sexta-feira, 9 de março de 2012

Destruir a memória seria destruir a consciência

       "Os arquivos da memória contêm o tecido das nossas experiências conscientes e inconscientes. Tais arquivos nunca podem ser destruídos, a não ser involuntariamente, por meio de um temor cerebral, um traumatismo craniano ou uma degeneração das células nervosas, como na doença de Alzheimer. destruir estes arquivos significa destruir a nossa consciência, eliminar a nossa identidade...
       Isso produziria a morte da identidade. Deixaríamos de saber quem somos, como estamos e onde estamos. Tornar-nos-íamos animais irracionais, pois não teríamos mais consciência da existência... seria conspirar contra a própria liberdade, pois sem a memória não poderíamos produzir pensamentos e tomar decisões. Portanto, Ele protegeu a memória contra ataques do eu, contra possíveis crises que o homem atravessa. Apagar a memória é impossível, só é possível reeditá-la.

Leio o Evangelho e busco um Deus da fragilidade

       "Leio o Evangelho e busco um Deus da fragilidade, um Deus não para adorar e venerar, mas para acariciar e perfumar, que ri e brinca com os seus filhos, nos calorosos jogos do mar e do verão. Um Deus que sabe ouvir e esperar junto de mim, que temo a dor e o deserto. Um Deus pequeno, não o omnipotente, que me enriqueça com a sua pobreza, com a sua necessidade de carícias e de perfume.
       Um Deus tão frágil que faça pensar sempre no amor, e faça sentir a vontade de ser amado. Beleza da fragilidade".

A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra angular

       Ouvi outra parábola: Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre; depois arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe. Quando chegou a época das colheitas, mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos. Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos, espancaram um, mataram outro e a outro apedrejaram-no. Tornou ele a mandar outros servos, em maior número que os primeiros, e eles trataram-nos do mesmo modo. Por fim mandou-lhes o seu próprio filho, pensando: ‘Irão respeitar o meu filho’. Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro; vamos matá-lo e ficaremos com a sua herança’. Agarraram-no, levaram- no para fora da vinha e mataram-no. Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?» Os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo responderam-Lhe: «Mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros que lhe entreguem os frutos a seu tempo». Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura: ‘A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra angular; tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’? Por isso vos digo: Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos». Ao ouvirem as parábolas de Jesus, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus compreenderam que falava deles e queriam prendê-l’O; mas tiveram medo do povo, que O considerava profeta (Mt 21, 33-43.45-46).
       Nesta parábola, Jesus evidencia a consciência sobre o seu fim, sobre o caminho a percorrer, e sobre as dificuldades que terá que enfrentar. Sobressai também o confronto com os "velhos do Restelo", os fariseus e doutores da Lei, pouco abertos ao mistério, à beleza, às surpresas que podem chegar de Deus, e muito zelosos do seu lugar, pouco generosos em relação àqueles que deveriam ajudar.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Laurinda Alves com o Pe. Alberto Brito: Ouvir, Falar, Amar

Ouvir, Falar, Amar. A compreensão é a única força de mudança, Oficina do Livro. Alfragide: 2011.


       Laurinda Alves à conversa com o Pe. Alberto Brito. Já o conhecia de um encontro/retiro no distante ano de 1998, em Braga, na Casa dos Jesuítas. Um pensamento clarificador. Não para eliminar as dúvidas, mas para colocar mais questões.
       A Laurinda Alves não precisa de apresentação, mas para quem desconhece pode sempre consultar o seu blogue pessoal: Laurinda Alves - A Substância da Vida. 
       Ouvir/escutar, "porque ouvir os outros é a maior escola da vida". Escutar com o coração, prestar atenção não apenas ao que a pessoa diz e à sua história de vida, mas à pessoa em si mesma. Diz o Pe. Alberto que se nos fixarmos apenas nas histórias das pessoas e não nas pessoas, ficamo-nos pela fofoquice. Ficar-nos-íamos pelo ouvir, como se estivéssemos a ouvir um rádio e não uma pessoa concreta.
        Falar. É assim que a comunicação acontece, é "a comunicar e a dialogar que nos entendemos e que se constroem relações". Temos uma boca e duas orelhas/ouvidos. Escutámos com interesse, a história da pessoa, mas sobretudo escutar com atenção o que a pessoa é, o que a pessoa sente, o que a pessoa vive, ouvindo o seu grito, o seu desabafo, acolhendo a sua partilha. Pode não ser fácil... queremos falar mais que escutar... queremos que alguém nos escute, nos compreenda, que por vezes esgotámos o tempo com as nossas palavras e não escutámos a pessoa que está diante de nós, como apelo e desafio. Quem não ouve, ou não quer ouvir, corre o sério risco de ficar a falar sozinho.
        Amar, "porque é a partir da aceitação de nós próprios e dos outros que tudo é possível". Escutámos a pessoa, comunicamo-nos como irmãos, para acolhermos e aceitarmos os outros, aceitando-nos também a nós como pessoas, cidadãos, filhos de Deus. Como diz o Pe. Alberto, o que nos separa e divide não são as ideias ou as crenças, mas os sentimentos. O maior desejo do ser humano, de todo o ser humano, é amar e ser amado. E o maior medo é ser rejeitado pelo(s) outro(s). A escuta e a comunicação visam aproximar-nos dos outros, com amor, com paixão, celebrando a vida.
        Enquadra-se aqui outra realidade: a compreensão. "As pessoas quando se sentem compreendidas, mudam". É o que pode resultar da escuta que ama, das palavras que se tornam comunicação amistosa, dos sentimentos que se partilham e se acolhem.
        Seja/sê ouvinte (escutador não tanto de estórias, mas das pessoas que estão perto de ti); fala do que te vai na alma; confia, estimulando os outros à confiança, a libertarem-se do medo; ama, com toda a tua alma, faz do(s) outro(s) a tua casa, o teu refúgio, tendo sempre como horizonte originário e final o Senhor Deus.
       Mais uma leitura que recomendámos, e mais um texto que se lê de fio a pavio. Nesta entrevista perpassa uma grande alegria de quem pergunta e de quem responde, numa conversa fluente, também aqui ao correr da pena, ou melhor no fluir da conversa que existe entre pessoas amigas, entre familiares, entre pessoas que se respeitam e admiram.
       Vale a pena entrar neste diálogo entre e Laurinda Alves e o sacerdote jesuíta, Pe. Alberto Brito.

Decálogo da B E L E Z A diante de D E U S

  1. Beleza é um nome de Deus. A beleza da terra é a quenose do Criador, o vestígio do retraimento de Deus. É o primeiro nome das coisas.
  2. A beleza é o êxtase da história, porta que se abre, êxodo. É o mínimo infinito que deve permanecer aberto ao infinito. No fragmento, o todo.
  3. A beleza é o projeto de Deus para o cosmos, logos e futuro do homem. A nossa vocação é libertar toda a beleza sepultada em nós.
  4. A beleza é a elevado preço. A filocalia (o amor pela beleza ou -porque não? - a beleza do amor) é ascese, purificação do olhar e do coração: felizes os puros de coração, porque verão vestígios da Beleza em toda a parte.
  5. A beleza pode ser vital ou mortal, profética ou anti-profética. Uma ambiguidade radical é imanente à beleza.
  6. A beleza é o supérfluo necessário. Necessário à qualidade de vida. Nem só de pão vive o homem, mas também da contemplação das pedras do mundo. E do perfume de Betânia derramado sobre os pés de Jesus.
  7. A beleza é o isco do divino, o sorriso de Deus dentro da matéria. A proximidade de Deus cria beleza, força com que atrai a si todas as coisas.
  8. A beleza é Deus que ama e cria comunhão. Belo é todo o ato de amor. Mui belo é quem tu amas. A lei primitiva da beleza reside no ato de amor.
  9. A beleza é a porta do conhecimento. Só o assombro capta alguma coisa, os conceitos engendram ídolos.
  10. A beleza é a força do coração, nascida do desejo. É a beleza que persuade o ânimo humano. Porque «devo»? Porque o coração me diz que, ao agir assim, encontro a felicidade.

quarta-feira, 7 de março de 2012

ERMES RONCHI - As casas de M A R I A

ERMES RONCHI, As casas de Maria. Polifonia da existência e dos afectos. Paulinas: Prior Velho 2010.


       Há meia dúzia de dias trazíamos aqui uma sugestão de leitura deste mesmo autor: Os Beijos não dados. Tu és a Beleza. A amizade é a mais importante viagem. Anteriormente publicado em Portugal esta poesia sobre Maria.
       As casas de Maria é uma obra prima.
      É uma poema. Um poema perfumado em palavras, frases, parágrafos, páginas, que sabem a mel, e a doce de amora, sabem a pão, quente, fresco, acabado de sair do forno, é água refrescante, que nos sacia nos dias tórridos de verão e nos nossos desertos interiores.
        Há muitos livros bons e excelentes autores, cultores da vida, pintando-a de mil cores, aproximando o mistério, tornando acessível a beleza que nos rodeia, o mundo, as pessoas, a natureza, o próprio Deus. Este é um dos livros bons, de fácil leitura. A expressão que me ocorre, uma vez mais, é um livro escorreito, escrito ao correr da pena, deslizante, que nos faz deslizar pelas casas de Maria, da festa e da dúvida, casa do pão que se amassa com a força da persistência, misturado com as lágrimas da paixão e do amor, casa de acolhimento, de silêncio e de palavras que afagam, acariciam, e protegem, promovem a vida. Casa dos sonhos de José, do encantamento, da descoberta, do coração aberto para as surpresas que Deus envia.
       Há muita literatura sobre Maria.
       Há belíssimas páginas que engrandecem a Mãe de Jesus e no-l'A apresentam adornada de Graça e de Beleza, de Luz e Sol. Há belíssimas páginas que nos ajudam a venerar Maria, Senhor nossa, Mãe de Jesus e Mãe da Igreja.
       "As casas de Maria", não é um tratado teológico, um discurso, uma pregação, por mais úteis que estes sejam, é uma parábola sobre a vida quotidiana, sobre os sonhos, sobre a humanidade, nas suas aspirações, na sua limitação e na sua abertura ao Infinito. É uma carta escrita com o coração, com a tinta da fé, com as cores de muitas vivências.
       Se costuma sublinhar as leituras que faz, este será um sublinhado constante, a caneta poucas vezes se há de levantar de cada página.
       Leve, suave, simples, fácil de assimilar e mastigar, envolvente.
       Nas casas de Maria há lugar para nós, para cada uma, para a família e para a comunidade, para os filhos perdidos e achados, e os filhos mais pequenos, e para todos.

O Sábio vê para além do Inverno...

"O pior Inverno
pode anunciar a mais bela Primavera.
Sábio é aquela pessoa que consegue ver aquilo que as imagens não revelam.
É a pessoa que,
ao ver cair a última folha do Inverno,
é capaz de erguer os olhos e ver as flores da Primavera que ainda não brotaram"

Beleza – uma grande necessidade do ser humano

       Cada vez mais me dou conta que andamos muito distraídos de coisas essenciais à nossa vida e à sua felicidade possível, abafando-as com preocupações e trabalhos diversos de utilidade duvidosa, mas esgotantes do nosso tempo e energia.
       É assim com a falta de apreço pela beleza, a natural e a construída, e com o que tal implica de procura e de cultivo, que, não raro, descuramos ou secundarizamos a outros interesses.
       A este propósito, lembro uma afirmação de Bento XVI que aqui deixo como desafio aos leitores e leitoras: A beleza é a grande necessidade do homem, é a raiz da qual brota o tronco da nossa paz e os frutos da nossa esperança. A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, a obra bela é pura gratuidade, convida à liberdade e arranca do egoísmo. (Barcelona, 2010)
       Será que temos a devida consciência de que a beleza é mesmo uma necessidade? E, se assim é, há que procurá-la, tanto em momentos e ocasiões especiais como no trivial dos nossos quotidianos? Será que a beleza merece a nossa atenção e o nosso cuidado na transmissão de valores às novas gerações, nas famílias, nas escolas, na comunicação social, nos outdoors das nossas cidades?
       De modo especial, Com ou sem “pontes” e “feriados”, aproveitemos o nosso tempo para procurar, contemplar e cuidar da beleza natural porque, como escreve Fiodor Dostoievski, a Beleza salvará o mundo.

Vamos fazer uma conspiração contra Jeremias

       A leitura que se segue, do grande profeta de Israel, Jeremias, mostra como a LUZ da verdade e do bem pode desfocar a realidade de quem vive na escuridão da mentira e da falsidade. A luz põe a descoberto o que as sombras e a media luz ou a ausência da luz podem esconder, a sujidade, alguma nódoa na pintura, algum móvel fora do lugar, algum lixo que que passaria despercebido.
       A luz contrabalança. É paradoxal: pode levar ao bem ou provocar azia em relação àqueles que vivem honestamente. É o que acontece em Jeremias. O seu proceder denuncia, põe a descoberto, expõe, aqueles que vivem na mentira, aqueles que se servem dos mais humildes para enriquecerem, aqueles que "escravizam" os seus semelhantes, abusando da ignorância das pessoas mais simples/simplórias.
Prestemos atenção ao texto de Jeremias:
Os inimigos de Jeremias disseram entre si: «Vamos fazer uma conspiração contra Jeremias, pois não nos faltará a instrução de um sacerdote, nem o conselho de um sábio, nem o oráculo de um profeta. Vamos feri-lo com a difamação, sem fazermos caso do que ele disser». «Ajudai-me, Senhor, escutai a voz dos meus adversários. Porventura assim se paga o bem com o mal? Eles abrem uma cova para me tirar a vida. Lembrai-Vos que me apresentei diante de Vós, para Vos falar em seu favor, para deles afastar a vossa ira» (Jer 18, 18-20).

terça-feira, 6 de março de 2012

segunda-feira, 5 de março de 2012

O Evangelho ensina-nos a multiplicar... a generosidade

       Quando caminhamos, não podemos ir com demasiados pesos, senão não chegamos longe. O viajante ou o peregrino têm de aceitar fazer a experiência de viver daquilo que é de cada dia. Isto é que é viver de Deus. Em cada dia temos Deus...
       Se queremos ser nómadas de Deus, se queremos viver dele, temos de criar uma liberdade muito grande face às coisas. A verdade é que elas nos aprisionam. O que possuímos, rapidamente nos possui a nós. Para o cristãos, um estilo de vida frugal testemunha melhor do que mil palavras a fé em Deus. Estamos mergulhados num tempo em que tudo empurra para a competição... onde o desnecessário é-nos impingido pela publicidade como absolutamente necessário à nossa felicidade.
       O Evangelho ensina-nos a não amontoar, mas a multiplicar... multiplicar a generosidade, a solidariedade, a ternura, a capacidade de sofrer com os outro e de se pôr no seu lugar...

Pe. José Tolentino de Mendonça, Pai-nosso que estais na terra.

Amar a perseverança como um amigo

       "A história do Mestre da Galileia deve ensinar-nos importantes lições de vida. Podemos chorar e angustiar-nos pelas nossas dificuldades e conflitos, mas nunca devemos desistir de nós mesmos. Podemos estar abatidos, mas nunca desanimar. Devemos amar a perseverança como quem ama o melhor amigo.
       A capacidade de recomeçar tudo, quantas vezes forem necessárias, faz dos fracos fortes. A firme convicção de continuar sempre a lutar, ainda que com algumas derrotas, alimenta o sonho da vitória. Estar inconformado com as nossas doenças e com as nossas misérias é o primeiro passo para sermos saudáveis. Enfrentar a nossa passividade e sentimento de incapacidade abre as portas da liberdade...

       O Mestre era o único na sua época que conseguia ver o que ninguém via. À Sua frente só havia pedras e areia, mas Ele conseguia erguer os olhos e ver os campos a branquear, embora estivesse apenas a lançar as primeiras sementes na terra".

A medida que usardes com os outros será usada convosco!

        Disse Jesus aos seus discípulos: «Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e sereis perdoados. Dai e dar-se-vos-á: deitar-vos-ão no regaço uma boa medida, calcada, sacudida, a transbordar. A medida que usardes com os outros será usada também convosco» (Lc 6, 36-38).
        Um texto tão pequeno e uma mensagem tão imensa...
       A referência é o próprio Deus. Nem mais. Deus é Amor, é Misericórdia, é Santo. Não nos fiquemos pelos mínimos garantidos, almejemos o máximo, a plenitude de Deus. A regra inicial é de ouro: fazer aos outros o que queremos que nos façam, usar a medida que queremos para nós. Não julgar. Não condenar. Perdoar. Apostar na misericórdia, na imitação de Deus.

domingo, 4 de março de 2012

Cáritas Diocesana de Lamego: mensagem do Responsável

O calendário litúrgico aproxima-nos a passos largos de mais um Dia Cáritas (III Domingo da Quaresma - 11 de março).

"Edificar o Bem Comum, tarefa de todos e de casa um", é o tema deste ano. Cada cristão, em verdadeiros espírito de partilha, é chamado a cooperar na construção dum mundo mais justo e fraterno, começando, antes de mais, pela atenção aos irmãos que fazem parte da comunidade paroquial.

"Se a caridade não está presente no anúncio do Evangelho, qual o Evangelho que se anuncia? Se a caridade não transparece do que se celebrar, que vida cristã é a que se celebra? Que Ressurreição?". Estas questões basilares expressam na perfeição a necessidade de viver a comunhão, promovendo a articulação/cooperação entre todas as Instituições, Movimentos, Grupos que, nas paróquias, atuam na dimensão do Serviço, sem desprezar a participação dos outros setores da Pastoral, em torno da opção preferencial de Cristo pelos mais pobres. É neste sentido que o Sr. Bispo exorta à prioritária e urgente organização do setor da caridade ao nível comunitário/paroquial.

A Cáritas, na qualidade de Serviço do Bispo para a dimensão sócio caritativa, congrega, em si mesma, as referidas "entidades" da Igreja que atuam no espaço diocesano, promovendo a sua animação e sensibilizando para um trabalho que é tão mais urgente, quanto a exigência dos tempos que estamos a atravessar.

Que cada paróquia possa partilhar um pouco do que tem.
Que o amor de Deus, derramado sobre nós, a todos se manifeste na partilha solidária.

Lamego, 27 de fevereiro de 2012
O Presidente da Direção,

Pe. Adriano Monteiro Cardoso.

Não deixe de ler também a Nota Pastoral para o Dia Cáritas 2012

Agência Ecclesia: II Domingo da Quaresma

sexta-feira, 2 de março de 2012

RONCHI: os Beijos não dados :: Tu és a Beleza

ERMES RONCHI, Os Beijos não dados. Tu és a Beleza. A amizade é a mais importante viagem. Paulinas 2012. 


       Sempre que aqui trazemos a sugestão de uma leitura é porque ela é marcante para nós, e porque a temos como muito útil e agradável para quem vier a seguir esta indicação.
       Este é mais um daqueles livros que se lê de uma assentada, escorreito, ao correr da pena, de fácil compreensão, acessível a todos, simples, de uma simplicidade bela, como sugere o título do autor.
       O livro das Paulinas resulta de dois textos:
  • "Os Beijos não dados" - que fala da amizade e como ela é essencial/vital à existência humana. Sem amizade, o paraíso nunca seria possível. Adão está só, mesmo que rodeado por milhares de seres vivos, apesar de sentir constante a presença de Deus, mas sente-se só, não encontra um espelho, outro igual, alguém em quem se reveja, se confronto, alguém mais igual, que o ajude a identificar-se no meio da natureza. A amizade é crucial para uma existência feliz.
  • "Tu és a Beleza" - um pequeno tratado sobre a beleza, o assombro, a arte, o amor, Deus, o mundo, a natureza. A beleza é o pedacinho de Deus que nos habita e que existe no mundo criado. Deus deixou pedaços de Si e do Seu amor em nós e na natureza. Extrair beleza de tudo, é deixar-se habitar por Deus. Amar, viver, criar, deixar-se surpreender pelas pequenas e grandes coisas. Aquele que não se assombra, padece de cinismo, nada há que possam alegrá-lo, fazê-lo feliz, nada há de novo debaixo do sol.
       Uma mão cheia de páginas belas, criativas, envolventes.
       A leitura de um bom livro pode ajudar-nos a encarar a vida de forma mais positiva e a pensar a nossa própria existência. Uma revista, um jornal, um filme, um programa de televisão, um noticiário sobre o mal que grassa no mundo pode enfadar-nos, tornar-nos mais depressivos, não nos obriga a refletir, vemos, entra-nos pelos olhos, fixa-se no cérebro, como as luzes psicadélicas que não nos largam mesmo depois de há muito estarmos em ambiente mais tranquilo.
       Quer ler. Não gosta de ler. Então esta é uma boa leitura. Simples. Breve. Agradável.

A fé de Jesus Cristo e a nossa fé...

       1. Jesus teve fé?
       Não é fácil aceitar que Jesus precisasse de ter fé, principalmente para os que pensam que Jesus sabia tudo, como os bem-aventurados. A resposta a esta pergunta leva-nos não só a um conhecimento mais profundo de Jesus, como nos ajuda a descobrir o valor da nossa própria fé.
       Em Lucas (Lc 2,52) diz-se concretamente que Jesus “ia crescendo em estatura, sabedoria e graça diante Deus e dos homens”. Assumiu todas as consequências da sua encarnação tais como a lei e a maturidade humana e as consequências do nosso pecado, como a ignorância e as tentações. Em tudo igual a nós, menos o pecado. Viveu uma humanidade muito mais profunda do que qualquer um de nós, e, na sua humanidade, encontrou no mais íntimo de Si mesmo o próprio Deus. Jesus sabe-se unido ao Pai com uma intimidade total e desconhecida para qualquer de nós.
       Apesar do Novo Testamento não falar expressamente da fé de Jesus, não há dúvida de que Se lhe atribui uma atitude de fé. Jesus é o autêntico crente em Deus, que promove entre os homens uma nova fé. Ele percorreu o nosso caminho de fé como modelo e percursor e fê-lo como nós no obscuro da terra e a partir da terra. Foi aí, que praticou a esperança e a obediência no meio de contradições, súplicas e lágrimas, superadas e transformadas em Amor. É o homem total porque foi o totalmente crente. Jesus é o primeiro dos crentes o “pioneiro” e nós, temos de percorrer o mesmo caminho com a mesma atitude.

       2. Que significa ter fé?
       Para São João a fé é uma entrega total e confiada na pessoa de Jesus. Segundo São Paulo, a fé está intimamente ligada à atitude de obediência (Rm 6,16-17;15,18) e à confiança (Rm 6,8; 2Cor 4,18; 1Tes 4,14). Na Carta aos Hebreus (11), a fé é a certeza de uma realidade que não se vê, a qual vai ligada à firme confiança na promessa e obediência fiel do homem a Deus. Esta atitude fundamental, que na Bíblia se chama fé, é, certamente, a atitude que define o mais íntimo e típico de Jesus. Ele entrega-se incondicionalmente ao Pai e aceita os seus planos em docilidade, confiança e abandono, mesmo nos momentos mais obscuros. Deste modo Jesus é o criador e consumador da nossa fé. Jesus fundamenta o poder de fazer milagres na fé que o anima “tudo é possível para aquele que tem fé” (Mc 9, 19.22-23). A força com que Jesus atua é a força de Deus.

       3. A fé cristã
       Para nós cristãos, crer em Jesus é fundamentalmente crer no que Ele acreditou e esperar a libertação que Ele esperou e alcançou. A fé de Jesus confronta o homem com a realidade de “Deus” em Quem acreditou e com os deuses oficiais, aos quais se opôs tenazmente. Pela sua humanidade Jesus é o caminho para levar os homens a fiarem-se de Deus, como Ele Se fiou e a ser de Deus como Ele foi.
       A fé de qualquer pessoa, como a de Jesus, tem que ser realizada na confiança e abandono nas mãos de Deus, muitas vezes, no escuro e na solidão da cruz. Crer é o mesmo que aceitar Jesus, mas não de qualquer maneira, mas precisamente em atitude crente no meio da dor.
       Diz-nos a Carta aos Hebreus (12,1-2): “corramos com perseverança a prova que nos é proposta, tendo os olhos postos em Jesus, autor e consumador da fé”. Neste texto, Jesus é apresentado como modelo perfeito dos crentes, aquele que levou a fé à plenitude da sua perfeição, experimentando-a na sua própria vida, numa situação humanamente muito dura, ao ter de escolher entre o gozo e a cruz, passando por cima das ofensas e desprezos. Jesus é, o modelo perfeito de fé perseverante.
       São Paulo considera Cristo como o primeiro ressuscitado, o irmão mais velho na glória, que viveu já como ressuscitado na história, por ter vivido plenamente a fé.

quinta-feira, 1 de março de 2012

O que quer dizer Quaresma

       A palavra Quaresma vem do latim e quer dizer 40.° dia (quadragésimo dia) antes da Páscoa. É tempo de preparação para a celebração anual do mistério pascal. Tem a duração de quarenta dias, sem contar os domingos, nos quais não se faz penitência. Começa na quarta-feira de cinzas e vai até à manhã de quinta-feira santa, com a celebração da bênção dos santos óleos.
       O número quarenta tem, na Bíblia, uma grande força simbólica: quarenta anos transcorridos pelo povo no deserto; quarenta dias em que Moisés e Elias se prepararam para encontrar-se com Deus no monte Horeb; quarenta dias e quarenta noites, a duração do dilúvio; por quarenta dias Jonas pregou a penitência aos habitantes de Nínive; o próprio Jesus passou quarenta dias no deserto, lutando contra as tentações e preparando-se para a missão. Quarenta indica tempo de caminhada, purificação, renovação espiritual.
       Com a Quaresma, inicia-se o ciclo Pascal cujo ponto mais alto é o Tríduo Pascal (sexta-feira santa, sábado santo e domingo da ressurreição), e se prolonga até a solenidade de Pentecostes.
       São seis domingos da Quaresma. O sexto, no qual se inicia a Semana Santa, chama-se Domingo de Ramos na Paixão do Senhor.
       Que possamos fazer uma caminhada espiritual de jejum, oração e conversão para vivermos melhor o mistério de Jesus.

Ofélia Santos, in Boletim Voz Jovem, fevereiro 2012

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Editorial Agência Ecclesia: homens de diálogo

A Agência Ecclesia nasce do trabalho que D. Manuel Falcão inaugurou no início da década de sessenta

       “O trabalho começa hoje e não acaba nunca”. A afirmação é do Papa Paulo VI e compõe o penúltimo parágrafo da primeira encíclica do seu pontificado. Paulo VI falava do diálogo – teria de ser – e da prática que encontra tanto no “interior da Igreja” como com os de fora. Isso é sinal de que “a Igreja está hoje mais do que nunca viva”. “Mas – continua de imediato -, reparando bem, parece que tudo está ainda por fazer”.
       Na Ecclesiam Suam, Paulo VI escreve 65 vezes a palavra diálogo. O documento é programático e de um pontificado que dava continuidade aos trabalhos do Concílio Vaticano II e teria de os fazer chegar à universalidade da Igreja. O Papa Montini reserva metade do texto, a segunda, para falar de diálogo. Antes, de outras duas atitudes que propõe para a Igreja Católica: consciência, renovação.
       Na década de sessenta, e nos dias de hoje, o diálogo “com tudo o que é humano” é o horizonte. Paulo VI assume “de bom grado” essa “primeira universalidade”: “a vida, com todos os seus dons e problemas”. Depois, na definição de “círculos concêntricos” onde a Igreja Católica é chamada a estar em diálogo, refere os “crentes em Deus”; num terceiro círculo, o “mundo que se intitula cristão”. O Papa fala depois no diálogo dentro da Igreja, um “diálogo doméstico”, que deseja “familiar e intenso”.
       O programa não é de há 50 anos. É dos dias de hoje. A comprová-lo, acontecimentos e sobretudo histórias de vida.
       Entre os acontecimentos, dois exemplos: a participação ativa e criativa de pessoas e instituições da Igreja Católica em iniciativas como Braga Capital Europeia da Juventude ou Guimarães Capital Europeia da Cultura.
       Entre as vidas, sobressai a notoriedade de algumas. Sobretudo quando correspondem não a comportamentos ocasionais, antes a uma atitude permanente. É o caso de D. Manuel Franco Falcão. 
        Despedirmo-nos deste homem exige sobretudo dizer-lhe obrigado! Ao longo dos seus 89 anos, na universidade, no sacerdócio, no ministério episcopal viveu a urgência do diálogo. E dialogou; lançou-se ao encontro do outro, nos mesmos círculos concêntricos propostos pelo Papa Paulo VI.
       Na História da Igreja em Portugal, D. Manuel Franco Falcão deixa capítulos inovadores sobre sociologia da religião, sobre diálogo da e na Igreja, sobre preservação e fruição do património. Deixa também largos passos dados na valorização dos meios de comunicação social. Concretamente, a Agência Ecclesia nasce do trabalho que D. Manuel Falcão inaugurou no início da década de sessenta. Por isso e por tudo, obrigado! Sobretudo por sempre ter valorizado essa fronteira do diálogo, onde a Igreja é chamada a estar cada vez com mais intensidade, o mundo dos media.

A palavra de Deus é como a chuva...

       Assim fala o Senhor. «A chuva e a neve que descem do céu não voltam para lá sem terem regado a terra, sem a haverem fecundado e feito produzir, para que dê a semente ao semeador e o pão para comer. Assim a palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão» (Is 55, 10-11).
       A presença de Deus no mundo, na história e no tempo, é invisível, como o é o amor - e Deus é amor -, mas eficaz e criativo. Assim também a palavra de Deus produz efeito, ainda que momentaneamente ao nosso olhar sobre-venham a injustiça, a violência,o conflito. Mas a promessa de Deus é para cumprir.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A jovem cerejeira

       Na colina da aldeia havia algumas cerejeiras. A primavera ainda estava longe, mas os habitantes esperavam ansiosamente por verem desabrochar as delicadas flores brancas, coloridas de rosa.
       Junto de uma velha cerejeira havia uma outra ainda muito nova. Mas ela tinha uma imensa pressa de crescer, para mostrar a beleza das suas flores.
       A jovem cerejeira perguntava muitas vezes à mais velha:
       - Quando posso florir? Falta muito tempo?
       Ela respondia-lhe sempre:
       - Tens de ter paciência, cara amiga. Na natureza há leis a cumprir. Espera pela tua hora. Verás que, quando terminar o inverno, florirás. Serás bela como uma noiva. Depois virão as primeiras cerejas. Por agora, tens de ter paciência.
       A jovem cerejeira, embora lhe custasse muito esperar, suspirava:
       - Está bem!
       Um certo dia de fevereiro amanheceu com um sol radioso. Parecia mesmo um dia de primavera.
       A jovem cerejeira, ao princípio da tarde, perguntou:
       - Já posso florir?
       A velha cerejeira, indisposta, disse:
       - Uff! Vós, as grandes, sois sempre assim! Só sabeis dizer que é preciso ter paciência. Estou farta de vos ouvir! Está um maravilhoso e, a partir de agora, serei eu a mandar em mim.
       E foi assim que dos botões da jovem cerejeira despontavam belíssimas flores. As pessoas passavam por ali e ficavam maravilhadas ao contemplar essas flores brancas coloridas de rosa.
       A jovem cerejeira sentia-se feliz, contemplando-se a si própria e admirando a sua beleza. Era na paisagem a única cerejeira florida.
       Infelizmente, esses dias de sol primaveril duraram pouco tempo. Veio de novo o frio e o gelo, queimando todas as suas flores. Tinha querido ser adulta antes do tempo e estragou a vida.

In revista Juvenil, n.º 552, fevereiro 2012.

Do sofrimento humano...

"O sofrimento humano,
quando bem trabalhado,
torna-se uma ferramenta que lapida a alma e estimula a sabedoria".

domingo, 26 de fevereiro de 2012

D. Manuel Falcão - o mistério da morte física

       D. Manuel Falcão, bispo emérito de Beja, faleceu no dia 21 de fevereiro. Vale a pena ler e meditar o texto que se segue, que lemos via "Notícias de Beja", e que está disponível na página da Diocese de Beja.
À laia de testamento espiritual (5)
O MISTÉRIO DA MORTE FÍSICA

Depois de termos reflectido sobre o mistério do sofrimento e do mal, é lógico que reflictamos sobre o mistério da morte e no que há para lá dela.

O fim da vida temporal

       A morte como fim da vida temporal é uma certeza que resulta da observação do que acontece a todos os seres humanos. Os cientistas chegam mesmo a calcular que estamos programados para uma duração máxima da ordem dos 120 anos. Isto, independentemente de motivos acidentais que levam à morte em qualquer idade da vida.

O mistério da morte

       Se a morte é uma certeza, ela é sobretudo um mistério, tanto mais que parece contradizer a ideia de que nós fomos feitos para viver. De facto, seria absurdo que em nós tudo terminasse com a morte. Daqui a intuição de que a morte não é o nosso fim, mas que ela abre caminho a nova forma de viver. A História da Humanidade diz-nos que os homens de todos os tempos acreditaram numa vida para além da morte.
       E assim é. A revelação divina diz-nos que os nossos primeiros pais estavam destinados a viver num paraíso. E que melhor paraíso se pode imaginar do que a convivência íntima por toda a eternidade com o Deus de bondade e de amor? A mesma revelação diz-nos que, se tal não aconteceu, foi pelo mau uso da liberdade, que levou os nossos primeiros pais ao pecado de orgulho, querendo ser semelhantes ao seu Criador, o que se projectou na sua descendência pelo chamado “pecado original”, de que um dos efeitos é precisamente a passagem pela morte.
       Podemos perguntar se no caso de não terem pecado os nossos primeiros pais ascenderiam à plena comunhão com Deus na visão de face a face, sem morrer. Apenas podemos conjeturar que a passagem desta vida temporal à vida eterna se teria passado na mais plena alegria.
       Também agora, pelo mistério da redenção operada por Jesus Cristo, os santos, purificados dos seus pecados, cheios da graça divina e animados pelo Espírito Santo, encarnam a morte com semelhante alegria, na esperança, tornada em certeza, de que ela abre as portas à plena comunhão com Deus. É isto, aliás, o que Deus quer ver em todos nós.

A actual perspectiva da morte

       Perante o mistério da morte, hoje não falta quem fuja a pensar nela. Aliás, nas idades activas, o pensamento está absorvido pelos problemas da vida. Só mais tarde se é levado a pensar na morte, podendo cada um, ao anoitecer, dizer a si mesmo : “Mais um dia; menos um dia”.
       Ao contrário dos tempos passados, em que a morte era sentida como um dos mais profundos mistérios da nossa existência, o mundo moderno tende a esquecê-la, nomeadamente pela dispensa dos sufrágios, pela banalização dos funerais, optando pela cremação dos cadáveres e pela supressão do luto. É ver como em geral os meios de comunicação social noticiam o falecimento de alguém, pouco mais relatando além do que ela foi em vida.
       Pelo contrário, nós, cristãos devemos encarar a morte com espírito de fé, como aviso de que neste mundo somos peregrinos ao encontro da Pátria definitiva, onde a morte nos introduz para conviveremos com Deus por toda a eternidade.

Que acontece depois da morte?

       Pouco sabemos ao certo do que se passa após a morte, tanto mais que não é fácil imaginar como se relacionam o “tempo” e a “eternidade”, embora saibamos que esta relação acontece no actual relacionamento de Deus eterno connosco nesta vida temporal. A revelação diz-nos que, após a nossa morte, a alma é sujeita a um “juízo particular”, que decide do nosso destino eterno, ou o Céu ou o Inferno; diz-nos também que os destinados ao Céu passam por uma purificação dos restos de pecados no chamado “Purgatório”; diz-nos ainda que, no chamado “fim do mundo”, se dá a ressurreição pela reentrada das almas nos respectivos corpos tornados espirituais, à semelhança do corpo do Cristo e da Virgem Maria.
       Os sufrágios pelos mortos, que já vêm do A.T. (Mac 12,46), são prática na Igreja que nos assegura a existência do “Purgatório”. Quanto ao resto, da revelação, o saberemos na plenitude da vida eterna.

+ Manuel Franco Falcão,
Bispo emérito de Beja, 01.01.2012, in Diocese de Beja.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Se tirares do meio de ti toda a opressão... brilhará a tua luz

       O profeta Isaías, no seguimento de ontem, insiste em mostrar-nos o que agrada ao Senhor: a justiça, a solidariedade, a atenção aos indigentes. Fixemo-nos na leitura e meditemos nas suas palavras:
       "Eis o que diz o Senhor: «Se tirares do meio de ti toda a opressão, os gestos de ameaça e as palavras ofensivas, se deres do teu pão ao faminto e matares a fome ao indigente, brilhará na escuridão a tua luz e a tua noite será como o meio-dia. O Senhor será sempre o teu guia e saciará a tua alma nos lugares desertos. Dará vigor aos teus ossos e tu serás como o jardim bem regado, como nascente cujas águas nunca faltam. Reconstruirás as ruínas antigas e levantarás os alicerces seculares; e serás chamado ‘reparador de brechas’, ‘restaurador de casas em ruínas’. Se te abstiveres de profanar o sábado e de tratar de negócios no dia santificado, se chamares ao sábado as tuas delícias e o consagrares à glória do Senhor, se o respeitares não fazendo viagens, evitando os teus negócios e empreendimentos, então encontrarás no Senhor as tuas delícias; Eu te levarei em triunfo às alturas da terra e farei que te alimentes da herança de teu pai Jacob». Assim falou a boca do Senhor" (Is 58, 9b-14).

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Quaresma 2012 Mensagem de Bento XVI (3)

  «Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (Heb 10, 24)
3. «Para nos estimularmos ao amor e às boas obras»: caminhar juntos na santidade.

       Esta afirmação da Carta aos Hebreus (10, 24) impele-nos a considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto e fecundo (cf. 1 Cor 12, 31 – 13, 13). A atenção recíproca tem como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efetivo sempre maior, «como a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia» (Prov 4, 18), à espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos é concedido na nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4, 13). É nesta perspetiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras.
       Infelizmente, está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de «pôr a render os talentos» que nos foram dados para bem nosso e dos outros (cf. Mt 25, 24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação pessoal (cf. Lc 12, 21; 1 Tm 6, 18). Os mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua. Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre actual, para tendermos à «medida alta da vida cristã» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo exorta: «Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima» (Rm 12, 10).
       Que todos, à vista de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar-se por adiantar no amor, no serviço e nas obras boas (cf. Heb 6, 10). Este apelo ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa. Com votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica.