sábado, 18 de fevereiro de 2017

Domingo VII do Tempo Comum - ano A - 19.02.2017

       1 – «Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo». Deus manda Moisés convocar o povo para a santidade, não por capricho, mas para que viva e progrida como povo. A santidade é um compromisso de bondade e de serviço. "Não odiarás do íntimo do coração os teus irmãos, mas corrigirás o teu próximo, para não incorreres em falta por causa dele. Não te vingarás, nem guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor".
       Só Deus é Deus e se o mandamento vem d'Ele então não há que temer pois não vem armadilhado, não tem letras pequeninas, nem condições escondidas ou disfarçadas. Deus não tem a pretensão de concorrer connosco ou de nos dominar ou de nos fazer escravos. Ele é o Senhor. Está acima e além de nós. Não nos faz sombra. Não tem a preocupação de nos mostrar que é melhor do que nós, como por vezes nos acontece, competimos tanto que nos esquecemos de viver, de nos apreciarmos mutuamente nos dons e nas qualidades e na entreajuda. "Onde Deus reina como Pai, os homens já não podem reinar uns sobre os outros" (J. Antonio Pagola). Ser santo, aperfeiçoar-se como pessoa, tornar-se melhor, é um desafio e um compromisso de cumprirmos com a nossa humanidade. Quanto mais aprendermos, quando mais nos aproximarmos uns dos outros, quanto mais desenvolvermos as nossas capacidades para deixar marcas positivas no mundo, tanto mais seremos humanos, criados à imagem e semelhança de Deus.
       A Lei dada por Deus ao povo através de Moisés prepara-nos para a grandeza! Atenção, não nos prepara para a sobranceria, para a arrogância, para prepotência! Mas para a grandeza que nos embeleza e nos humaniza, que nos aproxima uns dos outros e nos irmana, levando-nos a gastar-nos pelos outros, a persistir nas dificuldades, a solidarizar-nos nas aflições e a caminhar juntos!
       2 – Jesus faz-nos passar dos mínimos garantidos para o máximo. Não contra os outros ou apesar deles. Mas em relação a nós próprios. O caminho é superar-nos constantemente. Não desistir. Insistir. Dando o melhor. No Sermão da Montanha Jesus exige de nós. Não exige pouco ou muito. Exige tudo. E a acrescentar a isto, a superação visa sintonizar-nos com o sofrimento dos outros, com o seu peregrinar, com as suas lutas. Melhorar a minha performance para ser mais prestável aos outros. Sou abençoado na medida em que me torno bênção para os outros.
       Hoje pudemos escutar novamente a contraposição de Jesus, pela positiva. «Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, digo-vos: Não resistais ao homem mau. Mas se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda». De enxurrada, intenso e imenso. Jesus já tinha surpreendido com as Bem-aventuranças, invertendo a lógica do poder e da felicidade. Agora, à lei de talião, apõe a não-violência e o perdão. Diga-se que a lei de talião já era preventiva, olho por olho e dente por dente promovia uma justiça (popular) equitativa. Se me partem um dente, eu não tenho o direito a partir dois!
       Mas Jesus vai mais longe. «Se alguém quiser levar-te ao tribunal, para ficar com a tua túnica, deixa-lhe também o manto. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas. Dá a quem te pedir e não voltes as costas a quem te pede emprestado. Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus».
       3 – O caminho da santidade, do aperfeiçoamento funda-se e fundamenta-se em Deus. Relembrando sempre as palavras sábias do então Cardeal Joseph Ratzinger (Bento XVI): para o Reino de Deus há tantos caminhos como as pessoas. Porém, Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida. O meu caminho, o teu caminho, há de levar-nos a Jesus, há de levar-nos ao Pai. Sendo assim, quanto mais perto eu estiver de Jesus e quanto mais perto tu estiveres de Jesus, mais perto vamos estar um do outro. E se estamos próximos poderemos apoiar-nos mutuamente, ajudar-nos, incentivar-nos quando um de nós estiver a fraquejar.
       No Reino de Deus não há excluídos, pois os nossos caminhos hão de desembocar em Jesus. Por conseguinte, estamos "condenados" a aproximar-nos uns dos outros. Na verdade, diz-nos Jesus, Deus é Pai de todos e «faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos». A bênção recai sobre todos. Temos afinidades. Por certo. Mas nem por isso estamos dispensados de amarmos até os nossos inimigos, os que nos são indiferentes, os que desprezamos. Aliás, questiona Jesus, que vantagem haveria em amar aqueles que nos amam? Isso todos podem fazer. Os discípulos de Jesus são desafiados ao máximo. E o máximo é Deus. «Portanto, sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito».
       A vinda de Jesus ao mundo, Deus que Se faz Homem, tem como missão reconciliar-nos a todos com Deus. Pelo mistério da Sua morte e da Sua ressurreição, Jesus resgata-nos das trevas, do pecado e da morte, para nos reconduzir ao Coração do Pai. "Ele perdoa todos os teus pecados e cura as tuas enfermidades; salva da morte a tua vida e coroa-te de graça e misericórdia. / O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade; não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos castigou segundo as nossas culpas. / Como o Oriente dista do Ocidente, assim Ele afasta de nós os nossos pecados; como um pai se compadece dos seus filhos, assim o Senhor Se compadece dos que O temem" (Salmo).
       4 – Também em São Paulo descortinamos esta corresponsabilidade pela salvação, que nos é dada por Jesus Cristo, mas que nos impele a sermos instrumentos redentores uns para os outros. O outro é Presença de Deus, é Rosto que nos desafia e interpela, na sensibilidade de Emmanuel Levinas, é Rosto que irrompe e me chama, é um apelo da eternidade, do Infinito, que não é redutível a mim, mas me provoca, me interpela, pois no face a face encontro-me com o divino e então é mais forte o mandamento "não matarás". Se nos recordarmos do crime de Caim contra o seu irmão Abel, a sentença de Deus questiona-nos e responsabiliza-nos pelo sangue dos nossos irmãos, pelas suas vidas. Somos guardas dos nossos irmãos ou seremos Caim uns para os outros!
       O Apóstolo interroga-nos: «Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é santo, e vós sois esse templo. Ninguém tenha ilusões. Se alguém entre vós se julga sábio aos olhos do mundo, faça-se louco, para se tornar sábio. Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus». É a nossa grandeza: na nossa pobreza e humildade, deixarmo-nos guiar pela sabedoria de Deus, mesmo que pareçamos loucos. O decisivo é que Cristo reine em nós. “Onde o reinado de Deus vai abrindo caminho, vai-se construindo comunicação, solidariedade, comunhão e fraternidade” (Pagola).
       Em Maria encontramos uma modelo de humildade ao ponto de n’Ela se gerar o próprio Deus. Como Ela, também nós possamos dizer: a minha alma engrandece o Senhor. Traduzindo: que em nós se manifeste a grandeza de Deus. Para isso precisamos de ser templo e transparência e respiração de Deus.
       Na Carta aos Coríntios, que temos vindo a escutar, São Paulo insiste na necessidade de viver Jesus, transparecer Jesus, testemunhar Jesus. Em tudo. Em toda a parte. Com todos. Para louvor e glória de Deus Pai. «Tudo é vosso: Paulo, Apolo e Pedro, o mundo, a vida e a morte, as coisas presentes e as futuras. Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus». O apóstolo alerta-nos para não confundirmos o mensageiro (eu, tum, cada um de nós) com a Mensagem (Jesus e o Seu Evangelho de Amor). Não nos anunciamos. Anunciamos Jesus Cristo, morto e ressuscitado!

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia (A): Lev 19, 1-2. 17-18; Sl 102 (103); 1 Cor 3, 16-23; Mt 5, 38-48.

São Teotónio, Presbítero

Nota biográfica:
       Nasceu em Ganfei (Valença do Minho) aproximadamente no ano 1082 e foi educado piedosamente desde a infância. Quando D. Crescónio, seu tio, foi nomeado bispo de Coimbra, levou-o consigo para esta cidade e confiou ao arcediago D. Telo a sua formação nas disciplinas eclesiásticas. Depois de ordenado sacerdote, foi nomeado prior da Igreja da Sé de Viseu. Fez duas peregrinações à Terra Santa. No regresso da segunda peregrinação, insistentemente convidado por D. Telo e outros dez homens de grande virtude, fundou com eles o mosteiro da Santa Cruz em Coimbra, de que foi membro eminente e muito admirado, nomeadamente por S. Bernardo de Claraval. Teve também papel importante em algumas conjunturas da pátria. Morreu em 1162.
Oração:
       Senhor nosso Deus, que pela palavra e pelo exemplo de São Teotónio reformastes a disciplina religiosa, concedei-nos, por sua intercessão, que, escolhendo o caminho estreito da perfeição cristã, mais facilmente alcancemos a vida eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo... 

Da Vida de São Teotónio, escrita por um autor contemporâneo, seu discípulo

Bom mediador entre Deus e os homens

Desde que foi ordenado sacerdote, Teotónio deu mostras evidentes de grande progresso no caminho da perfeição e santidade. A sua vida era para todo o povo de Deus um admirável exemplo de virtude.
Desempenhava com exímia perfeição as obrigações da sua ordem [sacerdotal]: instruía na fé as gentes rudes e incorporava-as na Igreja pelo baptismo; chamava os pecadores à penitência e, curando-os com a medicina das suas orações e palavras de encorajamento, absolvia-os e reconciliava-os com a Igreja; como bom mediador entre Deus e os homens, a todos ensinava os preceitos divinos e pregava a verdade, apresentava ao Senhor as preces dos fiéis e intercedia diante de Deus pelos pecados do povo, oferecia no altar o sacrifício de expiação, recitava as orações e abençoava os dons de Deus.
Na igreja comportava-se sempre com santa reverência e temor de Deus, e cumpria as funções sagradas com toda a perfeição.
Desprezava a sumptuosidade e as enganadoras seduções do mundo; não se envaidecia com os louvores, nem se exaltava com a riqueza, nem se amargurava com a pobreza.
Há quem o louve pela sua renúncia total às curiosidades, divertimentos, ostentações e coisas semelhantes; eu, porém, considero não menos digna de louvor a sua perfeição na virtude da castidade, comprovada pela circunspecção e prudência em todas as suas acções.
Com a ajuda do Senhor, passarei agora a contar como Teotónio veio a tomar o hábito de Cristo e como viveu na Religião sob a regra de Santo Agostinho. Desde a sua entrada na Religião, ele sobressaía notavelmente entre os demais pela santidade de costumes, extraordinária abstinência e assídua oração. Continuamente dirigia a Deus as suas preces; e, quando deixava de rezar, lançava mão da leitura sagrada, aplicando-se principalmente à Salmodia. Com efeito, além das Horas Canónicas e todo o Ofício Divino, em que se empenhava fielmente com santa reverência e temor de Deus, rezava cada dia todo o Saltério.
O tempo que lhe restava era para se ocupar em exercícios de boas obras ou em diversos serviços do mosteiro.
Longe de transigir com qualquer atractivo de vícios ou vaidades mundanas, era sua constante predilecção o recolhimento, a mansidão, o silêncio e a paz. Finalmente – coisa rara no nosso tempo – foi tão profunda a sua humildade, que parecia querer passar pelo mais esquecido de todos e o último dos servos de Deus.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

VL – A autoridade Jesus e dos seus discípulos: o serviço

       A liturgia dos últimos e dos próximos domingos serve-nos o Sermão da Montanha (Mt 5,1-7,29), que começa com as Bem-aventuranças e termina desta forma: “Quando Jesus acabou de falar, a multidão ficou vivamente impressionada com os seus ensinamentos, porque Ele ensinava-os como quem possui autoridade e não como os doutores da Lei”.
       Quando ouvimos falar em autoridade quase sempre nos lembramos de poder, de arrogância, de sobranceria. Jesus, desde o início, faz saber aos seus discípulos, daquele e de todos os tempos, que a Sua lógica é diferente, o Seu poder está no amor, no serviço, no gastar a vida não por quem merece mas por todos e especialmente pelos excluídos, os pecadores, os pobres, os doentes.
       Um dia destes, um agente da GNR mandou-me encostar. Como em todas as profissões e/ou vocações há gente boa e gente maldisposta. Seja onde for tenho consciência que cumprem a sua missão. E assim foi. Documentos pessoais e da viatura. Colete. Triângulo. Deu a volta ao carro. Sempre com um ar descontraído, humano. E no final: tenha um bom domingo. Pode arrancar quando puder. Tudo de bom. Cumpriu com zelo, mas também com simpatia o seu dever. E com um gracejo final. Simples. É possível ser sério sem ser carrancudo, arrogante ou implicante. (Em nenhum momento revelei a minha identidade sacerdotal).
       Na linguagem como na vida, Jesus apresenta-Se dócil, próximo, a favor dos mais desfavorecidos e da integração de todos no Reino de Deus, repudiando as injustiças, as invejas e os ódios, promovendo o serviço, o amor e o perdão, contando connosco, comigo e contigo. Cada pessoa conta. Cada um de nós é assumido como irmão, filho bem-amado do Pai. Jesus vem desfazer os muros da incompreensão, do egoísmo, da intolerância, da violência e construir pontes e laços de entreajuda, de comunhão e de fraternidade.
       No Sermão da Montanha Jesus acentua a humildade, o despojamento, a pobreza, mas nunca a desistência ou o conformismo. São felizes os que lutam pela justiça e promovem a paz, os que usam de misericórdia e cuja compaixão constrói humanidade. Jesus não desiste. Vai até ao fim. Por amor. A Sua autoridade caracteriza-se pela bondade, por atrair os que foram colocados de parte pela política, pela sociedade e pela religião. Para Ele não há pessoas perdidas, todos podem recomeçar e ser parte importante no Seu reino de amor. Como nos lembrou há pouco o Papa Francisco, “não há santos sem história, nem pecadores sem futuro”.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4398, de 14 de fevereiro de 2017

Tabuaço: Grupo de Jovens foi ao cinema ver o Silêncio

       Nestes últimos tempos temos ouvido falar sobre o filme o “SILÊNCIO”
       Trata-se de um filme, baseado no romance de Shusaku Endo, católico japonês, que narra a história de dois padres jesuítas portugueses, Sebastião Rodrigues e Francisco Garpe, que como missionários vão para o Japão. Têm como missão descobrir o paradeiro de um outro padre, Cristóvão Ferreira, que depois de torturado, terá renegado a sua fé.
       Por tudo o que nos vinha chegando, parecia ser um filme que nos colocava várias questões, relativamente às dúvidas de fé, às de fidelidade, ao silêncio de Deus…
       Sentindo o desafio de nos questionarmos, o Grupo de Jovens da nossa paróquia foi, no passado sábado, 11 de fevereiro, ver o filme. Depois de nos acomodarmos confortavelmente nas cadeiras da sala, não esquecendo as pipocas, lá começamos a vê-lo.
       Com o decorrer do filme vai-se instalando o suspense entre todos. Algumas das cenas vividas despertam-nos para realidades muito presentes, como a perseguição aos cristãos!
       No final ficamos todos um pouco baralhados. A necessidade de refletirmos sobre o que vimos era evidente. Esse era o objetivo! Interpelarmo-nos sobre o que sentimos e, de certa forma, identificar, nas nossas vidas, situações semelhantes, de dúvida, hesitação, interrogação do silêncio de Deus.
       Brevemente, numa próxima reunião do grupo, teremos um tempo de reflexão sobre o que vimos e sentimos. Acredito que todos sairemos mais fortalecidos na fé e no amor a Deus!

Graça Ferraz, Grupo de Jovens de Tabuaço
in Voz de Lamego, ano 87/14, n.º 4399, 14 de fevereiro de 2017

Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo

       Jesus chamou a multidão com os seus discípulos e disse-lhes: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á. Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? Que daria o homem em troca da sua vida? Portanto, se alguém se envergonhar de Mim e das minhas palavras no meio desta geração infiel e pecadora, também o Filho do homem Se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai, com os santos Anjos». Jesus declarou-lhes ainda: «Em verdade vos digo: Alguns dos que estão aqui presentes não morrerão, sem terem visto chegar o reino de Deus com o seu poder» (Mc 8, 34 – 9, 1).
       No Evangelho proposto para a hoje, Jesus clarifica as condições do seguimento, para os discípulos e para a multidão. Não se trata de exigências distintas, mas da mesma urgência. Para O seguimos é necessário que não nos centremos em nós, no nosso umbigo, mas nos centremos em Deus e nos outros. Na volta, se todos seguirmos na procura da mesma perspetiva, seremos compensados, na partilha solidária, na comunhão, na vivência da mesma fé. O mal da sociedade, ou a origem de todos os males é precisamente o egoísmo, cada um pensar apenas em si mesmo, ou cada empresa pensar apenas no lucros dos gerentes e/ou proprietários, ou o partido só defender e promover os seus à custa da maioria dos cidadãos... e depois vêm as crises!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

VL – Deus não mora à superfície…

       O Profeta de Elias, depois de matar os profetas idólatras, é avisado pelo Rei Acaz que o mesmo lhe sucederá. Elias sai da cidade e caminha pelo deserto. Já esgotado, pede ao Senhor que lhe tire a vida. O anjo do Senhor aparece-lhe por duas vezes e ordena-lhe: «Levanta-te e come, pois tens ainda um longo ca­mi­nho a per­correr». Elias faz como o Senhor lhe ordena e dirige-se para o monte Horeb. Aí passa a noite. O Senhor faz saber a Elias que vai passar… «Passou um vento impetuoso e violento, que fendia as montanhas e quebrava os rochedos diante do Senhor; mas o Senhor não se encontrava no vento. Depois do vento, tremeu a terra. Passou o tremor de terra e ateou-se um fogo; mas nem no fogo se encontrava o Senhor. Depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma brisa suave. Ao ouvi-lo, Elias cobriu o rosto com um manto, saiu e pôs-se à entrada da caverna» (1 Reis 19, 1- 14).
       Deus nem sempre é evidente. Em questões de fé nem tudo é branco e preto. Um crente passa por momentos de treva, de dúvida e hesitação. Um “ateu” pode estar perto de Deus, em busca, a percorrer um caminho de aproximação.
       É, em meu entender, uma das linhas condutoras do texto de Tomáš Halík, Paciência com Deus, procurando fazer pontes, prevenir juízos precipitados, para não encerrar o próprio Deus em ideias preconcebidas e limitando a Sua ação.
       Deus poderá não ser tão evidente como por vezes se faz crer. Por um lado, em Jesus Cristo, Deus manifesta-Se em plenitude, revela o Seu rosto. Mas não Se deixa aprisionar por uma pessoa ou por uma instituição ou por uma religião. Quem se convence que possui Deus está perto de blasfemar, pois Deus é e continuará a ser Mistério.
       Por outro lado, segundo o teólogo checo, o caminho da fé não é linear. A busca honesta e decidida tem avanços e recuos. Deus nem sempre está onde O queremos, pode estar onde não pensamos. Elias é surpreendido. Deus não está na tempestade mas na brisa suave, onde quase não Se percebe.
       Santa Teresinha, no momento de especial sofrimento vive a “noite da fé”, contudo, não diminui o amor que permanece até à eternidade. Em Nietzsche, na proclamação da morte de Deus, segundo o autor, também se intui o silêncio dos crentes que deixaram que Deus fosse morto sem protestarem, sem reivindicarem a Sua vida e a Sua presença… Mais perigoso que um ateu convicto é um crente apático!

publicado na Voz de Lamego, n.º 4398, de 7 de fevereiro de 2017

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

ELMAR SALMANN - A VITALIDADE DA BÊNÇÃO

ELMAR SALMANN (2017). A Vitalidade da Bênção. Braga: Editorial A.O. 176 páginas.
       Na Assembleia do Clero de Lamego, em 14 de novembro de 2015, o Provincial da Companhia de Jesus em Portugal, Pe. José Frazão Correia, comentou e sugeriu a leitura deste livrinho, de Elmar Salmann, seu mestre. A Editorial do Apostolado de Oração, integrada na Companhia de Jesus, dá à estampa para Portugal, publicado em Itália em 2010, no âmbito do Ano Sacerdotal. Mas como se costuma dizer mais vale tarde que nunca.
       O ministério da bênção há de caracterizar a vida do sacerdote e da Igreja. O cristianismo, em muitas situações, já não está em maioria e, por vezes, cultural e socialmente já não tem a relevância do passado. Por outro lado, existem situações novas, na vivência dos sacramentos, no compromisso com a comunidade, nos casais, na coexistência de várias confissões religiosas. Poderá ser necessário criar centros sociológico-religiosos, para lá das paróquias, envolvendo e comprometendo os leigos, surgindo o sacerdote numa dinâmica de abençoar...
       Deus não se vende no supermercado ou à medida de cada um. Em todo o caso, já passamos de um Deus distante e juiz, para um Deus próximo, que abençoa e nos renova, nos desafia a não desistir. O Deus cristão é o mais difícil. No Islamismo não há praticamente dogmas. É um Deus soberano, transcendente. No Judaísmo, Deus é transcendente, embora intervenha na História. Há, com efeito, uma interdependência entre Deus e o povo. Deus alimenta o povo e o povo mantém-se obediente às Suas leis. Quando há fome, violência, dispersão, é porque Deus está de costas voltadas para o povo, em consequência do seu pecado. No Cristianismo, Deus encarna, assume a nossa natureza humana. Um Pai, que sendo Amor, Se dá inteiramente. Cristo, Filho de Deus, tudo recebe do Pai e tudo acolhe para partilhar, no Espírito Santo. Há circularidade do amor que deve ser paradigma para que assim nos comprometamos. É um Deus mais difícil de conjugar. Em Jesus, Deus e o Homem...

Alguns recortes:
"De Igreja masculina, hierárquica, sacral, maioritária, representante do sagrado e da administração da graça, tornamo-nos uma Igreja comunitária (...), mais exposta, fraterna; de uma Igreja da verdade e da santidade, chegamos a uma Igreja em busca de sentido, da abertura, da solidariedade; do primado de Deus e de Cristo Nosso Senhor passamos a Cristo nosso irmão, que Se torna companheiro da jornada".
"A Ressurreição é a confirmação, por assim dizer, do ato criador, daquela alegria primordial e elementar, sob as condições de uma história distorcida e sobrecarregada... Na ressurreição, explode o mundo, abre-se como o rasgar de um véu. O riso pascal corresponde a este evento libertador; corresponde a este evento que explode e rasga paisagens de vida".
"O juízo derradeiro de Deus não se destina a uma condenação. Não se trata de um recontro com um observador, não é um relatório nem muito menos um prestar contas! mas, sob o olhar límpido e, talvez também, sorridente de Deus, seremos capazes de rever e avaliar as reais proporções da nossa existência... talz no juízo final possamos pela primeira vez rir de nós, com verdade, sem azedume nem amargura, com um riso capaz de desembaraçar os nós da nossa emaranhada existência".
"O domingo nasce precisamente do olhar positivo e comprazido de Deus que «viu que tudo era bom» (Gn 1, 3.10.12.18.21.31). Deus tem os olhos contemplativos capazes de realçar em tudo a sua vertente positiva. Deus é capaz de consentir, sorrindo, àquilo que simplesmente, é. Fala bem daquilo que vem à existência e daí a capacidade de «bem-dizer»/«abençoar». O domingo... irrompe os mecanismos chantagistas e esmagadores da nossa autoconfirmação e da nossa necessidade de conflitualidade, de nos compararmos, de nos perdermos em mil azáfamas... Faz-nos descobri a melodia de fundo que dá estabilidade à nossa vida e nos convida a afinar por ela. Faz-nos «falar bem» de nós mesmos, do outro e da nossa vida e deixa-nos entrever-nos a nós mesmos, num suave vislumbre, como uma bênção. Todos os sentidos, a vista, a voz, o ouvido, o tato, o gosto, confluem no domingo para criar este tipo de sensibilidade positiva, para o ciclo virtuoso que dinamiza a nossa existência".
"Ser padre significa a aventura desta incarnação do Céu nas cabanas dos homens".
"Em tudo isto, a vida e a pregação de um sacerdote que saiba abençoar refletirá a riqueza da tradição, a vastidão dos estilos de vida cristã no mundo global, as muitas vozes da comunidade, e tornar-se-á advogado dos ausentes, dos pobres, dos excluídos (cada um segundo a sua sensibilidade) - e um pobre representante e advogado da voz e da presença do estilo de Jesus, do seu dar-Se, dizer-Se e mostrar-Se no meio de nós e diante do Pai".

VL – Silêncio: Deus não mora à superfície

       Esta semana partimos de dois livros, que podem ser sugestões de leitura: Silêncio, de Shusaku Endo, e Paciência com Deus, de Tomáš Halík.
       “Silêncio”, romance adaptado por Martin Scorsese a filme, e daí também a grande divulgação momentânea, retrata a vida de um missionário jesuíta, português, que teve um papel muito importante na evangelização em terras do Japão. E, perante as muitas dificuldades que encontrou, terá renunciado à fé católica.
       O provincial dos jesuítas em Portugal, em entrevista à Agência Ecclesia, sublinha a grande oportunidade para confrontar as várias dimensões da fé. A obra recorda uma página histórica do encontro difícil entre o cristianismo (e o Ocidente) e as tradições japoneses que inicialmente acolheram com benevolência o cristianismo e depois moveram-lhe uma grande perseguição. Para o Padre José Frazão Correia é uma grande oportunidade para revisitar a questão dramática da fé. A dificuldade em permanecer firme num ambiente de extrema perseguição. Revisitar a experiência da fé a partir da sua dimensão dramática e equívoca, várias perspetivas possíveis para enquadrar a questão da adesão a Jesus e da sua visibilidade pública.
       O filme/romance não nos permite fazer uma leitura a branco e preto, bem e mal, afirmação da fé pelo martírio ou negação da fé pela apostasia. Aqui percebemos que a aproximação à fé, a afirmação de fé em contextos de grande perseguição, de um grande sofrimento, põe em reserva um juízo demasiado fácil… Publicamente o personagem principal, o padre Sebastião Rodrigues, renuncia à fé, mas o realizador, tal como o autor, faz-nos perceber que no íntimo do padre jesuíta há um percurso de fé e estamos longe de concluir que a sua apostasia pública seja uma renúncia à fé no mais íntimo do seu coração.
       Tomáš Halík, neste título, Paciência com Deus, e que tem como subtítulo “Oportunidade para um encontro”, procura perceber o Zaqueu que se esconde no sicómoro (figueira…), mas que Deus descobre por entre a folhagem. Vivemos num tempo em que podemos, com alguma facilidade, catalogar os que têm fé e os que não têm, os crentes e os ateus. O autor recusa uma leitura apressada, fácil, em que se crie uma divisória nítida. Há muitos Zaqueus para os quais temos que olhar com carinho, com atenção. Deus escapa-nos, não se enforma nas nossas conceções racionais. É mistério que, no entanto, está presente em cada um de nós, pois todos fomos/somos criados à Sua imagem e semelhança. Não nos podemos apossar d’Ele, pois também se encontra nos outros…

publicado na Voz de Lamego, n.º 4397, de 31 de janeiro de 2017

Vejos as pessoas, que parecem árvores...

       Jesus e os seus discípulos chegaram a Betsaida. Trouxeram-Lhe então um cego, suplicando-Lhe que o tocasse. Jesus tomou o cego pela mão e levou-o para fora da localidade. Depois deitou-lhe saliva nos olhos, impôs-lhe as mãos e perguntou-lhe: «Vês alguma coisa?». Ele abriu os olhos e disse: «Vejo as pessoas, que parecem árvores a andar». Em seguida, Jesus impôs-lhe novamente as mãos sobre os olhos e ele começou a ver bem: ficou restabelecido e via tudo claramente. Então Jesus mandou-o para casa e disse-lhe: «Não entres sequer na povoação» (Mc 8, 22-26).
       Os gestos de Jesus são consequência natural e consequente das Suas palavras. O anúncio do Evangelho não dispensa a atenção a pessoas concretas, de carne e osso.
       Por outro lado, e como em outras situações, a cura física deste cego de nascença é real mas também símbolo da cura que encontramos em Jesus Cristo. Ele cura-nos de toda a cegueira espiritual, de tudo o que tolda o nosso olhar, que nos faz desviar do nosso semelhante.
       Este encontro sugere-me uma pequena estória. Certo ocasião, quando alvorecia, o Mestre perguntou aos seus discípulos como é que se sabe o momento em que já é dia e não noite. Um discípulo respondeu: quando surge no horizonte a primeira claridade e podemos apagar as lanternas porque já vemos o caminho à nossa frente. Outro discípulo respondeu que sabia que era dia logo que conseguissem distinguir o que era pessoas e o que eram árvores. A resposta do sábio: é dia quando no outro conseguires ver um irmão.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Timothy Radcliffe - NA MARGEM DO MISTÉRIO

TIMOTHY RADCLIFFE (2017). Na margem do mistério. Ter fé em tempos de incerteza. Prior Velho: Paulinas Editora. 144 páginas.
       Mais uma belíssima leitura que ora recomendamos. Claro, se fazemos uma sugestão é precisamente por pensarmos que é pertinente para nós e também o será para os outros. O autor, Timothy Radcliffe, é inglês, sacerdote dominicano, formado em Oxford e em Paris, é autor de várias obras de espiritualidade, já foi Mestre-geral da Ordem dos Pregadores (dominicanos), e como sacerdote dominicano já percorreu diversas partes do mundo.
       Já aqui o sugerimos: TIMOTHY RADCLIFFE - IMERSOS EM DEUS.
       Por estes dias lemos e sugerimos três títulos: SILÊNCIO, de Shusaku Endo, PACIÊNCIA COM DEUS, de Tomáš Halík, e A ESTRADA, de Cormac McCarthy e cada um à sua maneira falava das questões que nos coloca a fé em tempos de crise, de adversidade, de confusão e relativismo.
       Coincidentes no tempo de leitura, também este título nos fala das dificuldades da leitura da fé, do cristianismo e da Igreja nos tempos atuais, convocando a encontrar novas respostas ou pelo menos a formular novas perguntas, deixando-se surpreender pela graça de Deus e pelos sinais que estão presentes nas novas situações, com coragem e persistência, com disponibilidade para escutar, para abraçar, para acolher, com firmeza e docilidade, com verdade e coragem. Sem renunciar à sua fé, pelo contrário, só uma fé esclarecida, feita de convicções e de alegria, pode dialogar com outras opções de vida e com outras religiões.
       Viver e partilhar a esperança. Anunciar o Evangelho da Alegria. A alegria que vem da fé não é cutânea, é baseada em Jesus Cristo, está para lá do sofrimento. Com efeito, a alegria só é consistente tendo experimentado a dor e o sofrimento e a própria morte, não se encerrando aí, mas procurando dar sentido à vida. O Papa Francisco diz-nos que "a fé não deve ser confundida com estar bem ou sentir-se bem, com sentir-se consolado no íntimo, porque temos um pouco de paz no coração. A fé é o fio de ouro que nos liga ao Senhor, a pura alegria de estar com Ele, de estar unido a Ele; é o dom que vale e avida inteira, mas que só dá fruto, se fizermos a nossa parte".
       As normas, nesta época, continuam a ser válidas, mas mais o calor humano, a proximidade, a entreajuda, o compromisso com o que nos une, a abertura aos outros, a promoção das diferenças que podem enriquecer-nos e ajudar-nos a crescer. A abertura e a tolerância não é o mesmo que desistência, do que cedência pura e simples aos valores e às convicções dos demais, pelo contrário, a certeza da própria identidade ajuda a dialogar, a fazer pontes, a reconhecer o outro e a olhá-lo olhos nos olhos, sem medo, sem medo de ser provocado, sem medo das perguntas e dos questionamentos. Apostar na misericórdia não é negar o pecado ou as imperfeições. Significa isso sim, que os defeitos, os erros, o pecado, não nos impedem de ser irmãos. O caminho de Jesus é o do perdão e da misericórdia. É um caminho exigente. É levar a sério o outro e a sua liberdade. Se eu desculpo sem mais... isso seria contraproducente. Alguém mata uma pessoa. Deus não lhe vai dizer que não interesse, que passe à frente... Não. Isso não seria misericórdia! A misericórdia reabilita, leva a sério a pessoa, envolve-a para corrigir o caminho e enveredar por um caminho alternativo de bem e de proximidade.
       Do mesmo jeito o perdão. Perdoar sempre. Mas nem sempre é possível perdoar. Na cruz, Jesus não diz: eu perdoo-vos, mas sim "Pai perdoa-lhes...". Por vezes é necessário dar tempo. Rezar. Pedir a Deus pelos que nos fizeram mal, nos traíram. Há de chegar um dia que já não quero mal à pessoa, porquanto rezo por ela. Há de chegar a altura que estou pronto para aceitar o outro, apesar do que me fez.
       Alegria e música para enfrentar a dor... e a morte... quando não há palavras...
       Uma palavra de agradecimento e de estima ao colega e amigo sacerdote que me ofereceu este belíssimo livro.

VL – O perigo de endeusar políticos como salvadores

       Por estes dias assistimos à tomada de posse de um novo presidente dos EUA. Em linha do que tem sucedido em alguns países europeus e/ou ocidentalizados, tende-se a enveredar por extremismos que excluem quem se assumem diferentes e, para quem se senta no poder, inimigos. Os extremos tocam-se. Expressão popular, que mostram que as extremidades se tocam, pois a perspetiva é excluir, afastar, criar ruturas, oposição entre bons, os que são da minha fação, e maus, os que pensam e vivem de maneira diferente.
       De 18 a 25 de janeiro, de cada ano, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, respondendo à oração e à missão de Jesus Cristo: que todos sejamos um, como Ele e o Pai são Um. Para haver conflito basta haver duas pessoas, uma vez que por mais parecidas que sejam e mais sintonizadas que estejam há de haver algum momento em que uma palavra ou um gesto possam provocar um esfriamento ou afastamento. É importante lidar com as diferenças e com os conflitos. A discussão gera luz, clareando as convicções de cada um, fortalecendo os motivos que nos levam a ter consideração pelos outros e pelos dons que cada um pode colocar ao serviço da sociedade. Estamos onde estamos, para o bem e para o mal, à custa de muitas pessoas, muitas ideias, descobertas, invenções, criatividade, reflexão. Procurar a unidade não é, de todo, diminuir, descredibilizar ou submeter os que pensam de outra maneira, é caminhar em conjunto, trabalhando pela justiça e pela paz, procurando estabelecer pontes de diálogo, de convivência saudável, para uma sociedade mais justa. É o caminho da fraternidade proposto e iniciado por Jesus.
       O Papa Francisco, numa entrevista concedida ao “El País”, na passada sexta-feira, alertava para o perigo de idolatrar alguns líderes, achando que são salvadores, com os próprios a apresentarem-se como tal. "O caso da Alemanha, em 1933, é típico. Havia um povo que estava em crise, em busca da sua identidade e apareceu este líder carismático [Adolf Hitler] que prometeu dar-lhes uma. Deu-lhes uma identidade distorcida e depois já sabemos o que aconteceu”. E o Papa continua: “Procuramos um salvador que nos devolva a identidade e defendemo-nos com muros, com arames farpados, com o que for, dos outros povos que nos podem roubar a identidade e isso é muito grave. Por isso, procuro sempre dizer: dialogai entre vós, dialogai entre vós”. Em relação ao presidente norte-americano, Donald Trump, o Papa pede-lhe que esteja atento aos mais frágeis e, embora com alguns sinais menos positivos, há que lhe dar tempo.

publicado na Voz de Lamego, n.º 4396, de 24 de janeiro de 2017

BENTO XVI - Santos Cirilo e Metódio

Queridos irmãos e irmãs!
        Gostaria hoje de falar dos Santos Cirilo e Metódio, irmãos no sangue e na fé, chamados apóstolos dos eslavos. Cirilo nasceu em Tessalonica em 826/827, filho do magistrado imperial Leão: era o mais jovem de sete filhos. Desde criança aprendeu a língua eslava. Com quatorze anos foi enviado para Constantinopla a fim de ser ali educado e foi companheiro do jovem imperador Miguel III. Naqueles anos foi introduzido nas diversas matérias universitárias, entre as quais a dialéctica, tendo como mestre Fócio. Depois de ter renunciado a um brilhante matrimónio, decidiu receber as ordens sagradas e tornou-se "bibliotecário" no Patriarcado. Pouco depois, desejando retirar-se em solidão, foi esconder-se num mosteiro, mas depressa foi descoberto e foi-lhe confiado o ensino das ciências sagradas e profanas, função que desempenhou tão bem que lhe foi atribuído o apelativo de "Filósofo". Entretanto, o irmão Miguel (que nasceu por volta de 815), depois de uma carreira administrativa na Macedónia, por volta do ano 850 abandonou o mundo e retirou-se à vida monástica no monte Olimpo na Bitínia, onde recebeu o nome de Metódio (o nome monástico devia começar com a mesma letra do nome de baptismo) e tornou-se hegúmeno do mosteiro de Polychron.
       Atraído pelo exemplo do irmão, também Cirilo decidiu deixar o ensino e foi para o monte Olimpo a fim de meditar e rezar. Contudo, alguns anos mais tarde (aprox. 861) o governo imperial encarregou-o de uma missão junto dos Khazares do Mar de Azov, os quais pediam que lhes fosse enviado um letrado que soubesse discutir com os judeus e com os sarracenos. Cirilo, acompanhado pelo irmão Metódio, esteve por muito tempo na Crimeia, onde aprendeu o hebraico. Ali procurou também o corpo do Papa Clemente I, que ali tinha estado exilado. Encontrou o seu túmulo e, quando retomou com o irmão o caminho do regresso, levou consigo as preciosas relíquias. Tendo chegado a Constantinopla, os dois irmãos foram enviados à Morávia ao imperador Miguel III, ao qual o príncipe morávio Ratislau tinha feito um pedido específico: "O nosso povo – dissera-lhe – desde quando rejeitou o paganismo, observa a lei cristã; mas não temos um mestre que seja capaz de nos explicar na nossa língua a verdadeira fé". A missão teve depressa um sucesso inaudito. Traduzindo a liturgia na língua eslava, os dois irmãos conquistaram uma grande simpatia da parte do povo.
       Mas isto suscitou a hostilidade em relação a eles da parte do clero franco, que tinha chegado precedentemente à Morávia e considerava o território pertencente à própria jurisdição eclesial. Para se justificar, em 867 os dois irmãos vieram a Roma. Durante a viagem pararam em Veneza, onde teve lugar um aceso debate com os defensores da chamada "heresia trilíngue": estes consideravam que houvesse só três línguas nas quais se podia licitamente louvar a Deus: a hebraica, a grega e a latina. Obviamente, os dois irmãos opuseram-se com vigor a esta posição. Em Roma Cirilo e Metódio foram recebidos pelo Papa Adriano II, que foi ao encontro deles em procissão para receber dignamente as relíquias de São Clemente. O Papa tinha compreendido também a grande importância da sua missão excepcional. De facto, desde meados do primeiro milénio os eslavos tinham-se instalado em grande número naqueles territórios situados entre as duas partes do Império Romano, a oriental e a ocidental, entre os quais já havia tensões. O Papa intuiu que os povos eslavos teriam podido desempenhar um papel de ponte, contribuindo assim para conservar a união entre os cristãos das duas partes do Império. Portanto, não hesitou em aprovar a missão dos dois Irmãos na Grande Morávia, aceitando e aprovando o uso da língua eslava na liturgia. Os livros eslavos foram colocados no altar de Santa Maria de Phatmé (Santa Maria Maior) e a liturgia em língua eslava foi celebrada nas Basílicas de São Pedro, de Santo André e de São Paulo.
        Infelizmente Cirilo adoeceu de modo grave em Roma. Sentindo aproximar-se a morte, quis consagrar-se totalmente a Deus como monge num dos mosteiros gregos da Cidade (provavelmente em Santa Praxedes) e tomou o nome monástico de Cirilo (o seu nome de baptismo era Constantino). Depois pediu com insistência ao irmão Metódio, que entretanto tinha sido consagrado Bispo, que não abandonasse a missão na Morávia e que voltasse entre aquelas populações. Dirigiu-se a Deus com esta invocação: "Senhor, meu Deus..., atende o meu pedido e faz com que o rebanho que me tinhas confiado se mantenha fiel a ti... Liberta-o da heresia das três línguas, reúne todos na unidade e faz com que o povo que escolheste seja concorde na verdadeira fé e na confissão recta". Faleceu a 14 de Fevereiro de 869.
       Fiel ao compromisso assumido com o irmão, no ano seguinte, 870, Metódio regressou à Morávia e à Panónia (hoje Hungria), onde encontrou de novo a violenta hostilidade dos missionários francos que o aprisionaram. Não desanimou e quando, em 873, foi libertado empenhou-se activamente na organização da Igreja, ocupando-se da formação de um grupo de discípulos. Foi por mérito destes discípulos que pôde ser superada a crise que se desencadeou depois da morte de Metódio a 6 de Abril de 885: perseguidos e postos na prisão, alguns destes discípulos foram vendidos como escravos e levados para Veneza, onde foram resgatados por um funcionário constantinopolitano, que lhes concedeu voltar aos países dos eslavos balcânicos. Acolhidos na Bulgária, puderam continuar a missão iniciada por Metódio, difundindo o Evangelho na "terra da Rus'". Deus, na sua misteriosa providência serviu-se assim da perseguição para salvar a obra dos santos Irmãos. Dela permanece também a documentação literária. É suficiente pensar em obras como o Evangeliário (perícopes litúrgicas do NovoTestamento), o Saltério,vários textos litúrgicos em língua eslava, nos quais trabalharam os dois Irmãos. Depois da morte de Cirilo, deve-se a Metódio e aos seus discípulos, entre outros, a tradução de toda a Sagrada Escritura, o Nomocânone e o Livro dos Padres.
       Querendo agora resumir o perfil espiritual dos dois Irmãos, deve-se registar antes de tudo a paixão com que Cirilo se aproximou dos escritos de São Gregório Nazianzeno, aprendendo dele o valor da língua na transmissão da Revelação. São Gregório tinha expresso o desejo de que Cristo falasse por meio dele: "Sou servo do Verbo, por isso me ponho ao serviço da Palavra". Querendo imitar Gregório neste serviço, Cirilo pediu a Cristo que falasse em eslavo através dele. E introduz a sua obra de tradução com a invocação solene: "Ouvi, vós todos, povos eslavos, ouvi a Palavra que vem de Deus, a Palavra que alimenta as almas, a Palavra que conduz ao conhecimento de Deus". Na realidade, já alguns anos antes que o príncipe da Morávia viesse pedir ao imperador Miguel III o envio de missionários à sua terra, parece que Cirilo e o irmão Metódio, rodeados por um grupo de discípulos, estavam a trabalhar no projecto de recolher dogmas cristãos em livros escritos em língua eslava. Surgiu então claramente a exigência de novos sinais gráficos, mais adequados à língua falada: nasceu assim o alfabeto glagolítico que, modificado sucessivamente, foi depois designado com o nome de "cirílico" em honra do seu inspirador. Foi um acontecimento decisivo para o desenvolvimento da civilização eslava em geral. Cirilo e Metódio estavam convencidos de que cada um dos povos não pudesse considerar que recebeu plenamente a Revelação enquanto não a tivesse ouvido na própria língua e lida nos caracteres próprios do seu alfabeto.
       Atribui-se a Metódio o mérito de ter feito com que a obra empreendida com o irmão não fosse interrompida bruscamente. Enquanto Cirilo, o "Filósofo", era votado à contemplação, ele era mais propenso à vida activa. Graças a isto pôde lançar as bases da sucessiva afirmação daquela à qual poderíamos chamar a "ideia cirilo-metodiana": ela acompanhou nos diversos períodos históricos os povos eslavos, favorecendo o desenvolvimento cultural, nacional e religioso. Era quanto já reconhecia o Papa Pio XI com a Carta apostólica Quod Sanctum Cyrillum, na qual qualificava os dois Irmãos: "Filhos do Oriente, bizantinos por pátria, gregos por origem, romanos por missão, eslavos pelos frutos apostólicos" (AAS 19 [1927] 93-96). O papel histórico por eles desempenhado foi mais oficialmente proclamado pelo Papa João Paulo II que, com a Carta apostólica Egregiae virtutis viri, os declarou co-Padroeiros da Europa juntamente com São Bento (AAS 73 [1981] 258-262). De facto, Cirilo e Metódio constituem um exemplo clássico do que hoje se indica com a palavra "inculturação": Cada povo deve inserir na própria cultura a mensagem revelada e expressar a sua verdade salvífica com a linguagem que lhe é própria. Isto supõe um trabalho de "tradução" muito empenhativo, porque exige a identificação de palavras adequadas para repropor, sem a atraiçoar, a riqueza da Palavra revelada. Disto os dois santos Irmãos deixaram um testemunho muito significativo, para o qual a Igreja olha também hoje para dele obter inspiração e orientação.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

VL – Aliar generosidade à vontade de mudança

       Depois das duas últimas Assembleias Gerais do Sínodo dos Bispos se debruçar, de forma ordinária e extraordinária, sobre a Família, o Papa Francisco quer que o próximo – em outubro de 2018 – seja dedicado aos jovens (“Jovens, a fé e o discernimento vocacional”).
       Para preparar este Sínodo, a publicação de um documento que servirá, nas palavras do Papa, de «bússola» para orientar este caminho que desembocará na Assembleia sinodal. É o tempo de colocar questões, fazer sugestões, apontar caminhos novos, tempo de debater, de refletir, de fazer achegas sobre o que sentem os próprios jovens, as suas dúvidas, sonhos, dificuldades. É uma Igreja que procura responder a uma das aspirações do Vaticano II: perscrutar os sinais dos tempos para melhor viver e anunciar o Evangelho de Jesus Cristo no mundo atual.
       Entretanto, o Papa Francisco, no passado dia 13 de janeiro, dirigiu uma missiva aos jovens, contextualizando o Sínodo dos Bispos e a razão da escolha da temática. Diz o Papa, “a Igreja deseja colocar-se à escuta da vossa voz, da vossa sensibilidade, da vossa fé; até das vossas dúvidas e das vossas críticas. Fazei ouvir o vosso grito, deixai-o ressoar nas comunidades e fazei-o chegar aos pastores… inclusive através do caminho deste Sínodo, eu e os meus irmãos Bispos queremos, ainda mais, «contribuir para a vossa alegria» (2 Cor 1, 24). Confio-vos a Maria de Nazaré, uma jovem como vós, à qual Deus dirigiu o seu olhar amoroso, a fim de que vos tome pela mão e vos guie para a alegria de um «Eis-me!» pleno e generoso (cf. Lc 1, 38)”.
       O Papa Francisco conta com os jovens. “Um mundo melhor constrói-se também graças a vós, ao vosso desejo de mudança e à vossa generosidade. Não tenhais medo de ouvir o Espírito que vos sugere escolhas audazes, não hesiteis quando a consciência vos pedir que arrisqueis para seguir o Mestre”.
       Duas realidades que se interligam: a vontade de mudança e a generosidade. Pode haver um grande desejo em transformar o mundo, tornando-o mais justo e fraterno, mas depois, como se costuma dizer, há que arregaçar as mangas e meter mãos à obra. Não bastam boas intenções, ainda que sejam um bom indicador e um bom ponto de partida, porém, será necessário “sair”, levantar-se do sofá e pôr-se a caminho, como Abraão, para uma nova terra, que é precisamente um mundo mais fraterno e mais justo. É válido para os jovens. É válido para cada cristão. É válido para mim e para ti.

publicado na Voz de Lamego, n.º 4395, de 17 de janeiro de 2017

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Domingo VI do Tempo Comum - ano A - 12 de fevereiro

       1 – Jesus ainda não desceu. Não desçamos nós também. Mantenhamo-nos junto d'Ele, na montanha, a escutá-l'O para O seguirmos, para procuramos sintonizar-nos o mais possível. A multidão permanece. Os discípulos continuam sentados, na primeira fila, para não perderem nada e absorverem cada palavra, cada nuance, cada conselho.
       Hoje é connosco, permanecer junto a Jesus, escutá-l'O, apreender a Sua mensagem e captá-la para o nosso tempo e para as circunstâncias atuais. Só poderemos partir para O testemunhar, para O transparecer, para anunciar a Sua Palavra, se permanecermos ligados, sintonizados, identificados com Ele. Quando mais próximos, mais aptos a IR e anunciar a Boa Nova a toda a criatura. Nisto consiste precisamente o sermos discípulos missionários. Não é possível separar as águas. Só os discípulos são missionários. Só sendo missionários permanecemos como discípulos.
       Na linguagem como na vida, Jesus apresenta-Se dócil, próximo, a favor dos mais desfavorecidos e da integração de todos no Reino de Deus, repudiando as injustiças, a sobranceria, as invejas e os ódios, promovendo o serviço, o amor e o perdão, contando connosco, comigo e contigo. Cada pessoa conta. Cada um de nós é assumido como irmão, filho bem-amado do Pai. Jesus não vem para derrubar o bem que existe, mas para desfazer os muros da incompreensão, do egoísmo, da intolerância, da violência, e contruir pontes e laços de entreajuda, de comunhão e de fraternidade.
       Na montanha, mais perto de Deus, para que ao descer para a cidade, para a povoação, seja Deus que Se traz, Se anuncia e Se dá aos outros.
       2 – «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar».
       A lei do amor não torna mais fácil a nossa vida. Jesus não revoga os preceitos da Lei de Moisés. Não tem o propósito de alijar, iludir, facilitar, mas de elevar, aperfeiçoar, plenizar. Jesus é a Carne viva da Lei, o Corpo e a Vida. Mas a carne, o corpo e a vida são delicados e temos que os tratar como tal, com delicadeza e cuidado, prestando a máxima atenção para não ferir, não magoar, para não danificar. Quando cuidamos da carne do outro, do seu corpo e da sua vida, estamos a entrar no seu mundo, estamos a reconhecê-lo como parte essencial do nosso mundo. Quando tocamos as feridas e as chagas do outro, como nos lembra a Santa Teresa de Calcutá, tocamos os ferimentos de Jesus.
       Não precisamos de leis nem de regras, desde que amemos de todo o coração! Por certo! Como diria Santo Agostinho, ama e faz o que quiseres! Só que quem ama cuida, sofre, ampara, acolhe, serve, acarinha, gasta-se, respeita, dá-se, entrega-se. A não ser que amar seja apenas uma palavra dita da boca para fora e gasta pelo muito e/ou mau uso da mesma. A não ser que amar seja apenas gozar, sentir prazer, tirar proveito do outro, servir-se do outro enquanto é útil e satisfazer os próprios interesses e caprichos. Amar exige muito de mim. Exige tudo. Não se ama a meio termo, a meio gás, com condições ou reservas. A vida não é branco e preto, também é cinzenta e vermelha, castanha e amarela. No entanto, ou se ama ou não se ama. Amar muito já está dentro do amar. Amar exige tudo de mim e de ti. Exige que gastemos as forças, o corpo e o espírito a favor do outro, de quem, pelo amor, me faço próximo, me faço irmão. Amar é dar a vida. É gastar a vida. É confiar ao outro a própria vida. Foi isso que Jesus fez connosco, comigo e contigo, com a humanidade inteira. Por amor, gastou-Se até à última gota de sangue.
       As suas palavras entram-nos pelos ouvidos dentro até chegarem ao coração. Outrora poderíamos ainda ter desculpas, não saber, estarmos a caminhar e a amadurecer. Mas agora é tempo de viver, de amar e servir. «Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus». Se vos preocupais apenas com os mínimos garantidos não servis o reino de Deus, que exige o máximo.
       3 – Aos antigos foi dito muita coisa, mas agora é a própria Palavra de Deus, em Pessoa, em Jesus Cristo, que Se comunica. Não basta "não" matar, é preciso dar-se, ser pró-ativo no bem a dizer e a fazer, indo ao encontro do outro, auxiliando-o, servindo-o.
       As leis, como a de Moisés, de inspiração divina, tiveram o fito de criar situações de maior justiça e equidade, evitando roubos, assassínios, situações que pudessem minar as relações dentro das famílias e dentro dos clãs. A pedagogia da Lei compromete-nos com o "mais". Há sempre mais a fazer, sempre mais para cuidar, sempre mais para melhorar. Quem se fica pelas exigências da lei, paralisa, não evolui, não se liberta da estagnação da vida. O que se proíbe ajuda a orientar as forças e a vida para o que se pode. Há uma linha que não se pode transpor, pois se se transpuser estaremos a contrariar a vida como dom e como compromisso. A lei esclarece-nos. Não podemos passar a linha, mas acima da linha há uma vida a viver, a realizar. Ora, Jesus, com a Sua vida, mas também com as Sua palavras, diz-nos que a preocupação não há de ser a de guardar ou pisar a linha, mas viver de tal forma que essa preocupação não tenha morada em nós. Imaginemos um campeonato de futebol. Há uma linha abaixo da qual se desce de divisão. Quem se mantiver muito acima dessa linha, poderá fazer coisas melhores, pela confiança, pela garra. O medo da descida pode criar insegurança e gerar mais medo e provocar mais derrotas. O amor gera amor. A vida gera vida e multiplica-a. A diferença, neste campeonato, é que ninguém precisa de descer de divisão, todos podem chegar em primeiro lugar.
       As últimas palavras do Evangelho para este domingo deixam claro que a nossa «linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’. O que passa disto vem do Maligno». A linguagem e a vida, as palavras e os gestos, as respostas e as obras. Clareza, verdade, serviço, amor. É uma linha acima, pela positiva, pelo que aproxima, pela fidelidade, pelo envolvimento com os outros.

       4 – A fidelidade aos Mandamentos não é um capricho! É uma opção livre e que liberta. Claro que as leis, sobretudo de direito positivo, precisam de ser aperfeiçoadas e por vezes atualizadas diante de novas circunstâncias e situações. Os Mandamentos são, seguindo a Bíblia, Lei de Deus, traduzida em linguagem humana. A Lei em si mesma não salva. Mas orienta para a salvação, aponta para a vivência harmoniosa entre pessoas, previne abusos e desvios, sugere caminhos que, experimentados por outros e fruto da sua experiência, testemunho e reflexão, podem facilitar-nos a vida, pois já não temos necessidade de andar por caminhos errantes, à procura de sermos mais justos, mais honestos, mais inclusivos. A Lei não salva, a vida salva, a graça de Deus salva. A Lei prepara-nos para acolhermos a Deus e vivermos como irmãos.
       Quando éramos mais novos, as leis e as instituições eram uma chatice, um empecilho à nossa liberdade, à alegria e à festa. Existiam para nos aborrecer, para proibir, para castigar, para nos aprisionar. Crescemos, amadurecemos e envelhecemos e percebemos agora que nos ajudavam a não perder tanto tempo. Agora sabemos que resultaram da sabedoria e da vida de outros. Precisamos de fazer o nosso caminho. E, ao partirmos, queremos que os mais novos encontrem em nós referências, testemunho, desafio, encontrem a sabedoria que fomos adquirindo, ainda que saibamos que também vão bater muitas vezes com a cabeça e magoar-se.
       Ben Sirá diz-nos que ser fiel aos mandamentos não é um sacrifício nem uma obrigação, depende da minha, da tua, da nossa vontade. No entanto elucida-nos: «Deus pôs diante de ti o fogo e a água: estenderás a mão para o que desejares. Diante do homem estão a vida e a morte: o que ele escolher, isso lhe será dado. Porque é grande a sabedoria do Senhor, Ele é forte e poderoso e vê todas as coisas. Seus olhos estão sobre aqueles que O temem, Ele conhece todas as coisas do homem. Não mandou a ninguém fazer o mal, nem deu licença a ninguém de cometer o pecado».
       O salmo mostra a felicidade daqueles que seguem o Senhor: «Felizes os que seguem o caminho perfeito e andam na lei do Senhor… que observam as suas ordens e O procuram de todo o coração... Oxalá meus caminhos sejam firmes na observância dos vossos decretos… Abri, Senhor, os meus olhos para ver as maravilhas da vossa lei... Ensinai-me, Senhor, o caminho dos vossos decretos, para ser fiel até ao fim. Dai-me entendimento para guardar a vossa lei e para a cumprir de todo o coração».
       Para concluir estes dois textos nada melhor que a oração de coleta: «Senhor, que prometestes estar presente nos corações retos e sinceros, ajudai-nos com a vossa graça a viver de tal modo que mereçamos ser vossa morada».

       5 – São Paulo, na Carta aos Coríntios, continua a falar de humildade e despojamento, de quem se apronta para acolher a vontade de Deus, a Sua misericórdia e a Sua sabedoria. Só Deus pode garantir-nos eternamente.
       Diante da comunidade, Paulo não quer outra coisa que não seja anunciar Jesus, crucificado e ressuscitado, para que uns e outros, judeus e gregos, livres e escravos, homens e mulheres, todos possam aceder à salvação colocada ao nosso alcance por Jesus Cristo.

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia (A): Sir 15, 16-21 (15-20); Sl 118 (119); 1 Cor 2, 6-10; Mt 5, 17-37.

Leituras: CORMAC McCARTHY - A ESTRADA

CORMAC McCARTHY (2010). A Estrada. Lisboa: Relógio d'Água. 192 páginas.
       Um livro que se lê de fio a pavio, sem respirar, com o fôlego a exigir que se continue, pela trama, pela beleza da escrita, pelo conteúdo. Vamos por partes. Há livros que nos caem nas mãos. Há livros que temos de ler. Há livros que encontramos por acaso. Há livros que sugerimos aos outros porque, para nós, são belos, importantes, com um conteúdo relevante, por constituírem literatura premiável, por serem arte.
       Na leitura de alguns comentários sobre o filme/romance Silêncio, livro de Shusaku Endo, adaptado ao cinema por Martin Scorsese, encontramos esta crónica de Henrique Cardoso, "Ser cristão no coração da trevas", crónica semana na Rádio Renascença. «No meu processo de conversão, o romance “A Estrada” foi fundamental. Costumo dizer a brincar que este livro de Cormac McCarthy é o meu quinto evangelho. Na altura (2009), já não era ateu e estava naquele centrão teológico chamado agnosticismo, que é uma forma chique de dizer ainda-não-tinha-coragem-para-dar-o-passo-em-direcção-de-Deus».
       O cronista comentava o filme de Martin Scorsese, Silêncio, adaptado a partir do romance de Shusaku Endo, que já por aqui recomendei (SHUSAKU ENDO - SILÊNCIO).
       A ligação do livro "A estrada" ao filme: «O livro parte desta pergunta: o que fazer no coração das trevas? Num mundo apocalíptico sem qualquer esperança, num mundo que parece o local da batalha onde Lúcifer venceu Gabriel, como é que mantemos a nossa decência? Como é que mantemos a nossa moral num mundo que nem sequer é imoral mas sim amoral, tal é a indiferença perante o mal? A própria ideia de “moral” é concebível num mundo onde até o canibalismo se torna normal? Quase dez anos depois, o filme “Silêncio” de Martin Scorsese remete-me de novo para essa questão. Só que agora, já na condição de convertido, coloco a palavra “fé” onde antes tinha a palavra “moral”. Como é que se serve Deus e Jesus a partir do coração das trevas? A própria ideia de “fé” faz ali sentido?».
       Foi nesta altura que pessoalmente achei crucial ler o "Silêncio" mas ler também "A Estrada". Acabada a leitura de um, logo iniciei o outro.
       É um daqueles livros memorável. Um homem com o seu filho, ao longo de uma estrada (sem fim), a procurar sobreviver, entre escombros, encontrando pessoas más (algumas serão boas), um mundo destruído, ardido, desumano, onde a vida escasseia, e assim também os alimentos... vivendo um dia de cada vez e uma noite de cada vez, em sobressalto. O pai que tudo faz para proteger o filho, num diálogo vivo em que sobrevém a vida e os sentimentos. No filho assoma a bondade, a inocência. No pai o pragmatismo, o instinto de sobrevivência. Apoiam-se um ao outro. Quando falta tudo e também a esperança parece desaparecer, apoiam-se um ao outro, até ao fim... O perigo de um morrer pode significar a morte do outro. O pai não deixará que o filho morra e se morrer também ele acabará com a sua vida, são o mundo um do outro.
       Fome, frio, medo, "A Estrada é a história verdadeiramente comovente de uma viagem, que imagina com ousadia o futuro onde não há esperança, mas onde um pai e um filho, 'cada qual o mundo inteiro do outro', se vão sustentando através do amor... é uma meditação inabalável entre o pior e o melhor de que somos capazes: a destruição última, a persistência desesperada e o afeto que mantém duas pessoas vivas enfrentando a devastação total" (contracapa).
       Hei de gostar de ver o filme...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

São Jerónimo Emiliano, Presbítero

Nota biográfica:
       Nasceu em Veneza no ano 1486. Caiu prisioneiro em Castelnuovo (1511) quando combatia contra a Liga de Cambrai. Fechado no castelo, teve ambiente e tempo para meditar sobre as coisas efêmeras e decidiu-se pelas eternas. Algo parecido com o que faria santo Inácio, dez anos mais tarde. Sentiu-se impelido ao serviço dos pobres e dos jovens, dos enfermos e das pecadoras arrependidas. Após algum tempo de preparação com João Pedro Carafa, o futuro Paulo IV, foi ordenado padre.
       Dez anos mais tarde uma terrível crise assolava a península; em seguida veio uma epidemia. Jerónimo vendeu tudo o que possuía para ajudar os indigentes. Prestou grande serviço aos órfãos e viúvas. O seu campo de trabalho foi extenso: Verona, Bréscia, Como e Bérgamo. No lugarejo de Somasca, em Bérgamo, teve início a Sociedade dos Clérigos Regulares que mais tarde foram chamados Padres Somascos. Dedicavam-se ao ensino gratuito com o revolucionário método dialogado, e a socorrer as crianças órfãs e os pobres.
       São Jerónimo Emiliano morreu em Somasca enquanto dava assistência aos doentes. Contraiu a peste e morreu do mesmo mal dos seus assistidos. Era o dia 8 de Fevereiro de 1537. Foi canonizado em 1767. Pio XI nomeou-o padroeiro dos órfãos e dos jovens abandonados.
Oração de coleta:
       Pai de infinita misericórdia, que em São Jerónimo Emiliano, protetor e pai dos órfãos, destes à vossa Igreja um sinal da vossa predilecção para com os pobres e os humildes, dai-nos, por sua intercessão, a graça de conservar sempre o espírito de adopção pelo qual nos chamamos e somos vossos filhos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
São Jerónimo Emiliano aos seus irmãos

Só no Senhor devemos confiar

Amados irmãos em Cristo e filhos da Ordem dos Servos dos pobres:
O vosso pobre pai vos saúda e vos exorta a que persevereis no amor de Cristo e na observância fiel da lei cristã, como mostrei por palavras e por obras enquanto estive convosco, de modo que o Senhor seja glorificado por meu intermédio no meio de vós.
O nosso fim é Deus, fonte de todos os bens, e devemos confiar só n’Ele e em mais ninguém, como dizemos na nossa oração. O nosso bom Senhor, querendo aumentar a vossa fé (sem a qual, como diz o Evangelista, Cristo não pôde realizar muitos sinais) e atender a vossa oração, decidiu servir-Se de vós assim: pobres, maltratados, aflitos, fatigados, desprezados por todos, e agora por fim privados até da minha presença física, se bem que não do espírito do vosso pobre e muito amado pai.
Porque vos trata Ele assim, só Ele o sabe. Mas podemos sugerir-vos três razões. Em primeiro lugar, o nosso bendito Senhor vos adverte que quer contar-vos entre o número dos seus filhos dilectos, contanto que persevereis nos seus caminhos: foi assim, na verdade, que Ele procedeu com os seus amigos e os fez santos.
Uma segunda razão é esta: o Senhor procura que cada vez mais confieis somente n’Ele e não nos outros; porque Deus como eu vos disse, não realiza as suas obras naqueles que se recusam a colocar só n’Ele toda a sua fé e toda a sua esperança, mas infunde sempre a plenitude da caridade nos que são dotados de grande fé e esperança, e com eles realiza grandes coisas. Portanto, se permanecerdes na fé e na esperança, Deus fará convosco grandes coisas e exaltará os humildes. E assim, quando Ele vos priva de mim e de qualquer outro que vós estimais, obriga-vos a escolher entre estas duas coisas: ou vos afastais da fé e voltais às coisas do mundo, ou permaneceis fortes na fé e sois aprovados por Deus.
E há uma terceira razão: Deus quer experimentar-vos como o oiro no crisol. As escórias do oiro, com efeito, são consumadas pelo fogo, mas o verdadeiro oiro permanece e o seu valor aumenta. Assim também procede o Senhor com o seu servo bom, que na tribulação permanece firme e espera n’Ele. Deus o levanta, e de todas as coisas que deixou por seu amor, receberá o cêntuplo neste mundo e a vida eterna no mundo que há-de vir.
Foi deste modo que Ele procedeu com todos os Santos. Assim procedeu com o povo de Israel depois de tanto ter sofrido no Egipto: não só o tirou de lá com grandes prodígios e o alimentou com o maná no deserto, mas por fim deu-lhe a terra prometida. Portanto, se no meio de tantas provações permaneceis firmes na fé, o Senhor vos dará paz e repouso, por um tempo neste mundo e para sempre no outro.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Leituras: SHUSAKU ENDO - SILÊNCIO

SHUSAKU ENDO (2017). Silêncio. (3.ª Edição) Alfragide: Publicações Dom Quixote. 272 páginas.
       Na Viagem à Polónia, o Papa Bento XVI, como já o tinha feito o Seu Predecessor, João Paulo II, deslocou-se ao campo de extermínio Auschwitz-Birkenau, no dia 28 de maio de 2006. As primeiras palavras do Papa Bento XVI: «Tomar a palavra neste lugar de horror, de acúmulo de crimes contra Deus e contra o homem sem igual na história, é quase impossível e é particularmente difícil e oprimente para um cristão, para um Papa que provém da Alemanha. Num lugar como este faltam as palavras, no fundo pode permanecer apenas um silêncio aterrorizado um silêncio que é um grito interior a Deus: Senhor, por que silenciaste? Por que toleraste tudo isto? É nesta atitude de silêncio que nos inclinamos profundamente no nosso coração face à numerosa multidão de quantos sofreram e foram condenados à morte; todavia, este silêncio torna-se depois pedido em voz alta de perdão e de reconciliação, um grito ao Deus vivo para que jamais permita uma coisa semelhante».
       O Papa alemão sublinha o silêncio de Deus e o grito das vítimas, 6 milhões de polacos, um quinto da sua população, que perderam a vida. E o discurso continuava: «Quantas perguntas surgem neste lugar! Sobressai sempre de novo a pergunta: Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal? Vêm à nossa mente as palavras do Salmo 44, a lamentação de Israel que sofre: "... Tu nos esmagaste na região das feras e nos envolveste em profundas trevas... por causa de ti, estamos todos os dias expostos à morte; tratam-nos como ovelhas para o matadouro. Desperta, Senhor, por que dormes? Desperta e não nos rejeites para sempre! Por que escondes a tua face e te esqueces da nossa miséria e tribulação? A nossa alma está prostrada no pó, e o nosso corpo colado à terra. Levanta-te! Vem em nosso auxílio; salva-nos, pela tua bondade!" (Sl 44, 20.23-27). Este grito de angústia que Israel sofredor eleva a Deus em períodos de extrema tribulação, é ao mesmo tempo um grito de ajuda de todos os que, ao longo da história ontem, hoje e amanhã sofrem por amor de Deus, por amor da verdade e do bem; e há muitos, também hoje. Nós não podemos perscrutar o segredo de Deus vemos apenas fragmentos e enganamo-nos se pretendemos eleger-nos a juízes de Deus e da história».
       Estas palavras de Bento XVI bem podem servir de mote à leitura e a um possível enquadramento.
       Com a adaptação ao cinema, pela mão de Martin Scorsese, o romance de Shusaku Endo ganhou novo fôlego e por certo baterá alguns recordes de vendas. E será merecido. Boa literatura. Bom enredo. A história romanceada tem tudo para prender o leitor do início até ao fim.
Não sendo histórico, o romance parte da história de evangelização do Japão, onde os portugueses tiveram um papel importante, como por exemplo São Francisco Xavier. No Oriente outros desembarcaram para levar o Evangelho até o fim do mundo, como São João de Brito, missionário português que deu a vida na Índia, em tormentos, torturas e sofrimentos como os que são relatos neste romance.
       A história parte da apostasia de Cristóvão Ferreira, enviado pela Companhia de Jesus em Portugal para a evangelização do Japão. Submetido à tortura da fossa, de mãos e pés atados, de cabeça para baixo, sobre excrementos de pessoas e de animais... Era superior provincial, era um exemplo para clero e leigos. Mas apostatou.
       Sebastião Rodrigues (a personagem principal do romance), com Francisco Garpe, também pertencentes à Companhia de Jesus, não querendo acreditar no que sucedeu a Cristóvão Ferreira - tinha sido professor deles e era uma referência intelectual, moral, espiritual - querem tirar a limpo o que sucedeu e vão para o Japão. Acolhidos numa aldeia, mas colocando em perigo os aldeões, separam-se e fogem. Sebastião Rodrigues é apanhado. Com ele, a reflexão sobre o silêncio de Deus e o grito de tantos cristãos que morrem em nome de Cristo, por serem cristãos. Para entrarem no Japão, fazem-no através de Macau. Para isso contam com Kichijiro, que tinha fugido, atraiçoado toda a família, atraiçoa Rodrigues, por duas vezes, vendendo-o como Judas a Cristo. Aqui entra a reflexão de Endo, japonês e católico. Rodrigues renuncia à fé ou publicamente nega a Cristo para defender os outros cristãos? Tal como Cristóvão Ferreira, abjurando permite que outros cristãos sejam libertados.
       Vale a pena ver a leitura do provincial dos Jesuítas em Portugal, em entrevista à Agência Ecclesia, em que sublinha a grande oportunidade - o filme / romance - para confrontar as várias dimensões da fé. A obra recorda uma página histórica do encontro difícil entre o cristianismo (e o Ocidente) e as tradições japoneses que inicialmente acolheram com benevolência o cristianismo e depois moveram-lhe uma grande perseguição. Para o Padre José Frazão Correia é uma grande oportunidade para revisitar a questão dramática da fé. A dificuldade em permanecer firme num ambiente de extrema perseguição. Revisitar a experiência da fé a partir da sua dimensão dramática e equívoca, várias perspetivas possíveis para enquadrar a questão da adesão a Jesus e da sua visibilidade pública.
       O filme/romance não nos permite fazer uma leitura a branco e preto, bem e mal, afirmação da fé pelo martírio ou negação da fé pela apostasia. Aqui percebemos que a aproximação à fé, a afirmação de fé em contextos de grande perseguição, de um grande sofrimento, põe em reserva um juízo demasiado fácil… Publicamente o personagem principal, o padre Sebastião Rodrigues, renuncia à fé, mas o realizador, tal como o autor, faz-nos perceber que no íntimo do padre jesuíta há um percurso de fé e estamos longe de concluir que a sua apostasia pública seja uma renúncia à fé no mais íntimo do seu coração.
       O filme tem provocado diversos apontamentos e, claro, também a leitura do romance. Segundo Laurinda Alves - o que não gostei no Silêncio - falta sublinhar as razões da fé dos japoneses, o amor de Deus para connosco e de nós para com Deus. «No século XVII os missionários convertiam a partir do testemunho de Jesus e não de uma ideia de Deus distante, castigador, do Antigo Testamento. Por isso, esperava ver no filme este amor novo dos filhos e amigos, dos irmãos e companheiros de Jesus que querem viver para amar e servir, também ele traduzido em imagens e diálogos. Isto para que o amor de Deus ficasse a fazer eco a par do Seu silêncio e dos dramas da negação sob tortura».

Alguns comentários-entrevistas: 

TOMÁŠ HALÍK - PACIÊNCIA COM DEUS

TOMÁŠ HALÍK (2014). Paciência com Deus. Oportunidade para um encontro. (3.ª Edição). Prior Velho: Paulinas Editora. 288 páginas.
       Tomáš Halík, neste título, Paciência com Deus, e que tem como subtítulo “Oportunidade para um encontro”, procura perceber o Zaqueu que se esconde no sicómoro (figueira…), mas que Deus descobre por entre a folhagem. Vivemos num tempo em que podemos, com alguma facilidade, catalogar os que têm fé e os que não têm, os crentes e os ateus. O autor recusa uma leitura apressada, fácil, em que se crie uma divisória nítida. Há muitos Zaqueus para os quais temos que olhar com carinho, com atenção. Deus escapa-nos, não se enforma nas nossas conceções racionais. É mistério que, no entanto, está presente em cada um de nós, pois todos fomos/somos criados à Sua imagem e semelhança. Não nos podemos apossar d’Ele, pois também se encontra nos outros…
       Um dos textos citados pelo autor é o do profeta Elias.
       Elias, depois de matar os profetas idólatras, é avisado pelo Rei Acaz que o mesmo lhe será feito. Elias sai da cidade e caminha pelo deserto. Já esgotado, pede ao Senhor que lhe tire a vida. O anjo do Senhor aparece-lhe por duas vezes e ordena-lhe: «Levanta-te e come, pois tens ainda um longo ca­mi­nho a per­correr». Elias faz como o Senhor lhe ordena e dirige-se para o monte Horeb. Aí passa a noite. O Senhor faz saber a Elias que vai passar… «Passou um vento impetuoso e violento, que fendia as montanhas e quebrava os rochedos diante do Senhor; mas o Senhor não se encontrava no vento. Depois do vento, tremeu a terra. Passou o tremor de terra e ateou-se um fogo; mas nem no fogo se encontrava o Senhor. Depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma brisa suave. Ao ouvi-lo, Elias cobriu o rosto com um manto, saiu e pôs-se à entrada da caverna» (1 Reis 19, 1- 14).
       Deus nem sempre é evidente. Em questões de fé nem tudo é branco e preto. Um crente passa por momentos de treva, de dúvida e hesitação. Um “ateu” pode estar perto de Deus, em busca, a percorrer um caminho de aproximação. 
       É, em meu entender, uma das linhas condutoras do texto de Tomáš Halík, Paciência com Deus, procurando fazer pontes, prevenir juízos precipitados, para não encerrar o próprio Deus em ideias preconcebidas e limitando a Sua ação.
       Deus poderá não ser tão evidente como por vezes se faz crer.
       Por um lado, em Jesus Cristo, Deus manifesta-Se em plenitude, revela o Seu rosto. Mas não Se deixa aprisionar por uma pessoa ou por uma instituição ou por uma religião. Quem se convence que possui Deus está perto de blasfemar, pois Deus é e continuará a ser Mistério.
       Por outro lado, segundo o teólogo checo, o caminho da fé não é linear. A busca honesta e decidida tem avanços e recuos. Deus nem sempre está onde O queremos, pode estar onde não pensamos. Elias é surpreendido. Deus não está na tempestade mas na brisa suave, onde quase não Se percebe.
       Santa Teresinha, no momento de especial sofrimento vive a “noite da fé”, contudo, não diminui o amor que permanece até à eternidade.
        Em Nietzsche, na proclamação da morte de Deus, segundo o autor, também se intui o silêncio dos crentes que deixaram que Deus fosse morto sem protestarem, sem reivindicarem a Sua vida e a Sua presença…
       Mais perigoso que um ateu convicto é um crente apático!
       O diálogo faz-se entre ateus convictos e lutadores e crentes em busca. Entre crentes apáticos, seguros de si mesmos, e ateus indiferentes não há diálogo nem discussão possível. Situam-se uns e outros na denúncia de Nietzsche, Deus morreu e também o matámos. O anúncio não deu lugar ao protesto contra a morte de Deus. Foi um grito que passou com indiferença.
       Esta é mais uma belíssima obra e provocação do autor chego, convidando-se a uma busca constante, permitindo que os Zaqueus se aproximem e, no momento em que também nós formos e nos sentirmos Zaqueus, nos deixemos interpelar pelas palavras e pelo desafio de Jesus Cristo.

(elaborei o presente texto a partir de dois textos próprios
publicados na Voz de Lamego, sob o título:
1. Silêncio, Deus não mora à superfície (31 de janeiro de 2017)
2. Deus não mora à superfície (7 de fevereiro de 2017)

Sugiro a leitura do seguinte comentário e onde encontra algumas passagens do livro: 
Livro da semana: “Paciência com Deus – oportunidade para um encontro

UM OUTRO APONTAMENTO
Sobre o discurso doo Papa Bento XVI na Universidade de Regensburg... O autor considera que foi uma brilhante conferência, apesar de se ter tornado famosa pela resposta furiosa de grande parte do mundo muçulmano, suscitada pela transmissão sensacionalista dos meios de comunicação social.
"Frente ao irracionalismo... Bento apela a uma nova aliança entre a fé e o racionalismo, a religião e a ciência. Ele admira a união patrística e escolástica do Logos divino - liricamente apresentada no prólogo de São João - e o logos da filosofia helenística. Além disso, apoia a ideia, avançada pelo imperador Miguel contra o Islão, de que Deus também se vincula mediante normas éticas.
... O Papa apresentou ainda outro argumento de importância fundamental: um Deus incompreensível pode ser perigoso - um «Deus racional» (ao contrário de um Deus oculto, misterioso e imprevisível) é um Deus que permite a tolerância e o diálogo. Os que professam um Deus envolto nas trevas do mistério poderiam dar origem a temores que apenas conseguiriam desencadear violência irracional em nome desse mesmo Deus. Tenho pensado muito nesse argumento, que parece lógico e consistente, quando proferido por um homem que sente a responsabilidade pastoral global, nesta era de «terror em nome de Deus»"