quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Pai-nosso invisível que estás nos céus

Pai nosso invisível que estás nos céus,
seja santificado em nós o Teu Nome,
porque no Teu Espírito Santo,
Tu próprio nos santificaste.

Venha a nós o Teu reino
reino prometido a quantos amam Teu amor.
Tua força e benevolência repousem sobre teus servos
aqui em mistério e lá na Tua misericórdia.

Da mesa que não se esgota
 dá alimento à nossa indigência
e concede-nos a remissão das culpas
Tu que conheces a nossa debilidade.

Nós te pedimos:
salva aquilo que criaste
e livra-o do maligno que busca o que devorar.
A ti pertencem o reino, o poder e a glória, ó Senhor.

Não prives da tua bondade os teus santos.

Pai-nosso do Breviário Caldeu, adaptado por
Pe. José Tolentino de Mendonça, Pai-nosso que estais na terra.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Quando acaba a noite...

        Um Sábio fez um dia aos seus alunos a seguinte pergunta:
       - Como é que se pode reconhecer o momento exato em que acaba a noite e começa o dia.
       Um deles respondeu:
       - Talvez quando já não se consegue distinguir um cão de uma ovelha.
       - Não.
       Um outro disse:
       - Quando se distingue um figueira de uma oliveira.
       - Também não.
       Seguiram-se outras respostas e o velho Sábio ia respondendo que não. Foi então que eles pediram:
       - Diga-nos então quando é que se pode reconhecer o momento exato em que acaba a noite e começa o dia.
       Ele respondeu:
       - É quando tu, ao olhares para o rosto de uma pessoa qualquer, reconheces nela um irmão ou uma irmã. Antes de chegares a esse ponto, é ainda noite no teu coração.

In revista Juvenil, n.º 552, fevereiro 2012.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Pedir a Deus que o nosso pão una e aproxime

       Jesus ensina-nos a pedir a Deus, a pedir ao Pai, que o pão não seja apenas pão, pura materialidade, mas que o nosso pão fale, seja uma espécie de sacramento, seja expressão de tudo aquilo que no fundo, procuramos e que o Senhor nos vai dando, também em termos espirituais. Temos de pedir a Deus que o nosso pão reúna e não separe. Que o nosso pão seja verdadeiramente «Pão»: lugar onde as pessoas se sentam à volta e não o que acontece tantas vezes, quando o pão se torna aquilo que distingue e afasta. Pedir a Deus que o nosso pão celebre, evidencie a gratidão por Deus e o nosso Amor pelos outros.
       ...O pão da solidão não tem metade do sabor, ou um centésimo da alegria. Nós pedimos a Deus o nosso pão, o pão de todos, o pão para todos.

Pe. José Tolentino de Mendonça, Pai-nosso que estais na terra.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Ser livre é ter tempo para amar...

"A pior prisão não é a que aprisiona o corpo,
mas a que asfixia a mente e subjuga as emoções.
Sem liberdade, as mulheres retraem o seu prazer, os homens tornam-se máquinas de trabalhar.
Ser livre é não ser servo das culpas do passado,
nem escravo das preocupações do amanhã.
Ser livre é ter tempo para as coisas que se ama,
é abraçar, dar-se, sonhar, recomeçar.
É desenvolver a arte de pensar e proteger as emoções.
Mas acima de tudo... ser livre é ter uma relação de amor com a própria vida"

Augusto Cury, Liberte-se da prisão das emoções, Dom Quixote: 2009.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Tributo da Arquidiocese de Braga a D. António Couto

Luz no sofrimento...

Essa mesma dor, como muitas vezes aprendemos, pode ser, contudo, um sinal de que a vida ainda está em nós, que não se quer deixar eliminar, lutando contras as adversidades, chamando-nos para essa luta 
        O cardeal-patriarca de Lisboa falava, recentemente, num “paradoxo” na relação entre o catolicismo e a dor humana, afirmando que a Igreja, por um lado, procura mitigar esse sofrimento e, por outro, dá-lhe um sentido sublime e transcendente.
       A aproximação do Dia Mundial do Doente recupera, anualmente, a reflexão e também a celebração sobre essa (apenas) aparente contradição: o crente não pode ignorar o sofrimento do outro, no qual reconhece o seu rosto e a face de Deus, ainda que tudo faça para o evitar. A história ensina-nos que a dor é uma marca constante do ser em humanidade. Não se pode fugir dela, mas também não é lícito permanecer impassível, como se não fosse possível ajudar quem sofre.
       O que muitos podem ver como fuga à realidade, na referência ao transcendente, é, por parte da doutrina católica, a resposta mais sincera que pode oferecer sobre a existência: como captar a beleza do momento que passa sem ser com a alma aberta ao infinito, mesmo (sobretudo) nos momentos mais duros?
       Já uma vez, neste espaço, escrevi sobre o que custa acreditar que o sofrimento tenha um qualquer objetivo purificador, que a vida tenha um propósito para lá deste ‘sem-sentido’ em que a natureza nos reduz a uma terrível insignificância, na sua arbitrariedade.
       O sofrimento, a doença que atinge sem olhar a quem, amplificam esse sentimento, até porque, talvez por uma questão cultural, vemos a dor como um castigo, uma perda do estado original de perfeição. Essa mesma dor, como muitas vezes aprendemos, pode ser, contudo, um sinal de que a vida ainda está em nós, que não se quer deixar eliminar, lutando contra as adversidades, chamando-nos para essa luta - e não nos largando enquanto não a ouvirmos...
       Muitos, perto ou longe de nós, vivem como se a dor não tivesse fim, como estivesse à espera de uma qualquer brecha para se fazer sentir. Acredito, como diz Leonard Cohen, que há mesmo uma fenda em tudo e que é assim que a luz entra. A fé católica e o seu ensinamento sobre o sofrimento podem ser, para muitos, essa mesma luz.

Octávio Carmo, Editorial Agência Ecclesia.

Festa da Apresentação de Jesus - 2012

       Como nos últimos dois anos, a Festa da Apresentação de Jesus no Templo, tradicionalmente Festa das Candeias, foi solenizada pela catequese, com a bênção de velas, acentuando Jesus como Luz do Mundo, bênção e distribuição do pão, para que não falte em nossas mesas, nem este pão, nem o pão como sentido para vida, nem o pão da Eucaristia que nos leva até à eternidade de Deus, bênção de crianças e adolescentes, para que neles as famílias se sintam agraciadas e comprometidas em promover a vida, beijar do Menino Jesus...
       Algumas imagens desses momentos:
 
 
 
 
 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

S O C I E D A D E

       A sociedade de hoje é pobre em diálogos.
       Os homens pensam que o diálogo é uma espada, mas não, com o diálogo constrói-se a paz. Quando se dialoga não há vencedores nem vencidos, mas sim uma união para conduzir à paz, à união, à tolerância e ao respeito mútuo, de irmãos para irmãos.
       Unidos em verdade e em concórdia, na justiça e na humildade, o mundo tornar-se-á melhor e como somos os promissores homens do amanhã e vivendo com todos estes valores temos a esperança que o mundo vai tornar-se mais justo, mais verdadeiro e unido. É essa a nossa esperança. As nossas armas serão uma atmosfera de apostolado, onde reine o diálogo, a verdade e a alegria e assim todos seremos mais felizes.

8.º Ano de Catequese, in Boletim Voz Jovem, janeiro 2012

Tomada de Posse de D. António Couto - o filme completo

       O filme completo - em formato de diaporama, com as fotos da Kymagem - da tomada de posse de D. António Couto, como Bispo de Lamego, no passado dia 29 de janeiro. A produção é da Diocese de Lamego:

Apresentação de Jesus no Templo

Nota Histórica:
       Quarenta dias após o nascimento de Jesus, em obediência à lei de Moisés (Ex. 13, 11-13), Maria leva o Menino ao templo, a fim de ser oferecido ao Senhor. Toda a oferta implica uma renúncia. Por isso, a Apresentação do Senhor não é um mistério gozoso, mas doloroso. Começa, nesse dia, o mistério de sofrimento, que atingirá o seu ponto culminante no Calvário, quando Jesus, que não foi «poupado» pelo Pai, oferecer o Seu Sangue como sinal da nova e definitiva Aliança. Ao oferecer Jesus, Maria oferece-Se também com Ele. Durante toda a vida de Jesus, estará sempre ao lado do Filho, dando a Sua colaboração para a obra da Redenção.
       O gesto de Maria, que «oferece», traduz-se em gesto litúrgico, quando ao celebrarmos a Eucaristia, oferecemos «os frutos da terra e do trabalho do homem», símbolo da nossa vida.
       Antes da Missa, está prevista no Missal a procissão das velas, acesas em honra de Cristo que vem como luz das nações, e ao encontro de quem a Igreja caminha guiada já por essa mesma luz.

       Ao chegarem os dias da purificação, segundo a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, para O apresentarem ao Senhor, como está escrito na Lei do Senhor: "Todo o filho primogénito varão será consagrado ao Senhor", e para oferecerem em sacrifício um par de rolas ou duas pombinhas, como se diz na Lei do Senhor.
       ...Simeão recebeu Jesus em seus braços e bendisse a Deus, exclamando: "Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, deixareis ir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a vossa salvação, que pusestes ao alcance de todos os povos: luz para se revelar às nações e glória de Israel, vosso povo... e disse a Maria, sua Mãe: "Este Menino foi estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em Israel e para ser sinal de contradição; – e uma espada trespassará a tua alma – assim se revelarão os pensamentos de todos os corações" (Lc 2, 22-40).

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Tio Labão… - Gén 29, 15-28

       Jacob havia perdido a noção da distância que percorrera. Não tinha, igualmente, uma ideia clara onde encontrar o povo de sua mãe.
        Encontrou, então, alguns pastores que estavam a acercar-se de um poço para poderem arranjar água para as suas ovelhas. “Será que por acaso alguma vez ouviram falar de um homem chamado Labão?” – perguntou ele.
       “Sim, ouvimos, sem dúvida” – responderam eles. “Ele é da mesma aldeia que nós. Olhai, aquela é a sua filha Raquel, que leva as suas ovelhas para o poço.”
       Jacob, que mal podia acreditar na sua sorte, correu a cumprimentar a rapariga e começou a chorar de alívio e alegria. “Sou teu primo” – disse ele. “Sou o filho de Rebeca. Voltei… para casa! Talvez possa fazer parte da família.”
       Ela riu timidamente. Raquel era linda e correu a contar ao seu pai. Labão ficou encantado por ver o sobrinho. Jacob ficou um mês inteiro como convidado. “Podes ficar de muito bom grado” – disse Labão, – “mas não deves trabalhar para mim gratuitamente. O que te posso dar que aceites como pagamento?”
       Jacob suspirou. “Trabalharei durante sete anos se me deixares casar com Raquel” – disse ele.
       Labão riu. “Gosto do acordo” – disse ele. “Gosto muito do acordo. Espero que não consideres a espera demasiado longa.”
       Jacob não achou. Pareceu-lhe que o tempo tinha voado. Ao fim de sete anos, Labão organizou um banquete de casamento. A noiva, envolta em joias e véus, quando a noite caiu, foi levada por Labão a Jacob, o qual fez dela sua mulher.

Mónica Aleixo, in Boletim Voz Jovem, janeiro 2012

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Às vezes basta SORRIR

       É impressionante a quantidade de pessoas pelas quais passamos todos os dias, muitas vezes as mesmas pessoas, dia após dia, nos mesmos sítios, mas sempre distantes, ausentes, frias, de cara "fechada".
        Vivemos numa sociedade governada pelo medo do próximo, falta de atenção, de simpatia, a pensar apenas em si próprio no eu apenas. Somos fruto de uma sociedade que nos vai moldando e nem sempre da melhor maneira.
       Muitas vezes basta sorrirmos para fazermos alguém sentir-se melhor, um “bom-dia” sorridente, um “olá” que muda a outra pessoa. Quantas vezes não acontece chegarem a um sítio para tratarem de alguma coisa e aparecer uma cara sisuda para vos atender e vos deixa de pé atrás?
       Mas não desanime porque mesmo nesses casos um sorriso da nossa parte é uma maneira de falar melhor e, mais, tornar as coisas mais agradáveis. Depois temos aquelas pessoas que nos veem todos os dias e nos sorriem, que nos tratam bem, que nos sabem atender e nos fazem sentir bem. E isso é muito muito bom. Por isso, sorriam, façam algo pelos outros, mudemos algumas coisas e pode ser que o que está a nossa volta mude também de alguma forma para nós. 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Saudação de D. Jacinto ao novo Bispo, D. António

Saudação proferida por D. Jacinto Botelho no início da cerimónia da tomada de posse do Sr. D. António José da Rocha Couto como seu Sucessor na Cátedra de Lamego
 (foto: Kymagem)

       Bendito Aquele que vem em nome do Senhor!

       Após a apresentação da Bula pontifícia ao Colégio de Consultores, o que acabou de ser cumprido pelo Senhor Núncio Apostólico com a leitura agora efectuada, o Senhor D. António Couto, é de pleno direito o Bispo da querida Diocese de Lamego.
       Quero saudá-lo, na qualidade de seu diocesano, como meu Bispo, nosso Bispo, e testemunhar-lhe a mais profunda e convicta comunhão dentro do Presbitério a que pertenço e o Senhor D. António a partir deste momento consolida, e consequentemente oferecer-lhe os préstimos e a colaboração que me solicitar.
       Utilizando as próprias palavras de Sua Santidade, Bento XVI, que o apresenta “agraciado com qualidades comprovadas e altamente douto em doutrinas sagradas”, esta celebração é momento adequado para agradecermos ao Senhor a Graça que é para Lamego a sua designação para nosso Bispo.
       Profundo na Palavra de Deus que transparece no seu testemunho pastoral e jorra como tesouro inesgotável em toda a sua mensagem, bem podem aplicar-se-lhe, com total propriedade, as palavras do Beato João Paulo II na Exortação pós-sinodal Pastores Gregis: “Antes de ser transmissor da Palavra, o Bispo, com os seus sacerdotes e como qualquer fiel, antes como a própria Igreja, deve ser ouvinte da Palavra. Deve de certo modo estar «dentro» da Palavra, para deixar-se guardar e nutrir dela como de ventre materno.” Será muito difícil encontrar alguém que seja melhor, referência e modelo, desta reflexão. Que a Senhora dos Remédios, Padroeira da nossa cidade, a nossa Mãe do Céu, de quem fala com tanto encanto e a quem reza com tão entranhado fervor, o envolva e revista com o Seu manto, da abundância da Graça do Bom Pastor.
       Te Deum laudamus, porque o vislumbrado e florido ramo de amendoeira, é a certeza da esperança que o nosso novo Bispo, Senhor D. António Couto, nos traz. Seja bem-vindo. Pode contar também com os seus diocesanos.
(foto: Kymagem)
+ Jacinto Tomaz de Carvalho Botelho, Bispo Emérito de Lamego

Homilia de D. António na tomada de posse...

(foto: Kymagem)

       «Eis que faço novas todas as coisas» (Apocalipse 21,5), diz Deus. De tal modo novas, diz Deus, que ninguém pode dizer: «Já o sabia» (Isaías 48,7).

       Eis então Jesus a entrar com os seus discípulos em Cafarnaum, na sinagoga deles, e ensinava e ordenava tudo de forma nova. Tão nova que inutilizava todas as comparações e catalogações. Não era membro de nenhuma confraria, academia, partido, ordem profissional ou instituição, que à partida lhe conferisse algum crédito, alguma autoridade. Nenhum crédito, nenhum currículo, nenhum diploma, o precedia. A sua autoridade começava ali, no próprio acto de dizer ou de fazer. E as pessoas de Cafarnaum foram tomadas de tanto espanto, que tiveram de constatar logo ali que saía dos seus lábios e das suas mãos um mundo novo, belo e bom, ordenado segundo as pautas da Criação. Um vendaval manso de graça e de bondade encheu Cafarnaum, e transvazava como um perfume novo de amor e de louvor por toda a região da Galileia e da missão. Saltava à vista que Cafarnaum não podia conter ou reter tamanha vaga de perfume e lume novo.
       As pessoas de Cafarnaum sabiam bem o que diziam os escribas, e como diziam os escribas. Não eram senão repetidores, talvez mesmo apenas repetentes de pesadas e cansadas doutrinas que se arrastavam na torrente de uma velha e gasta tradição. Os escribas diziam, diziam, diziam, recitavam o vazio (Salmo 2,1), compraziam-se na sua própria boca, nas suas próprias palavras (Salmo 49,14), e nada, nada, nada acontecia: nenhum calafrio na alma, nenhum rio nascia no deserto, ninguém estremecia ou renascia. Mas Jesus começou a falar, e as pessoas de Cafarnaum sentem um frémito, um estremecimento novo (Isaías 66,2 e 5), assalta-as uma comovida emoção, uma lágrima de alegria lhes acaricia o coração. Era como se acabassem de escutar aquela palavra única que há tanto tempo se procura, palavra criadora que nos vai direitinha ao coração, a ternura de quem leva uma criança pela mão!
        As pessoas de Cafarnaum sabiam bem o que eram, e como se faziam os exorcismos. Estavam muito em voga naquele tempo. Eram longos, estranhos, complicados, cheios de fórmulas mágicas e ritos esotéricos. Mas Jesus diz uma palavra criadora: «Cala-te e sai desse homem», e tudo fica de imediato resolvido!
       Abre-se um debate. O primeiro de muitos que o Evangelho de Marcos vai abrir. «O que é isto?», perguntam as pessoas de Cafarnaum, que nunca tinham visto tanto e tão novo e tão prodigioso ensinamento.
       Mas é apenas o começo da jornada deste maravilhoso ANUNCIADOR do Evangelho de Deus (Marcos 1,14). Logo a abrir o seu Evangelho, Marcos ensina-nos que a jornada iniciada naquele primeiro sábado em Cafarnaum salta os clichés habituais, e vai de madrugada a madrugada, de modo a deixar já bem à vista aquela outra sempre primeira madrugada da Ressurreição! Jesus começa de manhã na sinagoga; caminha depois 30 metros para sul, e entra, pelo meio-dia, na casa de Pedro e levanta da febre para o serviço do Evangelho a sogra de Pedro; à tardinha, já sol- posto, primeiro dia da semana, toda a cidade de Cafarnaum está reunida diante da porta daquela casa, para ouvir Jesus e ver curados por Ele os seus doentes; de madrugada, muito cedo, Jesus sai sozinho para rezar, e os discípulos correm a procurá-lo para o trazer de volta a Cafarnaum, pois, dizem eles, todas as pessoas o querem ver e ter. Ninguém o quer perder.
       Desconcertante reviravolta. Jesus diz aos seus discípulos atónitos: «VAMOS a outros lugares, às aldeias vizinhas, para que TAMBÉM ali ANUNCIE (kêrýssô) o Evangelho» (Marcos 1,38). Com este grávido dizer, Jesus deixa claro que ANUNCIAR o Evangelho enche por completo o seu programa e o seu caminho. Com aquele «vamos» [«vamos a outros lugares»], Jesus desinstala e agrafa a si os seus discípulos para este trabalho de ANÚNCIO do Evangelho seja a quem for, seja onde for. Com aquele «também» inclusivo [«para que também ali anuncie o Evangelho»], Jesus classifica como ANÚNCIO do Evangelho todos os afazeres da inteira jornada de Cafarnaum: ensinar, libertar, acolher, curar, recriar: é esta a toada do ANÚNCIO do Evangelho. ANUNCIAR (kêrýssô) é então o afazer de Jesus. E qual é a primeira nota que soa quando Jesus se diz com o verbo 
       ANUNCIAR? É, sem dúvida, a sua completa vinculação ao Pai, de quem é o arauto, o mensageiro, o ANUNCIADOR. Pura transparência do Pai, de quem diz e faz o que ouviu dizer (João 7,16-17; 8,26.38.40; 14,24; 17,8) e viu fazer (João 5,19; 17,4). Recebendo todo o amor fontal do Pai, bebendo da torrente cristalina do amor fontal do Pai (Salmo 110,7; cf. 1 Reis 17,4), Jesus, o Filho, é pura transparência do Pai, e pode, com toda a verdade dizer a Filipe: Filipe, «quem me vê, vê o Pai» (João 14,9). É mesmo aqui que reside a sua verdadeira AUTORIDADE e a verdadeira NOVIDADE do seu MODO novo de dizer e de fazer, que se chama ANUNCIAR.
       A primeira nota de todo o ANUNCIADOR ou Arauto ou Mensageiro não assenta na capacidade deste, mas na sua fidelidade Àquele que lhe confia a mensagem que deve anunciar. É em Seu nome que diz o que diz, que diz como diz. No Enviado é o Rosto do Enviante que se deve ver em contra-luz ou filigrana pura. No Enviado ou Mensageiro ou Anunciador é verdadeiramente Deus que visita o seu povo.
       Pertinho de Deus, cheio de Deus, Jesus leva Deus aos seus irmãos. É esta a Autoridade de Jesus. Ele é o profeta «como Moisés», mais do que Moisés, com a boca repleta das palavras de Deus (Deuteronómio 18,18). E não só a boca, mas também as mãos e o coração. Bem diferente dos escribas e dos falsos profetas e do povo rebelde no deserto. Estes dispensam a Palavra de Deus. O que querem ter na boca é pão e carne. O que recolheu menos, no deserto, diz-nos o extraordinário relato do Livro dos Números 11,31-35, recolheu 4500 kg de carne de codorniz. E começaram a meter a carne à boca com tamanha avidez, que morreram de náusea. Foram encontrados mortos, ainda com a carne entre os dentes, por mastigar (Números 11,33). Vê-se que é urgente libertar o coração, as mãos, a boca. Vive-se da Palavra. Morre-se de náusea.

  (foto: Kymagem)

        Caríssimos irmãos mais pequeninos, jovens amigos, caríssimos pais, caríssimos idosos e doentes, caríssimos catequistas, acólitos, leitores, cooperadores na missão da evangelização e da caridade, ilustres autoridades, caríssimos seminaristas, caríssimos religiosos e religiosas, caríssimos diáconos e sacerdotes, Senhores Bispos, Senhor D. Jacinto, Senhor Núncio Apostólico, Senhor Cardeal Patriarca, e todos vós que comigo pisais hoje este chão de generoso vinho e de amendoeiras em flor.

 
 (foto: Kymagem)

       Numa página sublime do Livro dos Números (17,17-26), Deus ordena a Moisés que recolha as varas de comando dos chefes das doze tribos de Israel, para, de entre eles, escolher um que exerça o sacerdócio em Israel. Em cada vara foi escrito o nome da respectiva tribo. Por ordem de Deus, o nome de Levi foi substituído pelo de Aarão. As doze varas foram colocadas, ao entardecer, na presença de Deus, na Tenda do Encontro. Na manhã seguinte, todos puderam ver que da vara de Aarão tinham desabrochado folhas verdes, flores em botão, flores abertas e frutos maduros (Números 17,23). Dos frutos é dito o nome: amêndoas! Vara de amendoeira em flor e fruto, que, por ordem de Deus, ficará para sempre na sua presença, diante do Propiciatório (cf. Hebreus 9,4), entre Deus e o povo, para impedir que o pecado do povo chegue a Deus, e para facilitar que o perdão de Deus chegue ao povo. Já ninguém estranhará agora que o candelabro (menôrah) que, noite e dia,/ ardia/ na presença de Deus, estivesse ornamentado com flores de amendoeira (Êxodo 25,31-35; 37,20-22). E também já ninguém estranhará que a tradição judaica tardia refira que a vara do Messias havia de ser de madeira… de amendoeira.
       Aí estão as coordenadas exactas do lugar do sacerdote e do bispo: entre Deus e o povo. Mais concretamente: pertinho de Deus, mas de um Deus que faz carícias ao seu povo, um Deus que ama e que perdoa; pertinho do povo, o suficiente para lhe entregar esta carícia de Deus.
       Queridos filhos e irmãos, pais e mães que Deus me deu nesta dorida e querida Diocese de Lamego. Quero muito ver o vosso rosto. Já sabeis que trago notícias de Deus. E que conto muito com cada um de vós, para levar a todos os lugares e a todas as pessoas desta bela Diocese este vendaval de graça e de bondade que um dia Jesus desencadeou em Cafarnaum.

       Seja Louvado Nosso Senhor Jesus Cristo!

+ António Couto, Bispo de Lamego

(A homilia, deste dia, encontra-se também no blogue de D. António: Mesa de Palavras.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Editorial Voz Jovem - janeiro 2012

       Os dias que medeiam entre a Epifania e a Quaresma – Tempo Comum (1.ª parte) – são também sinal e expressão do amor de Deus por nós.
       O ano litúrgico recentra-nos em dois vértices: o NATAL e a PÁSCOA, e que incluem os tempos de preparação (Advento e Quaresma) e os tempos que se lhe seguem (tempo de Natal e tempo Pascal), tornando mais acessível o mistério da salvação.
       Com efeito, a Encarnação do Verbo tem como fim a Sua Manifestação plena no dar a vida pela humanidade. É no dar a vida que Jesus nos mostra o caminho de retorno a Deus. Com a Ressurreição percebemos o DOM da vida nova. É à luz da Páscoa que havemos de encarar toda a nossa vida de fé. Jesus assume a nossa fragilidade e finitude para nos (re)introduzir na eternidade.
       Depois do batismo de Jesus, por João Batista, iniciamos o chamado Tempo Comum ou Ordinário. O tempo comum celebra a Páscoa, em cada domingo, em cada Eucaristia. Com efeito, a Eucaristia, memorial da morte e ressurreição de Jesus, que Ele antecipou na Última Ceia, de forma a permanecer no meio de nós, faz-nos participantes da vida divina e alimenta-nos até à eternidade. Por esta razão, a Eucaristia é a oração mais completa da Igreja. Encaminhamo-nos para Deus, alimentamo-nos da presença de Deus entre nós. Na palavra proclamada, refletida e acolhida e pela condivisão do Corpo de Cristo, tornamo-nos com Ele um só Corpo.
       Na verdade, o tempo comum desafia-nos a deixar-nos surpreender por Deus em todos os momentos da nossa vida, também no silêncio e na aridez dos nossos dias, também na rotina e na azáfama, também nos vazios e nas dúvidas, nas contrariedades e nas nossas realizações humanas.
       É no dia a dia que nos afirmamos como pessoas, nos descobrimos sociedade, formamos Igreja, como crentes peregrinos, em busca de um sentido novo para a vida. Deus age em todo o tempo, em toda a parte, em todas as ocasiões.
       Será oportuno envolver-nos nas diversas manifestações de Deus, nos encontros e gestos de Jesus, cuja riqueza do Evangelho não se esgota num ciclo litúrgico. Daqui também, a necessidade da Igreja encontrar espaço para abranger melhor o mistério de Cristo, promovendo três ciclos de leituras. Encontrámo-nos no ciclo B, em que o Evangelho de São Marcos será a referência fundamental para os domingos.

       1 – “Eis o Cordeiro de Deus” (Jo 1, 35-42). O 2.º domingo do tempo comum, faz-nos viver a passagem de testemunho, de João Batista para Jesus, no sinal que dá aos seus discípulos para seguirem Jesus.

       2 – “Arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1, 14-20). A mensagem de Jesus desafia à fé e à conversão. No 3.º domingo, Jesus chama alguns Apóstolos, para que vivam com Ele e O acompanhem, para depois os enviar ao mundo.

       3 – “Uma nova doutrina, com tal autoridade que até manda nos espíritos impuros” (Mc 1, 21-28). No 4.º domingo, a certeza de que em Jesus está a força e a graça de Deus. Ele vem salvar-nos dos demónios que nos afastam de Deus e uns dos outros.

       4 – “Todos Te procuram… Vamos a outros lugares (…) a fim de também aí pregar” (Mc 1, 29-39). No 5.º domingo, o Evangelho mostra como o ministério de Jesus se revela em gestos concretos, cura a sogra de Pedro e muitos outros que acorrem à Sua presença. É urgente ir, partir, anunciar, pregar…

       5 – “Se quiseres, podes curar-me” (Mc 1, 40-45). No 6.º domingo, um leproso aproxima-se de Jesus com a certeza de n’Ele encontrar a cura. E nós? Com que confiança rezamos a Jesus?

       6 – “…para saberdes que o Filho do Homem tem na terra o poder de perdoar os pecados…” (Mc 2, 1-12). A salvação envolve toda a nossa vida, como podemos refletir neste 7.º domingo. Jesus vem para nos curar de todo o mal. Só o perdão dá lugar a uma vida nova.

       O reino de Deus está próximo, convertamo-nos de todo o coração e acreditemos no Evangelho… é tempo de salvação, Deus vem salvar-nos!

D. António Couto inicia o seu pontificado em Lamego

       No próximo dia 29 de janeiro, tomará posse, como Bispo de Lamego, o Sr. D. António Couto, que desempenhava as funções de Bispo auxiliar de Braga, e cuja nomeação foi feita pelo Santo Padre Bento XVI no passado dia 19 de novembro.
       Para preparar este evento, o Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil da Diocese de Lamego levou a efeito, no dia 21 de Janeiro, pelas 21 horas, uma vigília de oração, na Igreja Catedral, e no dia 28, pelas 21 horas, realizar-se-á também um concerto de Rão Kyao no Centro Paroquial de Almacave. 
       No dia 29 de janeiro, o Sr. D. António Couto será recebido junto do Seminário Maior pelo Sr. D. Jacinto Botelho e pelo Sr. Eng. Francisco Lopes, Presidente da Câmara Municipal de Lamego.
       Mais tarde, pelas 16 horas, terá início a procissão de entrada, que começará nos claustros da Igreja Catedral, a que se seguirá o Solene Pontifical da tomada de posse.
       O Sr. D. António Couto sucede ao Sr. D. Jacinto Botelho que pediu a renúncia do cargo pelo facto de ter completado 75 anos de idade, cargo esse que desempenhou ao longo de 12 anos e do qual foi empossado em 19 de Março de 2000.
       Um facto curioso: o primeiro Padre a ser ordenado, na Diocese, pelas Suas mãos, em 8 de Julho de 2000, foi o atual Pároco de Tabuaço, Pe. Manuel Gonçalves.
       Ao Sr. D. Jacinto Botelho agradecemos o afeto, a amizade, o carinho e a dedicação com que sempre nos presenteou ao longo do seu intenso ministério episcopal.
       Ao Sr. D. António Couto damos, desde já, as boas vindas e pediremos a Deus nas nossas orações pela sua pessoa e pela sua missão, com a certeza de que o acolheremos com alegria, e, como disse D. Jacinto Botelho, «o receberemos com júbilo, numa manifestação de Fé e de comunhão.»

sábado, 28 de janeiro de 2012

IV Domingo do Tempo Comum (ano B) - 29 de janeiro

       1 – "Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações". Respondemos à Palavra de Deus com a mesma Palavra de Deus, através dos salmos. E neste domingo ecoa nos nossos ouvidos esta recomendação: sermos ouvintes a partir do nosso coração. Habitualmente usamos duas palavras para o sentido da audição: ouvir e escutar. O ato de ouvir é comum ao ser humano e a outros seres vivos. Até as plantas ouvem, até as plantas têm necessidade de ser afagadas e de ouvir... Assim, na experiência doméstica de muitos, a constatação que um gato, um cão, um pássaro definham se estiverem muito tempo sem ouvir a voz dos donos. E como saltam euforicamente quando pressentem a proximidade do dono, quando ouvem o rugido da porta de entrada, ou mesmo quando ouvem o barulho do carro que estaciona.
       E por aqui também vemos como o ouvir mexe com o organismo, mexe também connosco.
       Como precisamos de ouvir ruído, um carro a passar, uma música, uma voz, alguém a conversar na rua!... ou simplesmente as vozes que saltam da televisão ou da rádio. Todos conhecemos pessoas que não gostam de ver televisão, ou nem prestam atenção ao que passa na rádio, mas que ligam os aparelhos para se sentirem menos sós. Quando a solidão ataca, ouvir uma voz pode ser acalentador!

       2 – Escutar é genuinamente humano, é prestar atenção, olhar, obedecer, é colocar-se em atitude de diálogo, de acolhimento não apenas de uma mensagem mas da pessoa que a profere. Quando a Palavra de Deus ressoa nos nossos ouvidos não pode ser apenas um ruído que perturba, mas o próprio Deus que vem habitar-nos, que desce ao nosso íntimo, ao nosso coração. Por vezes é necessário fechar os olhos (e até os ouvidos) para que a palavra de Deus possa dançar nas profundezas da nossa alma. Depois essa dança converter-se-á em alegria e há de brilhar através do nosso olhar, das nossas palavras e dos nossos gestos.
       O povo de Israel, no seu peregrinar pelo deserto, em diversos momentos, transformou a palavra de Deus em ruído exterior, sem deixar que ela tocasse as suas vidas. Em momentos de desânimo, quando a vida é mais complexa e mais dura, facilmente se esqueceram (e nos esquecemos?) das palavras de Deus, perdendo confiança e entregando-se à murmuração, como que exigindo uma intervenção permanente e milagrosa de Deus. Como se a fé em Deus (e nas Suas promessas) significasse o fim de todos os problemas e a ausência de dificuldades e da necessidade do esforço pessoal e comunitário. O salmo provoca a escuta e a mudança do coração, escutar a partir do interior, a partir da alma, para nos abrirmos ao mistério que nos chega de Deus, que pode transformar o mundo que habitamos.


       3 – Na primeira leitura, Deus fala a Moisés e por ele a todo o povo, prometendo-lhe o envio de um profeta que fale em Seu nome, para que o povo não se atemorize na Sua presença.
       «O Senhor teu Deus fará surgir no meio de ti, de entre os teus irmãos, um profeta como eu; a ele deveis escutar. Foi isto mesmo que pediste ao Senhor teu Deus no Horeb, no dia da assembleia: ‘Não ouvirei jamais a voz do Senhor meu Deus, nem verei este grande fogo, para não morrer’. O Senhor disse-me: ‘Eles têm razão; farei surgir para eles, do meio dos seus irmãos, um profeta como tu. Porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes dirá tudo o que Eu lhe ordenar. Se alguém não escutar as minhas palavras que esse profeta disser em meu nome, Eu próprio lhe pedirei contas'».
       Com efeito, ainda que através do profeta, as palavras de Deus terão a mesma força e a mesma exigência. Deus colocará a sabedoria e as palavras nos seus enviados, para serem como que um esteio entre o povo, na fidelidade aos mandamentos, na procura constante por praticar o bem e a justiça, viver na concórdia e ajudando-se como família.
       A caminhada do deserto foi demorada e exigiu um grande esforço, não tanto pelas condições adversas, próprias da aridez e da oscilação climática (entre o calor e o frio extremos), mas sobretudo pelos recuos e avanços na vivência dos mandamentos, referência fundamental (e libertadora) para todo o povo.
       A lei, justa e esclarecida, equilibrada e para todos, é libertadora. Como alguém recorda, é como uma pequena cruz no canto de uma folha em branco, temos todo o espaço para preencher com a nossa escrita, com a nossa vida. Os dois pequenos traços cruzados dizem-nos que podemos escrever, que somos livres para agir, ainda que a folha já tenha uma marca. Se nos concentrarmos nessa marca e nos lamentarmos por a folha já se encontrar iniciada (trazemos já inscritas regras no nosso código genético), esqueceremos rapidamente que há muito mais para viver, alguém nos facilitou o caminho, sabemos por onde iniciar, de onde partir...
       A cada passo surgem vozes a murmurar e a lamentar-se pela falta de comodidade que teriam no Egito, ainda que não tivessem liberdade (tendo a folha já cheia de traços, sem espaço a preencher) e, naturalmente, a tentação de regressar a hábitos e tradições, próprias de um povo politeísta e bem mais permissivo na moral e nos costumes e pouco exigentes na defesa e valorização da vida humana.
        4 – Jesus é a palavra encarnada, o medo que os judeus tinham de escutar a voz de Deus, que vinha do alto como um estrondo, chega agora de forma indolor, quase silenciosa, entra na história (quase) anonimamente, não por entre as nuvens, mas a partir do interior da humanidade. A Palavra tem um rosto, é uma Pessoa, faz-Se carne em Jesus Cristo.
       A Palavra de Deus, mediada pelos profetas, perde por vezes a sua eficácia. Em alguns momentos, o povo distancia-se da palavra de Deus por não lhe reconhecer a força ou simplesmente por faltarem profetas – a Palavra de Deus torna-se inacessível, difícil de compreender pela multiplicação e ruído das palavras. Os escribas e doutores da lei tornaram demasiado complexa a palavra de Deus e, por outro lado, tornaram-na fator de divisão. Esclarecidos, sabiam como contornar a lei ou justificar os seus desvios, com outros preceitos. As pessoas mais simples procuravam cumprir mesmo não entendendo o que se lhes pedia, ou parecendo-lhes excessivo, mas sem terem como argumentar.
       Com Jesus Cristo, a Palavra volta a plantar-se no coração dos homens e das mulheres. Não nos atemoriza porque podemos escutá-la até no deserto das nossas preocupações, no mais íntimo de nós, até mesmo no silêncio mais profundo.
       Ele é o Mestre dos Mestres, é a Palavra que Se faz Pessoa e tem palavras de vida eterna. N'Ele as palavras são expressão da Sua intimidade com Deus, refletem o que pensa e a forma como age na relação com o mundo e com as pessoas.
       "Encontrava-se na sinagoga um homem com um espírito impuro, que começou a gritar: «Que tens Tu a ver connosco, Jesus Nazareno? Vieste para nos perder? Sei quem Tu és: o Santo de Deus». Jesus repreendeu-o, dizendo: «Cala-te e sai desse homem». O espírito impuro, agitando-o violentamente, soltou um forte grito e saiu dele. Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros: «Que vem a ser isto? Uma nova doutrina, com tal autoridade, que até manda nos espíritos impuros e eles obedecem-Lhe!» E logo a fama de Jesus se divulgou por toda a parte, em toda a região da Galileia".
       A palavra de Jesus liberta, cura, e desafia-nos à coerência de vida. A autoridade que se Lhe reconhece vem da simplicidade com que fala às multidões e a cada pessoa que encontra. Não fala como estranho, como alguém superior ou mais sábio, mas fala ao coração, com gestos, com autenticidade, de forma simples, mistura-se com o povo, deixa-se tocar, deixa-se arrastar no meio da multidão, vai onde precisam d'Ele, da Sua palavra ou dos seus gestos.
       Como discípulos deixemo-nos envolver pela Sua presença, pela Sua palavra, agindo sabendo que Ele está connosco, a olhar para nós, a contemplar a nossa vida.


Textos para a Eucaristia (ano B): Deut 18,15-20; Sl 94 (95); 1 Cor 7,32-35; Mc 1,21-28.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

DIOCESE de LAMEGO

Obrigado, D. Jacinto...

       Foram vários os momentos em que D. Jacinto (que passará a ser Bispo Emérito de Lamego no próximo dia 29 de janeiro, dia da tomada de posse de D. António Couto, novo Bispo de Lamego) passou por diversas ocasiões neste espaço pastoral, de Tabuaço, Távora, Pinheiros e Carrazedo. De Carrazedo não temos connosco imagens, mas em jeito de homenagem ficam algumas das imagens que recordam diversas ocasiões em que D. Jacinto nos visitou, para estar, para rezar connosco, para celebrar os Sacramentos...

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

D. Jacinto Botelho: gratidão em final de missão

       Prestes a terminar a missão episcopal na diocese de Lamego, os sentimentos que me apraz expressar são tão-somente de gratidão. Em primeiro lugar Ação de Graças a Deus, uno e trino, que me cumulou das Suas Bênçãos, ressalvando fraquezas pessoais e suprindo insuficiências.
       Mas o meu reconhecimento vai também para todas e todos os diocesanos que tantas vezes e de tão variados e expressivos modos testemunharam a sua comunhão para comigo, grande estímulo para a minha fidelidade.
       Sem nomear individualmente pessoas, não posso deixar de referir os mais próximos colaboradores, na reflexão sobre os problemas da Diocese e necessárias soluções, ou nos serviços dos vários departamentos da Cúria, designadamente o Conselho Episcopal, o Cabido, o Conselho de Arciprestes, o Conselho de Presbíteros, os responsáveis nas várias equipas de formação dos nossos seminários, ao longo destes 12 anos, os Assistentes eclesiásticos dos vários movimentos e associações da Diocese, todos os sacerdotes, dos quais sempre me senti próximo e irmão, e que nas paróquias ou em qualquer outro setor da pastoral, foram generosamente dedicados e dóceis.
       Uma palavra de profundo e reconhecido apreço para os religiosos, religiosas contemplativas ou de vida ativa, e Institutos Seculares e Sociedades de Vida Apostólica, cuja oração e trabalho, modelarmente inseridos nos programas pastorais da Diocese, são indiscutível fator de êxito apostólico. Não posso deixar de referenciar as Irmãs da Congregação da Divina Providência e Sagrada Família, que na Casa Episcopal garantem um verdadeiro espírito de família.
       Aos nossos leigos, nos movimentos e associações e nos serviços das comunidades paroquiais, num testemunho nunca suficientemente salientado de voluntariado, um sincero obrigado pela amizade que nos aproximou e por todos os projetos e iniciativas de formação, a torná-los responsavelmente fermento e sal nos ambientes que são os seus. Lembrando os leigos, destacaria os nossos jovens, esperança e certeza do futuro, com o seu entusiasmo e ousadia, que me enriqueceram e comunicaram juventude para nunca desfalecer. Aqui incluo também os nossos seminaristas, por quem agradecido não deixarei de rezar, para que sejam, depois de uma serena caminhada de discernimento e de empenhada e exigente formação, os padres de que Lamego precisa.
       O Senhor D. António Couto é a escolha providencial que trará à nossa querida diocese o dinamismo pastoral que merece. Que o manto da Mãe do Céu continue a ser para todos a tenda do encontro na nossa peregrinação para o Pai.

Lamego, 24 de janeiro, memória de S. Francisco de Sales, de 2012
D. Jacinto Tomaz de Carvalho Botelho, Administrador Apostólico de Lamego

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Pecado original, queda de anjos, criação do mundo

Pecado Original:
        O pecado original, no qual todos os homens nascem, é o estado de privação da santidade e da justiça originais. É um pecado por nós «contraído» e não «cometido»; é uma condição de nascimento e não um acto pessoal. Por causa da unidade de origem de todos os homens, ele transmite-se aos descendentes de Adão com a natureza humana, «não por imitação mas por propagação». Esta transmissão permanece um mistério que não podemos compreender plenamente. 

O primeiro pecado da humanidade:
       O homem, tentado pelo diabo, deixou apagar no seu coração a confiança em relação ao seu Criador e, desobedecendo-lhe, quis tornar-se «como Deus», sem Deus e não segundo Deus (Gn 3, 5). Assim, Adão e Eva perderam imediatamente, para si e para todos os seus descendentes, a graça da santidade e da justiça originais 

O que é a queda dos Anjos:
       Com esta expressão indica-se que Satanás e os outros demónios de que falam a Sagrada Escritura e a Tradição da Igreja, de anjos criados bons por Deus, se transformaram em maus, porque, mediante uma opção livre e irrevogável, recusaram Deus e o seu Reino, dando assim origem ao inferno. Procuram associar o homem à sua rebelião contra Deus; mas Deus afirma em Cristo a Sua vitória segura sobre o Maligno.

Qual era a condição originária do homem segundo o projecto de Deus?
       Deus, criando o homem e a mulher, tinha-lhes dado uma participação especial na própria vida divina, em santidade e justiça. Segundo o projecto de Deus, o homem não deveria nem sofrer nem morrer. Além disso, reinava uma harmonia perfeita no próprio ser humano, entre a criatura e o criador, entre o homem e a mulher, bem como entre o primeiro casal humano e toda a criação.

Relação entre homem e mulher:
       O homem e a mulher foram criados por Deus com uma igual dignidade enquanto pessoas humanas e, ao mesmo tempo, numa complementaridade recíproca enquanto masculino e feminino. Deus quis que fossem um para o outro, para uma comunhão de pessoas. Juntos são também chamados a transmitir a vida humana, formando no matrimónio «uma só carne» (Gn 2, 24), e a dominar a terra como «administradores» de Deus.

Quem dá a alma ao ser humano: 
       A alma espiritual não vem dos pais, mas é criada directamente por Deus e é imortal. Separando-se do corpo no momento da morte, ela não perece; voltará a unir-se novamente ao corpo, no momento da ressurreição final. 

Em que sentido o ser humano é "imagem de Deus"? 
       Afirmar que o homem é criado à imagem de Deus significa que ele é capaz de conhecer e amar, na liberdade, o próprio Criador. É a única criatura, nesta terra, que Deus quis por si mesma e que chamou a partilhar a sua vida divina, no conhecimento e no amor. Enquanto criado à imagem de Deus, o homem tem a dignidade de pessoa: não é uma coisa mas alguém, capaz de se conhecer a si mesmo, de se dar livremente e de entrar em comunhão com Deus e com as outras pessoas. 

Quem são os Anjos:
       Os anjos são criaturas puramente espirituais, incorpóreas, invisíveis e imortais, seres pessoais dotados de inteligência e de vontade. Estes, contemplando incessantemente a Deus face a face, glorificam-no, servem-no e são os seus mensageiros no cumprimento da missão de salvação, em prol de todos os homens. 

Como é que Deus criou o mundo: 
       Deus criou o universo livremente, com sabedoria e amor. O mundo não é o produto duma necessidade, dum destino cego ou do acaso. Deus criou «do nada» (ex nihilo: 2Mac 7,28) um mundo ordenado e bom, que Ele transcende infinitamente. Deus conserva no ser a sua criação e sustenta-a, dando-lhe a capacidade de agir, e conduzindo-a à sua realização, por meio do seu Filho e do Espírito Santo.

Conversão de SÃO PAULO

Nota biográfica:
       Aguerrido perseguidor dos discípulos de Jesus, Paulo dirigia-se para Damasco, quando, inesperadamente, o Senhor Ressussitado lhe aparece e Se lhe revela. Vencido pela graça, entrega-se, incondi- cionalmente a Cristo, que o escolhe para Seu apóstolo e o encarrega de anunciar o Evangelho, em pé de igualdade com os Doze.
       Este encontro marcou profundamente a vida, o pensamento e a acção deste Apóstolo. Paulo descobriu, nesse momento, o poder extraordinário da graça, poder capaz de transformar um perseguidor em Apóstolo. Descobriu, igualmente, que Jesus Ressuscitado Se identifica com os cristãos («Porque Me persegues?»).
       Mas este acontecimento foi também de importância decisiva para o desenvolvimento da Igreja. O convertido de Damasco, na verdade, será o Apóstolo que mais virá a contribuir para a expansão missionária da Igreja entre os povos pagãos.

       Saulo, respirando ainda ameaças de morte contra os discípulos do Senhor, foi ter com o sumo sacerdote e pediu-lhe cartas de recomendação para as sinagogas de Damasco, a fim de trazer algemados para Jerusalém quantos seguissem a nova doutrina, tanto homens como mulheres. Na viagem, quando estava já próximo de Damasco, viu-se de repente envolvido numa luz intensa vinda do Céu. Caiu por terra e ouviu uma voz que lhe dizia: "Saulo, Saulo, porque Me persegues?". Ele perguntou: "Quem és Tu, Senhor?". O Senhor respondeu: "Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Mas levanta-te, entra na cidade e aí te dirão o que deves fazer". Os companheiros de viagem de Saulo tinham parado emudecidos; ouviam a voz, mas não viam ninguém. Saulo levantou-se do chão, mas, embora tivesse os olhos abertos, nada via (Act Act 9, 1-22).

Fonte: Secretariado Nacional da Liturgia. Post's relacionados com São Paulo, aqui e aqui.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O sacerdote que salvou Hitler... antes de o serem!

       É uma daquelas histórias bonitas - até certo ponto, porém -, boa de contar mesmo quando é antiga. Estranhamente, o jornal popular inglês Daily Mail chamou-lhe: "Talvez o mais terrível ato de generosidade da História." Outros jornais europeus pegaram no assunto e as caixas de comentários têm fervilhado. Vamos à história.
        Num dia de janeiro de 1894, em Passau, cidade da Baixa Baviera, uma criança de quatro anos caiu ao gelado rio Inn e estava a afogar-se quando um rapaz o salvou. Por esses dias, um jornal local, o Donauzeitung-Danube - Passau é "a cidade dos três rios", juntam-se lá o Inn, o Ilz e o Danúbio -, narrou o ato abnegado, não dando nome aos intervenientes mas, porque a sua linha editorial era de esquerda, chamou "camarada corajoso" ao salvador. Este, Johann Kuehberger, tornou-se padre e, muitas décadas depois, passou a paróquia ao padre Max Tremmel, que foi famoso organista, na catedral de Passau. O padre Tremmel na década de 80 revelou que o seu antecessor lhe dera a identidade do rapazito salvo. Uma escritora, Anna Elisabeth Rosmus, em 2004, contou o episódio num livro sobre Passau. E, agora, com a descoberta da notícia original do Donauzeitung-Danube, dando credibilidade ao que se contava sobre o antigo salvamento, os jornais de todo o mundo puseram-se a contar a história. Daí ter-se aberto a discussão: não valia mais que o futuro padre Kuehberger não tivesse salvado o pequenito Adolfo Hitler?
In POVO

Deixar que Deus nos invada...

       ... para amarmos a Deus, para percebermos a presença de Deus em nós, temos de deixar que Deus nos invada, nos impregne, até tornar-se a nossa ossatura interior. Deixar que Deus seja o modelo da nossa vida. É, no fundo, isso que vai acontecer com Jesus.

Pe. José Tolentino de Mendonça, Pai-nosso que estais na terra.