sábado, 19 de outubro de 2013

XXIX Domingo do Tempo Comum - ano C - 20 de outubro

       1 – Deus não dorme. Se assim fora, na natural rotação da terra, alguém ficaria prejudicado. Por vezes, perante os sofrimentos pessoais e o mal que se espalha como cancro em algumas partes do mundo, poderemos interrogar-nos como o salmista: “Levanto os olhos para os montes: de onde me virá o auxílio?” Quantas situações da vida em que nos sentimos perdidos, a naufragar! É nessas horas que a esperança em Deus se torna mais necessária.
       Rezava Santa Teresa de Jesus, que celebrámos no dia 15 de outubro, com humildade e confiança: “Nada te turbe, nada te espante. Tudo passa. Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem nada lhe falta. Só Deus basta”.
       Quando tudo se volatiza em águas revoltas, Deus permanece fiel. “O meu auxílio vem do Senhor que fez o céu e a terra. Ele não deixará que vacilem os teus pés; aquele que te guarda, não dormirá. Pois não há de dormir nem dormitar, aquele que guarda Israel. O Senhor é quem te guarda e está a teu lado. O Senhor protege-te nas tuas idas e vindas, agora e para sempre”.
       A fé em Deus, que é Pai, há de ser a música de fundo que orienta, envolve e sustenta, a minha, a tua, a nossa vida. As grandes inquietações da vida: quem sou? Que ando cá a fazer? Que sentido tem a minha vida? O que há depois da morte? Quem é Deus? Onde está Deus no sofrimento? Se tudo acaba no cemitério, valerá a pena lutar pela justiça, pela verdade, pelo bem?
       Também aqui assenta a nossa fé, garantia de que Deus virá, Deus está, Deus vem ao nosso encontro. Se porventura nos faltar a paciência e o discernimento, ainda assim, Deus não deixará de ouvir o nosso clamor e atender à nossa prece. Com efeito, Jesus Cristo revela-nos, em plenitude, o AMOR de Deus que permanece, agora e eternamente. Ele é o ROSTO e a presença de Deus no meio de nós, pelo Espírito Santo. Encarnou. Viveu como UM de NÓS. Morreu, ressuscitou. Deu-nos o Espírito Santo, que renova a vida da Igreja, nos inspira e torna presente a Sua morte e Ressurreição, assumindo-nos como irmãos.
         2 – A fé é sobretudo LUZ que ilumina o nosso peregrinar. Na sua primeira Encíclica, A Luz da Fé, o Papa Francisco sublinha que “a fé não é luz que dissipa todas as trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho”.
        Ressoam em nós a palavras de Jesus, convidando-nos à oração, sem desistir nunca. Para melhor ilustrar o seu desafio, Jesus conta a parábola de uma viúva que sistematicamente vai à presença do juiz da cidade para que lhe faça justiça. O juiz não a atende por achar justo fazê-lo mas pela insistência e pelo incómodo: «Embora eu não tema a Deus nem respeite os homens, contudo, já que esta viúva me incomoda, vou fazer-lhe justiça, para que me deixe de vez e não volte a importunar-me». 
       No prosseguimento da parábola, Jesus contrapõe: «Reparai no que diz este juiz iníquo. E Deus não fará justiça aos seus eleitos, que a Ele clamam dia e noite, e há de fazê-los esperar? Eu vos digo que lhes vai fazer justiça prontamente. Mas, quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?» 
       Jesus garante a resposta de Deus, mas interroga-se sobre a nossa fidelidade e constância. Saberemos alimentar a esperança em Deus e a certeza que Ele nos ama, mesmo nas dificuldades mais intensas? Manteremos viva a chama da fé?
       3 – A história de Israel, do Povo eleito, revela-nos a presença atuante de Deus, ainda que pelo meio sobrevenham momentos de conflito dentro das famílias, entre tribos e entre povos, infidelidades, privações e provações, tempos de grande adversidade, guerras, carestia. A fé é como o amor, e como os amigos, nos apertos testa-se e, na perseverança, fortalece-se.
       Não faltam ocasiões em que a oração do Povo é mais insistente, e Deus não deixará de responder. É significativo o episódio relatado na primeira leitura. Josué comanda o exército israelita e logo Moisés, o grande líder, lhe garante o apoio pela oração: «Amanhã eu permanecerei firme no cimo da colina e terei a vara de Deus na minha mão».
       Josué confia e parte para a batalha contra Amalec. Refere o texto que “enquanto Moisés tinha as mãos levantadas, era Israel o mais forte; mas quando descansava as mãos, o mais forte era Amalec”. Percebendo que é a oração de Moisés que fortalece os combatentes israelitas, e lhes faz ganhar vantagem, decidem apoiá-lo na oração: “Pegaram então numa pedra e puseram-na debaixo dele, e ele sentou-se sobre ela. Aarão e Hur sustentavam as mãos dele, um de um lado e outro do outro. E assim as mãos dele permaneceram firmes até ao pôr-do-sol”.
       A fé tem uma dimensão pessoal, Deus desafia cada um. Mas amadurece em comunidade, Aliás, é na comunidade que aprendemos a ser irmãos. Vale o mesmo para a oração. Moisés reza a Deus, mas a sua oração, e a sua fé, apoia-se em Aarão e Hur, ou seja, no povo de Deus.
       4 – A oração une-nos à comunidade e reforça os laços fraternos que nos unem, alarga o nosso coração pequeno e limitado, para que possamos amar todo o mundo com o coração de Deus. Assim, citando o Santo Cura d’Ars, o lembrava Bento XVI na convocação do Ano Sacerdotal (2008/2009).
       Dom de Deus, a fé precisa de ser alimentada pela oração, pela escuta e meditação da palavra de Deus, pela participação ativa e alegre nos sacramentos, principalmente na Eucaristia, no qual Jesus Cristo, pelo Espírito Santo, Se dá e nos dá a Deus Pai, e nos constitui novo Povo de Deus, e nos reenvia à prática do bem e ao testemunho/propagação da Palavra de Deus.
       A alegria da fé contagia-nos e faz-nos testemunhas do amor de Deus. Não basta responder ao amor de Deus com acolhimento e com amor, é preciso comunicá-lo aos sete ventos. Em Dia Mundial das Missões, são bem ilustrativas as palavras de São Paulo a Timóteo e à comunidade crente:
«Tu, porém, permanece firme naquilo que aprendeste… Toda a Escritura é inspirada por Deus e adequada para ensinar, refutar, corrigir e educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e esteja preparado para toda a obra boa… Proclama a palavra, insiste em tempo propício e fora dele, convence, repreende, exorta com toda a compreensão…»
       Oportuna e inoportunamente, cada cristão – e toda a Igreja – está comprometido com o anúncio da Palavra de Deus, deixando-se evangelizar e evangelizando, convertendo-se e propondo a conversão aos outros. “Ai de mim se não evangelizar?"


Textos para a Eucaristia (ano C): Ex 17, 8-13; Sl 120 (121); 2 Tim 3, 14 – 4, 2; Lc 18, 1-8.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Francisco - Homilia na jornada Mariana

«Cantai ao Senhor um cântico novo, porque Ele fez maravilhas» (Sl 97, 1). Encontramo-nos hoje diante duma das maravilhas do Senhor: Maria! Uma criatura humilde e frágil como nós, escolhida para ser Mãe de Deus, Mãe do seu Criador. Precisamente olhando Maria à luz das Leituras que acabámos de escutar, queria reflectir convosco sobre três realidades: Deus surpreende-nos, Deus pede-nos fidelidade, Deus é a nossa força.

       1. A primeira: Deus surpreende-nos. O caso de Naamã, comandante do exército do rei da Síria, é notável: para se curar da lepra, vai ter com o profeta de Deus, Eliseu, que não realiza ritos mágicos, nem lhe pede nada de extraordinário. Pede-lhe apenas para confiar em Deus e mergulhar na água do rio; e não dos grandes rios de Damasco, mas de um rio pequeno como o Jordão. É uma exigência que deixa Naamã perplexo, surpreendido: Que Deus poderá ser este que pede uma coisa tão simples? A vontade primeira dele é retornar ao País, mas depois decide-se a fazê-lo, mergulha no Jordão e imediatamente fica curado. Vedes!? Deus surpreende-nos; é precisamente na pobreza, na fraqueza, na humildade que Ele Se manifesta e nos dá o seu amor que nos salva, cura e dá força. Pede somente que sigamos a sua palavra e tenhamos confiança n’Ele.
       Esta é a experiência da Virgem Maria: perante o anúncio do Anjo, não esconde a sua admiração. Fica admirada ao ver que Deus, para Se fazer homem, escolheu precisamente a ela, jovem simples de Nazaré, que não vive nos palácios do poder e da riqueza, que não realizou feitos extraordinários, mas que está disponível a Deus, sabe confiar n’Ele, mesmo não entendendo tudo: «Eis a serva do Senhor, faça-se em Mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38). Deus surpreende-nos sempre, rompe os nossos esquemas, põe em crise os nossos projectos, e diz-nos: confia em Mim, não tenhas medo, deixa-te surpreender, sai de ti mesmo e segue-Me! Hoje perguntemo-nos, todos, se temos medo daquilo que Deus me poderá pedir ou está pedindo. Deixo-me surpreender por Deus, como fez Maria, ou fecho-me nas minhas seguranças, nos meus projectos? Deixo verdadeiramente Deus entrar na minha vida? Como Lhe respondo?

       2. Na passagem lida de São Paulo, ouvimos o Apóstolo dizer ao seu discípulo Timóteo: Lembra-te de Jesus Cristo; se perseverarmos com Ele, também com Ele reinaremos. Aqui está o segundo ponto: lembrar-se sempre de Cristo, perseverar na fé. Deus surpreende-nos com o seu amor, mas pede fidelidade em segui-Lo. Pensemos quantas vezes já nos entusiasmámos por qualquer coisa, por uma iniciativa, por um compromisso, mas depois, ao surgirem os primeiros problemas, abandonámos. E, infelizmente, isto acontece também com as opções fundamentais, como a do matrimónio. É a dificuldade de ser constantes, de ser fiéis às decisões tomadas, aos compromissos assumidos. Muitas vezes é fácil dizer «sim», mas depois não se consegue repetir este «sim» todos os dias.
       Maria disse o seu «sim» a Deus, um «sim» que transtornou a sua vida humilde de Nazaré, mas não foi o único; antes, foi apenas o primeiro de muitos «sins» pronunciados no seu coração tanto nos momentos felizes, como nos dolorosos… muitos «sins» que culminaram no «sim» ao pé da Cruz. Estão aqui hoje muitas mães; pensai até onde chegou a fidelidade de Maria a Deus: ver o seu único Filho na Cruz.
       Sou um cristão intermitente, ou sou cristão sempre? Infelizmente, a cultura do provisório, do relativo penetra também na vivência da fé. Deus pede-nos para Lhe sermos fiéis, todos os dias, nas acções quotidianas; e acrescenta: mesmo se às vezes não Lhe somos fiéis, Ele é sempre fiel e, com a sua misericórdia, não se cansa de nos estender a mão para nos erguer e encorajar a retomar o caminho, a voltar para Ele e confessar-Lhe a nossa fraqueza a fim de que nos dê a sua força.

       3. O último ponto: Deus é a nossa força. Penso nos dez leprosos do Evangelho curados por Jesus: vão ao seu encontro, param à distância e gritam: «Jesus, Mestre, tem compaixão de nós» (Lc 17, 13). Estão doentes, necessitados de serem amados, de terem força e procuram alguém que os cure. E Jesus responde, libertando-os a todos da sua doença. Causa estranheza, porém, o facto de ver que só regressa um para Lhe agradecer, louvando a Deus em alta voz. O próprio Jesus o sublinha: eram dez que gritaram para obter a cura, mas só um voltou para gritar em voz alta o seu obrigado a Deus e reconhecer que Ele é a nossa força. É preciso saber agradecer, louvar o Senhor pelo que faz por nós.
       Vejamos Maria: depois da Anunciação, o primeiro gesto que ela realiza é um acto de caridade para com a sua parente idosa Isabel; e as primeiras palavras que profere são: «A minha alma enaltece o Senhor», o Magnificat, um cântico de louvor e agradecimento a Deus, não só pelo que fez n’Ela, mas também pela sua acção em toda a história da salvação. Tudo é dom d’Ele; Ele é a nossa força! Dizer obrigado parece tão fácil, e todavia é tão difícil! Nós quantas vezes dizemos obrigado em família? Quantas vezes dizemos obrigado a quem nos ajuda, vive perto de nós e nos acompanha na vida? Muitas vezes damos tudo isso como suposto! E o mesmo acontece com Deus.

Continuando a Eucaristia, invocamos a intercessão de Maria, para que nos ajude a deixarmonos surpreender por Deus sem resistências, a sermos-Lhe fiéis todos os diaa, a louvá-Lo e agradecer-Lhe porque Ele é a nossa força. Amen.


FONTE: Spe Deus.

domingo, 13 de outubro de 2013

Papa Francisco - Consagração do Mundo a Nossa Senhora

       Diante da Imagem de Nossa Senhora de Fátima, no 96.º aniversário da última aparição de Nossa Senhora aos Pastorinhos, no âmbito da jornada mariana, incluída no Ano da Fé, o papa Francisco consagra o mundo inteiro a Maria. Segue a oração de CONSAGRAÇÃO:
Bem-aventurada Virgem Maria de Fátima,
Com renovada gratidão pela tua presença materna, unimos a nossa voz à de todas as gerações que te chamam bem-aventurada, em ti celebramos as grandes obras de Deus, que nunca se cansa de se inclinar misericordiosamente sobre a humanidade, aflita pelo mal e ferida pelo pecado, para a curar e salvar.
Acolhe com benevolência de mãe o acto de entrega que hoje fazemos com confiança,
Diante desta tua imagem, para nós tão querida.
Estamos certos que cada um de nós é precioso aos teus olhos e que nada do que habita nos nossos corações te é estranho.
Deixamo-nos alcançar pelo teu olhar tão doce e recebemos a consoladora carícia do teu sorriso.
Cuida da nossa vida entre os teus braços; abençoa-nos e reforça todo o desejo de bem; reaviva e alimenta a fé; sustém-nos e ilumina a esperança; suscita e anima a caridade; guia-nos a todos no caminho da santidade.
Ensina-nos o teu próprio amor de predilecção pelos pequenos e pobres, pelos excluídos e pelos que sofrem, pelos pecadores e os que têm o coração dilacerado: reúne-os a todos sob a tua protecção, e entrega-os ao teu dilecto filho, o Senhor Nosso Jesus.
Amen.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Maria de Villota - Sem um olho, vejo melhor...

        A ex-piloto de testes de Fórmula 1 Maria de Villota, encontrada hoje sem vida num quarto de hotel em Sevilha, faleceu por causas naturais, de acordo com fontes da investigação citadas pela agência EFE. A autópsia realizada no Instituto Anatómico Forense de Sevilha confirmou que a antiga piloto, que em 2012 sofreu um grave acidente, no qual perdeu um olho, morreu por causas «absolutamente naturais». Maria de Villota, cujo corpo foi encontrado esta manhã no quarto de hotel em que estava hospedada para participar numa conferência na capital da Andaluzia, foi levada pelas 10h00 locais ao Instituto Anatómico, onde foi realizada a autópsia. De Villota, 33 anos, estava em Sevilha, onde hoje deveria participar num evento no centro de Congressos da cidade, dias antes da apresentação de um livro sobre a sua vida. Filha do ex-piloto de F1 Emilio De Villota, Maria de Villota sofreu um grave acidente em junho de 2012 durante testes realizados pela escuderia Marussia, perdendo o olho direito. Para a próxima segunda-feira estava previsto que apresentasse o livro sobre a sua vida: “La vida es um regalo” (A vida é um presente).
FONTE da notícia: AQUI.
Post publicado em 14 de outubro de 2012:

       María de Villota - 32 anos - era piloto de Fórmula 1. Apaixonada pela velocidade e pelos carros, conseguira atingir o seu sonho. Era a única mulher num mundo dominado por homens. Um dia teve um acidente grave e azarado: regressando dos testes na pista - sem que se perceba porquê - acelerou e embateu contra a traseira de um camião. Na altura pensou-se que teria a vida em risco. "María, te hemos salvado la vida... pero tenemos que decirte que has perdido el ojo" - disse-lhe o médico, depois da operação. "Usted es cirujano?" - respondeu María - "… y usted necesita dos manos para operar? pues yo soy piloto de Fórmula 1 y necesito dos ojos!…". Passados três meses de recuperação, em conferência de imprensa, partilha com todos a transformação interior que sofreu: "…te dás cuenta que ves más que antes… porque yo antes sólo veía la Fórmula 1, sólo me veía encima de un coche compitiendo, y no veía lo que era realmente importante en la vida; la claridad de decir "joder, estoy viva" y que en ese momento no estaba valorando lo más grande que es que esa persona que estaba allí me haya salvado"; "este ojo me ha devuelto el Norte; me ha devuelto lo importante"; "esta nueva oportunidad la voy a vivir al cien por cien"; "hoy cuando me miro al espejo estoy orgullosa porque realmente pienso que mi aspecto actual dice más de quién es María de Villota"; "llevo mi historia y la llevo con mucho cariño y orgullo". Mais nada.


[Fotografia de GrandPrixMotoriOnline]

Bento XVI - a Alegria da Fé

BENTO XVI. A Alegria da Fé. Paulinas Editora. Prior Velho 2012
        O Papa Bento XVI é uma comunicador por excelência, porque comunica o que lhe vai na alma, fruto de uma experiência profunda de fé, na proximidade com Jesus Cristo, enxertado e mergulhado na história da Igreja, como estudioso, sacerdote, professor, catedrático, pastor, bispo, e como "humilde servidor da vinha do Senhor", desde 19 de abril de 2005 a 28 de fevereiro de 2013. Depois de convocar o Ano Paulino (2000 anos do nascimento de São Paulo) , de convocar o Ano Sacerdotal, convocou o Ano da Fé, a estender-se de 11 de outubro de 2012 (50 anos após o início do Vaticano II e 20 anos após a publicação do Catecismo da Igreja Católica) a 24 de novembro de 2013, solenidade do Cristo Rei do Universo.
       Num ambiente largamente fragmentado, em que ideias/ideologias, convicções, religiões, tudo é igual, marcado por doses significativas de indiferença em relação aos outros, de marginalização e privatização da fé e do fenómeno religioso, sobretudo na Europa e no mundo ocidental ou ocidentalizado, em que as prioridades na sua maioria são novas e velhas formas de escravização, colocando a economia no lugar de Deus, liberalizando e mercantilizando a vida, destruindo os mais frágeis, ser humanos por nascer e idosos vulneráveis arrumados para não incomodar... a convocação do Ano da Fé traz consigo o propósito de mostrar como a Luz da Fé clarifica o que é verdadeiramente importante. Para os cristãos a Porta da Fé é Jesus Cristo, que nos traz Deus, que nos abre a mente e o coração para os valores da vida, para a dinàmica e a essencialidade do amor e da verdade, para a prioridade da pessoa face ao mercado liberalizado e utilitarista.
       Um dos desideratos sublinhados por Bento XVI é a ALEGRIA da fé, a alegria de nos sabermos amados por Deus, nos descobrimos filhos no Filho, redimidos na morte e na ressurreição de Jesus, vastidão do Amor de Deus que clama por amor. Reconhecendo que vivemos no amor de Deus, a urgência de comunicá-lo aos outros para que que todos caminhemos como irmãos, na descoberta constante dos laços de ternura e de amizade que nos unem, na edificação do reino de justiça, de paz e de bem.
       Nesta publicação, Giuliano Vigini faz um apanhado de diversos textos de Bento XVI, homilias, mensagens, discursos, intervenções, cartas encíclicas, ajeitando-os nos grandes temas que nos remetem para o Credo, do Credo para a comunidade, da comunidade para o mundo inteiro: Creio em Deus Pai, Jesus Cristo, Espírito Santo, Igreja, Vida Eterna, Ressurreição dos mortos e comunhão Santos, Sacramentos, Eucaristia, Confirmação, Penitência, Batismo.
       Para aqueles que estão familiarizados com a escrita de Bento XVI têm aqui mais uma oportunidade de se deixarem tocar pela leveza, simplicidade, envolvência, como se estivesse a ouvir e não a ler, tal é a intensidade do texto, a clareza, assomando uma fé profunda, vivida, partilhada, com diversas experiências de vida, dentro da Igreja e em ambientes diversificados. É certo que nestes dias o olhar se fixa mais facilmente no Papa Francisco e na fluidez e espontaneidade do seu discurso e dos seus gestos, mas, para quem não for preconceituoso (em relação ao Papa alemão), não há antagonismo. Estou em crer que quem apreciar ao forma de comunicar de Francisco não terá dificuldade em entender a mensagem de Bento XVI, ainda que aqui ou acolá possam relevar a especificidade de cada um dos Papas, mas a leveza é demasiado similar.
       Para quem se tem deixado tocar pela presença, pelas palavras, pelos gestos do Papa Francisco, e que sempre se sentiu mais distante de Bento XVI, e se calhar nunca o escutou com atenção, com o coração, ou não o leu, terá aqui uma excelente oportunidade para de fazer uma juízo de valor mais equilibrado. São pedaços de uma vida preenchido, transparecendo a Luz de Jesus Cristo, pelo Espírito Santo, na Igreja que formamos.
       Vai valer a pena deixar-se contagiar pela alegria da Fé, que irradia das intervenções de Bento XVI.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Vaticano II - Ser humano diante da morte

       É em face da morte que o enigma da condição humana mais se adensa. Não é só a dor e a progressiva dissolução do corpo que atormentam o homem, mas também, e ainda mais, o temor de que tudo acabe para sempre. Mas a intuição do próprio coração fá-lo acertar, quando o leva a aborrecer e a recusar a ruína total e o desaparecimento definitivo da sua pessoa. O germe de eternidade que nele existe, irredutível à pura matéria, insurge-se contra a morte. Todas as tentativas da técnica, por muito úteis que sejam, não conseguem acalmar a ansiedade do homem: o prolongamento da longevidade biológica não pode satisfazer aquele desejo duma vida ulterior, invencìvelmente radicado no seu coração.

In Gaudium et Spes, n.º 18: AQUI.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Vaticano II - esperanças e temores na atualidade

       Para levar a cabo esta missão, é dever da Igreja investigar a todo o momento os sinais dos tempos, e interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo adaptado em cada geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida presente e da futura, e da relação entre ambas. É, por isso, necessário conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações, e o seu carácter tantas vezes dramático. Algumas das principais características do mundo actual podem delinear-se do seguinte modo.
       A humanidade vive hoje uma fase nova da sua história, na qual profundas e rápidas transformações se estendem progressivamente a toda a terra. Provocadas pela inteligência e actividade criadora do homem, elas reincidem sobre o mesmo homem, sobre os seus juízos e desejos individuais e colectivos, sobre os seus modos de pensar e agir, tanto em relação às coisas como às pessoas. De tal modo que podemos já falar duma verdadeira transformação social e cultural, que se reflecte também na vida religiosa.
       Como acontece em qualquer crise de crescimento, esta transformação traz consigo não pequenas dificuldades. Assim, o homem, que tão imensamente alarga o próprio poder, nem sempre é capaz de o pôr ao seu serviço. Ao procurar penetrar mais fundo no interior de si mesmo, aparece frequentemente mais incerto a seu próprio respeito. E, descobrindo gradualmente com maior clareza as leis da vida social, hesita quanto à direcção que a esta deve imprimir.
       Nunca o género humano teve ao seu dispor tão grande abundância de riquezas, possibilidades e poderio económico; e, no entanto, uma imensa parte dos habitantes da terra é atormentada pela fome e pela miséria, e inúmeros são ainda os analfabetos. Nunca os homens tiveram um tão vivo sentido da liberdade como hoje, em que surgem novas formas de servidão social e psicológica. Ao mesmo tempo que o mundo experimenta intensamente a própria unidade e a interdependência mútua dos seus membros na solidariedade necessária, ei-lo gravemente dilacerado por forças antagónicas; persistem ainda, com efeito, agudos conflitos políticos, sociais, económicos, «raciais» e ideológicos, nem está eliminado o perigo duma guerra que tudo subverta. Aumenta o intercâmbio das ideias; mas as próprias palavras com que se exprimem conceitos da maior importância assumem sentidos muito diferentes segundo as diversas ideologias. Finalmente, procura-se com todo o empenho uma ordem temporal mais perfeita, mas sem que a acompanhe um progresso espiritual proporcionado.
       Marcados por circunstâncias tão complexas, muitos dos nossos contemporâneos são incapazes de discernir os valores verdadeiramente permanentes e de os harmonizar com os novamente descobertos. Daí que, agitados entre a esperança e a angústia, sentem-se oprimidos pela inquietação, quando se interrogam acerca da evolução actual dos acontecimentos. Mas esta desafia o homem, força-o até a uma resposta.

In Gaudium et Spes, n.º 4: AQUI.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Tolentino Mendonça - noção de resto - resta sempre Deus

       Relativizada a cerca confessional, a religião torna-se um apetecível baldio para a produção científica e cultural mais diversa, num fenómeno aparentemente inesgotável de mediatização, onde todos têm alguma coisa a dizer: sociólogos, antropólogos, pensadores de teoria política, novelistas... Ao mesmo tempo, vão ganhando plausibilidade, aplicadas ao religioso, expressões que aos ouvidos de outros séculos pareceriam de todo insólitas, como «restrição de campo», «reconfiguração», «deslocação para a esfera intima», «mudança de papel social», «religião implícita», expressões que muito dizem do processo epocal em que estamos.
       Este é um processo que se percebe ser de longa duração e que não é apenas externo em relação às religiões. Também no interior destas se tem sentido equivalente reverberação. Para expressar o estremecimento interno ao religioso, Danièle Hervieu-Léger recorre à expressão «religião em movimento», entendendo-a como o complexo e diversificado processo de autorrecomposição em curso (particularmente no universo religioso cristão ocidental).
       Neste clima dominado por uma certa hesitação, há mesmo espaço para posições mais exasperadas, como as que defendem: «Será necessário um dia nos desembaraçarmos deste termo falacioso: a religião» (Régis Debray). Numa cena hilariante de um filme de Pedro Almodóvar, uma escritora de thrillers, a passar por uma turbulência criativa, diz: «Não é fácil desembaraçar-se de um cadáver.» Ora, no debate entre religião e modernidade, precisamente este embaraço ou, para dizer com maior rigor, esta impossibilidade radical de um polo excluir o outro tem sido um dos traços mais persistentes e porventura também mais portadores de futuro.
       Marcel Gauchet, por exemplo, apropria-se do sintagma «desencantamento do mundo» para uma marcante viagem pela paisagem da modernidade. A proposta de Gauchet não é anunciar o fim da religião, mas descrever sim as transformações que a época contemporânea regista. E fá-lo através de uma inusual categoria, que a meu ver ainda não tem colhido a atenção critica que merece: a noção de resto. Explicitando a dialética entre o declínio da religião como função social e a sua persistência no plano pessoal, o autor fala de «um resto, talvez inalienável», que pode detetar-se em determinadas vivências fundamentais. Veja-se, a título de ilustração, tanto a experiência estética como a experiência dilemática que somos para nós próprios. Para Marcel Gauchet, a nossa capacidade de emoção perante o desabalado espetáculo das coisas provém, de um modo vital e recôndito, da inscrição no ser, e através dessa inscrição nós comunicamos com isso que foi por milénios o sentido do sagrado. Isto que, sem dúvida, pode desencadear um interminável debate, é por ele sintetizado de um modo liminar: «A arte, no sentido específico em que nós modernos a compreendemos, é a continuação do sagrado por outros meios.»
       Por outro lado, se alguma coisa resume a consciência que vamos ganhando de nós mesmos é que constituímos um enigmático objeto de pensamento. Somos uma pergunta que se sobrepõe às respostas que existencialmente (e historicamente) vamos encontrando. As nossas sociedades tomaram-se psiquicamente extenuantes para os indivíduos e parece faltar um suporte para as difíceis questões que sopram com maior frequência: «Porquê a mim?»; «Que fazer da minha vida quando estou sozinho a decidir?»; «Para que serve ter vivido se devemos desaparecer sem deixar traço?» Um resto de religião é assim o que se observa nesta dor humana, nunca completamente resolvida. Por isso, mesmo quando parece que de Deus nada resta, persiste e insinua-se sempre mais do que julgamos.

José Tolentino Mendonça, in Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O fruto da árvore e fruto do ventre de Maria

       Celebramos a memória de Nossa Senhora do Rosário. Foram propostas duas leituras, a primeira do livro do Génesis, que nos fala dos primeiros pais, e o Evangelho da Anunciação (Lc 1, 26-38).
       Para a meditação da Eucaristia quotidiana, optámos por sublinhar o antagonismo entre a Cheia de Graça, (Ave) Maria, e Eva, a Mãe dos viventes.
       No dia 5 de julho (2013), D. António Couto encontrou-se, em Tabuaço, com os jovens que iriam ser crismados no dia seguinte. Durante o encontro chamou a atenção para o pecado original, duma forma original. O pecado de Adão e Eva não foi o terem colhido o fruto, mas usurparem o fruto da árvore. Dito de outra maneira. O fruto da árvore destinava-se a toda a humanidade, a todas as famílias. Adão e Eva recolheram o fruto só para si mesmos, sem pensar em mais ninguém. Com efeito, só eles comeram do fruto. É fruto usurpado. Quem recebe, tem as mãos estendidas, viradas para cima, abertas, recebem e distribuem. O pecado é quando alguém fecha as mãos, querendo apenas para si, como Eva no paraíso, agarra o fruto e reserva-o para si e para o homem. Usurpa o DOM. Até os dons de Deus se hão de submeter à minha vontade, ao meu desejo, hão de estar ao meu serviço.
       Em Maria, acontece o inverso: eis a escrava do Senhor, faça-se em Mim segundo a Tua palavra. Como no horto das Oliveiras, em que Jesus há de repetir a tentação original, mas invertendo-a em Sim, semelhante ao de Maria. Pai, se é possível afasta de Mim este cálice. Contudo, não se faça o que Eu quero, faça-se a Tua vontade.
       Maria dá o fruto do Seu ventre, que é Jesus, à humanidade. Não fica com o fruto. É o Seu Filho querido, mas não é para Si, é para todos. Todos os homens e mulheres, de todos os tempos e lugares, hão de usufruir do fruto do ventre e do coração de Maria, Jesus. Desde logo, Maria coloca o Menino na manjedoura para que os pastores e depois os Magos possam adorá-l´O. O seu menino começa a não ser só Seu. Ela dá-nos o fruto. E por isso é bem-aventurada por todas as gerações. As maravilhas que nela Deus operou são a favor de todo o povo. O Sim de Maria permite-nos ter connosco Deus.

Wm. Paul Young - A Travessia

PAUL YOUNG, A Travessia. Porto Editora. Porto 2013. 304 páginas.
       Há tempos recomendávamos o bestseller deste autor "A CABANA", livro que é uma prenda para os filhos, pelo Natal, e cujo enredo convoca ao perdão, à reconciliação com o passado, enfrentando medos e adversidades com esperança, na certeza que Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, nos guia, nos leva pela mão mesmo quando as coisas não correm bem. A morte da filha quebra todas as seguranças, mas há que descobrir o mistério amoroso de Deus. É um livro envolvente.
        Hoje recomendámos A TRAVESSIA. Insere-se em contexto semelhante. A vida e a morte. O sofrimento e a alegria. A dúvida, a incerteza, o egoísmo. A beleza, a generosidade, o amor e o perdão. Esta vida e a vida a caminho da eternidade. De algum modo é um tema que está em voga com o aparecimento de testemunhos que falam da vida para lá da vida, em estado de coma e que insinuam, sinalizam, abrem para o mistério do pós-morte. São disso exemplo: O Céu existe mesmo ou Uma prova do Céu, que relatam "a viagem" durante o estado do coma e o regresso ao mundo da história e do tempo, trazendo uma mensagem de paz, de esperança, renovando a confiança em Deus e nos Seus desígnios.
       A Travessia é romance mas que toca o mistério da vida além da vida. A vida num estádio intermédio (Purgatório?), a proximidade da eternidade.
       Um homem de negócios cuja morte do filho deixa destroçado. Acabará por perder a esposa, com quem casa duas vezes, mas a quem repudia, fazendo-lhe a vida negra. E a filha a quem nunca abraçou com medo de a perder. Nunca tivera a coragem de lhes comunicar sentimentos. Distante e frio. A sua infância não tinha sido fácil. Órfão, passando em famílias de acolhimento, acabou por ser separado do irmão mais novo, distanciando-se dele.
       Paranóico até dizer chega. A relação com as pessoas baseia-se no lucro que lhe podem trazer. Não confia em ninguém. A determinado momento vê-se a riscar os nomes das pessoas em quem confia. Um dos nomes que não risca é o de Jesus. Altera constantemente o testamento. O último deixava tudo aos gatos, pondo de fora a ex-mulher, a filha e o irmão.
       Tem um AVC. Uma réstia de fé leva-O a Jesus. A Deus Pai que é uma menina vestida de azul. Ao Espírito Santo que é uma Avó índia. Com Deus, três pessoas, mas um Ser divino uno, vai encetar um diálogo que o vai ajudar a derrubar muralhas que criou, vai descobrir que Deus o ama, mas que há outras pessoas que o amam, apesar do mal que lhes fez. A mulher. A filha. O irmão. O seu "eu" vai ter oportunidade de entrar no corpo de uma criança, com o síndrome de Down e depois passar para outras pessoas. Na travessia terá oportunidade de corrigir o mal feito, de se redimir, de mudar a vida daqueles com quem contacato, curando feridas, restabelencendo a confiança.
        Vai descobrir a pureza e a beleza dos sentimentos que abafou em si. Mais vale tarde que nunca.
       O livro é também uma dádiva do autor à sua esposa, aos filhos e aos netos (6, para já...).

A Princesa que morreu por amor

       "Mack e os filhos pararam nas cataratas Multnomah… Missy implorou ao pai para que ele conte a lenda da jovem índia, filha de um chefe da tribo Multanomah…
       A história falava de uma Princesa, única filha de um pai idoso. O chefe adorava a filha e escolheu com cuidado um marido para ela: um jovem guerreiro, da tribo Clatsop, que a amava. As duas tribos juntaram-se para celebrarem as bodas; porém, antes do início da festa, uma doença terrível começou a espalhar-se entre os homens, matando muitos deles.
       Os anciãos e os chefes reuniram-se para discutir o que poderiam fazer contra a doença devastadora que dizimava rapidamente os seus guerreiros. O feiticeiro mais velho contou que o seu pai, já bem idoso e pouco antes de morrer, previra uma doença terrível que mataria os seus homens, uma doença que só poderia ser vencida se a filha de um chefe, pura e inocente, oferecesse de boa vontade a vida pelo seu povo. Para realizar a profecia, ela deveria subir voluntariamente a um penhasco sobre o Grande Rio e saltar para a morte sobre as rochas mais abaixo.
       Uma dúzia de jovens, todas filhas dos vários chefes, foram levadas à presença do Conselho. Depois de demorados debates, os anciãos decidiram que não poderiam pedir um sacrifício tão grande, sobretudo porque não sabiam se a lenda era verdadeira.
       Mas a doença continuou a espalhar-se implacavelmente entre os homens, até que, finalmente, o jovem guerreiro, o futuro esposo, caiu doente. A princesa, que o amava muito, sentiu no fundo, do coração que algo precisava de ser feito e, depois de lhe dar um breve beijo na testa, afastou-se.
       Demorou toda a noite e todo o dia seguinte para chegar ao local indicado na lenda, um penhasco altíssimo acima do Grande Rio e das terras que se estendiam a perder de vista. Depois de rezar e de se entregar ao Grande Espírito, ela cumpriu a profecia sem hesitar, saltando para a morte nas rochas mais abaixo.
       Nas aldeias, na manhã seguinte, os doentes levantaram-se saudáveis e fortes. Houve grande júbilo e comemoração, até que o jovem guerreiro descobriu que a sua noiva tinha desaparecido. À medida que a percepção do q eu acontecera se espalhava rapidamente ente entre o povo, muito empreenderam a viagem até ao lugar onde sabiam que iriam encontrá-la. Enquanto se reuniam em silêncio à volta do corpo destroçado na base do penhasco, o seu pai, tomado pelo sofrimento, gritou ao Grande Espírito, pedindo que o sacrifício dela fosse lembrado para sempre. Nesse momento, do lugar onde ela saltara começou a jorrar água, transformando-se numa névoa fina que caía aos pés deles, formando lentamente um lago maravilhoso…

       A narrativa possuía todos os elementos de um verdadeiro conto de redenção, não muito diferente da história de Jesus, que ela conhecia tão bem. Falava de um pai que amava a filha única e de um sacrifício anunciado por um profeta. Por causa do amor, a jovem decidiu dar a sua vida para salvar o noivo as tribos da morte certa.
       … Quando chegou a vez de Missy rezar, ela quis conversar com o pai:
       - Papá, por que teve ela de morrer?
       - Querida, ela não teve de morrer. Ela escolheu morrer para salvar seu povo…

       As questões sucedem-se. O Grande Espírito é Deus? Deus quis que o Seu filho morresse? Se Deus quis que a Princesa morresse, se Deus quis que Jesus Cristo morresse, então Deus é mau?
       Jesus escolheu morrer, por amor à humanidade, assim como a Princesa da lenda... Mas os mistérios do homem e de Deus continuam a ser insondáveis, mas pelo menos conhecemos um rosto que nos mostra Deus: JESUS CRISTO.

In A Cabana, de Paul Young.

domingo, 6 de outubro de 2013

Papa Francisco - queridos Catequistas...

Amados catequistas, boa tarde!

      Gosto de que haja, no Ano da Fé, este encontro para vós: a catequese constitui uma coluna para a educação da fé, e são precisos bons catequistas! Obrigado por este serviço à Igreja e na Igreja. Embora possa às vezes ser difícil – trabalha-se tanto, empenha-se e não se vêem os resultados desejados –, mas educar na fé é maravilhoso! É talvez a melhor herança que possamos dar a alguém: a fé! Educar na fé, para que essa pessoa cresça. Ajudar as crianças, os adolescentes, os jovens, os adultos a conhecerem e amarem cada vez mais o Senhor é uma das mais belas aventuras educativas; está-se a construir a Igreja! «Ser» catequista! Não trabalhar como catequista: isso não adianta! Trabalho como catequista, porque gosto de ensinar… Se porém tu não és catequista, não adianta! Não serás fecundo, não serás fecunda! Catequista é uma vocação. «Ser catequista»: esta é a vocação; não trabalhar como catequista. Atenção que eu não disse «fazer» o catequista, mas «sê-lo», porque compromete a vida: guia-se para o encontro com Cristo, através das palavras e da vida, através do testemunho. Lembrai-vos daquilo que nos disse Bento XVI: «A Igreja não cresce por proselitismo. Cresce por atracção». E aquilo que atrai é o testemunho. Ser catequista significa dar testemunho da fé; ser coerente na própria vida. E isto não é fácil. Não é fácil! Nós ajudamos, guiamos para chegarem ao encontro com Jesus através das palavras e da vida, através do testemunho. Gosto de recordar aquilo que São Francisco de Assis dizia aos seus confrades: «Pregai sempre o Evangelho e, se for necessário, também com as palavras». As palavras têm o seu lugar… mas primeiro o testemunho: que as pessoas vejam na nossa vida o Evangelho, possam ler o Evangelho. E «ser» catequista requer amor: amor cada vez mais forte a Cristo, amor ao seu povo santo. E este amor não se compra nas lojas, nem se compra sequer aqui em Roma. Este amor vem de Cristo! É um presente de Cristo! É um presente de Cristo! E se vem de Cristo, parte de Cristo; e nós devemos recomeçar de Cristo, deste amor que Ele nos dá. Para um catequista, para vós e para mim, porque também eu sou catequista, que significa este recomeçar de Cristo? Que significa?

Eu vou falar de três pontos: um, dois e três, como faziam os antigos jesuítas… um, dois e três!

        1. Antes de tudo, recomeçar de Cristo significa cultivar a familiaridade com Ele, ter esta familiaridade com Jesus: Jesus recomenda-o, com insistência, aos discípulos na Última Ceia, quando Se prepara para viver o dom mais sublime de amor, o sacrifício da Cruz. Recorrendo à imagem da videira e dos ramos, Jesus diz: Permanecei no meu amor, permanecei ligados a mim, como o ramo está ligado à videira. Se estivermos unidos a Ele, podemos dar fruto, e esta é a familiaridade com Cristo. É permanecer em Jesus! Permanecer ligados a Ele, dentro d’Ele, com Ele, falando com Ele: permanecer em Jesus.
       A primeira coisa necessária para um discípulo é estar com o Mestre, ouvi-Lo, aprender d’Ele. E isto é sempre válido, é um caminho que dura a vida inteira! Recordo que, na diocese (na outra diocese que tinha antes), via muitas vezes, no fim dos cursos no seminário catequético, os catequistas saírem dizendo: «Tenho o título de catequista!». Isso não adianta, não tens nada, fizeste apenas um bocado de estrada! Quem te ajudará? Isto sim, que vale sempre! Não um título, mas um procedimento: estar com Ele; e dura toda a vida! É estar na presença do Senhor, deixar-se olhar por Ele. Pergunto-vos: Como estais na presença do Senhor? Quando ides ter com o Senhor, enquanto olhais o Sacrário, que fazeis? Sem palavras… Mas eu falo, falo, penso, medito, ouço… Muito bem! Mas tu… deixas-te olhar pelo Senhor? Sim, deixar-se olhar pelo Senhor. Ele olha-nos, e esta é uma maneira de rezar. Deixas-te olhar pelo Senhor? Mas, como se faz? Olhas para o Sacrário e deixas-te olhar… é simples! É um pouco maçador, adormeço… Se adormeceres, adormeces! Ele olhar-te-á igualmente, olhar-te-á igualmente. Mas, teres a certeza de que Ele te olha é muito mais importante do que o título de catequista: faz parte do ser catequista. Isto inflama o coração, mantém aceso o fogo da amizade com o Senhor, faz-te sentir que Ele verdadeiramente olha para ti, está perto de ti e te ama. Numa das saídas que tive, aqui em Roma, por ocasião de uma Missa, aproximou-se um senhor, relativamente jovem, e disse-me: «Padre, prazer em conhecê-lo; mas eu não acredito em nada! Não tenho o dom da fé!» Ele entendia que a fé era um dom. «Não tenho o dom da fé! Que me recomenda o senhor?» «Não desanimes! Deus ama-te. Deixa-te olhar por Ele. E basta». O mesmo vos digo a vós: Deixai-vos olhar pelo Senhor! Compreendo que, para vós, não é tão simples: especialmente para quem é casado e tem filhos, é difícil encontrar um tempo longo de tranquilidade. Mas, graças a Deus, não é necessário que todos façam da mesma maneira; na Igreja, há variedade de vocações e variedade de formas espirituais; o importante é encontrar o modo adequado para estar com o Senhor; e isto pode acontecer, é possível em todos os estados de vida. Neste momento, cada um pode interrogar-se: Como é que eu vivo este «estar» com Jesus? Esta é uma pergunta que vos deixo: «Como é que eu vivo este estar com Jesus, este permanecer em Jesus?» Tenho momentos em que permaneço na sua presença, em silêncio, e me deixo olhar por Ele? Deixo que o seu fogo inflame o meu coração? Se, no nosso coração, não há o calor de Deus, do seu amor, da sua ternura, como podemos nós, pobres pecadores, inflamar  o coração dos outros? Pensai nisto!

       2. O segundo elemento é este – dois – recomeçar de Cristo significa imitá-Lo na saída de Si mesmo para ir ao encontro do outro. Trata-se de uma experiência maravilhosa, embora um pouco paradoxal. Porquê? Porque, quem coloca Cristo no centro da sua vida, descentraliza-se! Quanto mais te unes a Jesus e Ele Se torna o centro da tua vida, tanto mais Ele te faz sair de ti mesmo, te descentraliza e abre aos outros. Este é o verdadeiro dinamismo do amor, este é o movimento do próprio Deus! Sem deixar de ser o centro, Deus é sempre dom de Si, relação, vida que se comunica... E assim nos tornamos também nós, se permanecermos unidos a Cristo, porque Ele faz-nos entrar neste dinamismo do amor. Onde há verdadeira vida em Cristo, há abertura ao outro, há saída de si mesmo para ir ao encontro do outro no nome de Cristo. E o trabalho do catequista é este: por amor, sair continuamente de si mesmo para testemunhar Jesus e falar de Jesus, anunciar Jesus. Isto é importante, porque é obra do Senhor: é precisamente o Senhor que nos impele a sair.
       O coração do catequista vive sempre este movimento de «sístole-diástole»: união com Jesus - encontro com o outro. Existem as duas coisas: eu uno-me a Jesus e saio ao encontro dos outros. Se falta um destes dois movimentos, o coração deixa de bater, não pode viver. Recebe em dom o querigma e, por sua vez, oferece-o em dom. Importante esta palavrinha: dom! O catequista está consciente de que recebeu um dom: o dom da fé; e dela faz dom aos outros. Isto é maravilhoso! E não reserva uma percentagem para si! Tudo aquilo que recebe, dá-o. Aqui não se trata de um negócio! Não é um negócio! É puro dom: dom recebido e dom transmitido. E o catequista está ali, nesta encruzilhada de dom. Isto está na própria natureza do querigma: é um dom que gera missão, que impele sempre para além de si mesmo. São Paulo dizia: «O amor de Cristo nos impele»; mas esta expressão «nos impele» também se pode traduzir por «nos possui». É assim o amor: atrai-te e envia-te, toma-te e dá-te aos outros. É nesta tensão que se move o coração do cristão, especialmente o coração do catequista. Perguntemo-nos, todos: É assim que bate o meu coração de catequista: união com Jesus e encontro com o outro? Com este movimento de «sístole e diástole»? Alimenta-se na relação com Ele, mas para O levar aos outros e não para o reter? Eis o que vos digo: Não compreendo como possa um catequista ficar parado, sem este movimento. Não compreendo!

       3. E o terceiro elemento – três – situa-se também nesta linha: recomeçar de Cristo significa não ter medo de ir com Ele para as periferias. Isto traz-me à mente a história de Jonas, uma figura muito interessante, especialmente nos nossos tempos de mudanças e incerteza. Jonas é um homem piedoso, com uma vida tranquila e bem ordenada; isto leva-o a ter bem claros os seus esquemas e a julgar rigidamente tudo e todos segundo esses esquemas. Vê tudo claro, a verdade é esta. É rígido! Por isso, quando o Senhor o chama e lhe diz para ir pregar à grande cidade pagã de Nínive, Jonas não quer. Ir lá! Mas eu tenho toda a verdade aqui! Não quer ir… Nínive está fora dos seus esquemas, está na periferia do seu mundo. Então escapa, vai para Espanha, foge, embarca num navio que vai para aqueles lados . Ide ler o Livro de Jonas! É breve, mas é uma parábola muito instrutiva, especialmente para nós que estamos na Igreja.
       Que nos ensina? Ensina-nos a não ter medo de sair dos nossos esquemas para seguir a Deus, porque Deus vai sempre mais além. Sabeis uma coisa? Deus não tem medo! Sabíeis isto?! Não tem medo! Ultrapassa sempre os nossos esquemas! Deus não tem medo das periferias. Se fordes às periferias, encontrá-Lo-eis lá. Deus é sempre fiel, é criativo. Mas, por favor, não se compreende um catequista que não seja criativo. A criatividade é como que a coluna do ser catequista. Deus é criativo, não se fecha, e por isso nunca é rígido. Deus não é rígido! Acolhe-nos, vem ao nosso encontro, compreende-nos. Para sermos fiéis, para sermos criativos, é preciso saber mudar. Saber mudar. E porque devo mudar? É para me adequar às circunstâncias em que devo anunciar o Evangelho. Para permanecermos com Deus, é preciso saber sair, não ter medo de sair. Se um catequista se deixa tomar pelo medo, é um covarde; se um catequista se fecha tranquilo, acaba por ser uma estátua de museu: e temos muitos! Temos muitos! Por favor, estátuas de museu, não! Se um catequista é rígido, torna-se encarquilhado e estéril. Pergunto-vos: Alguém de vós quer ser covarde, estátua de museu ou estéril? Algum de vós tem vontade de o ser? [catequistas: Não!] Não? Têm a certeza? … Está bem! Aquilo que vou dizer agora, já o disse muitas vezes; mas sinto no coração que o devo dizer. Quando nós, cristãos, estamos fechados no nosso grupo, no nosso movimento, na nossa paróquia, no nosso ambiente, permanecemos fechados; e acontece-nos o que sucede a tudo aquilo que está fechado: quando um quarto está fechado, começa a cheirar a mofo. E se uma pessoa está fechada naquele quarto, adoece! Quando um cristão está fechado no seu grupo, na sua paróquia, no seu movimento, está fechado, adoece. Se um cristão sai pelas estradas, vai às periferias, pode acontecer-lhe o mesmo que a qualquer pessoa que anda na estrada: um acidente. Quantas vezes vimos acidentes estradais! Mas eu digo-vos: prefiro mil vezes uma Igreja acidentada que uma Igreja doente! Prefiro uma Igreja, um catequista que corra corajosamente o risco de sair, que um catequista que estude, saiba tudo, mas sempre fechado: este está doente. E às vezes está doente da cabeça…

       Atenção, porém! Jesus não diz: Ide, arranjai-vos. Não, não diz isso! Jesus diz: Ide, Eu estou convosco! Nisto está o nosso encanto e a nossa força: se formos, se sairmos para levar o seu Evangelho com amor, com verdadeiro espírito apostólico, com franqueza, Ele caminha connosco, precede-nos, - digo-o em espanhol – nos «primerea». O Senhor sempre nos «primerea»!  Decerto já aprendestes o significado desta palavra!. E isto é a Bíblia que o diz, não eu. A Bíblia diz, ou melhor, o Senhor diz na Bíblia: Eu sou como a flor da amendoeira. Porquê? Porque é a primeira flor que desabrocha na primavera. Ele é sempre o «primero»! Ele é o primeiro! Para nós, isto é fundamental: Deus sempre nos precede! Quando pensamos que temos de ir para longe, para uma periferia extrema, talvez nos assalte um pouco de medo; mas, na realidade, Ele já está lá: Jesus espera-nos no coração daquele irmão, na sua carne ferida, na sua vida oprimida, na sua alma sem fé. Vós sabeis uma das periferias que me faz tão mal, tão mal que me faz doer (senti-o na diocese que tinha antes)? É a das crianças que não sabem fazer o Sinal da Cruz. Em Buenos Aires, há muitas crianças que não sabem fazer o Sinal da Cruz. Esta é uma periferia! É preciso ir lá! E Jesus está lá, espera por ti para ajudares aquela criança a fazer o Sinal da Cruz. Ele sempre nos precede.
     Amados catequistas, acabaram-se os três pontos. Recomeçar sempre de Cristo! Agradeço-vos pelo que fazeis, mas sobretudo porque estais na Igreja, no Povo de Deus em caminho, porque caminhais com o Povo de Deus. Permaneçamos com Cristo – permanecer em Cristo –, procuremos cada vez mais ser um só com Ele; sigamo-Lo, imitemo-lo no seu movimento de amor, no seu sair ao encontro do homem; e saiamos, abramos as portas, tenhamos a audácia de traçar estradas novas para o anúncio do Evangelho.
       Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos acompanhe! Obrigado!
        Maria é nossa Mãe; Maria, sempre, nos leva a Jesus! Elevemos uma oração, uns pelos outros, a Nossa Senhora [Ave Maria]. [Bênção]. Muito obrigado!


FONTE: AQUI

António Spadaro - Ciberteologia

       António Spadaro, estudioso jesuíta que há poucos dias entrevistou o Papa Francisco, em entrevista memorável. Veja-se aqui a sua intervenção em Fátima, nas Jornadas Nacionais da Comunicação Social:


sábado, 5 de outubro de 2013

XXVII Domingo do Tempo Comum - ano C - 6 de outubro

       1 – O Papa Bento XVI, ao convocar o Ano da Fé, quis colocar a Igreja a refletir e a avivar as raízes da sua fé, a tornar mais visível a esperança, testemunhando-a em obras concretas, na transformação pessoal e comunitária. Iniciou-se 11 de outubro de 2012, 50 anos passados sobre a grande bênção para a Igreja que foi o Concílio Vaticano II, oportunidade para a Igreja se tornar Sacramento de Salvação, sinal e expressão da Presença de Cristo no mundo. Sob a inspiração do Espírito Santo, a Igreja foi chamada a meditar em Si mesma para melhor servir a Palavra de Deus e tornar mais efetivo o compromisso com os homens e as mulheres deste tempo. 20 anos após a publicação do Catecismo da Igreja Católica, a síntese mais completa dos ensinamentos, verdades, vivências da fé católica, para que os crentes apreendam toda a riqueza que os une e possam comunicar a beleza e a riqueza do Evangelho, em linguagem compreensível nos dias que passam, traduzida em palavras e gestos de partilha solidária e de comunhão fraterna.
       É de FÉ que HOJE a liturgia da Palavra nos fala.
       O pedido humilde dos apóstolos: «Aumenta a nossa fé».
       A resposta decidida de Jesus:
«Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: ‘Arranca-te daí e vai plantar-te no mar’, e ela obedecer-vos-ia. Quem de vós, tendo um servo a lavrar ou a guardar gado, lhe dirá quando ele voltar do campo: ‘Vem depressa sentar-te à mesa’? Não lhe dirá antes: ‘Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires, até que eu tenha comido e bebido. Depois comerás e beberás tu’? Terá de agradecer ao servo por lhe ter feito o que mandou? Assim também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: ‘Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer’». 
       Jesus desafia à confiança, viver a fé de forma humilde mas simultaneamente corajosa, sem reservas, como o senhor que ordena o serviço aos seus servos, sem falsas modéstias, não deixando que as dúvidas e hesitações momentâneas se tornem paralisantes. Viver a fé como quem se lança numa aventura, como aposta, um salto no escuro, ou melhor um salto na LUZ de Jesus Cristo, que nos mostra o Pai e tudo o que nos ampara, o AMOR, do qual nem a morte nos separará. A fé envolve a confiança e a entrega. Como a criança se lança de encontro aos braços da mãe/pai, sem calculismos. Com a idade, a pessoa deixa de se atirar... Nem sempre é fácil!
       A propósito, uma significativa imagem de Santo Agostinho: “ter fé é assinar uma folha em branco e deixar que Deus escreva nela o que quiser”. Temos consciência que é mais fácil pedir a Deus que se faça a nossa vontade e não tanto a Sua, como rezamos no Pai-nosso.
       2 – Na primeira carta Encíclica, Lumen Fidei, o Papa Francisco, em sintonia estreita com Bento XVI, diz-nos que a fé é sobretudo luz, ainda que haja momentos de grande sofrimento, em que a dúvida assola, em que a confiança fica abalada, como se o chão debaixo de nós estivesse a desaparecer. Com efeito, “a fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho... o serviço da fé ao bem comum é sempre serviço de esperança que nos faz olhar em frente, sabendo que só a partir de Deus, do futuro que vem de Jesus ressuscitado, é que a nossa sociedade pode encontrar alicerces sólidos e duradouros” (n.º 57).
       O profeta Habacuc ajuda-nos a formular os nossos medos, melhor, os sofrimentos que atrapalham a nossa confiança em Deus, e no futuro. Há momentos em que a vida parece madrasta. Pedimos sinais e não vemos com clareza um caminho, uma abertura. Tudo parece em vão, fugidio, injustificável. Tristeza. Solidão. Doença. Traição. Morte de alguém próximo. Expetativas defraudadas, em relação a um emprego, a uma pessoa, a uma situação do dia-a-dia.
       Se há em nós resíduos de fé, ainda que tenhamos o coração atolado de dúvidas, lá vamos questionando Deus: «Até quando, Senhor, chamarei por Vós e não me ouvis? Até quando clamarei contra a violência e não me enviais a salvação? Porque me deixais ver a iniquidade e contemplar a injustiça? Diante de mim está a opressão e a violência, levantam-se contendas e reina a discórdia?» 
       E Deus não deixará de nos responder. Não se eliminam as dúvidas e contrariedades, mas sobrevém a presença de Deus, que nos atrai do futuro, da eternidade: «Põe por escrito esta visão e grava-a em tábuas com toda a clareza, de modo que a possam ler facilmente. Embora esta visão só se realize na devida altura, ela há de cumprir-se com certeza e não falhará. Se parece demorar, deves esperá-la, porque ela há de vir e não tardará. Vede como sucumbe aquele que não tem alma reta; mas o justo viverá pela sua fidelidade». 
       Só em Deus, através da Luz da Fé (Lumen Fidei), encontramos alicerces sólidos e verdadeiros que nos permitem viver e contruir laços de amizade, de ternura e de comunhão, e mutuamente procurar ultrapassar, compreender, relativizar tudo o que entendemos ser empecilho. A certeza de que Deus, Pai/Mãe, está na nossa vida, assegura-nos um chão que nos permite viver confiantes, apesar dos tropeços que encontramos no caminho.

        3 – Senhor, aumenta a nossa fé. Não apenas a minha fé, mas a fé da Igreja, vivida em comunidade, partilhada, celebrada. Imaginemos, como há tempos referia o Papa Francisco, que estamos num estádio de futebol, às escuras, e se acende uma pequena de luz (um isqueiro, uma vela), e cada um acende a sua pequena luz. Com cada pequena luz acesa, em conjunto, o estádio fica mais iluminado, sendo possível ver pessoas e os seus rostos.
       A fé, individual, isolada, privada, é uma mentira. Ou meia verdade. Fica incompleta. A fé acolhe-se pessoalmente, mas necessita de se expressar e exercitar em comunidade, senão esmorece. É como os sentimentos. Não posso amar sozinho. Amar e ser amado, é o desiderato essencial da vida. Mas como amar se não tiver a quem? Como me sentir amado, se não houver ninguém. Assim a fé, ou pelo menos a fé em Cristo Jesus.
       O apóstolo são Paulo exorta Timóteo a reavivar o dom de Deus, nele e nos outros. Não com timidez, mas com coragem.
“Exorto-te a que reanimes o dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos. Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de caridade e moderação. Não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor, nem te envergonhes de mim, seu prisioneiro. Mas sofre comigo pelo Evangelho, confiando no poder de Deus. Toma como norma as sãs palavras que me ouviste, segundo a fé e a caridade que temos em Jesus Cristo. Guarda a boa doutrina que nos foi confiada, com o auxílio do Espírito Santo, que habita em nós”.
       O desafio de Jesus aos apóstolos é sancionado por Paulo aos discípulos. Mesmo no sofrimento e na perseguição, há que manter firme a fé e a confiança em Deus, continuando a viver segundo a Sua vontade, na caridade e no serviço, confiando no Seu poder, no Seu amor por nós, alimentando-nos da Sua palavra, com o auxílio do Espírito Santo que nos habita.

Textos para a Eucaristia (ano C): Hab 1,2-3; 2,2-4; 2 Tim 1,6-8.13-14; Lc 17,5-10.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

D. Manuel Clemente - Portugal é uma teima

       Pátria marinheira e andarilha, forçosamente assim pela exiguidade da terra, forçosamente assim pela mundialização do mercado, estou realmente em crer que a nossa diáspora é, em boa parte, o nosso futuro. Com as diferenças de hoje, pela potencialidade das comunicações de todo o género. Quase podermos partir ficando e ficar partindo, mas temos portos em todo o lado, nos cinco milhões que somos fora. O que noutros tempos foi forçoso, ganha agora outra força potencialmente criativa.
       O melhor que tempos para o futuro é tanta humanidade acumulada. E este é um futuro onde os outros também cabem, como nós caberemos com os outros, com aquela lucidez que só o tempo apura. Também para a Europa fita o mundo com os olhos portugueses, de mar a mar.

       Sabedoria é saber de experiência feita, ou experiência decantada, assimilada e transformada em vida. Requer um tempo que não é logo dinheiro, assim como induz um conjunto de qualidades e virtudes que não estão hoje em alta: prudência, ponderação, memória histórica, considerações humanistas em geral...

       Sabedoria que requer tempo, muito tempo, para assimilar a experiência, dando-lhe consistência realmente humana, porque refletida, livre e responsável. Perspetiva esta que alterará profundamente o esquema comum de crescimento - plenitude - decadência para o itinerário oposto de ignorância - aprendizagem - sabedoria...

       Portugal culturalmente é uma teima, como geograficamente é uma praia, feita cais de partir e chegar, chegar e partir...
       ... o ficar e o partir se equacionam agora de modo muitíssimo diferente do que ainda há poucos anos nos caraterizava em geral. Mentalmente, ficámos marcados com os êxitos (alguns) e os traumas (muitos) das emigrações forçadas para o Brasil de Oitocentos ou para a França e Alemanha de há meio século e depois....

       Cultura, como aquilo que sabemos antes de aprender tudo o mais e continuamos a saber depois de esquecermos tudo o resto.

in D. Manuel CLEMENTE, O tempo pede uma Nova Evangelização.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

João Paulo I - Procure cada um de vós ser bom

       Ontem à tarde fui a São João de Latrão. Por mérito dos Romanos, por gentileza do Presidente da Câmara e dalgumas autoridades do Governo italiano, foi para mim um acontecimento agradável. Não agradável, pelo contrário, mas doloroso, foi ler há poucos dias nos jornais que um estudante romano fora morto por um motivo fútil, friamente. E mais um de tantos casos de violência que sem descanso vão atormentando esta nossa sociedade, pobre e inquieta.
       E também nestes dias tornou a apresentar-se o caso de Luca Locci, criança de sete anos, raptada há três meses. As vezes diz-se: "estamos numa sociedade toda estragada, toda sem moral". Mas tal afirmação não é verdade. Há ainda tanta gente boa, tanta gente honesta. Pergunte-se antes: Que fazer para melhorar a sociedade? Eu responderia: Procure cada um de nós ser bom e contagiar os outros com uma bondade toda penetrada pela mansidão e pelo amor ensinado por Cristo. A regra de ouro de Cristo foi: "Não fazeres aos outros aquilo que não queres te seja feito a ti. Fazeres aos outros o que queres te seja feito a ti. Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração". E Ele deu sempre. Colocado na cruz, não só perdoou aos que o crucificaram, mas desculpou-os. Disse: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem". Isto é cristianismo, são sentimentos que, se fossem postos em prática tanto ajudariam a sociedade!
       Estamos no 30° aniversário da morte de Georges Bernanos, grande escritor católico. Uma das suas obras mais conhecidas é "Diálogos das Carmelitas". Foi publicada um ano depois da sua morte. Preparara-a tomando como base a narração da escritora alemã Gertrude von Le Fort. Concebera-a para o teatro. Subiu de facto ao teatro. Foi musicada e depois projectada nos "écrans" do mundo inteiro. É conhecidíssima. Pio X, em 1906, precisamente aqui em Roma beatificara as dezasseis Carmelitas de Compiègne, mártires durante a revolução francesa.
       Durante o processo ouviu-se a condenação: "À morte por fanatismo". E uma, na sua simplicidade, perguntou: — "Senhor Juiz, se faz favor, que quer dizer fanatismo?". Responde o juiz: — É pertencerdes tolamente à religião". — "Oh, irmãs!" — disse então a religiosa — "ouvistes, condenam-nos pelo nosso apego à fé. Que felicidade morrer por Jesus Cristo!". Fizeram-nas sair da prisão da Conciergerie, meteram-nas na carreta fatal e elas, pelo caminho, foram cantando hinos religiosos; chegando ao palco da guilhotina, uma atrás doutra ajoelharam-se diante da Prioresa e renovaram o voto de obediência. Depois entoaram o "Veni Creator"; o canto foi-se tornando, porém, cada vez mais débil, à medida que iam caindo, uma a uma, na guilhotina, as cabeças das pobres irmãs. Ficou para o fim a Prioresa, Irmã Teresa de Santo Agostinho; e as suas últimas palavras foram estas: "O amor sempre vencerá, o amor tudo pode". Eis a palavra exacta: não é a violência que tudo pode, é o amor que tudo pode.
       Peçamos ao Senhor a graça de que uma nova onda de amor para com o próximo invada este pobre mundo. 
Audiência Geral, 24 de setembro de 1978: AQUI

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

João Paulo I - cada bom ladrão tem a sua devoção

       Lá em cima, na região de Veneza, ouvia dizer: cada bom ladrão tem a sua devoção. O Papa, devoções, tem várias; entre outras, a de São Gregório Magno, de que hoje ocorre a festa. Em Belluno, o Seminário chama-se gregoriano, em honra de São Gregório Magno. Lá, passei eu sete anos como estudante, e vinte como professor. Dá-se a coincidência de hoje, 3 de Setembro, ter ele sido eleito Papa e começar eu oficialmente o meu serviço à Igreja universal. Ele era romano, e subira a primeiro Magistrado da Cidade. Depois, deu tudo aos pobres, fez-se monge, e veio a ser Secretário do Papa. Falecido este, elegeram-no a ele mas não queria aceitar. Interpôs-se o Imperador, e também o povo. Por último, sempre aceitou, mas escreveu ao seu amigo Leandro, Bispo de Sevilha: "Tenho mais vontade de chorar do que de falar". E à irmã do Imperador: "O Imperador quis que um macaco se tornasse leão". Vê-se que, também naqueles tempos, era difícil ser Papa. Que bom que ele era para os pobres! Converteu a Inglaterra! Sobretudo escreveu livros belíssimos; um é a Regra Pastoral: ensina aos Bispos o seu ofício, mas, na parte final, tem estas palavras: "Eu descrevi o bom pastor, mas não o sou; mostrei a praia da perfeição a que é preciso chegar, mas pessoalmente encontro-me ainda nas tempestades dos meus defeitos, das minhas faltas. Sendo assim, — por favor disse ele — para que não venha a naufragar, lançai-me uma tábua de salvação com as vossas orações". Eu digo o mesmo; mas não é só o Papa que precisa de orações, é também o mundo. Um autor espanhol escreveu: "O mundo vai mal porque há mais batalhas que orações". Procuremos que haja mais orações e menos batalhas. 

Audiência Geral, 3 de setembro de 1978: AQUI

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Últimas imagens de João Paulo I - Papa do Sorriso

       O Papa Luciani foi eleito em 26 de agosto de 1978 (o antecessor, Papa Paulo VI morreu em 6 de agosto de 1978), escolhendo o nome de João Paulo I (fazendo a síntese entre os papas João XXIII e Paulo VI ) e morreu no dia 28 de setembro de 1978. O seu pontificado foi curto - 33 dias - mas o Seu sorriso ficou para sempre como marca deste pontificado. Eis as últimas imagens:


Vale a pena ler as palavras do Papa sobre a escolha do nome, em 27 de agosto de 1978:
       Ontem de manhã fui para a Sistina votar tranquilamente. Nunca poderia imaginar o que estava para acontecer. Apenas começou o perigo para mim, os dois Colegas que estavam ao meu lado sussurraram-me palavras de coragem. Um disse: "Coragem! Se o Senhor dá um peso, concede também a ajuda para levá-lo". E o outro Colega: "Não tenha receio, em todo o mundo há tanta gente que ora pelo Papa novo". Chegado o momento, aceitei. Depois tratou-se do nome, porque é perguntado também que nome se quer tomar, e eu pouco tinha pensado.
       Fiz então este raciocínio: o Papa João quis consagrar-me com as suas mãos, aqui na Basílica de São Pedro; depois, se bem que indignamente, em Veneza, sucedi-lhe na Cátedra de São Marcos, naquela Veneza que ainda está inteiramente cheia do Papa João. Recordam-no os gondoleiros, as Irmãs, todos. Depois o Papa Paulo não só me fez Cardeal, mas alguns meses antes, numa das pontes então colocadas na Praça de São Marcos, fez que me pusesse todo vermelho diante de 20.000 pessoas, porque levantou a estola e ma lançou sobre os ombros! Nunca me tinha posto tão vermelho! Por outro lado, em 15 anos de pontificado, este Papa mostrou, não só a mim, mas a todo o mundo, como se ama, como se serve, como se trabalha e como se sofre pela Igreja de Cristo.
       Por isso, disse: "Chamar-me-ei João Paulo". Eu não tenho nem "a sabedoria de coração" do Papa João, nem a preparação e a cultura do Papa Paulo. Estou, porém, no lugar deles e devo procurar servir a Igreja. Espero que me ajudeis com as vossas orações.

Manuel Clemente - O tempo pede uma Nova Evangelização

D. MANUEL CLEMENTE, O tempo pede uma Nova Evangelização. Paulinas Editora. Prior Velho 2013, 160 páginas.
 
       O atual Patriarca de Lisboa e Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, catedrático, licenciado em História e em Teologia, é um escritor muito acessível, envolvente, comunicador por excelência. Esteve, juntamente com o Bispo de Lamego, D. António Couto, Presidente da Comissão Episcopal da Missão e Nova Evangelização, no Sínodo Extraordinário dos Bispos sobre a Nova Evangelização para a transmissão da Fé, realizado no Vaticano, no início de outubro de 2012.
       Este livro, que se lê de uma assentada, retrata a Nova Evangelização, a urgência de evangelizar de novo, e sempre, com alegria, com entusiasmo, aproveitamento tudo o que de bom existe, potenciando os meios de comunicação social, aprendendo da História, colhendo a sabedoria dos mais velhos, mas também criando possibilidades para os jovens, que estes cheguem de outros países.
       D. Manuel vai às origens da Nova Evangelização, quanto a utilização do termo, da insistência de João Paulo II, da prossecução desta clareza em Bento XVI, que se estende às estruturas eclesiais e sobretudo a todas as pessoas da Igreja, apostando na vivência da Palavra de Deus, testemunhando Jesus Cristo.
       O livro recolhe diversas intervenções de D. Manuel Clemente, em ambiente eclesial, universitário, para diferentes auditórios, e que foram revistos e aprofundados em ordem à publicação deste livro.
       A dimensão histórica está bem vincada. O cristianismo ao longo dos tempos. Como bem clara é a história de Portugal e dos portugueses, com as suas lutas, sonhos, avanços e recuos, partidas e chegadas, com mistura de diversas culturas e povos.
       No primeiro texto, as CINCO grandes EVANGELIZAÇÕES. A primeira evangelização foi sobretudo a dos mártires, nos primeiros séculos. A segunda evangelização, com o desaparecimento da estrutura imperial, centra-se sobretudo no campo, a partir do século V, com os monges. A terceira evangelização, século XII e seguintes, crescimento populacional, animação comercial, capitalização e reurbanização, com novos evangelizadores, sobretudo com os mendicantes, discípulos de São Francisco de Assis e de São Domingos de Gusmão. No século XVI voltou a ser urgente evangelizar de novo, quarta grande evangelização, com as paróquias e as dioceses a precisarem de pastores mais dedicados e presentes. Nas últimas décadas a constatação da urgência de novamente evangelizar, quinta evangelização, com os grande reptos: a) sociedade fragilizada nas famílias... b) cultura com notas de fragmentação, errância e retraimento subjetivo... c) com o contraponto de grandes generosidades de pessoas e grupos... d) a "nova evangelização" terá que retomar o contributo das quatro anteriores - testemunho evangélico (mártires), experiência comunitária de adoração e serviço (monges), proximidade com todos, de pobres para pobres (frades), evangelização permanente do mundo em redor (missionários)...
       Seguem-se depois outros textos muito interessantes, situando de maneira privilegiada a alma português e dos portugueses, desde a fundação da nacionalidade, descobrimentos, descoberta de novos mundos, ir e chegar, partir e voltar, a religiosidade, piedade popular, a cultura, os usos e costumes, assimilação de outras influências, dos que vêm e ficam, ou dos que vão e voltam para ficar.
       É uma leitura agradável e recomendável para crentes e não crentes, para quem sabe para onde vai e para quem anda em busca de caminho, para quem quiser conhecer os contributos da religião na cultura na alma e na história portuguesa, e o contributo da história para viver melhor a religião, a fé cristã. Vejam-se os dois últimos textos - "Os portugueses em 2030" e "A nossa vida é uma corrente que flui". Partir do passado, conhecer a alma e o povo, para lançar os desafios de hoje e de amanhã e, por outro lado, o testemunho pessoal. No último texto, D. Manuel Clemente parte da água em que enxertou a sua corrente e como a sua corrente desembocou em outras correntes e profundidades...