sábado, 28 de janeiro de 2017

Domingo IV do Tempo Comum - ano A - 29 de janeiro

       1 – “Só sei que nada sei”. Célebre aforismo do não menos célebre filósofo grego Sócrates. Quanto mais sei, mais sei que nada sei. Partir do pressuposto que estamos a caminho, predispõe-nos a aprender, a descobrir; o que sabemos, por mais que nos pareça, é sempre muito pouco para aquilo que não conhecemos ou para aquilo que podemos aprender. É chamada a dúvida metódica. A dúvida como método de procurar, de não se satisfazer com o aprendido, de não desistir de conhecer e saber mais.
       A fé e a confiança em Deus implicam-nos a buscá-l'O sempre mais. Em Jesus, Deus revela-Se em plenitude, mas continua a ser mistério que nos salva, nos redime e sobre o qual não temos controlo. É como areia nas mãos, temos que as manter um tanto ou quanto abertas, se as fechamos a areia esvai-se. A fé não responde a todas as perguntas e não resolve todas as dificuldades. Muitas vezes, mais que resposta, a fé é pergunta, questionamento, é caminho. É o vislumbre de luz que nos ajuda a atravessar as trevas. Se Jesus vai connosco tudo é mais fácil. Pode acontecer-nos, como Maria e José, quando subiram com Jesus ao Templo, por ocasião do seu 12.º aniversário, que no caminho percebamos que Ele não segue connosco. Nessa ocasião é preciso a pobreza, a humildade e o desprendimento para refazer o caminho, voltar a atrás até encontrar Jesus. A fé é graça, é dom, mas não é um dado adquirido ou uma conquista definitiva. "Deus não mora na superfície" (Tomáš Halík). Tantas as situações em que Deus não é fácil. A fé não é fácil quando a vida é difícil, injusta, contraditória, incompreensível.
       Importa não desistir de procurar. O caminho faz-se caminhando. Há que perceber que quando nos enchemos de nós, esvaziamos a presença dos outros, impedimos que Ele nos preencha e dê sentido à nossa vida. A arrogância, a prepotência, a presunção distanciam-nos da verdade, bloqueiam o caminho, estupidificam a vida.
       2 – As Bem-Aventuranças constituem uma das páginas mais belas, mais conhecidas e refletidas do Evangelho. São uma espécie de Evangelho em miniatura, pois nelas está contido o essencial da mensagem de Jesus. Ele que era rico fez-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza, com o Seu amor, com a Sua vida. N'Ele tudo nos fala de Deus, as palavras, os gestos, os encontros. O serviço, a compaixão, a ternura, o perdão. Jesus está onde pulsa a vida. Faz-Se um de nós, um connosco. Com Ele ninguém está a mais. Com Ele, as margens tendem a fluir para o centro e a encontrar o caminho!
       Bem-aventurados os pobres em espírito, os humildes, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz, os que sofrem perseguição por amor da justiça... porque deles é o reino dos Céus... Este não está sujeito à usurpação pelo dinheiro, pela violência, pelo poder. É dom de Deus. O mundo constrói-se pelo amor, pelo serviço, pela persistência, pela justiça e pela verdade. É daqueles que não desistem de fazer o bem, de procurar o melhor para todos, de darem as mãos e o coração e construírem pontes. O reino de Deus é daqueles que não se deixam abater pela maledicência, pela perseguição, pelo poder e respondem com bondade, com serviço e docilidade.
       Desengane-se quem pense que Jesus sanciona, aqui ou em qualquer lugar do evangelho, a miséria ou as injustiças. Pelo contrário, também aqui lança um forte grito de denúncia para quem humilha, violenta, agride, pois deles não será o Reino dos Céus. Este é precisamente para aqueles que o constroem pela paciência, pela compaixão, pela humildade, pela abertura aos outros e a Deus.
       Entre os chefes das nações, a disputa sobre quem é o maior e tem mais poder. Não seja assim entre vós. Quem entre vós quiser ser o maior seja o servo de todos. Eu não vim para ser servido mas para servir e dar a vida por todos. O que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos é a Mim que o fazeis. Os pobres, os injustiçados, os que vivem à margem (uns porque se autoexcluíram, outros porque foram excluídos), são um desafio à compaixão. Para O imitarmos, para O seguirmos, não podemos passar ao largo e manter-nos à distância, alheados dos sofrimentos dos nossos irmãos, prostrados pela vida, como o sacerdote e o levita da parábola do bom samaritano, cuja identidade pátria e religiosa não são empecilho para se aproximar, para ver, para cuidar, para garantir a vida daquele homem que foi assaltado, agredido, roubado e deixado quase morto. Somos responsáveis uns pelos outros, desde sempre, em todas as situações. Deus perguntar-nos-á pelos nossos irmãos, como perguntou a Caim sobre o seu irmão Abel. Pedir-nos-á contas pelo destino dos outros. 
       3 – O profeta Sofonias aponta para o Senhor Deus, para o Seu proceder, para os Seus mandamentos., desafiando sobretudo os humildes a procurarem a justiça e a humildade. A vontade de Deus é clara: «o resto de Israel não voltará a cometer injustiças, não tornará a dizer mentiras, nem mais se encontrará na sua boca uma língua enganadora».
       A lógica das bem-aventuranças já está presente na primeira leitura. O reino de Deus, o resto de Israel, será dos pobres e dos humildes, daqueles que buscam e se comprometem a construir, com Deus, um povo justo, verdadeiro e humilde.
       4 – Fiz-me tudo para todos, para ganhar alguns para Cristo. Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. Para mim viver é Cristo. São expressões bem conhecidas do Apóstolo por excelência. Paulo, aguerrido perseguidor, torna-se um fervoroso seguidor. Há muito que estava muito perto de Jesus. Tão perto que nem se apercebeu que já O respirava, já vivia em função d'Ele e dos Seus feitos, das Sua manifestações e da obra que ia Ele realizando através dos apóstolos. Percebeu que segui-l'O era a sua salvação e a razão maior para a sua vida.
       Não pensemos que Paulo era uma pessoa de trato fácil. Manteve sempre um espírito combativo, orientado para Cristo, mas não deixando de agitar as águas, respondendo, contraponto, oportuna e inoportunamente anunciando o Evangelho. Nem a prisão o silenciou. Quando não pela presença ou pela voz, pelas cartas e pelos emissários que envia às diversas comunidades. Percebe-se que alguns dos seus companheiros são mais diplomáticos e tentam apaziguar conflitos e dissensões. Tem uma personalidade forte, mas deixa-se moldar pelo Evangelho.
       Nesta missiva aos Coríntios, vê-se bem a insistência e a persistência do Apóstolo e o seu espírito guerreiro. Dentro da comunidade havia partidários de Pedro e de Paulo, de Apolo e de Cristo, como víamos na semana passada. O Apóstolo relembra-lhes que não há nada além de Cristo. Desta feita, mostra à saciedade que Deus Se revela prevalentemente nos humildes e nos simples. «Não há muitos sábios, naturalmente falando, nem muitos influentes, nem muitos bem-nascidos». Com esta constatação, Paulo sublinha a missão daqueles que procuram viver o Evangelho com simplicidade de coração, dizendo claramente que «Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo para confundir os sábios; escolheu o que é fraco, para confundir o forte; escolheu o que é vil e desprezível, o que nada vale aos olhos do mundo, para reduzir a nada aquilo que vale, a fim de que nenhuma criatura se possa gloriar diante de Deus. É por Ele que vós estais em Cristo Jesus, o qual Se tornou para nós sabedoria de Deus, justiça, santidade e redenção».
       São Paulo conclui exortando: «Quem se gloria deve gloriar-se no Senhor». O discípulo missionário não se comunica, comunica Cristo. Não deve, por conseguinte, fazer sombra, procurando exibir os seus dotes de linguagem ou de poder, mas há de transparecer Jesus, pela humildade, pela verdade e pela compaixão.
       No final podemos sair maltratados, odiados e perseguidos, mas certos que essa não será a última palavra da vida. Jesus segue connosco e anima-nos a prosseguir. «Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (A): Sof 2, 3; 3, 12-13; Sl 145 (146); 1 Cor 1, 26-31;Mt 5, 1-12a.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

GJT na Oração pela Unidade dos Cristãos - 2017

       O Grupo de Jovens da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Tabuaço marcou presença, mais uma vez, no momento de oração, proposto pelos jovens da Paróquia de Santa Maria de Almacave, e sob o patrocínio do Departamento Diocesano da Pastoral dos, em concordância com o Serviço Diocesano do Diálogo Ecuménico e Inter-Religioso, no passado dia 21 de janeiro, em plena Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos.
       Num formato habitual, ao jeito da comunidade de Taizé, com textos, orações, silêncios, gestos, para conjuntamente rezarmos e refletirmos, procurando a harmonia e a unidade, não apenas entre Igrejas cristãs, mas dentro da Igreja católica, nas comunidades e nos grupos.

       Algumas fotos desta iniciativa:
Para outras fotos visitar a Paróquia de Tabuaço no Facebook.

Haverá dias para fazer o bem?

       Jesus entrou de novo na sinagoga, onde estava um homem com uma das mãos atrofiada. Os fariseus observavam Jesus para verem se Ele ia curá-lo ao sábado e poderem assim acusá-l’O. Jesus disse ao homem que tinha a mão atrofiada: «Levanta-te e vem aqui para o meio». Depois perguntou-lhes: «Será permitido ao sábado fazer bem ou fazer mal, salvar a vida ou tirá-la?». Mas eles ficaram calados. Então, olhando-os com indignação e entristecido com a dureza dos seus corações, disse ao homem: «Estende a mão». Ele estendeu-a e a mão ficou curada. Os fariseus, porém, logo que saíram dali, reuniram-se com os herodianos para deliberarem como haviam de acabar com Ele (Mc 3, 1-6).
Para fazer o bem todos os dias são bons. Para fazer o mal nenhum dia deveria ser utilizado.
Esta é a mensagem de Jesus, ontem como hoje. Para os fariseus e outros que mais, o mais importante é garantir o cumprimento escrupuloso da lei. A lei, e neste concreto a Lei de Moisés, não pode ser usada para impedir o bem, para o não-compromisso. Antes da Lei e para lá da Lei estão as pessoas que Deus ama. Para Jesus, o fundamental é atender à pessoa, estar ao seu serviço e fazer o que está ao seu alcance para proporcionar bem-estar, paz, e saúde. Jesus testemunha a atenção de Deus às pessoas de carne e osso e neste gesto a certeza que Deus continua a agir no mundo. No sinal da cura, a certeza que Deus nos ama e nos quer bem.Assim com Jesus. Assim há de ser connosco.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Domingo III do Tempo Comum - ano A - 22 de janeiro

       1 – O ser humano aspira a ser cada vez melhor, a possuir cada vez mais, a ter um controlo maior sobre a sua vida! "O homem ultrapassa infinitamente o homem" (Blaise Pascal). Está inscrito no coração de cada homem a adaptação à realidade que o circunda, desde que nasce, e a superar as dificuldades que o tolhem, a não estacionar numa fase da vida, a procurar superar-se a si mesmo, aprendendo mais, procurando novas ferramentas para facilitar a sua vida e a daqueles que lhe são próximos. Subentende-se a generosidade intrínseca do ser humano. O ser humano é naturalmente bom, a sociedade é que o corrompe (Jean-Jacques Rousseau). Sublinhe-se que esta é só meia verdade, já que a sociedade influi na pessoa e a pessoa influencia a sociedade em cada tempo.
       Este superar-se e procurar ultrapassar os limites, criando, inovando, desenvolvendo, de maneira a que nem o corpo nem o espírito paralisem este desejo, esta vontade de transformar o mundo, de superar os condicionamentos do tempo e do espaço, para viver mais tempo, para estar em todo o lado, acompanha-nos durante toda a vida.
       A conversão, recorrente no Evangelho, traduz este anseio do ser humano em ultrapassar as dificuldades, sem as contornar, mas assumindo-as, carregando-as, não como fardo, mas como experiência motivadora que nos fortalece e enriquece. O arrependimento, para crer no Evangelho, é o vínculo à humanização da sociedade. Não basta querer mais. É urgente que o mais que se quer seja partilha, que o trabalho e o génio sejam dom e tarefa, acolhendo o amor de Deus e espalhando-o por todos, em tudo o que se diz e em tudo o que se faz. E, desta forma, esta vontade em “ser mais” deverá ser sobretudo da ordem do ser e menos da ordem do ter. É o SER que nos humaniza, é o ser que nos coloca em relação com os outros. Antes, o SER de Deus vem até nós e Se relaciona connosco, remetendo a nossa relação com os outros para esta relação primeira e fontal (Deus é a fonte, é Ele que toma a iniciativa de nos criar e de nos salvar), purificando-a de qualquer instrumentalização ou idolatria.
       2 – O ministério de Jesus e de João Batista não se contrapõe nem se justapõe. A mensagem de Jesus não recusa nem anula a mensagem de João, mas também não é sequencial. Entrelaçam-se. João prepara, dulcifica as mentes e os corações, adverte, desafia à conversão e à mudança de vida, para que um olhar renovado possa ver e reconhecer Aquele que há de vir da parte de Deus. Se o olhar é turvo, embaciado, não perceberá a presença de Deus no mundo e na história.
       Jesus é novidade, pois é MAIS que o Messias esperado, o Rei prometido ou um qualquer Profeta. É o próprio filho de Deus, Deus connosco. Irrompe no tempo, para ser Um de nós. Vêm de Deus, é Filho de Deus, para nascer e crescer como filho do Homem e para caminhar connosco, confundindo-Se, propondo a Sua mensagem de amor e de perdão, convocando-nos, pelas palavras e pelos gestos, a vivermos como Ele, com compaixão e ternura, em lógica de serviço para gastarmos a vida inteira a favor dos outros.
       Jesus não faz tudo sozinho! Deus é Pai e Filho e Espírito Santo. É comunidade de vida e de amor, em Quem não há divisão nem contraposição nem confusão, em Quem o amor circula como a seiva pelas vides ou o sangue pelas veias. É esta comunidade que Jesus vem inaugurar na terra. N'Ele enxerta-se uma vida nova, novos céus e nova terra. D'Ele dimana, como rios de água a brotar da fonte, uma vida nova, de verdade e bênção, de alegria e justiça, de amor misericordioso. A vida divina que chega a nós, por Jesus Cristo, é um projeto que nos impele à imitação, a vivermos do mesmo jeito, deixando que seja o amor a circular nas nossas veias, no nosso olhar, no nosso coração, na nossa vida. Mais, a vida divina, em Jesus Cristo, já está entrelaçada na vida humana. A comunidade que somos chamados a formar já tem vida onde se agarrar, para crescer, já tem onde afundar as suas raízes.
       3 – Ao ser batizado por João no rio Jordão, como víamos na semana passada, Jesus assume publicamente a Sua missão de anunciar o Evangelho. Porém, segundo nos revela São Marcos, só depois da prisão de João Batista é que Jesus altera em definitivo e mais claramente a sua ação, retirando-Se para a Galileia. Deixa Nazaré e vai viver em Cafarnaum, terra à beira-mar. Se por um lado, a missão de Jesus não se sobrepõe à de João Batista, por outro lado, insere-se na mesma história da salvação. O elemento novo, que marca uma rutura de qualidade, é o facto de Jesus ser o Profeta por excelência, o próprio Filho do Deus Altíssimo, levando à plenitude o tempo e a história, inaugurando, em definitivo, um reino para Deus. «O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam na sombria região da morte, uma luz se levantou».
       Estas palavras ainda cheiram a Natal. «Multiplicastes a sua alegria, aumentastes o seu contentamento. Rejubilam na vossa presença, como os que se alegram no tempo da colheita, como exultam os que repartem despojos. Vós quebrastes, como no dia de Madiã, o jugo que pesava sobre o povo, o madeiro que ele tinha sobre os ombros e o bastão do opressor».
       Jesus é a luz que nos liberta de tudo o que nos oprime, inunda as trevas com a Sua presença, revitaliza os ossos ressequidos e potencia os sonhos de um mundo melhor, mais humano, mais fraterno.
       Conta comigo e contigo. Conta connosco. Não faz nada sozinho. Não Se impõe a partir do alto. Não emite uma ordem mantendo-Se à distância. Não há n'Ele traços de sobranceria. Abaixa-Se. Coloca-Se ao meu nível, ao teu nível. Faz-Se do nosso tamanho. E, por conseguinte, nos chama, nos desafia e nos envia. «Vinde e segui-Me e farei de vós pescadores de homens».
       Simão Pedro e André, João e Tiago escutam o Seu chamamento e deixam as redes, deixam o que estavam a fazer para se tornarem, com Ele, pescadores de homens. Logo O seguem no anúncio do Evangelho, pela Galileia, proclamando a salvação, curando as enfermidades e as doenças entre o povo.
       E nós, como respondemos ao chamamento de Jesus? Largamos as redes e as amarras que nos prendem aos preconceitos, ao conforto, ao nosso cantinho? Ou tornamo-nos discípulos missionários, acolhendo Jesus em todas as circunstâncias e levando-O a todos?

       4 – João Batista deixa-nos como herança a humildade e o apontar para Jesus. Como Precursor toma consciência que prepara o caminho do Senhor. Ganhou fama, arrastou centenas de pessoas ao deserto e ao Jordão, batizou o próprio Jesus, mas no final soube que a (sua) Voz tinha que dar lugar à Palavra (Jesus), e o deserto (onde prega) convida a entrar na Terra prometida (que para nós é Jesus): A sua missão cumpre-se ao mostrar o Messias de Deus. Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Sobre Ele desceu o Espírito Santo, Ele é mais forte do que eu, Ele batiza no fogo e no Espírito Santo. Os próprios discípulos de João compreendem este testemunho e seguem Jesus.
       O Apóstolo São Paulo, dirigindo-se à comunidade de Corinto, sublinha a primazia de Jesus Cristo. Uma primazia totalizante. Vem primeiro. É o fundador. Mas é também a referência e a meta de toda a evangelização. Poderá haver no meio de vós, diz o Apóstolo, alguns mais afetos a Pedro, a Apolo, a Paulo ou a Cristo, mas há um só Deus, que é Pai e que Se manifesta em plenitude no Seu Filho, Jesus Cristo, pelo Espírito Santo. Se a fé é a mesma, se o batismo é o mesmo, se Deus é Pai de todos, e todos somos irmãos em Cristo Jesus, não faz sentido haver contendas e ruturas. «Rogo-vos, pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma linguagem e que não haja divisões entre vós, permanecendo bem unidos, no mesmo pensar e no mesmo agir». Todos recebeste o mesmo batismo de Jesus.
       Como João batista, como São Paulo, o cristão é discípulo missionário de Jesus, acolhendo-O, vivendo-O, testemunhando-O e anunciando o Seu Evangelho a toda a criatura, em toda a parte, em todo o tempo.


Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (A): Is 8, 23b – 9, 3 (9, 1-4); Sl 26 (27); 1 Cor 1, 10-13. 17; Mt 4, 12-23.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Aniversário da Ordenação Episcopal de D. Jacinto

       D. Jacinto Tomaz de Carvalho Botelho, natural de Moimenta da Beira (Prados de Cima - Vila da Rua), nasceu em 11 de Setembro de 1935.
       Entrou para o Seminário de Resende em 1946 e foi ordenado, no dia 15 de agosto de 1958, ano em que morreu o Papa Pio XII. Celebrou os 50 anos de Sacerdócio no dia 15 de agosto de 2008. Depois da Ordenação foi estudar para Roma.
       Concluídos os estudos em História da Igreja, regressou à Diocese de Lamego, concretamente ao Seminário Maior, sendo professor e integrando-se na Equipa Formadora, vindo a assumir a responsabilidade do Seminário. Entretanto, assumiu outras missões, como Vigário Geral Adjunto e Vigário Geral da Diocese. Durante algum tempo foi pároco de Sande (Lamego).
       Foi nomeado Bispo Auxiliar de Braga e a sua ordenação Episcopal, na Sé Catedral de Lamego, foi no dia 20 de janeiro de 1996, dia de São Sebastião, Padroeiro de Lamego.
       Depois da morte de D. Américo Couto de Oliveira, Bispo antecessor, viria a assumir a responsabilidade da Diocese, tomando posse no dia 19 de março de 2000. No dia 8 de julho de 2000, seria ordenado o primeiro padre, na Diocese, pelas suas mãos, e que é o Pároco de Tabuaço, Pe. Manuel Gonçalves.
       Atualmente a residir na cidade de Lamego, é Bispo Emérito deste nossa Diocese, desde o dia 29 de janeiro de 012, dia da tomada de posse de D. António Couto, como Bispo de Lamego.
       Parabéns D. Jacinto e que a Senhora dos Remédios, a Senhora da Lapa, a Senhora da Conceição, a Senhora da Assunção, a Mãe de Jesus Cristo, continue a velar pelo seu ministério sacerdotal e episcopal.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Domingo II do Tempo Comum - ano A - 15 de janeiro

       1 – Um Paraíso! Onde? Quando? Alguém ainda se lembra de um mundo em paz, a viver em harmonia? Olhando para trás vemos lutas, guerras, genocídios, fratricídios, violência, escravização. Olhando para os lados, vemos agressões, corrupção, egoísmos que degeneram em ódios e vinganças, em invejas que destroem, assassinam, oprimem, agridem. Olhando para o futuro, com estes olhos que a terra há de comer, o que lá vem parece mais do mesmo: a violência que hoje semeamos dará fruto amanhã com mais violência, destruição, implosão da natureza, com a desflorestação, excesso de consumo e utilização abusiva de matérias-primas, novas formas de escravização, de exploração no trabalho, tráfico de pessoas, predomínio dos mais fortes (os que têm maior poder económico e militar) sobre os mais pobres (pessoas ou povos).
       Há 2.000 anos a ESPERANÇA ganhou um ROSTO: Jesus Cristo, Deus connosco, mensageiro da Paz, profeta da alegria, Messias da caridade, conselheiro da bênção, ELO da fraternidade. Em Jesus, Deus faz-Se um de nós para nos transformar a partir de dentro. Não pela imposição, pelo poder, pela força, mas pelo amor, pela docilidade.
       Naqueles dias, o mundo viu uma nova LUZ, já não intermitente, bruxuleante, mas a LUZ que não se apaga, mesmo que a possamos abafar. Não se apaga pois vem de Deus, vem da eternidade. João Batista testemunha e aponta para esta luz, para este homem como Alguém que pode mudar a história, porque é o "Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo". E João explica porque vê n'Ele a salvação de Deus: «Eu vi o Espírito Santo descer do Céu como uma pomba e permanecer sobre Ele. Eu não O conhecia, mas quem me enviou na batizar na água é que me disse: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e permanecer é que batiza no Espírito Santo’. Ora, eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus».
       2 – Jesus não é mais um profeta, ou um vendedor de sonhos ou um ilusionista! É o Filho de Deus. Vem de longe, da eternidade, faz-Se próximo, tão próximo que é um de nós, confundindo-Se, misturando-Se, escondendo-Se na humanidade! Por outro lado, revela-Se, mostra-Se, está ao alcance da nossa mão! Podemos vê-l'O, segui-l'O, amá-l'O, podemos persegui-l'O ou até matá-l'O!
       Anuncia e inaugura um reino novo, inclusivo, um reino tão grande que tem lugar para todos. Não há ninguém a mais. Ninguém é dispensável. Ele quer salvar-nos a todos. É um reino diferente de todos os reinos terrenos, ainda que enxertado na terra, na humanidade, mas com ligações seguras ao Céu, a Deus. As portas da eternidade são escancaradas por Jesus Cristo.
       Governa-nos pelo serviço, pela humildade, pela obediência.
       Jesus lembra aos seus discípulos que os chefes das nações discutem lugares e impõem-se pela força, pelo poder. Ao invés, o poder de Jesus e dos Seus discípulos assenta no serviço dócil e atento. Entre vós quem quiser se o maior seja o servo de todos, quem quiser ser o primeiro seja o último. Eu não vim para ser servido, mas como Aquele que serve e dá a vida por todos.
       «De mim está escrito no livro da Lei que faça a vossa vontade. Assim o quero, ó meu Deus, a vossa lei está no meu coração». Jesus vive na obediência filial e ensina-nos a percorrer o mesmo caminho. Obedecer significa escutar com atenção. Quem escuta com o coração, perscruta a vida do outro, com as suas necessidades e anseios. A lei de Jesus é o amor, que escuta, que acolhe, que envolve. O Seu alimento é fazer a vontade do Pai. Responde com amor ao amor do Pai. Obedecer é escutar. Escutar é estar atento e disponível para acolher o outro. Obedecer e escutar levam a amar e a servir. É a missão de Jesus e o propósito e caminho do cristão.
       3 – Isaías visualiza e antecipa a missão do Messias, através de Quem se manifestará a Israel a glória de Deus. Mas não somente a Israel, às nações de toda a terra. O Servo de Deus há de tornar-se guia e luz: «Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra».
       O povo eleito é zeloso da sua Aliança com Deus. Porém, as páginas do Antigo Testamento mostram com clarividência que a salvação de Deus não está confinada a um povo, a uma região, a um grupo limitado de pessoas, mas tende a universalizar-se, a estender-se por todo o mundo, para todas as nações, para toda a humanidade. A eleição e a aliança de Deus com o Povo de Israel é instrumental, na medida em que é dirigida a Israel mas com o compromisso que se alargue a todos os povos da terra. Jesus há de clarificar esta posição dentro do povo e abrindo os horizontes aos seus discípulos: Dentro do povo, convivendo e acolhendo os marginalizados, mulheres, doentes, publicanos, pecadores. Alargando os horizontes, apresentando samaritanos nas parábolas, atendendo aos pedidos da mulher sírio-fenícia e do centurião, conversando serena e afavelmente com a Samaritana, desafiando-a a acolher a Boa Nova da salvação. Para Jesus não há fronteiras nem limitações. Todos são salváveis!
       4 – A saudação de Paulo à Igreja de Corinto envolve-nos a todos no compromisso da santidade. Dirigindo-se àquela Igreja em particular mas logo agrafando todos os que foram chamados à santidade, todos os que invocam o nome de Jesus Cristo, "Senhor deles e nosso".
       Como nos recorda o Vaticano II, avivando-nos a memória, a santidade é vocação comum para os crentes cristãos, para os seguidores de Jesus, lembrando-nos também, sintonizados com a Carta Pastoral de D. António Couto para este ano pastoral de 2016-2017 que, enquanto cristãos, devemos ser discípulos missionários, transparecendo e testemunhando Jesus Cristo, a todo o momento, em toda a parte, perante todas as pessoas.
       Jesus Cristo, filho de Deus humano, veio ao mundo para a todos salvar. É Cordeiro que tira o pecado do mundo. Morreu dando a Sua vida por nós. Ressuscitou colocando a nossa natureza humana à direita do Pai. Contudo não partiu para sempre, abandonando a barca, pelo contrário, está ainda mais presente na história e no tempo através do Seu Espírito de Amor, na Igreja e nos cristãos, nos acontecimentos e no mundo, nos Sacramentos e em todo o bem proferido e vivido. Iniciou a construção do Paraíso, um reino sem muralhas nem fronteiras, reino de serviço e de amor, de compaixão e de ternura. Confiou-nos o Seu reino e o Seu amor, para que agora sejamos nós espalhar a esperança e a paz, a alegria e a bênção. Somos construtores deste Reino novo. Todos sem exceção.

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (A): Is 49, 3. 5-6; Sl 39 (40); 1 Cor 1, 1-3; Jo 1, 29-34.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Santo Hilário de Poitiers, Bispo e Doutor da Igreja

Nota biográfica:
       Nasceu em Poitiers, no princípio do século IV. Eleito bispo da sua cidade natal cerca do ano 350, combateu valorosamente a heresia dos arianos e foi exilado pelo imperador Constâncio. Escreveu várias obras cheias de sabedoria e doutrina, para defender a fé católica e interpretar a Sagrada Escritura. Morreu no ano 367.
Oração de coleta:
       Concedei-nos, Deus todo-poderoso, a graça de conhecer e proclamar a verdadeira fé na divindade do vosso Filho, que o bispo Santo Hilário defendeu com tão admirável fortaleza e sabedoria. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Santo Hilário, bispo, sobre a Trindade

Pregando-Vos, Vos servirei

Eu estou bem consciente, Deus Pai Omnipotente, de que a Vós devo consagrar a mais importante tarefa da minha vida, de modo que todas as minhas palavras e todos os meus pensamentos falem de Vós.
O exercício da palavra que me concedestes não pode ter recompensa maior que a de Vos servir pregando-Vos, e demonstrar ao mundo que o ignora, ou ao herege que o nega, que sois Pai, isto é, o Pai do Deus Unigénito.
Embora seja esta a minha única intenção, é necessário para isso invocar o auxílio da vossa misericórdia, para que, desfraldando nós a vela da nossa confissão de fé, a enchais com o sopro do vosso Espírito e nos guieis pela rota da pregação que iniciámos. Não nos há de faltar Aquele que prometeu: Pedi e recebereis, procurai e achareis; batei à porta e abrir-se-vos-á.
Somos pobres, e por isso Vos pedimos o que nos falta; perscrutamos com esforço diligente as palavras dos vossos Profetas e Apóstolos e chamamos com insistência para que se nos abram as portas do conhecimento da verdade; mas é de Vós que depende conceder o que se pede, estar presente quando se procura, abrir a quem bate à porta.
Quando se trata de compreender as verdades que se referem a Vós, vemo-nos impedidos por um certo entorpecimento preguiçoso da nossa natureza e sentimo-nos limitados pela nossa inevitável ignorância e debilidade; mas o estudo da vossa doutrina nos dispõe para o sentido das realidades divinas e a submissão da fé nos leva a superar o nosso conhecimento natural.
Esperamos portanto que façais progredir o nosso tímido esforço inicial, que consolideis o seu desenvolvimento crescente e o leveis à união com o espírito dos Profetas e dos Apóstolos, para que compreendamos o sentido exacto das suas palavras e interpretemos o seu verdadeiro significado.
Vamos falar do que eles pregaram no sacramento: que Vós sois o Deus eterno, Pai do Unigénito Deus eterno; que só Vós sois sem nascimento; e que há um só Senhor Jesus Cristo, que de Vós procede por nascimento eterno; não afirmamos que Ele seja outro deus diverso de Vós, mas proclamamos que foi gerado de Vós que sois o único Deus; e confessamos que Ele é Deus verdadeiro, nascido de Vós que sois verdadeiro Deus e Pai.
Abri-nos, portanto, o significado autêntico das palavras, dai-nos a luz da inteligência, a perfeição da linguagem, a verdadeira fé. Fazei que sejamos capazes de exprimir a nossa fé: que Vós sois o único Deus Pai e que há um só Senhor Jesus Cristo, segundo o que nos transmitiram os Profetas e os Apóstolos. E contra os hereges que o negam, fazei que saibamos afirmar que Vós sois Deus com o Filho e que proclamemos sem erro a sua divindade.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Grupo de Jovens leva o Menino Jesus a beijar...

       Proposta do Conselho Pastoral Paroquial, o Grupo de Jovens liderou a iniciativa de visitar os doentes na quadra do Natal, levando-lhes o gesto vivido na comunidade celebrante, o Beijar do Menino. No dia 27 de dezembro, a ida ao Lar da Santa Casa da Misericórdia de Tabuaço, na solenidade da Epifania do Senhor, a ida à casa dos doentes que previamente, através de familiares ou vizinhos, fizeram chegar o seu interesse em receber este gesto e esta presença.
       A iniciativa contou com um ou outro adulto que se juntaram ao Grupo de Jovens.
       Na Eucaristia Dominical sublinha-se o gesto dos Magos, com o trajar de três Magos, que levaram as ofertas ao altar e no final distribuíram bons-bons às pessoas que passaram para Beijar o Menino. Um gesto simples, mas desafiador, convidando a ser como os Magos, prostrar-se diante de Jesus e oferecer-lhe o melhor.
       Algumas imagens deste dia:

Para ver outras imagens visite a Paróquia de Tabuaço no Facebook.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Beato Gonçalo de Amarante

Nota biográfica:
       Nasceu em Tagilde, perto de Guimarães, Portugal. Não são conhecidas com precisão as datas da sua vida. Pertenceu ao clero secular, tendo sido pároco. Depois peregrinou 14 anos para visitar os lugares santos, quer da Palestina quer de Roma. Ao regressar à sua paróquia, tendo sido recebido com ameaças e perseguições, optou por uma vida eremítica. Entrou mais tarde na Ordem dos Pregadores e, após ter acabado o tempo da sua formação na Ordem, obteve licença para voltar a Amarante, ao anterior lugar solitário, na companhia de outro irmão. Aí, até ao fim da vida, repartiu o tempo entre a contemplação das coisas divinas e a evangelização daquela zona, levando uma vida de grande ascese. Morreu em Amarante, em 1259. Clemente X permitiu, em 10 de Julho de 1671, que se rezasse a sua Missa e o seu Ofício.

Oração:
       Senhor, que manifestastes as vossas maravilhas no coração do bem-aventurado Gonçalo de Amarante, inflamado no amor do vosso nome, concedei-nos que, à sua imitação, tenhamos sempre o pensamento em Vós e façamos fervorosamente o que Vos é agradável. Por Nosso Senhor.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Epifania do Senhor - ano A - 8 de janeiro de 2017

       1 – O que é que estranhos e estrangeiros nos podem dizer que nós não saibamos? Poderão ter qualidades que não possuímos? Não nos retirarão o que é nosso, a nossa importância, a nossa vida tranquila, o nosso trabalho? Vêm para ajudar ou para complicar? Serão uma mais-valia ou um estorvo?
       No último ano a questão dos migrantes e refugiados foi amplamente discutida. Nem sempre por razões fáceis e/ou positivas. Na Europa, que mais de perto nos diz respeito, mas em todo o Ocidente cresce o preconceito, a xenofobia, o racismo. Em época de eleições, em países democráticos, ganham adeptos os partidos mais radicais (sobretudo de direita mas também de esquerda que, por serem radicais, se tocam e por vezes se confundem na contestação e na exclusão dos que chegam). Os nacionalismos, banidos ou adormecidos no pós segunda guerra mundial, estão de volta. Inglaterra fecha-se. França quer fechar fronteiras e impedir a entrada de estrangeiros. Áustria, Alemanha, Suíça e outra meia dúzia de países.
       Vivemos num mundo globalizado. A cultura enriquece-se com o contributo de outros povos, os valores e as descobertas científicas, a construção de aldeias e de cidades e dos próprios países contaram com o contributo de pessoas de outras aldeias, de outras cidades e de outros países e de outras culturas. A globalização é, sobretudo, virtual. Importam-se modas e vícios. Importa-se a vontade em ser livres e autodeterminados. Mas quando as pessoas chegam as coisas complicam-se, sobrevem o medo, o egoísmo, o preconceito. Nós portugueses temos a experiência como emigrantes, umas vezes bem recebidos, singrando, outras vezes explorados e maltratados, e como país acolhedor, umas vezes integrando, outras dificultando e maltratando quem vem à procura de melhores condições de vida.
       O Natal de Jesus quebrou as fronteiras da nacionalidade, da raça e da religião. O nascimento de Jesus celebra a inclusão, o acolhimento, universalizando a fraternidade. Deus vem para todos. Deus é Pai de todos. Jesus é irmão de todos e a todos vem salvar, judeus e gregos, homens e mulheres.
       2 – Os Magos vêm de longe. São estranhos. Estrangeiros. Vêm de toda a parte. Do fim do mundo. Trazem os corações cheios de esperança, em busca de uma Luz maior. Perdem-se em sonhos e projetos, mas não perdem o horizonte, a confiança, o desafio da vida e do futuro.
      Há oito dias, a adoração dos Pastores: homens simples, pobres, humildes. Atentos ao que se passa à sua volta, atentos à voz e à luz que vem do Céu. Homens do campo e do mundo, conhecem a terra, o céu e o tempo. Sabem quando devem conduzir o rebanho para o pasto e quando devem recolhê-lo, quando os dias são favoráveis e quando são adversos. Diante do Menino deitado numa manjedoura transbordam de alegria e de sonho. Aquele Menino é uma bênção, salvação para todo o povo.
       Hoje, a adoração dos Magos: homens da cultura e do saber, da ciência e do estudo. Sábios. Os verdadeiros sábios são aqueles que estão disponíveis para aprender mais, tendo consciência que o que sabem é pouco ou nada. Por conseguinte, o verdadeiro sábio é simples, humilde, pobre. Só os pobres compreendem os mistérios divinos... quando não compreendem confiam, esperam, buscam!
       Os Magos são pessoas que têm os olhos abertos e o coração disponível para novas surpresas que o Universo possa trazer. Leem os sinais que surgem na natureza, no céu. Quem olha demasiado para si ou para baixo, perde-se, tropeça, estupidifica. Para saber a vida é preciso olhar para o alto e para longe, sem perder o pé nem esbarrar no que está por perto. Quem conduz uma bicicleta, uma moto ou um carro, sabe que tem de olhar a distância para antecipar obstáculos, mas sem esquecer o que está à volta e à frente.
       Vêm de longe, os Magos do Oriente! Aproximam-se do mistério. Fazem um longo caminho para encontrar o Caminho. Por momentos ainda são confundidos pelo barulho da cidade, pelas luzes, pelos encantos do palácio, mas logo reconhecem que os mistérios de Deus não se confundem com aparências. Deus nem sempre é evidente. Se nos lembrarmos de Elias, Deus não está na confusão, no fausto, no barulho, está (sobretudo) na brisa, no silêncio que fala, nas palavras que calam e enchem o coração. E com os corações cheios da Luz que vem do alto prosseguem até à gruta onde Se encontra o Senhor do tempo e da história. Um Menino – frágil, pequeno, com roupas tecidas de amor e de ternura, quentinhas pela presença e preocupação de Maria e de José – que é o Deus connosco, em carne e osso!
       3 – Lições e desafios da adoração dos Magos. Olhos abertos e coração disponível para acolher as surpresas que venham do Céu, que venham de Deus. Pôr-se a caminho. Não basta saber, não basta interpretar os sinais. É preciso pôr-se em movimento. Persistir além e apesar das contrariedades. Não se deixar iludir por luzes exteriores, com muito brilho mas pouca consistência, guiar-se pelas convicções, pela Luz interior, pela Luz que vem do Céu. Ajoelhar diante do mistério de Deus, diante de Jesus e oferecer-Lhe o melhor, os tesouros mais valiosos, oferecendo-nos a nós próprios, reconhecendo-O como verdadeiro Homem, frágil como nós, verdadeiro Deus, tão poderoso que Se faz do nosso tamanho, verdadeiro Rei, que reina pela verdade, pelo bem, pelo amor. Encher-se de LUZ e de AMOR, encher-se de Jesus, e partir por novos caminhos. Nada será como dantes. Tudo será diferente. Quem viu o Céu não pode contentar-se com a terra, ou melhor, não pode contentar-se em deixar ficar tudo como antes, tem a obrigação e a missão de encher o mundo com a Luz de Jesus. Ir e anunciá-l’O a toda a criatura.
       4 – Em Jesus – Deus que Se faz Menino, que Se faz um de nós – cumprem-se as Escrituras e as promessas. Isaías, o profeta do Advento e da Quaresma, prepara, anuncia, visualiza os tempos que estão para chegar, a força e a luz que se há de manifestar, os sinais que já se vislumbram e a fidelidade de Deus à aliança, congregando pessoas e povos. Só não vê quem não quer, pois a luz chega às próprias trevas.
       "Levanta-te e resplandece, Jerusalém, porque chegou a tua luz e brilha sobre ti a glória do Senhor..." É uma luz intensa, mas também instrumental, há de iluminar os povos de toda a terra, "as nações caminharão à tua luz e os reis ao esplendor da tua aurora. Olha ao redor e vê: todos se reúnem e vêm ao teu encontro; os teus filhos vão chegar de longe e as tuas filhas são trazidas nos braços". Tanta luz que ninguém ficará indiferente. Tanta luz que até os corações mais duros cederão, libertando as trevas e deixando entrar a claridade. Tanta luz que os olhos e o coração exultarão de alegria.

       5 – São Paulo dialoga com a promessa e com o seu cumprimento. Nas gerações passadas o mistério de Cristo estava envolvo como num véu, que aos poucos se foi desvelando. Agora, nas gerações presentes, foi revelado pelo Espírito Santo aos apóstolos e aos profetas. Nas gerações passadas, a eleição e a aliança, entre Deus e o Povo de Israel. Mas como se intuía, a eleição e a bênção alargam-se a todos os povos.
       O Apóstolo conclui que "os gentios recebem a mesma herança que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho".
       Como víamos no Evangelho, o encontro com Jesus, com o mistério que vem das alturas, não depende da origem carnal, étnica, racial, mas da disponibilidade para ver, para acolher, para reconhecer, para se abrir à Luz e à Graça que irradia de Jesus e que se expande e se espalha em cada rosto, em cada vida, em cada pessoa. Em cada Menino se pode ver a Luz que vem de Deus.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (A): Is 60, 1-6; Sl 71 (72); Ef 3, 2-3a. 5-6; Mt 2, 1-12.

Marta Arrais - DESCALÇA AS TUAS FERIDAS

MARTA ARRAIS (2016). Descalça as tuas feridas. Crónicas para todos os dias. Lisboa: Paulus Editora. 136 páginas.
       Descalça as tuas feriadas é um daqueles títulos de excelência. É como a água fresca em pleno Verão, brisa suave que alivia qualquer cansaço, leitura envolvente que nos conduz ao nosso interior, ao que somos, aos dons recebidos, às forças que ainda há para gastar; leva-nos a perscrutar a vida e o sofrimento dos outros, valorizando o essencial, a vida, o amor, o serviço, a alegria. Marta Arrais é transparente, simples, acessível, profunda. Toca diversos temas e diria, toca o coração de quem a escuta (ou lê). Enternecedora, desafia, interpela, questiona, faz-nos refletir.
       Primeiro o contacto com os seus textos o sítio iMissio. Já tínhamos lido e partilhado algumas das suas reflexões. Depois o contacto com o livro. Na livraria da Diocese de Lamego, Gráfica de Lamego, peguei no livro e, como noutras ocasiões, perguntei à responsável, Paula Magalhães, se recomendava, se valia a pena. Também ela já tinha perguntado mas não lhe souberam responder. Voltei a olhar para o título, para o nome da autora e para a contracapa. E fez-se luz: acho que já li algumas reflexões, se for a autora dessas reflexões (do iMissio) então vale a pena. Vou levar. Fiquei convencido que era a autora das (tais) crónicas do iMissio e deixei a certeza à responsável que, sendo quem julgava ser, valeria bem a pena a compra e sobretudo e a leitura. E cá estou a confirmar o que então afirmei.
       É um livro que se lê bem. Algumas das crónicas podem ser lidas no sítio sugerido: iMISSIO ou também na página criada (julgo eu) para secundarizar a publicação deste livro: MARTA ARRAIS, o Barco de Sonhar. Mesmo tendo lido algumas das crónicas e podendo ler outras, prefiro ter o livro, ler, sublinhar, rever os sublinhados.
       E por falar em sublinhados, aqui ficam alguns:
"É a alegria que precisa de nos engordar! A vontade de fazer impossíveis, de gritar que não há dor que valha a pena. A tua dor não vale a pena. Vai encolher-te até deixares de saber quem és. Vai mirrar-te os horizontes e deixar-te sozinho. O colo da dor é muito frio. O da alegria. É nesse colo que deves enxugar as tuas lágrimas..."
"O amor sabe a pão acabado de sair do forno e é impossível que não queiramos empanturrar-nos dele. Mas o amor não chega se os que amamos não merecerem a nossa esperança. Merecem a nossa outra face aqueles que transformam a nossa esperança em luz e nos iluminam, boicotando todas as trevas que nos anoiteciam."
"Mas que pena. Que pena estar aqui esta sombra de gente a fazer-me pensar que um dia também poderei ficar assim. Sozinho. A beber cafés para chamar o sono. Quem mora no avesso do mundo bebe cafés para adormecer. Como quem ouve uma história de embalar. Isso de beber café para acordar é mania de gente que tem tudo. Quem não tem nada inventa novos sentidos para tudo. Até para o café"
"Somos mudados pela vida que os outros nos dão. Pela vida que os outros são para nós. A fé da Rosa não eram orações nem palavras repetidas. A fé da Rosa era a vida dela e era com a vida que a Rosa rezava (e reza) quando se sentava ao pé de mim na Eucaristia. Era a vida dela que se ajoelhava e que me ajudava, a mim, a rezar e a ser melhor.
"É tempo de colocar feridas à mostra. É tempo de deixar que o sol, que é Jesus, nos aqueça até transformar as feridas em água fresca. Costumamos ter vergonha das nossas cicatrizes porque nos lembram as nossas feridas. As cicatrizes são um grito costurado de silêncio mas, ainda assim, um grito... Não há nada que esteja mais perto da alma e da pele do que a presença de uma ferida. De um golpe. Ou do desenho que resta dele. Somos a cruz de Jesus. Somos a coroa de espinhos. Somos a humilhação, a mágoa, a tristeza, o sofrimento acabado em infinito. É tremenda esta responsabilidade. Jesus vem rezar connosco esta verdade que nos une profundamente a todos: somos as feridas de Jesus. “Tu és a minha ferida”... Nunca te esqueças que foste (e és!) tu a ferida mais querida de Jesus. Ele colocou-te no Seu colo e, do alto da Cruz ensanguentada, ofereceu-te ao Pai".
"Ser feliz é não saber onde acabamos. É não ter fim, não ter pressa, não ter nada. É apreciar profundamente essa maravilha que é não ter nada. Não te mintas. Não me venhas dizer que tens tudo o que te faz falta e que não precisas de mais um bocadinho de nada. Se pensas assim, inverte o sentido da marcha. Mas inverte agora. Porque ser feliz é nunca ter tudo. Ser feliz é querer ser tudo. É sentir que ter uma vida só é pouco para tudo o que se quer ser e fazer."
"Somos um perigo quando, de repente, deixamos de ter medo. Sentimos que nada podem contra nós, nada nos derruba, nada nos falta. Temos tudo. Podemos tudo. Cuidado. Piso escorregadio. Curva apertada à esquerda. À direita. Em todas as direções. Somos um risco e um perigo quando o nosso coração deixa de bater... Achávamos que íamos voar e caímos. Somos o maior perigo. É quando achamos que podemos tudo que podemos perder tudo. E perder-nos. Deformamos o mapa que somos e arriscamos demais. Queremos viver a vida toda num segundo. Queremos valer a pena. De uma vez só. Queremos engolir a vida de um só trago e despedaçamo-nos. Depois, lá sacudimos as lágrimas dos joelhos, atamos os arranhões com cicatrizes e dizemos como quem se quer convencer: “o que não te mata faz-te andar. Levanta-te”
Fazer o bem é fazer a única coisa que está ao nosso alcance. Estamos enganados quando achamos que o bem dá trabalho. Fazer o bem dá menos trabalho do que fazer qualquer outra coisa. Não é uma opção: é uma maneira de estar e de viver. A verdadeira e única forma de escrever o bem na nossa vida é pensar que para além de tudo o que é mau, ainda podemos fazer o bem. Apesar de todos os apesares que nos pesam, há um colo que se ilumina perante a possibilidade de fazer o bem. E sabes que colo é esse? É o teu. Quando fazes o bem, apesar de todos os tudos, o teu colo fica maior. Aparece aos olhos dos outros como uma risquinha do colo do próprio Jesus. O Bem também faz arder, sim. Faz arder os impossíveis, as lutas, as mágoas, e todas as outras palavras que rimam com a palavra triste.
Quando não puderes fazer mais nada quanto a isto ou aquilo, faz o bem.
Quando não puderes ver nada de bom, faz o bem.
Quando não puderes fazer o bem, faz melhor."

São Raimundo de Penhaforte, Presbítero

Nota biográfica:
       Nasceu pelo ano 1175 perto de Barcelona. Foi cónego da Igreja de Barcelona, entrou depois na Ordem dos Pregadores e colaborou com S. Pedro Nolasco na fundação da Ordem de Nossa Senhora das Mercês para a Redenção dos Cativos. Por ordem do Papa Gregório IX, editou a colecção das «Decretais». Eleito Geral da Ordem, governou-a com sabedoria e prudência. Entre os seus escritos, destaca-se a «Summa Casuum» para a administração recta e proveitosa do sacramento da Penitência. Morreu em 1275.

Oração de Colecta:
       Senhor, que destes a São Raimundo de Penhaforte a virtude de uma admirável misericórdia para com os pecadores e os prisioneiros, dignai-Vos, por sua intercessão, quebrar as cadeias dos nossos pecados para podermos cumprir livremente a vossa vontade. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Tu guardaste o vinho bom até agora

        Realizou-se um casamento em Caná da Galileia e estava lá a Mãe de Jesus. Jesus e os seus discípulos foram também convidados para o casamento. A certa altura faltou o vinho. Então a Mãe de Jesus disse-Lhe: «Não têm vinho». Jesus respondeu-Lhe: «Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora». Sua Mãe disse aos serventes: «Fazei tudo o que Ele vos disser». Havia ali seis talhas de pedra, destinadas à purificação dos judeus, e cada uma levava duas ou três medidas. Disse-lhes Jesus: «Enchei essas talhas de água». Eles encheram-nas até acima. Depois disse-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa». E eles levaram. Quando o chefe de mesa provou a água transformada em vinho, – ele não sabia de onde viera, pois só os serventes, que tinham tirado a água, sabiam – chamou o noivo e disse- lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, depois de os convidados terem bebido bem, serve o inferior. Mas tu guardaste o vinho bom até agora». Foi assim que, em Caná da Galileia, Jesus deu início aos seus milagres. Manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele (Jo 2, 1-11).
        Nesta semana, temos acompanhado os passos de João Baptista e de Jesus Cristo, ou melhor, a passagem de testemunho e de missão, de João para Jesus. Hoje, claramente, o Evangelho de São João coloca-nos no início da vida pública de Jesus, nas Bodas de Canaã, com a intervenção de Maria, Mãe de Jesus, que parece desencadear esse início.
       Alguns aspetos importantes a considerar.
       Primeiro: a vida de Jesus é vivida no mundo, no meio de pessoas de carne e osso. Assume a nossa fragilidade e a nossa finitude e vive entranhado na historia real e concreta, participando nos momentos importantes da família e da comunidade. Também por aqui se pode dizer que a humanidade e a história são salvas a partir do interior...
       Segundo: a intervenção de Nossa Senhora parece ser providencial. Com a resposta de Jesus parece-nos que Ele ainda não estava disposto a encetar uma mudança na sua vida. Porém, a sua hora será antecipada por Maria. Certamente que nem Jesus se sente pressionado, nem Maria força a hora de Jesus. Sublinhe-se a intercessão de Maria. Também para o nosso tempo. Ela antecipa para nos a certeza da salvação. Por outro lado, Jesus dá espaço a Maria, para que a sintamos próxima e possamos contar com a Sua intercessão.
       Terceiro: a certeza de Maria, diante dos serventes - fazei tudo o que Ele vos disser. Confiança e desafio. Confiança de Maria em Jesus. Desafio aos serventes daquele e deste tempo. Para que Deus continue a operar no mundo é necessário que nós façamos o que Ele nos disser, sabendo que é para nosso bem e para bem de todos.
       Quarto: o vinho bom está a chegar. O melhor vinho transformar-se-á no Sangue de Jesus, derramado a favor de toda a humanidade. Por ora a água é transformada em vinho. A abundância e qualidade do vinho antecipam o Banquete que Jesus está a preparar para nós, na oferta que faz de Si. Na última Ceia, deixar-nos-á um banquete que não se esgotará jamais, o pão e o vinho transformar-se-ão no Seu corpo e sangue.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

VL – Não deixeis que vos roubem a esperança

       Expressão bem conhecida do Papa Francisco, dirigida aos jovens mas extensível a todos e proferida em diferentes ocasiões. Desafios semelhantes: no deixeis que vos roubem a alegria, o sonho, a vida, o futuro. Desafios que convocam à militância, a não baixar os braços, a não desistir diante das adversidades. A referência é sempre Cristo e a alegria do Seu Evangelho. Jesus está envolvido nos momentos mais adversos: situações de pecado e sofrimento, de exclusão e injustiça. Torna-Se Ele mesmo vítima do preconceito (religioso) e do fanatismo, vítima dos interesses instalados e da recusa da novidade.
       Ao iniciarmos um novo ano civil este é um grito veemente a não nos deixarmos sucumbir pelas desgraças, pelas notícias constantes de violência gratuita, de corrupção, de abusos de poder, de tráfico de pessoas e de órgãos humanos, da sobrevalorização da economia sobre a política – economia que mata, que pensa em termos percentuais, em margens de lucro, em produtividade, menos pessoas, menos gastos, mais dinheiro, mais poder –, devastação ambiental, terrorismo, abusos sobre migrantes e refugiados.
       Na Sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz (1 de janeiro de 2017), o Papa identifica a dilaceração do mundo: violência feita «aos pedaços». Ao diagnóstico, todavia, contrapõe a esperança, lembrando que o próprio Jesus viveu em tempos de violência. Há uma batalha a travar desde logo dentro do coração humano. Com efeito, “a resposta que oferece a mensagem de Cristo é radicalmente positiva: Ele pregou incansavelmente o amor incondicional de Deus, que acolhe e perdoa, e ensinou os seus discípulos a amar os inimigos (cf. Mateus 5, 44) e a oferecer a outra face (cf. Mateus 5, 39)… Quem acolhe a Boa Nova de Jesus sabe reconhecer a violência que carrega dentro de si e deixa-se curar pela misericórdia de Deus, tornando-se assim, por sua vez, instrumento de reconciliação, como exortava São Francisco de Assis: «A paz que anunciais com os lábios, conservai-a ainda mais abundante nos vossos corações».
       Não deixeis que vos roubem a esperança. A esperança é vida. Morremos a partir do momento em que deixamos de ter esperança. Não é uma esperança vã, mas uma esperança que vem de Deus e que Se manifesta plenamente em Jesus Cristo. É aquela chama que não se apaga e mesmo que não elimine todas as trevas aponta uma direção, um caminho, é um lampejo de luz que não nos deixa desistir. A esperança não anula as dificuldades, mas dá-nos o ânimo para prosseguir lutando por um mundo mais humano.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4393, de 3 de janeiro de 2017

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

VL – Vocação universal à felicidade

       Desde a mais tenra idade que cada um de nós procura realizar-se como pessoa, chamando a atenção dos outros, primeiro dos adultos, enquanto crianças, adolescentes e jovens e, depois, sendo mais idosos, de toda a gente e especialmente dos mais novos. Precisamos de atenção, de cuidado e carinho, ao longo de toda a vida. Precisamos de ser vistos e reconhecidos e que nos tratem pelo nome próprio – a melhor música para os nossos ouvidos – e não apenas por um apelido ou por um título profissional. Queremos a atenção dos outros. Queremos sentir-nos amados, especiais, únicos. É um desejo inscrito no coração, no nosso ADN.
       Uma pessoa indisposta o tempo todo também quer sentir-se bem, também quer ser feliz. Mas por qualquer motivo, um desgosto, o feitio, ou porque só dessa forma se sente capaz de chamar a atenção dos outros, assume uma atitude de azedume ou de prepotência. No final, como dizemos dos adolescentes mais indisciplinados ou mais ativos, o que quer mesmo é chamar a atenção de alguém, ainda que o faça da pior maneira, já que destrói a amizade e os laços de proximidade.
       Como nos lembrava um professor do Seminário, não importa que falem bem ou mal de ti, importa é que falem de ti. Se falam mal já estão a dar-te importância, já contas para eles. Obviamente que quem não se sente não é filho de boa gente e ninguém quer ouvir dizer mal de si próprio. Mas entre dizerem mal e não dizerem nada…. Mais vale que digam alguma coisa!
       A felicidade que procuramos leva-nos a melhorar a nossa relação com os outros, procurando ser amados e reconhecidos. Por outras palavras, procuramos ser bem-sucedidos. Numa linguagem mais religiosa, o aperfeiçoamento da nossa vida, para nos tornarmos perfeitos como Deus Pai é perfeito. Não uma perfeição que distancia, um perfeccionismo viciante, mas uma perfeição que ama, que promove os outros, servindo-os e cuidando deles. É a vocação universal à santidade. A primeira vocação do cristão é seguir Jesus. Segui-l’O imitando-O, assimilando a Sua postura de vida, dando-Se por inteiro a favor dos outros. A santidade é transmutável com a felicidade. Daí se dizer que os santos já se encontram na bem-aventurança (= felicidade) eterna.
       A santidade não é póstuma. Póstuma apenas a declaração e o reconhecimento da santidade em vida. Com todos os que Deus colocou à nossa beira, começamos, aqui e agora, o trajeto da santidade, começamos a ser felizes, como caminho de realização que nos salva…

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4385, de 1 de novembro de 2016

VL - E tudo se renova… ressuscitando!

       As Portas da Misericórdia encerram-se mas não a Misericórdia divina. Como referiu o nosso Bispo, na Solenidade de Cristo Rei, no passado dia 20 de novembro, o encerrar das Portas recorda-nos a urgência de ir e levar a misericórdia a toda a gente, a todo o mundo.
       No Arciprestado de Moimenta da Beira-Sernancelhe-Tabuaço, a Caminhada do Advento, proposta às paróquias que o constituem, sintonizando com o plano pastoral diocesano e com a liturgia dominical, inicia com uma porta fechada, para impedir os ladrões de entrar. No decorrer da Eucaristia, a porta abre-se para que Jesus entre, deixando que Ele nasça na nossa vida. Fechamo-nos ao mal, a todo o tipo de guerra, dispomo-nos à paz, a construir, a viver as obras de misericórdia, a despertarmos do sono para saborearmos o DIA que irradia com a vinda de Cristo.
       O Advento é tempo de graça e salvação. Sendo um tempo novo, o Advento não se desfaz do que está antes, mas dá-lhe o colorido da festa que se aproxima, comprometendo-nos mais, fazendo-nos recordar a razão da nossa esperança e do nosso compromisso com os outros. Preparamo-nos para celebrar o aniversário de Jesus. Não é algo que se repita. Nada se repete na nossa vida. Cada instante conta. Cada segundo. É a minha, a tua, a nossa vida. Todos os momentos são importantes. Todos os minutos valem!
       Um ciclo finda, outro se inicia, entrelaçando-se no anterior e projetando-nos para o futuro, em espiral. Nos textos da liturgia (cf. Mt 24, 37-44), Jesus a desafia-nos à vigilância para que a Sua vinda não passe despercebida como no tempo de Noé, em que as pessoas comiam e bebiam, casavam-se e davam em casamento e só se aperceberam do dilúvio quando este chegou. Era tarde demais!
       Jesus anuncia aos seus discípulos um tempo novo que está a chegar, aproxima-se a Sua morte. Logo advirá a Sua ressurreição, inaugurando, em plenitude, um Reino novo, de paz e de misericórdia, de justiça e de amor. Naquele tempo, o mistério da Sua morte e da Sua ressurreição passou indiferente para muitos. Também nos pode passar ao lado. Não podemos deixar o tempo correr. É preciso que saboreemos a vida e nos comprometamos uns com os outros.
       Ele continua a emergir na nossa vida e a ressuscitar connosco em todo o bem que praticamos. Por ora, preparamos a celebração da Sua primeira vinda, mas em dinâmica futura. Jesus volta. Não tardará. Como nos vai encontrar? Como O vamos receber?

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4389, de 29 de novembro de 2016

VL – E tudo de renova… ressuscitando! – 2

       «Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Ficai sabendo isto: Se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a casa. Por isso, estai também preparados, porque o Filho do Homem virá na hora em que não pensais» (Mt 24, 42-44).
       O que se avizinha não tem de ser atemorizador! A salvação está ao nosso alcance, foi-nos colocada na palma da mão. Jesus viveu e morreu por nós, por mim e por ti. E, por mim e por ti, por nós, ressuscitou. Introduziu-nos na eternidade de Deus. Deixemos que nasça em nós, na nossa vida, que nasça e nos ressuscite, nos desperte para a vida abundante de graça e de misericórdia.
       Nada há a temer quando estamos preparados. Sabendo que Ele vem. Há 2.000 mil anos veio ao mundo. A Sua vinda conjuga-se agora no presente. Vem. E vem para ficar, para criar raízes. E para que n'Ele enraizemos a nossa vida. Lembremo-nos que os ramos crescem à medida que as raízes se fincam na terra. Ou, noutra imagem, a videira e a seiva que alimentam os ramos e as folhas. Quando a vida de Jesus Cristo circula em nós então a nossa vida está garantida, como promessa e como tarefa. Os sustos que apanhamos têm a ver com o facto de estarmos desprevenidos. Jesus previne-nos para estarmos preparados, para O reconhecermos e O acolhermos.
       No "Principezinho", a Raposa sublinha a alegria a crescer com o aproximar do encontro com o Principezinho quando sabe a hora do mesmo. "Teria sido preferível teres voltado à mesma hora. Se vieres, por exemplo, às quatro horas da tarde, eu, a partir das três, já começo a ser feliz. Quanto mais se aproximar a hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já estarei agitada e inquieta; descobrirei o preço da felicidade! Mas se vieres a qualquer hora, ficarei sem saber a que horas hei de vestir o meu coração..."
       Ora, Jesus diz-nos que está a chegar. Revistamo-nos de alegria e de esperança. Preparemo-nos para que não nos surpreenda distraídos. Abramos os ouvidos, os olhos, o coração, a vida por inteiro. Ele está a chegar. Não aqui ou ali. Mas em nós. Em cada pessoa que se aproxima de nós, em cada pessoa de quem nos aproximamos. Em todo o tempo! A qualquer hora!

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4391, de 13 de dezembro de 2016

VL: Queria que a Mãe morresse… para ir para o Céu – 2

       A afirmação inocente de Santa Teresinha será o seu modo de agir. É o seu desejo para consumar o encontro definitivo com Jesus Cristo. Aos 15 anos entra para o convento, por sua insistência, para viver uma vida inteiramente dedicada a Jesus, à oração, à contemplação.
       Quer ser santa. E tudo o que faz, o trabalho mais humilde, a paciência com os outros, o sofrimento em silêncio, a aceitação da zombaria por parte de outras irmãs, a oração e o tempo de recreio, em tudo procura ser agradável a Jesus Cristo, o Seu único Esposo, bem-amado, com Quem se quer em definitivo na eternidade.
       Não é caso único. Santa Teresinha tem a vida resolvida. Quer viva quer morra será para glória de Deus. Quer ir para o Céu, mas se for melhor permanecer viva, então aceita, pois dessa forma ajudar outros a encontrar-se com Jesus.
       O Apóstolo São Paulo, o maior missionário de todos os tempos, vive a mesma dualidade. A identificação a Jesus – «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim» (Gál 2, 20) – deixam-no pronto para ascender à glória de Deus Pai. Todavia, o mais importante será cumprir a vontade de Deus: “Cristo será engrandecido no meu corpo, quer pela vida quer pela morte. É que, para mim, viver é Cristo e morrer, um lucro. Se, entretanto, eu viver corporalmente, isso permitirá que dê fruto a obra que realizo. Que escolher então? Não sei. Estou pressionado dos dois lados: tenho o desejo de partir e estar com Cristo, já que isso seria muitíssimo melhor; mas continuar a viver é mais necessário por causa de vós. E é confiado nisto que eu sei que ficarei e continuarei junto de todos vós, para o progresso e a alegria da vossa fé, a fim de que a glória, que tendes em Cristo Jesus por meio de mim, aumente com a minha presença de novo junto de vós” (Fil 1, 19-26).
       Noutra missiva, o Apóstolo reafirma o mesmo dilema: “Permanecendo neste corpo, vivemos exilados, longe do Senhor, pois caminhamos pela fé e não pela visão... Cheios dessa confiança, preferimos exilar-nos do corpo, para irmos morar junto do Senhor. Por isso também, quer permaneçamos na nossa morada, quer a deixemos, esforçamo-nos por lhe agradar” (2 Cor 6-9). 
       Mas outros santos tinham o mesmo desejo e o mesmo compromisso. Santa Fustina de Kowalska, Santo Inácio de Antioquia, Santa Eufémia de Calcedónia… Viver u morrer para glória e louvor de Deus Pai!

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4387, de 15 de novembro de 2016

VL: Queria que a Mãe morresse… para ir para o Céu – 1

       No Arciprestado de Moimenta da Beira – Sernancelhe - Tabuaço, procurando responder ao Plano Pastoral da Diocese de Lamego, sob o lema “Ide e anunciai o Evangelho a toda a criatura” (Mc 16, 15), proposto, fundamentado e refletido por D. António Couto na Carta Pastoral dirigida a toda a Diocese, acolhemos uma iniciativa pastoral – “Um santo missionário por mês”.
       No Jubileu da Misericórdia havia um conjunto de santos mais ligados, pelas palavras e pelos gestos, à misericórdia e que nos ajudavam a viver a fé e a vida sob o prisma da misericórdia, da compaixão e da ternura, testemunhando e transparecendo a misericórdia divina. Quando nos centramos numa dinâmica missionária, como tem sido ao longo dos últimos anos na nossa Diocese, com a referência e convite permanentes “Ide”, há santos cuja vida visualiza a pressa em levar o Evangelho a toda a parte, a todas as pessoas.
       Desta feita, em 2016-2017, a missão evangelizadora alarga-se e aprofunda-se: “todos, tudo, sempre, em toda a parte”. Em diversas paróquias do Arciprestado, a oportunidade de nos deixarmos envolver com o testemunho de santos missionários como Santa Teresa do Menino Jesus (outubro) e São Francisco Xavier (novembro), Padroeiros das Missões; Santa Faustina de Kowalska (dezembro), missionária da misericórdia ou Santa Teresa De Calcutá, missionária da caridade.
       Em épocas distantes, em ambientes diferentes, em dinâmicas variadas, os santos missionários permitem-nos ver como é possível viver a santidade em casa, num convento, indo ao encontro dos outros, na família, no meio dos jovens, na prática da caridade, na oração.
       Nesta dinâmica pastoral, a entrega de uma pagela com o santo missionário do mês, com uma tarefa para o mês que pode passar por um pai-nosso pelas missões, uma oração, a prática de uma das obras de misericórdia, levar um convite e/ou mensagem ao vizinho, visitar um doente individualmente ou em grupo. Desdobráveis, boletins paroquiais ou dominicais, escolas da fé, para aprofundar o conhecimento sobre o respetivo santo missionário, procurando, pelo sua intercessão e pelo seu testemunho, assumir a mesma paixão missionária de viver o Evangelho, levando-o a todos.
       Na Paróquia de Tabuaço, na primeira sessão da escola da fé, desta iniciativa pastoral, o responsável arciprestal, reverendo Pe. Giroto, acerca de Santa Teresa do Menino Jesus e como provocação inicial, apresentou-nos um pedaço de um filme, em que Teresa ainda menina diz à Mãe que quer que ela morra. Ao porquê, responde que, segundo lhe disse a própria Mãe, só morrendo a Mãe poderá ir para o Céu.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4386, de 8 de novembro de 2016