quarta-feira, 25 de março de 2020

Solenidade da Anunciação do Senhor

Nota histórica:
       Deus que no decorrer dos séculos, tinha encarregado os profetas de transmitir aos homens a Sua palavra, ao chegar a plenitude dos tempos, determina enviar-lhes o Seu próprio Filho, o Seu Verbo, a Palavra feita Carne.
       Contudo, o Pai das misericórdias quis que a Incarnação fosse precedida da aceitação por parte daquela que Ele predestinara para Mãe, para que, assim como uma mulher contribuiu para a morte, também outra mulher contribuísse para a vida» (Lumen gentium, 56).
       No momento da Anunciação, através do Anjo Gabriel, Deus expõe portanto, a Maria os Seus desígnios. E Maria, livre, consciente e generosamente, aceita a vontade do Senhor a seu respeito, realizando-se assim o mistério da Incarnação do Verbo. Nesse momento, com efeito, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade começa a Sua existência humana. O filho de Deus faz Se Filho do Homem. O Deus Altíssimo torna-Se o «Deus connosco».
       Ao celebrar este mistério, precisamente nove meses antes do Natal, a Solenidade da Anunciação orienta-nos já para o Nascimento de Cristo. No entanto, a Incarnação está intimamente unida à Redenção. Por isso, as Leituras (especialmente a segunda) introduzem-nos já no Mistério da Páscoa.
       Essencialmente festa do Senhor, a Anunciação não pode deixar de ser, ao mesmo tempo, uma festa perfeitamente mariana. Na verdade, foi pelo sim de Maria que a Incarnação se realizou, a nova Aliança se estabeleceu e a Redenção do mundo pecador ficou assegurada.
 
      O Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José, da descendência de David. O nome da Virgem era Maria. Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?» O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril; porque a Deus nada é impossível». Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 26-38).

quinta-feira, 19 de março de 2020

SÃO JOSÉ A CAMINHO DO EGITO

Hoje celebramos a solenidade de São José, Esposo de Maria, Pai adotivo de Jesus, "custodiador" da Sagrada Família de Nazaré. É também o Dia do Pai. Este ano a celebração vai ser diferente, muito diferente. O país iniciou o Estado de Emergência, tornando ainda mais real o que está a acontecer em Portugal e no mundo, o alastrar da pandemia do coronovírus, COVID 19.
Com a violência da contaminação e a perigosidade do vírus, também o medo, a ansiedade e embotamento, uma tristeza que a todos afeta por nos colocar na situação de isolamento social, em quarentena, afastados uns dos outros, saudando-nos à distância ou através dos meios digitais. Encontrar-nos com os amigos, em comunidade, festejar, rir ou chorar juntos não será exequível nos próximos tempos, pois a recomendação é séria e a nossa responsabilidade não é transmissível. Cabe respeitar, respeitar, respeitar, mais do que nunca, o espaço do outro, sem no entanto deixarmos ninguém para trás. A nossa atenção tem de ser redobrada.
Hoje as igrejas enchiam-se de cor, de festa, de alegria, de júbilo e, assim também, a casa, as nossas famílias. Que não se deixe de comemorar este dia em honra de São José ou, se não formos tão crentes, em honra dos nossos pais. É, inevitavelmente, uma comemoração diferente, em suspenso, mas ainda assim oportunidade para agradecermos a vida, na identidade dos pais, a vida em família e o esforço que uns e outros, com responsabilidades diferentes, teremos de fazer para chegarmos a bom porto. O barco está em andamento. Temos que remar no mesmo sentido, temos que remar todos, libertando os mais frágeis, mas contando com a sua presença para nos animarem a prosseguir. É por nós e é por eles, uns pelos outros, uns com os outros, que remamos avançando por meio da tempestade que ainda há pouco se abateu sobre nós. Não queremos que ninguém salte do barco, que ninguém fique para trás, ajudemos os mais cansados,  também precisamos deles, precisamos de todos.
São José é o Protetor da Igreja universal, porque primeiro foi o protetor da Sagrada Família de Nazaré. A vida dele não foi fácil. O momento presente vai ser duro, o caminho vai ser longo, vamos encontrar muitas pedras no caminho. Deus queira que façamos o que disse o Poeta: as pedras que encontrar no meu caminho, vou juntá-las todas, e vou construir um castelo (Fernando Pessoa). Vamos continuar a construir comunidade, a deixar marcas de bem, a ajuntar as pedras que encontrarmos para nos fortalecermos em família e como comunidade.
Depois do nascimento de Jesus, José pôs-se em fuga para o Egito, como refugiado ou foragido (cf. Mt 2, 13-23). Não foi um caminho fácil. Deixou o aconchego da sua casa e da sua terra, deixou os amigos e familiares, mas para segurança de Maria e de Jesus, empreendeu a viagem. Tantas vezes se terá perguntado: se tenho à minha guarda o Filho de Deus, porque é que tenho de enfrentar tantos sacrifícios, porque é que tenho de fugir ou porque é que Deus deixa que isto aconteça ao Seu próprio Filho. Talvez José não tenha ouvido a resposta que esperava, a não ser o que o Anjo lhe revelou em sonhos. Tens de fugir, pega no Menino e Sua Mãe e foge para o Egito. José pôs-se em marcha, permanecendo no Egipto muito tempo, até ao tempo em que ouviu dizer que Herodes já tinha morrido e, então, o Anjo, noutro sonho, mandou-o regressar. E novamente o caminho não se afigurou fácil. José percebeu que ainda não era seguro regressar a Belém e foi para Nazaré.
Finalmente regressou. Foram muitos anos, longe dos seus, longe da terra, longe de casa. Foi um longo tempo em terra estrangeira. Mas foi possível regressar. Pelo caminho, muitas pedras, dificuldades e tropeços, mas sem perder a fé em Deus, a esperança no futuro. A certeza que regressaria animou-o a trabalhar, a cuidar, a educar, a celebrar a fé, a vida, a família. Façamos o mesmo.
Que São José nos proteja, nos livre do desânimo e que no cansaço nos faça ver a Páscoa, a Luz que vem de Deus, que está para lá das nuvens e a certeza do regresso a casa, no caso presente, o regresso à normalidade social.
O caminho vai ser longo, mas não estamos sós, Ele vai connosco, como foi com José, como foi com Moisés e com o Povo Eleito, através do deserto até à Terra Prometida. Deus está no meio de nós. Em cada um de nós. Se tu ajudas, Deus é ajudado. Se tu cais, Deus magoa-Se. Se te levantas, Deus sorri. Se tropeças, Deus inquieta-Se. O que fizermos ao mais pequeno dos irmãos é a Ele que o fazemos. Se deixarmos de fazer, é Deus que deixamos para trás.
Que a Virgem Santa Maria, Esposa de São José, Mãe de Jesus e nossa Mãe, nos afague no Seu colo de ternura e paz, não nos desampare nesta hora de tribulação, de caminho e de luta. Que mais uma vez ela nos traga Jesus, nos traga a paz de Belém, nos traga alegria do Menino, da vida nova e nos faça fazer tudo o que Ele nos pede, e Ele não nos pede mais que não seja amar, amar, amar, que se traduz no serviço e no cuidado uns pelos outros, imitando-O e imitando os Seus pais terrenos, Maria e José.
São José, rogai por nós, pelos nossos pais e pelas nossas famílias.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Quarta-feira de Cinzas 2020 - Homilia do Papa Francisco

Começamos a Quaresma com a receção das cinzas: «Lembra-te que és pó da terra e à terra hás de voltar» (cf. Gn 3, 19). O pó sobre a cabeça faz-nos ter os pés assentes na terra: recorda-nos que viemos da terra e, à terra, voltaremos; isto é, somos débeis, frágeis, mortais. No longo decorrer dos séculos e milénios, passamos num ai; comparados com a imensidão das galáxias e do espaço, somos minúsculos; somos um bocado de pó no universo. Mas somos o pó amado por Deus. Amorosamente o Senhor recolheu nas suas mãos o nosso pó e, nele, insuflou o seu sopro de vida (cf. Gn 2, 7). Por isso somos um pó precioso, destinado a viver para sempre. Somos a terra sobre a qual Deus estendeu o seu céu, o pó que contém os seus sonhos. Somos a esperança de Deus, o seu tesouro, a sua glória.

Deste modo, a cinza recorda-nos o percurso da nossa existência: do pó à vida. Somos pó, terra, barro; mas, se nos deixarmos plasmar pelas mãos de Deus, tornamo-nos uma maravilha. Todavia muitas vezes, sobretudo nas dificuldades e na solidão, vemos só o nosso pó! Mas o Senhor encoraja-nos: o pouco que somos, aos olhos d’Ele tem valor infinito. Coragem! Nascemos para ser amados; nascemos para ser filhos de Deus.

No início da Quaresma, amados irmãos e irmãs, consciencializemo-nos disto. Porque a Quaresma não é o tempo para fazer cair sobre o povo inúteis moralismos, mas para reconhecer que as nossas míseras cinzas são amadas por Deus. É tempo de graça, para acolher o olhar amoroso de Deus sobre nós e, assim contemplados, mudar de vida. Estamos no mundo para caminhar da cinza à vida. Então, não pulverizemos a esperança, nem incineremos o sonho que Deus tem sobre nós. Não cedamos à resignação. Dizes tu: «E como posso ter confiança? O mundo vai mal, o medo alastra, há tanta malvadez e a sociedade está a descristianizar-se...» Mas tu, não acreditas que Deus pode transformar o nosso pó em glória?
A cinza, que recebemos na testa, abala os pensamentos que temos na cabeça. Lembra-nos que nós, filhos de Deus, não podemos viver correndo atrás do pó que desaparece. Pode descer da cabeça ao coração esta pergunta: «Para que vivo eu?» Se vivo para as coisas do mundo que passam, volto ao pó, renego aquilo que Deus fez em mim. Se vivo só para arrecadar algum dinheiro e divertir-me, procurar um certo prestígio, fazer carreira, então estou a viver de pó. Se julgo má a vida, só porque não sou tido suficientemente em consideração, ou não recebo dos outros o que acho merecer, estou ainda com o olhar no pó.

Não estamos no mundo para isso. Valemos muito mais, vivemos para muito mais: para realizar o sonho de Deus, para amar. A cinza pousa nas nossas testas, para que, nos corações, se acenda o fogo do amor. Com efeito, somos cidadãos do céu. E o amor a Deus e ao próximo é o passaporte para o céu; é o nosso passaporte. Não poderão valer-nos os bens terrenos que possuímos – são pó que desaparece! –, mas salvar-nos-á o amor que oferecemos na família, no trabalho, na Igreja, no mundo: tal amor permanecerá para sempre.

A cinza que recebemos recorda-nos um segundo percurso: o percurso contrário, que vai da vida ao pó. Olhamos em redor e vemos pó de morte, vidas reduzidas a cinzas: escombros, destruição, guerra. Vidas de bebés inocentes não acolhidos, vidas de pobres rejeitados, vidas de idosos descartados. Continuamos a destruir-nos, a fazer-nos voltar ao pó. E quanto pó existe nas nossas relações! Vejamos em nossa casa, nas famílias: quantas brigas, quanta incapacidade de neutralizar os conflitos, quanta dificuldade em pedir desculpa, perdoar, recomeçar, enquanto com tanta facilidade reclamamos os nossos espaços e direitos! Há tanto pó que suja o amor e embrutece a vida. Mesmo na Igreja, a casa de Deus, deixamos depositar tanto pó, o pó do mundanismo.

E olhemo-nos dentro, no coração… Quantas vezes sufocamos o fogo de Deus com a cinza da hipocrisia! A hipocrisia: é a imundície que hoje, no Evangelho, Jesus pede para remover. De facto, o Senhor não diz apenas para fazer obras de caridade, rezar e jejuar, mas que tudo isso seja feito sem fingimento, sem falsidade nem hipocrisia (cf. Mt 6, 2.5.16). E, contudo, quantas vezes fazemos algo só para ser louvados, para meter figura, para me vangloriar! Quantas vezes nos proclamamos cristãos e, no coração, cedemos sem problemas às paixões que nos escravizam! Quantas vezes pregamos uma coisa e fazemos outra! Quantas vezes nos mostramos bons por fora e dentro incubamos rancores! Quanta duplicidade temos no coração... É pó que suja, cinza que sufoca o fogo do amor.

Precisamos de limpar o pó que se deposita no coração. Como fazer? Ajuda-nos o veemente apelo de São Paulo na segunda Leitura: «Deixai-vos reconciliar com Deus!» Paulo não o exige; suplica-o: «Em nome de Cristo suplicamo-vos: deixai-vos reconciliar com Deus!» (2 Cor 5, 20). Nós teríamos dito: «Reconciliai-vos com Deus». Mas ele, não; usa o passivo: deixai-vos reconciliar. Porque a santidade não é obra nossa; é graça. Sozinhos, não somos capazes de tirar o pó que suja o coração, pois só Jesus, que conhece e ama o nosso coração, pode curá-lo. A Quaresma é tempo de cura.

Que fazer então? No caminho rumo à Páscoa, podemos efetuar duas passagens: a primeira, do pó à vida, da nossa humanidade frágil à humanidade de Jesus, que nos cura. Podemos colocar-nos diante do Crucificado, ficar lá olhando-O e repetindo: «Jesus, Vós me amais; transformai-me! Jesus, Vós me amais; transformai-me…» E depois de ter acolhido o seu amor, depois de ter chorado à vista deste amor, a segunda passagem, para não voltar a cair da vida ao pó: vai-se receber o perdão de Deus, na Confissão, porque lá o fogo do amor de Deus consome a cinza do nosso pecado. O abraço do Pai na Confissão renova-nos por dentro, limpa-nos o coração. Deixemo-nos reconciliar, para viver como filhos amados, pecadores perdoados, doentes curados, viandantes acompanhados. Para amar, deixemo-nos amar; deixemo-nos erguer, para caminhar rumo à meta – à Páscoa. Teremos a alegria de descobrir que Deus nos ressuscita das nossas cinzas.

sábado, 11 de janeiro de 2020

MARCELO REBELO DE SOUSA - o Presidente dos Afetos

CLÁUDIA SEBASTIÃO (2018). Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente dos Afetos. Lisboa: Paulus Editora. 184 páginas.
O Professor Marcelo Rebelo de Sousa dispensa apresentações e, por certo, todos temos uma opinião formada sobre o atual Presidente da República, tal é a exposição a que está sujeito diariamente, nomeadamente através dos meios de comunicação social e das redes sociais. Já antes de ser Presidente, o que se acentuou a partir da candidatura, da campanha e da eleição para o mais alto cargo da nação.
Mas, como constatará, caso aceite a nossa sugestão de leitura, que há dimensões que podem ser investigadas, colocando a descoberto outras dimensões ou, pelo menos, clarificando a personalidade por detrás do Presidente. Este livro, da autoria de Cláudia Sebastião, editado pela Paulus Editora, procura mostrar a consistência de Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente que, desde a primeira hora, tem privilegiado a proximidade às pessoas, sem barreiras, e os afetos, procurando estar presente para todos, especialmente nos momentos de aflição, sofrimento, perda, como nos incêndios de 2017 em Pedrógão Grande, em junho, e na região centro, em outubro. Depois do estudo dos técnicos, que sublinharam que a presença de políticos quando se estavam a combater os incêndios, só trouxe dificuldades, então tem refreado a imediatez com que se deslocava às tragédias…
A obra que sugerimos mostra a consistência de Marcelo na atenção aos mais frágeis, vem de longe, da infância, em que acompanhava a mãe, que era assistente social, da educação católica, da pertença a vários movimentos juvenis católicos, com a preocupação de se envolver na ajuda às pessoas mais carenciadas, fazendo “voluntariado” desde jovem, no empenho social que o junta, por exemplo, ao amigo e companheiro António Guterres, atual Secretário Geral das Nações Unidas.
Inabalável a sua identidade cristã-católica, que o compromete também como e enquanto Presidente da República. Na página da Presidência da República, começa assim a sua apresentação: “Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa nasceu a 12 de dezembro de 1948. É católico, participou em vários movimentos da Igreja Católica”. Só depois outros “afazeres”! Ele próprio caracteriza: “Eu sou católico, influenciado pelo Vaticano II, concílio bem presente hoje no ministério do Papa Francisco, português defensor da lusofonia com especiais relações em África e no Brasil… O fim maior na política é o combate à pobreza, é a luta contra as desigualdades, é a afirmação da justiça social… ninguém se salva sozinho e é preciso construir pontes”.
Num outro momento afirma taxativamente em relação à intervenção política dos cristãos: “Quem não intervém comete um erro porque a sua voz não será substituída por nenhuma outra voz. Mais vale às vezes intervir em excesso, cometendo erros, a não intervir”. Por outro lado, a opção clara pelos mais frágeis: “Cristo define o seu programa de vida. E o nosso programa de vida. Anunciar a eternidade. Mas também dar esperança aos pobres, vista aos cegos, libertação aos presos e oprimidos. Tudo está aí. Vida eterna, mas também justiça na vida terrena. Justiça que não ignore ninguém, mas prefira os excluídos e sofredores – na economia, na sociedade, na cultura, na política”

"Porque acredito em Jesus Cristo? Porque Deus acredita em mim. Tão simples quanto isso . Dirigiu-se-me e eu aceitei".
"Um cristão católico que não é otimista é profundamente ingrato. Nós estamos disponíveis para fazer misérias para ganhar o Euromilhões todas as semanas e não percebemos que o Euromilhões dos Euromilhões é a graça da fé. Não é contingente, não é semanal, não é conjuntural, não é limitado. É uma oportunidade única no caminho para a eternidade e no começo da construção da eternidade neste mundo".

Sobre a recitação do terço: “Fica às vezes a meio, mas depois prossegue. Há alguns mistérios que são sacrificados. Mas ao fim do dia está completo. Não é um mandamento. É como respirar. Há coisas que eu faço naturalmente. Não é uma obrigação, é assim. Faz parte da minha via. Não me passa pela cabeça haver um dia se Terço”.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

ROBERT CHEAIB - EDUCAR OS FILHOS NA FÉ

ROBERT CHEAIB (2019). Educar os filhos na fé. Prior Velho: Paulinas Editora. 208 páginas.
"Enquanto os filhos são pequenos, os limites, as regras e a disciplina não são apenas úteis, são necessários e cruciais. Somos responsáveis pelos nossos filhos quando são pequenos e é ingénuo pensar que podem ser deixados entregues a si próprios logo em tenra idade. É uma espécie de «abandono de menores»... Um dos primeiros segredos da educação dos filhos na fé é mesmo: começar cedo. Ao invés, um dos erros da educação religiosa dos filhos é ficar à espera que cresçam, que «tenham idade para conversarmos sobre estas coisas»... Se não fores tu a semear, outro semeará por ti e, muito provavelmente, semeará uma semente diferente - se não mesmo contrária - da tua... «Não os ensino a falar português porque tenho receio que no futuro a língua portuguesa nãos eja a língua da sua preferência». É um raciocínio ridículo porque, assim, privo os meus filhos de uma ferramenta relacional importante como a língua".
Por estas palavras do próprio autor, podemos calcular a importância da educação da fé das crianças, a começar no berço. Achar que se deve deixar a religião para quando os filhos puderem escolher é um erro infantil, uma vez que em todas as dimensões da vida, os pais procuram dar as ferramentas aos filhos para que, ao crescerem, possam tomar as próprias decisões. Também assim no campo da religião. Esta deve ser como a língua materna. Se os pais se escusarem a educar o filhos, haverá quem o faça, a televisão, a Internet, os colegas.
O autor é doutorado em Teologia Fundamental, pela Universidade Pontifícia Gregoriana, exercendo a docência em várias universidades, é conferencista, em Itália e em outros países, abordando temáticas relativas à vida de casal, educação dos filhos, juventude e fé, desafios do ateísmo. É casado e pai.

Os cinco pilares propostos pelo autor e desenvolvidos ao longo do livro:
  • Educação preventiva: é preciso começar cedo. É preciso prevenir a queda da fé reforçando as fundações enquanto os filhos são pequenos.
  • Educação no dia a dia: a fé não se vive dentro de uma redoma de vidro nem de maneira isolada do resto da educação. A vida de fé precisa de uma educação integral e de uma experiência diária. Só experimentando o amor no dia a dia é que os nossos filhos vão percecionar e sentir o Amor de Deus como credível e familiar.
  • Educação narrativa: a fé não é feita de conceitos, mas de narrações, de um povo que faz experiência de um Deus que vem ao seu encontro; de uma comunidade que faz experiência de um Deus que se faz homem, fala do Pai através de parábolas e de histórias convidando-nos a sermos, como Ele, testemunho e parábola de Deus.
  • Educação responsável: como pais não podemos delegar aos outros a responsabilidade da educação na fé dos nossos filhos. Aliás, somos mesmo os primeiros catequistas deles. E somo-lo, em primeiro lugar, com o exemplo de vida que não deve desmentir as nossas palavras. Somos também responsáveis no sentido que temos a tarefa de dar respostas às perguntas dos nossos filhos ou, pelo menos, temos a responsabilidade de os saber orientar para as pessoas que estão em condições de dar resposta às legítimas perguntas e dúvidas em matéria de fé.
  • Educação responsabilizadora: ou os nossos filhos se tornam crentes ativos ou então serão para sempre clientes passivos que, mais tarde ou mais cedo, se aproximam de fornecedores de respostas mais perspicazes (cf. Lc 6,8). Os filhos sentir-se-ão parte da Igreja e que a fé é a fé deles, se tiverem feito experiência pessoal de Deus. A nossa tarefa, enquanto eles forem pequenos, é a de lhes proporcionar oásis onde possam ir buscar a água de Cristo, oásis que podem ser comunidades oficiais ou encontros «informais» com a prole de outras famílias desejosas, como nós, de criar os filhos na fé».
Ao longo do livro, o autor vai sublinhando a presença dos pais em relação aos filhos, arranjar tempo, proximidade, as primeiras testemunhas da fé, o exemplo é crucial, o amor entre os esposos, que nunca deve ser descurado. A educação, também na fé, passa pela vivência. "Para sermos bons catequistas dos nossos filhos devemos ser bons pais". A amabilidade há de ser a referência na educação: "Quem não se sente amado não quererá ouvir razões. Quem não se sente amado e não experimenta o amor não acreditará no Deus-amor. Sem amor a nossa existência permanece indecifrável e insensata... o amor exige proximidade" e escuta.

EMMA DONOGHUE - O QUARTO DE JACK

EMMA DONOGHUE (2018). O Quarto de Jack. Porto: Porto Editora. 336 páginas.
Jack acaba de fazer 5 anos. Apaga as velas. Festeja mais um aniversário. Até ao final dos quatro anos, Jack só conhece uma realidade, um quarto, onde dorme, come, mama, brinca, faz desporto, aprende a ler e a escrever, tem 5 livros para ler, conhece personagens na televisão, que não são reais. Pessoas só ele e a mãe e o Nick Mafarrico, que vem à noite, mas como fica escondido no guarda-fatos, não o vê, só houve barulho, respiração e algumas palavras, isto quando não está a dormir. Depois do Nick sair volta para a cama para junto da mãe.
Feitos os 5 anos, a mãe começa a desmontar as mentiras que foi criando para o manter, para se manterem em segurança. O mundo Lá Fora afinal existe, existem humanos verdadeiros, a televisão mostra pessoas verdadeiras e outras personagens que não existem. É necessário fugir. Arranjar um plano de fuga. O Quarto revela ser uma prisão, de onde não podem sair. O Mafarrico tranca a porta com um código, o quarto é insonorizado. Podem gritar que ninguém os ouvirá. A mãe foi raptada aos 19 anos. Nessa altura, tinha mãe e pai (adotivos), tinha amigos, tinha outra vida, mas foi enganada e entrou numa carrinha e deixada ali naquele Quarto. A Mãe engendra um plano para fugir, tendo como protagonista Jack, irão ludibriar o Nick Mafarrico.
Ainda que o plano não decorra como esperado, com todos os passos imaginados, resulta na libertação de Jack e da Mãe. Nick é preso e aguarda julgamento, esperando-se que nunca mais saia da cadeia.
A vida no mundo Lá Fora é diferente, tem outras regras, tem outros humanos. Precisam de ir para uma clínica, a comunicação social quer devorar a história. Há muitas coisas diferentes. Jack tem saudades do Quarto, onde é ele e a Mãe, aqui há outros eles, que afinal são verdadeiros. Precisam de se adaptar rapidamente, à luz, ao som, a conhecer pessoas e lugares. Tanta informação que é difícil assimilar. Curiosamente quem é atropelada pela realidade é a Mãe, que quer ir mais cedo para o Céu. A avó materna e o Avô emprestado, os tios e a prima, vão ser de grande ajuda. Jack continua a querer o Quarto.
Jack não precisa de muito, precisa da Mãe. Não precisa de muito mais. Tem medo da chuva. E que lhe toquem ou o abracem. Só precisa do colo da mãe. Quando a mãe não está, ele tem o dente podre da mãe, que guardou e mete na boca, para chupar, pois assim tem um pedaço da mãe. O dente foi com ele na fuga, mantém-no até que a mãe volta da Clínica. Depois perde-o. Já não tinha sabor nenhum. Quer os brinquedos e livros que tinha no Quarto. E o tapete, mesmo com o cheiro que trazia do Quarto. A mãe quer fazer desaparecer esses objetos e esses cheiros, mas por insistência do filho regressa ao Quarto, que afinal já não é o mesmo Quarto, parece mais pequeno. Jack despede-se do Quarto, das paredes, do teto, como se estivesse a despedir-se de pessoas.
Este é um livro extraordinário. Lê-se de fio a pavio, faz-nos tocar a realidade de tantas pessoas vítimas de rapto, cujas vidas foram destruídas ou feridas para sempre, fala-nos da ternura e do amor, da Mãe e do Filho, e da resiliência, mas também da fragilidade humanas. É possível ter muito pouco e resistir a tudo, por amor. É possível ter muito e perder-se.
A voz que narra toda a trama é a voz de uma criança, de Jack, que nos surpreende com a sua ingenuidade, mas também com a capacidade de ouvir e perceber das crianças, mesmo quando os adultos pensam que os mais pequenos não ouvem e/ou não percebem. Fala-nos de um amor tão grande, gigante, que não precisa de muitas coisas. Jack só precisa do amor, do olhar, do colo da mãe. Tudo o mais é secundário. Mas mesmo no mundo Lá Fora, continua a precisar da Mãe, do amor e da presença da Mãe. A mãe é salva, em todos os sentidos, pelo filho, pelo amor do filho, ainda que tenha sucumbido alguns dias depois de estarem no mundo Lá Fora, não aguentando a pressão, a novidade. Mas também aí, o amor parece ter levado a melhor. Resistiu a tudo, tornou-se cínica, deixou de (aparentemente) lutar contra o agressor, mas para proteger o filho e, assim, também se protegeu. Quando já não precisava de resistir, vacilou na incerteza, na insegurança, na novidade.
Não recomendaria uma leitura que não me tivesse cativado do início ao fim. É uma escrita criativa, simplificada pelas palavras de uma criança de 5 anos, envolvente, do início ao fim. E, como sabemos, ainda que a ficção seja muito realística, infelizmente, a realidade ultrapassa sempre a ficção, havendo casos de sucesso, mas havendo muitos outros cujo desfecho foi a escravidão para sempre ou a morte.