sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Por vezes luto com Deus, por vezes danço (III)

       Quando se dança, diz-se a verdade. Quando se ora também se diz a verdade. É impossível haver fingimento na oração.
       O verdadeiro encontro com Deus, se por vezes é tão difícil, é porque nos pede essa nudez. Pede-nos a aceitação da pobreza, que com frequência é o mais difícil de alcançar; a aceitação do nosso limite, do que não podemos, do que não sabemos, do que não conseguimos, do que não fomos, do que não quisemos, e que, contudo, nos foi dado e temos de viver.
       Na terceira e última parte da conferência "Por vezes luto com Deus, por vezes danço", o P. José Tolentino Mendonça cruza os caminhos da dança com os da espiritualidade cristã:

Novena de Santa Eufémia - sétimo dia

       A boca de ouro (= crisóstomo), assim conhecido, São João Crisóstomo, ajuda-nos a refletir e a louvar a Deus, pela criação, pela humanidade inteira, pelos sacramentos que Jesus Cristo nos deixou.
       Numa das suas cartas, antes do exílio, Crisóstomo fala com um grande desprendimento. "Se a vossa caridade me não retivesse aqui, não recusaria partir hoje mesmo para onde quer que fosse. Porque sempre estou dizendo: Senhor, seja feita a vossa vontade; não o que quer este ou aquele, mas o que Vós quereis que eu faça. Esta é a torre que me abriga, esta é a pedra firme que me sustenta, este é o bordão que não me deixa vacilar. Seja o que Deus quiser. Se Ele quer que eu permaneça aqui, fico Lhe agradecido. Se me chama para qualquer outro lado, sempre Lhe darei graças".
       Santa Eufémia, cuja novena continuamos a celebrar na paróquia de Pinheiros, ao sétimo dia centramo-nos no louvor. Daniel mesmo no meio do fogo, ou na cova dos leões, não deixa de alegremente louvar a Deus. Assim também com Santa Eufémia, a criação junta-se ao seu louvor. Antes, porém, as palavras de São João Crisóstomo, que encontrámos em São Paulo - para mim morrer é lucro -, de de Santa Eufémia, que não se importava de ser martirizada antes que todos os outros, sob a perspetiva de mais rapidamente chegar á glória de Deus.

       A imagem de Santa Eufémia é acompanhada de dois leões e tem a ver com o facto daqueles estarem presentes nos suplícios que lhe são infligidos.
       Segundo uma tradição, depois da tortura e de variadas formas de agressão, numa roda esquartejante, numa fornalha em chamas, ela terá sido morta por um leão, mas não esfacelada. Ou seja, um leão te-la-á morto, mas depois de morta, os leões deitaram-se junto dela, mansamente, como que a protegendo de outras agressões.
       Segundo outra tradição, foram várias as tentativas de a matarem com violência, mas resistiu ao fogo, à roda que a esquartejaria, lançada aos leões estes terão ficado mansos, sem darem sinais de a atacar, então um algoz desferiu o golpe fatal da espada. E assim foi morta a jovem Eufémia.
       Numa ou noutra tradição, os leões aparecem protectores de Santa Eufémia, remetendo-nos aos episódios bíblicos, nos quais Daniel é colocado numa fornalha ardente, e sai ileso, e posteriormentente colocado na cova de leões e sai também ileso. Nesta perspectiva, poder-se-á dizer que quem está bem com Deus, com a sua consciência, está bem com os outros, com o mundo e com a natureza inteira.
       Como Santa Eufémia, e seguindo a oração de Daniel, saibamos louvar a Deus por toda a criação, pelos animais, pelos peixes, pelas aves, pela chuva e pela neve, pelo sol e pelo vento, pelo dia e pela noite e sobretudo pelas pessoas que colocou perto de nós.

São João Crisóstomo: 5 vias de Penitência

São João Crisóstomo ensina-nos:
       “Queres que cite as vias da penitência? São muitas, é certo; variadas e diferentes; mas todas levam ao céu:

PRIMEIRA VIA DA PENITÊNCIA: a reprovação dos pecados
       Sê tu o primeiro a dizer os teus pecados para seres justificado. O Profeta tão bem dizia: ‘Confessei contra mim mesmo a minha injustiça ao Senhor, e Ele perdoou a impiedade do meu coração’. Reprova também tu aquilo em que pecaste; basta isto ao Senhor para desculpar-te. Quem reprova aquilo em que pecou, custará mais a recair. Estimula o acusador interno, a tua consciência, para que não venhas a ter acusador lá adiante no tribunal do Senhor. Esta primeira, é ótima via de penitência.

SEGUNDA VIA DA PENITÊNCIA: o perdão das faltas do próximo
       Não guardemos lembrança das injúrias recebidas dos inimigos, dominemos a cólera, perdoemos as faltas dos companheiros. Esta segunda via não é nada inferior à primeira. Com esta via, aquilo que se cometeu contra o Senhor será perdoado. Eis outra expiação dos pecados. ‘Se perdoardes aos vossos devedores, também vos perdoará o vosso Pai celeste’.

TERCEIRA VIA DA PENITÊNCIA: a oração
       Nesta via, a oração deve ser muito ardente e bem feita; uma oração que brote do mais fundo do coração.

QUARTA VIA DA PENITÊNCIA: a esmola
       A esmola possui muita e poderosa força no caminho para a conversão e transformação do coração. Leva à prática da caridade e ao desprendimento dos bens e de si mesmo.

QUINTA VIA DA PENITÊNCIA: a humildade
       Ser modesto no agir e humilde, não menos que tudo o mais, destrói os pecados. Testemunha disto é o publicano que não podia dizer a seu favor nada feito com retidão, mas em vez disso ofereceu a humildade e depôs pesada carga de pecados.

       Estão indicadas assim, as cinco vias da penitência. Não sejas preguiçoso, meu irmão, mas caminha todos os dias por elas. São fáceis e portanto, não podes nem sequer objetar a pobreza, pois ainda que pela indigência leves vida dura, renunciar à ira e mostrar humildade está em teu poder, bem como rezar assiduamente, condenar os teus pecados e perdoar os dos outros. Em parte alguma a pobreza é impedimento. O que digo aqui, naquela via de penitência que consiste em dar dinheiro (falo de esmola) ou em observar os mandamentos, será obstáculo à pobreza? A viúva que deu dois tostões já respondeu. Tendo, pois, aprendido o meio de curar as nossas chagas, usemos deste remédio. E com isso, recuperada a saúde, vamos com confiança à mesa sagrada e corramos gloriosos ao encontro de Cristo, Rei da glória; e alcançaremos os eternos bens, por graça, misericórdia e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo.”

FONTE: Vida Espiritual Católica, in Repórter de Cristo.

S. João Crisóstomo: Oração para a comunhão

Creio, Senhor e confesso,
que em verdade Tu És Cristo, Filho de Deus vivo
e que vieste ao mundo para salvar os pecadores,
dos quais eu sou o primeiro.

Creio ainda que este é o Teu Puríssimo Corpo
e que este é o Teu próprio precioso Sangue.

Suplico-Te, pois, tem misericórdia de mim
e perdoa-me as minhas faltas voluntárias e involuntárias,
que cometi por palavras ou ações,
com conhecimento ou por ignorância,
e concede-me sem condenação receber Teus puríssimos Mistérios
para remissão dos pecados e para a vida eterna.

Da Tua Ceia Mística, aceita-me hoje como participante,
ó Filho de Deus;
pois não revelarei o Teu Mistério aos Teus inimigos,
nem Te darei o beijo como Judas,
mas como o ladrão me confesso:
lembra-Te de mim, Senhor, no Teu Reino,
Que não seja para meu juízo ou condenação,
a recepção de Teus Santos Mistérios, Senhor,
mas para a cura do corpo e da alma. Amém.

São João Crisóstomo, in 33catolico a serviço da Igreja

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Novena de Santa Eufémia - sexto dia

       Coincide liturgicamente com o sexto dia da Novena preparatória em honra de Santa Eufémia o Evangelho em que Jesus nos desafia a amar até mesmo os inimigos (Lc 6, 27-38). Amar quem nos ama, gostar daqueles com quem simpatizámos, não é nada de grandioso. Quando se fala de alguém que morreu é muito comum ouvir-se dizer: era amigo do seu amigo. Pudera. Melhor seria ser inimigo do seu amigo. A novidade do Evangelho é precisamente o convite a amar os inimigos, rezar pelos que nos perseguem e injuriam, fazer bem a quem nos fez mal e/ou disse mal de nós.
       Há dias o Papa Francisco convidava precisamente a rezarmos por quem sentimos irritação. Jesus vai à raiz do coração. À primeira vista é mais fácil responder com a maledicência a quem diz mal de nós ou por quem nutrimos antipatia, pagar com a mesma moeda. Isso não acrescenta nada de bom nem à minha vida nem ao do outro. Pelo contrário, responder à violência com violência, ao mal com o mal, só contribuimos para multiplicar o mal e o sofrimento que daí advém. Num primeiro momento podemos sentirmo-nos aliviados e justificados por que tivemos a oportunidade de responder da mesma forma ou de forma ainda mais agressiva.
       Com o tempo verificaremos que a proposta de Jesus nos leva mais longe, faz-nos entrar no mais íntimo de nós, no coração. Responder ao mal com o bem, com amor, realiza-nos, traz-nos uma paz mais duradoura, faz-nos sentir parte da vida. Dá à nossa vida um colorido que nos deixa felizes. O azedume arrasta-nos para a melancolia e para estados depressivos.
       Santa Eufémia ilustra esta passagem do Evangelho. Não se volta contra os perseguidores, contra aqueles que a torturam. Com outros cristãos, canta, reza, louva a Deus por lhe ter dado a oportunidade de dar testemunho de Jesus Cristo com a própria vida. De uns recebe o exemplo de coragem e alegria. A outros, ela própria ncentiva a manterem-se serenos na certeza que maior é o amor de Deus. Nada nos pode separar desse amor.

Por vezes luto com Deus, por vezes danço (II)

       O Batismo não é a entrada num estado de isenção, de neutralidade. O viver crente está a fazer-se, é sempre inacabado, é sempre o lugar da turbulência, da agitação.
       Lutando com Deus, também dançamos com ele. A fé uma dança, e Abraão mostra-nos isso. Quando já não tinha grandes expectativas acerca da vida, Deus convoca-o para uma forma de nomadismo singular que é a fé. Abraão vai viver na viagem, e essa é a dimensão da própria fé.
       Com o movimento da fé, sabemos de onde partimos mas, ao contrário dos caminhos que habitualmente percorremos, tantas vezes estreitos e utilitários, desconhecemos para onde vamos. Com a fé, viajamos sem mapas para lá de tudo o que se pode prever.
       Segunda parte da conferência "Por vezes luto com Deus, por vezes danço", pelo P. José Tolentino Mendonça:

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Novena de Santa Eufémia - quinto dia

       Já lá vão 12 anos, mas o 11 de setembro de 2001 continua a ser uma data que abalou profundamente a humanidade. Naquela tarde, os ataques terroristas contras a torres gémeas de Nova Iorque, entraram nas nossas casas e com espanto pudemos constatar que nenhum lugar do mundo é seguro quando deixamos que o ódio, a violência e a guerra guiem relações pessoais, familiares, sociais, internacionais. Passaria pela mente de alguém que o coração da Américia sofresse um ataque tão violento? E a violência que veio depois, pagará as vidas dos que morreram nesse dia? E a guerra que alguns querem contra a Síria, ajudará a trazer a paz ao mundo?
       Evocando esse dia, propomos que com Santa Eufémia aprendamos "respeitar e proteger os outros", e à violência respondámos com perdão e com amor. Jesus, santa Eufémia, santa Bárbara, tantos homens e mulheres vítimas de violência, usando argumentos religiosos. Jesus por Se fazer passar por Filho de Deus. A jovem Eufémia é torturada e morta por se afirmar cristã. Ainda assim, e à semelhança de outros mártires, responde com compaixão, rezando pelos seus carrascos, louvando a Deus até pelo sofrimento infligido.
       Hoje o Evangelho (Lc 6, 20-26) é um modo novo de viver. "Bem-aventurados sereis, quando os homens vos odiarem, quando vos rejeitarem e insultarem e proscreverem o vosso nome como infame, por causa do Filho do homem. Alegrai-vos e exultai nesse dia, porque é grande no Céu a vossa recompensa. Era assim que os seus antepassados tratavam os profetas".
       Diante de Prisco, o procônsul e juiz romano, Eufémia aparece corajosa, alegre, disponível para testemunhar Jesus Cristo, retomando de algum modo o desejo de São Paulo de rapidamente entrar na Glória de Deus: “É por eu ser nobre que preferes estrangeiros e desconhecidos e lhes dá a glória prometida, antes a eles que a mim, chegando deste modo primeiro junto de Cristo?” 
       Olhando para a primeira leitura (Col 3, 1-11) - Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus - vemos como Santa Eufémia aspira às coisas do alto, correndo o sério risco de ser morta, deixando-se atrair pela eternidade de Deus.

A Cigarra e da Formiga - versão Gonçalves da Costa

       A cigarra, graciosa garrida, livre de compromissos sociais ou económicos, resolve viver independente a alegrar a comunidade com as suas melodias rítmicas e monocórdicas, enquanto a formiga, desengonçada e farroupilha, escrava do agregado de classe mourejava dia e noite, sem outro ideal que o de satisfazer as exigências do estômago.
       Despreocupada e romântica, todo o verão a cigarra voava de árvore em árvore, na plena liberdade de espaços, persuadida que o espírito vale mais do que a matéria, nunca disputando o bocado que podia matar a fome do seu semelhante. Ao contrário a formiga, pragmática e egoísta, partidária do materialismo dialético, achava sempre pequeno o seu celeiro, espreitando todas as oportunidades de fazer ocupação selvagem, desde o naco de pão do proletariado, até ao grão de trigo do agricultor e ao boião de geleia do burguês, respondendo à dentada ao faminto que lhe batesse à porta.
       Não assim a cigarra. Fiel à doutrina evangélica, cumpria a primeira obrigação da criatura que é louvar a Deus, na certeza de que tudo o mais lhe viria por acréscimo; confiava na providência do Pai do Céu que nunca deixou perecer à míngua os que menosprezam os próprios interesses para fazer bem aos irmãos. Por isso a formiga, que não levanta os olhos da terra, está condenada a morrer sob os pés dos transeuntes e o seu cadáver a ser devorado pelas companheiras de luta, enquanto a cigarra recebe a morte franciscanamente entoando um hino ao sol.


       Curiosa a interpretação de André Sardet, em sintonia com esta versão alternativa do Pe. Manuel Gonçalves da Costa:
Interessante também a leitura de Pe. Isidro Lamelas, também natural de Penude: AQUI.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Novena de Santa Eufémia - quarto dia

       Seguindo a edição impressa da NOVENA de Santa EUFÉMIA, o quarto dia sugere-nos sermos discípulos de Jesus aprendermos e vivermos com Ele, para depois nos tornarmos enviados, apóstolos, testemunhas.
       Olhando para o Evangelho de hoje (Lc 6, 12-19), o que é que hoje podemos aprender com Jesus? Antes de mais a prioridade da oração, da intimidade com Deus. Nada decidir de importante na nossa vida sem antes rezarmos com fé, demoradamente, sobretudo quando as escolhas nos implicam e àqueles que estão à nossa volta. Jesus passa a noite em oração. De manhã chama os discípulos e dentre eles escolhe algumas para um seguimento mais próximo, a que damos o nome de Apóstolos (enviados, testemunhas da morte e ressurreição de Jesus Cristo).
       Primeiro oração. Só depois o seguimento e o testemunho. Jesus reza. Chama. Anuncia a Palavra de Deus e envia. Não podemos ensinar a Palavra de Deus se antes a não rezámos. Não podemos ser Apóstolos de Jesus, se antes nãos formos seus discípulos. Não podemos anunciar o Evangelho, sem antes nos convertermos de todo o coração à vida nova que Jesus nos dá.
       Santa Eufémia poderá dar testemunho, com alegria e coragem, depois da sua firme adesão a Jesus Cristo. Ouçamos as palavras de Santo Ambrósio: "A santa e gloriosa Eufémia conservou a virgindade e mereceu ser cingida com a coroa do martírio. Pelas suas preces o inimigo foi vencido, o adversário Prisco eliminado, a virgem tirada do fogo da fornalha, sã e salva, as pedras duras transformadas em pó, as feras amansaram-se e submeteram-se, todos os suplícios foram superados pela oração; por fim, trespassada pela espada, deixou a prisão da carne e, jubilosa, juntou-se ao coro celeste…”.
       São as preces de Santa Eufémia que vencem o inimigo. É a intimidade com Deus que lhe dá o destemor para enfrentar os adversários do cristianismo. Com os outros mártires, ela aprendeu a ser discípula de Jesus. Como outros cristãos e cristãs, ela deu o maior testemunhod e fé, com a sua própria vida.

Por vezes luto com Deus, por vezes danço (I)

       O silêncio e a ausência são sinais que, misteriosamente, insinuam uma presença.
       A aceitação do silêncio é um trabalho preparatório para a escuta. A disciplina de fazer silêncio no coração, calar os pensamentos e as imagens, as maledicências e superficialidades.
       O silêncio ainda não é Deus, mas é também a possibilidade de abrir a vida ao Outro, deixando que a possibilidade do Outro nos habite.
       A fé vive como hipótese, como lugar contínuo de expectativa, vive de um combate: nunca nada está acabado, nunca nada é completamente conhecido.
       Primeira parte da conferência "Por vezes luto com Deus, por vezes danço", pelo P. José Tolentino Mendonça:



Gonçalves da Costa: 20 anos depois, peregrino de mim

       Fazia precisamente vinte anos que eu tinha deixado a minha aldeia, naquele dia de sim de verão em que voltava a percorrer, peregrino de mim, os caminhos de infância. O passado vinha ao meu encontro em cada esquina, mas a criança ingénua, tímida, crédula, e um tanto presunçosa na sua ignorância, essa por lá ficara irremediavelmente perdida aos bocados, não sei como nem onde. Lembro-me, por exemplo, da vizinha, a Maria Rosa, que da porta da sua casa me disse adeus há 20 anos, quando ela tinha outros tantos.
       E afinal lá estava ela, entretida com as agulhas da meia, ao pé da horta, entre os cravos e as couves-galegas, a mesma juventude, o mesmo ar sadio, a mesma garridice provinciana. Parece incrível como os anos a deixaram intacta! Vou fazer-lhe uma surpresa:
       - Olá, Maria Rosa!
       Ela moveu a cabeça a fitar-me numa interrogação.
       - Então já não me conheces?
       - Desculpe. Eu não sou a Maria Rosa. Chamo-me Emília. Maria Rosa é a minha mãe. Olhe-a ali.
       Nesse momento vi emoldurada nas ombreias da porta uma cabeça grisalha, um rosto enrugado, uns olhos mortiços, uma boca meio desdentada que se abriu a perguntar:
       - Que é?
       - Não é nada. Desculpe. Foi uma confusão.
       Vinte anos! Uma eternidade! Só as árvores mantinham a sua perene mocidade verde. Só o sol, agora a fechar os olhos dormentes no repoiso do ocaso, irradiava o mesmo sorriso rechonchudo, menineiro. E afastei-e, peregrino de mim, a caminho de um santuário profanado pela morte.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Novena de Santa EUFÉMIA - terceiro dia

       A nossa proposta de reflexão centrar-se-ia no seguinte título: Aprender na escola de Santa Eufémia (Veja-se os títulos da NOVENA de Santa Eufémia, os anteriores e os atuais).
       A imagem de Santa Eufémia traja uma magnífica capa/manto. Poderia ser apenas um aspeto decorativo, desconhecendo-se por certa que roupas vestiria a jovem Eufémia, ainda que estudando a época e a região se pudesse chegar a uma possibilidade aproximada de indumentária. Curiosamente na Paróquia de Pinheiros, talvez com a preocupação de salientar a imagem/estátua de Santa Eufémia, acrescentavam-lhe um manto em pano pregado à madeira dourada, estragando dessa forma a própria imagem e sem acrescentar beleza. Popularmente, diríamos que quando uma senhora se pinta a preocupação é embelezar o rosto, sublinhar os olhos, ou as maças do rosto, ou disfarçar algum traço que não se gosta tanto. No caso da imagem, escondia a riqueza desta obra de arte e certamente o trabalho do escultor.
     Imagem à parte, vamos ao tema de hoje. O manto estará ligado à vida de Santa Eufémia. De uma família nobre, com posses, ela teve condições para estudar, frequentando uma escola, ou recebendo a instrução através de professores particulares. Instruiu-se com os professores, mas como todos nós, instruiu-se com a família, com os pais, seguindo de perto os ensinamentos da mãe, os seus conselhos. E muito terá aprendido com o testemunho de outros cristãos, dos mártires, cuja vida era oferecida por serem cristãos. O testemunho de muitos deles, fê-la corajosa na hora de também ela ser chamada a dar testemunho, com palavras, desafiando a autoridade e incentivando a coragem daqueles que eram torturados e estavam à beira de ser mortos, e depois enfrentando também na sua pele as torturas e a morte.
       Hoje o evangelho (Lc 6, 6-11), traz-nos a cura de um paralítico a um sábado, mostrando-nos que todas as horas são boas para fazer o bem, como em todas as circunstâncias podemos bendizer e bem-fazer. Assim o fez Santa Eufémia, aprendamos na sua escola, ela que aprendeu na Escola de Jesus e de muitos cristãos e cristãs que testemunharam a sua fidelidade a Deus.

Lumen Fidei - Maria, Mãe da Igreja e da nossa fé

A Maria, Mãe da Igreja e Mãe da nossa fé, nos dirigimos, rezando-Lhe:
Ajudai, ó Mãe, a nossa fé.
Abri o nosso ouvido à Palavra,
para reconhecermos a voz de Deus e a sua chamada.
Despertai em nós o desejo de seguir os seus passos,
saindo da nossa terra e acolhendo a sua promessa.
Ajudai-nos a deixar-nos tocar pelo seu amor,
para podermos tocá-Lo com a fé.
Ajudai-nos a confiar-nos plenamente a Ele,
a crer no seu amor,
sobretudo nos momentos de tribulação e cruz,
quando a nossa fé é chamada a amadurecer.
Semeai, na nossa fé, a alegria do Ressuscitado.
Recordai-nos que quem crê nunca está sozinho.
Ensinai-nos a ver com os olhos de Jesus,
para que Ele seja luz no nosso caminho.
E que esta luz da fé cresça sempre em nós
até chegar aquele dia sem ocaso
que é o próprio Cristo, vosso Filho, nosso Senhor.
Papa Francisco, Lumen Fidei (n.º 60)

domingo, 8 de setembro de 2013

Novena de Santa Eufémia - Natividade da Virgem Maria

       A novena em honra de Santa Eufémia é atravessada por duas importantes festas em honra de Nossa Senhor. No segundo dia, 8 de setembro, a natividade da Virgem Santa Maria. No último dia da novena, 15 de setembro, a memória de Nossa Senhora das Dores, um dia após a festa da exaltação da Santa CRUZ.
       Deste modo, a novena está como dentro de uma inclusão mariana. Inicia e termina na evocação de Maria. Com efeito, Santa Eufémia, muitos anos depois, é, nas circunstância do seu tempo, uma digna imitadora de Nossa Senhora, procurando como Ela realizar, em palavras e obras, a vontade de Deus.
       Honramos o nascimento de Nossa Senhora, na certeza que assume, na história e no tempo, o chamamento de Deus. Ela é escolhida desde toda a eternidade. Nasce para este mundo para no seu SIM a Deus nos abrir as portas da salvação em Jesus Cristo. Vale porque é a Mãe do Salvador. Vale porque procura em tudo ser aprazível a Deus, mesmo que isso lhe possa acarretar dificuldades.
       Santa Eufémia nasce para ser santa. Como todos nós. Nasce numa ambiente cristão, numa família nobre e numa cidade onde floresce o cristianismo. Mas nem por isso tem a vida facilitada. Chega cedo a perseguição à Igreja e com a perseguição a morte de muitos cristãos, não porque tenham feito mal algum mas pelo simples facto de se afirmarem seguidores de Cristo e se manterem fiéis ao Evangelho da caridade e do perdão.
       Santa Eufémia, por escolha própria, não deixará de testemunhar a sua fidelidade a Jesus Cristo, o seu amor, mesmo que para isso tenha de dar a vida. E quando vêm outros a serem arrastados para a tortura e para a morte, ela anima-os para que não desfaleçam e traiam as convicções cristãs.
       Como Maria, também Eufémia, vem ao mundo para fazer a vontade de Deus.

Papa Francisco - na Vigília de oração pela Paz

Palavras do Papa Francisco na Vigília de Oração pela Paz
Praça de São Pedro, no Vaticano
Sábado, 7 de setembro de 2013

       1 - «Deus viu que isso era bom» (Gn 1,12.18.21.25). A narração bíblica da origem do mundo e da humanidade nos fala de Deus que olha a criação, quase a contemplando, e repete uma e outra vez: isso é bom. Isso nos permite entrar no coração de Deus e recebermos a sua mensagem que procede precisamente do seu íntimo. Podemos nos perguntar: qual é o significado desta mensagem? O que diz esta mensagem para mim, para ti, para todos nós?
       Simplesmente nos diz que o nosso mundo, no coração e na mente de Deus, é “casa de harmonia e de paz” e espaço onde todos podem encontrar o seu lugar e sentir-se “em casa”, porque é “isso é bom”. Toda a criação constitui um conjunto harmonioso, bom, mas os seres humanos em particular, criados à imagem e semelhança de Deus, formam uma única família, em que as relações estão marcadas por uma fraternidade real e não simplesmente de palavra: o outro e a outra são o irmão e a irmã que devemos amar, e a relação com Deus, que é amor, fidelidade, bondade, se reflete em todas as relações humanas e dá harmonia para toda a criação. O mundo de Deus é um mundo onde cada um se sente responsável pelo outro, pelo bem do outro. Esta noite, na reflexão, no jejum, na oração, cada um de nós, todos nós pensamos no profundo de nós mesmos: não é este o mundo que eu desejo? Não é este o mundo que todos levamos no coração? O mundo que queremos não é um mundo de harmonia e de paz, em nós mesmos, nas relações com os outros, nas famílias, nas cidades, nas e entre as nações? E a verdadeira liberdade para escolher entre os caminhos a serem percorridos neste mundo, não é precisamente aquela que está orientada pelo bem de todos e guiada pelo amor?
       Mas perguntemo-nos agora: é este o mundo em que vivemos? A criação conserva a sua beleza que nos enche de admiração; ela continua a ser uma obra boa. Mas há também “violência, divisão, confronto, guerra”. Isto acontece quando o homem, vértice da criação, perde de vista o horizonte da bondade e da beleza, e se fecha no seu próprio egoísmo.
       2 - Quando o homem pensa só em si mesmo, nos seus próprios interesses e se coloca no centro, quando se deixa fascinar pelos ídolos do domínio e do poder, quando se coloca no lugar de Deus, então deteriora todas as relações, arruína tudo; e abre a porta à violência, à indiferença, ao conflito. É justamente isso o que nos quer explicar o trecho do Gênesis em que se narra o pecado do ser humano: o homem entra em conflito consigo mesmo, percebe que está nu e se esconde porque sente medo (Gn 3, 10); sente medo do olhar de Deus; acusa a mulher, aquela que é carne da sua carne (v. 12); quebra a harmonia com a criação, chega a levantar a mão contra o seu irmão para matá-lo. Podemos dizer que da harmonia se passa à desarmonia? Não. Não existe a “desarmonia”: ou existe harmonia ou se cai no caos, onde há violência, desavença, confronto, medo…
       É justamente nesse caos que Deus pergunta à consciência do homem: «Onde está o teu irmão Abel?». E Caim responde «Não sei. Acaso sou o guarda do meu irmão?» (Gn 4, 9). Esta pergunta também se dirige a nós, assim que também a nós fará bem perguntar:
       - Acaso sou o guarda do meu irmão? Sim, tu és o guarda do teu irmão! Ser pessoa significa sermos guardas uns dos outros! Contudo, quando se quebra a harmonia, se produz uma metamorfose: o irmão que devíamos guardar e amar se transforma em adversário a combater, a suprimir. Quanta violência surge a partir deste momento, quantos conflitos, quantas guerras marcaram a nossa história! Basta ver o sofrimento de tantos irmãos e irmãs. Não se trata de algo conjuntural, mas a verdade é esta: em toda violência e em toda guerra fazemos Caim renascer. Todos nós! E ainda hoje prolongamos esta história de confronto entre irmãos, ainda hoje levantamos a mão contra quem é nosso irmão. Ainda hoje nos deixamos guiar pelos ídolos, pelo egoísmo, pelos nossos interesses; e esta atitude se faz mais aguda: aperfeiçoamos nossas armas, nossa consciência adormeceu, tornamos mais sutis as nossas razões para nos justificar. Como fosse uma coisa normal, continuamos a semear destruição, dor, morte! A violência e a guerra trazem somente morte, falam de morte! A violência e a guerra têm a linguagem da morte!
       3. Neste ponto, me pergunto: É possível percorrer outro caminho? Podemos sair desta espiral de dor e de morte? Podemos aprender de novo a caminhar e percorrer o caminho da paz? Invocando a ajuda de Deus, sob o olhar materno da Salus Populi romani, Rainha da paz, quero responder: Sim, é possível para todos! Esta noite queria que de todos os cantos da terra gritássemos: Sim, é possível para todos! E mais ainda, queria que cada um de nós, desde o menor até o maior, inclusive aqueles que estão chamados a governar as nações, respondesse: – Sim queremos! A minha fé cristã me leva a olhar para a Cruz. Como eu queria que, por um momento, todos os homens e mulheres de boa vontade olhassem para a Cruz! Na cruz podemos ver a resposta de Deus: ali à violência não se respondeu com violência, à morte não se respondeu com a linguagem da morte. No silêncio da Cruz se cala o fragor das armas e fala a linguagem da reconciliação, do perdão, do diálogo, da paz. Queria pedir ao Senhor, nesta noite, que nós cristãos, os irmãos de outras religiões, todos os homens e mulheres de boa vontade gritassem com força: a violência e a guerra nunca são o caminho da paz! 
       Que cada um olhe dentro da própria consciência e escute a palavra que diz: sai dos teus interesses que atrofiam o teu coração, supera a indiferença para com o outro que torna o teu coração insensível, vence as tuas razões de morte e abre-te ao diálogo, à reconciliação: olha a dor do teu irmão e não acrescentes mais dor, segura a tua mão, reconstrói a harmonia perdida; e isso não com o confronto, mas com o encontro! Que acabe o barulho das armas! A guerra sempre significa o fracasso da paz, é sempre uma derrota para a humanidade.
       Ressoem mais uma vez as palavras de Paulo VI: «Nunca mais uns contra os outros, não mais, nunca mais… Nunca mais a guerra, nunca mais a guerra! (Discurso às Nações Unidas, 4 de outubro de 1965: ASS 57 [1965], 881). «A paz se afirma somente com a paz; e a paz não separada dos deveres da justiça, mas alimentada pelo próprio sacrifício, pela clemência, pela misericórdia, pela caridade» (Mensagem para o Dia Mundial da Paz, de 1976: ASS 67 [1975], 671). Perdão, diálogo, reconciliação são as palavras da paz: na amada nação síria, no Oriente Médio, em todo o mundo! Rezemos pela reconciliação e pela paz, e nos tornemos todos, em todos os ambientes, em homens e mulheres de reconciliação e de paz. Amém.

FONTE: AQUI.

Paróquias Beiraltinas - Penude e Magueija

M. GONÇALVES DA COSTA. Paróquias Beiraltinas. Penude e Magueija. 2.º Edição. Seminário Maior de Lamego. Lamego 2013, 268 páginas.

       Este é certamente um livro de maior interesse para os naturais de Penude e de Magueija, para os que lá trabalham, para os que por ali passam, pessoas interessados em história, na evolução das comunidades nas diferentes vertentes, económica, social, cultural, religiosa.
       O Dr. Gonçalves da Costa vai até aos primórdios, ainda antes do início da nacionalidade, e faz-nos percorrer a história destas duas paróquias, até depois do 25 de abril de 1974.
       Focalizado nos dois povos vizinhos, mas na abertura para a Diocese e para o mundo, com muitas referências aos Prelados da Diocese, Cabido, Paróquias de Alamacave e da Sé, festas, tradições, usos e costumes, lendas, e ao Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, à contrução de estradas e caminhos, de cemitérios e capelas, construção e ampliação das igrejas de Penude e Magueija, as suas gentes, a economia, a religiosidade popular, as romarias a Cárquere, à Lapa, à Senhora dos Remédios.
       O livro mostra-nos a generosidade das pessoas de Penude e de Magueija, que em testamento sempre se lembravam dos mais pobres, ainda que por vezes tivessem a preocupação de que estes estivessem presentes no funeral e nos diversos ofícios. Os párocos das duas freguesias e os sacerdotes naturais deste espaço.

       No prefácio da reedição deste, o Reitor do Seminário Maior refere a ajuda prestada ao autor, dizendo que de muitos ficaram poucos ou apenas o próprio. Do seu curso, porque do meu curso continuamos a ajudar. Nos últimos anos de vida, o autor tinha as faculdade de visão muito diminuidas. Lembro-me perfeitamente desses tempos. Por vezes dizia-me (e aos outros), eu é que estou cego e vós não vedes nada. Tínhamos que ler os textos, rascunhos, emendas, rasurados. Por vezes letra a letra, para que ele pudesse tirar o sentido e tentar entender qual era efetivamente a palavra em causa. Outras vezes usava uma lupa bastante graduada. Nós éramos os "pixotes" que não percebíamos nada de nada.
       Pelo meio muitas histórias. O pagamento eram os seus livros. Ainda me lembro de textos do Peregrino de Mim ou Viagens em Terra alheia. Curiosa por exemplo a interpretação das parábolas de Jesus, do Filho Pródigo, em que defendia com unhas e dentes o filho mais velho em detrimento do filho mais novo; a parábolas do fariseu e do samaritano que subiram ao templo para rezar, colocando no lugar do fariseu uma freira (deveria ter algumas discussões acesas com algumas freias, para uma opinião tão negativa...).
       Por outro lado, a conclusão que ainda éramos da família, ainda que afastados, afinal o pai do Dr. Gonçalves da Costa era originário da Matancinha, minha terra natal.
       Pelo meio outras curiosidades: Matancinha e Bairral civilmente pertenceram ao município de Magueija, religiosamente sempre a Penude. Matancinha, por proposta da Junta de Penude, seria a capital da união de freguesias de Magueija, Bigorne e Penude. Mas não foi aceite pela junta de Magueija, que queria a capital em Magueijinha.
       Um dos conselhos do Pe. Gonçalves da Costa, quando nos pedia colaboração: quando precisares de ajuda pede a quem tem muito que fazer, que ande sempre ocupado, pois arranja tempo e espaço para te ajudar. Se pedires ajuda a alguém que nunca tem nada para fazer, nunca arranjará tempo para te ajudar.
       Um outro momento curioso. Uma tarde, depois de terminarmos o trabalho de "interpretação" dos seus gatafunhos, à saída disse-lhe "obrigado". Coisa que eu lhe dissesse. Obrigou-se a retirar o obrigado, dizendo que ele é que agradecia. Penso que o não tinha feito, mas tinha-me chateado de tal maneira, quase a berrar, dizendo que não tinha vista e que eu não percebia/via nada, que no final me saiu esta expressão: "obrigado". Claro que em outros dias lá voltei para ajudar, e com ele diversas estórias acrescentadas às dos livros.
       Outra curiosdidade pessoal: em minha posse tenho uma espécie de autobiografia do Pe. Manuel Rodrigues Borges, o sacerdote que me batizou, e que em parte confirma as conclusões do Pe. Gonçalves da Costa sobre Penude e as suas gentes, mas também sobre Magueija, as disputas, a construção da residência paroquial, e as consequências/frutos do cisma do Pe. Justino, sendo que a parte de cima, segundo o autor e o Pe. Borges, era mais religiosa e mais assídua às coisas da Igreja, dando mais sacerdotes à Igreja, fruto do rigorismo do Pe. Justino. Ver CISMA de PENUDE: AQUI.
       Refira-se também que vivi muitos anos nas duas freguesias: na Matancinha e depois Matança, Pereiro, Forcas e de novo Matancinha. Sempre de Penude, mas com muitas leigações a Magueija, onde frequentei a escola primária, e onde participávamos nas celebrações, na Missa, em São Tiago, ou mesmo em Magueijinha.

sábado, 7 de setembro de 2013

SANTA EUFÉMIA - primeiro dia da NOVENA

       Este é o primeiro dia da novena, em honra de Santa Eufémia, na paróquia de Pinheiros.
       Seguindo a edição impressa, da NOVENA sobre a vida de Santa Eufémia, este primeiro dia volta-se sobretudo para o ambiente que que nasceu Santa Eufémia, em família cristã, e numa cidade de florescimento do cristianismo.
       Nasceu à volta do ano 288. É uma data aproximada e possível. Não há, como em relação a muitos personagens da história, um registo de nascimento. A sua morte, aqui há mais certezas, foi em 304. Foi morta com 15/16 anos. Daqui se chega ao ano de nascimento.
       A família deve ter tido, como tem na vida das pessoas, um papel preponderante, mas naturalmente também o ambiente em que nasceu e cresceu.
       A família era nobre. O pai chamava-se Filofrónio (ou Filofrono) e era senador. A mãe chamava-se Teodora (ou Teodósia). Eram cristãos e é como cristã que Eufémia é educada. Sendo uma família rica e nobre, Eufémia teve a oportunidade de estudar.
       Na cidade onde nasceu, Calcedónia, florescia o cristianismo. O ambiente, tal como a família, contribui para a formação da pessoa, no bem ou no mal. A cidade cristã viu, com a perseguição de Diocleciano, imperador romano, grande perseguidor do cristianismo, muitos cristãos serem perseguidos e mortos. O sangue de mártires, diria São Cipriano, é semente de cristãos. Eufémia fortalece a sua fé em Cristo, com o testemunho de muitos cristãos que não temem morrer por Jesus Cristo.
       O horário da Novena: 20:30, com a recitação do Terço, celebração da Santa Missa, e reflexão, pelo que hoje a liturgia da Palavra traz-nos os textos do XXIII Domingo do Tempo Comum, ANO C. No evangelho poderemos escutar Jesus: Se alguém vem ter comigo, e não Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo. Quem de vós, desejando construir uma torre, não se senta primeiro a calcular a despesa, para ver se tem com que terminá-la? Assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo"
     Podemos visualizar estas palavras de Jesus com a vida de Santa Eufémia. Por amor a Cristo, não receou nem a tortura nem a morte. Animava os outros cristãos a não temerem a morte, desejando mesmo substituir-se a eles, com alegria e com cânticos, para testemunhar a força da fé, o amor a Jesus Cristo.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

João Paulo II :: Bento XVI - Beata Teresa de Calcutá

       "Quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se servo de todos" (Mc 10, 44). Estas palavras de Jesus aos discípulos, que ressoaram há pouco nesta Praça, indicam qual é o caminho que leva à "grandeza" evangélica. É o caminho que o próprio Cristo percorreu até à Cruz; um itinerário de amor e de serviço, que inverte qualquer lógica humana. Ser o servo de todos!
       Madre Teresa de Calcutá, Fundadora dos Missionários e das Missionárias da Caridade, que hoje tenho a alegria de inscrever no Álbum dos Beatos, deixou-se guiar por esta lógica. Estou pessoalmente grato a esta mulher corajosa, que senti sempre ao meu lado. Ícone do Bom Samaritano, ela ia a toda a parte para servir Cristo nos mais pobres entre os pobres. Nem conflitos nem guerras conseguiam ser um impedimento para ela.
       De vez em quando vinha falar-me das suas experiências ao serviço dos valores evangélicos. Recordo, por exemplo, as suas intervenções a favor da vida e contra o aborto, também quando lhe foi conferido o prémio Nobel pela paz (Oslo, 10 de Dezembro de 1979). Costumava dizer: "Se ouvirdes que alguma mulher não deseja ter o seu menino e pretende abortar, procurai convencê-la a trazer-mo. Eu amá-lo-ei, vendo nele o sinal do amor de Deus".

       Os Santos — pensemos, por exemplo, na Beata Teresa de Calcutá — hauriram a sua capacidade de amar o próximo, de modo sempre renovado, do seu encontro com o Senhor eucarístico e, vice-versa, este encontro ganhou o seu realismo e profundidade precisamente no serviço deles aos outros. Amor a Deus e amor ao próximo são inseparáveis, constituem um único mandamento. Mas, ambos vivem do amor preveniente com que Deus nos amou primeiro. Deste modo, já não se trata de um «mandamento» que do exterior nos impõe o impossível, mas de uma experiência do amor proporcionada do interior, um amor que, por sua natureza, deve ser ulteriormente comunicado aos outros. O amor cresce através do amor. O amor é «divino», porque vem de Deus e nos une a Deus, e, através deste processo unificador, transforma-nos em um Nós, que supera as nossas divisões e nos faz ser um só, até que, no fim, Deus seja «tudo em todos» (1 Cor 15, 28).
in BENTO XVI, Deus Caritas Est: AQUI.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Lumen Fidei - a Fé força consoladora no sofrimento

       Falar da fé comporta frequentemente falar também de provas dolorosas, mas é precisamente nelas que São Paulo vê o anúncio mais convincente do Evangelho, porque é na fraqueza e no sofrimento que sobressai e se descobre o poder de Deus que supera a nossa fraqueza e o nosso sofrimento. O próprio Apóstolo se encontra numa situação de morte que redunda em vida para os cristãos (cf. 2 Cor 4, 7-12). Na hora da prova, a fé ilumina-nos; e é precisamente no sofrimento e na fraqueza que se torna claro como «não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor» (2 Cor 4, 5). O capítulo 11 da Carta aos Hebreus termina com a referência a quantos sofreram pela fé, entre os quais ocupa um lugar particular Moisés que tomou sobre si a humilhação de Cristo (cf. vv. 26.35-38). O cristão sabe que o sofrimento não pode ser eliminado, mas pode adquirir um sentido: pode tornar-se acto de amor, entrega nas mãos de Deus que não nos abandona e, deste modo, ser uma etapa de crescimento na fé e no amor. Contemplando a união de Cristo com o Pai, mesmo no momento de maior sofrimento na cruz (cf. Mc 15, 34), o cristão aprende a participar no olhar próprio de Jesus; até a morte fica iluminada, podendo ser vivida como a última chamada da fé, o último «Sai da tua terra» (cf. Gn 12, 1), o último «Vem!» pronunciado pelo Pai, a quem nos entregamos com a confiança de que Ele nos tornará firmes também na passagem definitiva.
       A luz da fé não nos faz esquecer os sofrimentos do mundo. Os que sofrem foram mediadores de luz para tantos homens e mulheres de fé; tal foi o leproso para São Francisco de Assis, ou os pobres para a Beata Teresa de Calcutá. Compreenderam o mistério que há neles; aproximan do-se deles, certamente não cancelaram todos os seus sofrimentos, nem puderam explicar todo o mal. A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho. Ao homem que sofre, Deus não dá um raciocínio que explique tudo, mas oferece a sua resposta sob a forma duma presença que o acompanha, duma história de bem que se une a cada história de sofrimento para nela abrir uma brecha de luz. Em Cristo, o próprio Deus quis partilhar connosco esta estrada e oferecer-nos o seu olhar para nela vermos a luz. Cristo é aquele que, tendo suportado a dor, Se tornou «autor e consumador da fé» (Heb 12, 2).
       O sofrimento recorda-nos que o serviço da fé ao bem comum é sempre serviço de esperança que nos faz olhar em frente, sabendo que só a partir de Deus, do futuro que vem de Jesus ressuscitado, é que a nossa sociedade pode encontrar alicerces sólidos e duradouros. Neste sentido, a fé está unida à esperança, porque, embora a nossa morada aqui na terra se vá destruindo, há uma habitação eterna que Deus já inaugurou em Cristo, no seu corpo (cf. 2 Cor 4, 16 - 5, 5). Assim, o dinamismo de fé, esperança e caridade (cf. 1 Ts 1, 3; 1 Cor 13, 13) faz-nos abraçar as preocupações de todos os homens, no nosso caminho rumo àquela cidade, «cujo arquitecto e construtor é o próprio Deus» (Heb 11, 10), porque «a esperança não engana» (Rm 5, 5).
       Unida à fé e à caridade, a esperança projecta- nos para um futuro certo, que se coloca numa perspectiva diferente relativamente às propostas ilusórias dos ídolos do mundo, mas que dá novo impulso e nova força à vida de todos os dias. Não deixemos que nos roubem a esperança, nem permitamos que esta seja anulada por soluções e propostas imediatas que nos bloqueiam no caminho, que «fragmentam» o tempo transformando- o em espaço. O tempo é sempre superior ao espaço: o espaço cristaliza os processos, ao passo que o tempo projecta para o futuro e impele a caminhar na esperança.
Papa Francisco, Lumen Fidei (n.º 56-57)

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Lumen Fidei - a família e a cidade dos homens

        O primeiro âmbito da cidade dos homens iluminado pela fé é a família; penso, antes de mais nada, na união estável do homem e da mulher no matrimónio. Tal união nasce do seu amor, sinal e presença do amor de Deus, nasce do reconhecimento e aceitação do bem que é a diferença sexual, em virtude da qual os cônjuges se podem unir numa só carne (cf. Gn 2, 24) e são capazes de gerar uma nova vida, manifestação da bondade do Criador, da sua sabedoria e do seu desígnio de amor. Fundados sobre este amor, homem e mulher podem prometer-se amor mútuo com um gesto que compromete a vida inteira e que lembra muitos traços da fé: prometer um amor que dure para sempre é possível quando se descobre um desígnio maior que os próprios projectos, que nos sustenta e permite doar o futuro inteiro à pessoa amada. Depois, a fé pode ajudar a individuar em toda a sua profundidade e riqueza a geração dos filhos, porque faz reconhecer nela o amor criador que nos dá e nos entrega o mistério de uma nova pessoa; foi assim que Sara, pela sua fé, se tornou mãe, apoiando-se na fidelidade de Deus à sua promessa (cf. Heb 11, 11).

Papa Francisco, Lumen Fidei (n.º 52)

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Lumen Fidei - fé e bem comum

       "... a fé ilumina também as relações entre os homens, porque nasce do amor e segue a dinâmica do amor de Deus. O Deus fiável dá aos homens uma cidade fiável...
       Devido precisamente à sua ligação com o amor (cf. Gl 5, 6), a luz da fé coloca-se ao serviço concreto da justiça, do direito e da paz. A fé nasce do encontro com o amor gerador de Deus que mostra o sentido e a bondade da nossa vida; esta é iluminada na medida em que entra no dinamismo aberto por este amor, isto é, enquanto se torna caminho e exercício para a plenitude do amor. A luz da fé é capaz de valorizar a riqueza das relações humanas, a sua capacidade de perdurarem, serem fiáveis, enriquecerem a vida comum. A fé não afasta do mundo, nem é alheia ao esforço concreto dos nossos contemporâneos. Sem um amor fiável, nada poderia manter verdadeiramente unidos os homens: a unidade entre eles seria concebível apenas enquanto fundada sobre a utilidade, a conjugação dos interesses, o medo, mas não sobre a beleza de viverem juntos, nem sobre a alegria que a simples presença do outro pode gerar. A fé faz compreender a arquitectura das relações humanas, porque identifica o seu fundamento último e destino definitivo em Deus, no seu amor, e assim ilumina a arte da sua construção, tornando-se um serviço ao bem comum. Por isso, a fé é um bem para todos, um bem comum: a sua luz não ilumina apenas o âmbito da Igreja nem serve somente para construir uma cidade eterna no além, mas ajuda também a construir as nossas sociedades de modo que caminhem para um futuro de esperança. A Carta aos Hebreus oferece um exemplo disto mesmo, ao nomear entre os homens de fé Samuel e David, a quem a fé permitiu «exercerem a justiça» (11, 33). A expressão refere-se aqui à sua justiça no governar, àquela sabedoria que traz a paz ao povo (cf. 1 Sm 12, 3-5; 2 Sm 8, 15). As mãos da fé levantam-se para o céu, mas fazem-no ao mesmo tempo que edificam, na caridade, uma cidade construída sobre relações que têm como alicerce o amor de Deus".
Papa Francisco, Lumen Fidei (n.º 50-51)

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Papa João XXIII - Hoje, somente hoje...

       No texto do Evangelho proposto para esta segunda-feira da XXII Semana do Tempo Comum, são Lucas apresenta-nos Jesus na Sua visita a Nazaré. Depois de Se levantar para ler a Palavra de Deus e de Se sentar para a comentar, Jesus revela: "cumpriu-se HOJE mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir". Ontem ouvíamos este Decálogo nos momentos de reflexão da RFM, e que contém sugestões do bom Papa João XXIII sobre a serenidade, a construção da paz.
       É no HOJE de Jesus que havemos de sintonizar a nossa vida. É HOJE que somos cristãos.
1. Somente hoje, procurarei viver o presente (em sentido positivo), sem querer resolver o problema da minha vida inteiramente de uma só vez.
2. Somente hoje, terei o máximo cuidado pelo meu aspecto: vestirei com sobriedade; não levantarei a voz; serei gentil nos modos; ninguém criticarei; não pretenderei melhorar ou disciplinar alguém, a não ser eu mesmo.
3. Somente hoje, serei feliz na certeza de que fui criado para ser feliz não só no outro mundo, mas também neste.
4. Somente hoje, adaptar-me-ei às circunstâncias, sem pretender que as circunstâncias se adaptem aos meus desejos.
5. Somente hoje, dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura, lembrando que como o alimento é necessário para a vida do corpo, do mesmo modo a boa leitura é necessária para a vida da alma.
6. Somente hoje, realizarei uma boa acção e não o direi a ninguém.
7. Somente hoje, farei algo que não gosto de fazer, e se me sentir ofendido nos meus sentimentos, farei de modo que ninguém perceba.
8. Somente hoje, organizarei um programa: talvez não o siga exactamente, mas o organizarei. E tomarei cuidado com dois defeitos: a pressa e a indecisão.
9. Somente hoje, acreditarei firmemente, não obstante as aparências, que a boa providência de Deus se ocupa de mim como de ninguém no mundo.
10. Somente hoje, não temerei. De modo particular, não terei medo de desfrutar do que é bonito e de acreditar na bondade. Posso fazer, por doze horas, o que me espantaria se pensasse em ter que o fazer por toda a vida.

Conclusão: um propósito totalitário: "Quero ser bom, hoje, sempre, com todos".

domingo, 1 de setembro de 2013

Lumen Fidei - Uma luz para a vida em sociedade

       À medida que a história da salvação avança, o homem descobre que Deus quer fazer a todos participar como irmãos da única bênção, que encontra a sua plenitude em Jesus, para que todos se tornem um só. O amor inexaurível do Pai é-nos comunicado em Jesus, também através da presença do irmão. A fé ensina-nos a ver que, em cada homem, há uma bênção para mim, que a luz do rosto de Deus me ilumina através do rosto do irmão...
       «Se olhássemos a terra do alto do céu, que diferença se nos ofereceria entre as nossas atividades e as das formigas e das abelhas?» (Orígenes). No centro da fé bíblica, há o amor de Deus, o seu cuidado concreto por cada pessoa, o seu desejo de salvação que abraça toda a humanidade e a criação inteira e que atinge o clímax na encarnação, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Quando se obscurece esta realidade, falta o critério para individuar o que torna preciosa e única a vida do homem; e este perde o seu lugar no universo, extravia-se na natureza, renunciando à própria responsabilidade moral, ou então pretende ser árbitro absoluto, arrogando-se um poder de manipulação sem limites.
       Além disso a fé, ao revelar-nos o amor de Deus Criador, faz-nos olhar com maior respeito para a natureza, fazendo-nos reconhecer nela uma gramática escrita por Ele e uma habitação que nos foi confiada para ser cultivada e guardada; ajuda-nos a encontrar modelos de progresso, que não se baseiem apenas na utilidade e no lucro mas considerem a criação como dom, de que todos somos devedores; ensina-nos a individuar formas justas de governo, reconhecendo que a autoridade vem de Deus para estar ao serviço do bem comum. A fé afirma também a possibilidade do perdão, que muitas vezes requer tempo, canseira, paciência e empenho; um perdão possível quando se descobre que o bem é sempre mais originário e mais forte que o mal, que a palavra com que Deus afirma a nossa vida é mais profunda do que todas as nossas negações. Aliás, mesmo dum ponto de vista simplesmente antropológico, a unidade é superior ao conflito; devemos preocupar-nos também com o conflito, mas vivendo-o de tal modo que nos leve a resolvê-lo, a superá-lo, como elo duma cadeia, num avanço para a unidade...
       Se tiramos a fé em Deus das nossas cidades, enfraquecer-se-á a confiança entre nós, apenas o medo nos manterá unidos, e a estabilidade ficará ameaçada.

Papa Francisco, Lumen Fidei (n.º 54-55)

Lumen Fidei - fé e sacramentos

        De facto, a fé tem necessidade de um âmbito onde se possa testemunhar e comunicar, e que o mesmo seja adequado e proporcionado ao que se comunica. Para transmitir um conteúdo meramente doutrinal, uma ideia, talvez bastasse um livro ou a repetição de uma mensagem oral; mas aquilo que se comunica na Igreja, o que se transmite na sua Tradição viva é a luz nova que nasce do encontro com o Deus vivo, uma luz que toca a pessoa no seu íntimo, no coração, envolvendo a sua mente, vontade e afectividade, abrindo-a a relações vivas na comunhão com Deus e com os outros. Para se transmitir tal plenitude, existe um meio especial que põe em jogo a pessoa inteira: corpo e espírito, interioridade e relações. Este meio são os sacramentos celebrados na liturgia da Igreja: neles, comunica-se uma memória encarnada, ligada aos lugares e épocas da vida, associada com todos os sentidos; neles, a pessoa é envolvida, como membro de um sujeito vivo, num tecido de relações comunitárias. Por isso, se é verdade que os sacramentos são os sacramentos da fé, há que afirmar também que a fé tem uma estrutura sacramental; o despertar da fé passa pelo despertar de um novo sentido sacramental na vida do homem e na existência cristã, mostrando como o visível e o material se abrem para o mistério do eterno.
Papa Francisco, Lumen Fidei (n.º 40)

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Lumen Fidei - Fé e Eucaristia

       A natureza sacramental da fé encontra a sua máxima expressão na Eucaristia. Esta é alimento precioso da fé, encontro com Cristo presente de maneira real no seu acto supremo de amor: o dom de Si mesmo que gera vida. Na Eucaristia, temos o cruzamento dos dois eixos sobre os quais a fé percorre o seu caminho. Por um lado, o eixo da história: a Eucaristia é acto de memória, actualização do mistério, em que o passado, como um evento de morte e ressurreição, mostra a sua capacidade de se abrir ao futuro, de antecipar a plenitude final; no-lo recorda a liturgia com o seu hodie, o «hoje» dos mistérios da salvação. Por outro lado, encontra-se aqui também o eixo que conduz do mundo visível ao invisível: na Eucaristia, aprendemos a ver a profundidade do real. O pão e o vinho transformam-se no Corpo e Sangue de Cristo, que Se faz presente no seu caminho pascal para o Pai: este movimento introduz- nos, corpo e alma, no movimento de toda a criação para a sua plenitude em Deus.
Papa Francisco, Lumen Fidei (n.º 44)