sábado, 11 de janeiro de 2020

MARCELO REBELO DE SOUSA - o Presidente dos Afetos

CLÁUDIA SEBASTIÃO (2018). Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente dos Afetos. Lisboa: Paulus Editora. 184 páginas.
O Professor Marcelo Rebelo de Sousa dispensa apresentações e, por certo, todos temos uma opinião formada sobre o atual Presidente da República, tal é a exposição a que está sujeito diariamente, nomeadamente através dos meios de comunicação social e das redes sociais. Já antes de ser Presidente, o que se acentuou a partir da candidatura, da campanha e da eleição para o mais alto cargo da nação.
Mas, como constatará, caso aceite a nossa sugestão de leitura, que há dimensões que podem ser investigadas, colocando a descoberto outras dimensões ou, pelo menos, clarificando a personalidade por detrás do Presidente. Este livro, da autoria de Cláudia Sebastião, editado pela Paulus Editora, procura mostrar a consistência de Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente que, desde a primeira hora, tem privilegiado a proximidade às pessoas, sem barreiras, e os afetos, procurando estar presente para todos, especialmente nos momentos de aflição, sofrimento, perda, como nos incêndios de 2017 em Pedrógão Grande, em junho, e na região centro, em outubro. Depois do estudo dos técnicos, que sublinharam que a presença de políticos quando se estavam a combater os incêndios, só trouxe dificuldades, então tem refreado a imediatez com que se deslocava às tragédias…
A obra que sugerimos mostra a consistência de Marcelo na atenção aos mais frágeis, vem de longe, da infância, em que acompanhava a mãe, que era assistente social, da educação católica, da pertença a vários movimentos juvenis católicos, com a preocupação de se envolver na ajuda às pessoas mais carenciadas, fazendo “voluntariado” desde jovem, no empenho social que o junta, por exemplo, ao amigo e companheiro António Guterres, atual Secretário Geral das Nações Unidas.
Inabalável a sua identidade cristã-católica, que o compromete também como e enquanto Presidente da República. Na página da Presidência da República, começa assim a sua apresentação: “Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa nasceu a 12 de dezembro de 1948. É católico, participou em vários movimentos da Igreja Católica”. Só depois outros “afazeres”! Ele próprio caracteriza: “Eu sou católico, influenciado pelo Vaticano II, concílio bem presente hoje no ministério do Papa Francisco, português defensor da lusofonia com especiais relações em África e no Brasil… O fim maior na política é o combate à pobreza, é a luta contra as desigualdades, é a afirmação da justiça social… ninguém se salva sozinho e é preciso construir pontes”.
Num outro momento afirma taxativamente em relação à intervenção política dos cristãos: “Quem não intervém comete um erro porque a sua voz não será substituída por nenhuma outra voz. Mais vale às vezes intervir em excesso, cometendo erros, a não intervir”. Por outro lado, a opção clara pelos mais frágeis: “Cristo define o seu programa de vida. E o nosso programa de vida. Anunciar a eternidade. Mas também dar esperança aos pobres, vista aos cegos, libertação aos presos e oprimidos. Tudo está aí. Vida eterna, mas também justiça na vida terrena. Justiça que não ignore ninguém, mas prefira os excluídos e sofredores – na economia, na sociedade, na cultura, na política”

"Porque acredito em Jesus Cristo? Porque Deus acredita em mim. Tão simples quanto isso . Dirigiu-se-me e eu aceitei".
"Um cristão católico que não é otimista é profundamente ingrato. Nós estamos disponíveis para fazer misérias para ganhar o Euromilhões todas as semanas e não percebemos que o Euromilhões dos Euromilhões é a graça da fé. Não é contingente, não é semanal, não é conjuntural, não é limitado. É uma oportunidade única no caminho para a eternidade e no começo da construção da eternidade neste mundo".

Sobre a recitação do terço: “Fica às vezes a meio, mas depois prossegue. Há alguns mistérios que são sacrificados. Mas ao fim do dia está completo. Não é um mandamento. É como respirar. Há coisas que eu faço naturalmente. Não é uma obrigação, é assim. Faz parte da minha via. Não me passa pela cabeça haver um dia se Terço”.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

ROBERT CHEAIB - EDUCAR OS FILHOS NA FÉ

ROBERT CHEAIB (2019). Educar os filhos na fé. Prior Velho: Paulinas Editora. 208 páginas.
"Enquanto os filhos são pequenos, os limites, as regras e a disciplina não são apenas úteis, são necessários e cruciais. Somos responsáveis pelos nossos filhos quando são pequenos e é ingénuo pensar que podem ser deixados entregues a si próprios logo em tenra idade. É uma espécie de «abandono de menores»... Um dos primeiros segredos da educação dos filhos na fé é mesmo: começar cedo. Ao invés, um dos erros da educação religiosa dos filhos é ficar à espera que cresçam, que «tenham idade para conversarmos sobre estas coisas»... Se não fores tu a semear, outro semeará por ti e, muito provavelmente, semeará uma semente diferente - se não mesmo contrária - da tua... «Não os ensino a falar português porque tenho receio que no futuro a língua portuguesa nãos eja a língua da sua preferência». É um raciocínio ridículo porque, assim, privo os meus filhos de uma ferramenta relacional importante como a língua".
Por estas palavras do próprio autor, podemos calcular a importância da educação da fé das crianças, a começar no berço. Achar que se deve deixar a religião para quando os filhos puderem escolher é um erro infantil, uma vez que em todas as dimensões da vida, os pais procuram dar as ferramentas aos filhos para que, ao crescerem, possam tomar as próprias decisões. Também assim no campo da religião. Esta deve ser como a língua materna. Se os pais se escusarem a educar o filhos, haverá quem o faça, a televisão, a Internet, os colegas.
O autor é doutorado em Teologia Fundamental, pela Universidade Pontifícia Gregoriana, exercendo a docência em várias universidades, é conferencista, em Itália e em outros países, abordando temáticas relativas à vida de casal, educação dos filhos, juventude e fé, desafios do ateísmo. É casado e pai.

Os cinco pilares propostos pelo autor e desenvolvidos ao longo do livro:
  • Educação preventiva: é preciso começar cedo. É preciso prevenir a queda da fé reforçando as fundações enquanto os filhos são pequenos.
  • Educação no dia a dia: a fé não se vive dentro de uma redoma de vidro nem de maneira isolada do resto da educação. A vida de fé precisa de uma educação integral e de uma experiência diária. Só experimentando o amor no dia a dia é que os nossos filhos vão percecionar e sentir o Amor de Deus como credível e familiar.
  • Educação narrativa: a fé não é feita de conceitos, mas de narrações, de um povo que faz experiência de um Deus que vem ao seu encontro; de uma comunidade que faz experiência de um Deus que se faz homem, fala do Pai através de parábolas e de histórias convidando-nos a sermos, como Ele, testemunho e parábola de Deus.
  • Educação responsável: como pais não podemos delegar aos outros a responsabilidade da educação na fé dos nossos filhos. Aliás, somos mesmo os primeiros catequistas deles. E somo-lo, em primeiro lugar, com o exemplo de vida que não deve desmentir as nossas palavras. Somos também responsáveis no sentido que temos a tarefa de dar respostas às perguntas dos nossos filhos ou, pelo menos, temos a responsabilidade de os saber orientar para as pessoas que estão em condições de dar resposta às legítimas perguntas e dúvidas em matéria de fé.
  • Educação responsabilizadora: ou os nossos filhos se tornam crentes ativos ou então serão para sempre clientes passivos que, mais tarde ou mais cedo, se aproximam de fornecedores de respostas mais perspicazes (cf. Lc 6,8). Os filhos sentir-se-ão parte da Igreja e que a fé é a fé deles, se tiverem feito experiência pessoal de Deus. A nossa tarefa, enquanto eles forem pequenos, é a de lhes proporcionar oásis onde possam ir buscar a água de Cristo, oásis que podem ser comunidades oficiais ou encontros «informais» com a prole de outras famílias desejosas, como nós, de criar os filhos na fé».
Ao longo do livro, o autor vai sublinhando a presença dos pais em relação aos filhos, arranjar tempo, proximidade, as primeiras testemunhas da fé, o exemplo é crucial, o amor entre os esposos, que nunca deve ser descurado. A educação, também na fé, passa pela vivência. "Para sermos bons catequistas dos nossos filhos devemos ser bons pais". A amabilidade há de ser a referência na educação: "Quem não se sente amado não quererá ouvir razões. Quem não se sente amado e não experimenta o amor não acreditará no Deus-amor. Sem amor a nossa existência permanece indecifrável e insensata... o amor exige proximidade" e escuta.

EMMA DONOGHUE - O QUARTO DE JACK

EMMA DONOGHUE (2018). O Quarto de Jack. Porto: Porto Editora. 336 páginas.
Jack acaba de fazer 5 anos. Apaga as velas. Festeja mais um aniversário. Até ao final dos quatro anos, Jack só conhece uma realidade, um quarto, onde dorme, come, mama, brinca, faz desporto, aprende a ler e a escrever, tem 5 livros para ler, conhece personagens na televisão, que não são reais. Pessoas só ele e a mãe e o Nick Mafarrico, que vem à noite, mas como fica escondido no guarda-fatos, não o vê, só houve barulho, respiração e algumas palavras, isto quando não está a dormir. Depois do Nick sair volta para a cama para junto da mãe.
Feitos os 5 anos, a mãe começa a desmontar as mentiras que foi criando para o manter, para se manterem em segurança. O mundo Lá Fora afinal existe, existem humanos verdadeiros, a televisão mostra pessoas verdadeiras e outras personagens que não existem. É necessário fugir. Arranjar um plano de fuga. O Quarto revela ser uma prisão, de onde não podem sair. O Mafarrico tranca a porta com um código, o quarto é insonorizado. Podem gritar que ninguém os ouvirá. A mãe foi raptada aos 19 anos. Nessa altura, tinha mãe e pai (adotivos), tinha amigos, tinha outra vida, mas foi enganada e entrou numa carrinha e deixada ali naquele Quarto. A Mãe engendra um plano para fugir, tendo como protagonista Jack, irão ludibriar o Nick Mafarrico.
Ainda que o plano não decorra como esperado, com todos os passos imaginados, resulta na libertação de Jack e da Mãe. Nick é preso e aguarda julgamento, esperando-se que nunca mais saia da cadeia.
A vida no mundo Lá Fora é diferente, tem outras regras, tem outros humanos. Precisam de ir para uma clínica, a comunicação social quer devorar a história. Há muitas coisas diferentes. Jack tem saudades do Quarto, onde é ele e a Mãe, aqui há outros eles, que afinal são verdadeiros. Precisam de se adaptar rapidamente, à luz, ao som, a conhecer pessoas e lugares. Tanta informação que é difícil assimilar. Curiosamente quem é atropelada pela realidade é a Mãe, que quer ir mais cedo para o Céu. A avó materna e o Avô emprestado, os tios e a prima, vão ser de grande ajuda. Jack continua a querer o Quarto.
Jack não precisa de muito, precisa da Mãe. Não precisa de muito mais. Tem medo da chuva. E que lhe toquem ou o abracem. Só precisa do colo da mãe. Quando a mãe não está, ele tem o dente podre da mãe, que guardou e mete na boca, para chupar, pois assim tem um pedaço da mãe. O dente foi com ele na fuga, mantém-no até que a mãe volta da Clínica. Depois perde-o. Já não tinha sabor nenhum. Quer os brinquedos e livros que tinha no Quarto. E o tapete, mesmo com o cheiro que trazia do Quarto. A mãe quer fazer desaparecer esses objetos e esses cheiros, mas por insistência do filho regressa ao Quarto, que afinal já não é o mesmo Quarto, parece mais pequeno. Jack despede-se do Quarto, das paredes, do teto, como se estivesse a despedir-se de pessoas.
Este é um livro extraordinário. Lê-se de fio a pavio, faz-nos tocar a realidade de tantas pessoas vítimas de rapto, cujas vidas foram destruídas ou feridas para sempre, fala-nos da ternura e do amor, da Mãe e do Filho, e da resiliência, mas também da fragilidade humanas. É possível ter muito pouco e resistir a tudo, por amor. É possível ter muito e perder-se.
A voz que narra toda a trama é a voz de uma criança, de Jack, que nos surpreende com a sua ingenuidade, mas também com a capacidade de ouvir e perceber das crianças, mesmo quando os adultos pensam que os mais pequenos não ouvem e/ou não percebem. Fala-nos de um amor tão grande, gigante, que não precisa de muitas coisas. Jack só precisa do amor, do olhar, do colo da mãe. Tudo o mais é secundário. Mas mesmo no mundo Lá Fora, continua a precisar da Mãe, do amor e da presença da Mãe. A mãe é salva, em todos os sentidos, pelo filho, pelo amor do filho, ainda que tenha sucumbido alguns dias depois de estarem no mundo Lá Fora, não aguentando a pressão, a novidade. Mas também aí, o amor parece ter levado a melhor. Resistiu a tudo, tornou-se cínica, deixou de (aparentemente) lutar contra o agressor, mas para proteger o filho e, assim, também se protegeu. Quando já não precisava de resistir, vacilou na incerteza, na insegurança, na novidade.
Não recomendaria uma leitura que não me tivesse cativado do início ao fim. É uma escrita criativa, simplificada pelas palavras de uma criança de 5 anos, envolvente, do início ao fim. E, como sabemos, ainda que a ficção seja muito realística, infelizmente, a realidade ultrapassa sempre a ficção, havendo casos de sucesso, mas havendo muitos outros cujo desfecho foi a escravidão para sempre ou a morte.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Sofia Silva - SORRISOS QUEBRADOS

SOFIA SILVA (2018). Sorrisos quebrados. Lisboa: Editorial Presença. 256 páginas.
Há livros assim. E este é um daqueles livros assim: envolvente, fácil de entender e entrar no nosso cérebro, no nosso coração, e por-nos a pensar, inseridos na própria história. O fio condutor é o de sempre: o amor. O amor que salva a vida, nos redime e nos faz querer ser gente, nos faz erguer, caminhar, lutar, resistir, nos faz olhar mais para além, além do fracasso e da perda, do amor roubado e destruído, faz-nos querer esquecer ou pelo menos que o passado não ensombre o presente ao ponto de nos paralisar.
Paola é a mulher desta ficção, escrita por Sofia Silva, não é ninguém em concreto, mas poderia ser real, pois, como refere a autora, todos os dias há histórias como esta, mulheres que se encantaram com um homem belo, mas que, cedo de mais, descobriram que era um engodo, por detrás do cordeiro um lobo muito mau, um monstro. E depois os enganos, perdoa-se a primeira vez, pensando que é amor, que os ciúmes é por gostar demais, mas no final sobrevirá o medo, a vergonha, o aniquilamento da identidade, a destruição de qualquer esperança, e até a culpabilização.
Para algumas, pois são sobretudo as mulheres que se tornam vítimas às mãos dos companheiros, ainda poderá haver uma segunda oportunidade, para outras será demasiado tarde. A construção da personagem é muito realística, infelizmente. Há situações como esta e mais dramáticas e/ou ou mais definitivas. Convence-nos, precisamente, porque é fácil ver através dela tantas e tantas mulheres que foram destruídas, cujo sorriso foi quebrado para sempre, cuja a vida se apagou, ficando sem brilho e sem sol, sem luz e sem vida própria, sem confiança e sem forças para sobreviver.
É uma leitura intensa, numa escrita escorreita, literariamente muito bem conseguida. Depois de começarmos, a leitura prende-nos, faz-nos querer saber, ouvir e ver o que vem a seguir. A autora não desilude, faz-nos avançar com suspense, com variações que podem levar a um ou vários desenlaces.

Domingo I do Advento - ano A - 1 de dezembro de 2019

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

DOROTHY DAY - A LONGA SOLIDÃO

DOROTHY DAY (2019). A Longa Solidão. Autobiografia de Dorothy Day. Lucerna. 264 páginas
A autora, Dorothy Day, nasceu no seio de uma família protestante da classe média norte-americana, em 1897. Viria a tornar-se sufragista, escritora social e política e, mais tarde, uma conhecida ativista católica. O exemplo de alguns vizinhos católicos, vendo a forma como rezavam, encontrando uma outra senhora a rezar de joelhos, a recitação do terço, a participação na Santa Missa, a cada domingo, ou mesmo todos os dias, foram despertando nela o interesse pelo catolicismo, ainda que tivesse dificuldade em entender o pouco envolvimento da Igreja Católica no campo social, não se vislumbrando a opção pelos pobres e pelos trabalhadores, deixando a outros essa luta.
Aquando do nascimento da filha, Tamara, decidiu que queria o melhor para a filha, e o melhor era fazê-la católica, batizando-a. Foi encontrando algumas dificuldades, vivia em união de facto e o marido era descrente e contrário a tudo o que tivesse a ver com religião. Já que queria batizar a filha, foi-lhe recomendado que faria mais sentido se também ela estivesse mais comprometida. Viria a ser batizada no mesmo dia que a filha. Apesar de gostar muito do marido, decidiu que o seu caminho seria outro, de total comprometimento com a condição de batizada, acolhendo as orientações da Igreja.
Esteve ligada a diversos movimentos de trabalhadores, de pobres, de anarquistas, de comunistas, trabalhando como jornalista, como repórter ou participando em manifestações contra a guerra, a favor dos direitos das mulheres, pela melhoria de condições dos mais pobres. Esteve presa por duas vezes, em condições sub-humanas e também aí a luta por melhores condições para as prisioneiras.
Marcante nesta autobiografia, e por certo no seu compromisso social, o encontro com Peter Maurin. Juntamente com Peter nasceu a ideia de publicar um jornal, que teria o nome de The Catholic Worker, a fim de divulgar as ideias e mensagens de Peter, mas também outros textos de intervenção, na defesa dos trabalhadores. Sem muitos meios e com a preocupação de ser um jornal muito barato, deitaram mãos à obra e rapidamente se transformou num jornal de grande tiragem, chegado inclusivamente à Europa.
Com as ideias do Jornal, com voluntários que se foram juntando, ajudando a vender o jornal, a distribui-lo. Os voluntários foram também contando com a ajuda do jornal, refazendo as suas vidas ou pelo menos podendo ter acesso a refeições, o pão dos trabalhadores. Daí à criação de casas de acolhimento foi um quase nada. O jornal e o movimento caminharam e cresceram juntos, alugando casas, para albergar famílias, investindo em quintas, para serem auto-suficientes, divulgando a doutrina social da Igreja, defendendo o pacifismo, o regresso aos campos, a objecção de consciência face à guerra.
O movimento seguiu uma linha de inclusão de trabalhadores e intelectuais. O trabalho não é apenas o físico, mas também o intelectual, o espiritual. O propósito do movimento era alimentar os famintos, acolher os pobres, os vulneráveis, os doentes e os necessitados, no espírito da caridade cristã.
O remédio para a grande solidão é a comunidade. "Não só a comunidade básica da família, mas também uma comunidade de famílias, combinando a propriedade privada com a propriedade comunitária... Havia um grande desejo de propriedade privada, mas um desejo ainda maior de comunidade. O Homem não foi feito para viver sozinho... A única resposta nesta vida para a solidão que todos acabamos por sentir é a comunidade. Vivendo juntos, partilhando, amando a Deus e amando o nosso irmão, e vivendo perto dele em comunidade, para podermos demonstrar o nosso amor por Ele"
"Sentia, já aos quinze anos, que Deus queria que o Homem fosse feliz, que Ele pretendia dar-lhe aquilo de que ele precisava para levar um vida com o objetivo de ser feliz, e que não era necessário termos tanta pobreza e tanta miséria quantas as que eu via à minha volta e sobre as quais lia na imprensa diária"
"Tinha 17 anos e sentia-me completamente só no mundo, divorciada da minha família, de toda a segurança, e até de Deus. Sentia a arrogância imprudente e, com essa imprudência, uma sensação de perigo na qual me comprazia.
Havia uma interrogação na minha cabeça: porque se fazia tanta coisa para remediar os males sociais em vez de se começar por evitá-los?"

"Estou a rezar porque estou feliz e não porque estou infeliz. Eu não me voltei para Deus por infelicidade, por tristeza, por desespero -  para obter consolo, para obter algo d'Ele... comecei a ir à missa regularmente ao domingo de manhã... o meu amor ardente pela criação levou-me ao Criador de todas as coisas"
"Sabia que iria batizar o meu bebé, custasse o que custasse. Sabia que não queria que ela se debatesse durante muitos anos como eu, duvidando e hesitando, indisciplinada e amoral. Sentia que era a melhor coisa que poderia fazer pela minha filha. Para mim, rezei pelo dom da fé... Tornar-me católica significava enfrentar a vida sozinha e eu sentia-me presa à vida familiar. Era difícil pensar em desistir de um companheiro para que a minha filha e eu pudéssemos tonar-nos membros da Igreja. O Forster não iria ter nada a ver com a religião, ou comigo se a abraçasse. Por isso esperei..."
"Aprendi a rezar o terço..."
"Eu amava a Igreja por Cristo tornado visível. Não por ela mesma, porque muitas vezes era um escândalo para mim. Romano Guardini disse que a Igreja é a Cruz na qual Cristo foi crucificado; não se pode separar Cristo da sua Cruz e temos de viver num estado permanente de insatisfação com a Igreja".
"Mas a palavra final é o amor. Às vezes foi, usando as palavras do padre Zossima, algo duro e terrível, e a nossa própria fé no amor foi provada pelo fogo.
Não podemos amar a Deus a não ser que nos amemos uns aos outros e, para amar, temos de conhecer-nos uns aos outros. Conhecemo-l'O pelo partir do pão, conhecemo-nos uns aos outros partindo o pão, e deixamos de estar sós. O Céu é um banquete e a vida também é um banquete, ainda que de côdeas duras, em que exige companheirismo.
Todos conhecemos a longa solidão e aprendemos que a única solução é o amor, e que o amor vem com a comunidade".

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Se eu acender a luz, não morrerei sozinho

MOREIRA AZEVEDO, Carlos (Coord). (2019). Se acender a luz, não morrei sozinho. Atas da receção de Daniel Faria a 20 anos da morte. Vila Nova de Gaia: Fundação Manuel Leão. 206 páginas.
Nos dias 8 e 9 de junho, realizou-se o colóquio "Se acender a luz não morrerei sozinho" - Receção de Daniel Faria a 20 anos da morte, em Tabuaço, entre o Salão Nobre da Câmara Municipal e a Igreja Matriz de Tabuaço, com passagem obrigatória em São Pedro das Águias, na Granjinha e na Casa que o tem como referência, Casa Daniel, também na Granjinha.
Daniel Augusto da Cunha Faria nasceu e, Baltar, Paredes a 10 de abril de 2971 e viria a falecer a 9 de junho de 1999, quando era noviço no mosteiro de Singeverga, em virtude de uma queda doméstica, na noite de 3 para 4 de junho e que se verificou ser fatal.
Passados 20 anos, Tabuaço foi palco deste colóquio, fazendo sobressair a sensibilidade e mestria do poeta.
O livro recolhe as várias intervenções durante o decorrer do colóquio, bem como as músicas ou poemas musicados do concerto que realizou na Igreja Matriz de Tabuaço sob o título: Lado aberto. uma leitura musical e intertextual da poesia de Daniel Faria.
Refira-se que, estritamente, na paróquia além deste concerto, também a celebração da Santa Missa, em vigília de Pentecostes, presidida por D. António Couto, Bispo de Lamego, tendo ao seu lado, a concelebrar, D. Carlos Azevedo, Presidente do Colégio de Fundadores da Casa Daniel e bispo-delegado do Conselho Pontifício da Cultura no Vaticano.
O livro inclui ainda algumas fotos, na Igreja Matriz, celebração da Eucaristia e concerto musical, e na Granjinha, e também breve bio-bibliografia.

domingo, 10 de novembro de 2019

Domingo XXXII do Tempo Comum - ano C - 10.11.2019

1 – O amor exige eternidade. Quando duas pessoas se amam, namorados, pais e filhos, amigos, tendem a fazer perdurar o tempo que passam juntos e, quando não é possível, utilizar meios e instrumentos para se fazerem sentir próximos.

Diz-nos o filósofo francês, Blaise Pascal: “O Homem ultrapassa infinitamente o homem”. Por outras palavras, o homem não cabe em si mesmo, tende a buscar-se até ao infinito e perpetuar-se para sempre; constitutivamente limitado e finito, procura sobreviver para lá do tempo e da materialidade, além das fronteiras do seu corpo e do seu espírito. Popularmente há (pelo menos) três formas de a pessoa se perpetuar além da morte biológica: plantar uma árvore, escrever um livro e deixar descendência.

A nossa inteligência exige mais do que o vazio, mais que o termo, mais que o abismo! Foi assim que o célebre psiquiatra brasileiro, Augusto Cury, chegou à fé. A nossa inteligência exige sobrevivência à morte física, de contrário não teria sentido todo o caminho e esforço por pensar e criativamente propor respostas às dificuldades das pessoas.

O ser humano não cabe no hiato de tempo que vai do nascimento à morte natural. É pensado antes, gerado sem contribuir para tal, e deseja que a sua vida, o que é e o que faz, não seja descartada só porque não está ou após a sua morte. É um grito muito humano. Se tudo acaba agora, se tudo acaba ali, no último suspiro, terá valido a pena viver, esforçar-se por ser melhor e por contribuir para uma sociedade mais justa e humana, terá valido a pena sacrificar-se pelos outros, entregar-se ao seu semelhante?

Se tudo acaba na morte biológica, não precisamos de Deus. Se tudo acaba com a morte, o bem e o mal que façamos será um momento fugaz! Ao fim e ao cabo, tanto faz que apostemos no bem ou no mal. Na esteira de Nietzsche, o importante será então a nossa vontade de poder e de prazer, sem precisarmos de dar contas a ninguém, nem aos outros nem a Deus, tudo parte de nós e em nós tudo acaba!

 

2 – A fé em Deus exige a fé na eternidade! Um Deus limitado no antes ou no depois não seria de todo, assim o entendemos racional e filosoficamente, Deus. As grandes religiões apoiam-se na certeza que Deus é poderoso e omnipotente, pré-existente a tudo, garantia da existência presente, e pós-existente a tudo. Se nos relacionamos com a divindade, numa perspetiva amorosa, é expectável que contemos perdurar com Ele, para sempre. É a consequência natural de quem ama: que a relação não seja bloqueada por nada, mas se cristalize, renovando-se constantemente, para que permaneça. "O amor é fidelidade no tempo" (Bento XVI).

Jesus é perentório, Deus «não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos», como, aliás, o dá a entender Moisés no episódio da sarça-ardente, ao chamar o Senhor "Deus de Abraão, de Issac e de Jacob".

Ao longo da Sua vida pública, Jesus depara-se com as multidões que O seguem por diferentes motivações, com os discípulos que a Ele vão aderindo, passando do anonimato para um grupo visível e reconhecível, com grupos sociais e religiosos como os doutores da Lei, fariseus, saduceus, herodianos e que, em em alguns momentos, se unem para O provocarem e Lhe armarem alguma cilada.

Aproximam-se d'Ele alguns saduceus e perguntam-Lhe acerca da ressurreição em que não acreditam: «Mestre, Moisés deixou-nos escrito: ‘Se morrer a alguém um irmão, que deixe mulher, mas sem filhos, esse homem deve casar com a viúva, para dar descendência a seu irmão’. Ora havia sete irmãos. O primeiro casou-se e morreu sem filhos. O segundo e depois o terceiro desposaram a viúva; e o mesmo sucedeu aos sete, que morreram e não deixaram filhos. Por fim, morreu também a mulher. De qual destes será ela esposa na ressurreição, uma vez que os sete a tiveram por mulher?».

Partindo da Lei e da realidade, efémera e passageira, os saduceus interrogam-se como será possível conjugar as situações concretas do tempo presente, com a vida futura, na ressurreição, pressupondo que será continuação do que se vive agora!

Na resposta, Jesus separa as águas: «Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. Mas aqueles que forem dignos de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento. Na verdade, já não podem morrer, pois são como os Anjos, e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus».

 

3 – Na primeira leitura, do segundo Livro de Macabeus, são-nos apresentados sete irmãos, juntamente com a sua Mãe, que os anima na fé e lhes garante que Deus não os desamparará nem agora nem na vida futura, compensando-os pela justiça, pela fé e pela verdade com que viveram.

Nesta passagem, o autor sagrado, mais em estilo de pregador do que historiador, ainda que as duas dimensões estejam presentes, desenvolve, como nenhum outro escrito do Antigo Testamento, a fé na ressurreição dos mortos, sobretudo dos justos que ressuscitarão para a vida eterna. Está patente a recompensa dos justos, as sanções além-túmulo, a oração pelos defuntos (acreditando precisamente que "sobrevivem" à morte), o mérito dos justos/santos, a intercessão dos santos. É um texto que nos aproxima do Evangelho. Nesta perspetiva encontramos outros textos veterotestamentários como Isaías, Job, Ezequiel ou Daniel, mas nenhum tão clarividente como este segundo livro de Macabeus.

Os judeus vivem sob o jugo do rei sírio, século II e I antes de Cristo, e as dificuldades de convivência religiosa tornam-se complexas, ganhando a intolerância e o fundamentalismo. Os judeus são obrigados a renunciar às práticas religiosas, sujeitando-se, caso não cumpram, a ser mortos. Estes sete irmãos, fortalecidos pelas palavras e pelo exemplo de sua mãe, resistem à chantagem e à ameaça.

As respostas dos irmãos são elucidativas: «Estamos prontos para morrer, antes que violar a lei de nossos pais... o Rei do universo ressuscitar-nos-á para a vida eterna, se morrermos fiéis às suas leis... Do Céu recebi estes membros e é por causa das suas leis que os desprezo, pois do Céu espero recebê-los de novo... Vale a pena morrermos às mãos dos homens, quando temos a esperança em Deus de que Ele nos ressuscitará; mas tu, ó rei, não ressuscitarás para a vida».

Diz-nos o autor sagrado que o próprio rei estava admirado com a coragem destes jovens. A coragem vem-lhes da fé, da certeza que Deus não os abandonará na morte.

 

4 – A fé na ressurreição, a esperança na vida eterna, não se fixa no depois da morte, mas no caminho a percorrer na história e no tempo. Isso mesmo se depreende do questionamento feito a Jesus e das respostas dadas pelos sete irmãos ao Rei sírio, mostrando que a vida em Deus é um continuum entre o tempo atual e o futuro. A salvação é dom de Deus, mas necessita, sempre, do nosso assentimento, da nossa adesão à Sua vida e à Sua vontade. Jesus clarifica a novidade da eternidade, mas liga esta à postura em vida: os que forem achados dignos, isto é, os que procuraram manter-se fiéis à vontade do Pai.

O embate com as situações reais e concretas, sobretudo com as adversidades, nem sempre é fácil, pelo sofrimento ou pelas dúvidas que provoca, ou até mesmo pela incerteza, em tantos momentos, que estejamos a fazer o que é certo. Nestes momentos a nossa oração terá que ser mais diligente e persistente. A Eucaristia, oração por excelência, que nos faz acolher Jesus Cristo, Palavra viva, mistério de morte e ressurreição, Corpo que Se faz comunhão e vida, traz-nos momentos específicos para a oração, orações dentro da oração. A começar: «Deus eterno e misericordioso, afastai de nós toda a adversidade, para que, sem obstáculos do corpo ou do espírito, possamos livremente cumprir a vossa vontade».

Ao respondermos à Palavra de Deus, com o salmo, o compromisso com o que pedimos a Deus. «Ouvi, Senhor, uma causa justa, atendei a minha súplica. Escutai a minha oração, feita com sinceridade. Firmai os meus passos nas vossas veredas, para que não vacilem os meus pés. Eu Vos invoco, ó Deus, respondei-me, ouvi e escutai as minhas palavras. Protegei-me à sombra das vossas asas, longe dos ímpios que me fazem violência. Senhor, mereça eu contemplar a vossa face e ao despertar saciar-me com a vossa imagem».

 

5 – O Apóstolo São Paulo, na segunda leitura, escreve-nos (quase) em forma de oração, de intercessão por nós a Deus. "Jesus Cristo, nosso Senhor, e Deus, nosso Pai, que nos amou e nos deu, pela sua graça, eterna consolação e feliz esperança, confortem os vossos corações e os tornem firmes em toda a espécie de boas obras e palavras".

À oração que faz por nós, e que lembra o Papa Francisco em muitas intervenções, o Apóstolo junta o pedido de oração para que o seu ministério seja profícuo: "Orai por nós, para que a palavra do Senhor se propague rapidamente e seja glorificada, como acontece no meio de vós". E logo nos recorda da fidelidade de Deus, ainda que sejamos infiéis. "Ele vos dará firmeza e vos guardará do Maligno. O Senhor dirija os vossos corações, para que amem a Deus e aguardem a Cristo com perseverança".

 

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): 2 Mac 7, 1-2. 9-14; Sl 16 (17); 2 Tes 2, 16 – 3, 5; Lc 20, 27-38.


terça-feira, 8 de outubro de 2019

Paróquia de Pinheiros | Santa Eufémia 2019

A Romaria e Festa de Santa Eufémia de Pinheiros é a maior festa do concelho popular, nesta perpetiva de romaria. A adesão das pessoas às festas tem muito a ver com as iniciativas ou os grupos de música contratados. A Festa de Pinheiros, para lá desse dimensão muito musical e festiva, tem a devoção à Santa Eufémia que, a 16 de setembro, junta pessoas oriundas de todo o concelho, mas também dos concelhos limítrofes, de Armamar e de Moimenta da Beira. Continua a haver pessoas que vêm a Pinheiros a pé, rezam, confessam-se, participam na santa Missa e na Procissão, cumprem as suas promessas, fazem os seus pedidos...
Belíssima música que acompanha este videoporama: DABAR - Faz-te ao largo.

domingo, 6 de outubro de 2019

Paróquia de Tabuaço | Primeira Comunhão 2019

Na nossa paróquia, como em tantas outras comunidades, a Primeira Comunhão realiza-se na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus - Corpo de Deus. Este ano caiu na quinta-feira, 20 de junho. Fizeram a sua Primeira Comunhão: a Catarina; o Duarte; o Francisco; a Francisca; a Helena; a Lara Maria; a Margarida; o Pedro Afonso, e o Pedro Tomás; sendo catequistas: Clara Castro; Eliana Santos; Bárbara Longa, e Sofia Barradas.
Créditos fotográficos: Paróquia de Tabuaço / Frederico Gomes
Música de fundo: Claudine Pinheiro - Transformai-vos, do Álbum "Até quando?"

sábado, 5 de outubro de 2019

Paróquia de Tabuaço | Profissão de Fé 2019

Celebração da Profissão de Fé, dos pré-adolescentes, como gostam de ser tratados, do 6.º Ano de Catequese, na nossa Paróquia habitualmente em dia de Solenidade de Pentecostes, a 9 de junho de 2019.
Acompanham as fotos, duas belíssimas músicas do grupo cristão de Vila Real, DABAR (A Palavra) - "Jardineiro de sonhos" e "À volta".

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Discípulos missionários do Deus desconhecido

LUÍS RAFAEL (2019). Discípulos missionários do Deus desconhecido. Um estudo exegético-pastoral de Atos 17, 16-34. Lamego: LIAM. 142 páginas.
(Foto: Pe. Hermínio Lopes)

       O Pe. Luís Rafael, natural de Vila da Ponte, membro a Equipa Sacerdotal da Paróquia de Almacave, ligado há muitos anos aos Jovens Sem Fronteiras (JSF), lançou há algumas semanas a sua dissertação de mestrado: um estudo exegético-pastoral de At 17, 16-34. Em Lamego, a apresentação do Livro foi no Centro Pastoral de Almacave, no dia 20 setembro. Já demos nota na edição anterior do Jornal. Agora é a nossa leitura e consequente sugestão.
       O lema dos JSF é: “Estar perto dos que estão longe sem estar longe dos que estão perto”. E eu diria que por vezes temos dificuldade em valorizar o talento e o trabalho dos que nos são próximos e dos que estão por perto. A sugestão do livro é mais que merecida. Passou o o escrutínio dos avaliadores da Universidade Católica e chegou, com todo o mérito, à publicação assumida pela LIAM (Liga Intensificadora Missionária). 
       O texto em estudo é do livro dos Atos dos Apóstolos (17, 16-34), diz respeito à intervenção do Paulo no Areópago, em Atenas, perante uma plateia de homens livres, cultos, religiosos, que acreditavam haver pelo menos uns 3 mil deuses, um para cada situação da vida. O Apóstolo dir-nos-á que evangelizar para ele (e claro, para nós, discípulos missionários) não é uma escolha, mas uma obrigação, "ai de mim se não evangelizar" (1 Cor 9, 16). Recomenda a Timóteo: "proclama a palavra, insiste em tempo propício e fora dele, convence, repreende, exorta com toda a compreensão e competência" (2 Tim 4, 2). Ele próprio testemunha a sua vida missionária: "fiz-me servo de todos, para ganhar o maior número. Fiz-me judeu com os judeus, para ganhar os judeus; com os que estão sujeitos à Lei, comportei-me como se estivesse sujeito à Lei – embora não estivesse sob a Lei – para ganhar os que estão sujeitos à Lei; com os que vivem sem a Lei, fiz-me como um sem Lei – embora eu não viva sem a lei de Deus porque tenho a lei de Cristo – para ganhar os que vivem sem a Lei. Fiz-me fraco com os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para salvar alguns a qualquer custo. E tudo faço por causa do Evangelho, para dele me tornar participante" (1 Cor 9, 19-23).
       Paulo, uma vez convertido, procurou corresponder ao mandato de Jesus Cristo: “Ide e anunciai o Evangelho a toda a criatura” (Mc 16, 15).
       Tal como os demais apóstolos, também Paulo começou por se dirigir primeiramente aos judeus, até porque falavam a mesma língua, tinham a mesma base cultural e religiosa, mas cedo percebeu que o Evangelho não poderia ficar refém de um espaço, de um tempo, de uma cultura, mas abrir-se a todo o mundo. Não surpreende que Paulo procure outros mundos para também aí levar o Evangelho de Jesus Cristo. Na Sinagoga e na praça pública, Paulo não cessa de anunciar Jesus e de discutir com quem aparece. Na praça, aparecem também filósofos, epicuristas e estóicos, que o levam ao Areópago. Diante de atenienses e estrangeiros residentes em Atenas, Paulo procura ir ao encontro das suas discussões e anseios, para logo lhes anunciar Jesus Cristo: «Atenienses, vejo que sois, em tudo, os mais religiosos dos homens. Percorrendo a vossa cidade e examinando os vossos monumentos sagrados, até encontrei um altar com esta inscrição: ‘Ao Deus desconhecido.’ Pois bem! Aquele que venerais sem o conhecer é esse que eu vos anuncio».
       A partir do discurso de Paulo, o Pe. Luís Rafael meteu mãos à obra para nos desafiar, também a nós, a mim e a ti, a não recearmos os tempos nem os lugares, as dificuldades e os contratempos, mas, sem temor, vivermos, testemunharmos e anunciarmos o Evangelho, com alegria e criatividade.
       A dissertação divide-se em três movimentos principais: 1) Estudo sobre o texto e tudo o que o envolve, analisando os aspetos linguísticos-textuais, as circunstâncias histórico-geográficas, religiosas, socioculturais e filosóficas; 2) Análise exegética, os dilemas que o texto apresenta, as temáticas teológicas presentes e a ponte para a filosofia grega; 3) A atualização do relato, deixando-nos desafios, apresentando os novos areópagos e as oportunidades com que hoje nos deparamos para anunciar o Evangelho.
       O trabalho está bem fundamento, com recurso a diversas fontes e diferentes áreas da teologia e do saber. O terceiro capítulo coroa o caminho árduo do trabalho, numa dinâmica mais pessoal e escorreita, com cenários que nos convocam à esperança e ao compromisso com o Evangelho de Jesus. Os desafios são lançados depois do trabalho "árduo", que fundamentam, contextualizam e explicitam a sábia intervenção de São Paulo no Areópago, o maior evangelizador de todos os tempos.
       Eis os desafios que o Pe. Luís Rafael nos deixa, para sermos discípulos missionários do Deus a conhecer e sobretudo a viver: 

1) Religiosidade XXI. "A cidade repleta de ídolos" (Atos 17, 16b): 
"Quantas vezes os batizados trocam o encontro comunitário com Deus por uma simples ida a uma catedral desportiva ou por uma manhã de compras no centro comercial! Eis o despotismo da indiferença... já não se trata da negação de Deus, mas do Seu desconhecimento... Um evangelizador tem de se destacar pela diferença: ele não vende Deus, dá-O a conhecer, dá-O gratuitamente para saciar a sede de todos os que vivem perto e longe d'Ele, todos os que O amam ou O negam, e de modo especial a todos os que vivem atormentados com medo, subjugados a facilitismos cegos, guiados pela prevenção esotérica... aquelas pessoas que 'tateando', procuram na escuridão longínqua um Deus que, na verdade, está bastante próximo de cada um (cf. Atos 17, 27)". 

2) Lugares de proximidade. "De pé, no meio do Areópago" (Atos 17, 22a): 
"O anúncio do Evangelho também tem de ser feito em Braga, em Lamego, em Vila da Ponte, em nossa casa, no meio desta 'apostasia silenciosa', onde os próprios batizados vivem como se Deus não existisse... é necessário que sejamos corajosos e criativos... temos de ser nós a sair, a ir até às mais variadas periferias... As potencialidades dos novos meios comunicativos são imensas e, se soubermos aproveitar, podemos fazer com que os valores gravados nas páginas da Sagrada Escritura cheguem até às imensas pessoas que se servem deles, e que estão neles! Na verdade, mais que simples meios, eles também são em si mesmos um 'lugar de encontro e de testemunho da fé, são autênticas mediapolis". Por outro lado, "nesta missão, não existem pessoas que possam ser dispensadas, nem lugares a serem evitados... Impõe-se que estejamos online neste Areópago digital mundial, sem que isso nos faça perder a consciência de que o virtual não substitui o real! Na verdade, sempre que possível, o clique deve levar ao toque, à proximidade física, à reunião comunitária, porque acima de tudo, o Deus que anunciamos não está distante, mas 'inacreditavelmente próximo de nós', é n'Ele que 'vivemos, nos movemos e existimos' (Atos 17, 28a)". 

3) INculturação da Fé. "Aquele que venerais sem o conhecer é esse que eu vos anuncio" (Atos 17, 23b): 
"Jesus Cristo foi o primeiro agente e modelo de inculturação! Assumiu, verdadeiramente, a natureza humana com tudo aquilo que isso implicava: ser membro de um povo com hábitos e costumes, língua e religião, uma cultura humana concreta... O primeiro passo para uma evangelização fecunda assenta no escutar e compreender o modo de pensar das pessoas que estão diante de nós, fazer como Paulo em Atenas". 

4) Evangelização da Cultura. "Como também o disseram alguns dos vossos poetas" (Atos 17, 28b): 
"Uma fé que não se torna cultura é uma fé não plenamente acolhida, não totalmente pensada, não fielmente vivida" (João Paulo II). "Ciência e fé não são opostas, não se sobrepõem, não se confundem, mas completam-se... Se queremos ser autênticos discípulos missionários... temos de estar firmemente enraizados n'Aquele em Quem acreditamos e intelectualmente preparados para dialogar com os representantes das mais diversas áreas do mundo da cultura". 

5) Testemunho sem cálculos. "Concordaram com ele e abraçaram a fé" (Atos 17, 34a) 
"A nossa sociedade está a ser abalada por uma crise de esperança... se também nós cedermos ao pessimismo e nos tornarmos sócios da lamúria permanente, condenaremos o futuro à esterilidade... Eis-nos aqui, hoje, num tempo novo, numa conjuntura que deve ser encarada com prudência, realismo e ânimo... Não podemos ser escravos do medo! É verdade que nem sempre um evangelizador obtém os resultados esperados, mas a evangelização não é uma questão de multidões”. Devemos tornar-nos “sensíveis a cada realidade humana, fiéis à verdade, sem medo dos resultados, sempre disponíveis para mostrar o rosto de Deus... Não podemos ficar acomodados a ver o tempo passar".
      E para concluir com o autor, "o importante é não ficarmos parados, mas percebermos que a evangelização é uma ação teândrica, na qual se impõe que colaboremos com o DEuS-CONHECIDO para dar respostas às inquietações cruciantes do Homem contemporâneo".

AUGUSTO CURY - FELICIDADE ROUBADA

AUGUSTO CURY (2015). Felicidade Roubada. Lisboa: Editora Pergaminho. 208 páginas. 
       Há autores que não precisam de apresentações. Augusto Cury é sobejamente conhecido em todo o mundo, sobretudo no âmbito da psiquiatria, psicologia, é, parafraseando-o, um poeta da mente humana e da saúde emocional.
       Criou uma nova teoria sobre a mente humana, a Inteligência Multifocal. A inteligência é complexa, tudo tem a ver com tudo, uma palavra, um gesto, pode armadilhar a mente e, com o tempo, ou quando menos se espera, resultar numa depressão, numa reação violenta ou extemporânea, sem se saber porquê, nem o próprio nem os outros. Quatro mil páginas, depois sintetizadas em pouco mais de 400, para se tornar acessível a todos. Janelas Killer (assassinas) e janelas light, síndrome do pensamento acelerado, reescrever memórias (já que as memórias não se podem apagar), memória RAM (registo automático da memória), são alguns dos termos “criados” pelo autor. Desafios sobre a importância de falar dos próprios sentimentos, também sobre as dificuldades e fracassos, higienizar mente, ter uma atitude positiva da vida, duvidar das ditaduras do insucesso, ser ator e não espectador da vida. DCD - duvidar, criticar, determinar.
       Hoje recomendamos este livro, mas recomendamos vivamente outros títulos, como os cinco que escreveu sobre a inteligência de Jesus Cristo - O Mestre dos Mestres, o Mestre da Sensibilidade, o Mestre da Vida, o Mestre do Amor, o Mestre Inesquecível, Maria, a maior educadora da história, mas também os romances, O Vendedor de Sonhos, O Semeador de Ideias, A Saga de um Pensador. Em cada um dos livros vêm ao de cima aspetos da teorização sobre a Inteligência Multifocal. Através dos livros, das palestras e intervenções, o autor tem como fito resgatar a mente humana, a saúde mental, que se repercute na saúde do corpo. Ler a teoria, com as teses, premissas, conclusões, pode ser interessante para se ficar por dentro desta original perspetiva sobre a memória e a inteligência, com a evocação de muitas situações, a ligação a muitos estudos, porém, ao escrever romances ou estudos (sobre Jesus, sobre a ditadura da beleza, sobre Maria, sobre educação, com muitas histórias reais à mistura), simplifica e torna mais contagiante os princípios que defende com o propósito de ajudar as pessoas, e a relação entre elas, os pais e os filhos, os professores e os alunos, os patrões e os empregados, e até mesmo profissionais que trabalham na área da saúde, para que não desistam de ninguém, mas que sejam humanos, que não temam falar abertamente dos medos, da ansiedade, dos fracassos, das perdas.
       Neste romance, o epicentro é um famoso neurocirurgião, cuja inteligência e rapidez de pensamento e sucesso com o bisturi, o levam a ser reconhecido e a ser convidado para conferências, a preparar outros médicos, como professor e a trazer fama ao hospital do qual também é um dos principais sócios. Até que tem um ataque de pânico, durante uma operação, com todos os sinais que pode ser um enfarte do miocárdio (ataque do coração), o fazem ter a sensação que a morte se aproxima. Os exames mostram que está bem de saúde, ao nível físico, mas o corpo sofre com um surto de ansiedade, medo de falhar, de deixar morrer quem tem na mesa de operações. Segundo o protagonista, mais perigoso do que os cirurgiões, só os psiquiatras – “Só há um médico que pode destruir mais do que um cirurgião: um psiquiatra. Quando é um mau profissional, o primeiro destrói o corpo, o segundo destrói a mente” –, mas descobrirá quanto é essencial reconhecer que precisa de ajuda para enfrentar os medos e, nessa missão, a criticar os anseios, a valorizar o que é, a olhar para quem lhe quer bem, a arranjar tempo de qualidade para a família e para os amigos, a dar descanso à mente.
       Logo no prefácio, Augusto Cury situa-nos na trama e na finalidade deste romance: "Quando abraçamos mais e julgamos menos, elogiamos mais e criticamos menos, apostamos mais cobramos menos (inclusive a nós próprios), dialogamos sobre quem somos e menos sobre onde estamos, aceitamos mais os limites dos outros e temos menos a necessidade neurótica de mudá-los, vivemos mais o presente e sofremos menos pelo futuro, protegemos a nossa emoção e traímos menos a nossa cama, o nosso sono, os nossos sonhos".
Mas vejamos algumas expressões significativas que o autor, também através das personagens do romance, explana e aprofunda algumas das ideias que estão na base da inteligência multifocal, na procura de criar seres humanos mais assertivos e saudáveis: 
"A necessidade de evidência social é um dos sintomas da infelicidade".
“Mais de 3 mil milhões de pessoas, mais cedo ou mais tarde, desenvolverão um transtorno psiquiátrico... as sociedades modernas tornaram-se uma fábrica de pessoas stressadas". 
"Antes escraviza-se o corpo, hoje escraviza-se a mente".
"Azedas a alma com as tuas reclamações". 
“Quando se ama não há sacrifícios, apenas há prazer em dar". \
"É melhor compreender do que julgar". 
  • Tratei e operei milhares de pacientes como um vendedor de tempo e de qualidade de vida. fazia quase o impossível para prolongar meses, ou mesmo alguns dias, a vida de cada paciente que estava no último estágio da vida... 
  • Todos os cérebros estão tranquilos quando se está distante da morte. Contudo, quando se aproximam dela, milhares de milhões de neurónios entram em estado de choque, clamam pela continuidade da existência através do aumento da frequência cardíaca... Se todos os seres humanos estivessem às portas da morte, ainda que virtualmente, através de um ataque de pânico, não haveria guerras, corrupção, disputas irracionais. Erradicaríamos as nossas loucuras. Nós seres humanos, vivemos como deuses, embora saibamos que somos mortais. 
  • A questão toda não é se Deus existe ou não, se se é materialista ou espiritual, se se é neurocientista, como eu fui, ou um leigo. A questão é que Deus tem de existir, senão a vida humana tornar-se-ia uma ilusão. Você ama, mas nunca mais poderá tocar quem ama e conviver com eles. É possível aceitar este fatalismo? Só se não se ama ou se não se tem consciência das sequelas irreparáveis do fim da existência. Já parou para pensar sobre o que acontece na solidão de um túmulo? 
  • Esfacela-se a memória, silencia-se a consciência, destrói-se a autonomia... tenho necessidade de crer em Deus. 
  • O edifício do presente apoia-se nos alicerces do passado, seja ele glorioso ou desastroso... 
  • Quem cobra demasiado de si próprio, sabota a sua saúde emocional, aumenta os níveis de exigência para ser feliz... 
  • Amar é necessitar, trocar, entregar-se, procurar, esperar... 
  • Uma dívida de amor não é uma dívida numérica... 
  • Se as palavras fossem balas, todos seríamos assassinos 
  • Quem só vê à sua frente a sua profissão ou o seu partido político tem um desequilíbrio intelectual doentio 
  • Todos vamos morrer. Quando? Não sabemos. O importante é fazer de cada dia um momento eterno 
  • Quem tem ciúmes diminui-se e sobredimensiona o outro... vive em função da perda... quem tem medo da perda, já perdeu. 
  • Ter uma cama confortável não quer dizer dormir bem 
  • Ter comida farta à mesa não quer dizer ter prazer em comer 
  • Conheço muitos milionários que mendigam o pão da alegria 
  • Saber corretamente uma língua não quer dizer ter maturidade para falar de si próprio e educar 
  • Ter bajuladores não quer dizer ter um ombro em que se apoiar quando o mundo desaba 
  • Ter um seguro de automóvel, de habitação, de vida, não significa, em hipótese alguma, ter proteção psíquica 
  • Ter tido uma vida mutilada, privada, ferida, abandonada não quer dizer ser programado para ser infeliz, doente, emocionalmente miserável 
  • Sem esperança, a emoção não tem oxigénio.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Augusto Cury - Tu és insubstituível

Algumas expressões do livro de AUGUSTO CURY (2018). Você é insubstituível. Lisboa: Editora Pergaminho:
"Sem sonhos, a vida não tem brilho. Sem metas, os sonhos não têm alicerces. Sem prioridades, os sonhos não se tornam reais. Sonhe, trace metas, estabeleça prioridades e corras riscos para realizar os seus sonhos. É melhor errar por tentar do que errar por se omitir. Não se esqueça de que tu, ainda que incompleto, foste o maior aventureiro da História" (espermatozóide entre 40 milhões na luta pela vida).

"Sem o perdão, o monstro do passado eclodirá no seu presente e controlará o seu futuro. Qual é a maior vingança contra um inimigo? É perdoá-lo. A palavra-chave para o perdoar não é tentar perdoá-lo, mas compreendê-lo. Se o compreender, perdoa-lo. Se o perdoas, ele morre dentro de ti e renasce de outra forma. Caso contrário, o seu inimigo dormirá contigo".

"Quando empreenderes, não tenhas medo de cometer erros. E quando os cometeres, não tenhas medo de os reconhecer. E quando os reconheceres, não tenhas medo de chorar. E quando chorares, não tenhas medo de reavaliar a tua vida. E quando reavaliares, não te esqueças de dares sempre uma nova oportunidade a ti próprio". 

VIKTOR E. FRANKL - O Homem em busca de um sentido

VIKTOR E. FRANKL (2019). O Homem em busca de um sentido. 9.ª edição. Alfragide: Editora Lua de Papel. 160 páginas.
Viktor Frankl escreveu este livro em 9 dias sucessivos, em 1945, logo depois de ter sido libertado do campo de concentração nazi. Inicialmente o livro, escrito em alemão, era para ser publicado anonimamente. O propósito era ajudar pessoas com tendência para o desespero e não a tornar o autor famoso. Os amigos incentivaram-no a assumir a autoria. Por outro lado, a segunda parte do livro é dedicado à logoterapia desenvolvida pelo autor, pelo que o relacionar das duas partes se tornam essenciais: a vivência concreta que, depois, é possível visualizar-se na teoria apresentada.
Já muitos relatos foram escritos sobre os campos de extermínio nazi, com testemunhos daqueles que sobreviveram. O autor, contudo, mais que nos relatar a vida desumana nos campos, tem como objetivo ajudar as pessoas a encontrar um sentido para as suas vidas, não universal, mas o sentido concreto para cada pessoa e pelo qual valha a pena viver e lutar.
A apresentadora Fátima Lopes, no seu livro "Fátima, o meu caminho, a minha fé", que já sugerimos como leitura, revela que esta obra faz parte das que tem na mesinha de cabeceira, para ler e reler. Seguindo a recomendação procurámos o livro e, depois de o lermos, secundamos a conselho de Fátima Lopes, pois é uma leitura que nos prende da primeira à última página, quer na parte do testemunho quer na apresentação que o famoso psiquiatra elaborou.
O autor passou por quatro campos de concentração durante a 2.ª Guerra Mundial, nunca se deixando abater pelas contrariedades e pela desumanidade com que foi tratado, ele e os companheiros. Para trás, os prisioneiros deixaram tudo, mulher, filhos e bens. Entram no campo de concentração nus, despidos das roupas e da "dignidade", à qual nunca renunciará e que sustenta que nunca se perde. Uma das expressões contundentes do autor, é que a dignidade é inerente à pessoa, não tem a ver com utilidade, pois dessa forma se justificaria a eutanásia, tal como praticada pelo nazismo.
Antes da guerra, já Viktor Frankl tinha credibilidade como psiquiatra, especializado no estudo da depressão e do suicídio. Inicialmente seguiu de perto Freud, com quem manteve correspondência, e Alfred Adler, dos quais se viria a distanciar na prática clínica. Para Sigmund Freud, a vida é sobretudo a busca de prazer e para Adler a busca de poder. Par o autor, a vida é sobretudo a busca de sentido. Três fontes de sentido: o trabalho (fazer alguma coisa significativa), o amor (cuidar de outra pessoa) e a coragem em tempos difíceis. Como refere a nota introdutória, acerca do pensamento de Frankl, "não podemos controlar o que nos acontece na vida, mas podemos sempre controlar o que iremos sentir e fazer quanto àquilo que nos acontece".
Viktor desenvolveu um programa pioneiro com os estudantes de Viena, que reduziu a zero a taxa de suicídios. A sua brilhante carreira viria a ser interrompida pelo Nacional Socialismo. Teve em mãos um visto para emigrar para os EUA, mas escolheu ficar para cuidar dos pais. Em 1942, foi deportado para um gueto e, mais tarde para Auschwitz. Com ele, também o irmão e o pai, que não sobreviveram. Também a mulher, grávida, foi para os campos de concentração. Só ele sobrevivia.
Uma das expressões que utiliza, em diversas ocasiões, até para explicar a logoterapia, a busca de sentido, é Nietzsche: "Aquele que tem uma razão para viver pode suportar quase tudo". Quem tem um motivo, uma razão para viver, mais facilmente encara as dificuldades e os contratempos, por mais violentos que sejam. O autor agarrou-se ao livro que lhe foi tirado quando entrou no gueto... Toma consciência que perdeu tudo, mas ainda assim começa logo a reescrever mentalmente o livro, para depois tomar notas (usando a estenografia) em cada pedaço de papel que vai encontrando, para que quando estiver em liberdade o livro possa ser publicado. Por outro lado, pensa na Mulher. Não sabe se está morta ou viva, mas fala com ela e interpreta positivamente alguns sinais ou coincidências, como quando um pássaro vem pousar perto dele. Cria conversas com a mulher que o serenam, motivam-no, fazem esquecer a degradação, ajudam-no a continuar.
Há outros fatores que o ajudam a sobreviver, os companheiros, os guardas que encontra, a própria sorte, pois não passa de um número que pode ser necessário para entrar nalgum camião da morte. Sobrevivendo, recusará sempre a culpa coletiva do povo alemão. Também aí a logoterapia se estende. A dignidade da pessoa mantém-se em todas as situações. A pessoa não é apenas a conjugação de dados inatos, do ambiente em que cresceu e vive e das circunstâncias. É também livre e responsável. E, por isso, diz claramente que há "porcos e santos" dos dois lados da barricada, dos prisioneiros e dos guardas. Mais tarde alguém lhe perguntou porque é que continuava a escrever em alemão, a língua de Hitler. Então o autor pergunta-lhe se tem facas na cozinha. Como a senhora respondesse que sim, então Frankl rebate: Como é que ainda consegue usar facas depois de tantos assassinos as terem usado para apunhalar e matar as suas vítimas?
Ao longo de todo o livro, o autor não se prende tanto com a experiência, fá-lo sobretudo para mostrar a sua teoria - logoterapia, isto é, como a vida se resolve na busca de um sentido, olhando para o futuro sem desprezar o passado (o que temos de mais certo), não se fixando numa culpa coletiva, mas respondendo com a sua vida. Ao lado da Estátua da Liberdade deveria estar a Estátua da Responsabilidade, pois a liberdade responsabiliza-nos, torna-nos responsáveis pelo que somos e pelo que fazemos.
"Não havia nem tempo nem vontade para olhar para questões éticas ou morais. Cada pessoa era controlada por um único pensamento: manter-se viva para a família que a esperava em casa e salvar os seus amigos".
"Em geral, só conseguiam ficar vivos aqueles que, após anos a saltar de campo em campo, tinham perdido todos os escrúpulos na sua luta pela sobrevivência; estavam prontos a usar todos os meios, honestos ou não, até mesmo a força brutal, o roubo e a traição dos amigos, de maneira a salvarem-se. Nós, os que voltámos a casa, com a ajuda de muitas circunstâncias felizes ou milagres - seja qual for o nome que escolhemos dar-lhe - nós sabemos: os melhores de entre nós não regressaram".
"A parte mais dolorosa de uma agressão é o insulto que implica"
"O meu espírito mantinha-se preso à imagem da minha mulher. Ouvi-a a responder-me, via o seu sorriso, o seu olhar franco e encorajador. Real ou não, esse olhar era naquele momento mais luminoso que o Sol que começava a nascer... A verdade - o amor é o supremo e mais elevado objetivo a que o Homem pode aspirar. Vislumbrei então o significado do maior segredo que a poesia, o pensamento e as crenças dos seres humanos podem comunicar: a salvação dos homens consegue-se no amor e pelo amor. Compreendi como pode um homem a quem nada resta no mundo conhecer ainda assim a felicidade, mesmo que por breves instantes, na contemplação do ser amado... o meu espírito continuava agarrado à imagem da minha mulher... o amor vai muito além da pessoa física do ser amado... Sentia a sua presença com cada vez mais intensidade, sentido que estava comigo; tinha a sensação de poder tocá-la, de poder esticar a minha mão e pegar na dela. Esse sentimento era muito forte: ela estava ali. Então, nesse preciso momento, um pássaro voou em silêncio e veio pousar mesmo à minha frente, num monte de terra que tinha escavado da vala, e ficou a olhar fixamente para mim... Escuta, Otto [companheiro, a quem comunica o seu testamento], se não voltar para a minha mulher e se a vires outra vez, diz-lhe que falei dela todos os dias, a todas as horas. Não te esqueças. Segundo, amei-a mais do que a qualquer outra pessoa. Terceiro, o pouco tempo que estive casado com ela supera tudo, até mesmo aquilo que passámos aqui".
História da Morte em Teerão
"Um persa rico e poderoso caminhava certo dia no seu jardim na companhia de um dos seus criados. O criado gritou que tinha acabado de encontrar a Morte, que o tinha ameaçado. Implorou ao amo que lhe desse o cavalo mais rápido de maneira a poder fugir para Teerão, onde poderia chegar nessa mesma noite. O amo acedeu e o criado afastou-se a galope no cavalo. Ao regressar a casa, o amor encontrou também a Morte, e questionou-a: «Por que razão assustaste e ameaçaste o meu criado?» E a Morte disse: «Não o ameacei; limitei-me a mostrar surpresa por estar ainda aqui quando tinha planeado encontrar-me com ele esta noite em Teerão».
Nietzsche: "Aquilo que não me mata torna-me mais forte". 
"As experiências da vida nos campos mostram que os homens têm realmente a possibilidade de escolher. Houve muitos exemplos, com frequência de natureza heróica, que demonstraram que a apatia podia ser vencida e a irritabilidade dominada. O Homem pode preservar um vestígio de liberdade e independências espirituais, até mesmo em condições terríveis de stress físico e psíquico... Homens que iam de caserna em caserna para confortar os outros, oferecendo-lhes o último pedaço de pão. Podem ter sido poucos, mas constituem prova suficiente de que tudo pode ser tirado a um homem, menos uma coisa: a última das liberdades humanas - a possibilidade de escolhermos a nossa atitude em quaisquer circunstâncias, de escolher a nossa maneira de fazermos as coisas".
"É uma característica peculiar dos seres humanos só conseguirem viver a olhar para o futuro - sub specie aeternitatis. E isto é a sua salvação nos momentos mais difíceis da existência, embora por vezes tenham de forçar-se a prosseguir".
"A emoção, que constitui sofrimento, deixa de ser sofrimento logo que formamos uma ideia clara e distinta a seu respeito".
"O preso que perdesse a fé no futuro - o seu futuro - estava condenado. Ao perder a crença no futuro, perdia igualmente o controlo espiritual; deixava-se decair e ficava sujeito a um definhamento físico e mental".
"O homem pode ser chamado a aceitar simplesmente o destino, a carregar a sua cruz... Quando um homem descobre que o seu destino é sofrer, terá que aceitar esses sofrimento como sua missão; a sua missão única e exclusiva. Terá que reconhecer o facto de que, até mesmo no sofrimento, é único e está só no universo. Ninguém pode libertá-lo do seu sofrimento ou de sofrer no seu lugar. A sua oportunidade única reside na forma como carrega o seu fardo".
"Ter sido é também uma forma de ser, e talvez das mais seguras... Há alguém a olhar por cada um de nós nos momentos difíceis - um amigo, uma esposa, alguém vivo ou morto, ou um Deus - e essa pessoa não gostaria que a desiludíssemos. Esperaria ver-nos a sofrer com orgulho - e não abatidos - sabendo como morrer".
"Há duas raças de homens neste mundo e só estas duas - a «raça» dos homens decentes e a «raça» dos homens indecentes. Podemos encontrar uma e outra por todo o lado; elas permeiam todos os grupos sociais. Nenhum desses grupos consiste inteiramente de pessoas decentes ou indecentes. Neste sentido, nenhum grupo é uma «raça pura» - e podíamos, portanto, encontrar ocasionalmente uma pessoa decente entre os guardas do campo".
"A experiência suprema entre todas, para o homem que regressa a casa, é o sentimento maravilhoso de que, depois de tudo quanto sofreu, não há mais nada a temer - exceto o seu Deus".
"O amor é a única maneira de compreender outro ser humano no fulcro mais íntimo da sua personalidade. Ninguém pode ter um conhecimento profundo e completo da essência do outro ser humano a menos que o ame. Por meio do seu amor, fica capacitado para ver os traços e as características essenciais da pessoa amada; mais ainda, vê aquilo que há em potência nela, ainda que não efetivado mas que deveria sê-lo. Para além disso, por meio do amor, a pessoa que ama permite àquela que é amada a efetivação desses potencialidades. Ao torná-la consciente daquilo que pode ser e daquilo em que deveria transformar-se, torna essas potencialidades reais... O amor é um fenómeno tão primário como o sexo. Normalmente, o sexo é um modo de expressão do amor. O sexo é justificado, é até santificado, logo que se tornar um veículo do amor, mas só na medida em que o seja. O amor não é, assim, compreendido como um mero efeito secundário do sexo; é, antes, o sexo que constitui uma forma de exprimir a experiência dessa derradeira forma de comunhão que se chama amor".
"A liberdade não é a última palavra. A Liberdade é só uma parte da história e metade da verdade. A liberdade não é senão o aspeto negativo do fenómeno no seu todo, cujo aspeto positivo é a responsabilidade., De facto, a liberdade está em risco de degenerar em mera arbitrariedade, a menos que seja vivia num âmbito de responsabilização. Por este motivo recomendo que a Estátua da Liberdade na costa leste seja completada com uma Estátua da Responsabilidade na costa oeste".
"O Homem é esse ser que inventou as câmaras de gás de Auschwitz; no entanto, é igualmente o ser que entrou nas câmaras de gás de cabeça erguida, com o Pai Nosso ou o Shema Yisrael nos lábios".
"Sigmund Freud declarou uma vez, «deixemos alguém tentar expor à fome um certo número dos mais diversificados tipos de pessoas. À medida que aumentar a necessidade imperativa da fome, todas as diferenças individuais tenderão a esbater-se e a dar lugar à expressão uniforme do único instinto por saciar». Graças a Deus, Freud foi poupado ao conhecimento dos campos de concentração por dentro. Os seus pacientes deitam-se num divã luxuoso de estilo vitoriano e não na imundice de Auschwitz. Aí, as «diferenças individuais» não se »apagaram», pelo contrário, as pessoas tornaram-se mais diferentes; as pessoas desmascaram-se, tanto os porcos como os santos. E hoje em dia já não precisamos de hesitar em usar a palavra «santos»: basta pensar no padre Maximiliano Kolbe, forçado a passar fome e por fim assassinado com uma injeção de ácido carbólico em Auschwitz e que em 1983 foi canonizado".