segunda-feira, 24 de abril de 2017

VL – Papa Francisco e as periferias no centro

       Completam-se quatro anos da eleição do surpreende Cardeal Jorge Mario Bergoglio para a Cadeira de São Pedro. Com a escolha do nome, Francisco, na referência a São Francisco de Assis, a primeira marca do pontificado, a pobreza como caminho, “uma Igreja pobre para os pobres”, Igreja despojada ao serviço dos mais frágeis. Da América Latina, o papa argentino traz a teologia do povo, desligando a fé e a religião de qualquer tentativa de manipulação político-partidária. «A imagem da Igreja de que gosto é a do povo santo e fiel de Deus… Deus na história da salvação salvou um povo. Não existe plena identidade sem pertença a um povo. Ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos considerando a complexa trama de relações interpessoais que se realizam na comunidade humana. Deus entra nesta dinâmica do povo… E a Igreja é o povo de Deus a caminho na história, com alegrias e dores».
       Cada Papa traz a sua marca espiritual, cultural, a sua riqueza pessoal, o seu amor à Igreja e a fidelidade a Jesus. Ao bom Papa João, que convocou o Concílio Vaticano II para “atualizar” o compromisso do Evangelho com o mundo, sucedeu o grande Papa Paulo VI, que concluiu o Concílio, enfrentando sérias dificuldades vincadas por uma cultura plural, livre, contestatária! Breve o pontificado de João Paulo I, mas significativo, o Papa do sorriso e da certeza de que Deus é Pai mas é mais Mãe. Logo o entusiasta João Paulo II, com a experiência de uma Igreja perseguida e silenciada, para uma presença global, nas viagens e nos meios de comunicação social, a ética, o corpo, a família, os jovens, a vida humana, a dignidade de cada pessoa. Pontificado mais curto, o do sábio Bento XVI, recentrando a Igreja e o mundo em Cristo, procurando fazer da Igreja a nossa casa, onde nos sentimos bem, atraindo outros para entrarem ou para regressarem, lançando pontes com a cultura e com a ciência. Há quatro anos, chegou a frescura de uma Igreja jovem, afetiva, próxima, vinda de uma região pobre… o Papa Francisco surpreendeu desde a primeira hora, com gestos de simplicidade, de alegria e de proximidade que continuam a conquistar pessoas.
       Na primeira homilia, os propósitos: CAMINHAR, EDIFICAR, CONFESSAR: «Quando não se caminha, ficamos parados. Quando não se edifica sobre as pedras, que acontece? Acontece o mesmo que às crianças na praia quando fazem castelos de areia: tudo se desmorona, não tem consistência… Quando não se confessa Jesus Cristo, confessa-se o mundanismo do diabo, o mundanismo do demónio…».

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4403, de 14 de março de 2017

VL – O Jejum que Eu quero é a Misericórdia

É mais importante não comer carne à sexta-feira ou ir à Missa ao Domingo?
       Há tradições que são expressão da religiosidade mais popular. Mas, por vezes, parecem não passar de uma superstição entre outras como ver um gato preto, passar debaixo de uma escada, sentar-se a uma mesa com treze pessoas. É crucial não comer carne nas sextas-feiras da Quaresma porque é pecado e, pelo sim pelo não, mais vale prevenir e cumprir, não vá Deus chatear-Se. Temor sim, medo não. Deus ama-nos. É Pai de Misericórdia. Um Pai por certo não está à espera que o filho erre para o castigar, quando muito educa-o, dá-lhe ferramentas, aponta direções, caminhos…
       Perguntam-me se comer carne às sextas-feiras da Quaresma é pecado! Apetecia-me responder: é mais importante ir à Missa ao Domingo. Uma pessoa não vai à Missa há dois ou três anos, só entra na Igreja num funeral, e depois pergunta se é pecado comer carne à sexta-feira? Claro que há muitas outras coisas essenciais, cuidar da família, comprometer-se com a justiça e com a verdade, ser honesto, ajudar os mais frágeis… Mas se falamos numa proposta feita pela Igreja, de abster-se de alguma coisa que se gosta muito, e que pode muito bem ser a carne, e que esse gesto (sacrifício) possa beneficiar uma causa, pessoas mais carenciadas, então talvez faça sentido interrogar-se sobre o que é essencial na vivência e expressão da fé!
       Dois belíssimos textos no início da Quaresma. «Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes, convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e rico em misericórdia» (Joel 2, 12-13). «O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injus­tamente, livrá-los do jugo que levam às cos­tas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opres­são, repartir o teu pão com os esfo­meados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não des­prezar o teu irmão» (Is 58, 6-7).
       Pergunta o Papa Francisco: como se pode pagar um jantar de duzentos euros e depois fazer de conta que não se vê um homem faminto à saída do restaurante? «Sou justo, pinto o coração mas depois discuto, exploro as pessoas… Eu sou generoso, darei uma boa oferta à Igreja… diz-me: tu pagas o justo às tuas colaboradoras domésticas? Aos teus empregados pagas o salário não declarado? Ou como a lei estabelece, para que possam dar de comer aos filhos?».
       Desafia Jesus: «Ide aprender o que significa: prefiro a misericórdia ao sacrifício» (Mt 9, 13).

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4405, de 28 de março de 2017

VL – Largar a pele da serpente, revestir-se de Cristo

       Quem tem familiaridade com o campo é possível que, por mais de uma vez, tenha encontrado a pele de uma cobra. Por vezes a pele encontra-se quase inteira, como se de repente a cobra despisse uma camisa e vestisse outra. A pele das cobras é constituída por escamas. Mudam de pele periodicamente. Uma das finalidades desta muda será remoção dos parasitas. Outra explicação plausível é que as cobras crescem constantemente e precisam de largar a pele que as aprisiona e limita por uma nova pele, maior, que as liberta para continuarem a crescerem.
       A Quaresma encaminha-nos e prepara-nos para a Páscoa, vida nova, luz e salvação, a vastidão do Céu chega para toda a humanidade. Neste caminho somos desafiados à renúncia, à penitência. É um tempo de conversão e de esperança. É caminho (pessoal e comunitário) mas já iluminado pela ressurreição de Jesus. A mudança de vida é uma constante na vida do discípulo de Jesus Cristo. Fomos batizados na água e no Espírito Santo, tornamo-nos novas criaturas. A vida toda é esta configuração à nossa origem batismal.
       Um dos ritos do batismo é o da veste branca. “Agora és nova criatura e estás revestido de Cristo. Esta veste branca seja para ti símbolo da dignidade cristã”. Se voltarmos ao exemplo da renovação da pele na cobra, também esta veste nos reveste por inteiro. A cobra cresce e precisa de mudar de pele, libertando-se. Nós crescemos desde o batismo, precisamos de viver numa tensão permanente para fazer com que a nossa vida nos faça crescer na santidade, afeiçoando-nos a Cristo, isto é, adotando as feições de Cristo, ficando parecidos com Ele. Qual é a nossa pele antiga que nos aprisiona? Tudo o que nos impede de transparecer e testemunhar Jesus. Tudo o que nos afasta dos outros, o nosso egoísmo, o orgulho, a sobranceria, a avareza, a prepotência a inveja, o endeusamento do nosso ego.
        Mas alguém poderá perguntar: se é só a pele que muda então nada muda interiormente? Se nos fixarmos no exemplo da cobra talvez tenhamos alguma razão. Contudo, o desprendimento da pele velha expressa o seu crescimento e, portanto, todo o corpo da cobra cresce, além de se libertar dos parasitas. Como cristãos revestimo-nos de Cristo para que toda a nossa vida se transforme, libertando-nos dos parasitas que nos impedem de ser imagem e semelhança de Deus, rosto e presença de Jesus Cristo para as pessoas do nosso tempo.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4404, de 21 de março de 2017

VL - Resiliência na oração

       A Quaresma recentra-nos tradicionalmente em três dinâmicas para melhor vivermos a Páscoa do Senhor: a oração, o jejum e a esmola. São vistas como expressões da conversão interior, da adesão decidida a Jesus e ao Seu Evangelho, como concretização do nosso compromisso em nos tornarmos discípulos missionários, identificando-nos com o Mestre da Docilidade para, como Ele e com Ele, nos fazermos próximos dos outros e os acolhermos como irmãos.
       A oração é o ponto de partida e o chão que nos move para Deus. E se a oração é autêntica levar-nos-á a querer o que Deus quer. Na oração predispomo-nos a encontrar a vontade de Deus para nós. A referência é Jesus Cristo, cuja vontade paterna é o Seu programa de vida, o Seu alimento. Eu venho, ó Deus, para fazer a Vossa vontade. Faça-se não o que Eu quero, mas o que Tu queres! A oração não é fácil. Ou nem sempre é fácil, sobretudo quando a vida não corre de feição. Ainda assim não devemos deixar de rezar, de suplicar, de louvar, de agradecer a Deus, a chuva e o sol, o vento e a névoa!
       Alguns modelos de oração combativa: Abraão, Jacob, Moisés, Ana, Job, David, Jesus.
       Abrão “negoceia” com Deus, insistindo até ao limite, com veemência, tentando proteger a cidade de Sodoma e de Gomorra. É um dos exemplos muito queridos ao Papa Francisco. Jacob é aquele que luta com Deus pela noite dentro e, por isso, o seu nome é mudado para Israel, porque lutou com Deus e venceu. Moisés eleva os braços, o coração, a vida para Deus, intercedendo uma e outra vez pelo povo, de dura servis, mas ainda assim o povo que Deus lhe confiou. Ana, mãe de Samuel, que persiste na oração até que Deus lhe concede o que deseja. Job, na imensidão do mistério de Deus, no confronto com a desgraça pessoal e familiar, não desiste de se dirigir a Deus, convocando-O à justiça. E Deus responde-lhe. David, grande Rei – o Papa Francisco invoca-o como São David – apesar do grave pecado contra o próximo, tomando a mulher de Urias e provocando-lhe a morte, não deixa de dialogar com Deus, penitente, arrependido, assumindo as consequências do seu pecado, protegendo o povo. E, claro, a oração de Jesus. Em todos os momentos cruciais da Sua vida, Jesus respira oração, suplicando, louvando, agradecendo, oferecendo. A sua vida faz-se oração, mas Jesus reserva momentos específicos para orar a Deus Pai: antes da vida pública, antes de escolher os apóstolos, na realização de milagres, antes do Calvário… e na Cruz!

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4406, de 4 de abril de 2017

VL – Eu Sou o Caminho que vos conduz ao Pai – 2

       O Cardeal Joseph Ratzinger (Bento XVI), há uma vintena de anos, sublinhava que para o reino de Deus há tantos caminhos quantas as pessoas, o que obviamente não anula o facto de Jesus ser o Caminho, a Verdade e a Vida (cf. Jo 14, 6). Com efeito, o meu caminho, o teu caminho, há de levar-nos a Jesus, há de levar-nos ao Pai. Sendo assim, quanto mais perto eu estiver de Jesus e quanto mais perto tu estiveres de Jesus, mais perto vamos estar um do outro. E se estamos próximos poderemos apoiar-nos mutuamente, ajudar-nos, incentivar-nos quando um de nós estiver a fraquejar.
       A Quaresma é reconhecidamente tempo de conversão e de penitência, tempo de esperança e de mudança de vida. É caminho de santidade, de aperfeiçoamento, ou seja, caminho de humanização. Preparamo-nos ao longo de toda a vida para entrarmos na morada eterna no Pai. Caminhamos mas não sozinhos. Seguem connosco todos os que Deus colocou à nossa beira e que coincidem connosco no tempo e no espaço. Mas também nos acompanham os santos, aqueles que vieram antes de nós e nos ensinaram, imitando Jesus, o caminho da docilidade, da bondade, do serviço à pessoa e à humanidade e, agora junto de Deus, atraem-nos e desafiam a viver no bem que nos irmana. Com a ajuda de Deus e dos irmãos eles chegaram lá, nós também havemos de lá chegar. E o caminho começa AGORA na nossa vida diária.
       No Reino de Deus não há excluídos (à partida), todos fomos criados por amor, para vivermos em abundância e sermos felizes (=santos). Por conseguinte, estamos "condenados" a aproximar-nos uns dos outros. Na verdade, diz-nos Jesus, Deus é Pai de todos e «faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos» (Mt 5, 45). A bênção recai sobre todos. Temos afinidades, mas nem por isso estamos dispensados de amarmos até os nossos inimigos, os que nos são indiferentes, os que desprezamos. Aliás, questiona Jesus, que vantagem haveria em amar aqueles que nos amam? Isso todos podem fazer. Os discípulos de Jesus são desafiados ao máximo. E o máximo é Deus. «Portanto, sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5, 48).
       A vinda de Jesus ao mundo, Deus que Se faz Homem, tem como missão reconciliar-nos uns com os outros e com Deus. Pelo mistério da Sua morte e da Sua ressurreição, Jesus resgata-nos das trevas, do pecado e da morte, para nos reconduzir ao Coração do Pai.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4402, de 7 de março de 2017

VL – Eu Sou o Caminho que vos conduz ao Pai

       No diálogo bem conhecido com os discípulos (cf. Jo 14, 1-6), Jesus responde diretamente a Tomé: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim. Se Me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. Mas desde agora já O conheceis e já O vistes». E logo de seguida a Filipe: «Quem Me vê, vê o Pai».
       Iniciamos o ciclo da Páscoa neste ano pastoral 2016-2017. O tempo santo da Quaresma encaminha-nos e prepara-nos para a Páscoa, envolvendo-nos na vivência mais consciente da Liturgia da Palavra, comprometendo-nos com o mundo atual em que vivemos, para chegarmos a ser, nas palavras de Jesus, sal da terra e luz do mundo.
       No caminho da Quaresma a oração, o jejum e a esmola (cf. Mt 6, 1-18). A oração para nos sintonizar com Deus e com a Sua palavra, na certeza que a proximidade a Deus nos impele ao encontro dos irmãos.
       O jejum como gesto e oportunidade de tomarmos consciência que a vida não depende só daquilo que comemos, mas tem como referencial e fundamento o próprio Deus (cf. Mt 6, 25ss). A vida é um dom inalienável. Recebemo-la de Outro, através dos nossos pais, pelo que o direito sobre a vida, a nossa e a dos outros, não nos pertence. O que nos pertence é a missão de viver e viver em abundância (cf. Jo 10, 10). O jejum não é dieta, o jejum balança-nos para outros. «Tornando mais pobre a nossa mesa aprendemos a superar o egoísmo para viver na lógica da doação e do amor; suportando as privações de algumas coisas – e não só do supérfluo – aprendemos a desviar o olhar do nosso «eu», para descobrir Alguém ao nosso lado e reconhecer Deus nos rostos de tantos irmãos nossos. Para o cristão o jejum nada tem de intimista, mas abre em maior medida para Deus e para as necessidades dos homens, e faz com que o amor a Deus seja também amor ao próximo (cf. Mc 12, 31)» (Bento XVI).
       Decorrente da vivência do Jejum, que nos recorda que o pão de cada dia deve chegar a todos, a prática da caridade, cuja esmola continua a ser uma belíssima tradição que não dispensa de refletir e lutar por mais justiça social e pela transformação das estruturas, humanizando-as. «A prática da esmola é uma chamada à primazia de Deus e à atenção para com o próximo, para redescobrir o nosso Pai bom e receber a sua misericórdia» (Bento XVI).

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4401, de 28 de fevereiro de 2017

Todos ficaram cheios do Espírito Santo

       A liturgia da Palavra em tempo de Páscoa vai mostrando como a comunidade dos primeiros discípulos fazem a experiência de Jesus ressuscitado e como dão testemunho da Sua presença, ainda que de forma gloriosa. Através deles, o Espírito de Cristo vai agindo na história. A condição para sermos discípulos é acolher o que vem de Deus, a predisposição para seguir Jesus nos caminhos atuais, com as suas dificuldades e com as suas potencialidades. Ele superará a nossa imperfeição, agirá também através de nós com as nossa fragilidades. Vejamos como Pedro e João agem em nome de Jesus:
Pedro e João, tendo sido postos em liberdade, voltaram para junto dos seus e contaram-lhes tudo o que os príncipes dos sacerdotes e os anciãos lhes tinham dito. Depois de os ouvirem, invocaram a Deus numa só alma, dizendo: «Senhor, Vós fizestes o céu, a terra, o mar e tudo o que neles se encontra; Vós dissestes, mediante o Espírito Santo, pela boca do nosso pai David, vosso servo: ‘Porque se agitaram em tumulto as nações e os povos intentaram vãos projectos? Revoltaram-se os reis da terra e os príncipes conspiraram juntos contra o Senhor e contra o seu Ungido’. Na verdade, Herodes e Pôncio Pilatos uniram-se nesta cidade com as nações pagãs e os povos de Israel contra o vosso santo servo Jesus, a quem ungistes. Assim cumpriram tudo o que o vosso poder e sabedoria tinham de antemão determinado. E agora, Senhor, vede como nos amea¬çam e concedei aos vossos servos que possam anunciar com toda a confiança a vossa palavra. Estendei a vossa mão, para que se realizem curas, milagres e prodígios, em nome do vosso santo servo Jesus». Depois de terem rezado, tremeu o lugar onde estavam reunidos: todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a anunciar com firmeza a palavra de Deus. (Actos 4, 23-31).
       No Evangelho, proposto para este dia, o encontro luminoso entre Jesus e Nicodemos:
Havia um fariseu chamado Nicodemos, que era um dos principais entre os judeus. Foi ter com Jesus de noite e disse-Lhe: «Rabi, nós sabemos que vens da parte de Deus como mestre, pois ninguém pode realizar os milagres que Tu fazes se Deus não está com ele». Jesus respondeu-lhe: «Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer de novo não pode ver o reino de Deus». Disse-Lhe Nicodemos: «Como pode um homem nascer, sendo já velho? Pode entrar segunda vez no seio materno e voltar a nascer?» Jesus respondeu: «Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus. O que nasceu da carne é carne e o que nasceu do Espírito é espírito. Não te admires por Eu te haver dito que todos devem nascer de novo. O vento sopra onde quer: ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito». (Jo 3, 1-8).
       Jesus diz a Nicodemos que é necessário nascer de novo, com a força do Espírito Santo que nos renova e transforma. É sob a inspiração e a fortaleza do Espírito Santo que os Apóstolos, sem temor, anunciam Jesus Cristo Ressuscitado. Há de ser com esta força que Nicodemos, e cada um de nós, se tornará discípulo de Jesus. É Ele que nos atrai, nos desafia e no envia. Cabe-nos permitir que o nosso coração se predisponha a esvaziar-se de nós, a morrer para o nosso egoísmo, para nos enchermos de Deus, para ressuscitarmos em Jesus Cristo.

domingo, 23 de abril de 2017

Paróquia de Távora | Semana Santa 2017

       Fotos, em formato de vídeos, das celebrações da Semana Santa, iniciando com a Via-Sacra, no sábado, dia 8 de abril de 2017, Domingo de Ramos na Paixão do Senhor, Quinta-feira Santa, com a cerimónia do Lava-pés, o Domingo de Páscoa, com a Procissão da Ressurreição e grupo da Visita Pascal.

Paróquia de Pinheiros | Semana Santa 2017

       Vídeo com as fotos da Semana Santa na Paróquia de Santa Eufémia de Pinheiros: Domingo de Ramos, Sexta-feira Santa, Segunda-Feira de Páscoa.
       Músicas de fundo: Movimento da Mensagem de Fátima e Infinitus.

sábado, 22 de abril de 2017

Paróquia de Tabuaço | Festa do Pai Nosso - 2017

       Vídeo com as fotos da Festa do Pai-Nosso, do 2.º Ano de Catequese, da Paróquia de Tabuaço, celebrada no dia 19 de março de 2017, no dia do Pai. (Tradicionalmente também solenidade de São José, mas que este ano, por ser domingo da Quaresma, passou para segunda, dia 20 de março).

terça-feira, 18 de abril de 2017

Aniversário natalício de D. António Couto, nosso Bispo

       D. António José da Rocha Couto:
Data Nascimento: 18 de Abril de 1952. Naturalidade: Vila Boa do Bispo, Marco de Canaveses, Porto Ordenação Sacerdotal: 3 de Dezembro de 1980, em Cucujães. Nomeação episcopal: 6 de Julho de 2007, para Bispo Auxiliar de Braga.Ordenação Episcopal: 23 de Setembro de 2007, no Seminário das Missões, Cucujães, Oliveira de Azeméis.
Nomeação para Bispo de Lamego: 19 de Novembro de 2011.

       Foi nomeado pelo Papa Bento XVI como Bispo titular da Diocese de Lamego, sucedendo a D. Jacinto Botelho.
       A 2 de Outubro de 1963 entrou no Seminário de Tomar, da Sociedade Portuguesa das Missões Ultramarinas, hoje Sociedade Missionária da Boa Nova.
       Recebeu a ordenação sacerdotal em Cucujães, em 3 de Dezembro de 1980.
       Os primeiros anos de sacerdócio foram vividos no Seminário de Tomar, acompanhando os alunos do 11.º e 12.º anos. No ano lectivo de 1981-1982 foi Professor de Educação Moral e Religiosa Católica na Escola de Santa Maria do Olival, em Tomar.
       Em 1982 fez o curso de Capelães Militares, na Academia Militar, e foi nomeado capelão militar do Batalhão de Serviço de Material, do Entroncamento, e, pouco depois, também da Escola Prática de Engenharia, de Tancos.
       Transferiu-se depois para Roma, para a Pontifícia Universidade Urbaniana, onde, em 1986, obteve a licenciatura canónica em Teologia Bíblica. Na mesma Universidade obteve, em 1989, o respectivo Doutoramento, depois da permanência de cerca de um ano em Jerusalém, no Studium Biblicum Franciscanum.


       No ano lectivo de 1989-1990 foi professor de Sagrada Escritura no Seminário Maior de Luanda.
       Regressou então a Portugal, e foi colocado no Seminário da Boa Nova, de Valadares, com o encargo da formação dos estudantes de teologia.
       É professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, núcleo do Porto, desde o ano lectivo de 1990-1991. De 1996 a 2002 foi Reitor do Seminário do Seminário da Boa Nova, de Valadares. Foi também Vigário Geral da Sociedade Missionária da Boa Nova (SMBN) de 1999 a 2002, ano em que foi eleito Superior Geral da mesma Sociedade Missionária da Boa Nova, cargo que ocupou até à data da sua Ordenação Episcopal, em 23 de Setembro de 2007.
       A SMBN é composta por sacerdotes diocesanos e leigos que se consagram à evangelização. Surgida em Portugal em 1930, dedica-se à evangelização ad gentes em Moçambique (desde 1937), Angola (desde 1970), Brasil (desde 1970), Zâmbia (desde 1980) e Japão (desde 1998).
       Em 2004, João Paulo II nomeou-o membro da Congregação para a Evangelização dos Povos.
       D. António Couto é colaborador do Programa ECCLESIA (RTP2), da Igreja Católica, tendo colaborado regularmente desde 2003, na sua qualidade de biblista.


     É autor dos seguintes livros: Até um dia (poemas) 1987; Raízes histórico-culturais da Vila Boa do Bispo (1988); A Aliança do Sinai como núcleo lógico-teológico central do Antigo Testamento (tese de doutoramento), 1990; Como uma dádiva. Caminhos de antropologia bíblica, 2002 (2.ª edição revista em 2005); Pentateuco. Caminho da vida agraciada, 2003 (2.ª edição revista, 2005); Estação de Natal (2012); Vejo um ramo de amendoeira (2012); O livro do Génesis (2013); A nossa Páscoa (2013); Quando Ele nos abre as Escrituras. Domingo após Domingo. Ano A (2013); Introdução ao Evangelho de São Mateus (2014). Quando Ele nos abre as Escrituras. Domingo após Domingo. Ano B (2014). Os desafios da Nova Evangelização (2014). Introdução ao Evangelho segundo São Marcos (2015). Quando Ele nos abre as Escrituras. Domingo após Domingo. Ano C (2015). O Livro dos Salmos (2015).  E também autor de inúmeros artigos em enciclopédias, colectâneas e revistas.
       É também presença habitual na Internet. Exemplo disso é o concorrido blogue MESA DE PALAVRAS: aqui, onde propõe as diversas reflexões dominicais.

sábado, 15 de abril de 2017

DOMINGO DE PÁSCOA - ano A - 16 de abril de 2017

       1 – Deus. Amor. Criação. Vida. Humanidade. Harmonia. Cumplicidade. Diálogo. Alegria.
       Homem e Mulher. Fragilidade. Pecado. Egoísmo. Discussão. Violência. Inveja. Morte.
       Chamamento. Promessa. Aliança. Profecia. Conversão. Perdão. Misericórdia.
       Jesus Cristo. Abaixamento. Compaixão. Vida nova. Nova criação. Salvação. Ressurreição.
       Chamamento. Vocação. Seguimento. Discípulos. Missionários. Espírito Santo. Igreja.
       Fraternidade. Humildade. Escuta. Obediência. Verdade. Libertação. Caridade.
       Não são palavras vãs, é o caminho que nos redime e nos congrega, nos irmana e nos envolve, comprometendo-nos com a salvação que vem de Deus. Deus criou-nos por amor. O ser humano é imagem e semelhança de Deus. Esta semelhança nem sempre corresponde aos desígnios divinos.
       Na liturgia da Vigília Pascal pudemos absorver a intervenção de Deus ao longo da história da salvação, desafiando o povo à conversão de vida, à opção pelo bem e pela justiça, na defesa dos mais pobres, na persistência pela solidariedade, dando sinais, enviando mensageiros, impelindo líderes, profetas, comunicando palavras de esperança. As promessas são feitas com o vislumbre do que virá, para levar as pessoas e o povo a mobilizar-se, deixando as armas, a força e a violência, os ódios e as injustiças, aderindo à Lei do Senhor, lei que liberta, que aponta para a vida, para a dignidade e proteção de todos, especialmente dos mais frágeis.
       2 – Desde toda a eternidade e para sempre, Deus nos ama, como Pai e sobretudo como Mãe. A Páscoa de Jesus, a Sua ressurreição entre os mortos, clarifica, ilumina e torna percetível a Encarnação, mistério de abaixamento, Ele que era de condição divina não se valendo da Sua igualdade com Deus, assumiu a condição de servo, humilhou-se a Si mesmo, obedecendo até à morte e morte de Cruz. Por isso Deus O exaltou e lhe deu o NOME que está acima de todos os nomes.
       A vinda do Filho Unigénito de Deus aproxima a eternidade do tempo e da história dos homens. Deus que nunca Se afastou nem Se distanciou, tornou-Se visível em Jesus Cristo. Não há como voltar atrás. Ele está no meio de nós como Quem serve, sempre e para sempre. Ao longo da Sua vida, sobretudo, ao longo dos três anos de vida pública, Jesus viveu para servir, para amar, para gastar a vida, para envolver, elevar, salvar, integrar, redimir, incluir todos os que andavam dispersos pelo pecado, pelas trevas e pela morte.
       Foi crescendo em graça e sabedoria, diante de Deus e dos homens e chegada a Sua hora espalhou bondade e doçura, procurando os que andavam cansados e abatidos, como ovelhas sem pastor, indo às margens para Se encontrar com os que se tinham perdido pela solidão, pela pobreza, pela exclusão social, cultural e religiosa. Contundente contra os que usavam de artimanhas e hipocrisias, escravizando pessoas e perpetuando situações de pecado, de abuso, de corrupção; dócil, próximo, misericordioso para leprosos, cegos, coxos, crianças, mulheres, publicanos, pecadores, estrangeiros. Veio para incluir, revelando a Misericórdia de Deus Pai. O Seu projeto e o Seu propósito, o Seu alimento e a Sua vida: em tudo fazer a vontade do Pai. E a vontade do Pai é que todos se salvem.
       Qual manso Cordeiro levado ao matadouro, sem mancha nem pecado, inocente, arrastado para julgamento, condenado à morte, à ignomínia da Cruz, como malfeitor. Da Sua boca não se ouviram injúrias! Procurando-nos com o Seu olhar compassivo para nos manter vivos, como a Pedro ou a Judas; elevando o olhar, o coração e a vida para o Pai, nas mãos de Quem Se coloca por inteiro e em Quem nos coloca.
       3 – As trevas quiseram por momentos bloquear a luz. Quem não se deixa inundar de luz e vive mergulhado nas trevas caminha para o abismo e para a morte e tende a arrastar os outros. A luz purifica, faz-nos ver melhor, mas por vezes também fere a vista, sobretudo quando esta está mais familiarizada com o sono, com a escuridão, com a noite.
       Do alto da Cruz, Jesus continua a chamar por Deus, continua a interceder por nós: Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem... Hoje mesmo estarás Comigo no Paraíso. Até ao fim, além de todo o sofrimento, Jesus pensa em nós, vive por nós, entrega-Se ao Pai por nós.
       A luz parecia ter-se extinguido. Jesus desceu ao fundo, até onde a humanidade mergulha, até à morte. Três dias depois, a certeza de que a última Palavra é da vida, é de Deus, é o amor. A vida entregue ao Pai por nós, é retomada, gloriosa e ressuscitada; ressuscita o amor, a compaixão, o serviço, a fraternidade. O irmão que nos morreu voltou à vida, precedendo-nos na ressurreição. Agora vivemos ressuscitados, pois Ele ressuscitou e ressuscita-nos. A vastidão do Céu inunda a terra, expande-se para a humanidade inteira. Deus não é inacessível. Só como mistério que não podemos controlar nem encerrar nas nossas conceções ideológicas e/ou morais. No mais, É acessível. Mostra-Se em Jesus, de carne e osso como nós!

       4 – Jesus não Se encontra mais no sepulcro. Ressuscitou. É preciso procurá-l'O onde a vida germina. Podemos encontrá-l’O, ou melhor deixar-nos encontrar por Ele, no jardim, no caminho, em casa, onde quer que estejamos. Não procuremos no lugar dos mortos Aquele que vive, que está no meio de nós, que está Vivo em cada pessoa, em todas as pessoas.
       Maria Madalena, Simão Pedro e o discípulo amado foram ao sepulcro e descobriram-no sem o Corpo de Jesus. O sepulcro reenvia-nos em missão. Aquele que foi morto pela iniquidade dos homens, está vivo pelo poder de Deus. Regressou dos mortos, resgatou-nos do pecado e das trevas, introduziu-nos numa vida nova.
       São horas de acordar. É o Primeiro Dia da semana, a Semana Maior fica preenchida de luz e de vida. Este é o dia que o Senhor fez, exultemos e cantemos de alegria. As trevas dão lugar à luz. É tempo de vivermos o DIA e nos deixarmos conduzir pela Luz.
       "Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo Se encontra, sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar, então também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória".

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano A): Atos 10, 34a. 37-43; Sl 117 (118); Col 3, 1-4; Jo 20, 1-9.

Túmulo e Lábios abertos - Reflexão do Pe. João Carlos

       Como as santas mulheres e os apóstolos corramos nós também ao sepulcro para vermos a pedra removida e o túmulo aberto que testemunham a ressurreição de Jesus. Hoje, como todas as manhãs, na Liturgia das Horas, nós pedimos: “Abri, Senhor, os meus lábios e a minha boca anunciará o vosso louvor”.
       O pedido que hoje fazemos vale para um dia de oito dias, toda a oitava da Páscoa, recordando-nos que este é um dia especial. Os nossos lábios abrem-se como a pedra removida do túmulo para dizer: “Cristo ressuscitou, Aleluia, Aleluia”, como eco ao canto de há oito dias atrás “Hosana, hosana, ó Filho de David”. Canto de louvor e de prece que, no Domingo de Ramos, invocava a salvação, promessa desejada no Filho de David e cumprida, duma forma jamais sonhada, no Filho de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, vencedor da morte e do pecado, Salvador da humanidade inteira.
       O louvor de hoje é, assim, necessariamente, mais prolongado e mais solene pela grandeza infinita do mistério pascal de Cristo que divide o tempo cronológico da História e o coração de cada homem que se deixa tocar e acolher pelo desejo salvífico de Jesus Redentor, a todos graciosamente oferecido.
       Abramos com a mesma emoção as portas das nossas igrejas e contemplemos os sinais do ressuscitado para louvarmos também com os olhos, os ouvidos e os demais sentidos a alegria que inunda o nosso coração. Entremos e vejamos:
– As toalhas alvas dos altares que nos recordam o lençol dobrado que guardou o corpo morto de Jesus;
– A água lustral com que a Igreja fará novos filhos no Filho, na administração fecunda do Batismo;
– A luz do Círio Pascal, lume novo para iluminar a terra inteira;
– As flores perfumadas que anunciam a primavera nova da Páscoa do Senhor;
– O incenso que se eleva para o alto transportando com o seu fumo o louvor da assembleia orante e jubilosa que se reúne em nome do Senhor, com a certeza da sua presença viva e sacramental, hoje e todos os dias até ao fim dos tempos.
       Escancaremos o coração à escuta da Palavra de Deus que nos dá as razões da nossa fé e da nossa esperança.
       Levemos essa notícia boa e bela pelas ruas e casas no compasso da visita pascal, transportando dentro de nós o anseio do salmista que diz com júbilo: «Hei de falar do vosso nome aos meus irmãos, hei -de louvá-lo no meio da assembleia».
       E quando o sol declinar e a noite chegar que os nossos lábios ainda continuem abertos para dizer: “Este é o dia que o Senhor fez, nele exultemos e nos alegremos!”

Pe. João Carlos Morgado

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Ungiu os pés de Jesus e enxugou-Lhos com os cabelos

     Jesus provoca reações diferentes nos seus conterrâneo e contemporâneos. Para os que se sentem ameaçados no seu poder, sobretudo para esses, Jesus é um obstáculo que têm de derrubar, denegrir, calar. Para muitos outros, à procura de palavras de conforto, de esperança, à procura de viverem melhor, com mais coragem, Jesus é uma resposta vital. Cada vez mais acreditam n'Ele.
       A seis dias da Páscoa, Jesus opera um dos seus mais extraordinários prodígios, a ressurreição de Lázaro, antecipando a Sua ressurreição, ou melhor, mostrando que o poder de Deus é maior que a própria morte, o AMOR vence, por fim.
Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde vivia Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Ofereceram-Lhe lá um jantar: Marta andava a servir e Lázaro era um dos que estavam à mesa com Jesus. Então Maria tomou uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-Lhos com os cabelos; e a casa encheu-se com o perfume do bálsamo. Disse então Judas Iscariotes, um dos discípulos, aquele que havia de entregar Jesus: «Porque não se vendeu este perfume por trezentos denários, para dar aos pobres?» Disse isto, não porque se importava com os pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa comum, tirava o que nela se lançava. Jesus respondeu-lhe: «Deixa-a em paz: ela tinha guardado o perfume para o dia da minha sepultura. Pobres, sempre os tereis convosco; mas a Mim, nem sempre Me tereis». Soube então grande número de judeus que Jesus Se encontrava ali e vieram, não só por causa de Jesus, mas também para verem Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Entretanto, os príncipes dos sacerdotes resolveram matar também Lázaro, porque muitos judeus, por causa dele, se afastavam e acreditavam em Jesus (Jo 12, 1-11).
       Salienta-se no texto outro dado que nos deve ajudar a refletir, quando não nos queremos comprometer, ou quando não queremos reconhecer o bem que vem do outro, o caminho mais fácil poderá ser o da zombaria, escarnecemos do outro. O gesto de Maria de Betânia é louvável e revela uma extraordinária atenção para com o Mestre que deveria enternecer os discípulos e os presentes. No entanto, há quem veja nisso um desperdício, desculpando-se com o gasto que poderia ser usado a bem dos pobres. Nos nossos dias isso continua a acontecer. Quando alguém tem um gesto de extraordinária generosidade, a tentação primeira é dizer que podia ter sido utilizado nos pobres. Há o reverso da medalha. Quem ajuda, quase sempre tem para beneficiar outros mais indigentes, quem não ajuda, sempre enche a boca com os pobres, para que os outros ajudem, não para que o próprio faça alguma coisa.
       Curiosidade: seja em Portugal, seja no mundo inteiro, a Igreja Católica é das instituições que mais ajuda as pessoas carenciadas: hospitais, escolas, creches, misericórdias, gaiatos, vicentinos, cáritas (internacional, nacionais e diocesanas), apoio a mães adolescentes e a mãe solteiras, centro de acolhimento de pessoas com deficiência profunda, instituições ligadas à Igreja de apoio a pessoas com SIDA e toxicodependência... no entanto, o que sobrevém é a riqueza patrimonial da Igreja... Diga-se, no entanto, que muita desta riqueza, museus, igrejas, é património também da humanidade... Por outro lado, quem ajuda precisa de meios para ajudar... se vender e dispensar os meios ajuda momentaneamente... e depois?
       Saliente-se também, a animosidade, justificável, do quarto evangelho em relação a Judas. Nos demais evangelhos diz-se claramente que alguns discípulos fizeram o reparo, e não que foi Judas. Como acontecerá também na entrega de Jesus, só no evangelho de João se diz que foi por 30 dinheiros, nos outros apenas que Judas O entregou e que os sumos-sacerdotes prometeram compensá-lo com dinheiro. Fica o reparo. De uma pessoa próxima e com quem nos damos bem, desculpamos todas as falhas ou pelo menos tentamos justificá-las; quando é alguém de quem não gostamos tanto, tudo serve para atacar, e o que acontece vemo-lo como instigação ou provocação de quem não podemos ver...

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Bento XVI - Conversas Finais, com Peter Seewald

BENTO XVI (2016). Conversas Finais, com Peter Seewald. Alfragide: Publicações Dom Quixote. 288 páginas.
       Decorria o ano de 1993, ainda seminarista quando tive a oportunidade de ler o livro-entrevista com os mesmos protagonistas, sob o título, Sal da Terra (1992), Peter Seewald à conversa com o então Cardeal Joseph Ratzinger. Além de todas as perguntas e respostas sobre a vida, a vocação, os tempos atuais, a Igreja nos nossos dias, como criança e jovem, como sacerdote, Bispo, Cardeal e Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, duas ideias ficaram-me gravadas na memória: para chegar a Cristo há tantos caminhos quantas as pessoas. O Cardeal respondia dessa forma a uma questão sobre se único caminho para Cristo era a Igreja. Outra ideia que surge também nesta obra é o facto da Igreja poder ser constituída por minorias. Bento XVI volta a reafirmar esta "profecia" sobretudo na Europa, sublinhando que não é algo de negativo ou desmotivador, pelo contrário, como no início da Igreja poderá levar os que são crentes a serem mais convictos, mais autênticos, mais missionários. "Os crentes terão de se esforçar ainda mais por continuarem amoldar e serem portadores da reflexão sobre os valores e a vida... a responsabilidade torna-se maior".
       Como seminarista recorri a outros textos do então Cardeal Ratzinger, como leitura e para trabalhos a realizar no curso de teologia. É sempre um desafio ouvir ou ler Ratzinger e/ou Bento XVI. Esta esta entrevista não é exceção. Clareza, simplicidade, transparência, sem fugir às perguntas, sem falsas modéstias, reconhecendo decisões ou momentos em que falhou, em que foi ingénuo ou acreditou nas informações que lhe chegaram. Há muitos motivos para ler Conversas Finais, talvez por isso mesmo, por serem finais. O Papa da eleição, da sua e da do Papa Francisco, do oito anos de pontificado, e da frescura de Francisco, fala da infância, da juventude, do jovem sacerdote e professor, de perito do Vaticano II, Arcebispo de Munique, fala da ligação ao Papa João Paulo II e como tentou regressar ao sossego da investigação teológica, fala dos escândalos na Igreja e como os enfrentou.
       Tudo isso pode ser motivo para ler esta obra. Mas destacaria algumas curiosidades:
  • O Pai era polícia e como tal tiveram que mudar de casa umas 14 vezes;
  • Família manifestamente contrária ao poder nazi. O pai era profundamente católico e contrário ao proceder de Hitler; o pai achava que a Igreja deveria ter uma intervenção mais ativa contra o nacional-socialismo, cardeais e papa...
  • depois da reforma do pai, a mãe teve que ir trabalhar para poder sustentar a casa, e possibilitar que os três irmãos pudessem estudar; o pai teve que aprender a cozinhar e a fazer a lide de casa;
  • Com a iminência da guerra que se adivinhava, os pais decidem comprar casa;
  • Nenhum dos irmãos tirou a carta de condução, embora fosse vontade expressa do pai que todos a tirassem;
  • Integrou o exército alemão, como todos os jovens alemãs que estivessem aptos. Ficou na retaguarda, acabando por desertar. Ainda assim foi preso pelos americanos... dormiam no chão, no exterior, passaram vários dias sem comer;
  • Não era muito bom em desporto, mas aguentava-se muito tempo a caminhar, pois percorria grandes distâncias ora a pé ora de bicicleta.
  • O ano mais feliz da sua vida, também dos mais dramáticos, foi o ano como vigário paroquial, um desafio... todos os sábados confessava umas duas horas...
  • A habilitação à docência universitária gerou a discussão entre dois dos seus mestres, elementos do júri, que em vez de fazerem perguntas e discutirem com Ratzinger, discutiram entre eles;
  • Uma das preocupações nesta habilitação era continuar a ajudar os pais;
  • Como teólogo sempre se considerou como progressista, com o recurso predominante à Sagrada Escritura e aos Padres da Igreja (Patrística). Os conservadores eram sobretudo escolásticos. Mais, muito mais Santo Agostinho que São Tomás de Aquino;
  • Obediência dialogada... recusou mudar de universidade, ainda que fosse o seu Bispo a pedir-lhe, adiou a ida para Roma, logo em 1979, um ano depois da eleição de João Paulo II, porém viria a aceitar o convite do Papa polaco em 1982. Comunicavam em alemão, que era a segunda língua de João Paulo II;
  • Chegou a ser acusado de maçónico e coisas do género... e até acusado de trair o Cardeal Frings, de que era conselheiro, acusação que não aceita...
  • Escreveu o texto para a Audiência Geral, na qual João Paulo II iria sancionar e identificar-se com o documento da Congregação da Doutrina da Fé, Dominus Iesus... foi então dito que o Papa se afastava do documento, quanto tinha sido o próprio a solicitar o texto... Curiosamente, diz Bento XVI, nunca escreveu nenhum texto da Congregação... «É obvio que colaborei e também reformulei criticamente o texto e assim. Mas eu próprio não escrevi nenhum dos documentos, nem sequer a Dominus Iesus».
  • Teve um papel importante no Vaticano II, como conselheiro do Cardeal Frings e depois como perito...
  • Os bispos alemãos, com os austríacos, terão tido um peso importante na eleição de João Paulo II... mais à frente, Bento XVI diz claramente que era favorável à eleição de João Paulo II...
  • Desde 1997 que Bento XVI tem um pacemaker...
  • Em 1994 perdeu por completo a visão do olho direito, em consequência de alguns derrames cerebrais. Em 1991 teve uma hemorragia cerebral, consequências sentidas nos anos seguintes...
  • Amigo de Hans Küng, cooperaram algum tempo, depois distanciaram-se, pois Küng foi-se radicalizando contra o Concílio e o primado do Papa... porém quando lhe perguntaram a opinião, respondeu: «Deixem-no». Mais tarde sancionou, com outros Bispos alemães, a decisão tomada pela Congregação da Doutrina da Fé pelo seu afastamento... O Cardeal Franjo Sper, Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé foi decidido: há quinze anos que a Igreja está a ser destruída e nós não fazemos nada...
  • No conclave para eleger o Sucessor de João Paulo II, o Cardeal Ratzinger estava sossegado, certo que iria finalmente descansar e dedicar-se ao estudo teológico, mas logo no primeiro dia de votações percebeu que poderia vir a ser o 265.º Papa da Igreja Católica... Bento XVI fala também das profecias de Malaquias...
  • Renovação do Papado, no ecumenismo e no diálogo inter-religioso, ambiente que lhe era familiar enquanto sacerdote e professor e como Arcebispo...
  • As Audiências Gerais agregaram multidões para o escutarem... discursos aclamados, por exemplo na Sede das Nações Unidas, milhões de pessoas leram as suas Encíclicas... 
  • Aquando da eleição não aceitou ficar no apartamento mandado construir por João XXIII, tendo preferido ficar em Santa Marta, até que algumas obras foram feitas no Palácio Apostólico... mandou tirar a alcatifa... ou chão ou alcatifa...
  • Dificuldade em usar os botões de punho, que não gostava de usar... "Irritavam-me bastante, tanto que cheguei a pensar que quem os inventou tinha de ir parar ao fundo do purgatório (ri)".
  • Precisa de dormir 7 a 8 horas...
  • Na Alemanha foi onde teve a maior contestação... num discurso falou na necessidade da "desmundanização" da Igreja... tema agora querido e explicitado pelo Papa Francisco...
  • Na Missa matinal, o Papa João Paulo II tinha sempre convidados, pessoas diferentes... com Bento XVI as Missas matinais passaram a ser em recolhimento, pois não se sentia preparado para ver todos os dias novos rostos, precisava de celebrar tranquilamente...
  • Não se considera místico... para escrever precisa de silêncio...
  • Na questão da pedofilia, chamou a Si, à Congregação da Doutrina da Fé, para que os processos fossem mais céleres, modificou a legislação, o que permitiu, já como Papa afastar 400 sacerdotes, reduzindo-os ao estado laical...
  • Em relação ao lobby gay, considera que foi desmantelado...
  • No caso Williamson, Bispo da Fraternidade de São Pio X, a quem o papa levantou a excomunhão... só foi informado depois de tudo ter acontecido... "Não compreendo como é que, sendo um caso tão conhecido, nenhum de nós deu por ele. Para mim é incompreensível, inconcebível"... "Na altura houve uma batalha propagandística gigante contra mim. Quem estava contra mim teve finalmente o pretexto para dizer «ele é incapaz, não é o homem certo para o lugar». Foi por conseguinte uma hora negra e um tempo difícil, mas as pessoas acabaram por compreender que eu não tinha sido realmente informado".
  • Em relação a Vatileaks, com o próprio mordomo a revelar documentos... "Não consigo compreender como é que se pode querer algo assim... Eu nem sequer o conhecia. Ele passou pelo crivo do sistema, passou todas as provas e em tudo parecia o homem certo".
  • "O lado político foi para mim o mais penoso" do pontificado...

"Diria que tentei sobretudo ser um pastor, o que implica naturalmente também uma relação apaixonada com a Palavra de Deus, ou seja aquilo que um professor tem de fazer. Implica, além disso, ser um professante, um confessor. Os termos professor e confessor, filologicamente, significam mais ou menos o mesmo, sendo que a missão está naturalmente mais próxima da de confessor"....
"A direção prática não é bem a minha qualidade..."
"É preciso continuar a aprender o que a fé nos diz neste nosso tempo. É preciso aprender a ser mais humilde, mais simples, mais sofredor e a ter mais coragem para resistir; e, por outro lado, aprender a ser sincero e a estar disponível para continuar a caminhar".

Se não acreditais em Mim, acreditai nas minhas obras

       A liturgia da Palavra mostra à saciedade como a verdade e o bem fazem mossa, ainda que em sentido de oposição e de perseguição. Jeremias é bem o exemplo que a denúncia do mal e o anúncio do bem, da palavra de Deus, da urgência da conversão interior e adesão aos Mandamentos, pode irritar aqueles que vivem à margem, melhor, vivem alheados e contra a Lei. Em vez de corrigirem, perseguem o profeta para se livrarem um vez por todas do seu testemunho e das suas palavras.
Disse Jeremias: «Eu ouvia as invectivas da multidão: ‘Terror por toda a parte! Denunciai-o, vamos denunciá-lo!’ Todos os meus amigos esperavam que eu desse um passo em falso: ‘Talvez ele se deixe enganar e assim o poderemos dominar e nos vingaremos dele’. Mas o Senhor está comigo como herói poderoso e os meus perseguidores cairão vencidos. Ficarão cheios de vergonha pelo seu fracasso, ignomínia eterna que não será esquecida. Senhor do Universo, que sondais o justo e perscrutais os rins e o coração, possa eu ver o castigo que dareis a essa gente, pois a Vós confiei a minha causa. Cantai ao Senhor, louvai o Senhor, que salvou a vida do pobre das mãos dos perversos» (Jer 20, 10-13).
       De modo semelhante sucede a Jesus. A Sua missão está a chegar ao seu termo. É por demais evidente que alguns de entre os judeus não só não aceitam a Sua palavra como se sentem ameaçados, expostos pela Sua vida, pela Sua postura. As palavras que levam Jesus a reconhecer que todos são filhos, herdeiros, irmãos e que devem ser tratados como tal, pessoas livres, não agradam aos que detêm o poder e se julgam acima das pessoas mais pobres e das classes mais baixas.
Os judeus agarraram em pedras para apedrejarem Jesus, Então Jesus disse-lhes: «Apresentei-vos muitas boas obras, da parte de meu Pai. Por qual dessas obras Me quereis apedrejar?» Responderam os judeus: «Não é por qualquer boa obra que Te queremos apedrejar: é por blasfémia, porque Tu, sendo homem, Te fazes Deus». Disse-lhes Jesus: «Não está escrito na vossa Lei: ‘Eu disse: vós sois deuses’? Se a Lei chama ‘deuses’ a quem a palavra de Deus se dirigia – e a Escritura não pode abolir-se –, de Mim, que o Pai consagrou e enviou ao mundo, vós dizeis: ‘Estás a blasfemar’, por Eu ter dito: ‘Sou Filho de Deus’!» Se não faço as obras de meu Pai, não acrediteis. Mas se as faço, embora não acrediteis em Mim, acreditai nas minhas obras, para reconhecerdes e saberdes que o Pai está em Mim e Eu estou no Pai». De novo procuraram prendê-l’O, mas Ele escapou-Se das suas mãos. Jesus retirou-Se novamente para além do Jordão, para o local onde anteriormente João tinha estado a baptizar e lá permaneceu. Muitos foram ter com Ele e diziam: «É certo que João não fez nenhum milagre, mas tudo o que disse deste homem era verdade». E muitos ali acreditaram em Jesus (Jo 10, 31-42).

quarta-feira, 5 de abril de 2017

São Vicente Ferrer, presbítero (+ 1419)

(Imagens da Capela de São Vicente. São Vicente, São Paulo, Santa Frebena)

       Nasceu em Valencia, Espanha, em 1350. Entrou para os Dominicanos (Ordem dos Pregadores de S. Domingos) com 17 anos. Nesta época, a Igreja Ocidental vivia o grande cisma, com dois Papas, um em Avinhão, na França, e outro em Roma, em Itália.
       Fez a sua profissão religiosa em 1368 e foi ordenado sacerdote em 1374.
       Mestre em teologia, Vicente coloca-se ao lado dos papas de Avinhão. Em 1384, o cardeal Pedro de Luna foi eleito Papa, Bento XIII. Vicente, que já era seu amigo, tornou-se seu confessor. Entretanto, para que a unidade da Igreja fosse possível chegou-se à conclusão que o melhor era que os dois Papa renunciassem, ficando assim as condições criadas para se eleger um novo Papa. Bento XIII manteve-se renitente. São Vicente incentivou-o a renunciar, para bem da Igreja e da unidade da mesma, acabando por lhe tirar o apoio. Com esta postura e decisão, ajudou a eleger o novo papa, Martinho V, trazendo de novo a unidade da Igreja ocidental. Este período negro da Igreja dissipou-se. As conversões e as graças por intercessão de Vicente Ferrer continuaram.
       Em Avinhão caiu gravemente enfermo. Tem então uma visão de Nosso Senhor, acompanhado de São Domingos e São Francisco, a entregar-lhe a missão de pregar o evangelho por todo o mundo.
       O coração desse dominicano era dotado de uma fé fervorosa. Numa época e numa Europa fértil em batalhas sangrentas, calamidades públicas, fome, miséria, misticismo, ignorância, além da peste negra, que dizimou um terço da população, a pregação de São Vicente Ferrer revestia-se de um certo fatalismo, num desafio permanente à conversão e à mudança de vida.
       Andou por Espanha, França, Itália, Suíça, Bélgica, Inglaterra e Irlanda e muitas outras regiões, defendendo sempre a unidade da Igreja, o fim das guerras, o arrependimento e a penitência, como forma de esperar o regresso iminente de Cristo. Tornou-se uma das vozes mais respeitadas da Europa. Pregava para multidões e as Igrejas e Catedrais tornavam-se pequenas para os fiéis que queriam ouvi-lo, daí a opção de pregar nas praças públicas, onde cabiam mais pessoas. As procissões de penitência também uma adesão extraordinária. Mesmo os que não concordavam com ele, afirmavam que Deus estava do seu lado.
       Exorta as pessoas à conversão: a vinda de Jesus Cristo está próxima. Vicente é, para a imaginação popular, “o pregador do fim do mundo”. O auditório das suas pregações chegava a ultrapassar as 15 mil pessoas. Muitas vezes era chamado a intervir como árbitro de paz.
       São Vicente trabalhou com afinco também pela conversão dos judeus e dos maometanos. Os historiadores afirmam que foram 25.000 judeus e 8.000 maometanos que ele converteu com seu exemplo e palavras.
       No ano de 1407, em Domingo de Ramos, enquanto pregava numa igreja de Ecija, em Espanha, uma senhora judia, rica e poderosa, que seguia seus sermões por mera curiosidade, mas fazia sarcasmos a meia voz e, em forma de desafio, levantou-se de improviso e atravessou a multidão para sair, furiosa, mas o povo indignado com a atitude não a queria deixar passar, então o Santo disse-lhes: "Deixai-a sair, porém, afastai-vos do pórtico"... Quando ia a passar debaixo do pórtico, este desmoronou em cima dela e matou-a. São Vicente, em alto e bom som, ordenou: "Mulher, em nome de Cristo, volta à vida!" A mulher ressuscitou! Depois disso, a senhora converteu-se ao cristianismo. Na cidade, anualmente, uma procissão passou a comemorar a morte, ressurreição e conversão da senhora judia.
       Morreu no dia 5 de abril de 1419, na cidade de Vannes, Bretanha, na França. Há 598 anos.
       São Vicente Ferrer foi um dos maiores pregadores da Igreja do segundo milénio e o maior pregador do século XIV. O processo de canonização começou no dia seguinte à sua morte. Nos lugares onde pregou, as populações, que o veneram ainda em vida, invocam-no após a sua morte. A Igreja reconheceu como autênticos 873 milagres.
       Foi canonizado pelo Papa Calisto III, em 1455, que, muitos anos antes de ser Papa, tinha sido favorecido por uma profecia de São Vicente. Durante uma das suas pregações, em Valência, entre a multidão dos que se aproximavam dele para se encomendar às suas orações, São Vicente pôs a sua atenção num sacerdote, que lhe pedia também a caridade de rezar por ele. O Santo disse-lhe: "Eu te felicito, meu filho. Tendes presente que és chamado a ser um dia a glória de tua pátria e de tua família, pois serás revestido da mais alta dignidade a que pode chegar um homem mortal. E eu mesmo serei, após minha morte, objeto de tua particular veneração".
       Em Tabuaço venera-se desde o séc. XV ou XVI. A povoação formou-se a partir de uma ermida erigida em sua honra, crescendo a partir daí. Não deveria ser muito distante da atual Capela em honra de São Vicente.
       Na Capela existem, depois das obras de recuperação, quatro imagens: São Vicente, Santa Frebena, São Paulo, Apóstolo, e Santa Maria (Romana).
       A imagem de São Vicente representa-o com o traje dominicano. Na imagem original, teria asas, sendo visíveis dois buracos na parte superior das costas, onde estariam incrustadas as duas asas que entretanto desapareceram, por ser apelidado de “anjo do apocalipse”. Sentado aos pés, a judia que ele ressuscitou e que se converteu ao cristianismo.

distribuído na Eucaristia comunitária (em 2013), AQUI

       Um vídeo com algumas imagens da Capela e da Imagem de São Vicente. Quer a Capela quer a Imagem foram beneficiados há pouco com intervenções de conservação e restauro. A música de fundo, foi escolhida/proposta pelo Youtube:


Oração de colecta:
       Deus de misericórdia, que chamastes o presbítero São Vicente Ferrer, pregador incansável do Evangelho, a fim de preparar os homens para a vinda do Senhor, concedei-nos a graça de contemplar como Rei no Céu Aquele que cuja vinda como Juiz ele anunciou na terra. Por Nosso Senhor Jesus Cristo vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Vai e não voltes a pecar

       "Os escribas e os fariseus apresentaram a Jesus uma mulher surpreendida em adultério, colocaram-na no meio dos presentes e disseram a Jesus:
       - Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Na Lei, Moisés mandou-nos apedrejar tais mulheres. Tu que dizes?
       Falavam assim para Lhe armarem uma cilada e terem pretexto para O acusar. Mas Jesus inclinou-Se e começou a escrever com o dedo no chão. Como persistiam em interrogá-l’O, Ele ergueu-Se e disse-lhes:
       - Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra.
       Inclinou-Se novamente e continuou a escrever no chão. Eles, porém, quando ouviram tais palavras, foram saindo um após outro, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher, que estava no meio. Jesus ergueu-Se e disse-lhe:
       - Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?
       Ela respondeu:
       - Ninguém, Senhor.
       Jesus acrescentou:
       - Também Eu não te condeno. Vai e não tornes a pecar"
      (Jo 8, 1-11).
       Jesus ensina no templo, quando alguns escribas e fariseus lhe trazem uma mulher surpreendida em flagrante adultério e cuja lei de Moisés mandava apedrejar até à morte.
       Quantas vezes a lei, em vez de proteger e reabilitar, serve apenas para condenar, para destruir. Jesus utiliza a Lei com pedagogia.
       Aos que lhe apresentam a mulher adúltera, Jesus dá-lhes a oportunidade de fazerem um julgamento consciente, "quem estiver sem pecados, atire a primeira pedra". Cabe-nos responder a nós e não arranjar carrascos para que julguem por nós.
       À mulher adúltera Jesus proporciona um tempo novo, uma vida nova, "vai e não voltes a pecar". O que ela fez não é correto, mas pode regenerar a sua vida e a sua postura.
       Uma nota final para falar da perversidade da lei e da discriminação negativa das mulheres. Só estas eram condenadas. É uma mentalidade que tem perpassado ao longo de gerações. No campo sexual, ao homem tudo ou quase tudo é permitido e tolerado (perdoado); as mulheres ou são santas ou são lançadas às feras...

sábado, 1 de abril de 2017

Domingo V da Quaresma - ano A - 2 de abril de 2017

       1 – Comum a todos, a morte é um mistério que nos ultrapassa. Ninguém quer morrer. Quando alguém quer antecipar a morte – estando plenamente consciente e sem nenhum trauma depressivo – não quer morrer mas tem medo de sofrer, de ser um empecilho para os outros. Terei forças para suportar um sofrimento descomunal e desumano? Perante o que vem pela frente, por que não colocar já um termo, prevenindo a dor e o sofrimento. Isto diz bem da cultura atual: eliminar sacrifícios e toda a dor e mal-estar. Quando não se consegue, corta-se o mal pela raiz. É um tema muito delicado. Só quem acompanha de perto vidas destroçadas pela doença crónica e/ou terminal poderá ter um juízo mais compreensível. Cabe-nos, a todos, assegurar a dignidade de toda a pessoa, desde a conceção à morte natural. Só Deus é o Senhor da vida e da morte. Para Ele todos valem tudo, como filhos bem-amados, independentemente das limitações humanas, físicas ou mentais. E de nenhum modo podemos impor a morte aos outros...
       Ao longo da Sua vida terrena, Jesus depara-se com a história humana, com os seus limites e fragilidades. Cresceu num ambiente familiar, em Nazaré, onde as pessoas se conheciam e se ajudavam mutuamente. Paredes meias com as alegrias e as tristezas de todos. É crível que tenha a experiência da perda do Pai, São José, aquele que Lhe deu nome e casa, O protegeu e O ensinou a trabalhar. Teve então que se tornar o homem da casa, assumindo as responsabilidades que eram do pai.
       2 – O Evangelho deste Domingo traz-nos a Ressurreição de Lázaro. Mas traz-nos também a nossa condição humana, com os seus desafios e as suas perdas. A história de Deus não apenas se cruza com a história humana, mas entranha-se, enraíza-se, enxerta-se na minha, na tua, na nossa vida.
       Jesus vem para todos. Quando falamos em todos corremos o sério risco de diluir os afetos e os compromissos com pessoas de carne e osso. É conhecido um comentário acerca da Princesa Diana: todo o mundo a amava, menos o marido! Nós gostamos de todo o mundo e estamos disponíveis a ajudar toda a gente, a dificuldade é ajudar o meu colega de carteira, a minha mãe nas tarefas de casa, o vizinho que está sempre a implicar com o meu cão que faz barulho e lhe faz as necessidades à porta!
       Há sempre muitas pessoas a seguir Jesus. Porém, Jesus tem disponibilidade para criar laços, escutar desalentos, confortar desavindos, olhar olhos nos olhos quem precisa de atenção e carinho.
       Em Betânia, Maria, Marta e Lázaro são Seus amigos. Quando Lázaro está doente, mandam-n’O chamar e Jesus voltará novamente à Judeia, existindo o perigo real de ser morto. A resposta de Jesus é contundente, mas é também um desafio: «Não são doze as horas do dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo. Mas, se andar de noite, tropeça, porque não tem luz consigo». Tal como víamos no domingo passado, Jesus é a Luz do mundo (cf. Jo 9, 1-41), se andarmos na Luz não tropeçaremos, se andarmos de noite, sem Luz em nós, por certo que nos encaminhamos para a morte.
       3 – Quando Jesus chegou a Betânia, o seu amigo Lázaro já jazia no sepulcro há quatro dias. Pelo caminho, vemos como os discípulos vão discorrendo das palavras de Jesus. Tomé, o apóstolo que no habituamos a reconhecer como incrédulo, predispõe-se a morrer com Jesus, pois conclui que a ida para a Judeia é uma espécie de suicídio, depois das ameaças verificadas antes. Contudo, Jesus não volta para morrer, mas para "recuperar", ressuscitar Lázaro e, quando a hora chegar, volta para dar a vida, para que todos, e não apenas Lázaro, sejamos ressuscitados para um vida abundante de graça e salvação.
       Gente de bem, por certo, Marta e Maria recebem muitas pessoas que lhes apresentam as condolências. Marta, a irmã mais ativa, mal sabe que Jesus está perto vai ao Seu encontro e diz-lhe: «Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus, Deus To concederá». Marta confia em Jesus. É possível, contudo, como se percebe com o avançar do diálogo, que Marta confie que o pedido de Jesus a Deus seja para o irmão ir para bom lugar e não tanto para "regressar" à vida terrena, pois logo que Jesus lhe diz «Teu irmão ressuscitará», ela Lhe responde: «Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia».

O diálogo continua. Disse-lhe Jesus: «Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá. Acreditas nisto?». Ao que se segue nova profissão de fé por parte de Marta: «Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo».
       4 – Marta vai chamar Maria, que rapidamente vem ao encontro de Jesus e se prostra a Seus pés, validando o que antes a sua irmã tinha dito, isto é, que a presença de Jesus teria evitado a morte de Lázaro.
       Maria chora e, com ela, os judeus que a acompanham. O evangelista sublinha a comoção de Jesus que também chora a morte do amigo. Alguns constatam a amizade mas questionam-se acerca do poder de Jesus, pois se curou um cego também poderia ter evitado a morte de um amigo.
       O túmulo em que Lázaro se encontra sepultado faz-nos visualizar o túmulo de Jesus. Uma gruta, com uma pedra posta à entrada. Comovido, Jesus pede que retirem a pedra. Continua a contar com o nosso esforço, cabe-nos fazer o que está ao nosso alcance, Deus fará o resto. A intervenção de Marta faz perceber o óbvio, o corpo já está em decomposição, já cheira mal. Está mesmo morto. Após a remoção da pedra, Jesus levanta os olhos para o Céu e reza: «Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido. Eu bem sei que sempre Me ouves, mas falei assim por causa da multidão que nos cerca, para acreditarem que Tu Me enviaste».
       A oração faz milagres, Deus sempre nos ouve, mas nem sempre compreendemos os Seus desígnios. Podemos não fazer o mundo à nossa maneira, mas poderemos acolher as bênçãos de Deus e procurar que o mundo seja dom onde vivamos como irmãos.
       É então que Jesus brada para que Lázaro saia. Ele sai, de mãos e pés enfaixados com ligaduras e com o rosto envolvido num sudário. Antecipa-se aqui o sepultamento de Jesus. É necessário que lhe tirem as ligaduras. Antecipa-se também a ressurreição de Jesus. Quando forem ao Seu túmulo, vão perceber que saiu pelo próprio pé, deixando as ligaduras e o sudário arrumados.
       Muitos dos judeus que foram visitar Marta e Maria acreditaram em Jesus.

       5 – Pouco a pouco, o Povo da Promessa e da Aliança, vai percebendo que Deus é um Deus de vivos e não de mortos. Não teria sentido doutra maneira. Um Deus que não garantisse a preservação da nossa identidade para sempre seria um Deus a prazo, talvez útil e necessário para nos iludir no tempo, mas apenas isso, uma ilusão, um momento, um fogacho de esperança.
       Não é fácil entender a ressurreição dos mortos. Por certo. Até porque ninguém nos relatou como será. Sabemos que Jesus ressuscitou Lázaro, o filho da viúva de Naim, a filha de Jairo e foi ressuscitado por Deus Pai, ascendendo para junto d'Ele, de onde nos atrai e nos convoca. Há os que dizem acreditar em Deus mas não na vida eterna, na ressurreição dos mortos. Crer em Deus, que é fonte de vida, pressupõe fé na ressurreição e esperança que a nossa vida permanecerá para sempre.
       O profeta Ezequiel traz-nos a Palavra de Deus: «Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo, para vos reconduzir à terra de Israel. Haveis de reconhecer que Eu sou o Senhor, quando abrir os vossos túmulos e deles vos fizer ressuscitar, ó meu povo. Infundirei em vós o meu espírito e revivereis. Hei de fixar-vos na vossa terra e reconhecereis que Eu, o Senhor, digo e faço». E Deus é sempre fiel à Sua promessa. Mais que Lázaro ou que os filhos da Viúva de Naim e de Jairo, Jesus é a realização da promessa do Senhor, que antecipa a nossa própria ressurreição para Deus. De referir que só a ressurreição de Jesus é gloriosa, para sempre. Lázaro voltará a morrer, cuja ressurreição final o catapultará para a eternidade, e não para uma nova vida histórica, temporal ou reencarnada.

       6 – A certeza que o tempo presente, por mais violento e doloroso que seja, será passageiro, a esperança na vida futura, ressuscitada, a fé em Deus que fará justiça aos injustiçados, aos pobres, aos excluídos, levou alguns a falar no descomprometimento dos cristãos, pois fixando-se no futuro, deixariam de se empenhar na transformação do mundo.
        Pelo contrário, sem Deus e sem futuro, sem garantia de eternidade e de uma justiça definitiva, é que todos ficaríamos ao deus-dará, agindo cada um segundo os seus interesses mais imediatos. Sabendo que Deus nos espera, o compromisso em acolher a Sua misericórdia, os Seus dons, já aqui, na nossa vida, vivendo, amando, servindo, antecipando, tanto quanto possível, a glória da eternidade. Por conseguinte, rezamos, "Senhor nosso Deus, concedei-nos a graça de viver com alegria o mesmo espírito de caridade que levou o vosso Filho a entregar-Se à morte pela salvação dos homens". A entrega e a vida de Jesus, o Seu compromisso com todos, preferencialmente pelos mais desfavorecidos, mostra-nos o caminho do Pai.
       Diz-nos São Paulo: "Se Cristo está em vós, embora o vosso corpo seja mortal por causa do pecado, o espírito permanece vivo por causa da justiça. E se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós".
       Caminhamos mais seguros, comprometidos na história, envolvidos no Espírito Santo, para vivermos ao jeito de Jesus, dando a vida, gastando-a a favor dos outros e não a guardando para nós. E assim iniciamos a vida eterna...

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (A): Ez 37, 12-14; Sl 129 (130); Rom 8, 8-11; Jo 11, 1-45.