quinta-feira, 7 de abril de 2016

Paróquia de Tabuaço - Semana Santa 2016

       A Páscoa e o tempo que a precede e prepara é dos momentos mais significativos e mais importantes nas comunidades cristãs. Cada ano as diferentes celebrações nos fazem envolver no mistério de Cristo, com a Sua Paixão, Morte e Ressurreição.
       Na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, a vivência da Quaresma passou pela Caminhada proposta para o Arciprestado de Moimenta, Sernancelhe e Tabuaço, assinalando cada domingo com uma Obra de Misericórdia e com um gesto, em conformidade com o Evangelho do dia.
       A Semana Santa concentra as maiores atenções, pois é a Semana Maior da nossa fé cristã.
       No Domingo de Ramos na Paixão do Senhor, dois momentos importantes, a celebração da Eucaristia, com a leitura do Evangelho da Paixão, precedida da bênção dos Ramos, na Capela de Santa Bárbara, e da Procissão até à Igreja Paroquial.
       À noite, a celebração da Via-sacra. Este ano, com a previsão do tempo frio e chuvoso, foi na Igreja Paroquial, com a participação dos vários grupos, catequese, jovens, acólitos, catequistas, conselho pastoral e conselho económico, grupo coral.
       Na quarta-feira da Semana Santa, o Dia do Perdão e da Misericórdia, com a Adoração do Santíssimo Sacramento, pelos vários grupos eclesiais: Catequistas, Movimento da Mensagem de Fátima, Apostolado de Oração, Guias e Escuteiros da Europa, Zeladoras, Grupo Coral, Conselho Económico, Grupo de Jovens e Acólitos. No final da tarde, as Confissões, encerrando com a celebração da Eucaristia.
       Na quinta-feira Santa, a cerimónia do Lava-pés, no dia em que se celebra a Ceia do Senhor e a Instituição da Eucaristia. Como habitualmente ao longo dos últimos anos, a celebração terminou com a trasladação do Santíssimo para a Capela de Santa Bárbara. Na sexta-feira, durante o dia, as pessoas, foram convidadas a passar na Capela para adoração do Santíssimo.
       À noite, a Adoração da Santa Cruz, com a leitura da Paixão do Senhor, com a Adoração da Santa Cruz e com a distribuição da comunhão. O Senhor Morto foi levado, em procissão para a Capela de Santa Bárbara, permanecendo aí durante o sábado Santo.
       O Sábado Santo, Sábado Aleluia, é o dia da Grande Vigília, a maior, em que se benze o Lume Novo, se acende o Círio Pascal, em que se renovam as promessas batismais, com a bênção da água para os batismos, onde se leem diversos textos do Antigo e do Novo Testamento, percorrendo a História da Salvação do Povo Eleito, que desemboca e se pleniza em Jesus Cristo, na Sua morte e ressurreição.

Para ver as fotos que temos disponíveis,
visitar, a página da Paróquia de Tabuaço no Facebook:
Veja também videoporama:

WALTER KASPER - TESTEMUNHA DA MISERICÓRDIA

WALTER KASPER (2016). Testemunha da Misericórdia. A minha viagem com Francisco. Em conversa com Raffaele Luise. Prior Velho: Paulinas Editora. 208 páginas.
       O Cardeal Walter Kasper já é apelidado como teólogo do Papa Francisco, tal a proximidade espiritual e sintonia teológica e pastoral. Na primeira vez que o Papa falou da varanda do Palácio Apostólico, no Angelus, confidenciou que estava a ler um livro, que mostrou, sobre a misericórdia, de um dos seus cardeais, Walter Kasper, e que a leitura lhe estava a fazer muito bem, sublinhando uma das linhas fundamentais do seu pontificado: a misericórdia. Agendado o Sínodo Extraordinário dos Bispos para refletir sobre a família, o Papa Francisco pediu ao Cardeal alemão que apresentasse um conjunto de perguntas, questões, problemáticas, abrindo dessa forma o debate. E o que é certo é que a intervenção de Walter Kasper suscitou reações diversas, a favor e contra. Algumas sugestões que foi levantando e que provocaram celeuma, o que ajudou a fazer uma reflexão mais aberta e mais alargada.
       Nesta entrevista, guiada por Raffaele Luise, o Cardeal passa em revista diversos temas da vida da Igreja e da sociedade do nosso tempo e como a chegada do Papa Sul-americano, de surpresa em surpresa, tem como que levantando o pó, para que venha ao de cima o Evangelho de Jesus Cristo, na Sua opção pelos pobres. Nenhum tema problemático é deixado de fora: a família, a contracepção, a homossexualidade, a comunhão do recasados, o diálogo inter-religioso e o terrorismo, o ecumenismo. Os gestos proféticos do Papa Francisco, que está a fazer a revolução da amizade e da ternura, com a Sua simplicidade, doçura, com a prevalência de uma atitude dialogante de respeito, de escuta, de serviço. O magistério de Francisco, inequivocamente, tem aberto muitas portas, aproximado muitas pessoas.
       Um dos temas que surge como pano de fundo é a misericórdia. Walter Kasper sublinha como sintoniza com o projeto do Papa de acentuar a misericórdia, desde a primeira intervenção, o Papa Bergoglio tem recuperado esta característica essencial de Deus, que transparece no Rosto e em toda a vida de Jesus e que há de transparecer na Igreja e nos seus membros. O Cardeal permite-nos ver de perto o Papa Francisco nesta revolução do coração. É um belíssimo testemunho que não ignora as dificuldades e os escolhos, mas apostando na persistência, na fidelidade ao Evangelho de Cristo, na firmeza dos princípios, mas colocando as pessoas em primeiro lugar, seguindo a postura de Jesus.
       As bem-aventuranças, segundo Kasper, constituem o programa pastoral do Papa Francisco, onde os mais pobres têm um lugar privilegiado, é deles o Reino dos Céus, são eles que devem estar na primeira linha das preocupações da Igreja e dos cristãos que a compõem. Uma Igreja pobres, dos pobres e para os pobres.

WALTER KASPER - A MISERICÓRDIA

Cardeal WALTER KASPER (2015). A Misericórdia. Condição fundamental do Evangelho e chave da vida cristã. Cascais: Lucerna. 264 páginas.
       No primeiro ANGELUS, a 17 de março de 2013, o Papa Francisco citou este livro de Walter Kasper, sobre a misericórdia de Deus, e que lhe tinha feito muito bem. Milhões de pessoas, das que estavam na Praça de São Pedro às que acompanhavam pelos meios de comunicação social, repetição do momento, partilhas e comentários, o Cardeal Kasper ficava, por mérito próprio certamente, no centro das atenções. A partir de então tem sido citado muitas vezes. Segundo o próprio, logo naquele dia vendeu milhares de livros, esgotando os stocks. O Papa Francisco fazia-lhe a melhor das publicidades. Mais tarde, o Papa pediu-lhe para apresentar um relatório/reflexão sobre a Família, iniciando-se o debate de preparação para os Sínodos Extraordinário e Ordinário sobre a Família, realizados no mês de outubro de 2014 e de 2015.
       O autor procura mostrar que a misericórdia está no centro do Evangelho. Muitas vezes relegada para segundo plano, esquecida, acentuando-se a justiça em detrimento do perdão e da compaixão de Jesus Cristo. O Cardeal procura situar a misericórdia na atualidade, mostrando a urgência e a necessidade de refletir e colocar em andamento a misericórdia de Deus, visível em Jesus Cristo. O medo de acentuar a misericórdia, pensando-se que dessa forma a religião se tornaria laxista e desculpabilizante. Nada mais errado, a religião precisa de ser purificada pela misericórdia de Deus, pelo perdão, pela compaixão. A justiça é apenas um atributo de Deus, mas não o mais elevado, quando muito uma atributo que conduz sempre à misericórdia de Deus. Aliás, poder-se-á concluir que em Deus a justiça e a misericórdia se interligam. Deus é justo usando de misericórdia.
       A abordagem deste trabalho leva-nos à filosofia, à história das religiões ou à regra de ouro, ponto de partida e referência comum. A regra de ouro parece referir-se sobretudo à justiça, mas o seu propósito era evitar a vingança e a desproporção perante as ofensas recebidas. De algum modo se reveste de misericórdia, apelando para a compreensão.
       Por outro lado, o Cardeal mostra com clareza que o Deus do Antigo Testamento não é primeiramente um Deus absoluto, Juiz implacável, mas é um Deus que usa de misericórdia até à milésima geração. Como se canta no salmo: eterna é a Sua misericórdia.
       Com a Encarnação, a misericórdia de Deus ganha um rosto e um corpo, Jesus Cristo, que com palavras e gestos vive, anuncia e pratica a misericórdia do Pai. A compaixão de Jesus por cada pessoa que encontra é um jeito de ser, não é uma opção para alguns momentos, mas é a postura habitual do Mestre dos Mestres. A misericórdia da Trindade espelha-se em Jesus Cristo. Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia. Sede misericordiosos como o Vosso Pai celeste é misericórdia. Se em Jesus a Misericórdia é uma constante que o caracteriza, também a Igreja terá que se alimentar da misericórdia, do serviço, do perdão, da compaixão, imitando o Seu Divino Mestre.
       Alguns meses depois, e depois de alguns encontros com Walter Kasper, o Papa Francisco convocou o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, colocando-a como centro do Seu pensamento e da Sua intervenção, recorrendo a Jesus como o Rosto da Misericórdia, a Maria, como Mãe de Misericórdia, e à Igreja como testemunha e dispensadora da Misericórdia divina.

terça-feira, 5 de abril de 2016

São Vicente Ferrer, Presbítero - 5 de abril de 2016

       1 – "Eu venho Senhor para fazer a Vossa vontade". Desta forma respondemos à palavra de Deus que nos é proposta para a celebração da memória litúrgica do santo dominicano, São Vicente Ferrer.
       Na paróquia de Tabuaço esta comemoração vem de longe, do século XV ou XVI, com a ereção de uma ermida em sua honra, tendo a população crescido em seu redor.
       São Vicente nasceu em Valencia, Espanha, em 1350. Entrou na Ordem dos Pregadores de São Domingos com 17 anos. Fez a sua profissão religiosa em 1368 e foi ordenado sacerdote em 1374. Numa época de grande turbulência na Europa – guerras, peste negra, fome, miséria – e na Igreja, com a simultaneidade de dois Papas, um em Roma e outro em Avinhão, São Vicente tornou-se um exímio pregador, desafiando à conversão, à penitência, para preparar a vinda de Jesus Cristo. As calamidades visualizavam, de algum modo, o que estava para vir. Muitas vezes desempenhava o papel de juiz de paz, intervindo para conciliar pessoas e resolver contendas.
       Mestre em teologia, Vicente coloca-se ao lado dos papas de Avinhão, mormente do Cardeal Pedro de Luna, eleito Papa, em 1384, como Bento XIII. Para que a unidade da Igreja seja viável conclui-se a necessidade da renúncia dos dois Papas. Vicente, que se tornara confessor de Pedro de Luna, incentiva-o a renunciar, acabando por lhe tirar o apoio. Com a renúncia dos dois Papas, foi eleito Martinho V, restabelecendo-se a desejada unidade da Igreja.
       2 – "Eu venho Senhor para fazer a Vossa vontade". São Vicente dispõe da sua vida para viver e anunciar Jesus Cristo. Não vacila diante das dificuldades. Percorre Espanha, França, Itália, Suíça, Bélgica, Inglaterra e Irlanda e muitas outras regiões, defendendo sempre a unidade da Igreja, o fim das guerras, o arrependimento e a penitência. Prega nas praças públicas, pois os fiéis que se aproximavam para o escutar não cabiam dentro das Igrejas ou das Catedrais. Para a imaginação popular é o pregador do fim do mundo, o Anjo do Apocalipse.
       Segundo os historiadores, São Vicente terá convertido, com as suas palavras e com o seu exemplo, 25.000 judeus e 8.000 muçulmanos. Um dos casos conhecidos é o de uma Senhora judia, rica e poderosa, que numa pregação, em Domingo de Ramos, em 1407, escarnecia da pregação, irrompendo furiosa por entre a multidão que não queria deixá-la passar. São Vicente interveio, dizendo que a deixassem passar e se afastassem do pórtico, que caiu sobre ela e a matou. Então São Vicente ordenou: "Mulher, em nome de Cristo, volta à vida!" A mulher ressuscitou! Depois disso, a senhora converteu-se ao cristianismo. Na escultura que possuímos de São Vicente, esta mulher está aos seus pés, em atitude de escuta e gratidão.
       São Vicente morreu no dia 5 de abril de 1419, na cidade de Vannes, Bretanha, na França, há 597 anos, com a fama de santidade. O processo de canonização iniciou no dia seguinte à sua morte. A Igreja reconheceu 873 milagres que foram atribuídos à sua intercessão. Foi canonizado em 1455, pelo Papa Calisto III.
       3 – "Eu venho Senhor para fazer a Vossa vontade". Não quisestes holocaustos nem sacrifícios, mas abriste-me os ouvidos. Então clamei: aqui estou, Senhor, para fazer a tua vontade. Proclamarei a Vossa justiça, não fecharei os meus lábios no meio da assembleia. O propósito de São Vicente é anunciar Jesus Cristo e levar todos a aderir ao Evangelho, convertendo-se. Como não lembrar as suas palavras: “Há mais proveito na Eucaristia que numa semana de jejum de pão e água”.
       No evangelho que escutámos ressoa a interpelação de Jesus à vigilância, pois está próximo o Reino de Deus. “Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. Sede semelhantes aos homens que esperam o seu senhor ao voltar da boda, para lhe abrirem a porta quando ele chegar e bater. Felizes aqueles servos, a quem o senhor, quando vier, encontrar vigilantes… estai preparados, vós também, porque o Filho do Homem chegará na hora em que menos pensais”. A pregação de São Vicente em nada se distancia das palavras de Jesus Cristo. Também o Santo desafia à conversão e à vigilância pela proximidade da vinda de Cristo Senhor.
       São Paulo, na primeira leitura, na Carta a Timóteo, alerta para a apostasia de alguns e como alguns falsos profetas levarão à abjuração da fé cristã, dividindo a comunidade e diabolizando o casamento e alguns alimentos. Importa, sempre, em todas as circunstâncias, que cada um se mantenha firme na fé, na certeza que Deus santifica todas as coisas. Pela Palavra de Deus e pela oração, mantenhamo-nos fiéis a Jesus Cristo.
       A pregação de São Vicente sintoniza-se com a pregação do Apóstolo, exemplificando com a vida o que professa com a língua, lembrando-nos a urgência de nos voltarmos de todo o coração para Jesus Cristo, na prática do bem e da verdade, na procura da paz e da justiça, na vivência das obras de misericórdia.

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia: 1 Tim 4, 1-5; Sl 39 (40); Lc 12, 35-40

domingo, 3 de abril de 2016

O encontro com o Ressuscitado gera a fé na Ressurreição

       Na manhã de Páscoa, as mulheres correm ao sepulcro e encontram-no vazio, sem o corpo de Jesus. Como tem acentuado o nosso Bispo, o sepulcro está cheio de sinais que importa ler, a disposição das roupas de Jesus, o anjo ou os dois homens vestidos de branco, a luz, e o desafio a procurar Jesus fora do túmulo.
       Em todo o caso poder-se-á fazer uma outra acentuação que é clarividente na leitura dos Evangelhos. O que provoca a fé na ressurreição é o encontro com o Ressuscitado e não o sepulcro vazio. As mulheres aproximam-se do sepulcro, não encontram o corpo de Jesus e ficam atemorizadas. Maria Madalena pergunta ao próprio Jesus, pensando que é o jardineiro, onde puseram o corpo de Jesus, deduzindo-se a possibilidade de roubo ou de colocação em outro túmulo. A corrida de Pedro e do discípulo amado ao sepulcro é consequência do anúncio que as mulheres fizeram; no túmulo confirmam as informações e começa o processo de fé na ressurreição, mas esta só se clarifica no encontro de Jesus com os discípulos.
       Segundo o Papa Bento XVI / Joseph Ratzinger, o túmulo vazio é um pressuposto da fé da Ressurreição, bem com o Corpo incorruptível de Jesus. O túmulo está vazio até hoje, pois Jesus ressuscitou.
       Não sendo um dado histórico e empírico, continua o Papa Emérito, “ultrapassa a história, mas deixou o seu rasto na história”. 
       O decisivo para a fé na ressurreição será sempre o encontro com Jesus Ressuscitado. A este respeito diz José Antonio Pagola, que “o relato do sepulcro vazio, tal como foi recolhido no final dos escritos evangélicos, encerra uma mensagem de grande importância: era um erro procurar o crucificado no sepulcro. Não estava lá. Não pertencia ao mundo dos mortos. Era um equívoco render-lhe homenagem de admiração e de reconhecimento pelo seu passado. Ressuscitou. Estava mais cheio de vida do que nunca. Ele continuava a animar e a guiar os seus seguidores. Era preciso ‘voltar à Galileia’ a fim de seguir os Seus passos: continuar a curar os que sofriam, a acolher os excluídos, a perdoar os pecadores, a defender as mulheres, a abençoar as crianças. Era preciso continuar a organizar refeições abertas a todos e a entrar nas casas com o anúncio da paz… Era preciso continuar a anunciar que o Reino de Deus estava próximo. Com Jesus, era possível um mundo diferente, mais amável, mais digno e mais justo. A esperança para todos”.

publicado na Voz de Lamego, n.º 4355, de 22 de março de 2016

sábado, 2 de abril de 2016

Domingo da Divina Misericórdia - ano C - 3 de abril

       1 – A plenitude da misericórdia divina é visualizável no mistério da Encarnação, Deus cabe na palma da mão, cabe no meu e no teu coração. A omnipotência reduz-Se à pequenez e à finitude. Deus, em Jesus Cristo, percorre a história, podemos encontrá-l'O, segui-l'O, acohê-l'O em nossa casa, rejeitá-l'O, persegui-l'O e até matá-l'O. Faz-Se Caminho para nós e entra nos caminhos do tempo, vem ao nosso mundo. O mistério da Páscoa, morte e ressurreição de Jesus, condensa e evidencia em definitivo a misericórdia de Deus que Se ajusta à nossa fragilidade. O coração de Deus compadece-se da nossa miséria e envolve-nos no Seu amor. Já tínhamos visto em quinta-feira santa, como Jesus Se ajusta ao ser humano, ajoelhando-se para nos servir, lavando-nos os pés. Olha-nos a partir de baixo, para nos elevar. Em Sexta-feira Santa, Jesus leva até ao fim o Seu amor por nós, não vacilando, apesar de tanta dor. A Cruz é pesada e pesada é a traição e o abandono dos amigos, e como amargas são as trevas que quase O impedem de ver o Pai. No final, entrega-Se, por mim e por ti, por todos.
       Com a Páscoa vem uma enxurrada de vida nova. A morte não tem mais a última palavra. Esta é de Deus, é da vida, é do Amor. Jesus regressa trazendo-nos, na expressão de Bento XVI, a vastidão do Céu. Um vislumbre de luz que incendiou o mundo. Assim é a Luz da Fé, à minha luz, a luz do outro, e mais luz, como a chama de um isqueiro num estádio de futebol, quase invisível, mas logo que se acendem dezenas, centenas, milhares, o estádio fica todo iluminado. O encontro com Jesus ressuscitado, a experiência da misericórdia de Deus na nossa vida, impele-nos a sermos luz uns para os outros. Com a nossa luz podemos guiar outros para a luz de Cristo e acender a luz em outros!
       São João Paulo II quis que este segundo domingo de Páscoa fosse considerado sob o prisma da misericórdia, acentuando a Páscoa como expoente máximo da compaixão de Deus pela humanidade. Abaixa-Se para nos elevar, como a Mãe que se agacha para pegar o seu filho ao colo!
       2 – Páscoa de Jesus Cristo. Sepulcro sem corpo e sem vida. A vida está além do sepulcro. Não é um teatro em que se possa dizer que a vida está aquém das cortinas, contudo está aquém do sepulcro e além da morte. Jesus ressuscitou. A vida germina de novo em abundância. Deixou-Se matar, e Deus Pai ressuscitou-O, agora deixa-Se ver. Deixa-Se encontrar novamente, deixa-Se perceber ao nosso olhar e ao nosso coração. Não é fantasma, é Ele mesmo. Traz as marcas da crucifixão e a mesma mensagem: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós».
       Na tarde daquele Primeiro Dia, nova criação, Jesus volta a colocar-Se no MEIO, congregando, unindo, formando comunidade, é o ELO mais forte, sem o Qual não existe comunidade, mas medo e atrofiamento. Não é um corpo que foi reanimado, mas uma forma totalmente nova de Se manifestar. É tanta a LUZ que encandeia num primeiro momento. A aparição assusta, os gestos e as palavras, e as marcas de cumplicidade, esclarecem e comprometem. A morte tinha sido violenta e abrupta a separação. Já havia rumores. Algumas mulheres afirmavam que Ele tinha ressuscitado! Para os discípulos não passam de rumores que só deixam de o ser se puderem comprovar. E eis que vem Jesus, como sempre o havia feito, e os centra à Sua volta, mas logo enviando-os, com uma missão específica: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos». A misericórdia divina tem novos intérpretes. Os discípulos são os braços, as pernas, as mãos, o coração de Jesus para o mundo das pessoas.
       3 – Mas como sermos testemunhas se não estávamos quando Jesus apareceu? O envio também é extensível a nós, ou só àquele grupo restrito? É possível ser enviado sem a comunidade?
       O Espírito sopra onde quer. Não podemos encerrar Deus nos nossos esquemas mentais nem dentro das portas que Lhe fixamos. Porém, Deus quer-nos à volta da mesma mesa, pois é ao mesmo Reino que nos chama. Quando estamos alheados, com os pés e com o coração distantes dos outros, será mais difícil reconhecermos a presença de Jesus, pois esta enlaça-nos, une-nos, irmana-nos. Jesus morre na Cruz para nos salvar, não Se salva a Si mesmo, mas a nós. Se Deus é o mesmo, Pai-nosso, se Jesus está no Meio, só estando juntos poderemos, verdadeiramente, testemunhá-l'O.
       Tomé, chamado Dídimo, isto é, Gémeo, nosso irmão gémeo, lembra-nos que a fé não é um dado adquirido, mas é procura constante para encontrar com Jesus, nas variadas situações da vida. Naquela tarde, Tomé não estava. Ouve o testemunho dos outros que viram Jesus. É um dizer indireto, em segunda mão. Tomé precisa de ver e de tocar. A fé não é mera abstração intelectual. Envolve-nos mental, afetiva e racionalmente. Oito dias depois, Jesus volta a colocar-se no MEIO deles, com Tomé presente. As marcas da paixão podem ver-se no Corpo de Jesus, e novamente a mensagem de sempre: a paz esteja convosco. É hora de Tomé ser surpreendido por Jesus: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». Tomé encontra-se com Jesus e ao vê-l'O confessa: «Meu Senhor e meu Deus!».
       Não se pense que a incredulidade de Tomé foi assim tão diferente da dos outros discípulos. Eles tinham escutado rumores, mas só quando Jesus lhes apareceu é que acreditaram. Não estava na primeira vez, porém, quando Jesus o encontra, Tomé acredita.
       Contudo, o anúncio é crucial para a transmissão da fé. A fé chega-nos através da comunidade, com Jesus ao centro, e pelo testemunho daqueles que fizeram a experiência de encontro com Jesus. Diz-nos Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto».
       4 – A Ressurreição de Jesus não é um acontecimento sensível, empírico, mas deixa marcas profundas na história. ONZE apóstolos, assustadiços, medrosos, fechados a sete chaves com medo que lhes suceda o mesmo que ao Mestre da Misericórdia. A experiência nas últimas horas de vida de Jesus foram avassaladoras. Nenhum deles estava preparado para aquele desfecho. Foi um descalabro: todos abandonaram o Mestre da Docilidade. Pedro negou-O publicamente. Judas traiu-O e precipitou o desfecho aguardado. Afastam-se de Jerusalém.
       Em pouco tempo os discípulos estão de volta. O encontro com o Ressuscitado abre portas e janelas e eles saem a testemunhar Jesus em todos os ambientes e em toda a parte. "Pelas mãos dos Apóstolos realizavam-se muitos milagres e prodígios entre o povo. Unidos pelos mesmos sentimentos, reuniam-se todos no Pórtico de Salomão... Uma multidão cada vez maior de homens e mulheres aderia ao Senhor pela fé, de tal maneira que traziam os doentes para as ruas e colocavam-nos em enxergas e em catres, para que, à passagem de Pedro, ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles. Das cidades vizinhas de Jerusalém, a multidão também acorria, trazendo enfermos e atormentados por espíritos impuros e todos eram curados".
       É tempo de os discípulos imitarem Jesus, anunciando a Boa Nova aos pobres, curando os doentes, libertando os oprimidos pelos muitos demónios que impedem de viver a bem com os outros.

       5 – Como tinha garantido, Jesus não estará ausente da vida dos Seus discípulos e da vida da comunidade. Ele está no MEIO e é a partir do Meio que nos une a todos, como irmãos, apesar e além das diferenças e das características específicas.
       No Apocalipse, João ressalva a presença e a proteção de Jesus: "No dia do Senhor fui movido pelo Espírito e ouvi atrás de mim uma voz forte, semelhante à da trombeta… Voltei-me e vi alguém semelhante a um filho do homem... Quando o vi, caí a seus pés como morto. Mas ele poisou a mão direita sobre mim e disse-me: «Não temas. Eu sou o Primeiro e o Último, o que vive. Estive morto, mas eis-Me vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e da morada dos mortos. Escreve, pois, as coisas que viste, tanto as presentes como as que hão de acontecer depois destas».
       Com a mesma fé que libertou os discípulos das cadeias do medo e da morte, cofiemo-nos ao "Deus de eterna misericórdia" que reanima a fé do Seu povo na celebração anual das festas pascais, para que aumente em nós os dons da Sua graça, "para compreendermos melhor as riquezas inesgotáveis do Batismo com que fomos purificados, do Espírito em que fomos renovados e do Sangue com que fomos redimidos".
       Renovados em Cristo, configurados à Sua morte e ressurreição, pelo Espírito Santo, tornemo-nos obreiros da misericórdia divina nos nossos ambientes, em casa, na família, no trabalho, com os amigos e vizinhos, nos momentos de descontração e lazer, na alegria e na festa, no sofrimento e no luto, e a todos comuniquemos confiança e paz, carinho e ternura.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia: Atos 5, 12-16; Sl 117 (118); Ap 1, 9-11a. 12-13. 17-19; Jo 20, 19-31.