sábado, 29 de abril de 2017

Domingo III da Páscoa - ano A - 30 de abril de 2017

       1 – Há dias num passeio ocasional, caminhando distraído com os meus botões, vejo alguém especado a olhar para mim. "Então, tudo bem contigo? Onde estás?" Poderia ter respondido: "Estou aqui à tua frente? Não vês?" Mas a pergunta remetia para a vida (sacerdotal/paroquial) e não para a localização geográfica. "Há quanto tempo! Já não te via desde o nosso 6.º ano, na Preparatória..." Pois sim, falando para mim, será que me conhece mesmo ou será mais um equívoco?! "Peço desculpa, mas já vai tanto tempo que por ora não te estou a reconhecer!". "Eu reconheci-te logo. Estás mais velho, mais forte, com menos cabelo, mas tens o mesmo sorriso. Mas olha que eu não estou assim tão diferente, pensa lá um pouco, sentávamo-nos lado a lado nas salas de aula do 5.º e do 6.º ano. Depois tu foste para o Liceu e eu para a Sé. Chamo-me (N), também cresci, tenho algumas rugas, casei, tenho 2 filhos, mais altos que eu..."
       Situações como esta não são assim não escassas. O tempo. A memória. As feições. O contexto. A surpresa do encontro. São vários os fatores que influem quando encontramos alguém ou alguém nos encontra e só um se lembra do rosto, da pessoa, do tempo passado!
       Três dias depois, Jesus aparece aos seus discípulos. Estes ficam atónitos e num primeiro momento não O reconhecem. Estranho?! Talvez não. Assim acontece com as mulheres que de manhã cedo foram ao sepulcro. Assim acontecerá quando os discípulos estiverem reunidos e Jesus lhes aparecer e Se colocar no meio deles. Jesus morreu. Ponto final, parágrafo. Embora tenha prometido regressar, vivo, ressuscitar, já passaram três longos dias, inacreditáveis. Ainda parece um sonho que Ele – o Messias de Deus – tenha sido morto. Não devemos estar a ver direito! "Vede as minhas mãos e o meu lado. Sou Eu. Não temais".
       Dois dos discípulos regressam a casa, desencantados. Jesus vem e coloca-Se com eles a caminho. Primeiro momento. Jesus vem ao nosso encontro nas circunstâncias da nossa vida e todos os momentos são propícios. Há de haver um tempo que depende de nós reconhecê-l'O e acolhê-l'O ou ignorá-l'O.
       2 – Pelo caminho, Jesus vai-lhes explicando as Escrituras, preparando-os para o que está para vir, para O reconhecerem (anúncio, catequese, formação). Os discípulos manifestam pesar pelo que aconteceu e fazem o ponto da situação: Jesus de Nazaré, profeta, grandioso em palavras e obras, foi morto e esfumou-se a esperança de ser o libertador de Israel, pois passaram três dias e não aconteceu nada, ainda que algumas mulheres tenham ido ao túmulo e tenham dito que lhes apareceram Anjos a anunciar que Jesus estava vivo. Alguns discípulos foram comprovar o que as mulheres tinham visto, mas não viram o Senhor.
       «Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória?». A pergunta provocatória de Jesus, lança pontes para a Sua vida pública, em que tinha anunciado o sofrimento e a perseguição se prosseguisse com o seu programa de vida, denunciando a prepotência, a arrogância, o autoritarismo, a intolerância e optando pelos mais pobres, pelos excluídos, pelos mais pequeninos, pelos publicanos e pecadores, pelas mulheres e pelas crianças, incluindo, promovendo, devolvendo a dignidade perdida, revelando-lhes o amor de Deus, tratando-os como irmãos. Esta postura criou inveja, ciúme, gerou ódios que que viriam a custar-Lhe a vida. Como tinha previsto. Chegar à meta sem esforço e sem sacrifícios não é possível. Há provações, obstáculos, dificuldades a vencer. Aquele que perseverar será salvo.
       Vão dialogando e Jesus serve-se da Sagrada Escritura para lhes mostrar as intuições da Lei e dos Profetas no que ao Messias diz respeito. Entretanto aproximam-se da sua povoação e Jesus faz menção de seguir o Seu caminho. Ele vem até nós, mas não Se impõe, dá-nos a liberdade para O acolhermos, ou para O deixarmos prosseguir para outras bandas. Os discípulos de Emaús sentem-se impelidos a deixar que Ele permaneça: «Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite».
        3 – No domingo anterior víamos como Jesus Se apresenta no meio dos Seus discípulos e Lhes comunica a paz, enviando-os por todo o mundo a anunciar a Boa Nova do Reino de Deus. Na tarde daquele primeiro domingo, Jesus mostra-lhes as mãos e o lado. E assim no segundo domingo, novamente no meio dos discípulos, com a presença de Tomé, ausente da comunidade no primeiro encontro do Ressuscitado com os discípulos reunidos, lhes mostra as marcas da Paixão.
       Tivemos oportunidade de refletir sobre o caminho de cada um. Cada pessoa tem o seu ritmo. A fé não se manifesta para todos da mesma maneira, porque todos somos diferentes. Mas se cada um se orienta para Cristo, Caminho, Verdade e Vida, e se O coloca como centro, mais tarde ou mais cedo vamos estar a caminhar na mesma direção.
        Há momentos de dúvida, de hesitação e até de treva. Mas não desistamos. Deus manifesta-Se também na noite da nossa fé e da nossa vida. Assim no-lo garantem muitos santos. Jesus dá-nos uma sugestão para O encontrarmos: vendo e tocando as Suas chagas presentes nos irmãos. Quando cuidamos dos outros por amor a Jesus Cristo, a nossa fé exprime-se e amadurece, mesmo que com incertezas. A fé fortalece-se com o amor e cuidado aos outros.
       Hoje Jesus mostra-nos outra forma de O reconhecermos. Pôs-se à mesa com eles, "tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho". Abrem-se os olhos, melhor, o entendimento e reconhecem-n’O. A fração do pão, da forma como Jesus no-lo dá, a Eucaristia, faz-nos irmãos, aproxima-nos, abre-nos a compreensão.
       Jesus desaparece da sua presença, está no pão a partilhar e anunciar. Partem imediatamente. À Eucaristia levamos tudo o que arde cá dentro, os nossos projetos e angústias, os nossos sonhos e as nossas alegrias. A Eucaristia abre-nos os olhos e o coração e a vida e envia-nos em missão. Eles vão de imediato ao encontro dos demais discípulos.
       4 – A comunidade garante e fortalece a fé. Os dois discípulos regressam ao seio da comunidade, para testemunharem o encontro com Jesus e para escutarem e absorverem o testemunho dos outros discípulos. Também na dúvida, na incerteza, a comunidade dos crentes deve ser o espaço e o tempo em que descobrimos Jesus. Onde dois ou três estiverem reunidos em Meu nome estarei no meio deles. Estarei convosco até ao fim dos tempos.

       5 – A primeira leitura, dos Atos dos Apóstolos, dá-nos conta do desassombro com que Pedro, com os onze Apóstolos, portanto, não isoladamente, mas com a comunidade dos seguidores de Jesus, fala para os judeus e, tal como os discípulos de Emaús, anuncia o que aconteceu com Jesus, agora com a certeza que Deus Pai O ressuscitou, não O abandonando à mansão os mortos. Pedro relembra que Deus tinha prometido a David que um seu descendente se havia de sentar no seu trono para sempre, antecipando a ressurreição de Cristo.
       Os Apóstolos experimentaram a tristeza e o desencanto da morte de Jesus. Foi um duro golpe. O reencontro com o Ressuscitado e o Dom do Espírito Santo muda-lhes a vida para sempre. Um grupo de pobretanas assume um papel preponderante no anúncio do Evangelho e na propagação do Reino de Deus, instaurado e iniciado por Jesus.

       6 – Na segunda leitura, São Pedro, em missiva que escreve à Igreja, recorda como Cristo morreu para nos salvar. Deus Pai, que não faz aceção de pessoas, ressuscitou-O para que a nossa fé e a nossa esperança estejam em Deus e não em coisas perecíveis. Por conseguinte, devemos viver como peregrinos, exilados neste mundo, praticando as boas obras. Justificados por Cristo, justifiquemos com a nossa vida a Sua entrega e façamos com que tenha valido a pena levar até ao fim o Seu amor por nós, até à morte e morte de Cruz.

       7 – Confiança em Deus é o que Salmo proposto para hoje no ensina: Senhor "Vós sois o meu refúgio. Vós sois o meu Deus. Senhor, porção da minha herança e do meu cálice, está nas vossas mãos o meu destino. Bendigo o Senhor por me ter aconselhado, até de noite me inspira interiormente. O Senhor está sempre na minha presença, com Ele a meu lado não vacilarei. Por isso o meu coração se alegra; e a minha alma exulta e até o meu corpo descansa tranquilo".
       A confiança em Alguém que é fiel, sempre foi e sempre será, e que nos garante o futuro, nos garante que sairemos vencedores, assim acolhamos o Seu amor e a Sua vida, permite-nos arriscar e comprometermo-nos com os outros, e apostar na transformação do mundo, com e apesar dos obstáculos, dificuldades e provações do caminho. Ele segue connosco no nosso caminho. Até ao fim.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano A): Atos 2, 14. 22-33; Sl 15 (16); 1 Pedro 1, 17-21; Lc 24, 13-35.

Santa Catarina de Sena, Virgem e Doutora da Igreja

Nota biográfica:
       Nasceu em Sena no ano 1347, numa família muito numerosa. Com 16 anos de idade, impelida por uma visão de São Domingos e movida pelo desejo de perfeição, entrou na Ordem Terceira de São Domingos, no ramo feminino chamado Manteladas. Quando a fama de santidade se espalhou, foi protagonista de uma intensa atividade de conselho espiritual em relação a pessoas de todas as categorias sociais: nobres, artistas, políticos, pessoas do povo, pessoas consagradas. Inflamada no amor de Deus e do próximo, trabalhou incansavelmente pela paz e concórdia entre as cidades, defendeu com ardor os direitos e a liberdade do Romano Pontífice e promoveu a renovação da vida religiosa. Exortou energicamente o papa Gregória XI, que vivia em Avinhão, a regressar a Roma. Incentivou renovação na própria Igreja, para que esta contribuísse para a aproximação entre Estados. Escreveu importantes obras de espiritualidade, cheias de boa doutrina e de inspiração celeste.
       Morreu no ano 1380, em Roma.
      Foi canonizada em 1461.
       Em vida foi testada pela desconfiança de alguns, como muitos santos. Os seus ensinamentos, pela profundidade espiritual, são propostos a toda a Igreja. O Papa Paulo VI, em 1947 declarou-a Doutora da Igreja, título acrescentado ao de Co-Padroeira de Roma, por desejo do Beato Papa Pio IX, e Padroeira de Itália, segundo decisão do Venerável Papa Pio XII. João Paulo II, Beato, viria a declará-la Co-Padroeira da Europa, para que esta não esqueça as suas raízes cristãs.
       Diz dela Bento XVI: "Cristo é para ela como o esposo, com quem está em relação de intimidade, de comunhão e de fidelidade; é o bem-amado acima de qualquer outro bem". Continua Bento XVI, "de Santa Catarina nós aprendemos a ciência mais sublime: conhecer e amar Jesus Cristo e a sua Igreja. No Diálogo da Providência Divina ela, com uma imagem singular, descreve Cristo como uma ponte lançada entre o céu e a terra. Ela é formada por três grandes escadas, constituída pelos pés, pelo lado e pela boca de Jesus. Elevando-se através destas grandes escadas, a alma passa pelas três etapas de casa caminho de santificação: o afastamento do pecado, a prática da virtude e do amor, a união dócil e afetuosa com Deus".

Oração de coleta:
       Deus de misericórdia infinita, que inflamastes Santa Catarina de Sena no amor divino, chamando-a à contemplação da paixão do Senhor e ao serviço da Igreja, fazei que o vosso povo, associado ao mistério de Cristo, se alegre para sempre na manifestação da sua glória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Do «Diálogo da Divina Providência», de Santa Catarina de Sena, virgem

Saboreei e vi

Ó Divindade eterna, ó eterna Trindade, que, pela união com a natureza divina, tanto fizestes valer o Sangue de vosso Filho Unigénito! Vós, Trindade eterna, sois como um mar profundo, no qual quanto mais procuro mais encontro, e quanto mais encontro, mais cresce a sede de Vos procurar. Saciais a alma, mas dum modo insaciável, porque, saciando-se no vosso abismo, a alma permanece sempre faminta e sedenta de Vós, ó Trindade eterna, desejando ver-Vos com a luz da vossa luz.
Saboreei e vi com a luz da inteligência, ilustrada na vossa luz, o vosso abismo insondável, ó Trindade eterna, e a beleza da vossa criatura. Por isso, vendo-me em Vós, vi que sou imagem vossa por aquela inteligência que me é dada como participação do vosso poder, ó Pai eterno, e também da vossa sabedoria, que é apropriada ao vosso Filho Unigénito. E o Espírito Santo, que procede de Vós e do vosso Filho, me deu a vontade com que posso amar-Vos.
Porque Vós, Trindade eterna, sois criador e eu criatura; e conheci – porque Vós mo fizestes compreender quando me criastes de novo no Sangue do vosso Filho – conheci que estais enamorado da beleza da vossa criatura.
Oh abismo, oh Trindade eterna, oh Divindade, oh mar profundo! Que mais me podíeis dar do que dar-Vos a Vós mesmo? Sois um fogo que arde sempre e não se consome. Sois Vós que consumis com o vosso calor todo o amor profundo da alma. Sois um fogo que dissipa toda a frialdade e iluminais as mentes com a vossa luz, aquela luz com que me fizestes conhecer a vossa verdade.
Espelhando-me nesta luz, conheço-Vos como sumo bem, o bem que está acima de todo o bem, o bem feliz, o bem incompreensível, o bem inestimável, a beleza sobre toda a beleza, a sabedoria sobre toda a sabedoria: porque Vós sois a própria sabedoria, o alimento dos Anjos, que com o fogo da caridade Vos destes aos homens.
Sois a veste que cobre toda a minha nudez; e alimentais a nossa fome com a vossa doçura, porque sois doce sem qualquer amargor. Oh Trindade eterna!
BENTO XVI, Santas da Idade Média. Editorial Franciscana. Braga 2010.
Vd. também na Audiência Geral de 24 de novembro de 2010  

sexta-feira, 28 de abril de 2017

VL – Deus da Páscoa. Não é a Cruz que nos mata…

       Não, não é a Cruz que mata Jesus.
       Não, não é a Cruz que nos mata.
       O que mata Jesus é o nosso pecado, o nosso egoísmo, o nosso desamor.
       O que nos mata é a solidão, o colocar-nos como centro ou deixando que os outros nos endeusem. O que nos mata é a preguiça em amar e fazer o bem.
       Mata Jesus a prepotência, a corrupção, a idolatria, a intolerância.
       Morremos, não quando o coração falha ou o cérebro se desliga, mas quando deixamos de amar, quando deixamos de sentir a vida, o apelo dos outros, quando somos indiferentes ao sofrimento e necessidades dos irmãos.
       É na Cruz que Jesus é morto, mas nem a Cruz O impede de nos encontrar. Jesus não dá as costas à Cruz, enfrenta-a, carrega-a, mas não foge. Ressuscitado, traz na Sua carne, na Sua vida, as marcas da crucifixão. Vede as minhas mãos e o meu lado, Sou Eu, não temais. E de forma ainda mais incisiva a Tomé: vê, toca, as minhas chagas, Sou Eu, não é um fantasma ou um espírito.
       Poderíamos dizer, em contraponto, que não é a Cruz que nos salva, mas o amor de Jesus. Somos salvos por uma Cruz, mas não por uma cruz qualquer ou a cruz enquanto instrumento de tortura e de matança, mas por Aquele que leva o amor até às últimas consequências, até ao limite, enfrentando a injúria, os escarros e o escárnio, a flagelação e a morte cruenta na Cruz.
       O cristão não vive sem a Cruz. Sem a Cruz não existe Igreja, não existem cristãos. Mas, em definito, quem nos salva é Jesus que morreu na Cruz. Quem nos salva é Jesus que volta à vida. Não é a cruz mas a ressurreição que ilumina o nosso caminho para Deus. A cruz é memória e promessa. Recorda-nos o imenso amor de Deus por nós manifestado em Jesus Cristo. É promessa que desemboca na Ressurreição. Aquele que vimos esmagado pelo sofrimento, agredido violentamente, obrigado a carregar o travessão da cruz, exausto pelas vergastadas e pela perda de sangue, voltou à vida. Deus Pai, a Quem Se confiou, não O desapontou, ressuscitou-O. Ele vive e está no meio de nós.
       E de volta à vida, com as marcas da Paixão, Jesus carrega a mesma mensagem, enviando-nos: ide e anuncia o Evangelho a toda a criatura, curai os doentes, expulsai os demónios, comunicai a paz e a esperança, testemunhai o amor e a fidelidade de Deus, até ao fim do mundo.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4409, de 25 de abril de 2017

E se eles vêm da parte de Deus?!

       O tempo de Páscoa mostra como um grupo de pessoas - simples, com defeitos e limitações, hesitantes umas vezes, intempestivos outras, ora ignorantes ora ambiciosos, prontos para seguir Jesus e logo fogem com medo dos judeus - fizeram chegar o Evangelho a todo o mundo e ao século XXI, até nós. Com a Ressurreição e as aparições do Ressuscitado tornam-se corajosos, afoitos, sabendo que o Espírito de Deus os ampara e protege, sabendo também que não terão um tratamento mais leve do que teve o Mestre.
        Levantou-se um homem no Sinédrio, um fariseu chamado Gamaliel, doutor da Lei venerado por todo o povo, e mandou sair os Apóstolos por uns momentos. Depois disse: «Israelitas, tende cuidado com o que ides fazer a estes homens. Há tempos, apareceu Teudas, que dizia ser alguém, e seguiram-no cerca de quatrocentos homens. Ele foi liquidado e todos os seus partidários foram destroçados e reduzidos a nada. Depois dele, nos dias do recenseamento, apareceu Judas, o Galileu, que arrastou o povo atrás de si. Também ele pereceu e todos os seus partidários foram dispersos. Agora vou dar-vos um conselho: Não vos metais com estes homens: deixai-os. Porque se esta iniciativa, ou esta obra, vem dos homens, acabará por si mesma. Mas se vem de Deus, não podereis destuí-la e correis o risco de lutar contra Deus». Eles aceitaram o seu conselho. Chamaram de novo os Apóstolos à sua presença e, depois de os terem mandado açoitar, proibiram-nos falar no nome de Jesus e soltaram-nos. Os Apóstolos saíram da presença do Sinédrio cheios de alegria, por terem merecido serem ultrajados por causa do nome de Jesus. E todos os dias, no templo e nas casas, não cessavam de ensinar e anunciar a boa nova de que Jesus era o Messias (Atos 5, 34-42).
     
       Os apóstolos cumprem a missão de anunciar Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado, em todas as ocasiões, no templo, na sinagoga, em casas particulares. Como em relação a Jesus, também em relação aos discípulos cedo se levanta a perseguição por parte das autoridades do Templo, pelos chefes do povo, se bem que surja sempre alguém a professar a fé em Jesus e depois nos apóstolos, ou pelo menos, a usar de tolerância. Nicodemos, um dos chefes dos judeus, aderiu a Jesus. José de Arimateia não se acomodou e deu a cara por Jesus ao emprestar-lhe o túmulo. Hoje, Gamaliel, convida os seus pares a usar de sabedoria, de bom senso: se a obra for humana morrerá por si mesma, como aconteceu em muitas situações no passado, mas se for de Deus não poderá ser destruída e estarão a lutar contra Deus.
       O discernimento de Gamaliel, doutor da Lei, é uma preciosa ajuda diante das dificuldades e das dúvidas e deixa-nos um desafio importante: quando não soubermos o que vem de Deus, o melhor é dar o benefício da dúvida, ou como nos diz Jesus, numa das parábolas, há que deixar crescer juntamente o trigo e o joio, até à hora da ceifa, para que não se destruam os dois com a desculpa de que se procura eliminar o joio...
       Ainda que seguindo as palavras de Gamaliel, as autoridades mandam açoitar os Apóstolos e proíbem-nos de ensinar.
       Por sua vez, os Apóstolos saem da presença das autoridades cheios de alegria por terem dado testemunho de Jesus na adversidade.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Aquele que vem do alto está acima de todos...

       A Páscoa de Jesus reabilita e reúne os discípulos. O medo dá lugar à alegria, a dúvida cede à fé, o temor é assumido pela esperança. As portas e janelas antes fechadas abrem-se para o mundo e os discípulos apregoam Jesus vivo e o Seu Evangelho de compaixão em todos os lugares, ocasiões e oportunidades.
       O livro dos Atos dos Apóstolos, que nos acompanha em todo o tempo de Páscoa, mostra-nos como as primeiras comunidades assumem e testemunham o Evangelho e como os Apóstolos vão alargando o espaço e os mundos a que se dirigem para pregar.
       No Sinédrio, diante do tribunal judeu, no Templo ou na Sinagoga, os Apóstolos garantem que Jesus vive e só a Ele deverão obedecer, ainda que respeitem as autoridades dos judeus, dos gregos ou do romanos, por quem rezem.
       O Querigma, o primeiro anúncio, está bem sintetizado nas Palavras de Pedro e dos Apóstolos, como se pode ver na primeira leitura:
O comandante do templo e os guardas trouxeram os Apóstolos e fizeram-nos comparecer diante do Sinédrio. O sumo sacerdote interpelou-os, dizendo: «Já vos proibimos formalmente de ensinar em nome de Jesus; e vós encheis Jerusalém com a vossa doutrina e quereis fazer recair sobre nós o sangue desse homem». Pedro e os Apóstolos responderam: «Deve obedecer-se antes a Deus que aos homens. O Deus dos nossos pais ressuscitou Jesus, a quem vós destes a morte, suspendendo-O no madeiro. Deus exaltou-O pelo seu poder, como Chefe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e o perdão dos pecados. E nós somos testemunhas destes factos, nós e o Espírito Santo que Deus tem concedido àqueles que Lhe obedecem». Exasperados com esta resposta, decidiram dar-lhes a morte (Atos 5, 27-33).
       O Evangelho continua a trazer-nos o diálogo de Jesus com Nicodemos. A noite do encontro vai dando lugar à luz da fé, do esclarecimento, do testemunho.
       Disse Jesus a Nicodemos: «Aquele que vem do alto está acima de todos; quem é da terra, à terra pertence e da terra fala. Aquele que vem do Céu dá testemunho do que viu e ouviu; mas ninguém recebe o seu testemunho. Quem recebe o seu testemunho confirma que Deus é verdadeiro. De facto, Aquele que Deus enviou diz palavras de Deus, porque Deus dá o Espírito sem medida. O Pai ama o Filho e entregou tudo nas suas mãos. Quem acredita no Filho tem a vida eterna. Quem se recusa a acreditar no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele» (Jo 3, 31-36).
       Ouvíamos ontem no Evangelho Jesus dizer-nos claramente: "Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele". Hoje acentua-se a Mensagem de Jesus: Deus ama-nos, com amor eterno, criou-nos por amor, por amor nos dá o Seu Filho, Jesus Cristo, enviado ao mundo para que a humanidade seja salvo por Seu intermédio. A salvação é dom de Deus. Ele oferece-a de bom grado, gratuitamente. Aliás, dá-nos o melhor de Si mesmo, o Seu Filho Unigénito, que permanece no mundo através do Espírito Santo.
       Cabe-nos acreditar em Jesus, acolher a Sua mensagem de amor e de perdão, viver na/da Sua vida.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Jacinta: Grupo de Jovens de Tabuaço voltou ao Cinema

       No dia 11 de fevereiro, o Grupo de Jovens foi ao Cinema para ver o filme "Silêncio", de Martin Scorsese, baseado no romance, com o mesmo nome, da autoria de Shusaku Endo, católico japonês. Era um contexto que provocava reflexão, sobre a fé, sobre o martírio, sobre o testemunho cristão, sobre a negação da fé, procurando entender as situações de sofrimento e de perseguição.
       No âmbito do Centenário das Aparições, o filme "Jacinta", como outros que estão a sair para o mercado cinematográfico e televisivo, foi uma oportunidade para reunir o Grupo de Jovens numa atividade lúdica, cultural e religiosa, permitindo aprofundar os laços de amizade entre os membros do grupo e simultaneamente refletir sobre a mensagem de Fátima e das Aparições de Nossa Senhora aos Pastorinhos, desta feita a partir da figura mais nova, do seu olhar e da sua fé.
       Assim, no sábado 22 de abril, depois da Festa de São Vicente, partimos em direção a Vila Real para assistirmos a esta produção nacional de grande qualidade, forma séria de divulgar a mensagem e os acontecimentos de Fátima.

Paróquia de Tabuaço: Festa de São Vicente Ferrer 2017

       São Vicente Ferrer nasceu em Valencia, Espanha, em 1350. Entrou para os Dominicanos (Ordem dos Pregadores de São Domingos) com 17 anos. Nesta época, a Igreja Ocidental vivia o grande cisma, com dois Papas, um em Avinhão, na França, e outro em Roma, em Itália.
       Fez a sua profissão religiosa em 1368 e foi ordenado sacerdote em 1374.
       Andou por Espanha, França, Itália, Suíça, Bélgica, Inglaterra e Irlanda e muitas outras regiões, defendendo sempre a unidade da Igreja, o fim das guerras, o arrependimento e a penitência, como forma de esperar o regresso iminente de Cristo. Tornou-se uma das vozes mais respeitadas da Europa. 
       Exortava as pessoas à conversão: a vinda de Jesus Cristo está próxima. Vicente é, para a imaginação popular, “o pregador do fim do mundo”. Muitas vezes era chamado a intervir como árbitro de paz.
       Morreu no dia 5 de abril de 1419, na cidade de Vannes, Bretanha, na França.
       Foi canonizado pelo Papa Calisto III, em 1455.

       Em Tabuaço venera-se desde o séc. XV ou XVI. A povoação formou-se a partir de uma ermida erigida em sua honra, crescendo a partir daí. Não deveria ser muito distante da atual Capela.
A imagem de São Vicente representa-o com o traje dominicano. Na imagem original, teria asas, sendo visíveis dois buracos na parte superior das costas, onde estariam incrustadas as asas que entretanto desapareceram, por ser apelidado de “anjo do apocalipse”. Sentado aos pés, a judia que ele ressuscitou e que se converteu ao cristianismo.

       A 5 de abril celebra-se a memória litúrgica de São Vicente Ferrer. Tal como no ano anterior, também em 2017 a festa foi dividida por dois momentos, dois dias. No dia 5, a celebração da Santa Missa na Capela. No dia 22, sábado seguinte à Páscoa, Festa mais popular, com Procissão da Capela para a Igreja, celebração da Santa Missa, com as crianças e adolescentes da catequese, regresso da Procissão e da imagem de São Vicente sua capela. Havendo, depois, lugar para o convívio, com jantar e um grupo musical.

       Algumas fotos dos dois dias de festa:

Para as outras fotos disponíveis visitar a Paróquia de Tabuaço no Facebook.

Paróquia de Tabuaço: Semana Santa 2017

       A vivência da Semana Santa, a Maior da liturgia da Igreja, na medida em que se comemora, se celebra, se atualiza o mistério maior da fé cristã, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, tem uma importância significativa nas diferentes comunidades paroquiais e religiosas. A Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Tabuaço não é exceção, procurando, de ano para ano, envolver toda a comunidade, com a preciosa generosidades dos grupos paroquiais, disponibilizando tempo, recursos e boa vontade.


       A Semana Santa inicia com o Domingo de Ramos na Paixão do Senhor, este ano a 9 de abril. Pela manhã a bênção de Ramos na Capela de Santa Bárbara, prosseguindo em Procissão para a Igreja Matriz, onde se celebrou a Eucaristia, com a Leitura da Paixão do Senhor. À noite, pelas 21h00, no Adro da Igreja Matriz, a Via-Sacra paroquial, com preponderante participação e empenho da catequese, crianças e catequistas, e com o Grupo de Jovens, envolvendo diretamente o Grupo Coral e dos membros do Conselho Económico na logística e no som.
       O segundo momento importante e que vem a ser tradição, o Dia do Perdão, Dia da Adoração do Santíssimo Sacramento, solenemente exposto, assegurada pelos diversos grupos eclesiais e pela comunidade no seu conjunto. Com a Adoração do Santíssimo (em reserva na Capela de Santa Bárbara) durante o dia de sexta-feira, vivem-se aproximadamente as "24 Horas para o Senhor", iniciativa proposta pelo Papa Francisco e aqui transferida para o dia das Confissões comunitárias e para a sexta-feira santa.
       Chegámos ao Tríduo Pascal, com a celebração da Ceia do Senhor, em quinta-feira santa, comemorando a Instituição da Eucaristia e com a cerimónia do Lava-pés. No final, a trasladação do Santíssimo Sacramento para a Capela de Santa Bárbara.
       Na sexta-feira santa, a Adoração da Santa Cruz, com a Liturgia da Palavra em que se proclama o Evangelho da Paixão segundo São João. No final da celebração, e como em anos anteriores, a Procissão do Senhor Morto para a Capela de Santa Bárbara.
       O sábado Aleluia é o tempo de preparar a Igreja, os corações e a vida, a comunidade para a celebração festiva da Páscoa. A Vigília Pascal é um momento único de celebração, de fé e de devoção, com os diferentes momentos, a bênção do Lume Novo, a Liturgia da Palavra percorrendo toda a História da Salvação, a bênção da Água batismal, com o cantar das Ladainhas dos Santos, a Liturgia Eucaristia.
       O Domingo de Páscoa inicia cedo, pelas 8h00. Contando com uma vintena de pessoas, diretamente envolvidas, 4 gírios percorreram a Vila/Paróquia para anunciar de casa em casa a alegria da Ressurreição. A Visita Pascal conclui com a celebração da Missa solene de Páscoa e com a Procissão da Ressurreição.
       Algumas imagens das diferentes celebrações:
Para as outras fotos disponíveis, visite a Paróquia de Tabuaço no Facebook.