sábado, 9 de abril de 2016

3.º Domingo da Páscoa - ano C - 10 de abril de 2016

       1 – O Papa Bento XVI, na celebração vespertina do dia 12 de maio de 2010, na Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima, com religiosos, seminaristas, diáconos e sacerdotes, evidenciava: "Permiti abrir-vos o coração para vos dizer que a principal preocupação de todo o cristão... há de ser a fidelidade, a lealdade à própria vocação, como discípulo que quer seguir o Senhor. A fidelidade no tempo é o nome do amor; de um amor coerente, verdadeiro e profundo a Cristo Sacerdote".
       O amor é a fidelidade no tempo. Não é um sentimento passageiro, ou uma emoção que nos entusiasma, mas uma opção de vida, aprofundando os laços que nos unem uns aos outros, promovendo gestos de afeto, de proximidade, de ternura, de serviço. Jesus não passa pelas pessoas. Jesus permanece. Para. Olha. Fala. Envolve. Cura. Desafia. Chama. Envia. "Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos" (Mt 28,20). Não estará num momento, ou apenas nas situações favoráveis, mas em todo o tempo, e em todas as situações da vida. Deus é amor. Quem ama permanece em Deus e Deus permanece nele (cf. 1 Jo 4, 7-19).
       Jesus volta a aparecer, a estar junto à margem, a colocar-se no meio de nós, como Aquele que congrega. Convida-nos para a Sua mesa. O entusiasmo inicial desvanece-se com alguma celeridade. É assim em muitos projetos que engendramos. E aqui todos somos muito infantis ou muito juvenis. Entusiasmamo-nos, mas logo o entusiasmo passa e tudo regressa à rotina e ao cansaço. E eis que vemos Jesus, a chamar-nos, a alimentar-nos e a enviar-nos. Ainda não percebemos que a ressurreição nos leva para outros caminhos? Por quê voltar à vida do passado? A vida está aquém do sepulcro e além da morte. O Ressuscitado reenvia-nos para o HOJE e para o amanhã. Por quê voltar atrás?
       Em Lisboa, no Terreiro do Paço, a 11 de maio, o Papa Bento XVI sublinhava que "o Ressuscitado oferece-Se vivo e operante, por nós, no hoje da Igreja e do mundo. Esta é a nossa grande alegria. No rio vivo da Tradição eclesial, Cristo não está a dois mil anos de distância, mas está realmente presente entre nós e dá-nos a Verdade, dá-nos a luz que nos faz viver e encontrar a estrada para o futuro... Para isso é preciso voltar a anunciar com vigor e alegria o acontecimento da morte e ressurreição de Cristo, coração do cristianismo, fulcro e sustentáculo da nossa fé, alavanca poderosa das nossas certezas, vento impetuoso que varre qualquer medo e indecisão, qualquer dúvida e cálculo humano. A ressurreição de Cristo assegura-nos que nenhuma força adversa poderá jamais destruir a Igreja".
    2 – Jesus apareceu aos discípulos, na tarde daquele primeiro dia, encontrou-os fechados em casa com medo dos judeus. Oito dias depois voltou a aparecer-lhes, estando também presente Tomé, que antes estava ausente. Porém, o Evangelho dá a entender que os discípulos ainda não sabem em que pé estão. O entusiasmo tomou conta deles, depois de um tempo de grande desencanto, mas parece ter sido sol de pouca dura. Que fazer? Esperar que Jesus Ressuscitado restaure em definitivo o Reino de Deus?
       O Apóstolo Pedro, para se distrair ou ocupar o tempo, decide ir pescar. Os outros seguem-lhe o exemplo. Tomé, Natanael, João, Tiago e mais dois discípulos. Já se tinham esquecido que Jesus os retirou da pesca real para os tornar pescadores de homens (cf. Mt 4, 19). E, com efeito, a noite não rendeu, não pescaram nada. Ao romper da manhã, Jesus apresenta-Se na margem. Jesus chega cedo à nossa vida. Eles não sabiam que era Ele. Muitas vezes também nós não nos apercebemos que Jesus nos visita ou que está diante de nós!
       A pergunta de Jesus deixa-os boquiabertos: «Rapazes, tendes alguma coisa de comer?». Como não lembrar o pedido feito à Samaritana: dá-Me de beber! Depois será Ele a saciar-lhe a sede (cf. Jo 4,1-42). Ou quando se faz convidado: Zaqueu, desce depressa que HOJE devo ficar em tua casa. E Zaqueu sentir-se-á em casa com Jesus (cf. Lc 19, 1-10).
       Os discípulos escutam o pedido e, como outros trabalhadores, de bom grado o atenderiam. Mas andaram toda a noite e não pescaram nada. Então Jesus diz-lhes: «Lançai a rede para a direita do barco e encontrareis». Para pescadores experimentados não era muito lógico lançar as redes pela manhã, mas fazem-no e são surpreendidos, pois as redes enchem-se de peixes. Sucedem-se momentos extraordinários. Com Jesus, a pesca é abundante. Sem Ele, é inútil qualquer trabalho. Nesta pescaria são precisas muitas mãos. Pedro vai ao encontro de Jesus, outros discípulos puxam as redes para a margem. Novamente Pedro, sobe ao barco, ainda Hoje, como Francisco, e puxa a rede para terra firme, com 153 grandes peixes. Não importa o número mas a comunhão de amor. Na margem, Jesus espera-os para os alimentar. Primeiro pediu-lhes que comer, agora tem o lume aceso e peixes a assar. Mas também agora conta com eles, e connosco: «Trazei alguns dos peixes que apanhastes agora».
       3 – «Vinde comer». É o convite de Jesus, para todos os tempos, para os que estão na praia, no mar ou em terra firme. Para ontem e para hoje. Para eles e para nós. "Jesus aproximou-Se, tomou o pão e deu-lho, fazendo o mesmo com os peixes". O que temos só é verdadeiramente nosso quando o repartimos pelos outros. À mesa de Jesus todos têm lugar, sobretudo os excluídos dos reinos deste mundo. Ele dá-nos tudo o que tem, a Sua própria vida, como alimento até à vida eterna, presente no Sacramento da Caridade, a Eucaristia, que havemos de comungar com os outros, no dia-a-dia da nossa existência.

       4 – O amor é a fidelidade no tempo. Não é um instante, ainda que se alimente de instantes e se renove constantemente. Traduz-se em obras, gestos e atitudes. "Nem todo aquele que diz 'Senhor, Senhor' entrará no reino dos Céus, mas somente aquele que fizer a vontade de Meu Pai" (Mt 7, 21). O que os lábios professam, a vida transparece. Pedro havia professado Jesus, garantindo que estaria com Ele em todas as horas. É audível a repreensão de Pedro a Jesus (cf. Mt 16, 22). Mas, como Jesus previra, Pedro, na hora de maior desgaste, nega-se e nega Jesus (cf. Jo 18, 12-27).
       Neste reencontro, Jesus questiona Pedro sobre a sua fidelidade: «Simão, filho de João, tu amas-Me mais do que estes?». Pedro vai gaguejando e respondendo como se fosse algo óbvio: «Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo». Jesus insiste com Pedro, como por vezes insistimos com os amigos para garantirmos que eles vão estar connosco quando mais precisamos! Na última resposta, Pedro reconhece-se humildemente, quase a sussurrar: «Senhor, Tu sabes tudo, bem sabes que Te amo».
       Olhando-o nos olhos, Jesus desafia-o: «Apascenta as minhas ovelhas. Em verdade, em verdade te digo: Quando eras mais novo, tu mesmo te cingias e andavas por onde querias; mas quando fores mais velho, estenderás a mão e outro te cingirá e te levará para onde não queres». Mais uma vez não lhe promete facilidades. Jesus estará sempre com ele e connosco, desde que O amemos de todo o coração. Como a Pedro, ontem, também a nós, hoje, Jesus interpela: «Segue-Me».
       5 – Simão Pedro, impulsivo e espontâneo, aprendeu a confiar em Jesus e assumir a sua vocação; confirmado na fé, passou a confirmar os irmãos.
       A resposta dada ao sumo-sacerdote, que os proibia novamente de pregar, é clarificadora: «Deve obedecer-se antes a Deus que aos homens. O Deus dos nossos pais ressuscitou Jesus, a quem vós destes a morte, suspendendo-O no madeiro. Deus exaltou-O pelo seu poder, como Chefe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e o perdão dos pecados. E nós somos testemunhas destes factos, nós e o Espírito Santo que Deus tem concedido àqueles que Lhe obedecem».
       A ordem das autoridades do Templo antigo é para os açoitar, intimidando-os para não voltarem a falar no Nome de Jesus. Porém, "os Apóstolos saíram da presença do Sinédrio cheios de alegria, por terem merecido serem ultrajados por causa do nome de Jesus", com o propósito de anunciar o Evangelho em toda a parte.

       6 – «Digno é o Cordeiro que foi imolado de receber o poder e a riqueza, a sabedoria e a força, a honra, a glória e o louvor, pelos séculos dos séculos». A visão de João, no Apocalipse, permite-lhe presenciar a oração dirigida a Jesus, o Cordeiro de Deus, que foi imolado para a salvação de todos. Na adoração inicia-se a conversão. Todas as criaturas que há no céu, na terra e no mar, são, em Cristo Jesus, resgatadas para Deus.
       Confiemos a nossa vida a Deus, Pai de Misericórdia: "Ouvi, Senhor, e tende compaixão de mim. Senhor, sede Vós o meu auxílio. Vós convertestes em júbilo o meu pranto: Senhor meu Deus, eu Vos louvarei eternamente" (Salmo).
       Dobremos os joelhos em adoração, mas sobretudo o coração, para que a nossa miséria, nas palavras do Papa Francisco, seja cancelada pela misericórdia de Deus.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano C): Atos 5, 27b-32. 40b-41; Sl 29 (30); Ap 5, 11-14; Jo 21, 1-19.

Servir os irmãos, na palavra e na caridade...

       "Naqueles dias, aumentando o número dos discípulos, os helenistas começaram a murmurar contra os hebreus, porque no serviço diário não se fazia caso das suas viúvas. Então os Doze convocaram a assembleia dos discípulos e disseram: «Não convém que deixemos de pregar a palavra de Deus, para servirmos às mesas. Escolhei entre vós, irmãos, sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, para lhes confiarmos esse cargo. Quanto a nós, vamos dedicar-nos à oração e ao ministério da palavra». A proposta agradou a toda a assembleia; e escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Parmenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. Apresentaram-nos aos Apóstolos e estes oraram e impuseram as mãos sobre eles. A palavra de Deus ia-se divulgando cada vez mais; o número dos discípulos aumentava consideravelmente em Jerusalém e também obedecia à fé grande número de sacerdotes" (Atos 6, 1-7).
       Com a Páscoa, com as aparições, os Apóstolos assumem a missão antes confiada a Jesus Cristo. É o mesmo protagonista, Jesus que pelo Espírito Santo atua nos cristãos e de forma peculiar nos Apóstolos e seus sucessores.
       O ministério dos Apóstolos é uma prioridade nas comunidades cristãs, a pregação, o anúncio do Evangelho, a oração, a fracção fraterna. Porém, esta não deve descurar o serviço aos mais necessitados, os órfãos e as viúvas. Neste sentido, os Apóstolos sugerem a escolha homens de boa reputação para o serviço caritativo, passe o pleonasmo. A estes homens dar-se-á o nome de diáconos, servidores. A palavra indica precisamente serviço, diaconia, que deve ser a característica de toda a Igreja ainda que possa haver pessoas ou organismos mais concentrados neste ministério.
       Como disse em variadas ocasiões o Papa Bento XVI, o rosto da Igreja passa pelo serviço. Aqueles que estão à frente são servidores. Se se servem apenas a si mesmo ou buscam lugares estão a trair o mandato de Jesus Cristo. Uma das formas de encontrar Deus no mundo atual é precisamente nos pobres, "o que fizerdes ao mais pequeno dos irmãos, a Mim o fazeis". Numa das últimas intervenções do Pontificado, Bento XVI, diz de forma clara que a Igreja "não é uma organização, uma associação com fins religiosos ou humanitários, mas um corpo vivo, uma comunhão de irmãos e irmãs no Corpo de Jesus Cristo, que une a todos".
       Na primeira Eucaristia do Papa Francisco usava termos muito semelhantes, dizendo que se caminhamos, edificamos e confessamos mas sem Cristo, tornar-nos-emos "uma ONG sociocaritativa, mas não a Igreja", e na Audiência com a comunicação social, "ah, como eu queria uma Igreja pobre e para os pobres!"

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Paróquia de Tabuaço - Semana Santa 2016

       A Páscoa e o tempo que a precede e prepara é dos momentos mais significativos e mais importantes nas comunidades cristãs. Cada ano as diferentes celebrações nos fazem envolver no mistério de Cristo, com a Sua Paixão, Morte e Ressurreição.
       Na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, a vivência da Quaresma passou pela Caminhada proposta para o Arciprestado de Moimenta, Sernancelhe e Tabuaço, assinalando cada domingo com uma Obra de Misericórdia e com um gesto, em conformidade com o Evangelho do dia.
       A Semana Santa concentra as maiores atenções, pois é a Semana Maior da nossa fé cristã.
       No Domingo de Ramos na Paixão do Senhor, dois momentos importantes, a celebração da Eucaristia, com a leitura do Evangelho da Paixão, precedida da bênção dos Ramos, na Capela de Santa Bárbara, e da Procissão até à Igreja Paroquial.
       À noite, a celebração da Via-sacra. Este ano, com a previsão do tempo frio e chuvoso, foi na Igreja Paroquial, com a participação dos vários grupos, catequese, jovens, acólitos, catequistas, conselho pastoral e conselho económico, grupo coral.
       Na quarta-feira da Semana Santa, o Dia do Perdão e da Misericórdia, com a Adoração do Santíssimo Sacramento, pelos vários grupos eclesiais: Catequistas, Movimento da Mensagem de Fátima, Apostolado de Oração, Guias e Escuteiros da Europa, Zeladoras, Grupo Coral, Conselho Económico, Grupo de Jovens e Acólitos. No final da tarde, as Confissões, encerrando com a celebração da Eucaristia.
       Na quinta-feira Santa, a cerimónia do Lava-pés, no dia em que se celebra a Ceia do Senhor e a Instituição da Eucaristia. Como habitualmente ao longo dos últimos anos, a celebração terminou com a trasladação do Santíssimo para a Capela de Santa Bárbara. Na sexta-feira, durante o dia, as pessoas, foram convidadas a passar na Capela para adoração do Santíssimo.
       À noite, a Adoração da Santa Cruz, com a leitura da Paixão do Senhor, com a Adoração da Santa Cruz e com a distribuição da comunhão. O Senhor Morto foi levado, em procissão para a Capela de Santa Bárbara, permanecendo aí durante o sábado Santo.
       O Sábado Santo, Sábado Aleluia, é o dia da Grande Vigília, a maior, em que se benze o Lume Novo, se acende o Círio Pascal, em que se renovam as promessas batismais, com a bênção da água para os batismos, onde se leem diversos textos do Antigo e do Novo Testamento, percorrendo a História da Salvação do Povo Eleito, que desemboca e se pleniza em Jesus Cristo, na Sua morte e ressurreição.

Para ver as fotos que temos disponíveis,
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WALTER KASPER - TESTEMUNHA DA MISERICÓRDIA

WALTER KASPER (2016). Testemunha da Misericórdia. A minha viagem com Francisco. Em conversa com Raffaele Luise. Prior Velho: Paulinas Editora. 208 páginas.
       O Cardeal Walter Kasper já é apelidado como teólogo do Papa Francisco, tal a proximidade espiritual e sintonia teológica e pastoral. Na primeira vez que o Papa falou da varanda do Palácio Apostólico, no Angelus, confidenciou que estava a ler um livro, que mostrou, sobre a misericórdia, de um dos seus cardeais, Walter Kasper, e que a leitura lhe estava a fazer muito bem, sublinhando uma das linhas fundamentais do seu pontificado: a misericórdia. Agendado o Sínodo Extraordinário dos Bispos para refletir sobre a família, o Papa Francisco pediu ao Cardeal alemão que apresentasse um conjunto de perguntas, questões, problemáticas, abrindo dessa forma o debate. E o que é certo é que a intervenção de Walter Kasper suscitou reações diversas, a favor e contra. Algumas sugestões que foi levantando e que provocaram celeuma, o que ajudou a fazer uma reflexão mais aberta e mais alargada.
       Nesta entrevista, guiada por Raffaele Luise, o Cardeal passa em revista diversos temas da vida da Igreja e da sociedade do nosso tempo e como a chegada do Papa Sul-americano, de surpresa em surpresa, tem como que levantando o pó, para que venha ao de cima o Evangelho de Jesus Cristo, na Sua opção pelos pobres. Nenhum tema problemático é deixado de fora: a família, a contracepção, a homossexualidade, a comunhão do recasados, o diálogo inter-religioso e o terrorismo, o ecumenismo. Os gestos proféticos do Papa Francisco, que está a fazer a revolução da amizade e da ternura, com a Sua simplicidade, doçura, com a prevalência de uma atitude dialogante de respeito, de escuta, de serviço. O magistério de Francisco, inequivocamente, tem aberto muitas portas, aproximado muitas pessoas.
       Um dos temas que surge como pano de fundo é a misericórdia. Walter Kasper sublinha como sintoniza com o projeto do Papa de acentuar a misericórdia, desde a primeira intervenção, o Papa Bergoglio tem recuperado esta característica essencial de Deus, que transparece no Rosto e em toda a vida de Jesus e que há de transparecer na Igreja e nos seus membros. O Cardeal permite-nos ver de perto o Papa Francisco nesta revolução do coração. É um belíssimo testemunho que não ignora as dificuldades e os escolhos, mas apostando na persistência, na fidelidade ao Evangelho de Cristo, na firmeza dos princípios, mas colocando as pessoas em primeiro lugar, seguindo a postura de Jesus.
       As bem-aventuranças, segundo Kasper, constituem o programa pastoral do Papa Francisco, onde os mais pobres têm um lugar privilegiado, é deles o Reino dos Céus, são eles que devem estar na primeira linha das preocupações da Igreja e dos cristãos que a compõem. Uma Igreja pobres, dos pobres e para os pobres.

WALTER KASPER - A MISERICÓRDIA

Cardeal WALTER KASPER (2015). A Misericórdia. Condição fundamental do Evangelho e chave da vida cristã. Cascais: Lucerna. 264 páginas.
       No primeiro ANGELUS, a 17 de março de 2013, o Papa Francisco citou este livro de Walter Kasper, sobre a misericórdia de Deus, e que lhe tinha feito muito bem. Milhões de pessoas, das que estavam na Praça de São Pedro às que acompanhavam pelos meios de comunicação social, repetição do momento, partilhas e comentários, o Cardeal Kasper ficava, por mérito próprio certamente, no centro das atenções. A partir de então tem sido citado muitas vezes. Segundo o próprio, logo naquele dia vendeu milhares de livros, esgotando os stocks. O Papa Francisco fazia-lhe a melhor das publicidades. Mais tarde, o Papa pediu-lhe para apresentar um relatório/reflexão sobre a Família, iniciando-se o debate de preparação para os Sínodos Extraordinário e Ordinário sobre a Família, realizados no mês de outubro de 2014 e de 2015.
       O autor procura mostrar que a misericórdia está no centro do Evangelho. Muitas vezes relegada para segundo plano, esquecida, acentuando-se a justiça em detrimento do perdão e da compaixão de Jesus Cristo. O Cardeal procura situar a misericórdia na atualidade, mostrando a urgência e a necessidade de refletir e colocar em andamento a misericórdia de Deus, visível em Jesus Cristo. O medo de acentuar a misericórdia, pensando-se que dessa forma a religião se tornaria laxista e desculpabilizante. Nada mais errado, a religião precisa de ser purificada pela misericórdia de Deus, pelo perdão, pela compaixão. A justiça é apenas um atributo de Deus, mas não o mais elevado, quando muito uma atributo que conduz sempre à misericórdia de Deus. Aliás, poder-se-á concluir que em Deus a justiça e a misericórdia se interligam. Deus é justo usando de misericórdia.
       A abordagem deste trabalho leva-nos à filosofia, à história das religiões ou à regra de ouro, ponto de partida e referência comum. A regra de ouro parece referir-se sobretudo à justiça, mas o seu propósito era evitar a vingança e a desproporção perante as ofensas recebidas. De algum modo se reveste de misericórdia, apelando para a compreensão.
       Por outro lado, o Cardeal mostra com clareza que o Deus do Antigo Testamento não é primeiramente um Deus absoluto, Juiz implacável, mas é um Deus que usa de misericórdia até à milésima geração. Como se canta no salmo: eterna é a Sua misericórdia.
       Com a Encarnação, a misericórdia de Deus ganha um rosto e um corpo, Jesus Cristo, que com palavras e gestos vive, anuncia e pratica a misericórdia do Pai. A compaixão de Jesus por cada pessoa que encontra é um jeito de ser, não é uma opção para alguns momentos, mas é a postura habitual do Mestre dos Mestres. A misericórdia da Trindade espelha-se em Jesus Cristo. Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia. Sede misericordiosos como o Vosso Pai celeste é misericórdia. Se em Jesus a Misericórdia é uma constante que o caracteriza, também a Igreja terá que se alimentar da misericórdia, do serviço, do perdão, da compaixão, imitando o Seu Divino Mestre.
       Alguns meses depois, e depois de alguns encontros com Walter Kasper, o Papa Francisco convocou o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, colocando-a como centro do Seu pensamento e da Sua intervenção, recorrendo a Jesus como o Rosto da Misericórdia, a Maria, como Mãe de Misericórdia, e à Igreja como testemunha e dispensadora da Misericórdia divina.

terça-feira, 5 de abril de 2016

São Vicente Ferrer, Presbítero - 5 de abril de 2016

       1 – "Eu venho Senhor para fazer a Vossa vontade". Desta forma respondemos à palavra de Deus que nos é proposta para a celebração da memória litúrgica do santo dominicano, São Vicente Ferrer.
       Na paróquia de Tabuaço esta comemoração vem de longe, do século XV ou XVI, com a ereção de uma ermida em sua honra, tendo a população crescido em seu redor.
       São Vicente nasceu em Valencia, Espanha, em 1350. Entrou na Ordem dos Pregadores de São Domingos com 17 anos. Fez a sua profissão religiosa em 1368 e foi ordenado sacerdote em 1374. Numa época de grande turbulência na Europa – guerras, peste negra, fome, miséria – e na Igreja, com a simultaneidade de dois Papas, um em Roma e outro em Avinhão, São Vicente tornou-se um exímio pregador, desafiando à conversão, à penitência, para preparar a vinda de Jesus Cristo. As calamidades visualizavam, de algum modo, o que estava para vir. Muitas vezes desempenhava o papel de juiz de paz, intervindo para conciliar pessoas e resolver contendas.
       Mestre em teologia, Vicente coloca-se ao lado dos papas de Avinhão, mormente do Cardeal Pedro de Luna, eleito Papa, em 1384, como Bento XIII. Para que a unidade da Igreja seja viável conclui-se a necessidade da renúncia dos dois Papas. Vicente, que se tornara confessor de Pedro de Luna, incentiva-o a renunciar, acabando por lhe tirar o apoio. Com a renúncia dos dois Papas, foi eleito Martinho V, restabelecendo-se a desejada unidade da Igreja.
       2 – "Eu venho Senhor para fazer a Vossa vontade". São Vicente dispõe da sua vida para viver e anunciar Jesus Cristo. Não vacila diante das dificuldades. Percorre Espanha, França, Itália, Suíça, Bélgica, Inglaterra e Irlanda e muitas outras regiões, defendendo sempre a unidade da Igreja, o fim das guerras, o arrependimento e a penitência. Prega nas praças públicas, pois os fiéis que se aproximavam para o escutar não cabiam dentro das Igrejas ou das Catedrais. Para a imaginação popular é o pregador do fim do mundo, o Anjo do Apocalipse.
       Segundo os historiadores, São Vicente terá convertido, com as suas palavras e com o seu exemplo, 25.000 judeus e 8.000 muçulmanos. Um dos casos conhecidos é o de uma Senhora judia, rica e poderosa, que numa pregação, em Domingo de Ramos, em 1407, escarnecia da pregação, irrompendo furiosa por entre a multidão que não queria deixá-la passar. São Vicente interveio, dizendo que a deixassem passar e se afastassem do pórtico, que caiu sobre ela e a matou. Então São Vicente ordenou: "Mulher, em nome de Cristo, volta à vida!" A mulher ressuscitou! Depois disso, a senhora converteu-se ao cristianismo. Na escultura que possuímos de São Vicente, esta mulher está aos seus pés, em atitude de escuta e gratidão.
       São Vicente morreu no dia 5 de abril de 1419, na cidade de Vannes, Bretanha, na França, há 597 anos, com a fama de santidade. O processo de canonização iniciou no dia seguinte à sua morte. A Igreja reconheceu 873 milagres que foram atribuídos à sua intercessão. Foi canonizado em 1455, pelo Papa Calisto III.
       3 – "Eu venho Senhor para fazer a Vossa vontade". Não quisestes holocaustos nem sacrifícios, mas abriste-me os ouvidos. Então clamei: aqui estou, Senhor, para fazer a tua vontade. Proclamarei a Vossa justiça, não fecharei os meus lábios no meio da assembleia. O propósito de São Vicente é anunciar Jesus Cristo e levar todos a aderir ao Evangelho, convertendo-se. Como não lembrar as suas palavras: “Há mais proveito na Eucaristia que numa semana de jejum de pão e água”.
       No evangelho que escutámos ressoa a interpelação de Jesus à vigilância, pois está próximo o Reino de Deus. “Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. Sede semelhantes aos homens que esperam o seu senhor ao voltar da boda, para lhe abrirem a porta quando ele chegar e bater. Felizes aqueles servos, a quem o senhor, quando vier, encontrar vigilantes… estai preparados, vós também, porque o Filho do Homem chegará na hora em que menos pensais”. A pregação de São Vicente em nada se distancia das palavras de Jesus Cristo. Também o Santo desafia à conversão e à vigilância pela proximidade da vinda de Cristo Senhor.
       São Paulo, na primeira leitura, na Carta a Timóteo, alerta para a apostasia de alguns e como alguns falsos profetas levarão à abjuração da fé cristã, dividindo a comunidade e diabolizando o casamento e alguns alimentos. Importa, sempre, em todas as circunstâncias, que cada um se mantenha firme na fé, na certeza que Deus santifica todas as coisas. Pela Palavra de Deus e pela oração, mantenhamo-nos fiéis a Jesus Cristo.
       A pregação de São Vicente sintoniza-se com a pregação do Apóstolo, exemplificando com a vida o que professa com a língua, lembrando-nos a urgência de nos voltarmos de todo o coração para Jesus Cristo, na prática do bem e da verdade, na procura da paz e da justiça, na vivência das obras de misericórdia.

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia: 1 Tim 4, 1-5; Sl 39 (40); Lc 12, 35-40