sábado, 30 de agosto de 2014

XXII Domingo do Tempo Comum - ano A - 31 de agosto

       1 – E vós que dizeis que Eu sou? Pergunta essencial que Jesus nos faz sobre o testemunho que estamos dispostos a dar, identificando-nos com Ele e permitindo que Ele transpareça em nós, através de nós, diante de todas as pessoas que encontramos.
       Pedro, como víamos, responde também por nós. Tu és o Messias, o Filho de Deus. Isto é, não és um dos profetas, és o Messias de Deus, és único para mim. Seguir-Te-ei por onde fores.
       Tu és Pedro, pedra, sobre ti edificarei a minha Igreja. Recordava o nosso Bispo, D. António Couto, que aquela pedra, que é Pedro, é frágil, esburacada, alcofa, berço, para nele e através dele, e também em nós e através de nós, Cristo possa agir no mundo.
       A profissão de fé de Pedro é reveladora. Mas a consciência do que acaba de dizer parece não ter ainda a consistência do seguimento, a luz da fé que brotará com toda a força na Ressurreição de Jesus Cristo.
       O Mestre vai prevenindo os seus discípulos para que não se deixam iludir por facilidades. Ele é o Messias, o Enviado de Deus, mas não dispensa ninguém de trabalhar, de fazer o seu próprio caminho. Ele é Guia, mas não nos substitui os pés, a vontade. Teremos que viver a nossa vida, enfrentando os dias bons e os dias nebulosos. Ele estará sempre connosco. Sempre de mão estendida para não nos deixar afundar. Esta confiança que nos vem da fé ajuda-nos a encarar as intempéries que advirão pelo caminho.
       O Filho do Homem, que é também o Filho de Deus, vai sofrer. Vai passar as passas do Algarve, vai ser entregue às autoridades e será morto. No entanto, não há que se deixar afugentar pela morte, pois a ressurreição, três dias depois, trará a vitória do amor, da entrega, a vitória de Deus sobre o mal, a injustiça, o sofrimento.
       2 – Quando nos dão uma má notícia deixamos de ter disponibilidade para boas notícias. Os discípulos já não ouvem Jesus a falar de ressurreição e logo Pedro O contesta, dizendo: «Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há de acontecer!».
       Jesus volta-Se para Pedro e diz-lhe: «Vai-te daqui, Satanás. Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens». E logo para todos os discípulos, que hoje somos nós: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, há de encontrá-la. Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? Que poderá dar o homem em troca da sua vida? O Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus Anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras».
       Aí estão as linhas de orientação para sermos verdadeiramente discípulos, seguidores de Jesus. Seguir atrás do Mestre. Quando queremos ir à frente, ou sem Jesus Cristo e o Seu Evangelho de amor e de perdão, corremos o risco de perder a vida em vão. É preciso sermos aquela pedra frágil cuja força nos vem do alto, de Jesus Cristo, pelo Espírito Santo. Precisamos de não impedir que Deus trabalhe em nós e através de nós. Podemos ter o mundo inteiro nas mãos, mas se nos faltar a caridade, faltar-nos-á a própria vida, como dom partilhável. Precisamos de GASTAR a vida a favor dos outros, a exemplo de Jesus que dá a vida pela humanidade inteira.
       3 – Há tantos caminhos quantas as pessoas. Resposta do então Cardeal Joseph Ratzinger, em Sal da Terra (1996), quando lhe perguntaram quantos caminhos havia para Jesus Cristo, lembrando que a própria Igreja é definida como caminho de Cristo. Ou Jesus, como único caminho que nos conduz ao Pai.
       Dito isto, facilmente se conclui que cada um é chamado a fazer o seu próprio caminho. Mas não estamos sós. A reprimenda dada a Pedro surge neste contexto. Se queremos passar à frente de Jesus ou prosseguir sem Ele, estaremos sob o domínio de Satanás, diabolizando a nossa ligação com os outros. Há que avançar seguindo Jesus, procurando orientar-nos pelas suas pegadas.
       No campo ou na cidade, os pais levam a criança pela mão. Ou, vão à frente (na vida), dando o exemplo pela palavra e pela postura. A criança larga a mão dos pais e pode perder-se se avança demasiado ou se se atrasa e deixa de os ver. Seguimos por um trilho, por entre giestas, arvoredo, e procuramos que os nossos pés pisem onde outros pisaram, ainda que as nossas pegadas sejam nossas. Será mais seguro, pois sabemos que aqueles que nos precederam trilharam caminhos que nos dão segurança, sem nos iludirmos no arvoredo, com o perigo de tropeçarmos numa pedra, ou cairmos em algum buraco, ou irmos diretos a uma ribanceira. Ainda que possamos retomar a caminhada.
       Cai neve que cobre por completo o chão que pisamos. Se alguém já passou, nós vamos prosseguindo sabendo onde podemos pisar com segurança. Deslocámo-nos por um caminho que desconhecemos. Nada melhor que uma bússola ou o GPS. Isto mesmo diz Jesus a Pedro. Afasta-te de Mim. Passa para trás. Eu Sou o alfa e o ómega, o Teu Norte. Vem por Mim e serás salvo. A minha Palavra é bússola para o teu peregrinar, o meu Evangelho é o melhor GPS para saberes para onde vais. Chega mais depressa não quem corre mais mas quem sabe para onde ir. Quem se mete em atalhos pode muito bem meter-se numa carga de trabalhos. Seguir no encalço de Jesus dá-nos a confiança para prosseguirmos com alegria, criatividade, segurança, sabendo que encontraremos dificuldades, mas sabendo também que o nosso olhar não se despegará do de Jesus.
       Por outro lado, o testemunho dos santos, ou de pessoas luminosas que vamos encontrando nas nossas comunidades, cuja vivência de compromisso com os irmãos, nos leva, ainda hoje, a descobri mais facilmente as pegadas de Jesus. Voltando ao exemplo anterior, seguindo um trilho, se outros forem decalcando as pegadas que encontram, tornam-se mais visíveis para nós.

       4 – São Paulo admoesta, ao jeito de Jesus, para que não nos conformemos com o tempo presente, com este mundo, com os nossos interesses, mas em tudo procuremos "o que é bom, o que Lhe é agradável, o que é perfeito", discernindo segundo a vontade de Deus.
       Se nos preocuparmos apenas connosco e com o nosso umbigo, conformar-nos-emos com o mundo, deixando-nos transformar por ele. Mas, seguindo Jesus, deveremos gastar a nossa vida para transformar o mundo, oferecendo-nos a nós "mesmos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, como culto espiritual", sob o domínio da misericórdia de Deus. Vivamos à sombra das Suas asas (Salmo)!
       Esta é a nossa vocação: fazer com que o nosso caminho, seguindo a vontade de Deus, nos aproxime do caminho que é Jesus Cristo. Se nos faltarem as forças, não temamos pois a nossa vida está unida a Deus, cuja mão nos serve de amparo (Salmo).
       Jeremias sente, como Pedro, como Paulo, e como nós, o chamamento de Deus ao qual não pode virar costas, ou fazer de conta. O profeta reconhece as dificuldades do caminhos, mas sabe que não lhe cabe desistir: "Em todo o tempo sou objeto de escárnio, toda a gente se ri de mim; porque sempre que falo é para gritar e proclamar: «Violência e ruína!». E a palavra do Senhor tornou-se para mim ocasião permanente de insultos e zombarias. Então eu disse: «Não voltarei a falar n’Ele, não falarei mais em seu nome». Mas havia no meu coração um fogo ardente, comprimido dentro dos meus ossos. Procurava contê-lo, mas não podia".
       Por vezes pode ser mais fácil deixar andar, ao sabor do vento. Mas se Ele verdadeiramente nos seduziu, a Sua voz há de ressoar dentro de nós até ao Infinito. Mas também a Sua Mão nos guiará.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano A): Jer 20, 7-9; Sal 62 (63); 2 Rom 12, 1-2; Mt 16, 21-27.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

APONTAMENTOS na Voz de Lamego: CONTRA TUDO

       O meu bisavô era contrabandista. O meu avô contra-mestre. O meu pai, contrabaixo. Seguindo a tradição também eu teria que ser contra. Sou contra tudo. O que disserem e fizeram eu sou contra.
       Pequeno episódio contada por um amigo paroquiano e que se referia a um colega cuja opinião, em todas as matérias, era contra, mesmo antes de explicarem, mesmo que posteriormente até participasse com gosto em tais propostas.
       Há pessoas assim, cujo ponto de partida é ser (do) contra. Um pouco como algumas crianças: dizemos sim e elas dizem não, nós dizemos não e elas dizem sim. Como adultos devemos ser como as crianças na sua espontaneidade, mas não infantis. “Ser contra tudo”, por princípio, só por que vem do outro, parece-me um absurdo que nos encerra na estupidez. “Só os estúpidos e os sábios não mudam”, diz um ditado oriental. Sábios talvez ainda não sejamos, não queiramos morrer burros. Estamos cá, neste mundo, para aprender alguma coisa. E contribuirmos para um mundo melhor. De contrário seremos apenas parasitas. Também como cristãos.
       Jesus era inclusivo. Para Ele não importa a origem ou a condição da pessoa, homem ou mulher, judeu ou pagão, samaritano ou grego, pobre ou rico. Importante mesmo é que cada pessoa descubra a sua dignidade de filho de Deus e aja como irmão de todos. Jesus vem para nos redimir, para nos reintroduzir na comunhão de Deus, construindo a fraternidade baseada nos laços fortes do amor e da compaixão.
       A determinada altura, os discípulos proíbem alguns homens que faziam o bem em nome de Jesus, pois não faziam parte do grupo. Jesus diz-lhes claramente que não é importante o grupo a que pertencem mas o bem que fazem.
       Preconceituosamente, muitas vezes para lermos um livro, valorizarmos um projeto, acolhermos uma ideia, perguntamos de quem vem. Queria ler um outro autor, por ser conhecido e muitas vezes referido como possível candidato a Prémio Nobel. A obra escolhida será interessante, mas para mim foi intragável avançar além das 10 a 20 páginas.
       A atitude do cristão, mas também de todo bom cidadão, deverá ser de inclusão, generosidade em relação aos outros, humildade em causa própria. Ao jeito de Jesus. O bem que vem dos outros não nos diminui. Numa discussão, que promova a escuta, o respeito, a caridade, é possível enriquecermo-nos mutuamente. Argumentar com alguém não é um mal em si mesmo. Só deixa de ser benéfico quando só nos ouvimos a nós, tornando-nos surdos aos outros. Em vez de pensarmos no que vamos responder, seria de todo interessante ouvirmos com atenção o que o outro tem para dizer, pois por vezes está exatamente a dizer o que diríamos a seguir.

publicado originalmente na Voz de Lamego, n.º 4276, de 19 de agosto de 2014.

Não entrais nem deixais entrar...

       "A graça e a paz vos sejam dadas da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. Devemos dar contínuas graças a Deus por vós, irmãos, como é justo, porque a vossa fé faz grandes progressos e o amor de uns pelos outros vai aumentando em todos vós. Assim nós mesmos nos gloriamos de vós nas Igrejas de Deus, por causa da vossa perseverança e da vossa fé, no meio de todas as perseguições e tribulações que suportais" (2 Tes 1, 1-5.11b-12).
       Disse Jesus: «Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque fechais aos homens o reino dos Céus: vós não entrais nem deixais entrar os que o desejam. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque dais volta ao mar e à terra, para fazerdes um convertido, mas, tendo-o conseguido, fazeis dele um merecedor da Geena, duas vezes mais do que vós. Ai de vós, guias cegos, que dizeis: ‘Quem jurar pelo santuário a nada se obriga; mas quem jurar pelo ouro do santuário tem de cumprir’. Insensatos e cegos! Que vale mais: o ouro ou o santuário que santifica o ouro? Dizeis também: ‘Quem jurar pelo altar a nada se obriga; mas quem jurar pela oferenda que está sobre o altar tem de cumprir’. Cegos! Que vale mais: a oferenda ou o altar que santifica a oferenda? Na verdade, quem jura pelo altar jura por tudo o que está sobre ele. E quem jura pelo Santuário jura por ele e por Aquele que o habita. E quem jura pelo Céu jura pelo trono de Deus e por Aquele que nele está sentado» ( Mt 23, 13-22).

       Optámos, hoje, por colocar dois textos: o primeiro da 2.ª Epístola de São Paulo aos Tessalonissenses e o segundo do Evangelho de São Mateus. São Paulo alegra-se pelos progressos da comunidade. É motivo de louvor e de agradecimento. Apesar das tribulações, a fé aumentou.
       No Evangelho, Jesus adverte os fariseus (e naturalmente todos, em algumas situações, poderemos viver em atitude farisaica) para as contradições da vida, o que fazem e o que exigem aos outros. Jesus sublinha o facto de se fecharem à graça de Deus e impedirem que outros usufruam da bondade divina...

sábado, 23 de agosto de 2014

XXI Domingo do Tempo Comum - ano A - 24 de agosto

– Sabes, ouvi uns comentários a teu respeito que me deixaram confuso e aborrecido.
– Ai sim, e são assim tão maus?!
– Preferia não ter ouvido e que não te chegasse aos ouvidos. Mas quero que ouças por mim, antes que alguém distorça ainda mais o que ouvi.
– Mas achas que é importante o que ouviste? A quem é que ouvistes?
– A umas pessoas! Ouvi ao povo!
– Ao povo ou a algumas pessoas?
– Na verdade ouvi a fulano X.
– E achas que é de confiança, dás crédito ao que ele te disse?
– Sim, ele ouviu dizer. Eu acredito nele. É de confiança. Não me ia mentir.
– Então não ouviste em primeira mão?
– Não, mas como mo venderam assim to vendo. E confio em quem me contou.
– E quem lhe contou a ele? Será de confiança? Quem disse isso afinal?
– Não sei, mas sei que quem mo disse merece a minha confiança. Quem lhe disse a ele não sei porque ele não quis dizer. Penso que não iria inventar!
       1 – Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência. Mas poderia acontecer. Querermos saber o que outros dizem de nós, ou por autorrecriação virem dizer-nos mesmo sem querermos saber. Jesus faz esta pergunta aos discípulos: quem dizem os homens que é o filho do homem? O que tendes ouvido dizer?
       Facilmente poderemos concluir que os discípulos, próximos de Jesus, interessados no Seu sucesso, na primeira linha para beneficiarem dessa ligação, estão atentos a tudo o que diz respeito ao Mestre. Quando pergunta, Jesus sabe o que perturba e incomoda os seus discípulos. Eles estão inquietos com o que se diz. Não pomos em causa a amizade que Lhe têm, ainda que misturada com outros sentimentos e desejos.
       Então Jesus avança um pouco mais. E vós, vós quem dizeis que Eu sou?
       Já não é tempo para a opinião dos outros, mas de reafirmar a amizade, os laços que nos unem a Jesus. Quem és Tu para nós, Senhor? Que lugar Te damos na nossa vida? Que aspetos da nossa vida se identificam com a Tua Mensagem de perdão e de amor? Quantas escolhas fazemos perguntando-nos o que farias Tu no nosso lugar?
       Voltando à conversa dos dois amigos...
 – E que é que tu pensas? Isso que ouviste é também a tua opinião?
– Tu sabes que não. Nunca diria tal coisa. Sou teu amigo. E se te digo isto é para te avisar. Quem te avisa teu amigo é!
– Sim, mas isso não me interessa. Eu quero saber se tu és meu amigo, com todos os defeitos que eu possa ter. Opiniões que não sei de onde vêm, não me interessam muito, não me fazem perder o sono…
       2 – Adentremo-nos um pouco mais no Evangelho.
       Jesus continua a Sua missão, deslocando-se entre povoações. Entretanto pergunta aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do homem?». Seria diferente se fossem os próprios a dizerem a Jesus o que iam ouvindo acerca d'Ele. Certamente que não se atreveriam a revelar algumas afirmações! Respondem-lhe: «Uns dizem que é João Baptista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas».
       Temos amigos que fazem questão em nos dizer o que não queremos saber. Umas vezes, por amizade, dizem por alto o que ouviram. Outras vezes, dizem-no com todas as letras. E outras vezes, dizendo-nos muito ou pouco, pouco ou nada tem a ver com o que ouviram mas com o que sentem em relação a nós. Diria que os nossos melhores amigos nos poupam a ditos e mexericos, a não ser que o solicitemos, ou com o fito de nos prevenirem. No caso pessoal, prefiro que não me digam mal de ninguém e não me digam quem possa dizer ou querer-me mal. O fundamental é saber e sentir que as pessoas amigas são amigas, e que podemos confiar nelas porque confiam em nós.
       Jesus não valoriza muito a opinião pública.
       Nos dias em que transcorre a nossa vida bem sabemos como a opinião pública é incontornável. Num debate entre políticos, como exemplo, pouco importa o debate em si mesmo, ou a entrevista, mas o que vai contar é a opinião pública, ou melhor, a opinião dos "fazedores de opinião", os comentadores afetos aos próprios, defendendo-os, ou dos pretensamente imparciais.

       3 – Vem a pergunta mais importante: «E vós, quem dizeis que Eu sou?».
       Pedro responde, em nome próprio, mas também assumindo a primazia entre os discípulos, e respondendo por nós, como discípulos deste tempo: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo».
       Quem é Jesus para mim? Que importância tem na minha vida? Que influência tem nas minhas escolhas? Sou o mesmo por ser cristão? Em que é que sou diferente daqueles que não são cristãos? Ou daqueles que não são praticantes? Vivo como se Deus não existisse? Ou Deus tem um papel fundamental em tudo o que faço e em tudo o que digo?
       Para mim, Jesus é verdadeiramente o Filho de Deus que me revela a minha identidade e me desafia a ser irmão dos outros? Ou é um personagem interessante, que falava bem e que tinha gestos originais, mas que morreu e faz parte do passado? Será Alguém que revolucionou ideias e formas de vida, mas não Deus?
       A nossa ligação a Jesus terá de ser "em primeira mão". Se for um carro, talvez fique mais barato em segunda mão, ainda que a garantia possa não ser tão fiável ou por tanto tempo. O que se diz, como víamos, é diferente se for em primeira, em segunda, ou terceira mão. Em absoluto, só poderemos pôr a mão no fogo quando o que transmitimos vem de nós. A nossa fé e a nossa adesão a Jesus Cristo faz-se, primeiramente, pelo que os nossos pais, familiares, comunidade, nos legou. Há uma altura da nossa vida, no amadurecimento da nossa fé, que teremos de ser nós a encontrar-nos com Jesus. Seguimo-l'O em primeira mão. Porque é nosso amigo. Porque nos faz bem. Porque a nossa vida é diferente tendo-O em nós, fazendo parte das nossas principais escolhas.
       A resposta que dermos implica-nos. Se Ele é Deus, então a nossa identidade com Ele deve levar-nos a agir com a mesma disponibilidade e com o mesmo amor, servindo e dando a vida a favor dos irmãos.
       4 – O diálogo com Pedro continua. Jesus assegura-lhe uma missão especial: «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus. Também Eu te digo: Tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus».
       Corresponderá à promessa de Isaías: «…porei aos seus ombros a chave da casa de David: há de abrir, sem que ninguém possa fechar; há de fechar, sem que ninguém possa abrir. Fixá-lo-ei como uma estaca em lugar firme e ele será um trono de glória para a casa de seu pai».
       Ainda que a profecia se refira ao Messias, para nós a Jesus Cristo, será realizada historicamente. A Igreja é o Corpo de Cristo, com uma configuração sociológica e temporal. Nasce e vive e orienta-se para a Trindade, mas conta com a nossa frágil condição humana, e como tal precisa de guias que, em nome de Jesus, possam iluminar os caminhos deste mundo, como irmãos mais velhos no seguimento do Mestre. Jesus confia em Pedro. E nos Apóstolos. E em nós. Somos responsáveis uns pelos outros, somos irmãos, somos herdeiros de Jesus. Ajudamos os outros a ligar-se ao Céu ou contribuímos para que outros esteja desligados.
       É grande o nosso encargo: ligarmo-nos com os outros ao Céu. Mas é grande a misericórdia de Deus que nos sossega com o Seu Espírito em nós, fortalecendo-nos com a Sua presença.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano A): Is 22, 19-23; Sl 137 (138)Rom 11, 33-36; Mt 16, 13-20.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

LEITURAS: Walter Kasper - o EVANGELHO da FAMÍLIA

WALTER KASPAER (2014). O Evangelho da Família. Prior Velho: Paulinas Editora. 72 páginas.
       No dia 17 de março de 2013, o Papa Francisco, na oração do ANGELUS, a primeira aparição na varanda do Palácio Apostólico, referiu que a leitura de um livro de Walter Kasper, sobre a misericórdia de Deus, lhe tinha feito muito bem. Menos de um ano depois, Walter Kasper recebeu o convite do Papa para refletir sobre a problemática da família, tendo em conta o Sínodo Extraordinário dos Bispos, no outono de 2014, e o Sínodo ordinário dos Bispos, em 2015, que terão como pano de fundo os "Desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização".
       Com efeito, foi enviado às Dioceses, paróquias, comunidades eclesiais, e disponibilizados em diferentes plataformas um extenso questionário procurando abranger os vários temas relacionados com a Família, dificuldades e potencialidades, a família e a Igreja, a família e a sociedade, novas formas de entender ou viver a família.
       No Consistório extraordinário dos Cardeais, 20 e 21 de fevereiro de 2014, coube a Walter Kasper a reflexão sobre a família, não antecipando conclusões do Sínodo, mas deixando pistas de reflexão, partindo da dinâmica bíblica, contextos, evoluções, conjugando a estrutura do matrimónio e da família com o anúncio do Reino de Deus, acentuando a misericórdia de Deus com a fidelidade às promessas feitas.
        Uma das problemática afloradas nesta apresentação, agora em livro, é a dos divorciados recasados, com a sugestão de uma prática pastoral de acolhimento, procurando dar respostas novas e acolhendo o contributo daqueles que vivem essas situações difíceis, para que a solução, o caminho encontrado, sob a sintonia do Papa, possa brotar dos anseios e preocupações das pessoas.
        Com grande sentido e abertura, o Cardeal avança com algumas hipóteses, para que a verdade esteja revestida da misericórdia de Deus, procurando que as respostas vão de encontro às sugestões das comunidades eclesiais de todo o mundo. A unidade a encontrar na reflexão não será fácil, mas como em outros momentos da história da Igreja, há que procurar um caminho comum, comprometendo-nos com a vivência do reino de Deus. É uma obrigação. Um compromisso. Um desafio, para que não se percam as gerações seguintes, dos filhos e dos netos.
       O livrinho, além da exposição feita aos Cardeais, apresenta alguns anexos explicativos das propostas apresentadas, entre as quais a sugestão do então professor Joseph Ratzinger (depois Papa Bento XVI) para se retomar de um modo novo a posição de Basílio, também partilhada pelo próprio Walter Kasper.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

JOSÉ ANTONIO PAGOLA - Volver a Jesús

JOSÉ ANTONIO PAGOLA(2014). Volver a Jesús. Hacia la renovación de las parroquias e comunidades. Madrid: PPC. 128 páginas.
       O teólogo espanhol é já nosso conhecido nestas andanças de livros, textos e sugestões. Tem-se dedicado a refletir sobre Jesus e sobre os Evangelhos, contextualizando a época em que Jesus viveu e procurando que a Mensagem seja significativa neste tempo.
       Neste pequeno livro, Pagola desafia precisamente a regressar a Jesus, à Sua mensagem, à Sua vida, gestos, postura, procurando ver como Jesus fazia, abrindo caminhos para viver ao Seu jeito nos dias em que nos é dado viver a nossa vida.
       Mergulhar no Evangelho. Reportar-nos ao essencial: amor, perdão, acolhimento, proximidade, grande intimidade com o Pai, opção pelos pobres, denúncia do mal, do pecado, da hipocrisia, dos poderosos que usam os pobres.
       O ponto de partilha é a Exortação Apostólica do Papa Francisco, a Alegria do Evangelho, que convoca os cristãos, todos os cristãos, a viverem com alegria a sua fé, como pessoas corajosas, sem medo de falar, de mostrar Jesus Cristo, saindo ao encontro de todos, mas primeiramente dos pobres, dos mais pobres. Agindo ao jeito de Jesus.
       O texto é também uma proposta pastoral, para formar os Grupos de Jesus, para a escuta do Evangelho, em que o centro seja Jesus, cujos encontros podem ser em casas particulares, sem rigidez quanto ao número de pessoas, em que a escuta e meditação do Evangelho sejam a referência. Obviamente estes grupos deverão estar atentos e poderão cooperar ativamente me dinâmicas pastorais e paroquiais. O Objetivo primeiro é escutar Jesus, deixar-se converter pela Sua Palavra, com ligação ao compromisso social.
       Ter a coragem de colocar fim a estruturas que já não convertem, não mobilizam, não libertam a pessoa.
Esta leitura pode ser muito interessante para os Conselhos Pastorais: mostrando o que realmente vale a pena resgatar, viver, anunciar. No final só uma conclusão: só Jesus Cristo, só Deus é definitivo. Converter-se de todo o coração a Jesus. As estruturas e as tradições hão de estar ao serviço do reino de Deus, como a Igreja, como os cristãos. Anunciar Jesus. Sair dos lugares de conforto, espevitar a fé, promover os dons de cada um em benefício de todos.
O castelhano é de fácil e acessível leitura, mas esperando um pouco logo estará disponível em português. O autor como o livro foi-nos recomendado, informando que a tradução para português está pronta, faltando a publicação. Aguardemos.
       Para quem não tenha lido a Exortação Apostólica de Francisco, a Alegria do Evangelho, seria oportuno ler agora, por exemplo, enquanto se aguarda a publicação deste livro em português. Perceber-se-á melhor o contexto, o ambiente desta proposta de Pagola.
       Segue a apresentação do livro pelo próprio José Antonio Pagola:

Sobre os grupos de Jesus: visitar a página Vida Nueva: AQUI

domingo, 17 de agosto de 2014

TIMOTHY RADCLIFFE - Imersos na Vida de Deus

TIMOTHY RADCLIFFE (2013). Imersos na Vida de Deus. Viver o Batismo e a Confirmação. Prior Velho: Paulinas Editora. 334 páginas.
       Segundo D. José Cordeiro, Bispo de Bragança-Miranda, "Timothy Radcliffe, um teólogo brilhante, partilha aqui o dizer indizível da vida de Deus em nós. Na sequência de tantos livros atraentes sobre a questão vital do Cristinianismo, oferece-nos agora um rasgado horizonte da narrativa dos sacramentos do Batismo e da Confirmação. Emerge aqui a fascinante aventura da vida de Deus" (contracapa).
       Dominicano, Radcliffe conduz-nos através dos diversos momentos do Batismo, como celebração, alargando à história, à cultura circundante, à literatura, citando autores bem conhecidos, mas também cheio de histórias do dia a dia, na família e no convento, com pessoas de diferentes origens. A redescoberta do Batismo como sacramento que nos faz imergir na vida de Jesus Cristo e nos compromete com as pessoas que nos rodeia, com a família, com os colegas de trabalho. Ser cristãos não é uma capa que se veste, cedendo a tradições ou ritualismos, mas algo que nos identifica com Jesus, nos faz viver com alegria. Ser cristão, fazer o que Ele faz, assumir uma postura de proximidade e de vida nova, abençoados pela presença de Deus em nós.
       Ser batizado é deixar-se transformar pelo Espírito de Deus. É um acontecimento único, de vida nova, que nos compromete com os outros e com a transformação do mundo, modificando em nós os que nos afasta dos outros. O cristianismo é antes de mais um encontro pessoal com Jesus Cristo, que nos assume como irmãos. É uma história de amor, de Deus por nós, que nos quer bem, que nos quer livres e felizes. Ser cristão não é algo triste ou melancólico. Faz-nos sentir livres, úteis, filhos amados de Deus. E como Jesus, o compromisso do serviço e da proximidade, do diálogo. Não deveremos ter o ensejo do pensamento único, mas com humildade vivermos criativamente em cultura de diálogo, de encontro. Há sempre dons e talentos que podemos descobrir noutros que também são filhos de Deus.
       O Batismo liberta-nos do mal, e filia-nos em Deus. O autor parte de diversas situações quotidianos. Em todas as idades precisamos de nos convertermos, de abrirmos o nosso coração e a nossa mente, deixando que Deus possa ser visto através de nós. Ser filhos de Deus também nos faz encarar o sofrimento e a morte na sua relatividade, como oportunidades para nos aproximarmos mais dos outros ou os deixarmos aproximar.
       A opção comprometida com os mais pobres é uma exigência própria dos batizados. Seguir Jesus Cristo leva-nos ao encontro dos mais desvalidos para ajudarmos, para promovermos a dignidade da pessoa humana, mesmo que a aparência nos repugne. Jesus, diante da mulher apanhada em flagrante adultério, homem para ela como mulher e não tanto para o seu pecado, ainda que o convite a ela, como a nós, seja um caminho novo de libertação, de vida nova. Ele reabilita-nos para saborearmos a vida em abundância.
       Se não nos tornarmos como crianças não entraremos no Reino do Deus. Ao sermos batizados somos assumidos como crianças diante de Deus, que é Pai. Mas, e olhando para o Sacramento da Confirmação, o coração de crianças mas em cristãos corajosos, cuja maturidade da fé um desafio permanente.

»» Vale a pena ler a recensão feita pela Livraria FUNDAMENTOS: AQUI.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Quem é o maior no reino dos Céus?

       Os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-Lhe: «Quem é o maior no reino dos Céus?». Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles e disse-lhes: «Em verdade vos digo: Se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, não entrareis no reino dos Céus. Quem for humilde como esta criança, esse será o maior no reino dos Céus. E quem acolher em meu nome uma criança como esta, acolhe-Me a Mim. Vede bem. Não desprezeis um só destes pequeninos. Eu vos digo que os seus Anjos vêem constantemente o rosto de meu Pai que está nos Céus». Jesus disse ainda: «Que vos parece? Se um homem tiver cem ovelhas e uma delas se tresmalhar, não deixará as noventa e nove nos montes para ir procurar a que anda tresmalhada? E se chegar a encontrá-la, em verdade vos digo que se alegra mais por causa dela do que pelas noventa e nove que não se tresmalharam. Assim também, não é da vontade de meu Pai que está nos Céus que se perca um só destes pequeninos» (Mt 18, 1-5.10.12-14).

       A pergunta dos discípulos mostra a imaturidade da sua fé. Num primeiro momento, os discípulos seguem Jesus por motivos que pouco têm a ver com o reino de Deus proposto e vivido por Jesus. Ele sabe disso. Quando os chama tem a consciência do caminho a percorrer e dos riscos inerentes. Como refere Augusto Cury, ao debruçar-se sobre a inteligência de Jesus, o discípulo mais capaz, talvez o único a ser contratado pelo departamento de pessoal de qualquer empresa seria mesmo Judas Iscariostes e que viria a traí-l'O. Jesus chama. Acredita no ser humano e na sua capacidade de conversão.
       Como tantos judeus, os discípulos aguardavam o Messias para restaurar Israel, um Messias político, revolucionário, poderoso, que substituísse o poder instalado e assumisse o poder. Quem O seguisse teria a sorte de assumir com Ele um lugar de chefia, de poder. Jesus vai esclarecendo, anunciando o caminho da Cruz, consequência do amor, e apresenta o serviço como única forma de poder para estar no Reino de Deus. Quem quiser ser o maior será o servo de todos.
       Jesus chama uma criança e simplifica. O reino de Deus é para aqueles que se tornarem como crianças, dóceis, disponíveis para acolher, para dar, para amar. E na mesma onda, o desafia para cuidar sobretudo dos mais frágeis, as crianças, os idosos, como muitas vezes referem o Papa Francisco, os extremos da sociedade, e todas as outras pessoas que estão vulneráveis por questões de saúde, de trabalho ou falta dele, pela exclusão sócio-cultural e económica.
       Mas há mais. O discípulo de Cristo tem que ir em busca de toda a ovelha que anda tresmalhada. Não se trata de esperar e de ter as portas abertas, mas de sair e ir ao encontro já não da ovelha mas talvez das noventa e nove que agora estão tresmalhadas, como tem vindo a acentuar o Papa Francisco. A Igreja tem como referência Jesus Cristo e o Seu pastoreio, não pode ser autorreferencial, tem de sair ao encontro das ovelhas que vivem sem pastor...

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

E vós, quem dizeis que Eu sou?

       Jesus perguntou: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Então, Simão Pedro tomou a palavra e disse: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo». Jesus respondeu-lhe: «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus. Também Eu te digo: Tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus» (Mt 16, 13-23).
       "O saber não ocupa lugar". Neste ditado popular uma verdade muito simples que convida a saber e a descobrir sempre mais, pois é algo que não nos prejudica, não estorva, e pode ajudar-nos a ver a vida de outra maneira.
       O episódio do Evangelho desta quinta-feira diz-nos que a nossa relação com Jesus Cristo não é de mero conhecimento. Não basta saber muitas coisas sobre Jesus, mas saber quem é para nós, que implicações tem na nossa vida, como pode modificar as nossas opções?
       Diz-se, por exemplo, que ninguém conhece tão bem a Deus como o Diabo e nem por isso ele é crente ou seguidor da verdade que vem de Deus. Por outras palavras, o conhecer é importante, mas quando nos envolve e compromete com o seguimento.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Transfiguração do Senhor (Ano A)

Nota Histórica:
       A festa da Transfiguração, celebrada no Oriente desde o século V e no Ocidente a partir de 1457, faz-nos reviver um acontecimento importante da vida de Jesus, com reflexos na nossa vida.
       Situada antes do anúncio da Paixão e da Morte, a Transfiguração foi uma manifestação da vida divina, que está em Jesus. A luz do Tabor é, porém, uma antecipação do esplendor, que encherá a noite da Páscoa. Por isso, os Apóstolos, contemplando a glória divina na Pessoa de Jesus, ficaram preparados para os dolorosos acontecimentos, que iriam pôr à prova a sua fé. Vendo Jesus na Sua condição de servo, já não poderão esquecer a Sua condição divina.
       Anúncio da Páscoa, a Transfiguração encerra também uma promessa – a da nossa transfiguração. Jesus, com efeito, fez transparecer na Sua Humanidade a glória de que resplandecerá o seu Corpo Místico, a Igreja, na Sua vinda final.
       A nossa vida cristã é, pois, um processo de lenta transformação em Cristo. Iniciado no nosso Baptismo, completa-se na Eucaristia, «penhor da futura glória», que opera a nossa transformação, até atingirmos a imagem de Cristo glorioso.

      Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão e levou-os, em particular, a um alto monte e transfigurou-Se diante deles: o seu rosto ficou resplandecente como o sol e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele. Pedro disse a Jesus: «Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra e da nuvem uma voz dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O». Ao ouvirem estas palavras, os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito. Então Jesus aproximou-se e, tocando-os, disse: «Levantai-vos e não temais». Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus. Ao descerem do monte, Jesus deu-lhes esta ordem: «Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos» (Ano A: Mt 17, 1-9). 

       A transfiguração é como um "rebuçado" dado por Jesus aos Apóstolos, para enfrentarem os momentos de dificuldade que se aproximam, quando o Mestre for perseguido, preso e levado à Cruz. Esta antecipação mostra a divindade de Jesus, para de novo assumir a nossa humanidade com toda a crueza que a limitação e a finitude podem envolver.
       Importa, em todas as situações, escutar a Sua voz. É a voz do Pai de entre as nuvens que ressoa por todo o universo.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Laetare - Madalena

       A Agência Ecclesia, diz-nos que Laetare "é uma banda portuguesa constituída a partir das actividades de um grupo de catequese da paróquia da Reboleira, diocese de Lisboa. Começaram por ajudar na animação musical das eucaristias e depois surgiu o desafio de criar um tema original para participar no festival vicarial da canção cristã.
       A banda é constituída por 2 elementos: Clara Raimundo (Voz) e Pedro Marques (Guitarra, Voz)".
       No dia 17 de MAIO atuaram, em concerto de oração, na Igreja Paroquial de Tabuaço
       Editaram o seu primeiro CD com 11 composições, Ao Teu Sopro. Uma melodia agradável, que nos ajuda a elevar o espírito, com uma forte mensagem cristão. Vale mesmo a pena escutar, meditar, rezar, louvar a Deus. Neste dia em que celebramos a festa de Santa Maria Madalena, aqui fica um tema proposto por este grupo de música cristã.

sábado, 19 de julho de 2014

XVI Domingo do Tempo Comum - ano A - 20 de julho

       1 – Deus é lento para a ira e rico de misericórdia, "é um Deus clemente e compassivo, sem pressa para Se indignar e cheio de misericórdia e fidelidade" (Ex 34, 6). É isto que Jesus volta a dizer-nos de forma clara e inequívoca.
       Depois da parábola do Semeador que sai a semear e cuja semente encontra terrenos diversos, Jesus propõe-nos a parábola do trigo e do joio. «O reino dos Céus pode comparar-se a um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora. Quando o trigo cresceu e começou a espigar, apareceu também o joio».
       Apercebendo-se do que está a acontecer logo os seus servos querem cortar o mal pela raiz. Então o senhor diz-lhes: "Não! Não suceda que, ao arrancardes o joio, arranqueis também o trigo". Quando chegar a altura da ceifa, amadurecendo o trigo e o joio, terão oportunidade de separar o trigo e o joio. Ao nascer e no crescer o trigo e o joio confundem-se facilmente. Mas com o tempo, o trigo cresce acima do joio…
       Já em casa, Jesus volta a explicar aos discípulos a parábola do trigo e do joio. «Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem e o campo é o mundo. A boa semente são os filhos do reino, o joio são os filhos do Maligno e o inimigo que o semeou é o Diabo. A ceifa é o fim do mundo e os ceifeiros são os Anjos. Como o joio é apanhado e queimado no fogo, assim será no fim do mundo».
       Em cada um de nós, cresce o trigo e o joio simultaneamente. Poderemos colocar os bons de um lado e os maus do outro lado. Nesse caso cortamos o joio antes da ceifeira. E de que lado nos situamos? Seremos os bons para excluir os maus? Ou seremos os maus que se querem perdidos na escuridão e no pecado?
       Amadureçamos a semente que Jesus lançou no nosso coração e na nossa vida, cuidemos da nossa terra, vamos mondando com cuidado para não destruir o que de bom vamos encontrando, criemos condições cada dia mais favoráveis para que o trigo seja mais forte e robusto e possa ir abafando o joio que há em nós.
        2 – Uma árvore ao cair faz muito mais barulho que todas as árvores da floresta a crescer.
       Uma notícia negativa gera uma maior atenção e tem direito a um tempo de antena alargado com todos os desenvolvimentos possíveis, os vários pontos de vistas, opiniões de quem viu e de quem não viu, emoções, sentimentos. Uma notícia positiva tem algumas dificuldades de afirmação, ainda que possa ser um bom sinal na medida em que o bem continua a ser expectável.
       A velha imagem que se adequa à parábola de Jesus, o risco de deitar fora a água suja e o bebé. Olhando para a vasilha só se vê a água turva, mas dentro está o bebé. É preciso cuidado e antes de deitar fora a água verificar que nada de bom e útil segue o mesmo destino.
       No recente Campeonato do Mundo de Futebol, 16 equipas, espalhadas pelos diferentes continentes conseguiram um feito meritório, entre muitas outras apuraram-se para a fase final. Luta, trabalho, sacrifício, para superar os adversários. Na fase final, algumas equipas obtiveram mais sucesso que outras. Até podem ter perdido jogos em que jogaram melhor futebol. Este tem uma dose elevada de sorte. Um primeiro golo pode derrubar por completo a confiança. Uma derrota ou a eliminação fez explodir, em relação a algumas seleções de futebol, como Portugal e Brasil, um rol infindável de críticas como se tudo tivesse corrido mal. Perante uma derrota é difícil ver o bem e avaliar de forma equilibrada, sem com isto desvalorizar a necessidade de se fazer uma avaliação sobre o correu bem e o que correu menos bem.
       O trigo e o joio, o bem e o mal, o branco e o preto, a vida e a morte, a luz e as trevas. As antíteses até podem ser atraentes, mas a vida não é assim, é multicolor e tem diversas matizes, uma definição não encaixa em todas as pessoas do mesmo modo.
       Temos pressa e queremos resultados imediatos. Bento XVI, no início do Seu pontificado, dizia de uma forma muito acessível que a nossa pressa destrói, precipita-nos. A paciência de Deus, que brota do amor, da compaixão, da Sua misericórdia infinita, constrói. Deus é paciente, espera por nós. Sempre.
       Num grupo eclesial, numa turma (escolar), num clube de futebol, num partido, numa empresa, um incidente, uma momento infeliz, pode destruir rapidamente tudo o que se construiu com carinho e dedicação. Caindo em rápidos juízos de valor, o sério risco de colocarmos tudo em causa, desanimarmos, fazermos com que os outros desanimem.
       Paga o justo pelo pecador. Algo correu mal. Aconteceu o que não era suposto acontecer. Alguém tem de pagar as favas, ou pagam todos. Um elemento saiu fora da linha, então desiste-se por completo do projeto em causa.
       3 – Deus age, por vezes silenciosamente, em nós e através de nós. Podemos ter vontade e desejo de transformar o mundo inteiro, mas nem a nossa vida transformaremos senão deixarmos que o Espírito Santo nos envolva e reaviva em nós a memória e a identidade de filhos adotivos de Deus.
       Com o tempo, tomamos consciência que o nosso esforço não obtém resultados imediatos nem tampouco os frutos que eram esperados diante do muito que fizemos. A reação pode levar-nos a desistir e a conformar-nos com as situações vigentes. Porém, tal como na parábola do trigo e do joio, contamos com a paciência e compaixão de Deus. Para que a semente dê fruto abundante e maduro é preciso cuidado, trato, mas sobretudo deixar que Deus opere na terra que somos, solo ávido da Palavra de Deus e da Sua presença amorosa.
       Jesus explicita o agir de Deus e a confiança que nos deve suscitar através de mais duas parábolas:
  • «O reino dos Céus pode comparar-se ao grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. Sendo a menor de todas as sementes, depois de crescer, é a maior de todas as plantas da horta e torna-se árvore, de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos».
  • «O reino dos Céus pode comparar-se ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado».
       Também por aqui se vê que Deus não age pelo exterior, pela força, pelo espetacular, mas pelo humilde e delicado, a partir do nosso interior. Deus age apenas e só através do amor com que nos cria e salva em Cristo Jesus, pela força do Espírito Santo. Por mais pequena que seja a semente, com Deus produzirá em abundância. O que fizermos só por nós pode ser muito, mas será sempre pouco. O que fizermos com Deus, ou deixarmos que Deus faça em nós e através de nós, ainda que seja pouco, será sempre muito, será sempre amor, e não correremos o risco de desanimar com a mesma facilidade de nos centrarmos apenas em nós. Sozinhos não existimos. Alguém duvida?

       4 – Na verdade, diz-nos o Apóstolo, "o Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos que pedir nas nossas orações; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. E Aquele que vê no íntimo dos corações conhece as aspirações do Espírito, pois é em conformidade com Deus que o Espírito intercede pelos cristãos". Na oração encontramo-nos com o mesmo Deus, que dilata o nosso coração, envolvendo-nos na compaixão com o próximo.
       O Senhor Deus é o garante da nossa vida presente e futura, Ele que nos criou e em Cristo nos redimiu. Desde sempre, Deus cuida de nós, usando de misericórdia e paciência. "Vós, o Senhor da força, julgais com bondade e governais-nos com muita indulgência, porque sempre podeis usar da força quando quiserdes. Agindo deste modo, ensinastes ao vosso povo que o justo deve ser humano e aos vossos filhos destes a esperança feliz de que, após o pecado, dais lugar ao arrependimento".
       Como é belo saber que o nosso Pai – como os nossos pais terrenos – está sempre de coração disponível e de braços abertos para nos acolher em casa, mesmo quando fomos injustos, ingratos, rebeldes. Por mais que nos tenhamos afastado, o coração do Pai (e dos pais) está pronto para nós. Faz toda a diferença. Sabemos que ainda que tudo corra mal, temos um poiso, um lugar em Quem nos encontrarmos e para onde voltarmos. A nossa casa é onde estão os que nos querem bem.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano A): Sab 12, 13. 16-19; Sl 85 (86); Rom 8, 26-27; Mt 13, 24-43.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração...

       Jesus exclamou: «Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve» (Mt 11, 28-30).
        Jesus é o nosso conforto, o lugar em que nos descobrimos e nos encontramos como irmãos uns dos outros e como filhos bem amados de Deus. Qual o melhor conforto que nos pode ser dado senão a amizade, a compreensão, um significado envolvente para a vida, a promessa da imortalidade, a garantia que a nossa vida tem uma sentido que nos transcende e transcende o tempo presente e o mundo actual?!
       Jesus é esta promessa de definitividade. É a nossa esperança. Mais, é uma promessa que se cumpre com a Sua morte e ressurreição. As suas palavras, à luz da Ressurreição, adquirem um novo prisma, de promessa passam a cumprimento. Ele coloca as nossas esperanças na eternidade.
       A certeza de que Ele está connosco em todo o tempo e lugar, e por todo o sempre, descansa a nossa sede permanente de nos transcendermos, ou pelo menos, dá-lhe uma objectividade que nos atrai.
        O convite de Jesus confirma a preocupação de ser habitação de todos, especialmente daqueles que vivem em maiores dificuldades morais, afectivas, sociais, aqueles que cansaram da vida, das pessoas. O encontro com Jesus Cristo há-de ser de libertação, de descanso, de encontro consigo próprio, de realização do melhor que há em nós.
       Por outro lado, e como já refletimos por aqui (XIV do tempo Comum - A), Ele ensina-nos a mansidão e a humildade, que nos abrem para o futuro e que nos permitem a comunhão com os outros...

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Nem um copo de água ficará sem recompensa

       "Ainda que multipliqueis as vossas preces, não lhes darei atenção, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, afastai dos meus olhos a malícia das vossas acções, deixai de praticar o mal e aprendei a fazer o bem. Respeitai o direito, protegei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva" (Is Is 1, 10-17). 
       Disse Jesus aos seus apóstolos:
      "Disse Jesus aos seus apóstolos: «Não penseis que Eu vim trazer a paz à terra. Não vim trazer a paz, mas a espada. De facto, vim separar o filho de seu pai, a filha de sua mãe, a nora da sua sogra, de maneira que os inimigos do homem são os de sua casa. Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim, não é digno de Mim. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não é digno de Mim. Quem encontrar a sua vida há-de perdê-la; e quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. Quem vos recebe, a Mim recebe; e quem Me recebe, recebe Aquele que Me enviou. Quem recebe um profeta por ele ser profeta, receberá a recompensa de profeta; e quem recebe um justo por ele ser justo, receberá a recompensa de justo. E se alguém der de beber, nem que seja um copo de água fresca, a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo, em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa». Depois de ter dado estas instruções aos seus doze discípulos, Jesus partiu dali, para ir ensinar e pregar nas cidades daquela gente" (Mt 10, 34 - 11, 1).
       Na primeira leitura da liturgia da palavra deste dia, do profeta Isaías, acentua-se que o essencial aos olhos de Deus não é o cumprimento de ritos, de leis, de tradições, mas a vivência solidária com os outros, a conversão de coração, a justiça, a solidariedade, o bem. Os ritos, como a religião, têm sentido quando nos ajudam a ajudar os outros.
       No Evangelho, por sua vez, Jesus alerta os seus discípulos para a inquietação que devem sentir na transformação do mundo, gastar a vida para a ganhar, viver na dedicação permanente ao próximo, não esperar tranquilidade na missão. A paz conquista-se pelo compromisso com os outros. Paulo VI lembrava que o desenvolvimento é outro nome para a paz, pois esta não é alcançável quando existe pobreza, guerra, dependência, corrupção, quando lei do mais forte impera, escravizando, controlando, retirando aos outros a liberdade e a capacidade de autodeterminação. A paz exige escolhas ativas a favor da transformação do mundo e das estruturas de pecado, para que a injustiça, as desigualdades sociais, o défice de acesso à saúde, à educação e à cultura, sejam minoradas em ordem à fraternidade.
       O caminho para Jesus é o serviço, a caridade, a atenção e cuidado sobretudo às pessoas que se encontram em situações de desfavor, num mundo paralelo, deficitário, de exclusão social, política e religiosa. Aos seus discípulos diz claramente qual é o caminho: serviço, caridade. Nem um copo de água dado em nome de Jesus ficará sem recompensa.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Tabuaço | Encerramento da Catequese | 2014 | Sabroso

       No passado sábado, o primeiro de julho, dia 5, o ENCERRAMENTO da CATEQUESE da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, de Tabuaço, no Santuário de Santa Maria do Sabroso, na Paróquia de Santa Maria de Barcos, da Zona Pastoral de Tabuaço. Algumas fotos desta tarde, com jogos e animação, com as Catequistas e o Grupo de Jovens (GJT), a celebração da Eucaristia, o lanche partilhado. Os pais foram convidados a estarem presente e alguns fizeram questão, bem assim como outras pessoas da nossa comunidade paroquial de Nossa Senhora da Conceição.
Mais FOTOS disponíveis na página da

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Procurai o bem e não o mal

       Procurai o bem e não o mal, para que vivais. Assim, o Senhor, Deus do Universo, estará convosco, como vós dizeis. Detestai o mal e amai o bem, restabelecei a justiça no tribunal. Talvez o Senhor, Deus do Universo, tenha compaixão dos sobreviventes de José. Eu detesto e desprezo as vossa festas, desgostam-Me as vossas reuniões sagradas. Se Me ofereceis holocaustos e oblações, Eu não quero aceitá-los; e para os vossos sacrifícios de animais gordos, nem sequer Me digno olhar. Afastai de Mim o barulho dos vossos cânticos, que Eu não quero ouvir o som das vossas harpas. Mas fazei que o direito corra como as águas e a justiça como rio inesgotável (Am 5, 14-15.21-24).
       O profeta Amós, de forma clarividente, mostra a relação entre a fé e a vida, entre o amor a Deus, a religião, e o amor ao próximo, a fraternidade. As orações, os cânticos de louvor, as oblações, os ritos do templo, não têm qualquer significado se a justiça e o direito não forem restabelecidos. Como muitas vezes ouviremos no Novo Testamento, o amor a Deus e o amor ao próximo são concumitantes, interligam-se mutuamente, não existem separados.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Tabuaço: Festa do Pai-nosso - 2014 - 2.º ano de Catequese

       A Solenidade do martírio dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, 29 de junho de 2014, foi o dia escolhido para mais uma festa da catequese, a última deste ano catequético, a Festa do Pai-nosso, com os meninos do 2.º ano de catequese. Fotos de alguns momentos da celebração da Eucaristia, com a alegria e a simplicidades das crianças, ressalvando-se o trabalho dedicado das catequistas, deste ano e de todos os anos de catequese:
      Para visualizar outras fotos disponíveis,
visite a página da Paróquia de Tabuaço no Facebook.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Leituras - ANTÓNIO REGO - A Ilha e o Verbo

ANTÓNIO REGO (2014). A Ilha e o Verbo. Dos vulcões da Atlântida à Galáxia digital. Lisboa: Paulinas Editora. 288 páginas.
       O Padre António Rego é bem conhecido do público português. É também conhecido como o Padre Televisão, precisamente pela presença nos ecrãs de televisão ao longo de muitos anos. Completando 50 anos de sacerdote, grande parte dos quais comprometido com os meios de comunicação social ligados à Igreja Católica em Portugal, chega-nos agora esta biografia-entrevista, com um ou outro texto sobre temas fundamentais do Pe. António Rego. 50 anos de vida sacerdotal. Tempo de agradecer. Olhar para trás, revendo como Deus vai guiando a vida e a história. Agradecendo, para continuar a trabalhar em prol da Igreja e da sociedade.
       Natural dos Açores, pouco tempo depois virá para o continente, ficando para sempre ligado ao Patriarcado de Lisboa, iniciando o compromisso com a Rádio Renascença, mas também comprometido com o trabalho paroquial. Projetos como Renascença, colaborações na RTP e na RDP, programas como 70x7, Ecclesia, Fé dos Homens, Secretariado Nacional das Comunicações Sociais, TVI, o canal atribuído à Igreja Católica, mas passando progressivamente para grupos financeiros, mantendo-se a presença da Igreja Católica e do Pe. Rego nomeadamente com a transmissão da Eucaristia dominical, com o programa 8.º Dia. Alguns dos projetos foram continuados por outros, mas têm o impulso inicial do Pe. António Rego, ou pelo menos a sua colaboração, como a transmissão da Eucaristia na RTP.
       No projeto TVI, de que foi também Diretor de Informação, criou como que uma escola de jornalistas para uma tratamento humanista das notícias e onde o religioso tivesse tratamento igual a outros âmbitos, prevalecendo com um lugar próprio, pois o espiritual e o religioso fazem parte do desenvolvimento do ser humano.
       As entrevistas são conduzidas, de forma inteligente, pelo bem conhecido Paulo Rocha, Diretor da Agência Ecclesia, integrando o Secretariado Nacional das Comunicações Sociais e colaborou em muitos projetos do Pe. António Rego.
       Na parte final, textos assinados pelo Padre/Cónego António Rego, Grandes Temas: Mar, Liberdade, Concílio Vaticano II, Meios de Comunicação Social, Arte, Açores, Oração.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

São Josemaria Escrivá

Nota Biográfica:
       Nasceu em Barbasto (Espanha) em 1902 e foi ordenado sacerdote em 1925. No dia 2 de Outubro de 1928 fundou o Opus Dei que abriu na Igreja uma nova via para que homens e mulheres de todas as condições vivessem plenamente a sua vocação cristã, santificando as suas actividades no meio do mundo. O Opus Dei foi erigido como Prelatura Pessoal em 1982. A sua pregação e escritos contribuíram para que inumeráveis fiéis se tornassem conscientes da sua peculiar missão eclesial.
       Faleceu em Roma no dia 26 de Junho de 1975.
Oração (de colecta):
       Senhor, nosso Deus, que, na Igreja, escolhestes São Josemaria, sacerdote, para anunciar a vocação universal à santidade e ao apostolado, concedei-nos, por sua intercessão e exemplo, que, através do trabalho quotidiano, nos identifiquemos com Cristo, vosso Filho, e sirvamos com amor ardente a obra da Redenção. Por Nosso Senhor Jesus Cristo...


São Josemaria Escrivá de Balaguer, Presbítero

Rumo à Santidade

Sentimo-nos tocados, com o coração a bater com mais força, quando ouvimos com toda a atenção este brado de S. Paulo: esta é a vontade de Deus: a vossa santificação. Hoje, mais uma vez o repito a mim mesmo e também o recordo a cada um e à Humanidade inteira: esta é a vontade de Deus, que sejamos santos. Para pacificar as almas com uma paz autêntica, para transformar a Terra, para procurar Deus Nosso Senhor no mundo e através das coisas do mundo, é indispensável a santidade pessoal. Chama cada um à santidade, pede amor a cada um: jovens e velhos, solteiros e casados, sãos e doentes, cultos e ignorantes, trabalhem onde quer que trabalhem, estejam onde quer que estejam. Há um único modo de crescer na familiaridade e na confiança com Deus: a intimidade da oração, falar com Ele, manifestar-Lhe – de coração a coração – o nosso afecto.
Primeiro uma jaculatória, e depois outra e outra... Até que parece insuficiente esse fervor, porque as palavras se tornam pobres...: e abrem-se as portas à intimidade divina, com os olhos postos em Deus sem descanso e sem cansaço. Vivemos então como cativos, como prisioneiros. Enquanto realizamos com a maior perfeição possível, dentro dos nossos erros e limitações, as tarefas próprias da nossa condição e do nosso ofício, a alma anseia escapar-se. Vai até Deus como o ferro atraído pela força do íman. Começa-se a amar Jesus de forma mais eficaz, com um doce sobressalto.
Mas não esqueçamos que estar com Jesus é seguramente encontrar-se com a sua Cruz. Quando nos abandonamos nas mãos de Deus, é frequente que Ele permita que saboreemos a dor, a solidão, as contradições, as calúnias, as difamações, os escárnios, por dentro e por fora: porque quer conformar-nos à Sua imagem e semelhança e permite também que nos chamem loucos e que nos tomem por néscios. Quando admiramos e amamos deveras a Santíssima Humanidade de Jesus, descobrimos, uma a uma, as suas Chagas. E nesses tempos de expiação passiva, penosos, fortes, de lágrimas doces e amargas que procuramos esconder, sentiremos necessidade de nos meter dentro de cada uma daquelas Feridas Santíssimas: para nos purificarmos, para nos enchermos de alegria com esse Sangue redentor, para nos fortalecermos.
O coração sente então a necessidade de distinguir e adorar cada uma das pessoas divinas. De certo modo, é uma descoberta que a alma faz na vida sobrenatural. E entretém-se amorosamente com o Pai e com o Filho e com o Espírito Santo; e submete-se facilmente à actividade do Paráclito vivificador, que se nos entrega sem o merecermos. As palavras tornam-se supérfluas, porque a língua não consegue expressar-se; o entendimento aquieta-se. Não se discorre, olha-se! E a alma rompe outra vez a cantar um cântico novo, porque se sente e se sabe também olhada amorosamente por Deus a toda a hora.
Com esta entrega, o zelo apostólico ateia-se, aumenta dia-a-dia – pegando esta ânsia aos outros – porque o bem é difusivo. Não é possível que a nossa pobre natureza, tão perto de Deus, não arda em desejos de semear no mundo inteiro a alegria e a paz, de regar tudo com as águas redentoras que brotam do lado aberto de Cristo, de começar e acabar todas as tarefas por Amor.
Que a Mãe de Deus e nossa Mãe nos proteja a fim de que cada um de nós possa servir a Igreja na plenitude da fé, com os dons do Espírito Santo e com a vida contemplativa.