terça-feira, 25 de junho de 2019

São João de Tabuaço - Procissão 2019

O Padroeiro do Município de Tabuaço é São João Batista e, por isso, também feriado municipal. É festa para todas as freguesias e para todas as pessoas. Nas marchas participam os diversos lugares e assim também na Procissão, com as imagens dos Padroeiros de cada Paróquia e lugar de culto.
Créditos: Paróquia de Tabuaço / Frederico Gomes

domingo, 16 de junho de 2019

Mamoru Itoh - Quero falar-te dos meus sentimentos

MAMORU ITOH (2013). Quero falar-te dos meus sentimentos. Lisboa: Padrões Culturais Editora. 4.ª Edição. 80 páginas.
Já o publicámos, na tradução magnífica de Helena Gil da Costa - Quero falar contigo sobre os meus sentimentos. Neste livrinho, os textos são acompanhados por ilustrações.
O autor recorre a uma imagem muito sugestiva, a do jogo da bola. “Comunicar é como jogar a bola. Eu atiro a bola e tu apanha-la. E outra vez: eu atiro a bola… Eu quero falar contigo sobre os meus sentimentos”. Foi assim que a comunicação começou. Tal como precisamos de lançar a bola de um lado para o outro para que haja jogo, nós, para comunicar, precisamos de falar de uns para com os outros sobre os nossos sentimentos”.
Mas, tal como no jogo, também na comunicação, alguém tem de tomar a iniciativa. Não posso simplesmente ficar à espera que o outro o faça. E, tomando a iniciativa, tenho de estar preparado para que as coisas não decorram como expectável. A bola pode não chegar ao outro. Eu atiro a bola e o outro pode não a apanhar por ser demasiado pesada, ou ser lançada com demasiada força ou não saber jogar à bola! Ou estar demasiado distante. Pode não a devolver, ou devolvê-la com um tamanho mais reduzido…
Não há comunicação se falamos os dois ao mesmo tempo. Falar de banalidades não é comunicar. Comunicar implica-me e implica-te, envolve sentimentos. Podemos estar preparados para comunicar (sentimentos), darmo-nos, e o outro simplesmente ignorar, por não estar preparado ou por estar noutra onda.
«Se a pessoa a quem atiraste a bola não a apanhou da maneira que tu querias, não culpes essa pessoa. Talvez ela não seja muito boa a jogar a bola. Talvez ela estivesse nervosa, e a sua mão tenha deslizado. Talvez a tua bola fosse demasiado pesada».

Solenidade da Santíssima Trindade - 16 d junho d 2019

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Leituras: JEAN VANIER - OUVE-SE UM GRITO

JEAN VANIER (2018). Ouve-se um grito. O mistério da pessoa é um encontro. Prior Velho: Paulinas Editora. 200 páginas.
       Jean Vanier faleceu no passado dia 7 de maio, do ano corrente, de 2019. Na semana subsequente dedicamos-lhe o editorial. Hoje sugerimos como leitura este livro que pode ser visto como autobiografia e testamento espiritual do autor: "Ouve-se um grito. O mistério da pessoa é um encontro", com a colaboração do jovem poeta François-Xavier Maigre.
       Jean nasceu em Genebra, a 10 de setembro de 1928, filho de pais canadianos. Foi Oficial da Marinha, primeiro britânica, depois canadiense. Em 1950, desiste da carreira militar e começa a estudar teologia e filosofia. Sente-se atraído pelo Evangelho. Tornou-se professor na Universidade de Toronto, mas abandona a carreira universitária. Descobre que a sua verdadeira vocação é encontrar Jesus nas pessoas mais fracas e mais abandonadas. Em 1964 funda a Arca e em 1971 contribui para o nascimento do movimento "Foi et Lumiere" (Fé e Luz).
       Ao escrever estas páginas, o autor percorre a sua vida, da infância à descoberta do caminho que o realiza, ou por outras palavras, a vocação a que Deus o chama. "Este livro nasceu de uma urgência. Face ao triste espetáculo das divisões, dos medos, das guerras e das desigualdades que se espalham no nosso mundo, face à depressão e às desesperanças de tantos jovens, atrevo-me a partilhar convosco um caminho de esperança que se me abriu... Nada está perdido. Um caminho para a unidade, a fraternidade e a paz é possível. O futuro depende de cada um de nós... Graças à 'Arca', aprendemos que a vida com pessoas portadoras de uma deficiência é uma maneira de curar os nossos corações tantas vezes fechados e de ir ao encontro de todos aqueles que são atingidos pela exclusão e humilhação... os mais frágeis abrem-nos à esperança".
       O que fizerdes aos mais pequeninos é a Mim que o fazei. A revelação de Jesus está bem presente na vida, na vocação e na missão do autor. As pessoas portadoras de deficiência ajudam a libertar-se de comodismo, de certezas, da autocomiseração, da procura de poder e prestígio. Nestas pessoas, o encontro com Jesus. A descoberta da fé e das razões para a esperança e para a construção da paz.

Algumas frases e/ou parágrafos do autor:
"Os muros impedem-nos de encontrar o outro que é diferente, de o amar como Deus o ama. É uma luta diária".
"Nas nossas sociedades opulentas, procuramos muitas vezes livrar-nos dos mais frágeis, e até de os matar antes de nascer".
"Vim para aqui para viver o Evangelho, decidido a lutar pacificamente contra as injustiças por causa de Jesus"
Deus ama cada pessoa e chama cada uma a crescer no amor. Deus está escondido no coração dos mais pequeninos, dos mais sofredores, dos mais humilhados. Pouco a pouco, 'A Arca' torna-se sinal deste amor".
"As pessoas com deficiência mental não são uns pobrezinhos de quem é preciso tomar conta. Estas pessoas são mensageiras de Deus que nos aproximam de Jesus. São um caminho para Deus. Ao contactar com elas, elas transformam-nos e conduzem-nos até Deus".
"O amor implica o perdão. Crescer humanamente é aprender a perdoar sempre, trata-se de uma luta de cada dia. Uma luta na ternura consigo próprio e nas relações".
"Jesus ama-nos ao ensinar-nos a descer, a ajoelharmo-nos para lavar os pés dos outros. Sem lhes dar ordens de cima. Sem procurar ter influência".
"Apenas a descoberta da nossa frágil humanidade pode abrir um caminho de paz".
"Responder ao grito do pobre torna-se um apelo. O apelo torna-se atração. A atração tornar-se generosidade. A generosidade torna-se encontro. O encontro torna-se comunhão e presença de Deus".
       No livro o autor fala de muitos encontros marcantes, entre os quais se destacam o encontro com Madre Teresa de Calcutá, com o João Paulo II, com a comunidade de Taizé e com os Focolares, de Chiara Lubich. O Epílogo da obra é dedicado ao tempo que Jean passou em Fátima, a elaborar a tese de doutoramento para o Instituto Católico de Paris, sobre Aristóteles. Referência a Fátima também no capítulo 9.
       Refira-se ainda que na descoberta da vocação o autor ainda ponderou tornar-se padre, mas foi descobrindo que o Senhor o chamava a outra missão.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Solenidade de Pentecostes- ano C - 9 de junho de 2019

Visita Pastoral de D. António a Tabuaço - 2019

Visita Pastoral de D. António Couto à Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Tabuaço, entre 9 e 19 de maio de 2019.
Seleção de fotos dos diferentes dias: visita aos doentes, Lar da Santa Casa, Creche, Centro de Dia, Agrupamento de escolas, encontro com os grupos paroquiais, com a Câmara e instituições ligadas à Câmara, celebrações, encerramento da Visita Pastoral. Fotos disponíveis na página da paróquia no Facebook: @tbcparoquia 
Créditos das fotos: Paróquia de Tabuaço (vários jovens e adultos); Rui de Carvalho; Centro de Dia; Irmão Joaquim.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Visita Pastoral de D. António a Pinheiros - 2019

Visita Pastoral de D. António José da Rocha Couto, à Paróquia de Santa Eufémia de Pinheiros. Na sexta-feira, 26 de abril, na aproximação ao final da tarde, a visita à Junta de Freguesia e sede também da associação "Unidos por Pinheiros". Seguiu-se a visita e oração no Cemitério, por todos aqueles, familiares, amigos e conterrâneos, que vive na eternidade de Deus. Logo depois, a celebração da Eucaristia com a administração da Santa Unção. Depois da celebração, o encontro com os crismandos. 
O Domingo, 28 de abril, o dia da grande FESTA, com a receção ao Senhor Bispo, no largo em frente à sede da Junta de Freguesia, ao som de foguetes e de cânticos, iniciando a procissão para a Igreja, para a Santa Missa.
Na celebração da Eucaristia, o Crisma da Jéssica, de Carrazedo, do Pedro Barradas, da Margarida Silva e do Ricardo Egger. Depois da Santa Missa, o almoço com a comunidade. Participação especial do Grupo Coral da Catequese da Paróquia de Tabuaço na animação coral. 
Créditos - Fotos: Ana Fonseca, Teresa Costa, Anabela Moura 
Música de fundo: DDPJ de Lamego - Hino da JMJ e JDJ 2019 - "Eis aqui a Serva do Senhor".

Visita Pastoral de D. António a Távora - 2019

A Visita Pastoral de D. António Couto à Paróquia de São João Batista de Távora realizou-se a 3 de fevereiro de 2019.
Na sexta-feira precedente, 1 de fevereiro, o Sr. Bispo reuniu com os crismandos e pessoas empenhadas na vida da comunidade. O domingo foi festivo para toda a comunidade, acolhendo o Sr. Bispo na Capela de Nossa Senhora dos Prazeres. A santa Missa, na Igreja Matriz, contou com a celebração do Crisma, com a bênção das crianças, dois bebés ao colo das mães... A parte da celebração, visita ao Cemitério... seguindo-se as concertinas de Távora e o almoço para a comunidade. Créditos: Fotos - Rui da Costa Carvalho
Música de fundo: DDPJ de Lamego - Hino da JDJ 2018 (Pretarouca - Lamego) - Queres precisar de mim.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Visita Pastoral D. António a Carrazedo - 2019

Paróquia de São Salvador de Carrazedo​, 27 de janeiro de 2019.
Imagens dos momentos da Visita de D. António à nossa comunidade: Receção à entrada da povoação, junto à imagem do Imaculado Coração de Maria; Santa Missa, com a celebração da Santa Unção; ação de graças pelas obras na Igreja (2017-2018), visita e oração ao Cemitério, lanche-convívio para toda a comunidade.
Música de fundo: DDPJ de Lamego - "Diz o teu sim" - Hino da JDJ 2017, em Nespereira - Cinfães.


Visita Pastoral D. António a Carrazedo - 2019



Visita de D. António José da Rocha Couto, Bispo de Lamego à Paróquia de São Salvador de Carrazedo.
Receção à entrada da povoação, junto à imagem do Imaculado Coração de Maria; Santa Missa, com a celebração da Santa Unção; ação de graças pelas obras na Igreja (2017-2018), visita e oração ao Cemitério, lanche-convívio para toda a comunidade.
Música de fundo: DDPJ de Lamego - "Diz o teu sim" - Hino da JDJ 2017, em Nespereira - Cinfães.



Paróquia de Tabuaço | Semana Santa 2019

A morte e a ressurreição de Jesus marca indelevelmente a vida dos cristãos e das comunidades, pois é o acontecimento fundador da Igreja. Daqui que as celebrações anuais da Páscoa ocupem um lugar central e essencial na vida litúrgica das comunidades.
Na Paróquia de Tabuaço não é diferente: é uma época de momentos significativos de vivência e partilha da fé, envolvendo os mais novos, os adultos e os mais idosos.
Música de Fundo: Tu me chamas e envias, do Grupo Juvenil "Bagos de Deus" (São João da Pesqueira - Diocese de Lamego; Vem da Palavra, do Grupo de Jovens do Olhalvo, da Diocese de Lisboa. Duas canções que participaram no XII Festival Nacional da Canção de Mensagem - Fátima Jovem 2019.

Paróquia de Pinheiros | Semana Santa: 2019

O maior mistério da nossa fé cristã é o mistério pascal de Jesus, morte e ressurreição, que se celebra em cada Eucaristia, mas de forma mais solene na Páscoa (anual).
A Paróquia de Santa Eufémia de Pinheiros, seguindo a tradição, com com o fito de celebrar e avivar a fé, vive com alegria, devoção e intensidade estes dias festivos.
Música de fundo: «Agora não sou eu, somos nós», Grupo de Jovens Católicos da Ericeira, Patriarcado de Lisboa, cançõ vencedora do XI Festival Nacional da Canção Jovem.No videoporama o conjunto de fotos ilustrativo de diferentes celebrações da Semana Santa.

terça-feira, 4 de junho de 2019

Paróquia de Távora | Semana Santa: 2019

A Semana Santa, para os cristãos, é um dos momentos mais importantes na vida pessoal e comunitário, ao nível da celebração da fé e da identidade do crente cristão com o mistério pascal de Jesus.
Neste videoporama, momentos em fotos das diferentes celebrações na Paróquia de São João Batista de Távora, 14 a 21 de abril.
Música de Fundo: Gerou-se em Mim - Canção vencedora do XII Festival da Canção de Mensagem - Fátima 2019, pelo Grupo de Jovens Ad Saltum / JSF - da Diocese de Vila Real.

sábado, 25 de maio de 2019

Leituras: PRIMO LEVI - SE ISTO É UM HOMEM

PRIMO LEVI (2017). Se isto é um Homem. Alfragide: D. Quixote. 15.º Edição. 192 páginas.
Foi-nos sugerido, lemos e agora sugerimos a outros esta bela, pertinente e luminosa narrativa sobre os campos de concentração nazis, ou melhor, sobre a experiência vivida na primeira pessoa pelo autor, Primo Levi, judeu italiano deportado no campo de extermínio, onde a humanidade é questionada e onde a preocupação imediata não será a ética, a vida, a dignidade, o respeito, os valores, mas a sobrevivência ao frio e à fome, ao trabalho e às doenças.
Para compreendermos o pensamento de Primo Levi teríamos que ler vários (ou todos) livros e de preferência na língua original, segundo o Bispo de Lamego, D. António Couto, tal a profundidade e a relevância das suas reflexões.
Esta pode ser a leitura de entrada deste autor. É o testemunho pessoal, impressionante, lúcido sobre o tratamento desumano nos campos de extermínio, mas também da forma como as vítimas lidaram com a sobrevivência, havendo lugar a alguma solidariedade, mas prevalecendo a luta animalesca por sobreviver mais um dia.
Quando alguns tentam branquear aquela que foi uma das páginas mais negras da história europeia e mundial, com a eliminação de 6 milhões de judeus e de outros que se tornaram críticos do regime, ou simplesmente porque não se enquadraram no ideal da raça pura, este é mais uma obra provocante, que aviva a memória, que nos revela como, em situações degradantes, as pessoas são capazes das maiores barbaridades. Aqui e além há lampejos de humanidade e de alguma esperança, de alguma fé.
Levi foi detido pelas forças alemãs a 13 de dezembro de 1943, era então um jovem químico, membro da resistência. Tendo confessado a sua ascendência judaica, foi deportado para Auschwitz em fevereiro do ano seguinte, onde permaneceu até 27 de janeiro de 1945 quando o campo foi libertado.

Vale a pena reter algumas palavras:

“Todos descobrem, mas tarde ou mais cedo na vida, que a felicidade perfeita não é realizável, mas poucos se detêm a pensar na consideração oposta: que também uma infelicidade perfeita é, igualmente, não realizável. Os momentos que se opõem à realização de ambos os estados-limite são da mesma natureza: derivam da nossa condição humana, que é inimiga de tudo o que é infinito. Opõe-se-lhe o nosso sempre insuficiente conhecimento do futuro; e a isto se chama, num caso, esperança; no outro, incerteza do amanhã. Opõe-se-lhe a certeza da morte, que impõe um limite a qualquer alegria, mas também a qualquer dor. Opõem-se-lhe as inevitáveis preocupações materiais que, assim como poluem qualquer felicidade duradoura, também distraem assiduamente a nossa atenção da desgraça que paira sobre nós e tornam fragmentária, e, por isso mesmo, a consciência dela.
Foram precisamente as provações, as pancadas, o frio, a sede, que nos deixaram afundar no vazio de um desespero sem fim, durante a viagem e depois. Não a vontade de viver, nem uma resignação consciente: pois são poucos os homens capazes disso, e nós mais não éramos que uma vulgar amostra de humanidade”.

"A persuasão de que a vida tem uma finalidade está enraizada em todas as fibras do homem, é uma propriedade da substância humana. Os homens livres dão a essa finalidade muitos nomes, e sobre a sua natureza muito se debruçam e discutem; mas para nós a questão é mais simples. 
Agora e aqui, a nossa finalidade é chegar à Primavera. Neste momento, nada mais nos preocupa. Por detrás desta meta, neste momento, não há outra meta. De manhã, quando em fila na Praça da Chamada, esperamos durante um tempo interminável a hora de partir para o trabalho, e cada sopro de vento penetra por debaixo das nossas roupas e corre em arrepios violentos pelos nossos corpos sem defesa, e tudo em volta está cinzento, e nós estamos cinzentos; de manhã, ainda antes de o dia chegar, todos observamos o céu do lado do Oriente para espreitar os primeiros indícios da estação amena, e o nascer do Sol é todos os dias comentado: hoje foi um pouco mais cedo do que ontem; hoje está um pouco mais calor do que ontem; dentro de dois meses, dentro de um mês, o frio dar-nos-á tréguas e teremos um inimigo a menos. 
Hoje, pela primeira vez, o Sol nasceu vivo e nítido por cima do horizonte lamacento. É um sol polaco, frio, branco e longínquo e não consegue aquecer para além da epiderme; mas, quando se libertou das últimas neblinas, um murmúrio percorreu a massa descorada que somos e, quando também senti a tepidez através da roupa, compreendi como se pode adorar o Sol". 

"Sucumbir é o mais simples: basta cumprir todas as ordens que se recebem, comer só a ração, obedecer à disciplina do trabalho e do campo. A experiência demonstrou que só em casos excecionais, desta forma, se pode durar para além dos três meses. Todos os ‘muçulmanos’ que vão para a câmara de gás têm a mesma história, ou, melhor dizendo, não têm história; seguiram o declive até ao fundo, naturalmente, como os rios vão desaguar no mar. Depois de terem ingressado no campo, por sua incapacidade essencial, ou por azar, ou por qualquer acidente banal, sucumbiram antes de poderem habituar-se; estão sempre atrasados... a sua vida é breve, mas o seu número é enorme... dentro deles apagou-se a centelha divina, já demasiado vazios para sofrer de verdade... eles povoam a minha memória com a sua presença sem rosto e, se pudesse resumir numa única imagem todo o mal do nosso tempo, escolheria esta, que me é familiar: um homem ressequido, com a testa baixa e os ombros curvados, em cujo rosto e em cujos olhos não se pode ler qualquer sinal de pensamento. E os que sucumbiram não têm história, e um só amplo é o caminho da perdição, os caminhos da salvação são, pelo contrário, muitos, difíceis e imprevisíveis". 

Na vida comum "não é frequente acontecer que um homem se perca, pois normalmente não está só e, no seu subir e descer, está ligado ao destino dos que o rodeiam; pelo que só excecionalmente acontece que alguém cresça sem limites ou desça continuamente de derrota em derrota até à ruína. Mais, cada um possui habitualmente recursos, espirituais, físicos e também económicos, capazes de tornar ainda menos provável a eventualidade de um naufrágio, de uma carência perante a vida. Acrescente-se ainda que uma sensível ação de amortecimento é exercida pela lei e pelo sentido moral, que é a lei interior; de facto, considera-se tanto mais civilizado um país quanto mais sábias e eficazes são as leis que impedem ao miserável ser demasiado miserável e ao poderoso demasiado poderoso... Mas no Lager tudo acontece de outra forma: aqui, a luta para sobreviver é sem remissão, porque cada um está desesperada e ferozmente só. Se um Null Achtzenh qualquer vacilar, não encontrará quem lhe estenda a mão, mas sim alguém que o deitará abaixo, pois ninguém está interessado em que um «muçulmano» (nome pelo qual são chamados os fracos, os ineptos, os votados à seleção para serem mortos) a mais se arraste todos os dias para o trabalho; e se alguém, com um milagre de paciência selvagem e astúcia, encontrar nova combinação para escapar ao trabalho mais duro, uma nova artimanha que lhe proporcione algumas gramas de pão, procurará manter secreta a forma como o conseguiu, e por isso será estimado e respeitado, e tirará um lucro exclusivo e pessoal; tornar-se-á mais forte, os outros terão medo dele e, por isso mesmo, será um candidato à sobrevivência". 

"As personagens deste livro não são homens. A sua humanidade está sepultada, ou eles mesmos a sepultaram, debaixo da ofensa que sofreram ou que infligiram a outrem... Mas Lorenzo era um homem; a sua humanidade era pura e incontaminada, estava fora deste mundo de negação. graças a Lorenzo, aconteceu-me não esquecer que também eu era um homem". 

Pobre e ingénuo Kraus. Se soubesse que… para mim também ele é nada, a não ser um breve momento, nada como aqui tudo é nada, a não ser a fome dentro de nós, e o frio e a chuva à nossa volta".

O livro começa com o seguinte poema:
«Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não
Considerai se isto é uma mulher
Sem cabelos e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno. 
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração.
Estando em casa andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou então que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entreve,
Que os vossos filhos vos virem a cara»

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Papa Francisco - A força da vocação

PAPA FRANCISCO (2018). A força da vocação. A vida consagrada hoje. Conversa com Fernando Prado, cmf. Prior Velho: Paulinas Editora. 104 páginas.

A figura do Papa Francisco é incontornável na atualidade e a simpatia que foi granjeando não esmoreceu; é escutado com agrado e apreciado nos gestos que assume, ainda que esteja também sujeito à crítica, por vezes daqueles que estão mais próximos e que deveriam ser amigos e defensores dos desafios que o Papa tem lançado à Igreja e ao mundo.
Os meios de comunicação social do Vaticano, mas também outros meios de comunicação, fazem-nos chegar todos os dias intervenções, mensagens, discursos, homilias do Papa Francisco, para já não falar das frases ou textos que lhe são atribuídos e que não foram por ele proferidos, mesmo que alguns depois defendam, como desculpa e justificação, que tais palavras correspondem à sua sensibilidade e que poderia ter sido ele a dizê-las. Enfim!
Também por isso, é mais garantido ir às fontes, procurar sítios seguros e de confiança, como as páginas do Vaticano na Internet, conferir se esta ou aquela mensagem que gostamos e queremos partilhar corresponde efetivamente às palavras do Papa, até porque às vezes, juntando uma foto do Papa, se divulga uma mensagem pessoal. Pode ser interessante, mas, se intencional, não deixa de ser aproveitamento da "imagem" para vender, para ter mais likes!
Há muita coisa escrita sobre o Papa Francisco, mas nada melhor, que ler o que ele diz e/ou escreve. Um comentário sobre o seu magistério, sobre as suas intervenções, é interessante e pode ajudar-nos a captar melhor a mensagem, as antes ou depois do comentário, é essencial que se leia e/ou se ouça o Papa em primeira mão. As homilias, as mensagens, os discursos, outras intervenções, por exemplo, no twitter, estão acessíveis e a qualquer momento pode serem consultados. Uma entrevista, no entanto, apresenta curiosidades, pois, neste como em outros casos, o entrevistador faz questão de descrever o espaço da entrevista, os gestos, a postura, o sorriso, os silêncios, o entusiasmo do Papa, e a interpretação das "emoções" que o papa vai deixando transparecer.
Nesta entrevista em concreto, o tema fulcral é a vida consagrada no tempo atual, revisitando o passado, olhando para o presente, perspetivando o futuro. Por ocasião da celebração do Ano de Vida Consagrada (2015-2016), o Papa endereçou uma Carta aos Consagrados. Motivado por esta missiva e por este ano da vida consagrada, o e. Fernando Prado, missionário claretiano, solicitou esta entrevista ao Papa Francisco.
O discurso simples, com imagens, pequenas histórias vividas na primeira pessoa ou que lhe foram comunicadas por alguém, boa disposição, tocando nos pontos essenciais que, segundo o Papa, é preciso alterar para que a vida consagrada continue ser profética, valorizando a pobreza, em detrimento das seguranças e das riquezas materiais, a oração, o estudo, o discernimento vocacional, a inserção na vida e na missão da Igreja, conservar o que aproxima de Cristo, do Evangelho e das pessoas, corrigir os desvios, tratar os consagrados, religiosos respeitando a sua identidade e o carisma das suas congregações, evitando "escravidão" dos mesmos ao serviço de algum projeto eclesial, diálogo entre consagrados e o Bispo diocesano, são alguns do temas que vale a pena refletir. Mais uma vez, o que vale para os consagrados, vale também para os Seminários e para as vocações, mas vale também para os cristãos, no seu conjunto, nomeadamente na questão do discernimento vocacional, do estudo, da vida de oração, da inserção à Igreja, do compromisso missionário, do respeito pelo tempo de cada um, pelo crescimento da fé.
O Papa coloca, nesta entrevista, mais uma vez o foco no discernimento. As regras são importantes, mas mais importantes são as pessoas, com as suas limitações e com os seus dons. Vincado também o diálogo jovens-idosos, vale para a Igreja, para a sociedade, vale para os Institutos de Vida consagrada. "Os jovens caminham rapidamente, mas os mais velhos conhecem o caminho". Cuidado com as generalizações. A rigidez é negativa. "O verdadeiro amor nunca é rígido". Caminhar em conjunto... Não existem soluções mágicas. É esse o meu critério: o triunfalismo nunca é de Jesus. O triunfo de Jesus, o verdadeiro triunfo, é sempre a Cruz".
E, claro, muito cuidado com o clericalismo. Na formação, 4 pilares: vida espiritual, vida comunitária, vida de estudo e vida apostólica. "Condescendência, de Jesus, que desceu para se inserir no povo. Ora o clericalismo é o oposto da inserção... O clericalismo é a raiz de muitos problemas... Inclusive, por trás dos abusos, além de outras imaturidades e neuroses, está o clericalismo. É preciso ter muito cuidado com isto na formação. É necessário discernir e ajudar a clarificar imaturidades e acompanhar o formando num saudável crescimento".

sábado, 4 de maio de 2019

Domingo III da Páscoa - ano C - 5 de maio de 2019

A Palavra Mãe... oração e gratidão

Mãe, hoje queremos balbuciar o teu nome nesta palavra: Mãe.
Mãe, palavra que nos sai do coração e nos faz agradecer a vida.
A minha e a tua vida. A nossa vida! Sem Mãe, nem palavra nem vida nem amor!
Mãe, palavra gravada no nosso coração e no nosso corpo, na nossa vida!
Se olharmos para o nosso umbigo, logo nos lembraremos da nossa origem. Não nos criámos sozinhos. O umbigo liga-nos à fragilidade, à humanidade, aos afetos!
Tivemos origem noutro corpo que não o nosso.
Fomos gerados no corpo da nossa Mãe, no seu ventre e no seu amor!
Para quem tem fé, a origem última é em Deus. E Deus, como não podia estar fisicamente em todo o lado, deu-nos uma Mãe. A minha e a tua Mãe.
E deu-nos também a Mãe de Jesus, nossa Mãe santíssima!
Para quem não tem fé, a presença do que resta do cordão umbilical, relembra que antes da nossa vida, outra vida, que nos gerou, nos alimentou e nos trouxe à vida.
Alguém se imagina sem o umbigo? Não! O umbigo é uma marca humana que nos liga aos outros, através da nossa Mãe, através dos nossos pais.
Que admirável: se a nossa memória nos trair, há um umbigo que nos fala da nossa Mãe! Afinal somos seres carentes, finitos, limitados, ligados, com origem em outro alguém! Não fomos nós que nos demos a vida!
A vida é um dom! Foi-nos dada! É-nos dada!
Podemos agradecer! Podemos viver! É a viver que agradecemos! É vivendo que experimentamos a alegria de sermos alguém, a gratidão de pertencermos a alguém. E começamos por pertencer à nossa Mãe! Nove meses! Dentro de ti, ó Mãe! Nove meses ligados! Alimentados! Dependentes da vida e do amor!
E aí começou uma nova história! Uma cumplicidade para a vida toda!
Duas vidas; dois corações a bater juntinhos; dois mundos, um por dentro do outro!
E uma vida imensa, uma vida intensa! Começa a fazer sentido a palavra Mãe.
E então, o medo e a esperança; a pressa e a paciência; os sonhos e as angústias!
Sentes-te Mãe antes de alguém saber, antes de alguém sonhar! Mas logo se começa a notar! E mais uma vez o revelas no corpo, na alegria e no sorriso!
E, depois, é a vida toda: o nascimento, os primeiros gestos, sorrisos, palavras, o gatinhar e o andar, o crescimento, a adolescência, a juventude, até sairmos de casa...
As noites por dormir, a angústia de fazer alguma coisa errada, não saber cuidar, ou não estar à altura das nossas necessidades; as primeiras lágrimas, o primeiro choro, a primeira queda, a primeira ferida; as birras, e com o tempo, as diferenças que parecem roubarem-nos de ti, minha Mãe…
Mãe é uma palavra para a vida toda! É uma vida toda em que facilmente te esqueces de viver a tua vida para viveres em função nos nossos anseios e urgências.
Tornámo-nos crescidos! Mas nem por isso os teus cuidados de Mãe enfraquecem! As preocupações não cessam! E, tantas vezes, filhos criados trabalhos dobrados! Mas é a vocação e a felicidade de cada Mãe. Da minha e da tua Mãe!

Duas palavras ocupam este dia: Maria e Mãe!
Também Maria é Mãe! Mãe de Deus e nossa Mãe. Do anúncio à cruz! Da cruz até a nossa vida! Também Maria, como Mãe, vem morar em nossa casa, na minha e na tua vida! Só se quiseres! Só se quisermos! Mas como Mãe, como a minha e a tua Mãe, mesmo que fujamos, mesmo que nos descuidemos a retribuir ou a agradecer, ou a viver, Ela está lá para nós! Sempre! Só se não quiseres! Só se não quisermos.
Mãe, obrigado!
Que te mereça e te saiba chamar e tratar por Mãe pela vida toda! Obrigado, Mãe!
Rezemos uma Ave-Maria, pelas nossas Mães, presentes no meio de nós e por aquelas que já se encontram no coração de Deus que é Pai e é mais Mãe!

Pe. Manuel Gonçalves

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Santa Catarina de Sena, Virgem e Doutora da Igreja

Nota biográfica:
       Nasceu em Sena no ano 1347, numa família muito numerosa. Com 16 anos de idade, impelida por uma visão de São Domingos e movida pelo desejo de perfeição, entrou na Ordem Terceira de São Domingos, no ramo feminino chamado Manteladas. Quando a fama de santidade se espalhou, foi protagonista de uma intensa atividade de conselho espiritual em relação a pessoas de todas as categorias sociais: nobres, artistas, políticos, pessoas do povo, pessoas consagradas. Inflamada no amor de Deus e do próximo, trabalhou incansavelmente pela paz e concórdia entre as cidades, defendeu com ardor os direitos e a liberdade do Romano Pontífice e promoveu a renovação da vida religiosa. Exortou energicamente o papa Gregória XI, que vivia em Avinhão, a regressar a Roma. Incentivou renovação na própria Igreja, para que esta contribuísse para a aproximação entre Estados. Escreveu importantes obras de espiritualidade, cheias de boa doutrina e de inspiração celeste.
       Morreu no ano 1380, em Roma.
      Foi canonizada em 1461.
       Em vida foi testada pela desconfiança de alguns, como muitos santos. Os seus ensinamentos, pela profundidade espiritual, são propostos a toda a Igreja. O Papa Paulo VI, em 1947 declarou-a Doutora da Igreja, título acrescentado ao de Co-Padroeira de Roma, por desejo do Beato Papa Pio IX, e Padroeira de Itália, segundo decisão do Venerável Papa Pio XII. João Paulo II, Beato, viria a declará-la Co-Padroeira da Europa, para que esta não esqueça as suas raízes cristãs.
       Diz dela Bento XVI: "Cristo é para ela como o esposo, com quem está em relação de intimidade, de comunhão e de fidelidade; é o bem-amado acima de qualquer outro bem". Continua Bento XVI, "de Santa Catarina nós aprendemos a ciência mais sublime: conhecer e amar Jesus Cristo e a sua Igreja. No Diálogo da Providência Divina ela, com uma imagem singular, descreve Cristo como uma ponte lançada entre o céu e a terra. Ela é formada por três grandes escadas, constituída pelos pés, pelo lado e pela boca de Jesus. Elevando-se através destas grandes escadas, a alma passa pelas três etapas de casa caminho de santificação: o afastamento do pecado, a prática da virtude e do amor, a união dócil e afetuosa com Deus".

Oração de coleta:
       Deus de misericórdia infinita, que inflamastes Santa Catarina de Sena no amor divino, chamando-a à contemplação da paixão do Senhor e ao serviço da Igreja, fazei que o vosso povo, associado ao mistério de Cristo, se alegre para sempre na manifestação da sua glória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Do «Diálogo da Divina Providência», de Santa Catarina de Sena, virgem

Saboreei e vi

Ó Divindade eterna, ó eterna Trindade, que, pela união com a natureza divina, tanto fizestes valer o Sangue de vosso Filho Unigénito! Vós, Trindade eterna, sois como um mar profundo, no qual quanto mais procuro mais encontro, e quanto mais encontro, mais cresce a sede de Vos procurar. Saciais a alma, mas dum modo insaciável, porque, saciando-se no vosso abismo, a alma permanece sempre faminta e sedenta de Vós, ó Trindade eterna, desejando ver-Vos com a luz da vossa luz.
Saboreei e vi com a luz da inteligência, ilustrada na vossa luz, o vosso abismo insondável, ó Trindade eterna, e a beleza da vossa criatura. Por isso, vendo-me em Vós, vi que sou imagem vossa por aquela inteligência que me é dada como participação do vosso poder, ó Pai eterno, e também da vossa sabedoria, que é apropriada ao vosso Filho Unigénito. E o Espírito Santo, que procede de Vós e do vosso Filho, me deu a vontade com que posso amar-Vos.
Porque Vós, Trindade eterna, sois criador e eu criatura; e conheci – porque Vós mo fizestes compreender quando me criastes de novo no Sangue do vosso Filho – conheci que estais enamorado da beleza da vossa criatura.
Oh abismo, oh Trindade eterna, oh Divindade, oh mar profundo! Que mais me podíeis dar do que dar-Vos a Vós mesmo? Sois um fogo que arde sempre e não se consome. Sois Vós que consumis com o vosso calor todo o amor profundo da alma. Sois um fogo que dissipa toda a frialdade e iluminais as mentes com a vossa luz, aquela luz com que me fizestes conhecer a vossa verdade.
Espelhando-me nesta luz, conheço-Vos como sumo bem, o bem que está acima de todo o bem, o bem feliz, o bem incompreensível, o bem inestimável, a beleza sobre toda a beleza, a sabedoria sobre toda a sabedoria: porque Vós sois a própria sabedoria, o alimento dos Anjos, que com o fogo da caridade Vos destes aos homens.
Sois a veste que cobre toda a minha nudez; e alimentais a nossa fome com a vossa doçura, porque sois doce sem qualquer amargor. Oh Trindade eterna!
BENTO XVI, Santas da Idade Média. Editorial Franciscana. Braga 2010.
Vd. também na Audiência Geral de 24 de novembro de 2010  

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Seán O'Malley - Procura-se: Amigos e Lavadores de Pés

SÉAN O'MALLEY (2019). Procura-se: Amigos e Lavadores de Pés. Prior Velho: Paulinas Editora. 216 páginas.
       O Cardeal Seán O’Malley é Arcebispo de Boston e muito próximo do Papa Francisco, pertence ao Conselho dos Cardeais, criado pelo Papa como grupo que o assessoria em diferentes questões. É uma das vozes mais proeminentes da Igreja no combate contra a pedofilia, numa opção clara pela transparência, na criação de regras claras, para proteger as crianças e afastar os prevaricadores, ou em definitivo, ou até se provar a inocência. Regras claras e transparência também facilitam a vida a quem é acusando injustamente. A prioridade são as vítimas e a urgência nas denúncias, levando-as a sério. 
       Entre os dias 11 a 15 de março, o Cardeal orientou os Exercícios Espirituais, da Quaresma, aos bispos portugueses, em Fátima. Já em 1996 tinha sido convidado para este tempo de oração, reflexão e formação dos bispos portugueses. 
       Aproveitando a presença em Fátima, O’Malley apresentou esta obra que contempla as reflexões propostas aos nossos bispos, agora disponíveis para todos, bem como outras reflexões, mensagens, intervenções do Cardeal, por exemplo duas homilias em outras tantas Ordenações Episcopais, homilia numa ordenação diaconal, outra na Missa crismal, em Ano Jubilar da Misericórdia.
       São textos simples, acessíveis, que transparecem a sua fé e a sua vida sacerdotal e episcopal. Bem-humorado, com histórias reais, a cultura social e religiosa da América, as raízes irlandeses, a vida como franciscano capuchinho, a Igreja proposta pelo Papa Francisco, simultaneamente jesuíta e franciscano, o contacto com migrantes, nomeadamente hispânicos e portugueses. Acolhimento e compreensão. Ternura e proximidade. Misericórdia e cultura do encontro. Comprometidos com Jesus, oração e formação, discípulos missionários. A luta pela tolha e não tanto pelos melhores lugares à mesa.
       No decorrer da Última Ceia, Jesus levanta-Se da mesa, coloca uma toalha à cintura e começa a lavar os pés aos discípulos. A preocupação é exemplificar o seguimento e o compromisso daqueles e daquelas que queiram integrar o Seu Corpo que é a Igreja. Jesus, como em outras situações, não faz grandes discursos, exemplifica, mostra como se faz, ou faz-nos atores de uma história (parábola), para nos sentirmos suficientemente livres para optarmos, seguindo-O ou rejeitando-O. O Cardeal refere-o desta maneira: “Ele queria que os seus Apóstolos, os seus Amigos, parassem de disputar os primeiros lugares à mesa e começassem a lutar pela toalha”.
       Aproximava-se rapidamente a Cruz e os Apóstolos apressavam-se a disputar a coroa, o primeiro lugar à mesa, o ministério mais honroso e com mais poder. Abertamente, em mais que uma ocasião, Pedro contesta Jesus. Quando necessário, pega na espada! Mas todos eles querem ser o primeiro, o maior! O caminho de Jesus é o do servo, daquele que disputa a toalha!
       Boa leitura.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Início do Pontificado de Bento XVI - 24.04-2005

Santa Missa - Imposição do Pálio e entrega do Anel de Pescador
HOMILIA DE SUA SANTIDADE BENTO XVI

Senhores Cardeais
Venerados Irmãos no episcopado e no sacerdócio
Distintas Autoridades e Membros do Corpo Diplomático
Caríssimos Irmãos e Irmãs!


Por três vezes, nestes dias tão intensos, o cântico das ladainhas dos Santos nos acompanhou: durante o funeral do nosso Santo Padre João Paulo II; por ocasião da entrada dos Cardeais em Conclave, e também hoje, quando as cantamos de novo com a invocação: Tu illum adiuva ampara o novo sucessor de São Pedro. Todas as vezes, de modo totalmente particular ouvi este cântico orante como um grande conforto. Quanto nos sentimos abandonados depois da perda de João Paulo II! O Papa que por 26 anos foi o nosso pastor e guia no caminho através deste tempo.

Ele cruzou o limiar para a outra vida entrando no mistério de Deus. Mas não deu este passo sozinho. Quem crê, nunca está sozinho nem na vida nem na morte. Naquele momento nós pudemos invocar os santos de todos os séculos, os seus amigos, os seus irmãos na fé, sabendo que teriam estado no cortejo vivo que o teria acompanhado no além, até à glória de Deus. Nós sabemos que a sua chegada era esperada. Agora sabemos que ele está entre os seus e está verdadeiramente em sua casa. De novo, fomos confortados cumprindo a solene entrada em conclave, para eleger aquele que o Senhor tinha escolhido. Como podíamos reconhecer o seu nome? Como podiam, 115 Bispos, provenientes de todas as culturas e países, encontrar aquele ao qual o Senhor desejava conferir a missão de ligar e desligar? Mais uma vez, nós o sabíamos: sabíamos que não estávamos sós, que estávamos circundados, conduzidos e guiados pelos amigos de Deus.

E agora, neste momento, eu, frágil servo de Deus, devo assumir esta tarefa inaudita, que realmente supera qualquer capacidade humana. Como posso fazer isto? Como serei capaz de o fazer? Todos vós, queridos amigos, acabaste de invocar todos os santos, representados por alguns dos grandes nomes da história de Deus com os homens. Desta forma, também em mim se reaviva esta autoconsciência: não estou sozinho. Não devo carregar sozinho o que na realidade nunca poderia carregar sozinho. Os numerosos santos de Deus protegem-me, amparam-me e guiam-me. E a vossa oração, queridos amigos, a vossa indulgência, o vosso amor, a vossa fé e a vossa esperança acompanham-me. De facto, à comunidade dos santos não pertencem só as grandes figuras que nos precederam e das quais conhecemos os nomes. Todos nós somos a comunidade dos santos, nós baptizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, nós que vivemos do dom da carne e do sangue de Cristo, por meio do qual ele nos quer transformar e tornar-nos semelhantes a si mesmo.

Sim, a Igreja é viva eis a maravilhosa experiência destes dias. Precisamente nos tristes dias da doença e da morte do Papa isto manifestou-se de modo maravilhoso aos nossos olhos: que a Igreja é viva. E a Igreja é jovem. Ela leva em si o futuro do mundo e por isso mostra também a cada um de nós o caminho para o futuro. A Igreja é viva e nós vemo-lo: experimentamos a alegria que o Ressuscitado prometeu aos seus. A Igreja é viva ela é viva, porque Cristo é vivo, porque verdadeiramente ele ressuscitou. No sofrimento, presente no rosto do Santo Padre nos dias de Páscoa, contemplámos o mistério da paixão de Cristo e, ao mesmo tempo, tocámos nas suas feridas. Mas em todos esses dias também pudemos, num sentido profundo, tocar o Ressuscitado. Foi-nos concedido experimentar a alegria que ele prometeu, depois de um breve tempo de obscuridade, como fruto da sua ressurreição.

A Igreja é viva saúdo assim com grande alegria e gratidão todos vós, que estais aqui reunidos, venerados Irmãos Cardeais e Bispos, caríssimos sacerdotes, diáconos, agentes de pastoral, catequistas. Saúdo a vós, religiosos e religiosas, testemunhas da transfigurante presença de Deus. Saúdo a vós, irmãos leigos, imersos no grande espaço da construção do Reino de Deus que se expande no mundo, em todas as expressões da vida. O discurso torna-se repleto de afecto também na saudação que dirijo a quantos, renascidos no sacramento do Baptismo, ainda não estão em plena comunhão connosco; e a vós irmãos do povo judaico, a quem nos sentimos ligados por um grande património espiritual comum, que afunda as suas raízes nas irrevogáveis promessas de Deus. O meu pensamento, por fim quase como uma onda que se expande dirige-se a todos os homens do nosso tempo, crentes e não crentes.

Queridos amigos! Neste momento não temos necessidade de apresentar um programa de governo. Alguns aspectos daquilo que eu considero minha tarefa, já tive ocasião de os expor na mensagem de quarta-feira 20 de Abril; não faltarão outras ocasiões para o fazer. O meu verdadeiro programa de governo é não fazer a minha vontade, não perseguir ideias minhas, pondo-me contudo à escuta, com a Igreja inteira, da palavra e da vontade do Senhor e deixar-me guiar por Ele, de forma que seja Ele mesmo quem guia a Igreja nesta hora da nossa história. Em vez de expor um programa, gostaria simplesmente de procurar comentar os dois sinais com os quais é representada liturgicamente a assunção do Ministério Petrino; contudo, estes dois sinais reflectem também exactamente o que é proclamado nas leituras de hoje.

O primeiro sinal é o Pálio, tecido em lã pura, que me é colocado sobre os ombros. Este antiquíssimo sinal, que os Bispos de Roma usam desde o século IV, pode ser considerado como uma imagem do jugo de Cristo, que o Bispo desta cidade, o Servo dos Servos de Deus, assume sobre os seus ombros. O jugo de Deus é a vontade de Deus, que nós aceitamos. Esta vontade não é para nós um peso exterior, que nos oprime e nos priva da liberdade. Conhecer o que Deus quer, conhecer qual é o caminho da vida eis a alegria de Israel, era o seu grande privilégio. Esta é também a nossa alegria: a vontade de Deus não nos desvia, mas purifica-nos talvez de maneira até dolorosa e assim conduz-nos a nós mesmos. Desta forma, não servimos só a Ele mas à salvação de todo o mundo, de toda a história. Na realidade o simbolismo do Pálio é ainda mais concreto: a lã do cordeiro pretende representar a ovelha perdida ou também a doente e frágil, que o pastor coloca sobre os ombros e conduz às águas da vida. A parábola da ovelha perdida, que o pastor procura no deserto, era para os Padres da Igreja uma imagem do mistério de Cristo e da Igreja. A humanidade todos nós é a ovelha perdida que, no deserto, já não encontra o caminho. O Filho de Deus não tolera isto; Ele não pode abandonar a humanidade numa condição tão miserável.

Levanta-se de ímpeto, abandona a glória do céu, para reencontrar a ovelha e segui-la, até à cruz. Carrega-a sobre os ombros, leva a nossa humanidade, leva-nos a nós mesmos Ele é o bom pastor, que oferece a sua vida pelas ovelhas. O Pálio diz antes de tudo que todos nós somos guiados por Cristo. Mas ao mesmo tempo convida-nos a levar-nos uns aos outros. Assim o Pálio se torna o símbolo da missão do pastor, de que falam a segunda leitura e o Evangelho. A santa preocupação de Cristo deve animar o pastor: para ele não é indiferente que tantas pessoas vivam no deserto. E existem tantas formas de deserto. Há o deserto da pobreza, o deserto da fome e da sede, o deserto do abandono, da solidão, do amor destruído. Há o deserto da obscuridão de Deus, do esvaziamento das almas que perderam a consciência da dignidade e do caminho do homem. Os desertos exteriores multiplicam-se no mundo, porque os desertos interiores tornaram-se tão amplos. Por isso, os tesouros da terra já não estão ao serviço da edificação do jardim de Deus, no qual todos podem viver, mas tornaram-se escravos dos poderes da exploração e da destruição. A Igreja no seu conjunto, e os Pastores nela, como Cristo, devem pôr-se a caminho, para conduzir os homens fora do deserto, para lugares da vida, da amizade com o Filho de Deus, para Aquele que dá a vida, a vida em plenitude. O símbolo do cordeiro tem ainda outro aspecto. No Antigo Oriente era costume que os reis se designassem como pastores do seu povo. Esta era uma imagem do seu poder, uma imagem cínica: os povos eram para eles como ovelhas, das quais o pastor podia dispor como lhe aprazia. Enquanto o pastor de todos os homens, o Deus vivo, se tornou ele mesmo cordeiro, pôs-se do lado dos cordeiros, daqueles que são esmagados e mortos.

Precisamente assim Ele se revela como o verdadeiro pastor: "Eu sou o bom pastor... Ofereço a minha vida pelas minhas ovelhas", diz Jesus de si mesmo (cf. Jo 10, 14 s). Não é o poder que redime, mas o amor! Este é o sinal de Deus: Ele mesmo é amor. Quantas vezes nós desejaríamos que Deus se mostrasse mais forte. Que atingisse duramente, vencesse o mal e criasse um mundo melhor. Todas as ideologias do poder se justificam assim, justificando a destruição daquilo que se opõe ao progresso e à libertação da humanidade. Nós sofremos pela paciência de Deus. E de igual modo todos temos necessidade da sua plenitude. O Deus, que se tornou cordeiro, diz-nos que o mundo é salvo pelo Crucificado e não por quem crucifica. O mundo é redimido pela plenitude de Deus e destruído pela impaciência dos homens.

Significado da entrega do anel do pescador: conquistar os homens para o Evangelho 
Uma das características fundamentais deve ser a de amar os homens que lhe foram confiados, assim como ama Cristo, a cujo serviço se encontra. "Apascenta as minhas ovelhas", diz Cristo a Pedro, e a mim, neste momento. Apascentar significa amar, e amar quer dizer também estar prontos para sofrer. Amar significa: dar às ovelhas o verdadeiro bem, o alimento da verdade de Deus, da palavra de Deus, o alimento da sua presença, que ele nos oferece no Santíssimo Sacramento. Queridos amigos neste momento eu posso dizer apenas: rezai por mim, para que eu aprenda cada vez mais a amar o Senhor. Rezai por mim, para que eu aprenda a amar cada vez mais o seu rebanho vós, a Santa Igreja, cada um de vós singularmente e todos vós juntos. Rezai por mim, para que eu não fuja, por receio, diante dos lobos. Rezai uns pelos outros, para que o Senhor nos guie e nós aprendamos a guiar-nos uns aos outros.

O segundo sinal, com o qual é representado na liturgia de hoje o início do Ministério Petrino, é a entrega do anel do pescador. A chamada de Pedro para ser pastor, que ouvimos no Evangelho, acontece depois de uma pesca abundante: depois de uma noite, durante a qual tinham lançado as redes sem pescar nada, os discípulos vêem na margem do lago o Senhor Ressuscitado. Ele ordena-lhes que voltem a pescar mais uma vez e eis que a rede se enche tanto que eles não conseguem tirá-la para fora da água; 153 peixes grandes: "E apesar de serem tantos, a rede não se rompeu" (Jo 21, 11). Esta narração, no final do caminho terreno de Jesus com os seus discípulos, corresponde a uma narração do início: também então os discípulos não tinham pescado nada durante toda a noite; também então Jesus tinha convidado Simão a fazer-se ao largo mais uma vez.

E Simão, que ainda não era chamado Pedro, deu a admirável resposta: Mestre, porque tu o dizes, lançarei as redes! E eis o conferimento da missão: "Não tenhas receio; de futuro, serás pescador de homens" (Lc 5, 1-11). Também hoje é dito à Igreja e aos sucessores dos apóstolos que se façam ao largo no mar da história e que lancem as redes, para conquistar os homens para o Evangelho para Deus, para Cristo, para a vida. Os Padres dedicaram um comentário muito particular a esta tarefa. Eles dizem assim: para o peixe, criado para a água, é mortal ser tirado para fora do mar. Ele é privado do seu elemento vital para servir de alimento ao homem. Mas na missão do pescador de homens acontece o contrário. Nós homens vivemos alienados, nas águas salgadas do sofrimento e da morte; num mar de obscuridade sem luz. A rede do Evangelho tira-nos para fora das águas da morte e conduz-nos ao esplendor da luz de Deus, na verdadeira vida. É precisamente assim na missão de pescador de homens, no seguimento de Cristo, é necessário conduzir os homens para fora do mar salgado de todas as alienações rumo à terra da vida, rumo à luz de Deus. É precisamente assim: nós existimos para mostrar Deus aos homens. E só onde se vê Deus, começa verdadeiramente a vida. Só quando encontramos em Cristo o Deus vivo, conhecemos o que é a vida. Não somos o produto casual e sem sentido da evolução. Cada um de nós é o fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário. Não há nada mais belo do que ser alcançados, surpreendidos pelo Evangelho, por Cristo. Não há nada de mais belo do que conhecê-Lo e comunicar com os outros a Sua amizade. A tarefa do pastor, do pescador de homens muitas vezes pode parecer cansativa. Mas é bela e grande, porque em definitiva é um serviço à alegria, à alegria de Deus que quer entrar no mundo.

Gostaria de realçar aqui mais uma coisa: quer na imagem do pastor quer na do pescador sobressai de maneira muito explícita a chamada à unidade. "Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil. Também estas Eu preciso de as trazer e hão-de ouvir a minha voz; e haverá um só rebanho e um só pastor" (Jo 10, 16), diz Jesus no final do sermão do bom pastor. E a narração dos 153 grandes peixes termina com a gloriosa constatação: "apesar de serem tantos, a rede não se rompeu" (Jo 21, 11). Ai de mim, amado Senhor, agora ela rompeu-se! Poderíamos dizer que sofremos. Mas não não devemos estar tristes! Alegremo-nos pela tua promessa, que não desilude, e façamos o possível para percorrer o caminho rumo à unidade, que tu prometeste. Façamos memória dela na oração ao Senhor, como pedintes: sim, Senhor, recorda-te de tudo o que prometeste. Faz com que sejam um só pastor e um só rebanho! Não permitas que a tua rede se rompa e ajuda-nos a ser servos da unidade!

Neste momento a minha recordação volta ao dia 22 de Outubro de 1978, quando o Papa João Paulo II deu início ao seu ministério aqui na Praça de São Pedro. Ainda, e continuamente, ressoam aos meus ouvidos as suas palavras de então: "Não tenhais medo, abri de par em par as portas a Cristo!" O Papa dirigia-se aos fortes, aos poderosos do mundo, os quais tinham medo que Cristo pudesse tirar algo ao seu poder, se o tivessem deixado entrar e concedido a liberdade à fé. Sim, ele ter-lhes-ia certamente tirado algo: o domínio da corrupção, da perturbação do direito, do arbítrio. Mas não teria tirado nada do que pertence à liberdade do homem, à sua dignidade, à edificação de uma sociedade justa. O Papa falava também a todos os homens, sobretudo aos jovens. Porventura não temos todos nós, de um modo ou de outro, medo, se deixarmos entrar Cristo totalmente dentro de nós, se nos abrirmos completamente a Ele, medo de que Ele possa tirar-nos algo da nossa vida? Não temos porventura medo de renunciar a algo de grandioso, único, que torna a vida tão bela? Não arriscamos depois de nos encontrarmos na angústia e privados da liberdade? E mais uma vez o Papa queria dizer: não! Quem faz entrar Cristo, nada perde, nada absolutamente nada daquilo que torna a vida livre, bela e grande. Não! Só nesta amizade se abrem de par em par as portas da vida. Só nesta amizade se abrem realmente as grandes potencialidades da condição humana. Só nesta amizade experimentámos o que é belo e o que liberta. Assim, eu gostaria com grande força e convicção, partindo da experiência de uma longa vida pessoal, de vos dizer hoje, queridos jovens: não tenhais medo de Cristo! Ele não tira nada, ele dá tudo. Quem se doa por Ele, recebe o cêntuplo. Sim, abri de par em par as portas a Cristo e encontrareis a vida verdadeira. Amém.

domingo, 31 de março de 2019

Homilia do Papa Francisco em Marrocos - 31/03/2019

«Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos» (Lc 15, 20).

       Assim nos leva o Evangelho ao coração da parábola onde se apresenta o comportamento do pai quando vê regressar o seu filho: comovido até às entranhas, não espera que ele chegue a casa, mas surpreende-o correndo ao seu encontro. Um filho ansiosamente esperado. Um pai comovido ao vê-lo regressar.
       Mas não foi a única vez que o pai correu. A sua alegria seria incompleta sem a presença do outro filho. Por isso, sai também ao seu encontro, para convidá-lo a tomar parte na festa (cf. 15, 28). Contudo o filho mais velho parece não gostar das festas de boas-vindas, custava-lhe suportar a alegria do pai, não reconhece o regresso do seu irmão: «esse teu filho» (15, 30) – dizia. Para ele, o irmão continua perdido, porque já o perdera no seu coração.
       Incapaz de participar na festa, não só não reconhece o irmão, mas tão-pouco reconhece o pai. Prefere ser órfão à fraternidade, o isolamento ao encontro, a amargura à festa. Custa-lhe não só compreender e perdoar a seu irmão, mas também aceitar ter um pai capaz de perdoar, disposto a esperar e velar por que ninguém fique fora; enfim, um pai capaz de sentir compaixão.

       No limiar daquela casa, parece manifestar-se o mistério da nossa humanidade: por um lado, temos a festa pelo filho reencontrado e, por outro, um certo sentimento de traição e indignação por se festejar o seu regresso. Por um lado, a hospitalidade para quem experimentara tal miséria e sofrimento, que chegara ao ponto de exalar o cheiro dos porcos e querer alimentar-se com o que eles comiam; por outro, a irritação e o ressentimento por se dar lugar a alguém que não era digno nem merecedor de tal abraço.
       Deste modo, mais uma vez vem à luz a tensão que se vive no meio da nossa gente e nas nossas comunidades, e até dentro de nós mesmos. Uma tensão que, a partir de Caim e Abel, mora em nós e que somos convidados a encarar: Quem tem direito a permanecer entre nós, ocupar um lugar à nossa mesa e nas nossas assembleias, nas nossas solicitudes e serviços, nas nossas praças e cidades? Parece continuar a ressoar aquela pergunta fratricida: Porventura sou eu o guardião do meu irmão? (cf. Gn 4, 9).
       No limiar daquela casa, surgem as divisões e desencontros, a agressividade e os conflitos que sempre atingirão as portas dos nossos grandes desejos, das nossas lutas pela fraternidade e pela possibilidade de cada pessoa experimentar desde já a sua condição e dignidade de filho.
       Mas no limiar daquela casa brilhará também em toda a sua claridade, sem lucubrações nem desculpas que lhe tirem força, o desejo do Pai: que todos os seus filhos tomem parte na sua alegria; que ninguém viva em condições desumanas como seu filho mais novo, nem na orfandade, isolamento ou amargura como o filho mais velho. O seu coração quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (cf. 1 Tm 2, 4).

       Sem dúvida, há tantas circunstâncias que podem alimentar a divisão e o conflito; são inegáveis as situações que podem levar a afrontar-nos e dividir-nos. Não podemos negá-lo. Estamos sempre ameaçados pela tentação de crer no ódio e na vingança como formas legítimas de obter justiça de maneira rápida e eficaz. Mas a experiência diz-nos que a única coisa que conseguem o ódio, a divisão e a vingança é matar a alma da nossa gente, envenenar a esperança dos nossos filhos, destruir e fazer desaparecer tudo o que amamos.
       Por isso, Jesus convida-nos a fixar e contemplar o coração do Pai. Só a partir dele poderemos, cada dia, redescobrir-nos como irmãos. Só a partir deste horizonte amplo, capaz de nos ajudar a superar as nossas míopes lógicas de divisão, é que seremos capazes de alcançar um olhar que não pretenda obscurecer ou desmentir as nossas diferenças, buscando talvez uma unidade forçada ou uma marginalização silenciosa. Só se formos capazes diariamente de levantar os olhos para o céu e dizer Pai Nosso, é que poderemos entrar numa dinâmica que nos possibilite olhar e ousar viver, não como inimigos, mas como irmãos.

       «Tudo o que é meu é teu» (Lc 15, 31): diz o pai ao filho mais velho. E não se refere apenas aos bens materiais, mas a ser participante também do seu próprio amor e compaixão. Esta é a maior herança e riqueza do cristão. Com efeito, em vez de nos medirmos ou classificarmos com base numa condição moral, social, étnica ou religiosa, podemos reconhecer que existe outra condição que ninguém poderá apagar ou aniquilar, pois é puro dom: a condição de filhos amados, esperados e festejados pelo Pai.
       «Tudo o que é meu é teu», incluindo a minha capacidade de compaixão: diz-nos o Pai. Não caiamos na tentação de reduzir a nossa filiação a uma questão de leis e proibições, de deveres e seu cumprimento. A nossa filiação e a nossa missão nascerão, não de voluntarismos, legalismos, relativismos ou integrismos, mas da imploração feita por pessoas crentes que diariamente rezam com humildade e constância: Venha a nós o vosso Reino.
       A parábola do Evangelho deixa aberto o final. Vemos o pai rogar ao filho mais velho que entre e participe na festa da misericórdia; mas o evangelista nada diz acerca da decisão que ele tomou. Ter-se-á associado à festa? Podemos pensar que este final aberto sirva para cada comunidade, cada um de nós o escrever com a sua vida, o seu olhar e atitude para com os outros. O cristão sabe que, na casa do Pai, há muitas moradas; de fora, ficam apenas aqueles que não querem tomar parte na sua alegria.

       Queridos irmãos, quero agradecer-vos pela forma como dais testemunho do Evangelho da misericórdia nestas terras. Obrigado pelos esforços feitos para tornardes as vossas comunidades oásis de misericórdia. Animo-vos e encorajo a continuar a fazer crescer a cultura da misericórdia, uma cultura na qual ninguém olhe para o outro com indiferença nem desvie o olhar ao ver o seu sofrimento (cf. Carta ap. Misericordia et misera, 20). Continuai ao lado dos humildes e dos pobres, daqueles que são rejeitados, abandonados e ignorados; continuai a ser sinal do abraço e do coração do Pai.
       Que o Misericordioso e o Clemente – como tantas vezes O invocam os nossos irmãos e irmãs muçulmanos – vos fortaleça e faça frutificar as obras do vosso amor.


Papa Francisco
Complexo Desportivo Príncipe Moulay Abdellah - Rabat, 31 de março de 2019)

quarta-feira, 20 de março de 2019

O Filho do homem vai ser entregue...

        Disse-lhes Jesus: «Vamos subir a Jerusalém e o Filho do homem vai ser entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas, que O condenarão à morte e O entregarão aos gentios, para ser por eles escarnecido, açoitado e crucificado. Mas ao terceiro dia Ele ressuscitará»...
       «Sabeis que os chefes das nações exercem domínio sobre elas e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem entre vós quiser tornar-se grande seja vosso servo e quem entre vós quiser ser o primeiro seja vosso escravo. Será como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção dos homens» (Mt 20, 17-28).
       Jesus não veio para ser servido como um príncipe ou como uma rei, mas veio ao mundo para servir e dar a vida a favor da humanidade inteira.
       Hoje, o Evangelho mostra-nos a anúncio da paixão de Jesus. A caminhada para Jerusalém - a cidade santa - é uma caminhada para o desfecho da missão, rumo à CRUZ. Neste trajeto, a mãe dos filhos de Zebedeu pede a Jesus que os coloque à Sua esquerda e à Sua direita. É a procura pelo melhor lugar. Os outros discípulos contestam, pois também disputam os lugares mais importantes. Jesus inverte a lógica: quem quiser ser o maior faça servo de todos. O serviço é o caminho de Jesus Cristo até ao Pai, até à eternidade.
       O fim anunciado, mas não o esperado pelos discípulos de Jesus. No II Domingo da Quaresma, o Evangelho apresentava-nos a Transfiguração de Jesus, que surge precisamente neste contexto, em que Jesus lhes diz que será entregue às autoridades dos judeus, e depois será morto.

sábado, 16 de março de 2019

Domingo II da Quaresma - ano C - 17 de março de 2019

Amai os vossos inimigos

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus; pois Ele faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos. Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem a mesma coisa os publicanos? E se saudardes apenas os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Portanto, sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5, 43-48).
       O paradigma de Jesus é bem mais elevado e saudável que a nossa limitação. É certo que nós também sabemos que o perdão é muito mais eficaz e faz-nos melhor à saúde que o rancor, a inveja e o desejo de vingança. Mas quando nos fazem mal a nós, aí já se torna mais delicado perdoar. Mas, ainda que momentaneamente nos pareça humilhação, com o tempo perceberemos que é o único caminho que nos liberta, que nos faz sentir bem connosco, com o mundo e com Deus. Dar a outra face, amar até os inimigos, ser perfeitos como o Pai celeste é perfeito. É este o modelo de vida que Jesus nos propõe.
       Amar os nossos amigos é tarefa de fácil execução, não custa nada. Agora, amar os inimigos, aqueles de quem não gostamos, que nos fizeram mal ou a quem nós fizemos mal já é uma missão muito pesada, mas, garante Jesus, muito libertadora e que nos dignifica.
       Como é que podemos rezar por alguém que nos fez mal? Como é que podemos amar alguém que disse mal de nós? Como podemos nutrir sentimentos positivos por alguém que não vemos com bons olhos? Não é fácil, mas é o mandamento de Jesus. A referência é Deus Pai. O cristão não se fixa nos mínimos garantidos, mas almeja o máximo, a perfeição de Deus.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Pedi e dar-se-vos-á, procurai e encontrareis...

        Disse Jesus aos seus discípulos: «Pedi e dar-se-vos-á, procurai e encontrareis, batei à porta e abrir-se-vos-á. Porque todo aquele que pede recebe, quem procura encontra e a quem bate à porta abrir-se-á. Qual de vós dará uma pedra a um filho que lhe pede pão, ou uma serpente se lhe pedir peixe? Ora, se vós que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está nos Céus as dará àqueles que Lhas pedem! Portanto, o que quiserdes que os homens vos façam fazei-lho vós também: esta é a Lei e os Profetas» (Mt 7, 7-12)
       A desafio é de Jesus: pedir. Rezar incessantemente, confiar em Deus, confiar que Deus atenderá à nossa súplica. Tal como o pai não deixa de atender ao seu filho, assim também Deus não deixará sem resposta e sem auxílio aqueles que Lhe pedem com fé.
       Veja-se a belíssima oração de Ester, na primeira leitura proposta para hoje:

       «Meu Senhor, nosso único Rei, vinde socorrer-me, porque estou só e não tenho outro auxílio senão Vós e corre perigo a minha vida. Desde criança, ouvi dizer na minha tribo paterna que Vós, Senhor, escolhestes Israel entre todos os povos e os nossos pais entre os seus antepassados, para serem a vossa herança perpétua, e cumpristes tudo o que lhes tínheis prometido. Lembrai-Vos de nós, Senhor, e manifestai-Vos no dia da nossa tribulação. Fortalecei-me, Rei dos deuses e Senhor dos poderosos. Ponde em meus lábios palavras harmoniosas, quando estiver na presença do leão, e mudai o seu coração, para que deteste o nosso inimigo e o arruíne com todos os seus cúmplices. Livrai-nos com a vossa mão; vinde socorrer-me no meu abandono, porque não tenho ninguém senão Vós, Senhor» (Est 4, 17).

terça-feira, 12 de março de 2019

Quando orardes dizei: Pai-nosso...

       "Orai assim: ‘Pai nosso, que estais nos Céus, santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso reino; seja feita a vossa vontade assim na terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal’. Porque se perdoardes aos homens as suas faltas, também o vosso Pai celeste vos perdoará. Mas se não perdoardes aos homens, também o vosso Pai não vos perdoará as vossas faltas" (Mt 6, 7-15).
       O Pai-nosso é a única oração que Jesus nos ensina. Concentra o essencial da mensagem cristã. Revelação de Deus como Pai, próximo, providente, preocupado com a humanidade. Soberania de Deus, nos céus e na terra. Realizando a vontade de Deus não nos sujeitaremos a ditaduras materiais ou humanas. A fé que nos conduz ao compromisso, a trabalhar honestamente pelo pão de cada dia, a partilhar do que temos com quem tem menos ou nada tem. A mensagem de perdão, bem acentuada por Jesus. O perdão traz-nos a saúde, liberta-nos do azedume, da indisposição. O perdão tem raiz no perdão de Deus. Deus ama-nos infinitamente, perdoando mesmo antes de iniciarmos o nosso processo de regresso. O sentirmo-nos perdoados deve levar-nos ao perdão ao próximo...

segunda-feira, 11 de março de 2019

Juízo final e as obras de misericórdia

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Quando o Filho do homem vier na sua glória com todos os seus Anjos, sentar-Se-á no seu trono glorioso. Todas as nações se reunirão na sua presença e Ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos; e colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai; recebei como herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e Me recolhestes; não tinha roupa e Me vestistes; estive doente e viestes visitar-Me; estava na prisão e fostes ver-Me’. Então os justos Lhe dirão: ‘Senhor, quando é que Te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber? Quando é que Te vimos peregrino e Te recolhemos, ou sem roupa e Te vestimos? Quando é que Te vimos doente ou na prisão e Te fomos ver?’. E o Rei lhes responderá: ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes’. Dirá então aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e os seus anjos. Porque tive fome e não Me destes de comer; tive sede e não Me destes de beber; era peregrino e não Me recolhestes; estava sem roupa e não Me vestistes; estive doente e na prisão e não Me fostes visitar’. Então também eles Lhe hão-de perguntar: ‘Senhor, quando é que Te vimos com fome ou com sede, peregrino ou sem roupa, doente ou na prisão, e não Te prestámos assistência?’ E Ele lhes responderá: ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o deixastes de fazer a um dos meus irmãos mais pequeninos, também a Mim o deixastes de fazer’. Estes irão para o suplício eterno e os justos para a vida eterna» (Mt 25, 31-46).
       É-nos apresentado hoje o evangelho do Juízo Final. É a fé que nos salva, mas uma fé vivida e autenticada pela relação com os outros, pelo compromisso com os nossos irmãos em situação mais frágil. Claramente Jesus nos diz que Ele está na pessoa, em todas as pessoas, mas de forma privilegiada nos mais pobres, nos mais pequeninos. Ele Se fez pobre, identificado-Se com as nossas pobrezas e fraquezas, para nos elevar. O início da transformação do mundo inicia no exato momento em que as pessoas afastadas da cultura, da política, da sociedade, da religião, são tidas em conta.
       O cristianismo não é um exercício meramente intelectual. Não é uma filosofia envolvente. O cristianismo não é um conjunto de regras e/ou de verdades. Pode ser tudo isso. Antes de mais, porém, é a história de um encontro, de uma pessoa, de Jesus Cristo, que Se oferece por nós.
       Ser cristão implica-nos com Jesus. Implica que em tudo sigamos a lógica de Jesus, do perdão, da caridade, do dar a vida. A fé liga-nos a Deus, mas não pode, em nenhum situação afastar-nos dos outros. Não amamos a Deus se desprezarmos ou ignorarmos os irmãos.
       Agora e no final, Deus pedir-nos-á conta dos nossos irmãos. A reposta de Caim não vale: acaso sou guarda do meu irmão? Jesus dá claramente uma resposta diferente. Também nós teremos que a dar. Somos responsáveis uns pelos outros, especialmente responsáveis pelos que têm mais necessidade do nosso cuidado.

Tomáš Halík e Anselm Grün - O abandono de Deus

TOMÁŠ HALÍK e ANSELM GRÜN (2017). O Abandono de Deus. Prior Velho: Paulinas Editora. 224 páginas
       Tomáš Halík nasceu a 1 de junho de 1948, em Praga, na Checoslováquia num ambiente e numa família ateia ou a-religiosa. Batizados os pais pararam na Primeira Comunhão e, seguindo a tradição, batizam o filho, mas não têm mais ligações à Igreja. Por volta dos 18 anos, Halík encontra-se com a fé e, particularmente, com o cristianismo. Licenciou-se em Ciências Sociais e Humanas pela Faculdade de Filosofia da Universidade de Charles, em Praga e, clandestinamente, estudou teologia em Praga, tendo entretanto começado a frequentar a Igreja, a escutar os sermões, tornando-se acólito e sentindo a vocação ao sacerdócio, foi ordenado em Erfurt, em 1978. Durante o período comunista, considerado inimigo do regime, é impedido da docência universitária. Assume, então, a profissão de psicoterapeuta de toxicodependentes, situando-se na linha dos padres operários, pois não pode revelar a sua identidade eclesial. Com o fim do comunismo no seu país natal, pode então viajar pelo mundo inteiro. Em 1989, Papa João Paulo II desafia-o a estudar na Universidade Pontifícia de Roma, Lateranense, frequentando aí um curso de pós-graduação. Frequentará outra pós graduação na Faculdade Pontifícia de Teologia de Wroclaw, na Polónia. Trabalhou de perto com o futuro Presidente Václav Havel e, após 1989, tornou-se num dos seus conselheiros. Depois da queda do Comunismo, serviu como Secretário-geral da Conferência Episcopal da República Checa (1990-93).
Halik continua a ser professor de sociologia na Universidade de Charles, em Praga (Departamento de Estudos Religiosos, Faculdade de Letras), pároco da Paróquia Académica e Presidente da Academia Cristã da República Checa. Em 1992, o Papa João Paulo II nomeou-o conselheiro do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso e, em 2009, o Papa Bento XVI concedeu-lhe o título de Monsenhor – Prelado Honorário de Sua Santidade.

       Anselm Grün, monge beneditino e doutor em teologia, nasceu em 1945 em Junkershausen, na Alemanha, numa ambiente católico, com a família comprometida com a Igreja, é sobrinho de um padre. Cresceu em Munique, ajudava na loja de materiais elétricos de seus pais. Aos 19 anos, entrou para a Abadia Beneditina Muensterschwarzach, perto de Würzburg, na Bavária, onde vive até hoje. Ali aprendeu sobre a arte da liderança e da gestão de pessoas descobrindo conexões entre a Regra de São Bento, a Bíblia e a psicologia moderna. Esse, provavelmente, tenha sido o ponto de partida para aperfeiçoar-se e dar início às suas atividades de conselheiro espiritual, palestrante e mestre em autoconhecimento. Nos seus livros e cursos, procura responder às necessidades e problemas mais comuns e urgentes da existência humana, como os desafios que conduzem ao amadurecimento, os relacionamentos pessoais, a presença de Deus no quotidiano e outras questões ligadas à espiritualidade, recorrendo aos seus conhecimentos filosóficos, teológicos e da tradição cristã, assim como de psicologia, meditação e contemplação. Publicou o seu primeiro livro em 1976. Hoje é autor de mais de 300 obras, traduzidas para 28 idiomas, sempre em linguagem acessível e clara. Em 2013, a Universidade de Friburgo, na Suíça, sediou o simpósio “Teologia e linguagem em Anselm Grün”, organizado pela cátedra de Teologia Pastoral, Pedagogia Religiosa e Homilética e pela Pastoral Universitária de Berna.

        Claro que a biografia destes dois homens de fé é importante. O livro que escreveram em conjunto tem muita das suas vidas de fé. Halík, nascido num ambiente ideologicamente contrário à fé, numa família, segundo o próprio, sem ligação à Igreja mas que vivia um humanismo secular. Foi descobrindo a fé e a Igreja, ordenando-se sacerdote clandestinamente. A democracia na Checoslováquia (a partir de 1 de janeiro de 1993, a Checoslováquia deu lugar à República Checa e  Eslováquia) trouxe novos desafios e problemas. Não foi fácil conciliar a Igreja que vivia clandestinamente com a Igreja que conviveu com o regime, sendo que agora já não havia um inimigo a combater. Um dos propósitos de Halík é o diálogo com a cultura, o seu ambiente natural é a Universidade, o ecumenismo, o diálogo com outras religiões, mas também o diálogo com os descrentes ou os ateus. Uma das figuras com que dialoga é com Nietzsche, o filósofo alemão que pregou a morte de Deus.
       Por sua vez, Anselm Grün nasce num ambiente cristão. Aos 19 anos entrou para uma abadia beneditina, aperfeiçoando a arte da liderança e da gestão de pessoas, relacionando Bíblia, regra de São Bento e psicologia moderna, escrevendo livros, ministrando cursos, procurando responder a problemas concretos das pessoas. A temática da fé está bem patente nas suas palestras e nos seus livros. No diálogo com o "ateísmo", Grün tem como interlocutor Ludwig Feuerbach, filósofo alemão, conhecido pelo seu ateísmo humanista.
       Ambos os autores têm uma referência comum: a psicologia da profundidade de CG. Jung. A psicologia pode não demonstrar Deus, mas conclui que a imagem de Deus está profundamente gravada na nossa psique. É possível que um crente esteja mais próximo de um ateu do que de outro crente. Para Halík o cristianismo é a religião dos paradoxos que abarca a Sexta-feira santa e a alegria da Páscoa. O negativo é quando só se fixa na sexta-feira santa e não se abre à Páscoa.
Grün recorre a Karl Rahner, para quem Deus é sempre um mistério incompreensível. E o mistério exige uma busca permanente. O crente está a caminho. Melhor, crente e descrente convivem em cada um de nós. Também nós, cristãos, fomos ateus durante 400 anos, assim considerados por judeus e romanos.

         A obra visa dialogar com os ateus, com os descrentes, não para a fé, para para a enriquecer com as interrogações dos descrentes, no reconhecimento que também as pessoas de fé passam por momentos de crise, de dúvida, como Santa Teresinha ou Madre Teresa de Calcutá, ou São João da Cruz. Por outro lado, a certeza que há muitas formas de ateísmo, ateísmo prático, de quem não quer saber, científico, de quem quer provar a inexistência de Deus, ao ateísmo do sofrimento, de quem perdeu alguém ou o sentido para a via, de quem busca. Os dogmáticos de um lado e de outro, excluem-se, talvez combatendo o que neles próprios é medo e trevas. Quem não se interroga, crente ou descrente, perde a oportunidade de aprender e de crescer.