sábado, 11 de março de 2017

Amai os vossos inimigos e rezai por eles

       Apresentamos, neste sábado da primeira semana da Quaresma, dois textos da liturgia, em que se acentua o cumprimento dos Mandamentos por forma a viver de acordo com a vontade de Deus, no caminho da felicidade, da salvação, da vida em abundância.
        O primeiro texto, do livro de Deuteronómio, sublinha a pertença do povo a Deus, pertença essa que exige o cumprimento, por parte do povo, dos mandamentos. São estes que assegura que o povo se mantém fiel ao Senhor. Entremos no texto:
Moisés falou ao povo, dizendo: «O Senhor, teu Deus, ordena-te hoje que cumpras estas leis e mandamentos. Tu os guardarás e cumprirás com todo o teu coração e com toda a tua alma. Hoje obtiveste a promessa do Senhor de que Ele seria o teu Deus; e tu deves seguir os seus caminhos, cumprindo os seus mandamentos, leis e preceitos, e escutando a sua voz. E hoje o Senhor obteve de ti a promessa de que serás o seu povo, como Ele tinha declarado, e cumprirás os seus mandamentos. Ele te elevará pela glória, fama e esplendor, acima de todas as nações que formou, e serás um povo consagrado ao Senhor, teu Deus, como Ele prometeu (Deut 26, 16-19).
       No evangelho, Jesus, o novo Moisés, diz claramente aos seus discípulos - e hoje somos nós - que a plenitude da Lei é o amor sem limites e sem medida. Amar até os inimigos. Será isto que distingue os seguidores de Jesus Cristo:
Disse Jesus aos seus discípulos: «Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus; pois Ele faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos. Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem a mesma coisa os publicanos? E se saudardes apenas os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Portanto, sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5, 43-48).

quarta-feira, 8 de março de 2017

São João de Deus, religioso

       João Cidade, mais tarde João de Deus, nascido, em Montemor-o-Novo, por volta de 1495 falecido, em Granada, em 1550.
       Foi para Espanha com 8 anos para uma vida de aventura, tendo sido pastor em Oropesa, por duas vezes, e outras tantas soldado.
       Após algum tempo a trabalhar nas muralhas de Ceuta, prodigalizando-se a socorrer uma família aristocrata ali exilada, foi livreiro ambulante no Sul de Espanha, fixando-se em Granada, em 1537.
       Por volta do ano de 1538 converteu-se a uma vida cristã radical ao ouvir um sermão de São João de Ávila. Abraçou, com muita emoção, comportamentos penitenciais que alguns interpretaram como loucura, levando-o a ser internado no Hospital Real de Granada, onde foi tratado com os métodos violentos da época.
       A experiência de ver tratar tão mal os loucos do Hospital Real maturou o desejo de os vir a tratar com humanidade. Após peregrinação a Guadalupe, dedicou-se a assistir pobres e doentes sem abrigo. Contra todas as práticas da época passou a assisti-los num pequeno hospital na Rua Lucena, o qual, por se tornar pequeno para os 120 doentes e pobres, teve que mudar para outro edifício, em que pôde assistir 200 internados.
       Eram hospitais não apenas para assistência mas para tratamentos. Tinham médico, boticário (farmacêutico), enfermeiros e capelães. O Hospital de São João de Deus, por dispor deste corpo de profissionais, pela separação dos doentes por doenças e pela atribuição de uma cama por doente, é justamente considerado um hospital moderno.
       Juntaram-se-lhe alguns companheiros de hábito, que formaram o núcleo fundador da Ordem Hospitaleira de S. João de Deus. Sisto V, em 1 de outubro de 1586, aprovou a congregação como Ordem Mendicante, apesar de ser formada por irmãos leigos. Ainda no final do séc. XVI os Hospitaleiros começaram rapidamente a difundir-se pelas cidades de Andaluzia chegando até Madrid.
       São João de Deus é proclamado, em 27 de maio de 1886, em conjunto com São Camilo de Lélis, patrono dos doentes e seus hospitais e, em 28 de agosto de 1930, igualmente com São Camilo de Lélis, patrono dos enfermeiros e suas associações.
       A Ordem está hoje presente em 50 países dos cinco continentes, com cerca de 300 hospitais e obras assistenciais.
       São João de Deus, que a Igreja evoca a 8 de março, foi beatificado em 1630 e canonizado em 1690.

Oração de coleta: 
       Senhor, que infundistes no coração de São João de Deus um grande espírito de caridade, concedei-nos que, praticando as obras de misericórdia, mereçamos ser recebidos entre os eleitos no reino da glória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

São João de Deus, religioso 

Cristo é fiel e tudo provê 

Se consideramos atentamente a misericórdia de Deus, nunca deixaremos de fazer o bem de que formos capazes: com efeito, se damos aos pobres por amor de Deus aquilo que Ele próprio nos dá, Ele promete-nos o cêntuplo na felicidade eterna. Feliz pagamento, ditoso lucro! Quem não dará a este bendito mercador tudo o que possui, se Ele procura o nosso interesse e, com os braços abertos, insistentemente pede que nos convertamos a Ele, que choremos os nossos pecados e tenhamos caridade para com as nossas almas e para com o próximo? Porque assim como o fogo apaga a água, assim a caridade apaga o pecado.
Vêm aqui tantos pobres, que até eu me espanto como é possível sustentar a todos; mas Jesus Cristo a tudo provê e a todos alimenta. Vêm muitos pobres à casa de Deus, porque a cidade de Granada é muito fria, e mais agora que estamos no Inverno. Entre todos – doentes e sãos, gente de serviço e peregrinos – há aqui mais de cento e dez pessoas. Como esta casa é geral, recebe doentes de todos os géneros e condições: tolhidos, mancos, leprosos, mudos, dementes, paralíticos, tinhosos, alguns já muito velhos e outros muito crianças ainda, e por cima disto muitos peregrinos e viajantes, que cá chegam e aqui encontram lume, água, sal e vasilhas para cozinhar os alimentos. E para tudo isto não se recebe renda especial, mas Cristo a tudo provê.
Desta maneira estou aqui muito empenhado e prisioneiro por amor de Jesus Cristo. Vendo-me tão carregado de dívidas que já mal me atrevo a sair de casa, e vendo tantos pobres, irmãos e próximos meus, sofrerem para além das suas forças e serem oprimidos por tantos infortúnios no corpo ou na alma, sinto profunda tristeza por não poder socorrê-los, mas confio em Cristo, que conhece o meu coração. Por isso digo: maldito o homem que confia nos homens e não em Cristo somente; porque dos homens hás-de ser separado, queiras ou não queiras; mas Cristo é fiel e permanece para sempre, Cristo tudo provê. A Ele se dêem graças para sempre. Ámen.

sábado, 4 de março de 2017

Domingo I da Quaresma - ano A - 1 de março de 2017

       1 – Desde sempre, Jesus está cheio do Espírito de Deus. Como Maria, Sua Mãe santíssima, a Cheia de Graça, concebida sem pecado, Imaculada Conceição, em Seu seio virginal concebeu, pelo Espírito Santo, o Filho Jesus. Assim o Filho do Altíssimo, cheio de Graça e de Bênção. Para onde quer que vá. De onde quer que venha. Onde quer que esteja. É o Espírito que O ilumina, O guia, O preenche e O sustenta.
       É conduzido ao deserto pelo Espírito de Deus. Não vai sozinho. Leva Deus no coração. A Sua vida está agrafada à de Deus Pai. O propósito do deserto não é a tentação. Não é o demónio que O impele para o exterior. É o próprio Deus. O deserto é deserto, não tem adornos, ruído, não tem que ver, que comer, que cheirar. É areia, horizonte sem fim, é demasiado frio à noite, calor exagerado durante o dia. Chegada a idade da missão, João Batista vai da cidade para o deserto. Chegada a idade da missão, Jesus retira-Se para o deserto, para que a força da oração O acompanhe e a certeza da presença de Deus Lhe dê alento nos momentos difíceis que advirão. Logo reentrará na Terra prometida. João leva-nos ao deserto, aponta para Jesus. Jesus faz-nos caminhar para a Terra Prometida. Ele é a nossa Terra Prometida.
       No deserto Jesus mostra-nos o valor da oração e a necessidade do crente viver próximo, íntimo, em situação dialogante com Deus. Só dessa forma as tentações serão vencidas, não tanto pelos nossos méritos mas pela Graça santificante do Senhor.
       O jejum e a penitência, quarenta dias e quarenta noites, o tempo necessário e preciso para Se preparar para o que lá vem, não valem por si mesmo, valem por sublinharem que Deus é a prioridade essencial, só Ele verdadeiramente conta e nem o alimento, nem o frio, nem o calor, nem a indigência O poderão separar do Amor do Pai. A primeira fome não é de pão. A primeira fome há de ser de Deus, dos afetos e das pessoas, da companhia e do olhar que nos vê, nos descobre e nos reconhece como pessoas. E o primeiro olhar que nos salva é o olhar de Deus. Jesus sabe de antemão quanto vai precisar da presença e do olhar de Deus ao longo da vida pública que vai iniciar. Com o Batismo recebe a confirmação do Céu, do Seu e nosso Pai, que é bem-amado e que nunca será abandonado. Assim, na certeza do Espírito Santo que O preenche, vai ao deserto preparando-Se para mudar o mundo e vida da humanidade.

       2 – A fome de Jesus, num primeiro momento, é uma opção. Se andamos empanturrados da vida, precisamos da calmaria do deserto, do refúgio, da meditação, esvaziando-nos do que nos empanturra para nos enchermos e preenchermos da alegria, da esperança e do amor que Deus nos dá. A fome de Jesus liberta-nos da prepotência, da arrogância e da soberba, do egoísmo, da inveja e da avareza. Há quem não tenha fome e viva miseravelmente. Há pessoas tão pobres, tão pobres, que só têm dinheiro. O jejum relembra-nos as prioridades da nossa vida: Deus. E, se Deus é prioridade, as pessoas estarão em primeiro lugar, as pessoas com as suas ânsias e sofrimentos, já que Deus sempre nos remete para o nosso semelhante.
       No deserto Jesus continua a fazer-Se pobre, despojado, para nos enriquecer com a Sua pobreza, com o Seu amor e docilidade. Ele, sem mais, sem máscaras, sem falsas imagens ou esperanças, de mãos vazias e abertas, com o coração em Deus. Ele, com a Sua fragilidade muito humana e com o Seu amor muito divino. Solidariza-Se com os pobres, tornando-os visíveis. Aqueles que, por vergonha e por medo se escondem, Jesus trá-los para a luz do dia, pobres, pecadores, aleijados, surdos, mudos, doentes, leprosos, publicanos, mulheres, crianças, excluídos social, politica e religiosamente, não podem ser esquecidos e relegados para o esquecimento. A partir do deserto, Jesus denuncia todos os que se fecham e se esquecem das pessoas mais frágeis. Os ricos, na sua penúria humana, espiritual, fecham os olhos, tapam os ouvidos, bloqueiam o coração ao grito dos indigentes. Os "ricos" são todos aqueles que vivem apenas para si mesmos, insolidários; enriquecem à custa dos outros e os outros servem apenas para servir os seus interesses. "Pobres" são aqueles que põem a sua confiança no Senhor e se abrem à Sua misericórdia, cuidando de trabalhar honestamente para transformar positivamente o mundo, procurando "adicionar", sem "subtrair" os outros. Reconhecem-se responsáveis pelos outros, sobretudo pelos mais frágeis, lutando contra toda a espécie de injustiças.
       Esta é a pobreza comprometida que Jesus nos ensina, vivendo-a. Em Jesus reencontrar-nos-emos com rios de água viva, renovando as fontes que nos irmanam. Nas palavras de Bento XVI (24 de abril de 2015, quando assumia o pontificado), multiplicam-se os desertos exteriores (fome, guerra, violência…) e os desertos interiores (solidão, vazio, desencanto, do amor destruído…), aos quais é necessário responder com Deus, com a vida nova que se enxerta em Jesus Cristo, na Sua oferenda de Amor.

       3 – Pobres que confiam na doçura do Senhor. Por conseguinte rezamos pedindo: "compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade, pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados. Lavai-me de toda a iniquidade e purificai-me de todas as faltas. Porque eu reconheço os meus pecados... Pequei contra Vós, só contra Vós, e fiz o mal diante dos vossos olhos. Criai em mim, ó Deus, um coração puro e fazei nascer dentro de mim um espírito firme" (salmo).
       Na família de Nazaré, Jesus aprendeu a confiar em Deus, a confiar a Deus toda a Sua vida, nas dificuldades e nas possibilidades. Com Maria e com José e com a comunidade nazarena, reza salmos como este que hoje nos é proposto. No deserto é essa confiança e intimidade que O capacitam para vencer as tentações do poder, da facilidade, do espetáculo, do milagre em benefício próprio pois "nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus".
       É o Filho de Deus, mas também é Filho do Homem, portanto é como Homem que caminhará connosco, trabalhando pelo pão de cada dia, não usando Deus para os seus interesses, como tantas vezes temos visto ao longo da história. Quantas vezes com Deus se justifica a violência, a injustiça, os fratricídios e a imposição de ideologias? Como verdadeiro Deus, Jesus abrir-nos-á, com a Sua morte e sobretudo com a Sua ressurreição, o Coração de Deus Pai, escancarando-nos as portas da eternidade.
       Por um só homem, diz-nos São Paulo, o pecado entrou no mundo. O pecado do egoísmo, da inveja, do ódio, da violência, o pecado da prepotência, do desejo em subjugar os outros e o próprio Deus aos seus interesses. Só Deus é Deus. E quando Deus é Deus, não há mais lugar para que uns sejam escravos e outros sejam filhos, uns vivam injustiçados e outros à custa das injustiças praticadas. Por um só Homem, Jesus, vem a salvação, a certeza que cada um de nós vale muito. Para Deus cada um de nós vale tudo e, por isso, nos dá o Seu Filho. Por isso, o Seu Filho Se entrega por cada um de nós, pela humanidade inteira, para que tenhamos vida e vida em abundância (cf. Jo 10, 10). Pela escuta e pela obediência à vontade paterna, Jesus encaminha-nos para o Pai, vencendo as tentações de tudo controlar e decidir!

       4 – No livro do Génesis, que hoje nos é servido como 1.ª leitura, a criação. Deus cria o Homem como Sua obra-prima, coloca-o no Jardim, onde não lhe falta nada: árvores, flores, aves, peixes, animais. Pode viver harmoniosamente com toda a criação, em segurança, sob o olhar bendito de Deus, revendo-se no olhar humano do/a companheiro/a. Homem e mulher, Deus os criou, criou-os à Sua imagem e semelhança, para se auxiliarem mutuamente, sentindo-se o mundo um do outro.
       Tudo corria bem. Deus criou-nos livres, seres dotados de inteligência e de vontade. Deus não força, não obriga, não Se impõe. Cabe-nos prosseguir a criação. Como víamos no Evangelho, quanto maior a proximidade a Deus maior a possibilidade de vencer e ultrapassar as tentações. No momento, por menor que seja, em que nos esquecemos de Deus, dando ouvidos aos nossos impulsos, querendo tudo e rapidamente e ao nosso jeito, sem ouvir, sem dialogar, pensando apenas em nós mesmos, mais perto estamos de nos deixarmos levar pela tentação do egoísmo, do controlo, do poder.
       O pecado, seguindo a visão do nosso Bispo, D. António Couto, não está no comer do fruto da árvore, frutos que Deus nos dá gratuitamente, mas no facto de querermos açambarcar o fruto apenas para nós, impedindo que outros acedam à árvore, onde há frutos para todos. Mutatis mutantis, há riqueza e bens suficientes para que as pessoas do mundo inteiro vivam com dignidade, contudo a riqueza está concentrada nas mãos de mundos, enquanto muitos lázaros, sintonizando com a Mensagem do Papa Francisco para esta Quaresma, estão à margem, fora dos portões, soçobrando por terra, sem acesso aos bens da criação. Ou como lembrava o papa Bento XVI, no início do Seu pontificado, “os tesouros da terra já não estão ao serviço da edificação do jardim de Deus, no qual todos podem viver, mas tornaram-se escravos dos poderes da exploração e da destruição”.
       Por vezes somos tentados a desistir, a percorrer o caminho mais fácil, o que nos facilita a vida, ainda que prejudiquemos os outros. Por vezes quereríamos que o mundo inteiro se ajoelhasse aos nossos pés e seguisse as nossas ideias. Quereríamos ter magia para resolver todos os problemas com que nos deparamos ao longo da vida. Quereríamos ter o controlo sobre todas as variáveis da nossa vida! Quereríamos ser Deus! Então Deus faz-Se homem, um de nós, para caminhar connosco e nos mostrar a dignidade, a grandeza e a beleza de sermos humanos, capazes de refazer o caminho, recomeçar, com esforço, com dedicação, com paixão. Jesus responde com persistência, percorrendo o caminho do serviço e do amor, mesmo que isso Lhe venha a custar a vida. E nós, que caminhos queremos seguir?


Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (A): Gen 2, 7-9 – 3, 1-7; Sl 50 (51); Rom 5, 12-19; Mt 4, 1-11.

quinta-feira, 2 de março de 2017

JOSÉ DE CARVALHO - NOSSA SENHORA DE FÁTIMA...

JOSÉ DE CARVALHO (2017). Nossa Senhora de Fátima e o poder da Oração. No centenário das Aparições (1917-2017). Lisboa: Paulus Editora. 180 páginas.
       Durante as celebrações do Centenário das Aparições, contando com o antes e com o depois, muitos textos serão escritos, muitas orações elaboradas e rezadas, muitos livros publicados, muitas perguntas, muitas conversões por certo, por intercessão da Bem Aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, Rainha e Padroeira de Portugal, Senhora da Azinheira, Virgem de Fátima.
       Este é um dos livros que poderá ser sugerido como leitura. O autor situa as aparições de Fátima, no contexto português e no mundo, a proximidade das Guerras Mundiais, os erros espalhados pela Rússia comunista. Descreve-nos brevemente o perfil dos Pastorinhos e das suas famílias, o ambiente cristão do povo português, o processo à volta das aparições, com a resistência das famílias, sobretudo a de Lúcia, das autoridades civis e o cuidado da autoridade eclesial. As aparições "particulares" a Jacinta e, posteriormente, a Lúcia. Jacinta e Francisco morreram com a pneumónica, doença que ceifou a vida a muitos portugueses. Lúcia ficou para contar a história, como sói dizer-se.
       A consagração do mundo inteiro ao Imaculado Coração de Maria, a devoção dos primeiros 5 sábados, a devoção do Rosário e do Imaculado Coração, são algumas das tarefas que Lúcia têm que levar por diante. Outras serão a construção da Capelinha das Aparições e a difusão da Mensagem da Senhora de Fátima.
       A história de Fátima assenta nas Aparições, mas também no Milagre do Sol, mas também no número crescente de pessoas que se deslocam a Fátima e se convertem de coração a Cristo, passando a levar uma vida mais evangélica. A devoção a Nossa Senhora atravessa gerações, estratos sociais, desde Papa, Bispos, Médicos, pessoas do campo e da cidade. Além das curas físicas, muitos milagres de conversão, de mudança de vida, de arrependimento.
       O autor reserva muitas páginas a falar da força da oração e como o pedido de Nossa Senhora: rezai o terço todos os dias, pela conversão dos pecadores, se reitera em todas as aparições de Nossa Senhora, como manancial de graças e de salvação. Ela deu-nos Jesus, o Filho de Deus, e depois deu-nos o Rosário. Rosário vem de rosas. Por cada avé-maria uma rosa, um terço é uma coroa de rosas a Nossa Senhora. Para desagravar os Sagrados Corações de Jesus e de Maria. E sobretudo para obter a salvação para a humanidade inteira.
       São publicadas as orações específicas de Fátima, ensinadas pelo Anjo e por Nossa Senhora e outras orações que acompanham a oração do Rosário e propostas pequenas reflexões para cada um dos mistérios, para ajudar a meditar a vida de Jesus e de Nossa Senhora. São também apresentadas graças pedidas e agradecidas.
       É um livro que se lê com agrado e permite ter uma visão fidedigna sobre a devoção a Virgem Rainha, Senhora de Fátima, e perceber também a importância de rezar o rosário individualmente, em família e nas comunidades.
       Recorda-se também no texto, a Coroa, que é colocada na Imagem de Nossa Senhora nas ocasiões mais solenes, e que tem incrustada a bala que atingiu e quase matou o Papa João Paulo II, e que foi oferecida pelas mulheres portugueses, por Nossa Senhora nos ter livrado da Guerra, em 13 de outubro de 1942. A construção do monumento ao Cristo Rei, pelo mesmo motivo: os Bispos Portugueses, reunidos em Fátima, em 20 de abril de 1940, no final do retiro anual, se Portugal fosse poupado à Guerra ergue-se-ia, em Lisboa, um monumento em honra do Sagrado Coração de Jesus, "sinal visível de como Deus, através do Amor, deseja conquistar para Si toda a humanidade".
       Refira-se ainda que o livro, além do texto, contém variadíssimas fotos, que ilustram o que se afirmam e nos presenteiam plasticamente com a devoção a Nossa Senhora do Rosário de Fátima.

Leituras: JOSÉ ANTONIO PAGOLA - IDE E CURAI

JOSÉ ANTONIO PAGOLA (2015). Ide e Curai. Evangelizar o mundo da saúde e da doença. Lisboa: Paulus Editora. 312 páginas.
       A doença e o sofrimento que acarreta nos próprios e na família e nos amigos é um tema de sempre. Poder-se-á dizer que é no sofrimento que se conhece o ser humano na sua profundidade. Os amigos e a resiliência da família e dos amigos testa-se no sofrimento, na doença crónica, nas doenças oncológicas, na SIDA, na toxicodependência, no alcoolismo, nas depressões profundas. Por vezes a persistência e a duração da doença são um autêntico desafio à coragem, à compaixão e ao amor. Mas não é fácil explicar, muito menos passar por algumas das situações dolorosas, para os próprios e para aqueles e aquelas que estão à sua volta.
       A referência e o fundamento de qualquer compromisso cristão é Jesus Cristo, a força da Sua graça, a Sua postura e docilidade. O ministério de Jesus é um ministério de cura e de evangelização. Ide e evangelizai. Ide e batizai. Ide e curai. Tudo integra a missão de Jesus Cristo. Anuncia o Evangelho, a Boa Nova aos pobres, cura os doentes e todas as enfermidades, liberta os que são oprimidos pelos espíritos impuros. O desafio é igual para os seus discípulos e para a Igreja: Ide e anunciai o Evangelho, curai os enfermos, expulsai os demónios. Recebeste de graça, dai de graça.
       A dimensão curativa foi sendo esquecida. A missão de Jesus inclui sempre a dimensão sanadora, curando e restaurando a dignidade dos esquecidos da sociedade e da própria religião. Neste livro, que agrega textos do autor escrito ao longo dos anos, indicações, sugestões, fundamentação bíblico-teológico. A caridade, nomeadamente na Cáritas, tem-se desenvolvido, mas muitas vezes falta maior organização, incluindo a pessoa como um todo, e não apenas a assistência às necessidades pontuais. A visita aos doentes e os visitadores é um dos aspetos que o autor sublinha, como início, mas não esquecendo que a pastoral da saúde e da doença deve incluir e comprometer toda a comunidade, interagindo com outras instituições, com Hospitais e Lares, dialogando com médicos e enfermeiros e outros agentes hospitalares, empenhando-se sobretudo em ir ao encontro dos doentes mais frágeis, excluídos, esquecidos, os que sugerem maior afastamento, com determinadas doenças, como, por exemplo, os doentes mentais. A preocupação com os doentes há estender-se também às famílias.
       O autor propõe o conhecimento da realidade e dos doentes que existem no espaço territorial da paróquia, atendendo a todos, sabendo em que condições se encontram, se é ou não necessário pôr-se em contacto com a Cáritas, vendo quais as necessidades, mas também a atenção e o cuidado à família. A visita aos doentes deve resultar do compromisso de toda a comunidade e quem está comprometido com a pastoral da saúde deve estar envolvido na comunidade.
       Tão importante como visitar um doente, é telefonar-lhe, escrever-lhe, fazer com que vizinhos e familiares se aproximem. A celebração dos sacramentos, da Unção dos Enfermos e do Viático, deve acontecer naturalmente, para quem tem fé, para quem não tem pode ajudá-la a rezar, franquear-lhe a possibilidade mas não forçar. A presença, a escuta, a atenção é mais importante.
       Por um lado, deve promover-se a celebração comunitária a Unção dos Enfermos. Por outro, os doentes também devem participar, quanto possível, na vida da comunidade. Por conseguinte, além de celebrações específicas, como Unção dos Doentes, o Dia Mundial do Doente, preparadas também com os doentes, eliminar, por exemplo, as barreiras arquitetónicas...

quarta-feira, 1 de março de 2017

Bento XVI: o jejum, a esmola e a oração

       Como em anos anteriores, também neste o Papa propôs, na Sua Mensagem para a Quaresma, pistas de reflexão que nos ajudam a preparar melhor a grande e jubilosa celebração da Santa Páscoa de Jesus Cristo. Vejamos algumas das passagens da Mensagem.
Sobre o jejum:
       "Através das práticas tradicionais do jejum, da esmola e da oração, expressões do empenho de conversão, a Quaresma educa para viver de modo cada vez mais radical o amor de Cristo.
       O Jejum, que pode ter diversas motivações, adquire para o cristão um significado profundamente religioso: tornando mais pobre a nossa mesa aprendemos a superar o egoísmo para viver na lógica da doação e do amor; suportando as privações de algumas coisas – e não só do supérfluo – aprendemos a desviar o olhar do nosso «eu», para descobrir Alguém ao nosso lado e reconhecer Deus nos rostos de tantos irmãos nossos. Para o cristão o jejum nada tem de intimista, mas abre em maior medida para Deus e para as necessidades dos homens, e faz com que o amor a Deus seja também amor ao próximo (cf. Mc 12, 31)".
Sobre a esmola:
       "No nosso caminho encontramo-nos perante a tentação do ter, da avidez do dinheiro, que insidia a primazia de Deus na nossa vida. A cupidez da posse provoca violência, prevaricação e morte: por isso a Igreja, especialmente no tempo quaresmal, convida à prática da esmola, ou seja, à capacidade de partilha. A idolatria dos bens, ao contrário, não só afasta do outro, mas despoja o homem, torna-o infeliz, engana-o, ilude-o sem realizar aquilo que promete, porque coloca as coisas materiais no lugar de Deus, única fonte da vida. Como compreender a bondade paterna de Deus se o coração está cheio de si e dos próprios projectos, com os quais nos iludimos de poder garantir o futuro? A tentação é a de pensar, como o rico da parábola: «Alma, tens muitos bens em depósito para muitos anos...». «Insensato! Nesta mesma noite, pedir-te-ão a tua alma...» (Lc 12, 19-20). A prática da esmola é uma chamada à primazia de Deus e à atenção para com o próximo, para redescobrir o nosso Pai bom e receber a sua misericórdia".
Sobre a Oração:
       "Em todo o período quaresmal, a Igreja oferece-nos com particular abundância a Palavra de Deus. Meditando-a e interiorizando-a para a viver quotidianamente, aprendemos uma forma preciosa e insubstituível de oração, porque a escuta atenta de Deus, que continua a falar ao nosso coração, alimenta o caminho de fé que iniciámos no dia do Baptismo. A oração permite-nos também adquirir uma nova concepção do tempo: de facto, sem a perspectiva da eternidade e da transcendência ele cadencia simplesmente os nossos passos rumo a um horizonte que não tem futuro. Ao contrário, na oração encontramos tempo para Deus, para conhecer que «as suas palavras não passarão» (cf. Mc 13, 31), para entrar naquela comunhão íntima com Ele «que ninguém nos poderá tirar» (cf. Jo 16, 22) e que nos abre à esperança que não desilude, à vida eterna".
       Na Sua Mensagem, o Papa percorre connosco os vários Domingos da Quaresma, acentuando a dinâmica baptismal, como dom de vida nova que nos é oferecido por Deus, fazendo, com a Palavra de Deus, a estreita ligação entre Baptismo e Quaresma.
       "O facto que na maioria dos casos o Baptismo se recebe quando somos crianças põe em evidência que se trata de um dom de Deus: ninguém merece a vida eterna com as próprias forças. A misericórdia de Deus, que lava do pecado e permite viver na própria existência «os mesmos sentimentos de Jesus Cristo» (Fl 2, 5), é comunicada gratuitamente ao homem"...
       ..."O Baptismo, portanto, não é um rito do passado, mas o encontro com Cristo que informa toda a existência do baptizado, doa-lhe a vida divina e chama-o a uma conversão sincera, iniciada e apoiada pela Graça, que o leve a alcançar a estatura adulta de Cristo".
       "Em síntese, diz-nos Bento XVI, o itinerário quaresmal, no qual somos convidados a contemplar o Mistério da Cruz, é «fazer-se conformes com a morte de Cristo» (Fl 3, 10), para realizar uma conversão profunda da nossa vida: deixar-se transformar pela acção do Espírito Santo, como São Paulo no caminho de Damasco; orientar com decisão a nossa existência segundo a vontade de Deus; libertar-nos do nosso egoísmo, superando o instinto de domínio sobre os outros e abrindo-nos à caridade de Cristo. O período quaresmal é momento favorável para reconhecer a nossa debilidade, acolher, com uma sincera revisão de vida, a Graça renovadora do Sacramento da Penitência e caminhar com decisão para Cristo".

Para ler a Mensagem de Bento XVI: Quaresma 2011 na íntegra clique AQUI.

Pecámos, Senhor, tende compaixão de nós...

       Diz agora o Senhor: "Convertei-vos a Mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e lamentações. Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete" (Joel 2, 12-18).
Pecámos, Senhor, tende compaixão de nós (Salmo 50 (51)).
Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação (2 Cor 5,20 - 6,2)
       Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa (Mt 6, 1-6.16-18).

       A liturgia da Palavra desta Quarta-feira de cinzas coloca-nos no essencial da mensagem quaresmal, recordando-nos a necessidade permanente de conversão, de oração, de penitência, reconhecendo na nossa humildade o nosso pecado, para acolhermos com generosidade a graça de Deus.
       As obras de misericórdia deverão acompanhar a nossa conversão interior, aliás, como nos propõe o Papa Bento XVI referindo claramente que a fé leva à justiça e que não há fé autêntica sem a justiça solidária.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Mensagem de D. António Couto para a Quaresma 2017

1. «O outro é um dom», «o pecado cega-nos», «a Palavra é um dom», são, por esta ordem, os subtítulos ou fios condutores com que o Papa Francisco costurou a sua mensagem para esta Quaresma de 2017 que agora se inicia. Entre «dom» e «dom», o pecado, que é uma espécie de nó cego no coração, bloqueia-nos num mundo de portas fechadas a cadeado, tornando-nos imunes, isto é, vacinados, indiferentes, insensíveis, face aos outros e face à Palavra, aquela que vem de Deus, Palavra criadora e carinhosa, e aquela que vem dos outros, da ternura dos outros, mas também das suas dores, sofrimentos e gritos.

2. Sim, o dom é primeiro. A Palavra criadora de Deus está antes das coisas, da história e de mim. Ou não seria Palavra criadora! E ainda antes de mim estão outras mãos que me acolhem com carinho. É suficientemente claro que não fui eu o primeiro a chegar aqui. Diz Deus para Baruc e para mim: «Tu procuras para ti coisas grandes! Não procures! Porque eis que Eu farei vir a desgraça sobre toda a carne, oráculo do Senhor. Mas darei a ti a tua vida como despojo em todos os lugares para onde fores» (Jeremias 45,5). E João, o Batista, aponta a cada um de nós a fonte da vida e do dom, afirmando: «Um homem nada pode receber, a não ser que lhe tenha sido dado do céu» (João 3,27). E São Paulo deixa a retinir nos nossos ouvidos a pergunta essencial: «Que tens tu que não tenhas recebido?» (1 Coríntios 4,7).

3. No Tratado Pirqê ’Abôt (2,9), da Mishna judaica, Yohanan ben Zakai pergunta aos seus discípulos: «Qual é o caminho mau de que o homem se deve afastar?». E Rabi Simeão respondeu: «Pedir emprestado e não restituir». Mas acrescenta logo que «é a mesma coisa receber emprestado de um homem ou de Deus». E o grande filósofo hebreu Abraham Joshua Heschel comenta de forma certeira e incisiva: «Talvez esteja aqui o núcleo da miséria humana: quando nos esquecemos de que a vida é um dom e também um empréstimo».

4. Em boa verdade, quando dou por mim, já tenho coisas atrás, já estou sempre depois do meu nascimento, já tenho um pai e uma mãe, já sou filho. E reconhecer-me filho é descobrir-me como receção originária da vida, proveniente de um amor que me precede. Verdadeiramente, quando começamos a dar por nós, o espanto primeiro que nos invade não é o mundo, mas alguém que começamos a ver diante de nós. Alguém: o dom de outras mãos que amorosamente se estendem para nós. «A primeira experiência da pessoa, diz bem Emmanuel Mounier, é a experiência da 2.ª pessoa: o tu, e, portanto, o nós, vem antes do eu». O «bom dia» precede o «cogito». Nós não somos incestuosa e tautologicamente filhos de nós mesmos, como requer o célebre «cogito ergo sum» [= «eu penso, logo existo»] cartesiano ou o faraónico «ego feci memetipsum» [= «eu fiz-me a mim mesmo»] (Ezequiel 29,3). Eu não sou a origem, o senhor e o centro do mundo. «Eu» dou por mim como «eis-me-aqui», como tantas vezes na Bíblia se vê e ouve.

5. Um dom imenso nos precede. Mas o dom é sempre frágil. É como um vaso cheio de afeto, que se quebra logo que o recebedor o comece a considerar como seu. Na verdade, não se possui senão para se perder, e só não se perde o que se dá. Aproveitemos então, caríssimos irmãos e irmãs, este tempo santo da Quaresma para fazer a experiência de tudo receber de Deus e tudo partilhar com alegria com os nossos irmãos, na certeza de que «Deus ama quem dá com alegria» (2 Coríntios 9,7; cf. Atos 20,35; Tobias 4,16).

6. Façamos pois, amados irmãos e irmãs, do tempo da Quaresma um tempo de diferença, e não de indiferença. Dilatemos as cordas do nosso coração até às periferias do mundo, e que o nosso olhar seja de Misericórdia para os nossos irmãos de perto e de longe. Façamos um exercício de verdade. Despojemo-nos, não apenas do que nos sobra, mas também do que nos faz falta. Dar o que sobra não tem a marca de Deus. Jesus não nos deu coisas, algumas coisas para o efeito retiradas da algibeira, mas deu por nós a sua vida inteira. Dar-nos uns aos outros e dar com alegria deve ser, para os discípulos de Jesus, a forma, não excecional, mas normal, quotidiana, de viver. Como em anos anteriores, peço aos meus irmãos e irmãs das 223 paróquias da nossa Diocese de Lamego para abrirmos o nosso coração a todos os que sofrem aqui perto e lá longe.

7. Neste sentido, vamos destinar uma parte da esmola da nossa Caridade quaresmal para o Fundo Solidário Diocesano, para aliviar as dores dos nossos irmãos e irmãs de perto que precisam da nossa ajuda, e são cada vez mais. Olhando para os nossos irmãos e irmãs de longe, vamos destinar outra parte do esforço da nossa Caridade para levar um pequeno gesto de carinho aos nossos irmãos e irmãs da África e da América Latina, mais concretamente de Moçambique e da Bolívia, países em que os Missionários Espiritanos têm missões que necessitam do nosso apoio. O motivo de este ano canalizarmos a esmola da nossa Caridade através dos Missionários Espiritanos reside no facto de a Província Portuguesa dos Missionários Espiritanos estar este ano de 2017 a celebrar 150 de presença em Portugal. Este caminho da nossa Caridade Quaresmal será anunciado, como de costume, em todas as Igrejas da nossa Diocese no Domingo I da Quaresma, realizando-se a Coleta no Domingo de Ramos na Paixão do Senhor.

8. Com a ternura de Jesus Cristo, saúdo, no início desta caminhada quaresmal de 2017, Ano do Centenário das Aparições de Nossa Senhora em Fátima, todas as crianças, jovens, adultos e idosos, catequistas, acólitos, leitores, salmistas, membros dos grupos corais, ministros da comunhão, membros dos conselhos económicos e pastorais, membros de todas as associações e movimentos, departamentos e serviços, todos os nossos seminaristas, todos os consagrados, todos os diáconos e sacerdotes que habitam e servem a nossa Diocese de Lamego ou estão ao serviço de outras Igrejas. Saúdo com particular afeto todos os doentes, carenciados e desempregados, e as famílias que atravessam dificuldades. Uma saudação de particular carinho a todos aqueles que tiveram de sair da sua e da nossa terra, vivendo a dura condição de emigrantes.

9. Que o Deus da Paz nos conceda uma abundante chuva de Graça e de Ternura, e que Maria, nossa Mãe, Senhora do Rosário de Fátima, seja nossa carinhosa Medianeira.

Lamego, 01 de março de 2017, Quarta-feira de Cinzas
Na certeza da minha oração e comunhão convosco, a todos vos abraça o vosso bispo e irmão,
+ António.

VL – Autoridade Jesus e dos discípulos: amor e serviço

       A lei do amor não torna mais fácil a nossa vida. Jesus não revoga os preceitos da Lei de Moisés. Não tem o propósito de alijar, iludir, facilitar, mas de elevar, aperfeiçoar, plenizar. Jesus é a Carne viva da Lei, o Corpo e a Vida. Mas a carne, o corpo e a vida são delicados e temos que os tratar como tal, com delicadeza e cuidado, prestando a máxima atenção para não ferir, não magoar, para não danificar. Quando cuidamos da carne do outro, do seu corpo e da sua vida, estamos a entrar no seu mundo, estamos a reconhecê-lo como parte essencial do nosso mundo. Quando tocamos as feridas e as chagas do outro, como nos lembra a Santa Teresa de Calcutá, tocamos os ferimentos de Jesus.
       Não precisamos de leis nem de regras, desde que amemos de todo o coração! Por certo! Como diria Santo Agostinho, ama e faz o que quiseres! Só que quem ama cuida, sofre, ampara, acolhe, serve, acarinha, gasta-se, respeita, dá-se, entrega-se. A não ser que amar seja apenas uma palavra dita da boca para fora e gasta pelo muito e/ou mau uso da mesma. A não ser que amar seja apenas gozar, sentir prazer, tirar proveito do outro, servir-se do outro enquanto é útil e satisfazer os próprios interesses e caprichos. Amar exige muito de mim. Exige tudo. Não se ama a meio termo, a meio gás, com condições ou reservas. A vida não é branco e preto, também é cinzenta e vermelha, castanha e amarela. No entanto, ou se ama ou não se ama. “Amar muito” não acrescenta, já está dentro do amar. Amar exige tudo de mim e de ti. Exige que gastemos as forças, o corpo e o espírito a favor do outro, de quem, pelo amor, me faço próximo, me faço irmão. Amar é dar a vida. É gastar a vida. É confiar ao outro a própria vida. Foi isso que Jesus fez connosco, comigo e contigo, com a humanidade inteira. Por amor, gastou-Se até à última gota de sangue.
       É o amor e o serviço que nos salvam, permitindo-nos sair potenciar o melhor de nós, como filhos bem-amados de Deus e acolher tudo o bem que vem de Deus através dos outros.
       As palavras de Jesus entram-nos pelos ouvidos dentro até chegarem ao coração. Outrora poderíamos ainda ter desculpas, não saber, estarmos a caminhar e a amadurecer. Mas agora é tempo de viver, de amar e servir.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4400, de 21 de fevereiro de 2017

A oferenda do justo enriquece o altar

       "Cumprir a lei equivale a muitas oferendas, ser fiel aos mandamentos é um sacrifício de salvação. Dar graças é uma oblação de flor de farinha e a esmola é um sacrifício de louvor. O que mais agrada ao Senhor é desviar-se do mal, afastar-se da injustiça é um sacrificio de expiação. Não te apresentes diante do Senhor de mãos vazias, todos estes sacrifícios se oferecem porque são mandados por Deus. A oferenda do justo enriquece o altar e o seu agradável perfume sobe à presença do Altíssimo. O sacrifício do justo é agradável ao Senhor e o seu memorial não será esquecido. Dá glória ao Senhor com generosidade e não sejas mesquinho nas primícias que ofereces. Em todas as tuas oferendas mostra um rosto alegre e consagra o dízimo de boa vontade. Dá ao Altíssimo conforme Ele te deu, com generosidade, segundo as tuas posses. Porque o Senhor sabe retribuir e te dará sete vezes mais. Não tentes suborná-l’O com presentes, porque não os aceitará. Nem confies num sacrifício injusto, porque o Senhor é juiz e não faz acepção de pessoas" (Sir 35, 1-15).
       Pedro começou a dizer a Jesus: «Vê como nós deixámos tudo para Te seguir». Jesus respondeu: «Em verdade vos digo: Todo aquele que tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras, por minha causa e por causa do Evangelho, receberá cem vezes mais, já neste mundo, em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, juntamente com perseguições, e, no mundo futuro, a vida eterna. Muitos dos primeiros serão os últimos e muitos dos últimos serão os primeiros» (Mc 10, 28-31).

      Os profetas, os sábios religiosos, os justos, tiveram, muitas vezes, de alertar para a purificação do culto e das devoções, para que estas levasse as pessoas a aproximar-se entre si e não fossem apenas ritos descontextualizados do dia a dia.
        Por um lado, o autor sagrada fala das oferendas e dos sacrifícios devidos a Deus. No entanto, que tais sacrifícios resultem da generosidade e da bondade de cada oferente. Por outro, o acento tónico recai sobre o cumprimento dos mandamentos. Dar graças vale mais que qualquer sacrifício...
       As práticas rituais são importantes, pois ligam-nos a uma comunidade e a uma história, mas o que conta (mais) é a adesão alegre ao Senhor, nosso Deus e a consequente prática do bem.
       No evangelho, as palavras de Jesus apontam para o mesmo. Os primeiros, no Seu ver e agir, são os que servem.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Domingo VIII do Tempo Comum - ano A - 26.02.2017

       1 – Um reino dividido não precisa de inimigos, destrói-se a si próprio. É uma imagem utilizada pelo próprio Jesus quando alguém sugere que Ele está possuído pelo demónio e que os milagres que realiza resultam desse poder demoníaco (cf. Mc 3, 22ss).
       Atravessamos ainda uma crise económico-financeira, sem fim à vista, pressupondo uma outra crise, de valores e de opções pela vida, pelas pessoas, pela dignidade humana. Como tem alertado o Papa Francisco, as pessoas, na sua fragilidade, tornam-se descartáveis a partir do momento em que nos colocam dificuldades, nos incomodam e "atrasam" a nossa vida, desde as crianças não nascidas até aos idosos esquecidos como capotes nos bengaleiros durante a primavera e verão; doentes e pessoas com deficiência passíveis de serem enquadrados em leis que "resolvam" o seu sofrimento (ou o nosso sofrimento e incómodo em vê-los sofrer!); com os refugiados e os medos ancestrais que tornem mais difícil a nossa vida e mais débil a nossa segurança, no meio do poderio económico e financeiro que estrangula pessoas, famílias e pequenas e médias empresas. Percentagens, lucros, precariedade no emprego e no trabalho, mão-de-obra barata ou escravizável, maior produtividade, olhando para números e abdicando das pessoas.
       O Bispo de Fátima, em reunião com os hoteleiros, na proximidade da Visita Apostólica do Papa Francisco a Fátima, por ocasião de Centenário das Aparições, pediu-lhes que fizessem de Fátima uma "casa de acolhimento, de ternura e de festa" e praticassem preços honestos, evitando inflações exageradas.
       O direito ao ganha-pão é louvável e o esforço para tal também. Os Santuários, festas e romarias, são propícios ao ajuntamento de grande número de pessoas, levando também à criação de serviços e ao desenvolvimento do comércio. O turismo religioso é defensável, promovendo uma cultura de tolerância, de direito à existência, mas também as tentações de aproveitamento desonesto. A vinda do Papa aumentará exponencialmente o número pessoas o que, só por si, gerará mais lucros para aqueles que ali ganham a vida sem necessidade de abusar das necessidades e/ou simplicidade das pessoas.
       2 – Contextualizamos o Evangelho com estas duas situações: a crise económico-financeira e a elevada inflação do comércio, da restauração e da hotelaria, em Fátima e nos arredores, por ocasião da Visita do Papa Francisco. Por aqui se vê que a invetiva de Jesus continua atual: ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro, quando este não se obtém de forma justa, honesta, como fruto do trabalho, no respeito pela criação e pelas pessoas, para viver e valorizar tudo o que nos aproxima uns dos outros.
       Na Montanha soam claras a palavras de Jesus: «Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro». Claro como a água. E continua Jesus: «Não vos preocupeis, quanto à vossa vida, com o que haveis de comer, nem, quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; o vosso Pai celeste as sustenta. Não valeis vós muito mais do que elas?»
       Por momentos ficamos estupefactos! Como? Optamos pela ociosidade à espera que outros trabalhem para nós, à espera que a comida e o mais caiam do Céu? Deus vestir-nos-á? Alimentar-nos-á? Ou vamos andar todos nus como os homens das cavernas?
       Em nenhuma parte do Evangelho ouvimos Jesus a apelar à irresponsabilidade, à demissão, à ociosidade e à preguiça! Nem pouco mais ou menos. Entre outras expressões podemos ouvi-lo a dizer: dai-lhes vós de comer! Aquando das tentações, Jesus recusa-Se a transformar as pedras em pão, deixando claro que o pão é fruto do trabalho honesto e esforçado. Em todo o caso, o pão não é um fim em si mesmo! O dinheiro não é um fim em si mesmo! Os bens materiais não são um bem em si mesmo! O bem é a pessoa e todas as pessoas. O dinheiro, o trabalho, a riqueza, os bens materiais são um meio para que as pessoas vivam melhor, mais harmoniosamente, devem ser meios para aproximar, não para dividir. O que divide é diabólico. Muitas vezes o dinheiro, a riqueza, os bens materiais, as heranças, dividem, diabolizam as pessoas e as famílias, geram guerras e disputas, conflitos e retiram a saúde e o discernimento.
       No mundo em que vivemos e da forma como a sociedade está organizada precisamos de dinheiro, de bens materiais para vivermos com dignidade. O acesso à cultura e à educação, aos bens de consumo e à saúde, só são possíveis com dinheiro. É possível que algumas amizades também sejam influenciadas pelo estatuto socioeconómico. Mas o decisivo são as amizades puras, a saúde ou os cuidados e a atenção na doença, a família, a paz. O que nos torna humanos são os afetos, a ligação aos outros.
       O mais importante para Deus são as pessoas. E assim deve ser também para nós.

       3 – O dia-a-dia de um povo pobre, faminto, maltrapilho, com a dificuldade em sobreviver, tendo em conta a elevada carga de impostos, injustos, para o império, para as autoridades judaicas, para o Templo, para os cobradores de impostos, encontram nas palavras de Jesus não a desistência mas a confiança e o desafio àqueles que têm muito e sobretudo quando o muito que têm não resultou do esforço e do trabalho mas da opressão, da corrupção, do roubo.
       O Sermão da Montanha inicia com as Bem-aventuranças. Vejamos parte do comentário de São Tomás de Aquino: "Felizes (= Bem-aventurados) os que estão atentos às necessidades dos outros, porque serão mensageiros da alegria"; "Felizes os que sabem descansar e dormir sem procurar desculpas, porque chegarão a ser sábios". Estas duas bem-aventuranças de São Tomás remetem-nos para o proceder de Jesus e dos seus discípulos. Por um lado a partilha solidária. Somos responsáveis uns pelos outros. Os sofrimentos e carências dos outros dizem-nos diretamente respeito, pois em Cristo, são nossos irmãos. Por outro lado, o ser humano não é e não pode ser escravo do trabalho nem da riqueza. Há mais vida. Podemos matar-nos a trabalhar e perder a vida, esquecendo-nos daqueles que peregrinam connosco e que merecem o nosso olhar, a nossa atenção, o nosso tempo e a nossa ajuda, se for caso disso.
       «Quem de entre vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à sua estatura? E porque vos inquietais com o vestuário?... Não vos inquieteis, dizendo: ‘Que havemos de comer? Que havemos de beber? Que havemos de vestir?’... Bem sabe o vosso Pai celeste que precisais de tudo isso. Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo».
       O Reino de Deus, e a sua justiça, implica cuidado por todos, opção preferencial pelos desvalidos, cura dos doentes, bênção para os prisioneiros do mal, pão e afeto para os famintos, água e vida para os sedentos. Com certeza que temos que nos preocupar em trabalhar, mas de tal forma que não hipotequemos a nossa vida ao futuro que só a Deus pertence. «Não vos inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de ama­nhã tratará das suas inquietações. A cada dia basta o seu cuidado». Vivamos hoje, com responsabilidade e consciência, certamente, mas gastando hoje a vida a favor dos outros, para que a vida nos seja favorável amanhã, para nós, diante do nosso próximo, na presença de Deus.
       4 – Na oração inicial da Missa pedimos ao Senhor, nosso Deus, "que os acontecimentos do mundo decorram para nós segundo os Seus desígnios de paz e a Igreja O possa servir na tranquilidade e na alegria". Daqui se infere o Evangelho, a Boa Nova que nos impele ao serviço, procurando traduzir para hoje a bênção, a paz e a alegria que nos vem de Deus.
       Na primeira leitura, o profeta faz eco dos vazios e das inquietações, em momentos de adversidade e chuva. O povo de Sião clama: «O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-Se de mim». A resposta de Deus é esclarecedora: «Poderá a mulher esquecer a criança que amamenta e não ter compaixão do filho das suas entranhas? Mas ainda que ela se esquecesse, Eu não te esquecerei». Em situações normais, uma Mãe liga-se eternamente ao filho, este é o amor maior que a liga ao mundo e à vida. Mas ainda que uma Mãe pudesse esquecer o fruto das suas entranhas, Deus não Se esquece de nenhum de nós.
       Nesta confiança, respondemos salmodicamente à Palavra de Deus: «Só em Deus descansa a minha alma, d’Ele me vem a salvação. Ele é meu refúgio e salvação, minha fortaleza: jamais serei abalado. Em Deus está a minha salvação e a minha glória, o meu abrigo, o meu refúgio está em Deus. Povo de Deus, em todo o tempo ponde n’Ele a vossa confiança, desafogai em sua presença os vossos corações».

       5 – Serviço, humildade e fidelidade ao Evangelho. São as notas que o Apóstolo Paulo tem vindo a sublinhar e que nos agrafam a Jesus e à Boa Nova da salvação.
       Paulo reafirma-se como discípulo missionário, servo de Cristo e administrador dos mistérios de Deus. «De nada me acusa a consciência, mas não é por isso que estou justificado: quem me julga é o Senhor. Portanto, não façais qualquer juízo antes do tempo, até que venha o Senhor, que há de iluminar o que está oculto nas trevas e manifestar os desígnios dos corações. E então cada um receberá da parte de Deus o louvor que merece».
       Paciência na espera, coragem da humildade, generosidade no tempo, para que Deus frutifique em nós e através de nós.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (A): Is 49, 14-15; Sl 61 (62); 1 Cor 4, 1-5; Mt 6, 24-34.

Escola da Fé sobre São João de Brito - 24.02.2017

       Sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017, mais uma sessão da Escola da Fé, desta feita, dedicada a São João de Brito, o missionário nascido em Portugal, em Lisboa, e morto na Índia. Esta sessão foi orientada pelo Pe. Diamantino Alvaíde, Pároco de Moimenta da Beira e de Cabaços e Coordenador Pastoral do Arciprestado de Moimenta da Beira - Sernancelhe - Tabuaço.
       Alguns dados da vida de São João de Brito:
1647 – Nascimento em Lisboa (1 de Março).
1656 – Com 9 anos entra na Corte como pagem.
1662 – Entrada no Noviciado da Companhia de Jesus (17 de dezembro).
1664 – Faz os votos no fim do Noviciado (25 de dezembro).
1665 – Estudos na Universidade de Évora.
1666 – Começa os estudos no Colégio das Artes, em Coimbra.
1673 – Ordenação sacerdotal.
1673 – Partida para a Índia (15 de março). Chegada a Goa (14 de setembro).
1674 – Inicia a ação missionária na missão do Maduré.
1686 – Primeiro «martírio».
1687 – Regresso a Portugal. Chega a Lisboa a 8 de setembro.
1690 – Parte novamente para a Índia (8 de abril). Chegada a Goa (2 de novembro).
1693 – Prisão e tormento (8 de janeiro).
1693 – Martírio em Oriur (4 de fevereiro).
1852 – Beatificação pelo Papa Pio IX (8 de abril).
1947 – Canonização pelo Papa Pio XII (22 de junho)
       Depois de percorrer datas e momentos da vida e da missionação de São João de Brito, o missionário que procurou inculturar o cristianismo na Índia, sem impor, mas propondo, tempo para perguntas e para um interessante debate sobre o martírio e o amor a Deus e ao Evangelho, a ligação ao filme recente de Martin Scorsese, Silêncio, adaptação ao cinema do romance de Shusaku Endo, que fala dos missionários portugueses no Japão, onde o cristianismo chocou com a cultura nipónica.
       Os minutos finais foram aproveitados para uma breve apresentação da Caminhada diocesana para a Quaresma-Páscoa deste ano pastoral de 2016-2017.
       Como vem sendo habitual, o encontro encerrou com um momento de convívio, entre o chá e bolos e a conversa animada.
       Algumas fotos desta sessão:
Outras fotos disponíveis sobre as sessões da Escola da Fé 2016-2017

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Domingo VII do Tempo Comum - ano A - 19.02.2017

       1 – «Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo». Deus manda Moisés convocar o povo para a santidade, não por capricho, mas para que viva e progrida como povo. A santidade é um compromisso de bondade e de serviço. "Não odiarás do íntimo do coração os teus irmãos, mas corrigirás o teu próximo, para não incorreres em falta por causa dele. Não te vingarás, nem guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor".
       Só Deus é Deus e se o mandamento vem d'Ele então não há que temer pois não vem armadilhado, não tem letras pequeninas, nem condições escondidas ou disfarçadas. Deus não tem a pretensão de concorrer connosco ou de nos dominar ou de nos fazer escravos. Ele é o Senhor. Está acima e além de nós. Não nos faz sombra. Não tem a preocupação de nos mostrar que é melhor do que nós, como por vezes nos acontece, competimos tanto que nos esquecemos de viver, de nos apreciarmos mutuamente nos dons e nas qualidades e na entreajuda. "Onde Deus reina como Pai, os homens já não podem reinar uns sobre os outros" (J. Antonio Pagola). Ser santo, aperfeiçoar-se como pessoa, tornar-se melhor, é um desafio e um compromisso de cumprirmos com a nossa humanidade. Quanto mais aprendermos, quando mais nos aproximarmos uns dos outros, quanto mais desenvolvermos as nossas capacidades para deixar marcas positivas no mundo, tanto mais seremos humanos, criados à imagem e semelhança de Deus.
       A Lei dada por Deus ao povo através de Moisés prepara-nos para a grandeza! Atenção, não nos prepara para a sobranceria, para a arrogância, para prepotência! Mas para a grandeza que nos embeleza e nos humaniza, que nos aproxima uns dos outros e nos irmana, levando-nos a gastar-nos pelos outros, a persistir nas dificuldades, a solidarizar-nos nas aflições e a caminhar juntos!
       2 – Jesus faz-nos passar dos mínimos garantidos para o máximo. Não contra os outros ou apesar deles. Mas em relação a nós próprios. O caminho é superar-nos constantemente. Não desistir. Insistir. Dando o melhor. No Sermão da Montanha Jesus exige de nós. Não exige pouco ou muito. Exige tudo. E a acrescentar a isto, a superação visa sintonizar-nos com o sofrimento dos outros, com o seu peregrinar, com as suas lutas. Melhorar a minha performance para ser mais prestável aos outros. Sou abençoado na medida em que me torno bênção para os outros.
       Hoje pudemos escutar novamente a contraposição de Jesus, pela positiva. «Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, digo-vos: Não resistais ao homem mau. Mas se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda». De enxurrada, intenso e imenso. Jesus já tinha surpreendido com as Bem-aventuranças, invertendo a lógica do poder e da felicidade. Agora, à lei de talião, apõe a não-violência e o perdão. Diga-se que a lei de talião já era preventiva, olho por olho e dente por dente promovia uma justiça (popular) equitativa. Se me partem um dente, eu não tenho o direito a partir dois!
       Mas Jesus vai mais longe. «Se alguém quiser levar-te ao tribunal, para ficar com a tua túnica, deixa-lhe também o manto. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas. Dá a quem te pedir e não voltes as costas a quem te pede emprestado. Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus».
       3 – O caminho da santidade, do aperfeiçoamento funda-se e fundamenta-se em Deus. Relembrando sempre as palavras sábias do então Cardeal Joseph Ratzinger (Bento XVI): para o Reino de Deus há tantos caminhos como as pessoas. Porém, Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida. O meu caminho, o teu caminho, há de levar-nos a Jesus, há de levar-nos ao Pai. Sendo assim, quanto mais perto eu estiver de Jesus e quanto mais perto tu estiveres de Jesus, mais perto vamos estar um do outro. E se estamos próximos poderemos apoiar-nos mutuamente, ajudar-nos, incentivar-nos quando um de nós estiver a fraquejar.
       No Reino de Deus não há excluídos, pois os nossos caminhos hão de desembocar em Jesus. Por conseguinte, estamos "condenados" a aproximar-nos uns dos outros. Na verdade, diz-nos Jesus, Deus é Pai de todos e «faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos». A bênção recai sobre todos. Temos afinidades. Por certo. Mas nem por isso estamos dispensados de amarmos até os nossos inimigos, os que nos são indiferentes, os que desprezamos. Aliás, questiona Jesus, que vantagem haveria em amar aqueles que nos amam? Isso todos podem fazer. Os discípulos de Jesus são desafiados ao máximo. E o máximo é Deus. «Portanto, sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito».
       A vinda de Jesus ao mundo, Deus que Se faz Homem, tem como missão reconciliar-nos a todos com Deus. Pelo mistério da Sua morte e da Sua ressurreição, Jesus resgata-nos das trevas, do pecado e da morte, para nos reconduzir ao Coração do Pai. "Ele perdoa todos os teus pecados e cura as tuas enfermidades; salva da morte a tua vida e coroa-te de graça e misericórdia. / O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade; não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos castigou segundo as nossas culpas. / Como o Oriente dista do Ocidente, assim Ele afasta de nós os nossos pecados; como um pai se compadece dos seus filhos, assim o Senhor Se compadece dos que O temem" (Salmo).
       4 – Também em São Paulo descortinamos esta corresponsabilidade pela salvação, que nos é dada por Jesus Cristo, mas que nos impele a sermos instrumentos redentores uns para os outros. O outro é Presença de Deus, é Rosto que nos desafia e interpela, na sensibilidade de Emmanuel Levinas, é Rosto que irrompe e me chama, é um apelo da eternidade, do Infinito, que não é redutível a mim, mas me provoca, me interpela, pois no face a face encontro-me com o divino e então é mais forte o mandamento "não matarás". Se nos recordarmos do crime de Caim contra o seu irmão Abel, a sentença de Deus questiona-nos e responsabiliza-nos pelo sangue dos nossos irmãos, pelas suas vidas. Somos guardas dos nossos irmãos ou seremos Caim uns para os outros!
       O Apóstolo interroga-nos: «Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é santo, e vós sois esse templo. Ninguém tenha ilusões. Se alguém entre vós se julga sábio aos olhos do mundo, faça-se louco, para se tornar sábio. Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus». É a nossa grandeza: na nossa pobreza e humildade, deixarmo-nos guiar pela sabedoria de Deus, mesmo que pareçamos loucos. O decisivo é que Cristo reine em nós. “Onde o reinado de Deus vai abrindo caminho, vai-se construindo comunicação, solidariedade, comunhão e fraternidade” (Pagola).
       Em Maria encontramos uma modelo de humildade ao ponto de n’Ela se gerar o próprio Deus. Como Ela, também nós possamos dizer: a minha alma engrandece o Senhor. Traduzindo: que em nós se manifeste a grandeza de Deus. Para isso precisamos de ser templo e transparência e respiração de Deus.
       Na Carta aos Coríntios, que temos vindo a escutar, São Paulo insiste na necessidade de viver Jesus, transparecer Jesus, testemunhar Jesus. Em tudo. Em toda a parte. Com todos. Para louvor e glória de Deus Pai. «Tudo é vosso: Paulo, Apolo e Pedro, o mundo, a vida e a morte, as coisas presentes e as futuras. Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus». O apóstolo alerta-nos para não confundirmos o mensageiro (eu, tum, cada um de nós) com a Mensagem (Jesus e o Seu Evangelho de Amor). Não nos anunciamos. Anunciamos Jesus Cristo, morto e ressuscitado!

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia (A): Lev 19, 1-2. 17-18; Sl 102 (103); 1 Cor 3, 16-23; Mt 5, 38-48.

São Teotónio, Presbítero

Nota biográfica:
       Nasceu em Ganfei (Valença do Minho) aproximadamente no ano 1082 e foi educado piedosamente desde a infância. Quando D. Crescónio, seu tio, foi nomeado bispo de Coimbra, levou-o consigo para esta cidade e confiou ao arcediago D. Telo a sua formação nas disciplinas eclesiásticas. Depois de ordenado sacerdote, foi nomeado prior da Igreja da Sé de Viseu. Fez duas peregrinações à Terra Santa. No regresso da segunda peregrinação, insistentemente convidado por D. Telo e outros dez homens de grande virtude, fundou com eles o mosteiro da Santa Cruz em Coimbra, de que foi membro eminente e muito admirado, nomeadamente por S. Bernardo de Claraval. Teve também papel importante em algumas conjunturas da pátria. Morreu em 1162.
Oração:
       Senhor nosso Deus, que pela palavra e pelo exemplo de São Teotónio reformastes a disciplina religiosa, concedei-nos, por sua intercessão, que, escolhendo o caminho estreito da perfeição cristã, mais facilmente alcancemos a vida eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo... 

Da Vida de São Teotónio, escrita por um autor contemporâneo, seu discípulo

Bom mediador entre Deus e os homens

Desde que foi ordenado sacerdote, Teotónio deu mostras evidentes de grande progresso no caminho da perfeição e santidade. A sua vida era para todo o povo de Deus um admirável exemplo de virtude.
Desempenhava com exímia perfeição as obrigações da sua ordem [sacerdotal]: instruía na fé as gentes rudes e incorporava-as na Igreja pelo baptismo; chamava os pecadores à penitência e, curando-os com a medicina das suas orações e palavras de encorajamento, absolvia-os e reconciliava-os com a Igreja; como bom mediador entre Deus e os homens, a todos ensinava os preceitos divinos e pregava a verdade, apresentava ao Senhor as preces dos fiéis e intercedia diante de Deus pelos pecados do povo, oferecia no altar o sacrifício de expiação, recitava as orações e abençoava os dons de Deus.
Na igreja comportava-se sempre com santa reverência e temor de Deus, e cumpria as funções sagradas com toda a perfeição.
Desprezava a sumptuosidade e as enganadoras seduções do mundo; não se envaidecia com os louvores, nem se exaltava com a riqueza, nem se amargurava com a pobreza.
Há quem o louve pela sua renúncia total às curiosidades, divertimentos, ostentações e coisas semelhantes; eu, porém, considero não menos digna de louvor a sua perfeição na virtude da castidade, comprovada pela circunspecção e prudência em todas as suas acções.
Com a ajuda do Senhor, passarei agora a contar como Teotónio veio a tomar o hábito de Cristo e como viveu na Religião sob a regra de Santo Agostinho. Desde a sua entrada na Religião, ele sobressaía notavelmente entre os demais pela santidade de costumes, extraordinária abstinência e assídua oração. Continuamente dirigia a Deus as suas preces; e, quando deixava de rezar, lançava mão da leitura sagrada, aplicando-se principalmente à Salmodia. Com efeito, além das Horas Canónicas e todo o Ofício Divino, em que se empenhava fielmente com santa reverência e temor de Deus, rezava cada dia todo o Saltério.
O tempo que lhe restava era para se ocupar em exercícios de boas obras ou em diversos serviços do mosteiro.
Longe de transigir com qualquer atractivo de vícios ou vaidades mundanas, era sua constante predilecção o recolhimento, a mansidão, o silêncio e a paz. Finalmente – coisa rara no nosso tempo – foi tão profunda a sua humildade, que parecia querer passar pelo mais esquecido de todos e o último dos servos de Deus.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

VL – A autoridade Jesus e dos seus discípulos: o serviço

       A liturgia dos últimos e dos próximos domingos serve-nos o Sermão da Montanha (Mt 5,1-7,29), que começa com as Bem-aventuranças e termina desta forma: “Quando Jesus acabou de falar, a multidão ficou vivamente impressionada com os seus ensinamentos, porque Ele ensinava-os como quem possui autoridade e não como os doutores da Lei”.
       Quando ouvimos falar em autoridade quase sempre nos lembramos de poder, de arrogância, de sobranceria. Jesus, desde o início, faz saber aos seus discípulos, daquele e de todos os tempos, que a Sua lógica é diferente, o Seu poder está no amor, no serviço, no gastar a vida não por quem merece mas por todos e especialmente pelos excluídos, os pecadores, os pobres, os doentes.
       Um dia destes, um agente da GNR mandou-me encostar. Como em todas as profissões e/ou vocações há gente boa e gente maldisposta. Seja onde for tenho consciência que cumprem a sua missão. E assim foi. Documentos pessoais e da viatura. Colete. Triângulo. Deu a volta ao carro. Sempre com um ar descontraído, humano. E no final: tenha um bom domingo. Pode arrancar quando puder. Tudo de bom. Cumpriu com zelo, mas também com simpatia o seu dever. E com um gracejo final. Simples. É possível ser sério sem ser carrancudo, arrogante ou implicante. (Em nenhum momento revelei a minha identidade sacerdotal).
       Na linguagem como na vida, Jesus apresenta-Se dócil, próximo, a favor dos mais desfavorecidos e da integração de todos no Reino de Deus, repudiando as injustiças, as invejas e os ódios, promovendo o serviço, o amor e o perdão, contando connosco, comigo e contigo. Cada pessoa conta. Cada um de nós é assumido como irmão, filho bem-amado do Pai. Jesus vem desfazer os muros da incompreensão, do egoísmo, da intolerância, da violência e construir pontes e laços de entreajuda, de comunhão e de fraternidade.
       No Sermão da Montanha Jesus acentua a humildade, o despojamento, a pobreza, mas nunca a desistência ou o conformismo. São felizes os que lutam pela justiça e promovem a paz, os que usam de misericórdia e cuja compaixão constrói humanidade. Jesus não desiste. Vai até ao fim. Por amor. A Sua autoridade caracteriza-se pela bondade, por atrair os que foram colocados de parte pela política, pela sociedade e pela religião. Para Ele não há pessoas perdidas, todos podem recomeçar e ser parte importante no Seu reino de amor. Como nos lembrou há pouco o Papa Francisco, “não há santos sem história, nem pecadores sem futuro”.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4398, de 14 de fevereiro de 2017