sexta-feira, 8 de abril de 2011

A Palavra de Deus e a cultura

       Deus não Se revela ao homem abstractamente, mas assumindo linguagens, imagens e expressões ligadas às diversas culturas. Trata-se de uma relação fecunda, largamente testemunhada na história da Igreja. Hoje tal relação entra também numa nova fase, devido à propagação e enraizamento da evangelização dentro das diversas culturas e nas mais recentes evoluções da cultura ocidental. Isto implica, antes de mais nada, reconhecer a importância da cultura como tal para a vida de cada homem. De facto, o fenómeno da cultura, nos seus múltiplos aspectos, apresenta-se como um dado constitutivo da experiência humana: «O homem vive sempre segundo uma cultura que lhe é própria e por sua vez cria entre os homens um laço, que lhes é próprio também, determinando o carácter inter-humano e social da existência humana».

Bento XVI, Verbum Domini, n.º 109.

Foi Ele que Me enviou...

        Jesus ensinava no templo, dizendo: «Vós Me conheceis e sabeis de onde Eu sou! No entanto, Eu não vim por minha própria vontade e é verdadeiro Aquele que Me enviou e que vós não conheceis. Mas Eu conheço-O, porque d’Ele venho e foi Ele que Me enviou». Procuravam então prender Jesus, mas ninguém Lhe deitou a mão, porque ainda não chegara a sua hora (Jo 7, 1-2.10.25-30).
        Jesus prega abertamente no Templo levando os seus ouvintes a colocarem algumas questões. Tendo sido proibido de ensinar, sendo perseguido, como é que surge agora a pregar à frente de todos? Será que os judeus passaram a acreditar que Ele é o Messias? Mas, a interrogação continua, se fosse o Messias nós não saberíamos de onde Ele é!
       Jesus responde com frontalidade. É conhecida a Sua origem, terrena. Mas Ele vem do Pai. Neste caso, já não é tão fácil "saber" da origem de Jesus. Entramos no plano da fé.
       A hora de Jesus está a chegar, mas ainda não chegou, como se refere no Evangelho. A perspectiva é evidente, a entrega de Jesus é voluntária, é dádiva, não é imposta. "A vida ninguém ma tira, sou Eu que a dou".

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Diaconia da caridade >> anúncio da Palavra

       A diaconia da caridade, que nunca deve faltar nas nossas Igrejas, tem de estar sempre ligada ao anúncio da Palavra e à celebração dos santos mistérios. Ao mesmo tempo é preciso reconhecer e valorizar o facto de que os próprios pobres são também agentes de evangelização. Na Bíblia, o verdadeiro pobre é aquele que se confia totalmente a Deus e, no Evangelho, o próprio Jesus chama-os bem-aventurados, «porque deles é o reino dos céus» (Mt 5, 3; cf. Lc 6, 20). O Senhor exalta a simplicidade de coração de quem reconhece em Deus a verdadeira riqueza, coloca n’Ele a sua esperança e não nos bens deste mundo.

Bento XVI, Verbum Domini, n.º 107.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Meu Pai trabalha em todo o tempo e Eu também!

        Disse Jesus aos judeus: «Meu Pai trabalha incessantemente e Eu também trabalho em todo o tempo». Esta afirmação era mais um motivo para os judeus quererem dar-Lhe a morte: não só por violar o sábado, mas também por chamar a Deus seu Pai, fazendo-Se igual a Deus (Jo 5, 17-30).
       É esta a resposta de Jesus àqueles que contestam as curas realizadas ao Sábado.
       Há-de servir de motivo para perseguir Jesus, mas é uma boa notícia para todos aqueles que esperam a salvação. Com efeito, os prodígios realizados por Jesus são sinal e expressão da presença de Deus entre nós e de que a salvação já está a operar-se no mundo.
       Por um lado, a contestação a Jesus é sobretudo uma questão de inveja, de ciúme, e de medo de perda da influência, por parte das classes dirigentes, perante o povo, uma multidão faminta de pão e de sentido de vida.
       Por outro, a confiança em Deus que não dorme. Mesmo quando e onde pensamos que vence o mal e os maus, Jesus diz-nos que Deus não dorme, trabalha o tempo todo, incessantemente, o bem há-de vencer, e com o bem a vida, a vitória sobre a morte, o sofrimento e o mal.
       Além disso, e como temos vindo a referir, não há tempos errados ou proibidos para fazer o bem. Na verdade, é sempre hora para a prática da justiça, da caridade, do acolhimento. Para fazer o mal, todos os tempos são desperdício.

Aproxima-se a hora - e já chegou...

       Assim fala o Senhor: «No tempo da graça, Eu te ouvi; no dia da salvação, Eu te ajudei... De todas as minhas montanhas farei caminhos e as minhas estradas serão niveladas. Ei-los que vêm de longe... Rejubilai, ó céus; exulta, ó terra; montes, soltai gritos de alegria, porque o Senhor consola o seu povo e tem compaixão dos seus pobres. Sião dizia: ‘O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-Se de mim’. Pode a mulher esquecer-se da criança que amamenta e não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Mas ainda que ela o esquecesse, Eu nunca te esquecerei» (Is 49, 8-15).
        "Em verdade, em verdade vos digo: Aproxima-se a hora – e já chegou – em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem, viverão. Assim como o Pai tem a vida em Si mesmo, assim também concedeu ao Filho que tivesse a vida em Si mesmo; e deu-Lhe o poder de julgar, porque é o Filho do homem. Não vos admireis do que estou a dizer, porque vai chegar a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz: Os que tiverem praticado boas obras irão para a ressurreição dos vivos e os que tiverem praticado o mal para a ressurreição dos condenados. Eu não posso fazer nada por Mim próprio: julgo segundo o que oiço e o meu juízo é justo, porque não procuro fazer a minha vontade, mas a vontade d’Aquele que Me enviou" (Jo 5, 17-30).

       Na primeira leitura, do profeta Isaías, faz-se uma antecipação, que nos envolve na alegria e na esperança, pelo tempo da graça e da salvação. O convite é à alegria na certeza de que o Senhor não se esquece de nós, tal como a mãe não se esquece do fruto das suas entranhas. Mas ainda que as mães esquecessem os filhos, Deus não Se esqueceria de nós.
       Jesus, claramente, afirma que é chegada a hora de se manifestar a salvação, em que até os mortos ressuscitarão.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Não voltes a pecar, para que não te suceda pior

        Diziam os judeus àquele que tinha sido curado: «Hoje é sábado: não podes levar a tua enxerga». Mas ele respondeu-lhes: «Aquele que me curou disse-me: ‘Toma a tua enxerga e anda’». Perguntaram-lhe então: «Quem é que te disse: ‘Toma a tua enxerga e anda’». Mas o homem que tinha sido curado não sabia quem era, porque Jesus tinha-Se afastado da multidão que estava naquele local. Mais tarde, Jesus encontrou-o no templo e disse-lhe: «Agora estás são. Não voltes a pecar, para que não te suceda coisa pior». O homem foi então dizer aos judeus que era Jesus quem o tinha curado. Desde então os judeus começaram a perseguir Jesus, por fazer isto num dia de sábado (Jo 5, 1-3a.5-16).
       O simbolismo da água está claramente presente na Liturgia da Palavra. Na primeira leitura, o Senhor faz uma experiência com o profeta Ezequiel. A água que sai do templo será generosa e salubre, por onde passar criar nova vida e novo alento. Uma imagem perfeita do baptismo, pelo qual Deus nos cria como novas criaturas.
       No Evangelho, a descida às águas da piscina de Betsatá cura as pessoas da sua enfermidade. Jesus é a água que nos cura. Jesus, vendo ali um homem enfermo, junto à piscina, há 38 anos, por não ter ninguém que o ajudasse, Jesus fá-lo levantar-se e andar. Jesus "substitui" a água da piscina pela palavra e pela fé.
       Obviamente, que o gesto de Jesus provoca altercação por parte de alguns judeus, não por ter curado, mas por o fazer a um Sábado. Para Jesus, fazer o bem não tem dia nem hora marcada, todos os dias e todas as horas são boas para praticar o bem.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Cristo, Palavra de Deus e Igreja

       A relação entre Cristo, Palavra do Pai, e a Igreja não pode ser compreendida em termos de um acontecimento simplesmente passado, mas trata-se de uma relação vital na qual cada fiel, pessoalmente, é chamado a entrar. Realmente, falamos da Palavra de Deus que está hoje presente connosco: «Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo» (Mt 28, 20). Como afirmou o Papa João Paulo II, «a contemporaneidade de Cristo com o homem de cada época realiza-se no seu corpo, que é a Igreja».

Bento XVI, Verbum Domini, n.º 51.

Eu vou criar novos céus e nova terra

       Assim fala o Senhor: «Eu vou criar os novos céus e a nova terra e não mais se recordará o passado, nem voltará de novo ao pensamento. Haverá alegria e felicidade eterna por aquilo que Eu vou criar: vou fazer de Jerusalém um motivo de júbilo e do seu povo uma fonte de alegria. Exultarei por causa de Jerusalém e alegrar-Me-ei por causa do meu povo. Nunca mais se hão-de ouvir nela vozes de pranto nem gritos de angústia. Já não haverá ali uma criança que viva só alguns dias, nem um velho que não complete o número dos seus anos, porque o mais novo morrerá centenário e quem não chegar aos cem anos terá incorrido em maldição. Construirão casas e habitarão nelas; plantarão vinhas e comerão os seus frutos» ( Is 65, 17-21).

       O profeta Isaías anuncia um tempo novo, de salvação, alegria e paz.
       Na preparação do Natal, no Advento, escutámos esta profecia de que está para chegar o Salvador, o Emanuel. Em tempo de preparação para a Páscoa, na Quaresma, o profeta relembra-nos o tempo novo que vai chegar com o Servo sofredor. Ele criará novos céus e nova terra, onde reinar a justiça, a paz e a alegria.

domingo, 3 de abril de 2011

Com o milagre da cura, Jesus abre o nosso olhar

Na Sua Mensagem para esta Quaresma 2011, Bento XVI diz o seguinte sobre este IV Domingo de Quaresma:

       O domingo do cego de nascença apresenta Cristo como luz do mundo. O Evangelho interpela cada um de nós: «Tu crês no Filho do Homem?». «Creio, Senhor» (Jo 9, 35.38), afirma com alegria o cego de nascença, fazendo-se voz de todos os crentes. O milagre da cura é o sinal que Cristo, juntamente com a vista, quer abrir o nosso olhar interior, para que a nossa fé se torne cada vez mais profunda e possamos reconhecer n’Ele o nosso único Salvador. Ele ilumina todas as obscuridades da vida e leva o homem a viver como «filho da luz».

sábado, 2 de abril de 2011

Domingo IV da Quaresma - 3 de Abril

       1 – Dois elementos essenciais no nosso mundo: a ÁGUA, indispensável à vida, que nos refresca e alimenta, e a LUZ, que nos permite caminhar em segurança e nos guia confiantes ao encontro dos outros. Duas realidades do nosso quotidiano que, carregadas de simbolismo, nos transportam para Aquele que nos transcende, infinitamente, mas Se faz próximo, no tempo e na história, Se faz Deus connosco, em Jesus Cristo.
       Os domingos da Quaresma, neste ciclo de leituras, ANO A, apresentam-nos claramente a liturgia baptismal. Se no domingo anterior se falava da água que jorra para a vida eterna – Jesus apresenta-Se como a água viva, que sacia a nossa sede de sentido, de justiça e verdade –, neste domingo centramo-nos na Luz.
Diz-nos Jesus: "É preciso trabalhar, enquanto é dia, nas obras d’Aquele que Me enviou. Vai chegar a noite, em que ninguém pode trabalhar. Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo"... Ele é a luz do mundo, é n'Ele que nos encontramos e nos reconhecemos como irmãos. Na ausência de luz, na escuridão, tudo se transforma em tropeço, em ocasião para o medo, para a queda. Na luz de Jesus Cristo, tornamo-nos novas criaturas, caminhamos seguros.
       2 – No Evangelho, um cego de nascença beneficia da proximidade de Jesus, e recupera a visão. Para lá do milagre, como sinal da presença de Deus no meio de nós, e do Seu poder salvador, o simbolismo é por demais evidente. Andámos cegos, às apalpadelas, sempre à procura de um significado para a vida, uma justificação para o que nos acontece, para o que acontece no mundo, à nossa volta. Só em Cristo Jesus encontramos um sentido definitivo. Ele é a Luz que nos deixa ver para lá das aparências.
       Com efeito, diz o Senhor a Samuel, na hora de eleger o Rei de Israel: "Não te impressiones com o seu belo aspecto, nem com a sua elevada estatura, pois não foi esse que Eu escolhi. Deus não vê como o homem; o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração".
       A escolha de Deus não recai nas nossas competências, na nossa sabedoria, nas nossas qualidades, embora estas sejam também expressão da Sua benevolência. Chama-nos para nos enviar, para Se "apoderar" de nós: "Daquele dia em diante, o Espírito do Senhor apoderou-Se de David". Cabe-nos deixar que o Espírito de Deus Se "apodere" da nossa vontade, para que em nós actue a misericórdia e a bênção de Deus para o mundo inteiro.

       3 – O cego de nascença, depois da cura, do encontro com Jesus, encontra a luz que o guia para a verdade e o torna destemido diante da ameaça dos fariseus e dos doutores da Lei. É dele que escutámos estas sábias palavras: "Isto é realmente estranho: não sabeis de onde Ele é, mas a verdade é que Ele me deu a vista. Ora, nós sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aqueles que O adoram e fazem a sua vontade. Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer".
       Agora ele vê, e não apenas para o exterior, vê a verdade, reconhece em Jesus a presença de Deus. Vê para lá dos argumentos e das aparências. Está no caminho de luz, para a qual também nós somos impelidos pelo Espírito de Deus que nos habita. "Outrora vós éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz, porque o fruto da luz é a bondade, a justiça e a verdade. Procurai sempre o que mais agrada ao Senhor. Não tomeis parte nas obras das trevas, que nada trazem de bom… Desperta, tu que dormes; levanta-te do meio dos mortos e Cristo brilhará sobre ti".
       Com efeito, na ressonância das palavras de Paulo, agora que vivemos da Luz, não deixemos de praticar as obras da luz: bondade, justiça, verdade.
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Textos para a Eucaristia (ano A): 1 Sam 16, 1b.6-7.10-13a; Ef 5, 8-14; Jo 9, 1-41

João Paulo II morreu há 6 anos

       No dia 2 de Abril de 2005, o mundo inteiro colocava os olhos e a atenção no Vaticano, através da rádio, da televisão, da internet, e com milhares de fiéis na Praça de São Pedro... João Paulo II estava a morrer... o Seu estado de saúde degradava-se cada vez mais, esperava-se a qualquer momento que fosse anunciada a Sua morte, o que aconteceria no final desse dia 2 de Abril.
       Deixamos aqui um dos muitos vídeos, existentes no YouTube de homenagem a João Paulo II:

A oração do fariseu e do publicano...

       Jesus disse a seguinte parábola para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros: «Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. O fariseu, de pé, orava assim: ‘Meu Deus, dou-Vos graças por não ser como os outros homens, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo quanto possuo’. O publicano ficou a distância e nem sequer se atrevia a erguer os olhos ao Céu; mas batia no peito e dizia: ‘Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador’. Eu vos digo que este desceu justificado para sua casa e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado» ( Lc 18, 9-14).
       A parábola de hoje é de fácil compreensão. O evangelista começa desde logo por dizer que Jesus a contou para aqueles que se consideravam justos desprezando os outros. Com efeito, diante de Deus todos somos pecadores e todos somos filhos, em Jesus Cristo. Ele quere-nos com o mesmo amor de Pai. Por isso vem ao nosso encontro, faz-Se um de nós, e em Jesus Cristo dá a vida por nós, oferece-nos eternamente.
       Diante de Deus não precisamos de fingir ou nos colocar acima dos outros, sejamos nós próprios. O amor de Deus é maior que as nossas insuficiências e as nossas fraquezas.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Pelas Escrituras se conhece Jesus Cristo

       Na história da Igreja, não faltam recomendações dos Santos sobre a necessidade de conhecer a Escritura para crescer no amor de Cristo. Trata-se de um dado particularmente evidente nos Padres da Igreja. São Jerónimo, grande «enamorado» da Palavra de Deus, interrogava-se: «Como seria possível viver sem o conhecimento das Escrituras, se é por elas que se aprende a conhecer o próprio Cristo, que é a vida dos crentes?»

Bento XVI, Verbum Domini, n.º 72.

quinta-feira, 31 de março de 2011

A Igreja vive do Evangelho

       A Igreja não vive de si mesma, mas do Evangelho; e do Evangelho tira, sem cessar, orientação para o seu caminho. Temos aqui uma advertência que cada cristão deve acolher e aplicar a si mesmo: só quem se coloca primeiro à escuta da Palavra é que pode depois tornar-se seu anunciador».

Bento XVI, Verbum Domini, n.º 51.

Deus não desiste... nunca... de nós!

Assim fala o Senhor... "Desde o dia em que os seus pais saíram da terra do Egipto até hoje, enviei-lhes todos os profetas, meus servos, dia após dia, incansavelmente. Mas eles não Me ouviram nem Me prestaram atenção: endureceram a sua cerviz, fizeram pior que seus pais. Se lhes disseres tudo isto, não te escutarão; se chamares por eles, não te responderão. Por isso lhes dirás: Esta é a nação que não ouviu a voz do Senhor seu Deus e não quis aceitar os seus ensinamentos. Perdeu-se a fidelidade, foi eliminada da sua boca" (Jer 7, 23-28).

       Deus mantém-Se sempre fiel ao Seu povo. Não desiste. Desde os tempos do Egipto que Deus não cessa de enviar mensageiros, profetas, para reconduzir o povo à Sua identidade e à aliança feita com Deus, ser o Seu povo, cumprindo os Seus mandamentos.
       A fidelidade de Deus contrasta com as nossas limitações e com o nosso pecado.
       Mas Deus não desiste de nós, até nos enviar o Seu próprio Filho.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Abrão, Sara e Agar - Riso e choro - Gn 21, 8-21

       Deus lembrou-se da promessa que havia feito a Abraão e Sara e, finalmente, estes tiveram um filho. Sara ficou radiante: “Deus trouxe-me alegria e riso” – disse ela. Deram ao menino o nome de “Isaac”, cujo próprio nome significa “ele ri”.
       À medida que o seu filho crescia, Sara começou a ficar preocupada. “Mandai embora Agar e Ismael. – murmurou a Abraão – Não quero que Ismael herde o que na verdade pertence ao nosso Isaac”.
       Abraão ficou desalentado com o que Sara dissera. Afinal de contas, Ismael também era seu filho.
       Deus disse-lhe para fazer a vontade a Sara. “Deixa partir o rapaz e a sua mãe. – concordou Deus – A minha promessa para convosco irá concretizar-se através dos filhos de Isaac; mas cuidarei também dos filhos de Ismael”.
       Na manhã seguinte, Abraão mandou Agar e Ismael embora apenas com alguma comida e um odre com água. Eles caminharam sem parar pelo deserto seco e poeirento. Em breve haviam já bebido a água. Quase imediatamente voltaram a sentir sede.
       Desesperada, ela pousou a criança na sombra de um arbusto e afastou-se um pouco. Enterrou a cabeça nas suas mãos. “Não quero vê-lo morrer” – soluçou ela.
       Deus escutou-a a chorar. “Vai buscar o teu filho”, – disse Deus – ele será pai de uma grande nação”.
       Agar olhou para cima espantada. O deserto reluzia com o calor. Então escutou novamente Deus a falar. “Olha à tua volta, – disse Deus – olha com olhos de ver”.
       Agar percorreu com os olhos a paisagem estéril. Então riu bem alto de alegria.
       “Existe um poço!” – gritou – Podemos sobreviver aqui! Podemos construir uma vida nova para nós… e Ismael pode aprender a caçar… e tudo ficará bem”
       Os anos passaram e Ismael tornou-se um homem. Casou com uma mulher egípcia. Agar soube que a promessa que Deus lhe fizera estava a realizar-se.

Mónica Aleixo, in Boletim Voz Jovem, Março 2011.

terça-feira, 29 de março de 2011

Editorial Voz Jovem - Março 2011

       1 – Estivemos na Montanha para escutarmos e reflectirmos com o Sermão da Montanha e nos deixarmos sensibilizar pela Mensagem de Jesus.
       A montanha é um lugar de encontro com Deus, de revelação, de ensino. Moisés sobe à montanha e recebe de Deus os Mandamentos; Jesus sobe à montanha e deixa-nos o essencial da Sua palavra de salvação. Na montanha o ar é mais fresco, mais límpido, apetece encher os pulmões desta frescura. Subamos para nos refrescarmos com a presença de Deus; deixemo-nos inundar da Sua luz, para descermos ao nosso mundo, com a energia, a sabedoria e a graça, para testemunharmos a salvação operada em nós pelo Senhor.
       2 – "Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os, em particular, a um alto monte e transfigurou-Se diante deles: o seu rosto ficou resplandecente como o sol e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz". A Quaresma guiar-nos-á à Páscoa jubilosa. Porquanto é tempo de oração e de caridade, de jejum e de penitência, é tempo de conversão! Estamos na expectativa! Antes da glorificação, atravessámos a dor, o escárnio, a traição, a dúvida, as hesitações. Chegará a hora da agonia e da morte. O próprio Jesus relembra constantemente os momentos difíceis que estão para chegar.
       Os sinais que Jesus dá não são bons para quem espera sucesso e vida facilitada com a Sua presença. Alguns discípulos não resistirão. Quanto maior a adversidade, maior a necessidade de inequívocos sinais de esperança e estes só os encontramos em Deus. Jesus sabe isso. Chama Pedro, Tiago e João e "abre o jogo", fazendo-os subir à montanha, e deixando vislumbrar na Sua luminosidade a Sua identidade divina: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».
       A revelação é acompanhada com um desafio: escutar Jesus. Escuta que leva à vivência.
       A experiência é tão envolvente que os discípulos querem permanecer na montanha: "Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés a outra para Elias". Como é bom sentirmos a presença de Deus. Mas temos que "regressar" à terra. Constantemente. A salvação que Deus nos dá, compromete-nos com este mundo. Jesus é peremptório: "Levantai-vos e não temais". Caminhemos!

       3 – Com efeito, Deus não nos quer instalados no nosso canto. Jesus di-lo aos discípulos como Deus o revelara a Abrão: "Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que Eu te indicar. Farei de ti uma grande nação e te abençoarei; engrandecerei o teu nome e serás uma bênção. Abençoarei a quem te abençoar, amaldiçoarei a quem te amaldiçoar; por ti serão abençoadas todas as nações da terra" (Gen 12, 1-9).
       Abrão deixa a Sua terra, a casa de seus pais, irá para uma terra estranha, mudará de nome (Abraão) e de vida. Ele é o arameu errante, peregrino. Torna-se para nós um paradigma. Era mais cómodo e mais tranquilo cruzar os braços e ficar sob o tecto do seu pai biológico. Perante o chamamento de Deus, põe-se em movimento, segue a Sua voz, para realizar a Sua vontade. Deus estará com ele. Deus está connosco na nossa peregrinação terrena, desafiando-nos a novos caminhos, sem medo!

       4 – A certeza da salvação é um motivo de sobra no nosso compromisso com a salvação do mundo inteiro. O conforto que esta esperança nos traz, alegra-nos como aos discípulos no alto da montanha, mas como a eles também a nós Jesus nos faz descer até ao nosso semelhante, para que todos O conheçam e tenham n'Ele a vida eterna.

Boletim Paroquial Voz Jovem, Março 2011.
(texto reformulado a partir da homilia do II Domingo da Quaresma)

segunda-feira, 28 de março de 2011

A palavra encarnou e sofreu connosco...

       ...o Pai da vida é o médico por excelência do homem e não cessa de inclinar-Se amorosamente sobre a humanidade que sofre. Contemplamos o apogeu da proximidade de Deus ao sofrimento do homem, no próprio Jesus que é «Palavra encarnada. Sofreu connosco, morreu. Com a sua paixão e morte, assumiu e transformou profundamente a nossa debilidade».

Bento XVI, Verbum Domini, n.º 106.

Passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho

        Jesus veio a Nazaré e falou ao povo na sinagoga, dizendo: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra. Digo-vos a verdade: Havia em Israel muitas viúvas no tempo do profeta Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas a uma viúva de Sarepta, na região da Sidónia. Havia em Israel muitos leprosos no tempo do profeta Eliseu; contudo, nenhum deles foi curado, mas apenas o sírio Naamã». Ao ouvirem estas palavras, todos ficaram furiosos na sinagoga. Levantaram-se, expulsaram Jesus da cidade e levaram-n’O até ao cimo da colina sobre a qual a cidade estava edificada, a fim de O precipitarem dali abaixo. Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho (Lc 4, 24-30).

       Recordando algumas passagens da Sagrada Escritura, Jesus lembra como, por vezes, os que estão mais perto da salvação, são os que a depreciam mais facilmente. Jesus vai a Nazaré e os seus conterrâneos, que o conheciam desde muito novo, foi lá que cresceu, não lhe reconhecem autoridade. Mais, ainda se revoltam contra Ele. Expulsam-n'O da cidade e querem fazer-Lhe mal. Jesus, no entanto, prossegue o seu caminho. Importante esta lição, mesmo no meio da adversidade devemos seguir o nosso caminho, quando este nos conduz à verdade, ao bem e à vida.

domingo, 27 de março de 2011

Bento XVI: consequências da precariedade

       Bento XVI manifestou-se hoje preocupado com as condições “difíceis ou precárias” do actual mundo do emprego, manifestando o apoio da Igreja a quem se esforça por ter um trabalho seguro e digno.
        “A Igreja apoia, conforta, encoraja qualquer esforço destinado a garantir a todos um trabalho seguro, digno e estável”, afirmou.
       O Papa falava no Vaticano, perante um grupo de peregrinos da diocese italiana de Terni-Narni-Amelia, que comemoram 30 anos da visita de João Paulo II aos estabelecimentos siderúrgicos da cidade.
       “As difíceis ou precárias condições do trabalho tornam difíceis e precárias as condições da própria sociedade, as condições de uma vida ordenada segundo as exigências do bem comum”, disse.
       Bento XVI falou especificamente da precariedade do trabalho no “mundo juvenil” afirmando que a mesma “não deixa de provocar angústia em muitas famílias”.
       Neste contexto, surgiu a questão do “desemprego”, com o Papa a afirmar que “o trabalho é um dos elementos fundamentais tanto da pessoa como da sociedade”.
       “O trabalho deve ser entendido na perspectiva cristã, em vês de ser visto apenas como um meio de lucro, ou de exploração, como acontece em muitas partes do mundo, onde é ofendida a própria dignidade da pessoa”, declarou.
       No seu discurso, Bento XVI falou do “grave problema da segurança no trabalho” e apelou a todos os esforços possíveis para evitar a “cadeia de mortes e incidentes”.
       O Papa falou ainda do tema do trabalho aos domingos, alertando para o risco de o “ritmo do consumo” eliminar o “sentido da festa e do Domingo como dia do Senhor e da comunidade”.

Quaresma - III Domingo - Samaritana

Sede do bem, da verdade e da beleza!

Na Sua Mensagem para esta Quaresma 2011, Bento XVI diz o seguinte sobre este III Domingo de Quaresma:

       O pedido de Jesus à Samaritana: «Dá-Me de beber» (Jo 4, 7), que é proposto na liturgia do terceiro domingo, exprime a paixão de Deus por todos os homens e quer suscitar no nosso coração o desejo do dom da «água a jorrar para a vida eterna» (v. 14): é o dom do espírito Santo, que faz dos cristãos «verdadeiros adoradores» capazes de rezar ao Pai «em espírito e verdade» (v. 23). Só esta água pode extinguir a nossa sede do bem, da verdade e da beleza! Só esta água, que nos foi doada pelo Filho, irriga os desertos da alma inquieta e insatisfeita, «enquanto não repousar em Deus», segundo as célebres palavras de Santo Agostinho.

sábado, 26 de março de 2011

Domingo III da Quaresma - 27 de Março

       1 – A nossa vida é uma busca incessante.
       Nas sábias palavras de Blaise Pascal, o homem ultrapassa infinitamente o homem. Ou seja, o nosso corpo, a nossa identidade corpórea-espiritual não nos confina à nossa dimensão biológica, mas portamos connosco um desejo permanente de ir mais longe, para lá de todas as nossas limitações. Diríamos, como crentes cristãos, que a nossa identidade divina nos faz ansiar pelo Infinito, por Deus, a nossa origem, e, como refere Santo Agostinho, o nosso coração anda inquieto enquanto não repousar no Senhor da vida. Numa outra perspectiva: a nossa vida funda-se na ESPERANÇA que mais à frente nos encontraremos numa situação mais favorável, mais compensadora e que nos fará verdadeiramente felizes.
       No fundo, a nossa busca sem fim tem como fim (finalidade) a felicidade que se realizará em plenitude na eternidade mas que experimentamos, e ainda bem, já agora, na nossa vida terrena. Nunca se esgota o nosso desejo de sermos felizes. Por vezes devora-nos na ânsia do prazer imediato, do bem-estar, do comodismo. A felicidade é sempre caminho, compromisso, procura, nunca se esgota nas satisfações biológicas. Há algo maior, a nossa identidade que aponta e nos atrai para Deus.
       2 – O encontro de Jesus com a mulher samaritana é, a este propósito, paradigmático. Para lá do contexto em que acontece – um judeu que fala com uma mulher e ainda para mais estrangeira, inimiga –, o ensinamento categórico de Jesus: a salvação é oferecida a todos os povos independentemente da cultura, da história ou da religião. Uma vez mais, o que importa verdadeiramente não é o ponto de partida, a situação actual em que nos encontramos, mas o caminho que podemos fazer. É uma primeira lição.
       Depois, o diálogo sobre a verdadeira sede e a verdadeira água.
       Jesus diz claramente à mulher samaritana que há uma sede que é bem maior que a sede biológica. Esta precisa de ser saciada e é-o no imediato com água, elemento da natureza. Mas há, em todos nós, uma sede maior, um desejo mais profundo, um sentido para a vida. Como nós, também ela é levada a compreender que muitos acontecimentos na sua vida pessoal, encontros e desencontros, não passaram de tentativas para responder a esta ânsia de felicidade, mas esgotaram-se na brevidade, como quem consome biologicamente os alimentos e precisa de repetidamente se alimentar.
       "Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘Dá Me de beber’, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva"... A água viva que Jesus nos dá sacia a nossa procura, é resposta aos nossos anseios mais profundos, é um sentido para a vida presente. Por aqui sabemos que as satisfações corporais são passageiras como passageiras são as adversidades actuais, o que permanece é o que fazemos por amor, o que nos liga ao outro, o que nos torna irmãos.
       E, por conseguinte, é mais óbvia a resposta que Jesus dá aos seus discípulos quando estes regressam com alimentos: o meu alimento é fazer a vontade de Meu Pai. Vale mais que tudo. Vale sempre. Nem só de pão vive o homem, ainda que aquele seja necessário, mas da Palavra de Deus, que nos impele para a verdade e para a vida.

       3 – O povo de Israel experimenta a tentação e o desânimo. Deixa-se vencer pela murmuração contra Deus e contra Moisés. No primeiro Domingo de Quaresma, víamos como Jesus superou as tentações em que o povo fracassou. A referência é e há-de ser sempre: fazer a vontade de Deus.
       Hoje, na primeira leitura, ouvimos a ressonância dos murmúrios do povo. Rapidamente se esqueceu das maravilhas de Deus, la libertação do Egipto. Para que todos se lembrem do dia e do local em que se voltaram contra Deus e contra Moisés,... "chamou àquele lugar Massa e Meriba, por causa da altercação dos filhos de Israel e por terem tentado o Senhor, ao dizerem: «O Senhor está ou não no meio de nós?»" Não apenas para recordar, mas sobretudo para que não vença a tentação, mas a fé em Deus.
       O salmista faz-nos rezar com as palavras de Deus, com o novo desafio: "Quem dera ouvísseis hoje a sua voz: «Não endureçais os vossos corações, como em Meriba, como no dia de Massa no deserto, onde vossos pais Me tentaram e provocaram, apesar de terem visto as minhas obras»".

       4 – A nossa busca, o nosso caminho, não se faz de olhos fechados, mas sob a luz de Jesus Cristo. O encontro com Ele reorienta a nossa procura, dá sentido novo à nossa vida. A alegria da Samaritana é contagiante. Em Cristo, ela descobre o sentido da sua existência, e partilha-o com os habitantes da sua cidade. Eles mesmos fazem a experiência de encontro com Jesus, como Messias de Deus: "Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos. Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo".
       Não basta ouvir dizer. É fundamental que façamos a experiência de encontro com Jesus Cristo, deixando-O entrar na nossa vida e nas nossas escolhas de bem. Ele não engana.
       "Ora, a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores... Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores".
       É nesta esperança que radicamos a nossa vida crente, a nossa procura, o desejo de sermos felizes, experimentando a felicidade em cada gesto de perdão, de amor e de bem.
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Textos para a Eucaristia (ano A): Ex 17,3-7; Sl 94 (95); Rom 5,1-2.5-8; Jo 4,5-42.

Marinho Pinto - a situação actual do país e o papel da Igreja Católica

       Quase a finalizarmos a Semana Nacional Cáritas, aqui fica um testemunho sobre o papel da Igreja Católica, com as suas diversas instituições e com milhares de pessoas anónimas que trabalham para que os pobres vejam minorada a sua situação.
       Depois de traçar um cenário sobre a situação do país, o louvor à Igreja Católica...

A Parábola do Filho Pródigo...

       O Evangelho proposto para este Sábado apresenta-nos Deus como Pai de misericórdia. Jesus, através da sobejamente conhecida parábola do Filho Pródigo (Lc 15, 1-3.11-32), fala-nos de um Deus próximo, amigo, compreensivo. O protagonista é o Pai. Com o coração ferido, mas que se renova no regresso do filho.