.32.36; 3,15-16; 4,10; 5,30-31; 10,39-40; 13,28-30; 17,31; 25,19), é «a primeira caridade» para o mundo (n.º 199; Novo millennio ineunte [2001], n.º 50), e nunca nos devemos esquecer que só «a caridade das obras garante uma força inequívoca à caridade das palavras» (Novo millennio ineunte, n.º 50). Se estamos perante o fundamental, então é necessário, como refere o Documento de Aparecida, que «Nenhuma comunidade se deve considerar isenta de entrar decididamente, com todas as forças, nos processos constantes de renovação missionária e de abandonar as estruturas ultrapassadas que já não favoreçam a transmissão da fé» (n.º 365).

15. Para esta experiência viva de missão, de oração e de alegria, convoco todos os diocesanos da nossa Diocese de Lamego: sacerdotes, diáconos, consagrados, consagradas, fiéis leigos, pais, mães, avôs, avós, famílias, jovens, crianças, catequistas, acólitos, leitores, agentes envolvidos na pastoral, membros dos movimentos de apostolado. A todos peço a graça de promoverem mais encontros de oração, reflexão, formação, perdão, partilha e amizade. Mais. Mais. Mais. A todos peço a dádiva de uma mão de mais amor a todos os irmãos e irmãs que experimentam dificuldades e tristezas, e também àqueles que junto de nós vierem procurar a esmola do refúgio. Mais. Mais. Mais. A todos peço que experimentemos a alegria de sairmos mais de nós ao encontro de todos, para juntos celebrarmos o grande amor que Deus tem por nós e sentirmos a alegria da sua misericórdia. Que cada um de nós sinta como sua primeira riqueza e dignidade a de ser filho de Deus com muitos irmãos à sua volta. E para todos imploro de Deus a sua bênção, e de Maria, no centenário das suas aparições em Fátima, a sua proteção carinhosa e maternal.


Dois mil e dezassete,
Ano da Graça, da Misericórdia e da Alegria,
Em que todos os caminhos vão dar a Fátima,
À Cova da Iria,
A Maria.

Titubeantes ou firmes,
À chuva e ao frio,
Vão os teus filhos,
Desfiando o rosário,
Como se fosse o abecedário
Das suas vidas doridas.

Vão ter contigo, Mãe,
Alívio das suas dores,
Atiram-te flores
Com gestos de ternura.
Sabem que acolhes com doçura
As suas preces tecidas de lã pura,
À mistura
Com uma lágrima de amor
Na despedida.

Abençoa, Senhora e Mãe querida,
Estes teus filhos e filhas,
E recolhe-os no manto
Branco
Das tuas maravilhas.

Lamego, 1 de outubro de 2016
+ António, vosso bispo e irmão



[1] Una Chiesa accogliente con le porte aperte. Discurso de abertura no Congresso pastoral da Diocese de Roma, in Avvenire, 18 de Junho de 2014, p. 16.

sábado, 1 de outubro de 2016

XXVII Domingo do tempo Comum - ano C - 2 de outubro

       1 – A fé expressa-se e aprofunda-se no serviço. A vocação primeira do cristão é seguir Jesus e amar como Ele amou, servindo como Ele serviu a humanidade inteira, dando a vida como oblação para redenção de todos. Quem não vive para servir não serve para viver. Ninguém pode dar o que não tem, mas quem se dá acabará por se encontrar e se descobrir, e encontrar sentido na entrega e na dedicação aos outros.
       Se não gostares de ti quem gostará? É uma expressão que dá mote a uma campanha publicitária, mas também um convite à autoestima da pessoa, aceitando-se nas suas limitações e nas suas qualidades. Neste concreto estamos a falar numa dinâmica psicológica. Se a pessoa viver em conflitualidade com o seu corpo, com o seu feitio, com a sua vontade, num desencontro consigo mesma, correrá o risco de viver psicoticamente, fechando-se, isolando-se, destruindo-se. Se tu não te aceitares com os teus defeitos e com os teus talentos, dificilmente terás relacionamentos salutares. Primeiro trata de eliminar o lixo que habita a tua mente e aceita-te, procurando, claro, melhorar em todos os aspetos que é possível, também no asseio, no cuidado com o corpo e com a saúde dos pensamentos e desejos. Esta lógica faz-nos concluir que para te dares bem com os outros tens que te conhecer e te aceitar como és.
       Deus ama-nos, como filhos. Temos um chão seguro que nos garante a dignidade e nos compromete com os outros, em Jesus Cristo, nossos irmãos. Podemos inverter a lógica anterior. Em vez de esperarmos que os outros nos amem, ou esperar que os dias sejam mais solarengos, ponhamo-nos em postura de serviço. Ama os outros para te encontrares. Andas abatido, triste, desencantado, preocupado? Presta atenção, vê quem precisa de ti, do teu abraço, do teu olhar, da tua alegria! Não esperes que te solicitem ajuda, vai ao encontro de quem precisa. Ao ajudares os outros começas a ajudar-te a ti, a sentir que a vida avança, vais experimentando o sabor de seres útil. Claro, há situações em que é necessário recorrer ao psicólogo ou psiquiatra. E não há mal nisso.
       Seja como for, a resposta não está no ensimesmamento, mas no encontro, com o médico, pedindo ajuda, ou no serviço a quem está mais necessitado que tu. Ficar em casa, isolar-se, ter pena de si mesmo, não é solução. Sair, procurar ajuda, ajudar os outros, é meio caminho andado para curar a solidão, o vazio, as trevas que se querem ocupar de ti.
       2 – Jesus inspira os Apóstolos. Bento XVI colocou em evidência que a fé se comunica com a vida, por atração, não por imposição. Os discípulos sentem-se atraídos com a fé de Jesus e com o Seu proceder. Testemunham a cumplicidade de Jesus com o Pai, pela oração, pela postura com que Se prostra para falar com Deus, pelas palavras que usa ao falar da vontade paterna, como constante, compromisso, fidelidade, desejo, propósito. Por isso Lhe pedem para que os ensine a rezar. Por isso Lhe pedem doses mais concentradas de fé: «Aumenta a nossa fé». Pelo que ouvem e pelo que veem, Jesus tem uma fé transparente, intensa, poderosa, eficaz nos gestos e nos milagres.
       Jesus constata a pouca fé dos discípulos e desafia-os a aprofundá-la. «Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: ‘Arranca-te daí e vai plantar-te no mar’, e ela obedecer-vos-ia».
       Como aumentar a nossa fé? Rezar mais! Ler e meditar a Palavra de Deus, especialmente dos Evangelhos! Participar nos Sacramentos, especialmente na Eucaristia, onde Jesus Se dá no pão e no vinho que consagrados se tornam no Seu corpo e no Seu sangue, oferenda que nos salva e nos projeta para a eternidade, comprometendo-nos com o tempo presente, com a história e com o mundo.
       Porém, Jesus leva mais longe o enriquecimento da fé: o serviço. Prática do bem, vivência das obras de misericórdia. É curiosa a forma como Jesus nos interpela: "Quem de vós, tendo um servo a lavrar ou a guardar gado, lhe dirá quando ele voltar do campo: ‘Vem depressa sentar-te à mesa’? Não lhe dirá antes: ‘Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires, até que eu tenha comido e bebido. Depois comerás e beberás tu’?. Terá de agradecer ao servo por lhe ter feito o que mandou?".
       Conclui Jesus, em relação aos servos e em relação a nós, depois de realizarmos tudo o que nos compete, "Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer". Não se trata de uma questão de identidade ou dignidade, trata-se do nosso agir e da nossa postura. O serviço aos demais não é uma opção, é uma obrigação, não imposta a partir do exterior, mas acolhida em simultâneo com a fé, com a adesão ao caminho de Jesus. O discípulo terá que partir no encalço do Mestre.
       3 – Para a maioria de nós a fé é mais fácil quando tudo nos corre bem. Como que descansamos na fé e na confiança em Deus. Temos motivos para agradecer, para sorrir, para desfrutar a vida. Não tendo razões para reclamar da vida, o tempo é-nos mais favorável.
       Há situações em que a vida se revela madrasta. Apesar de não termos feito nada de errado, parece que tudo nos corre mal. Não temos disposição para rezar. Já não conseguimos. Não temos palavras. Deus não nos ouve, esqueceu-se de nós. Rezamos e tudo permanece igual. Quanto maior a fé que "tínhamos", maior o desencanto, a desilusão com Deus. Ficamos chateados. Éramos assíduos à oração, participávamos nas propostas da Igreja, sempre contribuímos com a nossa esmola para ofertórios específicos e, agora, Deus deixou-nos ficar mal?!
       O profeta Habacuc interpreta estes nossos sentimentos: «Até quando, Senhor, chamarei por Vós e não me ouvis? Até quando clamarei contra a violência e não me enviais a salvação? Porque me deixais ver a iniquidade e contemplar a injustiça? Diante de mim está a opressão e a violência, levantam-se contendas e reina a discórdia?»
       Não são perguntas fáceis. Mas Deus responde-nos através do profeta: «Põe por escrito esta visão e grava-a em tábuas com toda a clareza, de modo que a possam ler facilmente. Embora esta visão só se realize na devida altura, ela há de cumprir-se com certeza e não falhará. Se parece demorar, deves esperá-la, porque ela há de vir e não tardará. Vede como sucumbe aquele que não tem alma reta; mas o justo viverá pela sua fidelidade».
       Também a travessia do deserto colocou à prova a fé do povo eleito. O salmo deste dia recorda-nos como os nossos pais tentaram a Deus, endurecendo o coração, apesar de todas as maravilhas que presenciaram: «Não endureçais os vossos corações, como em Meriba, como no dia de Massa no deserto, onde vossos pais Me tentaram e provocaram, apesar de terem visto as minhas obras» (Salmo).
       No dia 27 de setembro, memória litúrgica de São Vicente de Paulo, na homilia matutina, na Casa de Santa Marta, o papa Francisco lembrava que os comprimidos para dormir ou uns copitos para esquecer não resolvem a vida. Além do compromisso com os outros, a oração. “Rezemos ao Senhor para que nos conceda a graça de reconhecer a desolação espiritual, a graça de rezar quando estivermos submetidos a este estado de desolação espiritual e também a graça de saber acolher as pessoas que passam por momentos difíceis de tristeza e de desolação espiritual”.
       4 – Serve também para nós a exortação de Paulo ao discípulo Timóteo, a partir da prisão, com a missão de avivar a fé e a caridade: «Exorto-te a que reanimes o dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos. Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de caridade e moderação. Não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor, nem te envergonhes de mim, seu prisioneiro. Mas sofre comigo pelo Evangelho, confiando no poder de Deus... Guarda a boa doutrina que nos foi confiada, com o auxílio do Espírito Santo, que habita em nós».
       A fé não nos facilita a vida, não anula os escolhos, mas dá um sentido de plenitude à nossa vida, ao que fazemos mas sobretudo ao que somos, filhos amados de Deus, desde sempre escolhidos, para sermos felizes, levando à prática os dons que Deus nos dá, transformando o mundo, com a certeza que viveremos, em Deus, para sempre. Relativizamos os sucessos e as contrariedades, empenhados em construir a fraternidade visualizável em Cristo Jesus, para que também em nós atue a graça de Deus e por nós se complete a Sua Paixão redentora, posta em marcha pela Sua morte e ressurreição. O Espírito Santo que nos habita nos ajude a transparecer a fé pela prática da caridade.


Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (C): Hab 1, 2-3; 2, 2-4; Sl 94 (95);2 Tim 1, 6-8. 13-14; Lc 17, 5-10.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça

       Jesus e os seus discípulos iam a caminho de Jerusalém, quando alguém Lhe disse: «Seguir-Te-ei para onde quer que fores». Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça». Depois disse a outro: «Segue-Me». Ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai». Disse-lhe Jesus: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos; tu, vai anunciar o reino de Deus». Disse-Lhe ainda outro: «Seguir-Te-ei, Senhor; mas deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família». Jesus respondeu-lhe: «Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o reino de Deus» (Lc 9, 57-62).
       O chamamento, e a subsequente resposta, envolve um compromisso de fidelidade e de renúncia. De fidelidade Àquele que chama, Jesus Cristo. De renúncia a tudo o que pode opor-se à vivência concreta dos ideais do Evangelho. Não se segue Jesus a meio gás ou quando é mais conveniente e mais fácil, o seguimento implica a vida toda, em todos os momentos e sobretudo nos momentos mais difíceis. Na dificuldade se prova a fidelidade.
       Por outro lado, Jesus não promete fundos e mundos, promete vida em abundância, mesmo que em algumas situações represente escassez e dificuldades.

sábado, 24 de setembro de 2016

XXVI Domingo do Tempo Comum - ano C - 25.09.2016

       1 – O que nos distancia de Jesus Cristo e do Seu Evangelho não são os bens materiais, mas a ganância, a avareza, a prepotência, a sobranceria, a autossuficiência, a presunção, a soberba. Tudo o que nos afasta dos outros afasta-nos de Deus.
       O contrário da pobreza de espírito não é a riqueza material mas a avareza. E aqui há cenários variados. Há pobres avarentos, que só não têm tudo porque não podem ou não têm nem inteligência nem ousadia para ultrapassar os outros. Há pobres que são generosos, simples, despojados e até o pouco que têm dá para ajudar os outros, sentindo-se felizes por ajudar, se não com bens, com o tempo, a criatividade e a alegria que preenche as suas vidas. Há ricos avaros, "chupam" tudo quanto lhes é possível, sem olhar a meios, contornando leis, com toda a espécie de maquinações para passarem a perna a todos. Há ricos, cuja riqueza material é fruto do trabalho honesto, esforçado, dedicado, e que lhes permite gerar riqueza, criar emprego, promover maior comodidade para as pessoas e para as empresas; beneficiam dos próprios bens e alargam os benefícios para os outros e para a sociedade.
       A parábola de Jesus responsabiliza-nos com os mais pobres. Refira-se uma vez mais que Jesus não está a falar para o vizinho. É para mim. É para ti. É para nós. Não nos é pedido o impossível. É-nos exigido o máximo, o melhor de nós mesmos. Umas vezes ajudando diretamente, outras envolvendo as pessoas ou as entidades que podem e devem ajudar.
       Jesus contesta o homem rico não pela riqueza que possui mas pela sua cegueira e egoísmo, pela incapacidade de sair do seu castelo e compartir a vida com os outros.
       2 – A descrição do homem rico e do pobre Lázaro, o contraste gritante que existe entre ambos e o muro levantado que protege um e deixa o outro na rua, é visível na atualidade. Também hoje convivem lado a lado a miséria e a opulência, a degradação humana e o luxo escandaloso. Em sociedades democráticas – todos deveriam ter os mesmos direitos, sendo que o exercício dos mesmos precisa de condições prévias –, os governos, por vezes, protegem apenas os poderosos e esquecem-se dos pobres.
         Do homem rico não se conhece o nome. Pode ser qualquer um de nós. Por outro lado, mais que apontar nomes, importa denunciar situações de injustiça e prepotência. Vestia de púrpura e linho fino e banqueteava-se esplendidamente todos os dias, fechado dentro dos portões, alheio ao sofrimento dos outros, alguns bem perto, do lado de fora, impedidos de entrar.
       Um pobre, chamado Lázaro. O nome já diz da sua pobreza. Os pobres não podem ser números. Não servem para usar como arma de arremesso. Não contam apenas por ocasião das eleições. Têm nome e têm rosto. E ainda hoje há tantos Lázaros, excluídos, sem casa, sem pão, sem família. Este jazia junto ao portão do homem rico, e estava coberto de chagas. À pobreza acresce a repugnância das chagas. A pobreza gera pobreza. Não pede muito, apenas as migalhas que caem da mesa do rico. Mas nem a migalhas lhe são permitidas. Se te fixares perto do riacho poderá suceder que a fertilidade das margens de beneficiem e te garantam algum alimento. Mas aqui a proximidade é apenas física e está vedada por um muro e um portão. Bem se pode dizer que por vezes os animais nos ensinam a ser mais humanos, sem absolutizar. Como tem acentuado o Papa Francisco, é um paradoxo escandaloso a defesa intransigente dos animais e o desprezo ou a indiferença diante de um ser humano.
        A descrição feita por Jesus bem pode encaixar nas sociedades modernas. É o mundo em que vivemos. Limitado e finito. Não estamos no Céu, daí as imperfeições. Mas...
        3 – Mas o que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos é a Mim que o fazeis. A salvação é uma garantia de Deus, dom gratuito. A morte e a ressurreição de Jesus agrafa-nos à eternidade de Deus. Assumindo por inteiro o nosso pecado e a nossa fragilidade, Jesus colocou a nossa natureza humana na glória do Pai, onde Ele já Se encontra. Mas cabe-nos acolher a Sua salvação fazendo com que chegue a todos e se expanda cada vez mais.
       O que fizermos agora tem consequências amanhã. As escolhas do tempo influenciam a inserção na vida eterna. Qual efeito borboleta: segundo a teoria do caos, o bater das asas de uma borboleta em Portugal poderá provocar um terramoto do outro lado da terra.
       O relato da parábola continua: «O pobre morreu e foi colocado pelos Anjos ao lado de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. Na mansão dos mortos, estando em tormentos, levantou os olhos e viu Abraão com Lázaro a seu lado».
       Curiosa esta última afirmação. Finalmente este homem rico viu Lázaro. Antes não o tinha visto. A ganância e a superioridade presunçosa cegaram-no. Só se preocupava consigo, com o seu umbigo. Um pobre ali tão perto, junto ao portão, do lado de fora, a padecer, e não foi capaz de o ver e de o ajudar. Agora tão longe, e como as situações se inverteram exponencialmente, já o vê e até deseja que Lázaro, enviado por Abraão, possa vir, entrar, aliviar o seu sofrimento. Enquanto podia alterar as coisas, modificar positivamente a vida, esqueceu-se dos outros. Agora que tudo está concluído quer alterar as regras do jogo, em seu benefício e dos seus, servindo-se de Lázaro a quem não serviu com os seus bens!
       4 – Na continuação da parábola, a insistência do rico: «Então peço-te, ó pai, que mandes Lázaro à minha casa paterna – pois tenho cinco irmãos – para que os previna, a fim de que não venham também para este lugar de tormento».
       Abraão põe-nos de sobreaviso: «Eles têm Moisés e os Profetas: que os oiçam... Se não dão ouvidos a Moisés nem aos Profetas, também não se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dos mortos».
       Mais que nos preocuparmos com o desfecho final, que a Deus confiamos, importa, no tempo presente, aqui e agora – não amanhã ou depois, não em outro lugar ou circunstâncias, mas no concreto dos nossos dias – viver o melhor, gastando a vida em favor de todos os que Deus coloca à nossa beira, testemunhando a beleza e a alegria da Boa Nova que Jesus nos traz com a Sua vida e com a oferenda de Si mesmo. E, como podemos constatar, Jesus ressuscitou dos mortos e, no entanto, ainda são muitos os que O desconhecem, os que não acreditam, os que vivem como se Ele não existisse.

       5 – A certeza que Deus Se coloca ao lado dos mais desfavorecidos deve levar-nos a agir do mesmo modo. "O Senhor faz justiça aos oprimidos, dá pão aos que têm fome e a liberdade aos cativos. O Senhor ilumina os olhos dos cegos, o Senhor levanta os abatidos, o Senhor ama os justos".
       Já o Profeta Amós revelava a vontade de Deus: «Ai daqueles que vivem comodamente em Sião e dos que se sentem tranquilos no monte da Samaria. Deitados em leitos de marfim, estendidos nos seus divãs, comem os cordeiros do rebanho e os vitelos do estábulo. Improvisam ao som da lira e cantam como David as suas próprias melodias. Bebem o vinho em grandes taças e perfumam-se com finos unguentos, mas não os aflige a ruína de José. Por isso, agora partirão para o exílio à frente dos deportados e acabará esse bando de voluptuosos».
       Amós faz eco da destruição do tecido social, cultural e religioso do povo judeu e que se iniciou com a displicência daqueles que tinham responsabilidade de guiar, cuidar, integrar, provendo à união e preparando o próprio povo para se defender dos ataques exteriores. Enquanto se banqueteavam, foram dispersados, assaltados, expulsos de casa e da pátria. Não nos cabe fazer juízo de valor definitivo, instrumentalizando o texto, concluindo que a destruição do povo tenha sido consequência do mau proceder dos seus líderes e, neste propósito, castigo de Deus. Mas, ainda assim, é fácil verificar que o egoísmo e o individualismo conduzem ao conflito, à rutura, à destruição dos laços sociais. Por outro lado, a união faz a força e a cooperação, a solidariedade e a partilha, a entreajuda e a justiça social, equilibram e fortalecem as comunidades.

       6 – São Paulo, na segunda leitura, ao dirigir-se a Timóteo, dita recomendações para os discípulos de Jesus. Hoje é para nós que fala, para mim e para ti: «Tu, homem de Deus, pratica a justiça e a piedade, a fé e a caridade, a perseverança e a mansidão. Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado e sobre a qual fizeste tão bela profissão de fé perante numerosas testemunhas. Guarda o mandamento do Senhor, sem mancha e acima de toda a censura, até à aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo, a qual manifestará a seu tempo... A Ele a honra e o poder eterno».
       Também em São Paulo se pode atestar que a vida eterna se inicia agora na prática da caridade, da justiça, da mansidão, no cumprimento do mandato de Jesus Cristo, imitando-O, sabendo que só Ele nos garante o futuro, porém, conta connosco para transformar o presente do mundo e da história.
       Auxiliemo-nos mutuamente, a começar na oração: "Senhor, que dais a maior prova do vosso poder quando perdoais e Vos compadeceis, derramai sobre nós a vossa graça, para que, correndo prontamente para os bens prometidos, nos tornemos um dia participantes da felicidade celeste".
       Rezando, tomando consciência dos nossos limites e da grandeza da misericórdia de Deus, dilatando o nosso coração e o nosso compromisso com os outros que connosco formam a família de Deus.


Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (C): Am 6, 1a. 4-7; Sl 145 (146); 1 Tim 6, 11-16; Lc 16, 19-31.

O Filho do homem vai ser entregue

       Estavam todos admirados com tudo o que Jesus fazia. Então Ele disse aos discípulos: «Escutai bem o que vou dizer-vos. O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens». Eles, porém, não compreendiam aquelas palavras; eram misteriosas para eles e não as entendiam. Mas tinham medo de O interrogar sobre tal assunto (Lc 9, 43b-45).
        Como canta um conhecido cantor da nossa praça, a vida tem dois lados, tem um lado negro, o lado lunar. É uma imagem mas que ajuda hoje a refletir sobre este pequeno trecho do Evangelho. Os discípulos de Jesus embarcam em euforia, bem assim como a multidão que segue Jesus.
       As palavras que saem da Sua boca têm sentido, implica os ouvintes, são concretizáveis na relação com os outros, são confirmadas pela prática de Jesus, que ensina com a autoridade de quem vive o que professa. Acompanha as palavras com gestos de acolhimento, de compreensão, de perdão, faz-Se próximo dos mais afastados, faz-Se amigo dos desprezados, intervém a favor dos desprotegidos, salva os que andam perdidos e ilumina os que andam nas trevas. Os prodígios são sinal que o poder de Deus está com Ele e está no meio de nós. Tudo parece encaminhar-se para um desfecho francamente positivo.
       Entretanto Jesus não esconde o que está para acontecer. Vai haver um tempo de provação, de "escuridão". Ele vai ser entregue às mãos dos homens. Tolda-se a mente dos discípulos. Por um lado admiram-se com tudo o que Jesus dizia e fazia. Por outro, o próprio Mestre os previne para não embarcarem em tais euforias. As palavras de Jesus suscitam outras interrogações. Os discípulos como que antevêem nas palavras de Jesus os perigos que se aproximam, mas nem perguntam com medo de que aconteça mesmo, preferem uma certa ignorância para não anteciparem o sofrimento futuro. É como quando adiamos a ida ao médico com medo ele nos revele que temos uma doença muito mais grave do que pensamos. Enquanto não soubermos parece que estamos a salvo...

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

BENTO XVI: Peregrinos da Verdade, Peregrinos da Paz



DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

Assis, Basílica de Santa Maria dos Anjos
Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011

Queridos irmãos e irmãs,
distintos Chefes e representantes das Igrejas
e Comunidades eclesiais e das religiões do mundo,
queridos amigos,

Passaram-se vinte e cinco anos desde quando pela primeira vez o beato Papa João Paulo II convidou representantes das religiões do mundo para uma oração pela paz em Assis. O que aconteceu desde então? Como se encontra hoje a causa da paz? Naquele momento, a grande ameaça para a paz no mundo provinha da divisão da terra em dois blocos contrapostos entre si. O símbolo saliente daquela divisão era o muro de Berlim que, atravessando a cidade, traçava a fronteira entre dois mundos. Em 1989, três anos depois do encontro em Assis, o muro caiu, sem derramamento de sangue. Inesperadamente, os enormes arsenais, que estavam por detrás do muro, deixaram de ter qualquer significado. Perderam a sua capacidade de aterrorizar. A vontade que tinham os povos de ser livres era mais forte que os arsenais da violência. A questão sobre as causas de tal derrocada é complexa e não pode encontrar uma resposta em simples fórmulas. Mas, ao lado dos factores económicos e políticos, a causa mais profunda de tal acontecimento é de carácter espiritual: por detrás do poder material, já não havia qualquer convicção espiritual. Enfim, a vontade de ser livre foi mais forte do que o medo face a uma violência que não tinha mais nenhuma cobertura espiritual. Sentimo-nos agradecidos por esta vitória da liberdade, que foi também e sobretudo uma vitória da paz. E é necessário acrescentar que, embora neste contexto não se tratasse somente, nem talvez primariamente, da liberdade de crer, também se tratava dela. Por isso, podemos de certo modo unir tudo isto também com a oração pela paz.

Mas, que aconteceu depois? Infelizmente, não podemos dizer que desde então a situação se caracterize por liberdade e paz. Embora a ameaça da grande guerra não se aviste no horizonte, todavia o mundo está, infelizmente, cheio de discórdias. E não é somente o facto de haver, em vários lugares, guerras que se reacendem repetidamente; a violência como tal está potencialmente sempre presente e caracteriza a condição do nosso mundo. A liberdade é um grande bem. Mas o mundo da liberdade revelou-se, em grande medida, sem orientação, e não poucos entendem, erradamente, a liberdade também como liberdade para a violência. A discórdia assume novas e assustadoras fisionomias e a luta pela paz deve-nos estimular a todos de um modo novo.

Procuremos identificar, mais de perto, as novas fisionomias da violência e da discórdia. Em grandes linhas, parece-me que é possível individuar duas tipologias diferentes de novas formas de violência, que são diametralmente opostas na sua motivação e, nos particulares, manifestam muitas variantes. Primeiramente temos o terrorismo, no qual, em vez de uma grande guerra, realizam-se ataques bem definidos que devem atingir pontos importantes do adversário, de modo destrutivo e sem nenhuma preocupação pelas vidas humanas inocentes, que acabam cruelmente ceifadas ou mutiladas. Aos olhos dos responsáveis, a grande causa da danificação do inimigo justifica qualquer forma de crueldade. É posto de lado tudo aquilo que era comummente reconhecido e sancionado como limite à violência no direito internacional. Sabemos que, frequentemente, o terrorismo tem uma motivação religiosa e que precisamente o carácter religioso dos ataques serve como justificação para esta crueldade monstruosa, que crê poder anular as regras do direito por causa do «bem» pretendido. Aqui a religião não está ao serviço da paz, mas da justificação da violência.

A crítica da religião, a partir do Iluminismo, alegou repetidamente que a religião seria causa de violência e assim fomentou a hostilidade contra as religiões. Que, no caso em questão, a religião motive de facto a violência é algo que, enquanto pessoas religiosas, nos deve preocupar profundamente. De modo mais subtil mas sempre cruel, vemos a religião como causa de violência também nas situações onde esta é exercida por defensores de uma religião contra os outros. O que os representantes das religiões congregados no ano 1986, em Assis, pretenderam dizer – e nós o repetimos com vigor e grande firmeza – era que esta não é a verdadeira natureza da religião. Ao contrário, é a sua deturpação e contribui para a sua destruição. Contra isso, objecta-se: Mas donde deduzis qual seja a verdadeira natureza da religião? A vossa pretensão por acaso não deriva do facto que se apagou entre vós a força da religião? E outros objectarão: Mas existe verdadeiramente uma natureza comum da religião, que se exprima em todas as religiões e, por conseguinte, seja válida para todas? Devemos enfrentar estas questões, se quisermos contrastar de modo realista e credível o recurso à violência por motivos religiosos. Aqui situa-se uma tarefa fundamental do diálogo inter-religioso, uma tarefa que deve ser novamente sublinhada por este encontro. Como cristão, quero dizer, neste momento: É verdade, na história, também se recorreu à violência em nome da fé cristã. Reconhecemo-lo, cheios de vergonha. Mas, sem sombra de dúvida, tratou-se de um uso abusivo da fé cristã, em contraste evidente com a sua verdadeira natureza. O Deus em quem nós, cristãos, acreditamos é o Criador e Pai de todos os homens, a partir do qual todas as pessoas são irmãos e irmãs entre si e constituem uma única família. A Cruz de Cristo é, para nós, o sinal daquele Deus que, no lugar da violência, coloca o sofrer com o outro e o amar com o outro. O seu nome é «Deus do amor e da paz» (2 Cor 13,11). É tarefa de todos aqueles que possuem alguma responsabilidade pela fé cristã, purificar continuamente a religião dos cristãos a partir do seu centro interior, para que – apesar da fraqueza do homem – seja verdadeiramente instrumento da paz de Deus no mundo.

Se hoje uma tipologia fundamental da violência tem motivação religiosa, colocando assim as religiões perante a questão da sua natureza e obrigando-nos a todos a uma purificação, há uma segunda tipologia de violência, de aspecto multiforme, que possui uma motivação exactamente oposta: é a consequência da ausência de Deus, da sua negação e da perda de humanidade que resulta disso. Como dissemos, os inimigos da religião vêem nela uma fonte primária de violência na história da humanidade e, consequentemente, pretendem o desaparecimento da religião. Mas o «não» a Deus produziu crueldade e uma violência sem medida, que foi possível só porque o homem deixara de reconhecer qualquer norma e juiz superior, mas tomava por norma somente a si mesmo. Os horrores dos campos de concentração mostram, com toda a clareza, as consequências da ausência de Deus.

Aqui, porém, não pretendo deter-me no ateísmo prescrito pelo Estado; queria, antes, falar da «decadência» do homem, em consequência da qual se realiza, de modo silencioso, e por conseguinte mais perigoso, uma alteração do clima espiritual. A adoração do dinheiro, do ter e do poder, revela-se uma contra-religião, na qual já não importa o homem, mas só o lucro pessoal. O desejo de felicidade degenera num anseio desenfreado e desumano como se manifesta, por exemplo, no domínio da droga com as suas formas diversas. Aí estão os grandes que com ela fazem os seus negócios, e depois tantos que acabam seduzidos e arruinados por ela tanto no corpo como na alma. A violência torna-se uma coisa normal e, em algumas partes do mundo, ameaça destruir a nossa juventude. Uma vez que a violência se torna uma coisa normal, a paz fica destruída e, nesta falta de paz, o homem destrói-se a si mesmo.

A ausência de Deus leva à decadência do homem e do humanismo. Mas, onde está Deus? Temos nós possibilidades de O conhecer e mostrar novamente à humanidade, para fundar uma verdadeira paz? Antes de mais nada, sintetizemos brevemente as nossas reflexões feitas até agora. Disse que existe uma concepção e um uso da religião através dos quais esta se torna fonte de violência, enquanto que a orientação do homem para Deus, vivida rectamente, é uma força de paz. Neste contexto, recordei a necessidade de diálogo e falei da purificação, sempre necessária, da vivência da religião. Por outro lado, afirmei que a negação de Deus corrompe o homem, priva-o de medidas e leva-o à violência.

Ao lado destas duas realidades, religião e anti-religião, existe, no mundo do agnosticismo em expansão, outra orientação de fundo: pessoas às quais não foi concedido o dom de poder crer e todavia procuram a verdade, estão à procura de Deus. Tais pessoas não se limitam a afirmar «Não existe nenhum Deus», mas elas sofrem devido à sua ausência e, procurando a verdade e o bem, estão, intimamente estão a caminho d’Ele. São «peregrinos da verdade, peregrinos da paz». Colocam questões tanto a uma parte como à outra. Aos ateus combativos, tiram-lhes aquela falsa certeza com que pretendem saber que não existe um Deus, e convidam-nos a tornar-se, em lugar de polémicos, pessoas à procura, que não perdem a esperança de que a verdade exista e que nós podemos e devemos viver em função dela. Mas, tais pessoas chamam em causa também os membros das religiões, para que não considerem Deus como uma propriedade que de tal modo lhes pertence que se sintam autorizados à violência contra os demais. Estas pessoas procuram a verdade, procuram o verdadeiro Deus, cuja imagem não raramente fica escondida nas religiões, devido ao modo como eventualmente são praticadas. Que os agnósticos não consigam encontrar a Deus depende também dos que crêem, com a sua imagem diminuída ou mesmo deturpada de Deus. Assim, a sua luta interior e o seu interrogar-se constituem para os que crêem também um apelo a purificarem a sua fé, para que Deus – o verdadeiro Deus – se torne acessível. Por isto mesmo, convidei representantes deste terceiro grupo para o nosso Encontro em Assis, que não reúne somente representantes de instituições religiosas. Trata-se de nos sentirmos juntos neste caminhar para a verdade, de nos comprometermos decisivamente pela dignidade do homem e de assumirmos juntos a causa da paz contra toda a espécie de violência que destrói o direito. Concluindo, queria assegura-vos de que a Igreja Católica não desistirá da luta contra a violência, do seu compromisso pela paz no mundo. Vivemos animados pelo desejo comum de ser «peregrinos da verdade, peregrinos da paz».

sábado, 17 de setembro de 2016

XXV Domingo do Tempo Comum - ano C - 18.09.2016

       1 – A vocação primeira do cristão é seguir Jesus, como prioridade, como ponto de partida e de chegada, como compromisso. Não há alternativas. Nem tempo para pausas ou reservas. Não é para quando houver mais tempo ou maior disponibilidade, ou para quando as circunstâncias forem mais favoráveis. Seguir Jesus é a tarefa primeira e decorre da condição mesma do cristão. Como o nome indica somos de Cristo. Que não seja apenas de nome, mas de coração e por toda a vida!
       Não há nada antes. Nem depois. De Cristo por inteiro. Como inteiramente Ele Se nos deu, oferecendo-Se para nos redimir e nos elevar para Deus. Não são palavras. É a vida. Ou Deus ou o resto! Por vezes o resto é deixado para Deus! Quem comeu a carne coma também os ossos! Para Deus terá que ser a nossa vida, com os seus sonhos, projetos, concretizações. Não podemos servir a Deus e ao dinheiro. «Nenhum servo pode servir a dois senhores, porque, ou não gosta de um deles e estima o outro, ou se dedica a um e despreza o outro».
       As condições de discipulado são clarificadas por Jesus. Ao longo de alguns domingos, Jesus lembra-nos o que é necessário para nos tornarmos verdadeiros discípulos. Colocar-nos no Seu encalço, seguindo-O e imitando-O, não nos colocarmos à Sua frente, impedindo que outros O vejam, ou fazendo com que nos vejam a nós e não a Ele. Assumir uma atitude de ultimidade, ao serviço de todos, vivendo a vida como quem serve e não como quem está sempre à espera de ser servido. Quem não vive para servir, não serve para viver. Não são suficientes os propósitos, mas a mobilização para agir. Podemos falhar, pecar, errar, mas importa não desistir de procurarmos em tudo e com todos a glorificação de Deus que passa, inevitavelmente, por amarmos e cuidarmos uns dos outros.
       Nada nos deve separar de Cristo, pois nada existe que separe de nós o Amor de Deus, manifestado na vida, na morte e na ressurreição de Jesus. «Se alguém vem ter comigo, e não Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo... quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo» (Lc 14, 25-33). É uma preferência para incluir. Quem não tem tempo para Deus dificilmente terá tempo para os outros. Amar a Deus antes de todas as coisas, para não endeusar as coisas nem instrumentalizar as pessoas. Quem ama a Deus ama e cuida dos Seus filhos.
       2 – «Quem é fiel nas coisas pequenas também é fiel nas grandes; e quem é injusto nas coisas pequenas também é injusto nas grandes. Se não fostes fiéis no que se refere ao vil dinheiro, quem vos confiará o verdadeiro bem? E se não fostes fiéis no bem alheio, quem vos entregará o que é vosso?»
       A nossa vida passa pelos pormenores. E, por conseguinte, a nossa felicidade. Alguns casamentos fracassam não que tenha havido algum acontecimento extraordinário mas pelo desgaste da rotina, da indiferença, da desatenção aos pormenores, a falta de um elogio, a repetição de gestos que desagradam ao outro, o esquecer-se de perguntar pelo dia de trabalho ou como correu aquela conversa, chateando-se porque algo está fora do lugar habitual.
       Os momentos extraordinários existem. Em certos momentos plenizam a vida e celebram escolhas, trajetos, vivências. Noutros momentos, iniciam novas oportunidades, sonhos, propósitos, novas vidas. Contudo, se vivêssemos em festa diariamente deixava de ser festa para ser rotina. A vida escreve-se em cada segundo, minuto, em cada instante. É feita de pequenos nadas que nos enchem a alma e preenchem e dão sentido à vida: um passeio de bicicleta, a confeção de uma refeição, um sorriso de orelha a orelha, uma conversa com o/a melhor amigo/a, apanhar cerejas, plantar uma árvore, as primeiras palavras do/a filho/a, o cheiro a terra da primeira chuva de outono, uma recordação recuperada!
       Jesus continua a preparar os seus discípulos. Conta-lhes mais uma parábola. Um homem rico tinha um administrador que lhe desperdiçava os bens. Chama-o para prestar contas. Consciente que irá ser despedido, prepara-se para o futuro, chamando os devedores do seu senhor, aliviando-lhes as dívidas, através da alteração das notas de débito.
       Jesus elogia os filhos deste mundo pela sua esperteza, mas desafiando os filhos da luz a "usar" as mesmas armas no trato com os seus semelhantes. Tratá-los bem, com delicadeza, docilidade, ajudando-os, servindo-os, preparando a vida futura, a eternidade onde os semelhantes ajudados possam retribuir ao acolher-nos na eternidade.
       3 – Servir a Deus passa pela fidelidade nas pequenas coisas. Onde a vida germina e se resolve. Pelo cuidado com os nossos semelhantes. Deus garante-nos o Céu. Os nossos semelhantes são a eternidade que começa a despontar. Sem eles, o caminho para Deus fica bloqueado. Ainda que quiséssemos aceder diretamente a Deus, o próprio Deus Se fez um de nós, em Cristo Jesus, escondendo-Se no meio de nós. Para O encontrarmos temos a vida facilitada, encontramo-l'O no nosso próximo.
       O que fizerdes ao mais pequenino dos meus irmãos é a Mim que o fazeis. O Senhor Deus "levanta do pó o indigente e tira o pobre da miséria, para o fazer sentar com os grandes, com os grandes do seu povo" (Salmo). Ninguém é inútil, ninguém está a mais, todos filhos de Deus. A opção de Deus, revelada em Jesus, Rosto e Presença da Misericórdia divina, é preferencial pelos desvalidos, os excluídos da vida, doentes, pobres, mulheres, crianças, pecadores, publicanos. Ofender e escandalizar um dos pequeninos, queridos e amados por Deus, é pecado que brada aos céus.
       O profeta Amós alerta-nos, em nome de Deus: "Escutai bem, vós que espezinhais o pobre e quereis eliminar os humildes da terra. Vós dizeis: «Quando passará a lua nova, para podermos vender o nosso grão? Quando chegará o fim de sábado, para podermos abrir os celeiros de trigo? Faremos a medida mais pequena, aumentaremos o preço, arranjaremos balanças falsas. Compraremos os necessitados por dinheiro e os indigentes por um par de sandálias. Venderemos até as cascas do nosso trigo». Mas o Senhor jurou pela glória de Jacob: «Nunca esquecerei nenhuma das suas obras».
       Não estamos sós. Ele segue connosco. Daí também a importância da oração, para nos mantermos ligados, ininterruptamente, e n'Ele adquirirmos a sabedoria do coração: "Senhor, que fizestes consistir a plenitude da lei no vosso amor e no amor do próximo, dai-nos a graça de cumprirmos este duplo mandamento, para alcançarmos a vida eterna" (oração de coleta).
       4 – O Apóstolo São Paulo, dirigindo-se a Timóteo, exorta-nos a fazer "preces, orações, súplicas e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todas as autoridades, para que possamos levar uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade". Na verdade, sublinha, "isto é bom e agradável aos olhos de Deus, nosso Salvador; Ele quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, que Se entregou à morte pela redenção de todos... Quero, portanto, que os homens rezem em toda a parte, erguendo para o Céu as mãos santas, sem ira nem contenda".
       A oração dilata o nosso coração. Quanto mais perto de Deus mais disponíveis para os outros. Em Cristo, Deus vem salvar a humanidade inteira. Quanto mais nos inteirarmos da vontade de Deus, pela oração, maior a consciência de que Ele é Pai de todos, Pai de misericórdia e como Pai quer que todos os filhos se salvam. Se queremos ser Seus filhos, teremos de cuidar dos outros como irmãos.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): Am 8, 4-7; Sl 112 (113); 1 Tim 2, 1-8; Lc 16, 1-13

São Roberto Belarmino, bispo e doutor da Igreja

Nota biográfica:
       Nasceu no ano de 1542 em Montepulciano, na Toscana. Entrou na Companhia de Jesus em Roma e foi ordenado sacerdote. Sustentou célebres disputas em defesa da fé católica e ensinou Teologia no Colégio Romano. Eleito cardeal e nomeado bispo de Cápua, contribuiu com a sua actividade junto das Congregações Romanas para a resolução de numerosos problemas. Morreu em Roma no ano 1621.
 
ORAÇÃO de coleta:
       Senhor, que nos destes em São Roberto Belarmino um exemplo admirável de ciência e fortaleza para defender a fé da vossa Igreja, por sua intercessão, concedei ao vosso povo a alegria de conservar a integridade da sua fé. Por Nosso Senhor. 
São Roberto Belarmino, bispo, sobre a elevação da mente para Deus

Inclinai o meu coração para os vossos mandamentos

Senhor, Vós sois bom, indulgente e cheio de misericórdia! Quem Vos não servirá de todo o coração, depois de ter começado a saborear, por pouco que seja, a suavidade do vosso domínio paterno? Que mandais, Senhor, aos vossos servos? Tomai o meu jugo sobre vós. E como é o vosso jugo? O meu jugo é suave e a minha carga é leve. Quem não tomará sobre si da melhor vontade um jugo que não oprime mas alivia, um fardo que não pesa mas reconforta? Por isso, com razão acrescentastes: E encontrareis descanso para as vossas almas. E qual é este vosso jugo que não traz fadiga mas descanso? Certamente, aquele primeiro e maior mandamento: Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração. Que há de mais fácil, mais suave e mais doce do que amar a bondade, a beleza e o amor? E tudo isto sois Vós, Senhor meu Deus.
E prometeis ainda um prémio aos que observam os vossos mandamentos, sendo estes, já por si mesmos, mais preciosos que o ouro e mais doces que o mel dos favos? Sim, prometeis efectivamente um prémio, um prémio de imenso valor, segundo a palavra do apóstolo São Tiago: O Senhor prometeu a coroa da vida para aqueles que O amam. E o que é a coroa da vida? É o maior bem que podemos pensar ou desejar, como diz São Paulo, citando Isaías: Nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que O amam.
Sim, é verdadeiramente grande a recompensa pela observância dos vossos mandamentos. E não é somente aquele primeiro e maior mandamento que é mais útil ao homem que obedece, do que a Deus que manda; todos os outros mandamentos de Deus aperfeiçoam, honram, instruem, iluminam e tornam bom e feliz aquele que os cumpre. Portanto, se tens alguma sabedoria, compreenderás que foste criado para a glória de Deus e para a tua salvação eterna. Este é o teu fim, este é o centro da tua alma, este é o tesouro do teu coração. Se alcançares este fim, serás feliz; se dele te afastares, serás infeliz.
Por conseguinte, deves considerar como verdadeiramente bom o que te conduz ao teu fim e como verdadeiramente mau o que dele te afasta. Para o sábio, a prosperidade e a adversidade, a riqueza e a pobreza, a saúde e a doença, a honra e a ignomínia, a vida e a morte, são coisas que, por si mesmas, nem se devem procurar nem evitar. Se contribuem para a glória de Deus e a tua felicidade eterna, são bens e devem ser desejados; se impedem essa glória e felicidade, são males e devem ser evitados.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

NOVENA DE SANTA EUFÉMIA | 9.º dia | 15 de setembro

NOVENA DE SANTA EUFÉMIA | 8.º dia | 14 de setembro

NOVENA DE SANTA EUFÉMIA | 7.º dia | 13 de setembro

NOVENA DE SANTA EUFÉMIA | 6.º dia | 12 de setembro

NOVENA DE SANTA EUFÉMIA | 5.º dia | 11 de setembro

NOVENA DE SANTA EUFÉMIA | 4.º dia | 10 de setembro

NOVENA DE SANTA EUFÉMIA | 3.º dia | 9 de setembro

NOVENA DE SANTA EUFÉMIA | 2.º dia | 8 de setembro

NOVENA DE SANTA EUFÉMIA | 1.º dia | 7 de setembro

sábado, 10 de setembro de 2016

XXIV Domingo do Tempo Comum - ano C - 11.09.2016

       1 – O Jubileu da Misericórdia está agrafado ao Evangelho de São Lucas, conhecido também como Evangelho da Misericórdia. O Evangelho transparece a ternura, a docilidade, a proximidade de Jesus com os pecadores, os pobres, os doentes, os enjeitados deste mundo, leprosos, mulheres, crianças, servos, publicanos, estrangeiros. Nas palavras e nos gestos, na postura e nos prodígios, Jesus orienta a Sua vida e missão para reabilitar, curar, envolver, incluir, salvar. O mistério da Encarnação garante-nos a presença de Deus no meio de nós. Da eternidade para o tempo, do Céu para o mundo, para redimir a humanidade, reconciliando-a pelo perdão e pelo amor.
       Estamos no centro do Evangelho, com este grupo de três parábolas. Outras parábolas nos falam da misericórdia: dois devedores perdoados das suas dívidas (Lc 7, 41-43); o Bom Samaritano, que socorre o homem caído à beira do caminho (Lc 10, 25-37); o pobre Lázaro, que nos desafia a agir com compaixão, aqui e agora, onde se inicia o caminho para o Céu... amanhã é sempre tarde (Lc 16, 19-31); Misericórdia no prisma da oração perseverante, na súplica da viúva pobre diante do iníquo Juiz (Lc 18, 1-8); o fariseu soberbo e o publicano justificado pela humildade (Lc 18, 9-14). Mais que pelo mérito, a justificação vem-nos da misericórdia divina que nos reabilita além da nossa miséria.
       Primeira condição para sermos redimidos: abertura à graça de Deus. As parábolas explicitam o agir de Jesus; veja-se, por exemplo, a compaixão para com a viúva de Naím que levava o filho único a sepultar (Lc 7, 11-17) ou para com a multidão fatigada e faminta, multiplicando os pães (Lc 9, 11b-17). Só para dar dois exemplos do cuidado e da resposta concreta que Jesus que dá.

        2 – "Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és". Junta-te aos bons e serás como eles, junta-te aos maus e serás pior que eles! Qualquer um de nós está certo destes princípios. Facilmente nos colocaríamos do lado dos escribas e fariseus, contestando a promiscuidade de Jesus, que convive e come com publicanos e pecadores! Jesus anda em "más" companhias. Vai correr mal!
       Aqueles que prevenimos, contestam-nos dizendo que conhecem bem os amigos e se sentem capazes de os mudar. Jesus também se justifica, mas remetendo-nos para o proceder de Deus, que usa de misericórdia para com todos e faz festa pelo reencontro dos que se perderam.
       Conta-lhes, e a nós também, uma parábola, desdobrável em três. «Quem de vós, que possua cem ovelhas e tenha perdido uma delas, não deixa as outras noventa e nove no deserto, para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar? Quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros e, ao chegar a casa, chama os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’. Eu vos digo: Assim haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrependa, do que por noventa e nove justos, que não precisam de arrependimento. Ou então, qual é a mulher que, possuindo dez dracmas e tendo perdido uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente a moeda até a encontrar? Quando a encontra, chama as amigas e vizinhas e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida’. Eu vos digo: Assim haverá alegria entre os Anjos de Deus por um só pecador que se arrependa».
       O Pastor deixa tudo e vai procurar a ovelha perdida. Ao encontrá-la, coloca-a aos ombros e alegra-se, fazendo festa com os amigos. É fundamental cuidar para que nenhuma ovelha se perca. O ambiente é adverso, o deserto. As complicações da vida, exterior e interior, podem conduzir ao desnorte e à perdição. Mas também podemos perder-nos dentro de casa, dentro da Igreja, no caminho da fé. A mulher perde a dracma em casa. Quando encontra a moeda perdida, faz festa com as amigas. Deus sempre faz festa, no nosso regresso! Antes, precisamos de arrumar a casa, acender a lâmpada da fé, de varrer tudo o que é poeira e estorvo, desviar os empecilhos, para então encontrarmos a moeda perdida.
       3 – Na terceira parábola, a mais refletida, Jesus fala num Pai que ama até ao limite e dois filhos que não se reconhecem como irmãos e lidam com o Pai como Patrão. O Pai procura salvá-los pelo amor. Os filhos relacionam-se em dinâmica de poder, disputando para ver quem é o melhor. Um acomoda-se em casa do Pai-patrão, vai herdar um imenso património. Outro pede-lhe em vida o que lhe pertenceria pela morte, quer ser patrão de si mesmo, autodeterminando-se e assumindo-se "sem pai", já que o considera morto pelo pedido da herança que lhe toca.
       O pai reparte os bens pelos seus filhos. Poderia não o fazer, pois só a morte o exigiria. Mas abaixa-se à vontade dos filhos. Por amor. A sua tristeza é evidente. Não se revolta. Não contesta os filhos. Continua a amá-los com amor materno. Parte-se-lhe o coração. Mas não desiste. Deus nunca desiste de nós. Espera, espreita o horizonte contando que o filho regresse. Quando isso acontece, não se faz rogado, "ainda ele estava longe, quando o pai o viu: enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos".
       O filho continua a fixar-se em si mesmo e não no Pai. Quer ser acolhido como empregado. O que o faz regressar é a miséria em que caiu. Para o pai é suficiente um esboço de arrependimento: "Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho". Está tão feliz que nem espera pelas justificações do filho: "Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejemos, porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado". A misericórdia de Deus cancela as nossas dívidas, o nosso pecado; só não atua se não lhe abrirmos qualquer brecha.
       4 – A festa começa e, quando tudo parece bem, eis que vem o filho mais velho e faz a sua birra. Ciumento e invejoso, não vê o irmão que regressa vivo, mas um concorrente – esse teu filho – a disputar as graças do patrão! "Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos. E agora, quando chegou esse teu filho, que consumiu os teus bens com mulheres de má vida, mataste-lhe o vitelo gordo".
       O filho mais velho reclama direitos. Sempre certinho, cumpridor, mas sem experimentar a alegria da proximidade com o pai. Não partilha alegrias, só trabalho. Não saboreia a vida, só obrigações. A relação com o Pai não assenta na familiaridade e na alegria, mas em deveres.
       Para o Pai, em todas as situações, prevalece o amor, a compaixão, a proximidade. Não há nada mais importante que os filhos. Podem maltratá-lo, esbanjar os bens, acusarem-no. O importante é que os filhos se sintam em casa e que estejam bem e sejam felizes. «Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado».
       Todos os filhos contam. E contam tudo. O Pai "obriga-nos" a olhar para o outro como irmão. Se é Pai de todos, somos todos irmãos. Devemos tratar-nos como tal.

       5 – A Misericórdia de Deus não tem limites. Melhor, o único limite é a nossa liberdade. Podemos escolher viver à margem de Deus, longe de casa e de costas voltadas para os irmãos.
       O povo de Deus experimenta a misericórdia de Deus, mas rapidamente se esquece do Seu cuidado e do Seu amor. Faz lembrar alguns animais domésticos, mal enchem a pança logo se afastam de casa. Aquele povo, liberto do Egipto, ensoberbece-se, fazem um deus à sua imagem!
       Diz Deus a Moisés: «Tenho observado este povo: é um povo de dura cerviz. Agora deixa que a minha indignação se inflame contra eles e os destrua. De ti farei uma grande nação».
       A oração ajuda-nos a perceber a vontade de Deus. De modo nenhum Deus quer a morte do pecador, mas antes que se converta e viva. A oração de Moisés revela a sensibilidade e o cuidado para com os seus irmãos, invocando a benevolência de Deus: «Por que razão, Senhor, se há de inflamar a vossa indignação contra o vosso povo, que libertastes da terra do Egipto com tão grande força e mão tão poderosa? Lembrai-Vos dos vossos servos Abraão, Isaac e Israel, a quem jurastes pelo vosso nome, dizendo: ‘Farei a vossa descendência tão numerosa como as estrelas do céu e dar-lhe-ei para sempre em herança toda a terra que vos prometi’». Deus não desiste de nós. Nunca. Mais facilmente desistimos uns dos outros.

       6 – Deus não cessa de nos amar. Só amando é possível tornar completa a vida e projetá-la até à eternidade. O amor pleniza-nos e eterniza os nossos sonhos e as nossas escolhas.
       Deus envia-nos Jesus. A eternidade entra no tempo, o divino humaniza-se, o Céu toca a terra, Deus faz-Se um de nós. Para nos salvar a partir de dentro. Sem imposições. Por amor. O apóstolo é testemunha desta graça de Deus. Perseguidor, blasfemo, pecador, alcançou a misericórdia de Deus. "A graça de Nosso Senhor superabundou em mim". Com efeito, continua o apóstolo, "Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores e eu sou o primeiro deles. Mas alcancei misericórdia, para que, em mim primeiramente, Jesus Cristo manifestasse toda a sua magnanimidade…".
       Humildemente, seguindo a interpelação do apóstolo, confiemo-nos ao olhar compassivo de Deus nosso Pai: "Criador e Senhor de todas as coisas, lançai sobre nós o vosso olhar; e para sentirmos em nós os efeitos do vosso amor, dai-nos a graça de Vos servirmos com todo o coração".
       Na proximidade de Deus, acolhidos na casa paterna, na alegria do Seu banquete, prontifiquemo-nos a contagiar outros para este reino de alegria e de paz, de justiça e de amor.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): Ex 32, 7-11. 13-14; Sl 50 (51); 1 Tim 1, 12-17; Lc 15, 1-32.

Chamais-Me ‘Senhor' mas não fazeis o que vos digo?

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Não há árvore boa que dê mau fruto, nem árvore má que dê bom fruto. Cada árvore conhece-se pelo seu fruto: não se colhem figos dos espinheiros, nem se apanham uvas das sarças. O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem; e o homem mau, da sua maldade tira o mal; pois a boca fala do que transborda do coração. Porque Me chamais ‘Senhor! Senhor!’, mas não fazeis o que vos digo? Vou mostrar-vos a quem se assemelha todo aquele que vem ter comigo, ouve as minhas palavras e as põe em prática. É semelhante a um homem, que, para construir a casa, escavou, aprofundou e assentou os alicerces sobre a rocha. Quando veio uma cheia, a torrente irrompeu contra aquela casa, mas não a pôde abalar, porque estava bem construída. Mas aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática é semelhante a um homem que construiu a casa sobre a terra, sem alicerces. A torrente irrompeu contra aquela casa, que imediatamente desabou; e foi grande a sua ruína» (Lc 6, 43-49).
       Já o ouvimos muitas vezes, de boas intenções está o inferno cheio. É certo que as intenções e os propósitos contam, poderão ser um ponto de partida. Mas não bastam se não saírem de intenções. É necessário depois dar andamento aos propósitos.
       Neste sentido Jesus dá o exemplo da árvore que dá bom ou mau fruto e pelo fruto se vê a sua qualidade. De pouco adianta dizer que é árvore boa, quando dá fruto mau. Sublinha Jesus: Porque Me chamais ‘Senhor! Senhor!’, mas não fazeis o que vos digo? Importa que a fé, a adesão a Jesus Cristo, nos leve a a escutar a Sua palavra e pô-la em prática. 
      Jesus utiliza outra imagem para exemplificar o homem que vai a Ele, O escuta e põe em prática a Sua palavra: É semelhante a um homem, que, para construir a casa, escavou, aprofundou e assentou os alicerces sobre a rocha.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

São Pedro Claver, presbítero

Nota biográfica:
       Pedro Claver nasceu em Verdú (Espanha) no ano de 1580; começou em 1596 os estudos de Letras e Artes na Universidade de Barcelona e em 1602 entrou na Companhia de Jesus. Na sua vocação missionária exerceu notável influência S. Afonso Rodriguez, porteiro do Colégio de Maiorca. Ordenado sacerdote em 1616 na missão da Colômbia, aí exerceu até à morte o apostolado entre os escravos negros, conforme o voto a que se tinha obrigado de ser «escravo dos negros para sempre». Debilitadas as forças, morreu em Cartagena (Colômbia) a 8 de Setembro de 1654.
Oração de coleta:
        Por intercessão de São Pedro Claver, que por vosso amor se fez escravo dos escravos concedei-nos, Senhor, que reco¬nheçamos em todos os homens a dignidade de filhos vossos e trabalhemos esforçadamente pela sua salvação. Por Nosso Se¬nhor Jesus Cristo, vosso Filho que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
 Da Carta de São Pedro Claver:
Ontem, 30 de Maio deste ano de 1627, festa da Santíssima Trindade, saíram de uma grande nau muitos negros trazidos das margens dos rios de África. Fomos ter com eles, levando dois cestos de laranjas, limões, bolachas e outras coisas, e dirigimo-nos para as suas barracas. Parecia que entrávamos noutra Guiné...
Entre eles havia dois quase a morrer: estavam frios e mal se lhes sentia o pulso. Levámos brasas numa telha para junto dos moribundos, deitámos perfumes nas brasas, até esvaziar duas sacas que tínhamos trazido. Depois, cobrindo-os com as nossas capas – pois eles nada tinham com que se cobrir e não podíamos perder tempo a pedir roupas aos seus senhores – conseguimos que fizessem uma inalação daqueles vapores e recuperassem o calor e a respiração. Era de ver a alegria com que nos olhavam!
Assim lhes falámos, não com palavras mas com obras; e na verdade, estando eles persuadidos de que tinham sido trazidos para ali a fim de serem comidos, de nada teriam servido outros discursos. Sentámo-nos depois, ou ajoelhámo nos junto deles, lavámos-lhes os rostos e os corpos com vinho, procurando alegrá- los com carinho e fazer-lhes o que naturalmente se faz para levantar o moral dos doentes.
Depois tratámos de os preparar para o Batismo. Explicámos-lhes os admiráveis efeitos deste sacramento para o corpo e para a alma. E quando, respondendo às nossas perguntas, deram mostras de terem compreendido, passámos a um ensino mais completo sobre um só Deus que premeia ou castiga segundo os merecimentos de cada um, etc. Exortámo-los a fazer o acto de contrição e a manifestar o arrependimento dos pecados que tivessem cometido, etc.
Finalmente, quando já pareciam suficientemente preparados, falámos dos mistérios da Santíssima Trindade, da Encarnação e da Paixão; e, mostrando-lhes num quadro a imagem de Cristo crucificado sobre uma pia batismal, para a qual correm os rios de sangue provenientes das chagas de Cristo, rezámos com eles, na sua língua, o acto de contrição.

Tira primeiro a trave da tua vista

       Disse Jesus aos discípulos a seguinte parábola: «Poderá um cego guiar outro cego? Não cairão os dois nalguma cova? O discípulo não é superior ao mestre, mas todo o discípulo perfeito deverá ser como o seu mestre. Porque vês o argueiro que o teu irmão tem na vista e não reparas na trave que está na tua? Como podes dizer a teu irmão: ‘Irmão, deixa-me tirar o argueiro que tens na vista’, se tu não vês a trave que está na tua? Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e então verás bem para tirar o argueiro da vista do teu irmão» (Lc 6, 39-42).
        É mais fácil reparar nos outros. Ainda que tenhamos espelhos, os olhos fazem-nos voltar para o exterior. Com desembaraço conseguimos ver os defeitos alheios, as suas insuficiências, os seus pecados. E porque não é connosco, sempre poderemos comentar, reprovar, condenar.
       Jesus, porém, desafia-nos a olharmos em primeiro lugar para nós, para a nossa vida, para a nossa conduta, preocupando-nos sobretudo em orientarmos as nossas escolhas pelo bem e pela verdade, ao invés de estarmos à cata os erros dos outros.
       Saliente-se também que os defeitos que desprezamos ou anotámos nos outros por vezes são os defeitos que desprezamos em nós. Mas se apontamos para outros desviamos as atenções que poderiam recair sobre nós.