quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Quarta-feira de Cinzas 2020 - Homilia do Papa Francisco

Começamos a Quaresma com a receção das cinzas: «Lembra-te que és pó da terra e à terra hás de voltar» (cf. Gn 3, 19). O pó sobre a cabeça faz-nos ter os pés assentes na terra: recorda-nos que viemos da terra e, à terra, voltaremos; isto é, somos débeis, frágeis, mortais. No longo decorrer dos séculos e milénios, passamos num ai; comparados com a imensidão das galáxias e do espaço, somos minúsculos; somos um bocado de pó no universo. Mas somos o pó amado por Deus. Amorosamente o Senhor recolheu nas suas mãos o nosso pó e, nele, insuflou o seu sopro de vida (cf. Gn 2, 7). Por isso somos um pó precioso, destinado a viver para sempre. Somos a terra sobre a qual Deus estendeu o seu céu, o pó que contém os seus sonhos. Somos a esperança de Deus, o seu tesouro, a sua glória.

Deste modo, a cinza recorda-nos o percurso da nossa existência: do pó à vida. Somos pó, terra, barro; mas, se nos deixarmos plasmar pelas mãos de Deus, tornamo-nos uma maravilha. Todavia muitas vezes, sobretudo nas dificuldades e na solidão, vemos só o nosso pó! Mas o Senhor encoraja-nos: o pouco que somos, aos olhos d’Ele tem valor infinito. Coragem! Nascemos para ser amados; nascemos para ser filhos de Deus.

No início da Quaresma, amados irmãos e irmãs, consciencializemo-nos disto. Porque a Quaresma não é o tempo para fazer cair sobre o povo inúteis moralismos, mas para reconhecer que as nossas míseras cinzas são amadas por Deus. É tempo de graça, para acolher o olhar amoroso de Deus sobre nós e, assim contemplados, mudar de vida. Estamos no mundo para caminhar da cinza à vida. Então, não pulverizemos a esperança, nem incineremos o sonho que Deus tem sobre nós. Não cedamos à resignação. Dizes tu: «E como posso ter confiança? O mundo vai mal, o medo alastra, há tanta malvadez e a sociedade está a descristianizar-se...» Mas tu, não acreditas que Deus pode transformar o nosso pó em glória?
A cinza, que recebemos na testa, abala os pensamentos que temos na cabeça. Lembra-nos que nós, filhos de Deus, não podemos viver correndo atrás do pó que desaparece. Pode descer da cabeça ao coração esta pergunta: «Para que vivo eu?» Se vivo para as coisas do mundo que passam, volto ao pó, renego aquilo que Deus fez em mim. Se vivo só para arrecadar algum dinheiro e divertir-me, procurar um certo prestígio, fazer carreira, então estou a viver de pó. Se julgo má a vida, só porque não sou tido suficientemente em consideração, ou não recebo dos outros o que acho merecer, estou ainda com o olhar no pó.

Não estamos no mundo para isso. Valemos muito mais, vivemos para muito mais: para realizar o sonho de Deus, para amar. A cinza pousa nas nossas testas, para que, nos corações, se acenda o fogo do amor. Com efeito, somos cidadãos do céu. E o amor a Deus e ao próximo é o passaporte para o céu; é o nosso passaporte. Não poderão valer-nos os bens terrenos que possuímos – são pó que desaparece! –, mas salvar-nos-á o amor que oferecemos na família, no trabalho, na Igreja, no mundo: tal amor permanecerá para sempre.

A cinza que recebemos recorda-nos um segundo percurso: o percurso contrário, que vai da vida ao pó. Olhamos em redor e vemos pó de morte, vidas reduzidas a cinzas: escombros, destruição, guerra. Vidas de bebés inocentes não acolhidos, vidas de pobres rejeitados, vidas de idosos descartados. Continuamos a destruir-nos, a fazer-nos voltar ao pó. E quanto pó existe nas nossas relações! Vejamos em nossa casa, nas famílias: quantas brigas, quanta incapacidade de neutralizar os conflitos, quanta dificuldade em pedir desculpa, perdoar, recomeçar, enquanto com tanta facilidade reclamamos os nossos espaços e direitos! Há tanto pó que suja o amor e embrutece a vida. Mesmo na Igreja, a casa de Deus, deixamos depositar tanto pó, o pó do mundanismo.

E olhemo-nos dentro, no coração… Quantas vezes sufocamos o fogo de Deus com a cinza da hipocrisia! A hipocrisia: é a imundície que hoje, no Evangelho, Jesus pede para remover. De facto, o Senhor não diz apenas para fazer obras de caridade, rezar e jejuar, mas que tudo isso seja feito sem fingimento, sem falsidade nem hipocrisia (cf. Mt 6, 2.5.16). E, contudo, quantas vezes fazemos algo só para ser louvados, para meter figura, para me vangloriar! Quantas vezes nos proclamamos cristãos e, no coração, cedemos sem problemas às paixões que nos escravizam! Quantas vezes pregamos uma coisa e fazemos outra! Quantas vezes nos mostramos bons por fora e dentro incubamos rancores! Quanta duplicidade temos no coração... É pó que suja, cinza que sufoca o fogo do amor.

Precisamos de limpar o pó que se deposita no coração. Como fazer? Ajuda-nos o veemente apelo de São Paulo na segunda Leitura: «Deixai-vos reconciliar com Deus!» Paulo não o exige; suplica-o: «Em nome de Cristo suplicamo-vos: deixai-vos reconciliar com Deus!» (2 Cor 5, 20). Nós teríamos dito: «Reconciliai-vos com Deus». Mas ele, não; usa o passivo: deixai-vos reconciliar. Porque a santidade não é obra nossa; é graça. Sozinhos, não somos capazes de tirar o pó que suja o coração, pois só Jesus, que conhece e ama o nosso coração, pode curá-lo. A Quaresma é tempo de cura.

Que fazer então? No caminho rumo à Páscoa, podemos efetuar duas passagens: a primeira, do pó à vida, da nossa humanidade frágil à humanidade de Jesus, que nos cura. Podemos colocar-nos diante do Crucificado, ficar lá olhando-O e repetindo: «Jesus, Vós me amais; transformai-me! Jesus, Vós me amais; transformai-me…» E depois de ter acolhido o seu amor, depois de ter chorado à vista deste amor, a segunda passagem, para não voltar a cair da vida ao pó: vai-se receber o perdão de Deus, na Confissão, porque lá o fogo do amor de Deus consome a cinza do nosso pecado. O abraço do Pai na Confissão renova-nos por dentro, limpa-nos o coração. Deixemo-nos reconciliar, para viver como filhos amados, pecadores perdoados, doentes curados, viandantes acompanhados. Para amar, deixemo-nos amar; deixemo-nos erguer, para caminhar rumo à meta – à Páscoa. Teremos a alegria de descobrir que Deus nos ressuscita das nossas cinzas.

sábado, 11 de janeiro de 2020

MARCELO REBELO DE SOUSA - o Presidente dos Afetos

CLÁUDIA SEBASTIÃO (2018). Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente dos Afetos. Lisboa: Paulus Editora. 184 páginas.
O Professor Marcelo Rebelo de Sousa dispensa apresentações e, por certo, todos temos uma opinião formada sobre o atual Presidente da República, tal é a exposição a que está sujeito diariamente, nomeadamente através dos meios de comunicação social e das redes sociais. Já antes de ser Presidente, o que se acentuou a partir da candidatura, da campanha e da eleição para o mais alto cargo da nação.
Mas, como constatará, caso aceite a nossa sugestão de leitura, que há dimensões que podem ser investigadas, colocando a descoberto outras dimensões ou, pelo menos, clarificando a personalidade por detrás do Presidente. Este livro, da autoria de Cláudia Sebastião, editado pela Paulus Editora, procura mostrar a consistência de Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente que, desde a primeira hora, tem privilegiado a proximidade às pessoas, sem barreiras, e os afetos, procurando estar presente para todos, especialmente nos momentos de aflição, sofrimento, perda, como nos incêndios de 2017 em Pedrógão Grande, em junho, e na região centro, em outubro. Depois do estudo dos técnicos, que sublinharam que a presença de políticos quando se estavam a combater os incêndios, só trouxe dificuldades, então tem refreado a imediatez com que se deslocava às tragédias…
A obra que sugerimos mostra a consistência de Marcelo na atenção aos mais frágeis, vem de longe, da infância, em que acompanhava a mãe, que era assistente social, da educação católica, da pertença a vários movimentos juvenis católicos, com a preocupação de se envolver na ajuda às pessoas mais carenciadas, fazendo “voluntariado” desde jovem, no empenho social que o junta, por exemplo, ao amigo e companheiro António Guterres, atual Secretário Geral das Nações Unidas.
Inabalável a sua identidade cristã-católica, que o compromete também como e enquanto Presidente da República. Na página da Presidência da República, começa assim a sua apresentação: “Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa nasceu a 12 de dezembro de 1948. É católico, participou em vários movimentos da Igreja Católica”. Só depois outros “afazeres”! Ele próprio caracteriza: “Eu sou católico, influenciado pelo Vaticano II, concílio bem presente hoje no ministério do Papa Francisco, português defensor da lusofonia com especiais relações em África e no Brasil… O fim maior na política é o combate à pobreza, é a luta contra as desigualdades, é a afirmação da justiça social… ninguém se salva sozinho e é preciso construir pontes”.
Num outro momento afirma taxativamente em relação à intervenção política dos cristãos: “Quem não intervém comete um erro porque a sua voz não será substituída por nenhuma outra voz. Mais vale às vezes intervir em excesso, cometendo erros, a não intervir”. Por outro lado, a opção clara pelos mais frágeis: “Cristo define o seu programa de vida. E o nosso programa de vida. Anunciar a eternidade. Mas também dar esperança aos pobres, vista aos cegos, libertação aos presos e oprimidos. Tudo está aí. Vida eterna, mas também justiça na vida terrena. Justiça que não ignore ninguém, mas prefira os excluídos e sofredores – na economia, na sociedade, na cultura, na política”

"Porque acredito em Jesus Cristo? Porque Deus acredita em mim. Tão simples quanto isso . Dirigiu-se-me e eu aceitei".
"Um cristão católico que não é otimista é profundamente ingrato. Nós estamos disponíveis para fazer misérias para ganhar o Euromilhões todas as semanas e não percebemos que o Euromilhões dos Euromilhões é a graça da fé. Não é contingente, não é semanal, não é conjuntural, não é limitado. É uma oportunidade única no caminho para a eternidade e no começo da construção da eternidade neste mundo".

Sobre a recitação do terço: “Fica às vezes a meio, mas depois prossegue. Há alguns mistérios que são sacrificados. Mas ao fim do dia está completo. Não é um mandamento. É como respirar. Há coisas que eu faço naturalmente. Não é uma obrigação, é assim. Faz parte da minha via. Não me passa pela cabeça haver um dia se Terço”.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

ROBERT CHEAIB - EDUCAR OS FILHOS NA FÉ

ROBERT CHEAIB (2019). Educar os filhos na fé. Prior Velho: Paulinas Editora. 208 páginas.
"Enquanto os filhos são pequenos, os limites, as regras e a disciplina não são apenas úteis, são necessários e cruciais. Somos responsáveis pelos nossos filhos quando são pequenos e é ingénuo pensar que podem ser deixados entregues a si próprios logo em tenra idade. É uma espécie de «abandono de menores»... Um dos primeiros segredos da educação dos filhos na fé é mesmo: começar cedo. Ao invés, um dos erros da educação religiosa dos filhos é ficar à espera que cresçam, que «tenham idade para conversarmos sobre estas coisas»... Se não fores tu a semear, outro semeará por ti e, muito provavelmente, semeará uma semente diferente - se não mesmo contrária - da tua... «Não os ensino a falar português porque tenho receio que no futuro a língua portuguesa nãos eja a língua da sua preferência». É um raciocínio ridículo porque, assim, privo os meus filhos de uma ferramenta relacional importante como a língua".
Por estas palavras do próprio autor, podemos calcular a importância da educação da fé das crianças, a começar no berço. Achar que se deve deixar a religião para quando os filhos puderem escolher é um erro infantil, uma vez que em todas as dimensões da vida, os pais procuram dar as ferramentas aos filhos para que, ao crescerem, possam tomar as próprias decisões. Também assim no campo da religião. Esta deve ser como a língua materna. Se os pais se escusarem a educar o filhos, haverá quem o faça, a televisão, a Internet, os colegas.
O autor é doutorado em Teologia Fundamental, pela Universidade Pontifícia Gregoriana, exercendo a docência em várias universidades, é conferencista, em Itália e em outros países, abordando temáticas relativas à vida de casal, educação dos filhos, juventude e fé, desafios do ateísmo. É casado e pai.

Os cinco pilares propostos pelo autor e desenvolvidos ao longo do livro:
  • Educação preventiva: é preciso começar cedo. É preciso prevenir a queda da fé reforçando as fundações enquanto os filhos são pequenos.
  • Educação no dia a dia: a fé não se vive dentro de uma redoma de vidro nem de maneira isolada do resto da educação. A vida de fé precisa de uma educação integral e de uma experiência diária. Só experimentando o amor no dia a dia é que os nossos filhos vão percecionar e sentir o Amor de Deus como credível e familiar.
  • Educação narrativa: a fé não é feita de conceitos, mas de narrações, de um povo que faz experiência de um Deus que vem ao seu encontro; de uma comunidade que faz experiência de um Deus que se faz homem, fala do Pai através de parábolas e de histórias convidando-nos a sermos, como Ele, testemunho e parábola de Deus.
  • Educação responsável: como pais não podemos delegar aos outros a responsabilidade da educação na fé dos nossos filhos. Aliás, somos mesmo os primeiros catequistas deles. E somo-lo, em primeiro lugar, com o exemplo de vida que não deve desmentir as nossas palavras. Somos também responsáveis no sentido que temos a tarefa de dar respostas às perguntas dos nossos filhos ou, pelo menos, temos a responsabilidade de os saber orientar para as pessoas que estão em condições de dar resposta às legítimas perguntas e dúvidas em matéria de fé.
  • Educação responsabilizadora: ou os nossos filhos se tornam crentes ativos ou então serão para sempre clientes passivos que, mais tarde ou mais cedo, se aproximam de fornecedores de respostas mais perspicazes (cf. Lc 6,8). Os filhos sentir-se-ão parte da Igreja e que a fé é a fé deles, se tiverem feito experiência pessoal de Deus. A nossa tarefa, enquanto eles forem pequenos, é a de lhes proporcionar oásis onde possam ir buscar a água de Cristo, oásis que podem ser comunidades oficiais ou encontros «informais» com a prole de outras famílias desejosas, como nós, de criar os filhos na fé».
Ao longo do livro, o autor vai sublinhando a presença dos pais em relação aos filhos, arranjar tempo, proximidade, as primeiras testemunhas da fé, o exemplo é crucial, o amor entre os esposos, que nunca deve ser descurado. A educação, também na fé, passa pela vivência. "Para sermos bons catequistas dos nossos filhos devemos ser bons pais". A amabilidade há de ser a referência na educação: "Quem não se sente amado não quererá ouvir razões. Quem não se sente amado e não experimenta o amor não acreditará no Deus-amor. Sem amor a nossa existência permanece indecifrável e insensata... o amor exige proximidade" e escuta.

EMMA DONOGHUE - O QUARTO DE JACK

EMMA DONOGHUE (2018). O Quarto de Jack. Porto: Porto Editora. 336 páginas.
Jack acaba de fazer 5 anos. Apaga as velas. Festeja mais um aniversário. Até ao final dos quatro anos, Jack só conhece uma realidade, um quarto, onde dorme, come, mama, brinca, faz desporto, aprende a ler e a escrever, tem 5 livros para ler, conhece personagens na televisão, que não são reais. Pessoas só ele e a mãe e o Nick Mafarrico, que vem à noite, mas como fica escondido no guarda-fatos, não o vê, só houve barulho, respiração e algumas palavras, isto quando não está a dormir. Depois do Nick sair volta para a cama para junto da mãe.
Feitos os 5 anos, a mãe começa a desmontar as mentiras que foi criando para o manter, para se manterem em segurança. O mundo Lá Fora afinal existe, existem humanos verdadeiros, a televisão mostra pessoas verdadeiras e outras personagens que não existem. É necessário fugir. Arranjar um plano de fuga. O Quarto revela ser uma prisão, de onde não podem sair. O Mafarrico tranca a porta com um código, o quarto é insonorizado. Podem gritar que ninguém os ouvirá. A mãe foi raptada aos 19 anos. Nessa altura, tinha mãe e pai (adotivos), tinha amigos, tinha outra vida, mas foi enganada e entrou numa carrinha e deixada ali naquele Quarto. A Mãe engendra um plano para fugir, tendo como protagonista Jack, irão ludibriar o Nick Mafarrico.
Ainda que o plano não decorra como esperado, com todos os passos imaginados, resulta na libertação de Jack e da Mãe. Nick é preso e aguarda julgamento, esperando-se que nunca mais saia da cadeia.
A vida no mundo Lá Fora é diferente, tem outras regras, tem outros humanos. Precisam de ir para uma clínica, a comunicação social quer devorar a história. Há muitas coisas diferentes. Jack tem saudades do Quarto, onde é ele e a Mãe, aqui há outros eles, que afinal são verdadeiros. Precisam de se adaptar rapidamente, à luz, ao som, a conhecer pessoas e lugares. Tanta informação que é difícil assimilar. Curiosamente quem é atropelada pela realidade é a Mãe, que quer ir mais cedo para o Céu. A avó materna e o Avô emprestado, os tios e a prima, vão ser de grande ajuda. Jack continua a querer o Quarto.
Jack não precisa de muito, precisa da Mãe. Não precisa de muito mais. Tem medo da chuva. E que lhe toquem ou o abracem. Só precisa do colo da mãe. Quando a mãe não está, ele tem o dente podre da mãe, que guardou e mete na boca, para chupar, pois assim tem um pedaço da mãe. O dente foi com ele na fuga, mantém-no até que a mãe volta da Clínica. Depois perde-o. Já não tinha sabor nenhum. Quer os brinquedos e livros que tinha no Quarto. E o tapete, mesmo com o cheiro que trazia do Quarto. A mãe quer fazer desaparecer esses objetos e esses cheiros, mas por insistência do filho regressa ao Quarto, que afinal já não é o mesmo Quarto, parece mais pequeno. Jack despede-se do Quarto, das paredes, do teto, como se estivesse a despedir-se de pessoas.
Este é um livro extraordinário. Lê-se de fio a pavio, faz-nos tocar a realidade de tantas pessoas vítimas de rapto, cujas vidas foram destruídas ou feridas para sempre, fala-nos da ternura e do amor, da Mãe e do Filho, e da resiliência, mas também da fragilidade humanas. É possível ter muito pouco e resistir a tudo, por amor. É possível ter muito e perder-se.
A voz que narra toda a trama é a voz de uma criança, de Jack, que nos surpreende com a sua ingenuidade, mas também com a capacidade de ouvir e perceber das crianças, mesmo quando os adultos pensam que os mais pequenos não ouvem e/ou não percebem. Fala-nos de um amor tão grande, gigante, que não precisa de muitas coisas. Jack só precisa do amor, do olhar, do colo da mãe. Tudo o mais é secundário. Mas mesmo no mundo Lá Fora, continua a precisar da Mãe, do amor e da presença da Mãe. A mãe é salva, em todos os sentidos, pelo filho, pelo amor do filho, ainda que tenha sucumbido alguns dias depois de estarem no mundo Lá Fora, não aguentando a pressão, a novidade. Mas também aí, o amor parece ter levado a melhor. Resistiu a tudo, tornou-se cínica, deixou de (aparentemente) lutar contra o agressor, mas para proteger o filho e, assim, também se protegeu. Quando já não precisava de resistir, vacilou na incerteza, na insegurança, na novidade.
Não recomendaria uma leitura que não me tivesse cativado do início ao fim. É uma escrita criativa, simplificada pelas palavras de uma criança de 5 anos, envolvente, do início ao fim. E, como sabemos, ainda que a ficção seja muito realística, infelizmente, a realidade ultrapassa sempre a ficção, havendo casos de sucesso, mas havendo muitos outros cujo desfecho foi a escravidão para sempre ou a morte.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Sofia Silva - SORRISOS QUEBRADOS

SOFIA SILVA (2018). Sorrisos quebrados. Lisboa: Editorial Presença. 256 páginas.
Há livros assim. E este é um daqueles livros assim: envolvente, fácil de entender e entrar no nosso cérebro, no nosso coração, e por-nos a pensar, inseridos na própria história. O fio condutor é o de sempre: o amor. O amor que salva a vida, nos redime e nos faz querer ser gente, nos faz erguer, caminhar, lutar, resistir, nos faz olhar mais para além, além do fracasso e da perda, do amor roubado e destruído, faz-nos querer esquecer ou pelo menos que o passado não ensombre o presente ao ponto de nos paralisar.
Paola é a mulher desta ficção, escrita por Sofia Silva, não é ninguém em concreto, mas poderia ser real, pois, como refere a autora, todos os dias há histórias como esta, mulheres que se encantaram com um homem belo, mas que, cedo de mais, descobriram que era um engodo, por detrás do cordeiro um lobo muito mau, um monstro. E depois os enganos, perdoa-se a primeira vez, pensando que é amor, que os ciúmes é por gostar demais, mas no final sobrevirá o medo, a vergonha, o aniquilamento da identidade, a destruição de qualquer esperança, e até a culpabilização.
Para algumas, pois são sobretudo as mulheres que se tornam vítimas às mãos dos companheiros, ainda poderá haver uma segunda oportunidade, para outras será demasiado tarde. A construção da personagem é muito realística, infelizmente. Há situações como esta e mais dramáticas e/ou ou mais definitivas. Convence-nos, precisamente, porque é fácil ver através dela tantas e tantas mulheres que foram destruídas, cujo sorriso foi quebrado para sempre, cuja a vida se apagou, ficando sem brilho e sem sol, sem luz e sem vida própria, sem confiança e sem forças para sobreviver.
É uma leitura intensa, numa escrita escorreita, literariamente muito bem conseguida. Depois de começarmos, a leitura prende-nos, faz-nos querer saber, ouvir e ver o que vem a seguir. A autora não desilude, faz-nos avançar com suspense, com variações que podem levar a um ou vários desenlaces.

Domingo I do Advento - ano A - 1 de dezembro de 2019

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

DOROTHY DAY - A LONGA SOLIDÃO

DOROTHY DAY (2019). A Longa Solidão. Autobiografia de Dorothy Day. Lucerna. 264 páginas
A autora, Dorothy Day, nasceu no seio de uma família protestante da classe média norte-americana, em 1897. Viria a tornar-se sufragista, escritora social e política e, mais tarde, uma conhecida ativista católica. O exemplo de alguns vizinhos católicos, vendo a forma como rezavam, encontrando uma outra senhora a rezar de joelhos, a recitação do terço, a participação na Santa Missa, a cada domingo, ou mesmo todos os dias, foram despertando nela o interesse pelo catolicismo, ainda que tivesse dificuldade em entender o pouco envolvimento da Igreja Católica no campo social, não se vislumbrando a opção pelos pobres e pelos trabalhadores, deixando a outros essa luta.
Aquando do nascimento da filha, Tamara, decidiu que queria o melhor para a filha, e o melhor era fazê-la católica, batizando-a. Foi encontrando algumas dificuldades, vivia em união de facto e o marido era descrente e contrário a tudo o que tivesse a ver com religião. Já que queria batizar a filha, foi-lhe recomendado que faria mais sentido se também ela estivesse mais comprometida. Viria a ser batizada no mesmo dia que a filha. Apesar de gostar muito do marido, decidiu que o seu caminho seria outro, de total comprometimento com a condição de batizada, acolhendo as orientações da Igreja.
Esteve ligada a diversos movimentos de trabalhadores, de pobres, de anarquistas, de comunistas, trabalhando como jornalista, como repórter ou participando em manifestações contra a guerra, a favor dos direitos das mulheres, pela melhoria de condições dos mais pobres. Esteve presa por duas vezes, em condições sub-humanas e também aí a luta por melhores condições para as prisioneiras.
Marcante nesta autobiografia, e por certo no seu compromisso social, o encontro com Peter Maurin. Juntamente com Peter nasceu a ideia de publicar um jornal, que teria o nome de The Catholic Worker, a fim de divulgar as ideias e mensagens de Peter, mas também outros textos de intervenção, na defesa dos trabalhadores. Sem muitos meios e com a preocupação de ser um jornal muito barato, deitaram mãos à obra e rapidamente se transformou num jornal de grande tiragem, chegado inclusivamente à Europa.
Com as ideias do Jornal, com voluntários que se foram juntando, ajudando a vender o jornal, a distribui-lo. Os voluntários foram também contando com a ajuda do jornal, refazendo as suas vidas ou pelo menos podendo ter acesso a refeições, o pão dos trabalhadores. Daí à criação de casas de acolhimento foi um quase nada. O jornal e o movimento caminharam e cresceram juntos, alugando casas, para albergar famílias, investindo em quintas, para serem auto-suficientes, divulgando a doutrina social da Igreja, defendendo o pacifismo, o regresso aos campos, a objecção de consciência face à guerra.
O movimento seguiu uma linha de inclusão de trabalhadores e intelectuais. O trabalho não é apenas o físico, mas também o intelectual, o espiritual. O propósito do movimento era alimentar os famintos, acolher os pobres, os vulneráveis, os doentes e os necessitados, no espírito da caridade cristã.
O remédio para a grande solidão é a comunidade. "Não só a comunidade básica da família, mas também uma comunidade de famílias, combinando a propriedade privada com a propriedade comunitária... Havia um grande desejo de propriedade privada, mas um desejo ainda maior de comunidade. O Homem não foi feito para viver sozinho... A única resposta nesta vida para a solidão que todos acabamos por sentir é a comunidade. Vivendo juntos, partilhando, amando a Deus e amando o nosso irmão, e vivendo perto dele em comunidade, para podermos demonstrar o nosso amor por Ele"
"Sentia, já aos quinze anos, que Deus queria que o Homem fosse feliz, que Ele pretendia dar-lhe aquilo de que ele precisava para levar um vida com o objetivo de ser feliz, e que não era necessário termos tanta pobreza e tanta miséria quantas as que eu via à minha volta e sobre as quais lia na imprensa diária"
"Tinha 17 anos e sentia-me completamente só no mundo, divorciada da minha família, de toda a segurança, e até de Deus. Sentia a arrogância imprudente e, com essa imprudência, uma sensação de perigo na qual me comprazia.
Havia uma interrogação na minha cabeça: porque se fazia tanta coisa para remediar os males sociais em vez de se começar por evitá-los?"

"Estou a rezar porque estou feliz e não porque estou infeliz. Eu não me voltei para Deus por infelicidade, por tristeza, por desespero -  para obter consolo, para obter algo d'Ele... comecei a ir à missa regularmente ao domingo de manhã... o meu amor ardente pela criação levou-me ao Criador de todas as coisas"
"Sabia que iria batizar o meu bebé, custasse o que custasse. Sabia que não queria que ela se debatesse durante muitos anos como eu, duvidando e hesitando, indisciplinada e amoral. Sentia que era a melhor coisa que poderia fazer pela minha filha. Para mim, rezei pelo dom da fé... Tornar-me católica significava enfrentar a vida sozinha e eu sentia-me presa à vida familiar. Era difícil pensar em desistir de um companheiro para que a minha filha e eu pudéssemos tonar-nos membros da Igreja. O Forster não iria ter nada a ver com a religião, ou comigo se a abraçasse. Por isso esperei..."
"Aprendi a rezar o terço..."
"Eu amava a Igreja por Cristo tornado visível. Não por ela mesma, porque muitas vezes era um escândalo para mim. Romano Guardini disse que a Igreja é a Cruz na qual Cristo foi crucificado; não se pode separar Cristo da sua Cruz e temos de viver num estado permanente de insatisfação com a Igreja".
"Mas a palavra final é o amor. Às vezes foi, usando as palavras do padre Zossima, algo duro e terrível, e a nossa própria fé no amor foi provada pelo fogo.
Não podemos amar a Deus a não ser que nos amemos uns aos outros e, para amar, temos de conhecer-nos uns aos outros. Conhecemo-l'O pelo partir do pão, conhecemo-nos uns aos outros partindo o pão, e deixamos de estar sós. O Céu é um banquete e a vida também é um banquete, ainda que de côdeas duras, em que exige companheirismo.
Todos conhecemos a longa solidão e aprendemos que a única solução é o amor, e que o amor vem com a comunidade".

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Se eu acender a luz, não morrerei sozinho

MOREIRA AZEVEDO, Carlos (Coord). (2019). Se acender a luz, não morrei sozinho. Atas da receção de Daniel Faria a 20 anos da morte. Vila Nova de Gaia: Fundação Manuel Leão. 206 páginas.
Nos dias 8 e 9 de junho, realizou-se o colóquio "Se acender a luz não morrerei sozinho" - Receção de Daniel Faria a 20 anos da morte, em Tabuaço, entre o Salão Nobre da Câmara Municipal e a Igreja Matriz de Tabuaço, com passagem obrigatória em São Pedro das Águias, na Granjinha e na Casa que o tem como referência, Casa Daniel, também na Granjinha.
Daniel Augusto da Cunha Faria nasceu e, Baltar, Paredes a 10 de abril de 2971 e viria a falecer a 9 de junho de 1999, quando era noviço no mosteiro de Singeverga, em virtude de uma queda doméstica, na noite de 3 para 4 de junho e que se verificou ser fatal.
Passados 20 anos, Tabuaço foi palco deste colóquio, fazendo sobressair a sensibilidade e mestria do poeta.
O livro recolhe as várias intervenções durante o decorrer do colóquio, bem como as músicas ou poemas musicados do concerto que realizou na Igreja Matriz de Tabuaço sob o título: Lado aberto. uma leitura musical e intertextual da poesia de Daniel Faria.
Refira-se que, estritamente, na paróquia além deste concerto, também a celebração da Santa Missa, em vigília de Pentecostes, presidida por D. António Couto, Bispo de Lamego, tendo ao seu lado, a concelebrar, D. Carlos Azevedo, Presidente do Colégio de Fundadores da Casa Daniel e bispo-delegado do Conselho Pontifício da Cultura no Vaticano.
O livro inclui ainda algumas fotos, na Igreja Matriz, celebração da Eucaristia e concerto musical, e na Granjinha, e também breve bio-bibliografia.

domingo, 10 de novembro de 2019

Domingo XXXII do Tempo Comum - ano C - 10.11.2019

1 – O amor exige eternidade. Quando duas pessoas se amam, namorados, pais e filhos, amigos, tendem a fazer perdurar o tempo que passam juntos e, quando não é possível, utilizar meios e instrumentos para se fazerem sentir próximos.

Diz-nos o filósofo francês, Blaise Pascal: “O Homem ultrapassa infinitamente o homem”. Por outras palavras, o homem não cabe em si mesmo, tende a buscar-se até ao infinito e perpetuar-se para sempre; constitutivamente limitado e finito, procura sobreviver para lá do tempo e da materialidade, além das fronteiras do seu corpo e do seu espírito. Popularmente há (pelo menos) três formas de a pessoa se perpetuar além da morte biológica: plantar uma árvore, escrever um livro e deixar descendência.

A nossa inteligência exige mais do que o vazio, mais que o termo, mais que o abismo! Foi assim que o célebre psiquiatra brasileiro, Augusto Cury, chegou à fé. A nossa inteligência exige sobrevivência à morte física, de contrário não teria sentido todo o caminho e esforço por pensar e criativamente propor respostas às dificuldades das pessoas.

O ser humano não cabe no hiato de tempo que vai do nascimento à morte natural. É pensado antes, gerado sem contribuir para tal, e deseja que a sua vida, o que é e o que faz, não seja descartada só porque não está ou após a sua morte. É um grito muito humano. Se tudo acaba agora, se tudo acaba ali, no último suspiro, terá valido a pena viver, esforçar-se por ser melhor e por contribuir para uma sociedade mais justa e humana, terá valido a pena sacrificar-se pelos outros, entregar-se ao seu semelhante?

Se tudo acaba na morte biológica, não precisamos de Deus. Se tudo acaba com a morte, o bem e o mal que façamos será um momento fugaz! Ao fim e ao cabo, tanto faz que apostemos no bem ou no mal. Na esteira de Nietzsche, o importante será então a nossa vontade de poder e de prazer, sem precisarmos de dar contas a ninguém, nem aos outros nem a Deus, tudo parte de nós e em nós tudo acaba!

 

2 – A fé em Deus exige a fé na eternidade! Um Deus limitado no antes ou no depois não seria de todo, assim o entendemos racional e filosoficamente, Deus. As grandes religiões apoiam-se na certeza que Deus é poderoso e omnipotente, pré-existente a tudo, garantia da existência presente, e pós-existente a tudo. Se nos relacionamos com a divindade, numa perspetiva amorosa, é expectável que contemos perdurar com Ele, para sempre. É a consequência natural de quem ama: que a relação não seja bloqueada por nada, mas se cristalize, renovando-se constantemente, para que permaneça. "O amor é fidelidade no tempo" (Bento XVI).

Jesus é perentório, Deus «não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos», como, aliás, o dá a entender Moisés no episódio da sarça-ardente, ao chamar o Senhor "Deus de Abraão, de Issac e de Jacob".

Ao longo da Sua vida pública, Jesus depara-se com as multidões que O seguem por diferentes motivações, com os discípulos que a Ele vão aderindo, passando do anonimato para um grupo visível e reconhecível, com grupos sociais e religiosos como os doutores da Lei, fariseus, saduceus, herodianos e que, em em alguns momentos, se unem para O provocarem e Lhe armarem alguma cilada.

Aproximam-se d'Ele alguns saduceus e perguntam-Lhe acerca da ressurreição em que não acreditam: «Mestre, Moisés deixou-nos escrito: ‘Se morrer a alguém um irmão, que deixe mulher, mas sem filhos, esse homem deve casar com a viúva, para dar descendência a seu irmão’. Ora havia sete irmãos. O primeiro casou-se e morreu sem filhos. O segundo e depois o terceiro desposaram a viúva; e o mesmo sucedeu aos sete, que morreram e não deixaram filhos. Por fim, morreu também a mulher. De qual destes será ela esposa na ressurreição, uma vez que os sete a tiveram por mulher?».

Partindo da Lei e da realidade, efémera e passageira, os saduceus interrogam-se como será possível conjugar as situações concretas do tempo presente, com a vida futura, na ressurreição, pressupondo que será continuação do que se vive agora!

Na resposta, Jesus separa as águas: «Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. Mas aqueles que forem dignos de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento. Na verdade, já não podem morrer, pois são como os Anjos, e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus».

 

3 – Na primeira leitura, do segundo Livro de Macabeus, são-nos apresentados sete irmãos, juntamente com a sua Mãe, que os anima na fé e lhes garante que Deus não os desamparará nem agora nem na vida futura, compensando-os pela justiça, pela fé e pela verdade com que viveram.

Nesta passagem, o autor sagrado, mais em estilo de pregador do que historiador, ainda que as duas dimensões estejam presentes, desenvolve, como nenhum outro escrito do Antigo Testamento, a fé na ressurreição dos mortos, sobretudo dos justos que ressuscitarão para a vida eterna. Está patente a recompensa dos justos, as sanções além-túmulo, a oração pelos defuntos (acreditando precisamente que "sobrevivem" à morte), o mérito dos justos/santos, a intercessão dos santos. É um texto que nos aproxima do Evangelho. Nesta perspetiva encontramos outros textos veterotestamentários como Isaías, Job, Ezequiel ou Daniel, mas nenhum tão clarividente como este segundo livro de Macabeus.

Os judeus vivem sob o jugo do rei sírio, século II e I antes de Cristo, e as dificuldades de convivência religiosa tornam-se complexas, ganhando a intolerância e o fundamentalismo. Os judeus são obrigados a renunciar às práticas religiosas, sujeitando-se, caso não cumpram, a ser mortos. Estes sete irmãos, fortalecidos pelas palavras e pelo exemplo de sua mãe, resistem à chantagem e à ameaça.

As respostas dos irmãos são elucidativas: «Estamos prontos para morrer, antes que violar a lei de nossos pais... o Rei do universo ressuscitar-nos-á para a vida eterna, se morrermos fiéis às suas leis... Do Céu recebi estes membros e é por causa das suas leis que os desprezo, pois do Céu espero recebê-los de novo... Vale a pena morrermos às mãos dos homens, quando temos a esperança em Deus de que Ele nos ressuscitará; mas tu, ó rei, não ressuscitarás para a vida».

Diz-nos o autor sagrado que o próprio rei estava admirado com a coragem destes jovens. A coragem vem-lhes da fé, da certeza que Deus não os abandonará na morte.

 

4 – A fé na ressurreição, a esperança na vida eterna, não se fixa no depois da morte, mas no caminho a percorrer na história e no tempo. Isso mesmo se depreende do questionamento feito a Jesus e das respostas dadas pelos sete irmãos ao Rei sírio, mostrando que a vida em Deus é um continuum entre o tempo atual e o futuro. A salvação é dom de Deus, mas necessita, sempre, do nosso assentimento, da nossa adesão à Sua vida e à Sua vontade. Jesus clarifica a novidade da eternidade, mas liga esta à postura em vida: os que forem achados dignos, isto é, os que procuraram manter-se fiéis à vontade do Pai.

O embate com as situações reais e concretas, sobretudo com as adversidades, nem sempre é fácil, pelo sofrimento ou pelas dúvidas que provoca, ou até mesmo pela incerteza, em tantos momentos, que estejamos a fazer o que é certo. Nestes momentos a nossa oração terá que ser mais diligente e persistente. A Eucaristia, oração por excelência, que nos faz acolher Jesus Cristo, Palavra viva, mistério de morte e ressurreição, Corpo que Se faz comunhão e vida, traz-nos momentos específicos para a oração, orações dentro da oração. A começar: «Deus eterno e misericordioso, afastai de nós toda a adversidade, para que, sem obstáculos do corpo ou do espírito, possamos livremente cumprir a vossa vontade».

Ao respondermos à Palavra de Deus, com o salmo, o compromisso com o que pedimos a Deus. «Ouvi, Senhor, uma causa justa, atendei a minha súplica. Escutai a minha oração, feita com sinceridade. Firmai os meus passos nas vossas veredas, para que não vacilem os meus pés. Eu Vos invoco, ó Deus, respondei-me, ouvi e escutai as minhas palavras. Protegei-me à sombra das vossas asas, longe dos ímpios que me fazem violência. Senhor, mereça eu contemplar a vossa face e ao despertar saciar-me com a vossa imagem».

 

5 – O Apóstolo São Paulo, na segunda leitura, escreve-nos (quase) em forma de oração, de intercessão por nós a Deus. "Jesus Cristo, nosso Senhor, e Deus, nosso Pai, que nos amou e nos deu, pela sua graça, eterna consolação e feliz esperança, confortem os vossos corações e os tornem firmes em toda a espécie de boas obras e palavras".

À oração que faz por nós, e que lembra o Papa Francisco em muitas intervenções, o Apóstolo junta o pedido de oração para que o seu ministério seja profícuo: "Orai por nós, para que a palavra do Senhor se propague rapidamente e seja glorificada, como acontece no meio de vós". E logo nos recorda da fidelidade de Deus, ainda que sejamos infiéis. "Ele vos dará firmeza e vos guardará do Maligno. O Senhor dirija os vossos corações, para que amem a Deus e aguardem a Cristo com perseverança".

 

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): 2 Mac 7, 1-2. 9-14; Sl 16 (17); 2 Tes 2, 16 – 3, 5; Lc 20, 27-38.


terça-feira, 8 de outubro de 2019

Paróquia de Pinheiros | Santa Eufémia 2019

A Romaria e Festa de Santa Eufémia de Pinheiros é a maior festa do concelho popular, nesta perpetiva de romaria. A adesão das pessoas às festas tem muito a ver com as iniciativas ou os grupos de música contratados. A Festa de Pinheiros, para lá desse dimensão muito musical e festiva, tem a devoção à Santa Eufémia que, a 16 de setembro, junta pessoas oriundas de todo o concelho, mas também dos concelhos limítrofes, de Armamar e de Moimenta da Beira. Continua a haver pessoas que vêm a Pinheiros a pé, rezam, confessam-se, participam na santa Missa e na Procissão, cumprem as suas promessas, fazem os seus pedidos...
Belíssima música que acompanha este videoporama: DABAR - Faz-te ao largo.