sábado, 30 de abril de 2016

Se Me perseguiram a Mim, também a vós...

Tem-nos feito companhia o Evangelho de João e as palavras de Jesus confiadas aos seus discípulos, de uma forma mais intimista, como Alguém que está de partida e quer deixar uma mensagem que congregue os que ficam.
Disse Jesus aos seus discípulos: «Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro Me odiou a Mim. Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu. Mas porque não sois do mundo, pois a minha escolha vos separou do mundo, é por isso que o mundo vos odeia. Lembrai-vos das palavras que Eu vos disse: ‘O servo não é mais do que o seu senhor’. Se Me perseguiram a Mim, também vos perseguirão a vós. Se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. Mas tudo isto vos farão por causa do meu nome, porque não conhecem Aquele que Me enviou» (Jo 15, 18-21).

        O Testamento  (entenda-se por Testamento, testemunho, aliança, ou mesmo herança) de Jesus é a Sua Vida, sobretudo com o mistério da Sua paixão redentora. Ele dá a vida. Atesta a fidelidade de Deus para com a humanidade. Cumpre a promessa divina de nunca desistir do ser humano. Sela a Aliança, com a humanidade inteira, com o Seu sangue, com a Sua vida, e não com sacrifícios de animais.
       É neste sentido que os discípulos orientarão as suas vidas. A vida do Mestre é exemplo. Como Ele faz assim devem fazer os discípulos. O tratamento a que foi sujeito, também os discípulos o serão. O discípulo não é maior do que o Mestre. Neste ponto Jesus não tem nada de político ou diplomático, não negoceia com os discípulos, não os ilude, não suaviza as dificuldades que virão, não esconde o futuro. Há indícios claros do que está para acontecer com Ele e, consequentemente, o que sucederá também aos Seus discípulos. Jesus diz-lhes claramente.
       Importa perseverar até ao fim, para que o TESTAMENTO de Jesus seja também o nosso testamento, uns para com os outros e para com o mundo, neste tempo e no lugar em que nos encontramos.

       Por outro lado, o livro dos Atos dos Apóstolos, lido aos e nos dias da semana, em tempo de Páscoa, mostra-nos a Igreja que se forma, se edifica, se expande, partindo da oração, invocando a presença do Espírito Santo, deixando-se guiar por Deus e procurando responder a cada nova situação, com delicadeza e tolerância, tudo para que Cristo ocupe o centro.
Paulo chegou a Derbe e depois a Listra. Havia lá um discípulo chamado Timóteo, filho de uma judia crente e de pai grego. Os irmãos de Listra e de Icónio davam dele bom testemunho. Querendo Paulo levá-lo consigo, mandou-o circuncidar, por causa dos judeus que havia na região, pois todos sabiam que seu pai era grego. Nas cidades por onde passavam, transmitiam as decisões dos Apóstolos e anciãos de Jerusalém, recomendando que se cumprissem. Desse modo as Igrejas eram confirmadas na fé e cresciam em número, de dia para dia. Como o Espírito Santo os tinha impedido de anunciarem a palavra de Deus na Ásia, atravessaram a Frígia e o território da Galácia. Quando chegaram à fronteira da Mísia, tentaram dirigir-se à Bítínia, mas o Espírito de Jesus não lho permitiu. Atravessaram então a Mísia e desceram a Tróade. Durante a noite, Paulo teve uma visão: Um macedónio estava de pé diante dele e fazia-lhe este pedido: «Passa à Macedónia e vem ajudar-nos». Logo que ele teve esta visão, procurámos partir para a Macedónia, convencidos de que Deus nos chamava para anunciar ali o Evangelho (Atos 16, 1-10).
       Há algumas tradições judaicas que são cumpridas não por que sejam necessárias, mas para não provocar animosidades desnecessárias. O importante é Jesus Cristo e o Seu evangelho. As comunidades vão perseverando e aumentando o número dos cristãos. Quem guia a Igreja, como conclui o autor sagrado, é o Espírito de Cristo. 

sexta-feira, 29 de abril de 2016

6.º Domingo da Páscoa - ano C - 1 de maio de 2016

       1 – "Um Anjo… mostrou-me a cidade santa de Jerusalém, que descia do Céu, da presença de Deus, resplandecente da glória de Deus. O seu esplendor era como o de uma pedra preciosíssima, como uma pedra de jaspe cristalino... Na cidade não vi nenhum templo, porque o seu templo é o Senhor Deus omnipotente e o Cordeiro. A cidade não precisa da luz do sol nem da lua, porque a glória de Deus a ilumina e a sua lâmpada é o Cordeiro".
       A visão de São João, no Apocalipse, faz-nos ver os novos céus e a nova terra, que se constroem com e à volta de Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e nos salva. Tempo de graça e de salvação. No meio das intempéries e das trevas, há uma nova Luz que irradia e inunda toda a escuridão convertendo-a em claridade e esplendor. Do Céu desce a nova Jerusalém, a cidade do altíssimo, cidade santa, adornada de glória e majestade. Os Apóstolos têm aí gravados os seus nomes. É também aí que gravaremos os nossos nomes, como discípulos missionários.
       Na cidade não existe Templo! As nossas cidades, vilas e aldeias nasceram e cresceram à volta do templo, da Igreja, lugar de encontro e de festa, lugar de oração e de luto, lugar de acolhimento e de despedida. Hoje há cidades sem esta luz e esta centralidade. Ou pelo menos, o centro está deslocado para outros loteamentos. À volta da Igreja as casas estão vazias e a própria Igreja se esvazia, não tanto pelo afastamento geográfico, mas pelo esvaziamento espiritual, pela indiferença, pelas milhentas preocupações que a vida atual coloca.
       A garantia de São João é um desafio. Esta cidade não precisa nem luz do sol nem da lua, é alumiada por Deus, pela Sua Glória. A lâmpada permanentemente acesa é o Cordeiro, Filho Bem-amado do Pai. Os verdadeiros adoradores hão adorar a Deus em espírito e verdade. Não importa tanto o espaço mas a autenticidade, a relação com Deus, a ligação aos outros, ainda que os espaços criem oportunidades para o encontro, para a celebração, multiplicando a Luz que vem de Deus. A luz da minha fé ao juntar-se à do outro torna mais forte a luz e a fé, elevando-nos para Deus.
       2 – Aí está (de novo) o olhar de Jesus. Terno. Apaixonado. Envolvente. Desafiador. Próximo. Profundo. Familiar. Com uma suavidade e docilidade que não escondem a gravidade do momento. O olhar e a vida. O sorriso e o coração. Num ambiente recatado, simples, descontraído, mas sem perder a solenidade do momento e das palavras, e dos gestos. Depois de lavar os pés aos seus discípulos, durante a Ceia, Jesus é tocado por um misto de alegria, festa, apaziguamento e de ansiedade, receio, tristeza. Vai partir. O cálice da alegria, pela proximidade com os seus, é também o cálice das lágrimas, pois logo dará a vida por eles e por nós.
       Se o tempo é breve, urge relembrar-lhes o essencial da Sua mensagem e da Sua vida. Em jeito de confidência, mas com firmeza e confiança. As trevas aproximam-se. Antes de acontecer, Jesus previne e antecipa. Quando chegar a hora que, pelo menos, não sejam surpreendidos em absoluto. Do rosto de Jesus irradia luz que atravessa as trevas mais densas. A separação é sempre dolorosa, muito mais quando é definitiva. Saber que Ele estará presente, ainda que de forma diferente, é um lenitivo para a Sua ausência (física).
       Escutai, pois, com atenção: «Quem Me ama guardará a minha palavra e meu Pai o amará; Nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada. Quem Me não ama não guarda a minha palavra. Disse-vos estas coisas, estando ainda convosco. Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que Eu vos disse. Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração. Vou partir, mas voltarei para junto de vós. Disse-vo-lo agora, antes de acontecer, para que, quando acontecer, acrediteis».
       Com a mensagem que nos agrafa a Jesus – se, como Ele, nos amarmos uns aos outros, e se O amarmos de todo o coração –, vem a Sua paz, garantia que seremos a Sua morada para sempre.
       3 – Vivemos o Jubileu da Misericórdia, Ano Santo, que acentua o amor misericordioso, compassivo, que brota das entranhas maternas, espontâneo, umbilical. A misericórdia de Deus é visível e concretizável em Jesus, no Seu jeito de amar, de Se aproximar, de Se compadecer.
       Neste Dia da Mãe torna-se ainda mais plástico este amor umbilical, entranhado, quase biológico. Não há amor como o de Mãe, tão profundo e natural, tão genuíno. Não há nada mais forte, mais íntimo que o amor da Mãe pelo filho. É um amor que concilia e apazigua.
       Na Cruz, sabendo deste amor que permanece e nos faz querer permanecer na casa materna, ou que em nossa casa habite o amor da Mãe, amor que ultrapassa todas as barreias, até a da morte, Jesus dá-nos Maria por Mãe, para permanecer junto de nós e nos embalar, para nos lembrar do amor que Deus nos tem, unindo-nos como família e desafiando-nos a permanecermos de tal forma no amor de Deus que possamos guardar a Sua Palavra, vivendo como irmãos.
       4 – O Espírito Santo, que Jesus envia de junto do Pai, reconduzir-nos-á à verdade plena, recordando-nos as palavras de Jesus enquanto fisicamente entre nós. É uma inspiração mediada pela oração pessoal, mas sobretudo pela oração e reflexão em comunidade, onde Se acolhe a Palavra de Deus, se assimila e se expande. A Igreja é, com os seus, membros, discípula missionária. Faz-se aprendiz, para logo transparecer o que apreendeu.
        Paulo e Barnabé prosseguem na missão de evangelizar, solidificando a fé e o compromisso de constituir comunidades que sejam famílias, cujas pessoas vivam harmoniosamente, entreajudando-se solidariamente. Por vezes a prática é ensombrada pelas leis. Não que estas não sejam necessárias em todas as realidades sociais, mas de preferência que não roubem espaço à Lei do Amor, que pleniza, simplifica e clarifica todas as leis, ao serviço do bem comum, especialmente dos mais desfavorecidos.
       A comunidade de Antioquia experimenta as dificuldades de crescimento, com sensibilidades diferentes. Alguns homens, oriundos da Judeia ensinam que os seguidores de Jesus Cristo, vindos do paganismo, têm de igualmente seguir a Lei de Moisés e ser circuncidados. Paulo e Barnabé têm um entendimento bem diferente, o que gera acesa discussão na comunidade.
       A comunidade não exclui, mas procura uma resposta que conduza a Jesus e ao Seu Evangelho e, por conseguinte, envia Paulo e Barnabé e alguns anciãos idóneos à comunidade-mãe, a Jerusalém. A comunidade de Jerusalém, presidida por Tiago, reúne os apóstolos e os anciãos e responde: «Tendo sabido que, sem a nossa autorização, alguns dos nossos vos foram inquietar, perturbando as vossas almas com as suas palavras, resolvemos, de comum acordo, escolher delegados para vo-los enviarmos, juntamente com os nossos queridos Barnabé e Paulo, homens que expuseram a sua vida pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso vos mandamos Judas e Silas, que vos transmitirão de viva voz as nossas decisões. O Espírito Santo e nós decidimos não vos impor mais nenhuma obrigação, além destas que são indispensáveis: abster-vos da carne imolada aos ídolos, do sangue, das carnes sufocadas e das relações imorais. Procedereis bem, evitando tudo isso. Adeus».
       5 – A reflexão da Igreja de Jerusalém debruça-se sobre aspetos práticos e concretos. É dessa forma que se vive e se prova a fé em Jesus Cristo, na vida quotidiana e no compromisso com os irmãos. O essencial está contido no Evangelho, nas palavras e nos gestos de Jesus. Porém, como os tempos são distintos, também as respostas terão que ser novas, criativas, fiéis à postura de Jesus: acolhimento, perdão, serviço, caridade, respeito, diálogo, docilidade, confiança em Deus, opção preferencial pelos pobres. Também aqui a importância do papel conciliador da Mãe!
       A Palavra de Deus não é um receituário onde se encontrem respostas as todas as questões, mas é clarificadora a apontar um caminho, o de Jesus, e do Seu projeto de vida nova, vivida na intimidade com o Pai, na cumplicidade do Espírito Santo. Diante de uma dificuldade, a primeira decisão há de ser a da oração, procurando, depois, pelo diálogo, pela meditação, encontrar a resposta que, em Igreja e com espírito eclesial, melhor se aproxima de Jesus, sob a ambiência da misericórdia e da compaixão.
       "Concedei-nos, Deus omnipotente, a graça de viver dignamente estes dias de alegria em honra de Cristo ressuscitado, de modo que a nossa vida corresponda sempre aos mistérios que celebramos". À oração de súplica, façamos corresponder os nossos propósitos, na certeza humilde que a salvação não nos vem pelos méritos da perfeição, mas pela graça e misericórdia de Deus, que nos chama à vida, nos prepara e nos ambienta para respondermos positivamente aos desafios da existência. "Deus Se compadeça de nós e nos dê a sua bênção, / resplandeça sobre nós a luz do seu rosto".
       Não precisamos de outra luz que não seja a de Jesus, mais brilhante que o sol!

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano C): Atos 15, 1-2. 22-29; Sl 66 (67); Ap 21, 10-14. 22-23; Jo 14, 23-29.

Santa Catarina de Sena, Virgem e Doutora da Igreja

Nota biográfica:
       Nasceu em Sena no ano 1347, numa família muito numerosa. Com 16 anos de idade, impelida por uma visão de São Domingos e movida pelo desejo de perfeição, entrou na Ordem Terceira de São Domingos, no ramo feminino chamado Manteladas. Quando a fama de santidade se espalhou, foi protagonista de uma intensa atividade de conselho espiritual em relação a pessoas de todas as categorias sociais: nobres, artistas, políticos, pessoas do povo, pessoas consagradas. Inflamada no amor de Deus e do próximo, trabalhou incansavelmente pela paz e concórdia entre as cidades, defendeu com ardor os direitos e a liberdade do Romano Pontífice e promoveu a renovação da vida religiosa. Exortou energicamente o papa Gregória XI, que vivia em Avinhão, a regressar a Roma. Incentivou renovação na própria Igreja, para que esta contribuísse para a aproximação entre Estados. Escreveu importantes obras de espiritualidade, cheias de boa doutrina e de inspiração celeste.
       Morreu no ano 1380, em Roma.
      Foi canonizada em 1461.
       Em vida foi testada pela desconfiança de alguns, como muitos santos. Os seus ensinamentos, pela profundidade espiritual, são propostos a toda a Igreja. O Papa Paulo VI, em 1947 declarou-a Doutora da Igreja, título acrescentado ao de Co-Padroeira de Roma, por desejo do Beato Papa Pio IX, e Padroeira de Itália, segundo decisão do Venerável Papa Pio XII. João Paulo II, Beato, viria a declará-la Co-Padroeira da Europa, para que esta não esqueça as suas raízes cristãs.
       Diz dela Bento XVI: "Cristo é para ela como o esposo, com quem está em relação de intimidade, de comunhão e de fidelidade; é o bem-amado acima de qualquer outro bem". Continua Bento XVI, "de Santa Catarina nós aprendemos a ciência mais sublime: conhecer e amar Jesus Cristo e a sua Igreja. No Diálogo da Providência Divina ela, com uma imagem singular, descreve Cristo como uma ponte lançada entre o céu e a terra. Ela é formada por três grandes escadas, constituída pelos pés, pelo lado e pela boca de Jesus. Elevando-se através destas grandes escadas, a alma passa pelas três etapas de casa caminho de santificação: o afastamento do pecado, a prática da virtude e do amor, a união dócil e afetuosa com Deus".

Oração de coleta:
       Deus de misericórdia infinita, que inflamastes Santa Catarina de Sena no amor divino, chamando-a à contemplação da paixão do Senhor e ao serviço da Igreja, fazei que o vosso povo, associado ao mistério de Cristo, se alegre para sempre na manifestação da sua glória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Do «Diálogo da Divina Providência», de Santa Catarina de Sena, virgem

Saboreei e vi

Ó Divindade eterna, ó eterna Trindade, que, pela união com a natureza divina, tanto fizestes valer o Sangue de vosso Filho Unigénito! Vós, Trindade eterna, sois como um mar profundo, no qual quanto mais procuro mais encontro, e quanto mais encontro, mais cresce a sede de Vos procurar. Saciais a alma, mas dum modo insaciável, porque, saciando-se no vosso abismo, a alma permanece sempre faminta e sedenta de Vós, ó Trindade eterna, desejando ver-Vos com a luz da vossa luz.
Saboreei e vi com a luz da inteligência, ilustrada na vossa luz, o vosso abismo insondável, ó Trindade eterna, e a beleza da vossa criatura. Por isso, vendo-me em Vós, vi que sou imagem vossa por aquela inteligência que me é dada como participação do vosso poder, ó Pai eterno, e também da vossa sabedoria, que é apropriada ao vosso Filho Unigénito. E o Espírito Santo, que procede de Vós e do vosso Filho, me deu a vontade com que posso amar-Vos.
Porque Vós, Trindade eterna, sois criador e eu criatura; e conheci – porque Vós mo fizestes compreender quando me criastes de novo no Sangue do vosso Filho – conheci que estais enamorado da beleza da vossa criatura.
Oh abismo, oh Trindade eterna, oh Divindade, oh mar profundo! Que mais me podíeis dar do que dar-Vos a Vós mesmo? Sois um fogo que arde sempre e não se consome. Sois Vós que consumis com o vosso calor todo o amor profundo da alma. Sois um fogo que dissipa toda a frialdade e iluminais as mentes com a vossa luz, aquela luz com que me fizestes conhecer a vossa verdade.
Espelhando-me nesta luz, conheço-Vos como sumo bem, o bem que está acima de todo o bem, o bem feliz, o bem incompreensível, o bem inestimável, a beleza sobre toda a beleza, a sabedoria sobre toda a sabedoria: porque Vós sois a própria sabedoria, o alimento dos Anjos, que com o fogo da caridade Vos destes aos homens.
Sois a veste que cobre toda a minha nudez; e alimentais a nossa fome com a vossa doçura, porque sois doce sem qualquer amargor. Oh Trindade eterna!
BENTO XVI, Santas da Idade Média. Editorial Franciscana. Braga 2010.
Vd. também na Audiência Geral de 24 de novembro de 2010  

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Permanecei no meu amor


       A expansão do Evangelho encontra, aqui e além, externa e internamente, algumas dificuldades. Paulo e Barnabé sobem a Jerusalém para se encontrarem com a comunidade original, com o grupo dos Apóstolos e com os Anciãos. A polémica incide sobre se os cristãos vindos do paganismo têm de cumprir as prescrições judaicas, se têm de manter as tradições próprias da Lei mosaica. Segundo os cristãos vindos do judaísmo, os cristãos vindos do paganismo têm de ser circuncidados e cumprir com outros requisitos judaicos. Depois de refletirem em comunidade, inspirados pelo Espírito Santo, os Apóstolos, em comunidade, respondem.
       Por aqui se vê como a comunidade é também um espaço de reflexão, de diálogo, de oração, de compreensão. Vê-se também a estrutura hierárquica. Tiago, o Bispo de Jerusalém, tem a última palavra sobre o assunto.
       O essencial não são as tradições mas a fidelidade a Jesus Cristo. Em todo o caso há algumas recomendações para que não haja confusão com a idolatria e para apaziguar a relação entre todos os cristãos.
Pedro: «Irmãos, vós sabeis que, desde os primeiros dias, Deus me escolheu do meio de vós, para que os gentios ouvissem da minha boca a palavra do Evangelho e abraçassem a fé. Deus, que conhece os corações, deu testemunho a favor deles, ao conceder-lhes o Espírito Santo como a nós; não fez qualquer distinção entre nós e eles, porque purificou os seus corações pela fé... toda a assembleia ficou em silêncio e começou a ouvir Barnabé e Paulo descrever os milagres e prodígios que Deus realizara por seu intermédio entre os gentios. Quando eles acabaram de falar, Tiago tomou a palavra e disse: «Irmãos, escutai-me. Simão contou como Deus, ao princípio, Se dignou intervir, para formar de entre os gentios um povo consagrado ao seu nome. Isto concorda com as palavras dos Profetas, como está escrito: ‘Depois disto, virei para reconstruir a tenda de David, que estava caída; reconstruirei as suas ruínas e erguê-las-ei de novo, para que o resto dos homens procurem o Senhor, com todas as nações consagradas ao meu nome. Assim fala o Senhor, que desde sempre dá a conhecer estas coisas’. Por isso, sou de opinião de que não se devem importunar os gentios convertidos a Deus. Digam-lhes apenas que se abstenham de tudo o que foi contaminado pela idolatria, das relações imorais, das carnes sufocadas e do sangue. Desde os tempos antigos, Moisés tem em cada cidade os seus pregadores e é lido todos os sábados nas sinagogas» (Atos 15, 7-21).
       No Evangelho encontramos a resposta dada pela comunidade de Jerusalém. Jesus diz o que é essencial para os Seus seguidores: amar como Ele nos amou. Deus é fonte de todo o amor. Deus ama o Filho. O Filho, Jesus Cristo, ama-nos com o mesmo amor que recebeu do Pai. O cristão, seguidor de Cristo, deverá amar do mesmo jeito. Dessa forma saberemos que permanecemos em Deus. Amar como Jesus, leva-nos a cumprir as Suas palavras. A finalidade: para que a Sua alegria esteja em nós.

«Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa» (Jo 15, 9-11).

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Eu sou a videira, vós sois os ramos

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Eu sou a verdadeira vide e meu Pai é o agricultor. Ele corta todo o ramo que está em Mim e não dá fruto e limpa todo aquele que dá fruto, para que dê ainda mais fruto. Vós já estais limpos, por causa da palavra que vos anunciei. Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim. Eu sou a videira, vós sois os ramos. Se alguém permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer. Se alguém não permanece em Mim, será lançado fora, como o ramo, e secará. Esses ramos, apanham-nos, lançam-nos ao fogo e eles ardem. Se permanecerdes em Mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e ser-vos-á concedido. A glória de meu Pai é que deis muito fruto. Então vos tornareis meus discípulos» (Jo 15, 1-8)

      A comparação/imagem utilizada por Jesus para é extraordinária. Obviamente, que os ramos separados da videira não produzem. Não produzem. Secam. Morrem. Ao invés, todo o ramo que estiver unido à videira dará fruto. Ainda assim, precisa de cuidados. Que o digam as pessoas que têm vinhas ao seu encargo. A cada tempo é necessário aparar, endireitar, limpar as folhas a mais, podar. Se o ramo crescer sem cuidados, por si só acabará por não produzir em qualidade. Por exemplo, se a folhagem for demasiada, as uvas não amadurecerão, pois não terão o sol suficiente. Como diz Jesus, como ramos da videira, temos de cuidar para darmos fruto.
       Como é que podemos ser preparados? Como é que podemos saber que estamos ligados à videira que é Cristo? Responde-nos Jesus: permanecendo n'Ele no cumprimento da Sua palavra. E assim daremos fruto em abundância.

       Nos Atos dos Apóstolos, temos vindo a acompanhar as primeiras comunidades crentes, com a pregação dos apóstolos, com a formação de novas comunidades, com o confronto entre sensibilidades distintas, pois distintas são as pessoas e os locais em que vivem.
       Grande impulso missionário da Igreja primitiva, mas onde não faltam dissenções, discussões, ruturas, conflitos, perseguição, ameaças.
Alguns homens que desceram da Judeia começaram a ensinar aos irmãos de Antioquia: «Se não receberdes a circuncisão, segundo a lei de Moisés, não podereis salvar-vos». Isto provocou um conflito e uma discussão intensa que Paulo e Barnabé tiveram com eles. Então decidiram que Paulo e Barnabé e mais alguns discípulos subissem a Jerusalém para tratarem desta questão com os Apóstolos e os anciãos. Despedidos afavelmente pela Igreja, atravessaram a Fenícia e a Samaria, onde narravam a conversão dos gentios, causando grande contentamento a todos os irmãos. Ao chegarem a Jerusalém, foram recebidos pela Igreja, pelos Apóstolos e pelos anciãos, e contaram tudo o que Deus tinha feito por seu intermédio. Ergueram-se alguns homens do partido dos fariseus que tinham abraçado a fé, para dizerem que era preciso circuncidar os gentios e impor-lhes a observância da Lei de Moisés. Então os Apóstolos e os anciãos reuniram-se para examinar o assunto (Atos 15, 1-6)
As dificuldades não vêm somente do exterior, vêm do interior da própria Igreja, É preciso que a comunidade se reúna, reze, e procure a inspiração do Espírito Santo, para melhor traduzir a vontade de Jesus Cristo e o Mandamento do Amor.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Sessão da Escola da Fé com o Pe. Tiago Cardoso

       No dia 22 de abril, sexta-feira, como habitualmente no Centro Paroquial de Tabuaço, mais uma sessão da Escola da Fé, que neste ano pastoral se centram nas Obras de Misericórdia, procurando que em cada sessão se reflita numa obra de misericórdia corporal e numa obra de misericórdia espiritual.
       Em novembro: sepultar os mortos e rezar a Deus pelos vivos e pelos defuntos, com o Pe. Diamantino Alvaíde; em janeiro: Dar de comer a quem tem fome e ensinar os ignorantes, com o Pe. Jorge Giroto; desta feita: Vestir os nus e consolar os tristes, com o Pe. Tiago Cardoso.
Algumas fotos desta jornada de oração, reflexão, convívio:

Para outras fotos, visitar a página da Paróquia de Tabuaço no Facebook.

Tabuaço - Confraternização dos grupos paroquiais

       No dia 16 de abril, ao fim da tarde, no Centro Paroquial de Tabuaço, encontro, convívio e confraternização das pessoas mais envolvidas nas atividades da paróquia, membros dos vários grupos paroquiais, conselho económico, catequistas, grupo coral, acólitos, GJT, leitores, participantes nas celebrações da Semana Santa e na Visita Pascal.
       Um momento diferente mas que ajuda a estreitar laços de amizade, fortalecendo também o compromisso com a comunidade paroquial.
       Algumas fotos deste dia:

Outras na página da Paróquia de Tabuaço no Facebook.

Deixo-vos a minha paz, dou-vos a minha paz...

       Paulo e Barnabé continuam em grande atividade missionária. Passam de uma a outra terra anunciando o Evangelho de Jesus Cristo, testemunhando-O com palavras mas também com gestos. Simultaneamente as dificuldades e as provações. Ora perseguidos, ora apedrejados, ora expulsos da cidade. O importante é perseverar em nome de Jesus Cristo, na certeza que Ele nos conduz à vida nova do Reino de Deus, não apenas no futuro mas desde já. O encontro com Jesus ressuscitado provoca alegria e conduz ao testemunho firme. A fé, como o amor, quanto mais se partilha mais se aprofunda, se esclarece, amadurece. Um fé fechada, triste, vivida no isolamento, é uma fé condenada a morrer. A fé em Jesus Cristo leva ao encontro dos outros, transbordando em alegria o testemunho do encontro com o Mestre dos Mestres. Desde a conversão, São Paulo nunca mais cessou de testemunhar Jesus Cristo, independentemente das condições serem ou não favoráveis.

     "Chegaram uns judeus de Antioquia e de Icónio, que aliciaram a multidão, apedrejaram Paulo e arrastaram-no para fora da cidade, dando-o por morto. Mas, tendo-se reunido os discípulos à sua volta, ele ergueu-se e entrou na cidade. No dia seguinte, partiu com Barnabé para Derbe. Depois de terem anunciado a boa nova a esta cidade e de terem feito numerosos discípulos, Paulo e Barnabé voltaram a Listra, a Icónio e a Antioquia. Iam fortalecendo as almas dos discípulos e exortavam-nos a permanecerem firmes na fé, «porque – diziam eles – temos de sofrer muitas tribulações para entrarmos no reino de Deus». Estabeleceram anciãos em cada Igreja, depois de terem feito orações acompanhadas de jejum, e encomendaram-nos ao Senhor em quem tinham acreditado. Atravessaram então a Pisídia e chegaram à Panfília. Depois anunciaram a palavra em Perga e desceram até Atalia. De lá navegaram para Antioquia, de onde tinham partido, confiados na graça de Deus, para a obra que acabavam de realizar. À chegada, convocaram a Igreja, contaram tudo o que Deus fizera com eles e como abrira aos gentios a porta da fé. Demoraram-se ali bastante tempo com os discípulos" (Atos 14, 19-28).
       No Evangelho, as palavras de Jesus preparam-nos para o tempo em que Ele não estará nem Se fará sentir fisicamente:
Disse Jesus aos seus discípulos:
«Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como a dá o mundo. Não se perturbe nem intimide o vosso coração. Ouvistes que Eu vos disse: Vou partir, mas voltarei para junto de vós. Se Me amásseis, ficaríeis contentes por Eu ir para o Pai, porque o Pai é maior do que Eu. Disse-vo-lo agora, antes de acontecer, para que, quando acontecer, acrediteis. Já não falarei muito convosco, porque vai chegar o príncipe deste mundo. Ele nada pode contra Mim, mas é para que o mundo saiba que amo o Pai e faço como o Pai Me ordenou» (Jo 14, 27-31a).

       A paz, como muitas vezes se refere, não é apenas, ou não há de ser apenas, a ausência de guerra, ainda que seja um objectivo. A paz brota do interior, de um coração em paz consigo, com os outros, com o mundo, em Deus. É esta a paz que Jesus vem trazer, uma paz comprometida com o outro, com a transformação do mundo. Um paz que se funda na caridade, que brota do amor, que conduz a Deus.
       Neste sentido, paz não é mero deixar andar (“Laissez faire, laissez passer, lê monde va de lui même”- em tradução livre: deixa fazer, deixa passar, o mundo avança de qualquer jeito). A paz que Jesus nos dá é pro-ativa, exige de nós, compromete-nos, leva-nos à ação, a procurar o bem, a justiça, a verdade. Brota do amor. E o amor traduz-se em gestos concretos, em compromissos efetivos. Não precisamos de transformar o mundo inteiro, precisamos de harmonizar a nossa vida, com o amor de Deus, fazendo com que as nossas palavras e obras revelem alegria, esperança, amor, perdão, vida nova.

sábado, 23 de abril de 2016

5.º Domingo da Páscoa - ano C - 24 de abril de 2016

       1 – «Meus filhos, é por pouco tempo que ainda estou convosco. Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros».
       Durante a Última Ceia, Jesus fala-lhes do tempo em que não estará materialmente entre eles, deixando-lhes a síntese e o essencial da Sua mensagem. Para serem Seus discípulos, e reconhecidos como tal, terão de se amar uns aos outros como Ele os amou. É a única condição. Para eles e para nós, discípulos do mundo atual.
       2 – Um Pai, vendo aproximar-se a hora da morte, chamou os seus 10 filhos para lhes revelar os últimos desejos. Todos os filhos vieram para junto do seu leito. Pediu que cada um pegasse num vime, a começar pelo mais novo, e o partisse. Um a um, todos partiram facilmente o vime que lhe calhou em sorte. Depois pediu ao filho mais velho que pegasse em 10 vimes, os juntasse e os partisse ao meio. Tentou uma e outra vez, mas não conseguiu. Pediu que os outros filhos tentassem, mas nenhum obteve melhor resultado. Perguntou-lhes que lição a tirar desta experiência. Uma única conclusão: juntos é possível enfrentar os maiores obstáculos. A união faz a força!
       Quando um pai vai para longe, durante um certo período de tempo, chama os filhos e pede-lhes para se portarem bem e ajudarem nas tarefas de casa, para fazer os trabalhos da escola, para ajudarem a mãe. Ao mais velho pedir-lhe-á para ajudar a mãe a tomar conta dos irmãos e da casa.
       Quando alguém está para morrer, e sabe disso, chama os que que são mais próximos e manifesta-lhes o que ainda gostava de fazer e quais as suas últimas vontades. Quem lhe quer bem, tudo fará para concretizar os seus pedidos. Outra forma de o fazer é através do testamento, como partilha dos seus bens mas também de projetos que gostaria de ver realizados. Por exemplo, os Papas Paulo VI ou João Paulo II deixaram testamentos sobre alguns os poucos bens materiais e sobretudo os seus escritos, mensagens, o que gostariam que permanecesse do Seu ministério.
        O Testamento de Jesus é este: Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.
       3 – O que diz no final, Jesus viveu-o, amadureceu-o, experimentou-o ao longo de toda a sua vida. A família de Nazaré, como tantas famílias naquele tempo e naquela região, passou por diferentes situações que, por certo, ajudaram a amadurecer a união e a entreajuda, o acolhimento dos estrangeiros e a delicadeza para com os vizinhos. Durante algum tempo, Maria e José, e o Menino Jesus, refugiaram-se no Egito, regressando a Nazaré. Uma cidade-aldeia em que todos são vizinhos, e talvez todos com laços de sangue, e se auxiliam para sobreviver e enfrentar as dificuldades.
       Intuímos, facilmente, uma vida honrada, simples, com poucas coisas, de trabalho e muitas vezes de sacrifício. Vive-se com pouco. Os elevados impostos do Templo e do Império e das autoridades locais não permitem uma vida desafogada. Jesus cedo percebe as dificuldades mas também as injustiças infligidas às famílias de Nazaré, bem como a sobrecarga de leis e de preceitos. 613 Mandamentos, 365 negativos (correspondem aos dias do ano solar) e 248 positivos, tantos como os órgãos do corpo humano. Não seria fácil cumprir tantos preceitos, ainda que em Nazaré a influência do Templo e dos seus dirigentes não fosse tão sufocante como em Jerusalém.
       A delicadeza e a docilidade de Jesus vêm-lhe de um ambiente de fraterna entreajuda. Todos se envolvem nos problemas uns dos outros para ajudar. A sobrevivência, o pão de cada dia, depende desta solidariedade. Também aí se manifesta a fé e a confiança em Deus, o que lhes traz paz diante da prepotência dos dirigentes e os motiva para enfrentar as dificuldades. Lidam com estrangeiros que passam e que precisam de abrigo e de pão. A Lei "obriga" a acolher o peregrino, alimentando-o e, se estiver a cair a noite, abrigando-o, pois também eles foram estrangeiros em terras estrangeiras.
       4 – Durante os três anos de vida pública, Jesus age em conformidade com a educação recebida, com a cultura e a religiosidade do seu povo. A graça de Deus, a sabedoria, levam a valorizar a palavra dada, a ternura e compaixão como formas de criar laços de amizade. Percebendo as injustiças e a inutilidade de muitas leis, terá tudo isso em conta na hora de falar e sobretudo de agir. Coloca-Se do lado dos mais frágeis. Fez isso connosco. Como nos recorda o apóstolo, Ele deu a vida por nós quando éramos pecadores. Com efeito, a própria Encarnação significa a identificação com a humanidade, fez-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza, assumindo a nossa fragilidade, gastando-Se na nossa finitude, para nos resgatar ao poder do pecado e da morte.
        Percorrendo os caminhos da Galileia e da Judeia, e da Samaria, indo às suas periferias, Jesus deixa um rasto de perfume, de atenção, de cuidado, de misericórdia. Não se assusta com o mal, com o pecado, ou com o sofrimento, cada pessoa que encontra Lhe lembram o Pai. A miséria das pessoas e das famílias continuam a ser um contraponto para lhes conceder paz, bênção e alegria. Tantos que são espoliados, escravizados, explorados, tantos que não têm lugar nos reinos deste mundo! Jesus dá-lhes prioridade. Agora choram e são perseguidos, mas serão bem-aventurados, porque Deus os ama acima de tudo e os quer no Seu Reino.
       Toda a mensagem de Jesus está condensada no mandamento do amor. Amar, servir, dar a vida, compaixão, proximidade, abaixamento. Modos de agir e de viver. Quem não serve para servir, não serve para viver. Eis que venho, ó Pai, para fazer a Tua vontade. Não vim para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos. Quem de entre vós quiser ser o maior, seja o servo de todos. Estou no meio de vós como quem serve. Quem não se tornar como criança, não entrará no Reino de Deus. O que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos a Mim o fazeis. Até ao fim, em todas as horas. Até na Cruz Jesus tem tempo para nós: hoje mesmo estarás comigo no Paraíso. A glorificação de Jesus é a Sua paixão por nós. Tudo se encaixa na Sua entrega. A Sua ressurreição diz-nos que a Sua vida é o Caminho, a Verdade e a Vida se queremos alcançá-l'O e entrar na vida eterna.
       5 – Paulo e Barnabé prosseguem na missão de evangelizar. Permanecem em Antioquia durante um ano. Os membros desta comunidade, inspirados pelo Espírito Santo, enviam-nos para outras terras para anunciarem o Evangelho e formarem discípulos, cumprindo desse modo o mandato de Jesus: ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho as todas as gentes.
        Serão muitas as provações a que estão sujeitos os que se convertem a Cristo e ao Seu Evangelho. Paulo e Barnabé exortam à fidelidade em Deus. Nas comunidades, para que estas não fiquem abandonadas, estabelecem anciãos, sob a ambiência da oração. Atravessam a Psídia e a Panfília, anunciam a Palavra em Perga e descem a Atalia, para regressarem a "Antioquia, de onde tinham partido, confiados na graça de Deus, para a obra que acabavam de realizar. À chegada, convocaram a Igreja, contaram tudo o que Deus fizera com eles e como abrira aos gentios a porta da fé".
       A palavra de Deus que nos é dado escutar neste domingo mostra como a obra da evangelização é de Deus. Mas Deus conta connosco, com a nossa vida, o nosso compromisso, a nossa alegria, o nosso empenho. Deus comunica-Se através de nós.
       Confiemo-nos ao Senhor nosso Deus, que nos enviou o Salvador e nos fez Seus filhos adotivos. Peçamos-Lhe: "Atendei com paternal bondade as nossas súplicas e concedei que, pela nossa fé em Cristo, alcancemos a verdadeira liberdade e a herança eterna".
        6 – São João, no Apocalipse, faz-nos ver um novo céu e uma nova terra, "a cidade santa, a nova Jerusalém, que desce do Céu, da presença de Deus, bela como noiva adornada para o seu esposo”. É «a morada de Deus com os homens. Deus habitará com os homens: eles serão o seu povo e o próprio Deus, no meio deles, será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; nunca mais haverá morte nem luto, nem gemidos nem dor, porque o mundo antigo desapareceu»
       Com Jesus, Deus renova todas as coisas e faz-nos participantes da Sua vida. Acolhendo a Sua Palavra, realizando as Suas obras, assumindo-nos como discípulos, cabe-nos, seguidamente, levar a outros esta Boa Notícia, para que todos se encontrem, se descubram e vivam como filhos bem-amados de Deus, novas criaturas, identificáveis pela caridade e pelo perdão, pelo serviço e auto doação, transparecendo o Mestre da Docilidade.

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia (C): Atos 14, 21b-27; Sal 144 (145); Ap 21, 1-5a; Jo 13, 31-33a. 34-35.

Discípulos, cheios de alegria e do Espírito Santo

       No segundo sábado em que Paulo e Barnabé estiveram em Antioquia da Pisídia, reuniu-se quase toda a cidade para ouvir a palavra de Deus. Ao verem a multidão, os judeus encheram-se de inveja e responderam com blasfémias às palavras de Paulo. Corajosamente, Paulo e Barnabé declararam: «Era a vós que devia ser anunciada primeiro a palavra de Deus. Mas uma vez que a rejeitais e vos julgais indignos da vida eterna, voltamo-nos para os gentios, porque assim nos mandou o Senhor: ‘Fiz de ti a luz das nações, para levares a salvação até aos confins da terra’». Ao ouvirem isto, os gentios encheram-se de alegria e glorificaram a palavra do Senhor; e todos os que estavam destinados à vida eterna abraçaram a fé. Assim, a palavra do Senhor divulgava-se por toda a região. Mas os judeus instigaram algumas senhoras piedosas mais distintas, bem como os homens principais da cidade, e moveram uma perseguição contra Paulo e Barnabé, expulsando-os do território. Estes sacudiram contra eles a poeira dos pés e seguiram para Icónio. Entretanto, os discípulos ficavam cheios de alegria e do Espírito Santo (Atos 13, 44-52).
       A evangelização está em progressão.
       Paulo, com Barnabé, continua a privilegiar o anúncio do Evangelho aos judeus. Por conseguinte, a sinagoga é o lugar em que os Apóstolos se apresentam para mostrarem como Jesus Cristo, morto e ressuscitado, cumpre com as promessas feitas por Deus, através dos Profetas. Tal é adesão à palavra de Deus, quase toda a cidade se reuniu, que provoca ciúmes, inveja, sobretudo da parte de judeus, que tinham para si mesmo que a salvação lhes estavam destinada. Aos outros, só se aderissem a todas as tradições e costumes judaicos.
       Os Apóstolos deixam claro que o anúncio da Palavra de Deus se iniciou pelos judeus, mesmo em terras estrangeiras, mas muitos não se deixaram iluminar por ela. Então, Paulo e Barnabé abriram o Evangelho aos gentios e estes foram aderindo em massa, por terem menos preconceitos religiosos.
       Consequência: Paulo e Barnabé são expulsos da cidade. O Evangelho vai chegar a novas terras.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida

Disse Jesus aos seus discípulos:
       «Não se perturbe o vosso coração. Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim. Em casa de meu Pai há muitas moradas; se assim não fosse, Eu vos teria dito que vou preparar-vos um lugar? Quando Eu for preparar-vos um lugar, virei novamente para vos levar comigo, para que, onde Eu estou, estejais vós também. Para onde Eu vou, conheceis o caminho». Disse-Lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais: como podemos conhecer o caminho?» Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim» (Jo 14, 1-6).
       As palavras de Jesus desafiam, em todas as circunstâncias, à confiança em Deus. Não temais. Eu venci o mundo. Eu estarei convosco até ao fim dos tempos. Tende coragem. Não se perturbe o vosso coração. Acreditai.
       Jesus antevê momentos de dificuldade, de dúvida, de dispersão, e enquanto é tempo prepara o coração, a mente, as emoções, dos seus discípulos. Eu vou, mas à frente. Vou preparar-vos um lugar. Se agora estais COMIGO, Eu quero que continue a ser desta forma. Onde Eu estiver aí estareis. Estarei sempre convosco. Vou para o Pai. Em CASA de meu Pai há muitas moradas. Sabeis o caminho. Eu Sou o CAMINHO. Vinde por MIM.

Na primeira Leitura, as palavra de Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia:
«Irmãos, descendentes de Abraão e todos vós que temeis a Deus, a nós foi dirigida esta palavra da salvação. Na verdade, os habitantes de Jerusalém e os seus chefes não quiseram reconhecer Jesus, mas, condenando-O, cumpriram as palavras dos Profetas que se lêem cada sábado. Embora não tivessem encontrado nada que merecesse a morte, pediram a Pilatos que O mandasse matar. Cumprindo tudo o que estava escrito acerca d’Ele, desceram-no da cruz e depuseram-n’O no sepulcro. Mas Deus ressuscitou-O dos mortos e Ele apareceu durante muitos dias àqueles que tinham subido com Ele da Galileia a Jerusalém e são agora suas testemunhas diante do povo. Nós vos anunciamos a boa nova de que a promessa feita a nossos pais, Deus a cumpriu para nós, seus filhos, ressuscitando Jesus, como está escrito no salmo segundo: ‘Tu és meu Filho, Eu hoje Te gerei’» (Atos 13, 26-33).
       O Livro dos Atos dos Apóstolos, depois de narrar diversos feitos que envolvem todos os apóstolos, mas sobretudo a liderança de São Pedro, centra-se agora na figura ímpar de São Paulo. Os discípulos, com as perseguições à Igreja, espalhavam, com mais fervor no anúncio do Evangelho.
       Em Antioquia, dirigindo-se ainda aos judeus, Paulo mostra como em Jesus se cumprem as promessas de Deus a Israel. Os Profetas lidos em cada Sábado na sinagoga veem confirmados as suas palavras na vinda de Jesus, como Messias e Senhor. Mas, os judeus de Jerusalém, sobretudo os chefes, não O reconheceram, condenaram-n'O à morte... mas Deus ressuscitou-O dos mortos e Ele apareceu aos discípulos.
       Com a Ressurreição e com as aparições do Ressuscitado, a missão dos Apóstolos de anunciarem a boa notícia de que Deus cumpriu as promessas em Jesus Cristo. Também São Paulo é testemunha privilegiada de Jesus Cristo.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

O servo não é maior do que o seu Senhor

       A Páscoa que se estende por 50 dias, até à solenidade do Pentecostes, dá-nos nota da ação missionária da Igreja. O Livro dos Atos dos Apóstolos acompanha a formação das primeiras comunidades cristãs, a atualização e encarnação do Evangelho nas realidades novas que vão surgindo. Num primeiro momento faz-nos integrar a missão de Pedro, incluído no grupo dos Doze. Num segundo momento, o filme desenrola-se à volta do Apóstolo dos gentios, São Paulo. Víamos como a comunidade de Jerusalém teve algum receio em acolhê-lo, como foi importante Barnabé, garantindo-o junto da comunidade e, como depois, salvaguardando-o e à comunidade, o fizeram seguir para outras comunidades incipientes.
       Hoje vemo-lo em Antioquia da Pisídia e como dá testemunho na sinagoga acerca de Jesus:

Paulo e os seus companheiros largaram de Pafos e dirigiram-se a Perga da Panfília. Mas João Marcos separou-se deles para voltar a Jerusalém. Eles prosseguiram de Perga e chegaram a Antioquia da Pisídia. A um sábado, entraram na sinagoga e sentaram-se. Depois da leitura da Lei e dos Profetas, os chefes da sinagoga mandaram-lhes dizer: «Irmãos, se tendes alguma exortação a fazer ao povo, falai». Paulo levantou-se, fez sinal com a mão e disse: «Homens de Israel e vós que temeis a Deus, escutai: O Deus deste povo de Israel escolheu os nossos pais e fez deles um grande povo, quando viviam como estrangeiros na terra do Egipto. Com seu braço poderoso tirou-os de lá e durante quarenta anos sustentou-os no deserto e, depois de exterminadas sete nações na terra de Canaã, deu essas terras como herança ao seu povo. Tudo isto durou cerca de quatrocentos e cinquenta anos. Em seguida, deu-lhes juízes até ao profeta Samuel. Então o povo pediu um rei e Deus concedeu-lhes Saul, filho de Cis, da tribo de Benjamim, que reinou durante quarenta anos. Depois, tendo-o rejeitado, suscitou-lhes David como rei, de quem deu este testemunho: ‘Encontrei David, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará sempre a minha vontade’. Da sua descendência, como prometera, Deus fez nascer Jesus, o Salvador de Israel. João tinha proclamado, antes da sua vinda, um baptismo de penitência a todo o povo de Israel. Prestes a terminar a sua carreira, João dizia: ‘Eu não sou quem julgais; mas depois de mim, vai chegar Alguém, a quem eu não sou digno de desatar as sandálias dos seus pés’». (Atos 13, 13-25).
       O Evangelho mostra as consequências ou exigências do discipulado, partindo do gesto significativo do Lava-pés. A Quinta-feira Santa doa-nos a Eucaristia, Sacramento da Caridade divina, mas que não está, de todo, separada do compromisso com os outros. Jesus dá o exemplo. E justifica. Eu que Eu vos fiz, fazei-o uns aos outros. O servo não é maior do que o seu Senhor. Sereis felizes se o puserdes em prática: serviço. E conclui, dizendo: «Quem recebe aquele que Eu enviar, a Mim recebe; e quem Me recebe a Mim, recebe Aquele que Me enviou», incentivando-nos a receber bem aqueles que vêm em nome de Jesus...

Quando Jesus acabou de lavar os pés aos seus discípulos, disse-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: O servo não é maior do que o seu senhor, nem o enviado é maior do que aquele que o enviou. Sabendo isto, sereis felizes se o puserdes em prática. Não falo de todos vós: Eu conheço aqueles que escolhi; mas tem de cumprir-se a Escritura, que diz: ‘Quem come do meu pão levantou contra Mim o calcanhar’. Desde já vo-lo digo antes que aconteça, para que, quando acontecer, acrediteis que Eu Sou. Em verdade, em verdade vos digo: Quem recebe aquele que Eu enviar, a Mim recebe; e quem Me recebe a Mim, recebe Aquele que Me enviou» (Jo 13, 16-20).

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Eu vim ao mundo como luz...

Disse Jesus em alta voz:
       «Quem acredita em Mim não é em Mim que acredita, mas n’Aquele que Me enviou; e quem Me vê, vê Aquele que Me enviou. Eu vim ao mundo como luz, para que todo aquele que acredita em Mim não fique nas trevas. Se alguém ouvir as minhas palavras e não as guardar, não sou Eu que o julgo, porque não vim para julgar o mundo, mas para o salvar. Quem Me rejeita e não acolhe as minhas palavras tem quem o julgue: a palavra que anunciei o julgará no último dia. Porque Eu não falei por Mim próprio: o Pai, que Me enviou, é que determinou o que havia de dizer e anunciar. E Eu sei que o seu mandamento é vida eterna. Portanto, as palavras que Eu digo, digo-as como o Pai Mas disse a Mim» (Jo 12, 44-50).
       Se estivermos num compartimento sem luz, ou com uma luz difusa, não nos aperceberemos do aspeto que envolve o espaço, pode estar limpo ou estar com lixo espalhado, pó aqui, uma parede escura acolá, um ponto de humidade, um tapete com uma nódoa.
       A luz que incide sobre o espaço não o torna mais sujo ou mais limpo, mas ilumina, expõe. Se o lugar está limpo e arrumado dá gosto estar ali. Se o espaço está desarrumado, sujo, cria asco, com vontade de sair dali ou de fazer uma limpeza mais completa. Ao fim e ao cabo não foi a luz que tornou o habitáculo sujo, apenas pôs em evidência.
       Jesus vem como LUZ para iluminar, para nos guiar ao bem e à beleza, para nos ajudar a ver o que nos afasta dos outros e de Deus. Ele vem para salvar, nunca para condenar ou destruir ou aniquilar. Quem escuta a Sua Palavra e a põe em prática entra no caminho da Luz.

terça-feira, 19 de abril de 2016

As minhas ovelhas escutam a minha voz

A liturgia da Palavra deste dia faz-nos perceber a proximidade de Jesus, como Bom Pastor, que acompanha o seu rebanho em todas as circunstâncias, também na perseguição.
Celebrava-se em Jerusalém a festa da Dedicação do templo. Era inverno e Jesus passeava no templo, sob o Pórtico de Salomão. Então os judeus rodearam-n’O e disseram: «Até quando nos vais trazer em suspenso? Se és o Messias, diz- nos claramente». Jesus respondeu-lhes: «Já vo-lo disse, mas não acreditais. As obras que Eu faço em nome de meu Pai dão testemunho de Mim. Mas vós não acreditais, porque não sois das minhas ovelhas. As minhas ovelhas escutam a minha voz: Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-Me. Eu dou-lhes a vida eterna e nunca hão-de perecer, ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que Mas deu, é maior do que todos e ninguém pode arrebatar nada da mão do Pai. Eu e o Pai somos um só» (Jo 10, 22-30).

       Poderíamos considerar esta a semana do BOM PASTOR. O 4.º Domingo da Páscoa, Dia Mundial de Oração pelas Vocações, é o conhecido como Domingo do Bom Pastor, mas que se estende pela semana fora, mormente na proposta do Evangelho em que se aprofunda a temática de Jesus como Bom Pastor, como a Porta do aprisco pela qual entram as ovelhas.
       As palavras de Jesus revelam o amor e o cuidado de Deus por cada um de nós. Eu conheço as minhas ovelhas, e elas conhecem-me. Dou-lhes a vida eterna. Venho para que tenham vida e vida em abundância. Para que nenhuma se perca. Eu e o Pai somos UM. Que haja um só rebanho e um só pastor. Unidade e comunhão. Vida nova. Vida com qualidade. São expressões que deixam transparecer a proximidade de Deus através de Jesus Cristo.

Na primeira leitura, dos Atos dos Apóstolos, acompanhamos a dispersão do rebanho e que se deve (sobretudo) a perseguição à comunidade de Jerusalém. Oportunidade para anunciar o Evangelho em outras localidades, dando testemunho acerca de Jesus Cristo, morto e ressuscitado.
Os irmãos que se tinham dispersado, devido à perseguição desencadeada pelo caso de Estêvão, caminharam até à Fenícia, Chipre e Antioquia. Mas anunciavam a palavra apenas aos judeus. Houve, contudo, entre eles alguns homens de Chipre e de Cirene, que, ao chegarem a Antioquia, começaram a falar também aos gregos, anunciando-lhes o Senhor Jesus. A mão do Senhor estava com eles e foi grande o número dos que abraçaram a fé e se converteram ao Senhor. A notícia chegou aos ouvidos da Igreja de Jerusalém e mandaram Barnabé a Antioquia. Quando este chegou e viu a ação da graça de Deus, encheu-se de alegria e exortou a todos a que se conservassem fiéis ao Senhor, de coração sincero; era realmente um homem bom e cheio do Espírito Santo e de fé. Assim uma grande multidão aderiu ao Senhor. Então Barnabé foi a Tarso procurar Saulo e, tendo-o encontrado, trouxe-o para Antioquia. Passaram juntos nesta Igreja um ano inteiro e ensinaram muita gente. Foi em Antioquia que, pela primeira vez, se deu aos discípulos o nome de «cristãos» (Atos 11, 19-26).

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Eu sou a porta das ovelhas...

       Disse-lhes Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta, mas entra por outro lado, é ladrão e salteador. Mas aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. O porteiro abre-lhe a porta e as ovelhas conhecem a sua voz. Ele chama cada uma delas pelo seu nome e leva-as para fora. Depois de ter feito sair todas as que lhe pertencem, caminha à sua frente e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz. Se for um estranho, não o seguem, mas fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos». Jesus apresentou-lhes esta comparação, mas eles não compreenderam o que queria dizer. Jesus continuou: «Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. Aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os escutaram. Eu sou a porta. Quem entrar por Mim será salvo: é como a ovelha que entra e sai do aprisco e encontra pastagem. O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância» (Jo 10, 1-10).
       O tema do pastoreio volta nesta semana. Um dia depois do Domingo do Bom Pastor ressoa em nós a voz de Jesus Cristo: "Eu sou o bom Pastor... Eu sou a porta das ovelhas... quem entrar por mim será salvo... Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância".
       A temática mostra-nos, uma vez mais, quanto Deus Se coloca do nosso lado, à nossa beira, junto a nós. Em Jesus Cristo vem para nos salvar, para nos constituir verdadeiro povo, para nos formar como família de Deus.

Por sua vez, na primeira Leitura, em São Pedro visualiza-se o mandato de Jesus Cristo. Pedro anuncia a todos oa Boa Notícia, alargando o pastoreio:
Disse-lhes Pedro: Quando comecei a falar, o Espírito Santo desceu sobre eles, como sobre nós ao princípio. Lembrei-me então das palavras que o Senhor dizia: ‘João baptizou com água, mas vós sereis baptizados no Espírito Santo’. Se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós, por terem acreditado no Senhor Jesus Cristo, quem era eu para poder opor-me a Deus?» Quando ouviram estas palavras, tranquilizaram-se e deram glória a Deus, dizendo: «Portanto, Deus concedeu também aos gentios o arrependimento que conduz à vida» (Atos 11, 1-18).

       São Pedro regressa à comunidade judaica depois de ter estado entre pagãos. A reacção da comunidade é, de início, apreensiva, desconfiada, cautelosa. A salvação em Cristo é manifestada aos judeus, como é que Pedro vai até junto dos incircuncisos, os pagãos?
       Pedro, inspirado pelo Espírito Santo fala-lhes do sonho que teve e como Deus lhe manifestou a necessidade de alargar a mensagem para os pagãos e, ao mesmo tempo, a recepção positiva dos pagãos à mensagem pregada por Pedro, em nome de Jesus Cristo.
       Finalmente, a comunidade compreende que a salvação não é exclusiva de um povo, de uma nação, de um grupo de pessoas, mas destina-se à humanidade inteira... ainda que episódios destes se repitam pela história da Igreja...

domingo, 17 de abril de 2016

Rui Alberto e Sofia Fonseca: APRENDER A PERDOAR

RUI ALBERTO E SOFIA (2015). Aprender a Perdoar. Uma alternativa saudável à amargura. Porto: Edições Salesianas. 150 páginas.
       Um sacerdote católico, que escreve habitualmente, publicando dinâmicas para grupos, e uma psicóloga, que trabalha com diferentes faixas etárias, crianças, adolescentes, adultos e casais. Juntaram-se para refletir sobre o perdão. Este é associado muitas vezes à religião, confundido com irenismo, com resignação, ou uma forma de pedido de desculpas.
       Os autores procuram mostrar o que é e o que não é o perdão. O que exige e pressupõe. O perdão faz bem à saúde física e mental. Quem entra numa espiral de vingança e de rancor adoece afetiva e fisicamente podem manifestar-se diversas mazelas. Abrir-se ao perdão é apostar na vida, com esperança e confiança no futuro. Para o ofendido é um exercício custoso, que pode levar tempo, mas que vai valer a pena. Há ofensas que não é possível simplesmente esquecer ou deixar que o tempo cure. O tempo pode ajudar a fazer um enquadramento alternativo, mas a alternativa é proativa, é decidir-se a perdoar, porque o outro reconheceu o mal feito e pediu perdão, ou não reconheceu nem pediu perdão, mas o ofendido decidiu tocar a sua vida para a frente sem ficar preso à mágoa nem à pessoa que magoou e decide perdoar.


       Por parte do ofensor também pode haver uma resposta ao perdão. Reconhecendo que errou. Não medindo o tamanho da ofensa, pois cada pessoa reage à sua maneira, prontificando-se a pedir perdão, a escutar aquele que ofendeu, a fazer algum gesto que permita ao ofendido perceber que está arrependido.
       Perdoar não significa reconciliar-se, isto é, retomar o mesmo tipo de relação anterior à ofensa. No mundo cristão pressupõe-se. Mas posso perdoar e não me sentir com forças para retomar o compromisso e a relação onde estavam quando se deu a ofensa. Posso negociar novos termos para retomar o relacionamento. Por parte do ofendido e do ofensor deve haver esta abertura, para retomar, alternar, ou suspender a forma de se relacionarem e sobretudo se o comportamento se vai repetindo.
       Perdoar não é apagar a memória e esquecer o mal feito. A memória também faz parte do perdão e da reconciliação.Ter presente o mal feito, não para estar sempre a cobrar, mas em ordem a amadurecer, a tentar não repetir os mesmos erros. Pode ser uma oportunidade para valorizar e dar mais qualidade à relação.
       O perdão não anula a justiça. Pressupõe ou exige. Se pratiquei algum mal, algum dado, mesmo que o ofendido me perdoe devo recompensar, repor, devolver. O ofendido pode perdoar e ainda assim esperar ser ressarcido. Desta forma, a justiça ajuda a solidificar o perdão e a reconciliação.
       Outro tema abordado: fazer as pazes. Podem-se fazer as pazes sem que haja verdadeira reconciliação, ainda que esta seja mais duradoura. Quero viver em paz com o outro, pessoa ou grupo, sem agressões mútuas, mas nem por isso estar numa relação ativa, apenas numa dinâmica de não-agressão.
       O livro tem diversas técnicas, sugestões, dinâmicas, para ajudar a perdoar e a procurar o perdão, enquadrando a ofensa além da pessoa. Esta é mais que a ofensa. Isto vale para o ofendido e para o ofensor.

sábado, 16 de abril de 2016

4.º Domingo da Páscoa - ano C - 17 de abril de 2016

       1 – É surpreendente como um bebé sossega ao ouvir a voz da Mãe. Desde cedo, o bebé aprende a voz, o cheiro, o toque da Mãe. Se durante a gravidez a Mãe falar com o/a filho/a, criando um ambiente tranquilo, quando nascer ele/a reconhecerá a mesma voz e o mesmo ambiente calmo, ou alguma música que escutou dentro do ventre materno. Virá depois o cheiro e o toque, facilmente identificáveis. O mesma ligação, ainda que mais ténue, do Pai. Se, durante a gravidez, o Pai tomou parte no mesmo ambiente, falando com o/a filho/a, este/a irá reconhecê-lo quando falar. Progressivamente, se for um Pai presente, irá reconhecer o seu cheiro, o seu toque, os seus passos.
       É quase instintivo. Horários, barulhos, ambientes que progressivamente a criança irá interiorizando. E assim também, ainda ao colo da Mãe, começará a "negociar" (manipular) os pais, descobrindo, por exemplo, que o choro os traz imediatamente de volta.
       Quem tem animais de estimação, sabe que sucede algo de semelhante. Um gato, ou um cão, identifica a voz de quem o alimenta e afaga, reconhece a voz, o barulho do motor do carro a chegar, a porta a abrir, bem como os cheiros, aproximando-se se forem familiares, escondendo-se ou revelando "irritação" se forem estranhos. O barulho do prato de comida! Um animal doméstico pode até detetar o humor dos seus donos, mantendo-se por perto ou afastando-se.
       Outros animais domésticos, vacas, cabras, cavalos, coelhos (e até as galinhas), ovelhas, reconhecem os passos dos donos, de quem os trata, lhes traz o alimento ou os leva a pastar. Reconhecem a voz, o som dos carros que se aproximam, agitam-se, pois sabem que vão comer ou que vão sair. Ou, em sentido inverso, agitam-se porque apareceu algum estranho, pessoa ou animal, um cheiro e um barulho diferentes do habitual. O cavalo aprendeu a reconhecer a voz do seu tratador, terá dificuldade em sossegar diante de um estranho e dificilmente se deixará aparelhar ou cavalgar.
       2 – Jesus viveu grande parte da sua vida em ambientes rurais. Nazaré é uma pequena cidade, mais aldeia que cidade, em que todos se conhecem e se entreajudam. É carpinteiro, como São José, trabalhando a madeira, a pedra e o ferro. É uma parte do trabalho. Semeiam os campos, próprios ou arrendados. Têm um ou outro animal doméstico. Alguns cabritos ou ovelhas. Recolhem a lã e o leite, para consumo próprio ou para trocar por outros alimentos essenciais. Pela Páscoa comem o Cordeiro pascal com os outros familiares. Em conformidade com a Lei mosaica, todas as famílias se reúnem para comer o Cordeiro pascal. Se houver alguma família que não possa, as outras devem prover para que não lhes falte, condividindo. Este cordeiro é para comer naquele dia. Mata-se o cordeiro do tamanho necessário para a refeição da família ou de forma a partilhar com uma família que não tenha meios para comprar e matar um cordeiro. Não haverá sobras para o dia seguinte!
       Quando sobem ao Templo, por ocasião da Apresentação, José e Maria oferecem um par de rolas ou de pombas, por serem uma família modesta. Porém, é expectável e provável que tivessem uma ou outra ovelhinha, um ou outro cabrito. Por outro lado, o pastoreio fazia-se muitas vezes em comum. Os mais novos tomavam conta das ovelhas das famílias da aldeia, formando um só rebanho. Poderia ainda acontecer que um homem mais rico contratasse um dos jovens para guardar o seu rebanho. Em Nazaré, contudo, as famílias estariam niveladas, por baixo, no estatuto social e económico, ajudando-se reciprocamente nos campos, no cuidado dos animais de pequeno porte, nos trabalhos braçais e na lide doméstica, sobretudo aquando de festas religiosas, ou dos casamentos, e também por ocasião dos funerais. A aldeia forma uma só família.
       As palavras de Jesus estão cheias de vida e de experiência: «As minhas ovelhas escutam a minha voz. Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-Me. Eu dou-lhes a vida eterna e nunca hão de perecer e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que Mas deu, é maior do que todos e ninguém pode arrebatar nada da mão do Pai. Eu e o Pai somos um só».
       Ele sabe do que fala e o seu auditório compreende perfeitamente o que lhes diz. Não é um discurso bonito, é a vida que emerge das suas palavras.
       3 – Jesus é o Bom Pastor que conhece todas as ovelhas, que as chama pelo nome e que dá a vida por elas. O mercenário encara o pastoreio como um trabalho que realiza por um preço ajustado, sem colocar em risco a própria vida. Se há ameaça, mais importante é salvar-se a si mesmo. A tentação da Cruz – Salva-te a Ti e a nós também! Jesus ousa dar a vida. Não Se poupa nem Se resguarda.
       Ele é o Bom Pastor que sai em busca das ovelhas. Se alguma se perde ou foge do redil, vai procurá-la. Se a encontra faz festa, como o Pai misericordioso faz festa pelo regresso do filho pródigo. Se a ovelha está ferida ou cansada, coloca-a aos ombros, e condu-la de volta ao rebanho. Mas não se pense que descura as que ficam no aprisco, condu-las às pastagens verdejantes e às águas refrescantes.
       Quem Me vê, vê o Pai. Jesus vive sintonizado com o Pai, transparecendo-O no tempo e na história. É o Pai que Lhe confia as ovelhas. "Eu e o Pai somos Um só". Se as ovelhas são do Pai – e o Pai é maior do que todos –, Ele não deixará que as ovelhas se percam. Vem ao de cima a Misericórdia do Pai, que tudo fará para não perder nenhuma ovelha. Envia-nos como Bom Pastor o Seu Filho Jesus, a Quem confia toda a humanidade. De todos os cantos da terra, de todos os tempos, Jesus vem congregar-nos numa só família. Um só rebanho, um só Pastor.
       4 – No Apocalipse, São João continua a revelar-nos as suas visões. Escuta um dos Anciãos: «Estes são os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro. Por isso estão diante do trono de Deus, servindo-O dia e noite no seu templo. Aquele que está sentado no trono abrigá-los-á na sua tenda. Nunca mais terão fome nem sede, nem o sol ou o vento ardente cairão sobre eles. O Cordeiro, que está no meio do trono, será o seu pastor e os conduzirá às fontes da água viva. E Deus enxugará todas as lágrimas dos seus olhos».
       Jesus é o Cordeiro de Deus, é o Pastor que conduz a imensa multidão, pessoas vindas de todos os povos, línguas ou nações. A salvação é extensível a todos. Jesus oferece a Sua vida a favor da humanidade. Conduzirá todos às fontes de água viva e enxugará as lágrimas dos seus olhos.
       5 – Celebramos hoje o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. O Papa Francisco, na Sua mensagem, sob o tema "A Igreja, Mãe das Vocações", sublinha que "a Igreja é a casa da misericórdia e também a «terra» onde a vocação germina, cresce e dá fruto... A conversão e a vocação são como que duas faces da mesma medalha, interdependentes continuamente em toda a vida do discípulo missionário". O Papa Francisco aprofunda a mensagem em três notas que nos remetem para o único rebanho de Cristo: 1) A Vocação nasce na Igreja. 2) A Vocação cresce na Igreja. 3) A Vocação é sustentada na Igreja.
       A segunda leitura incide sobre o ministério missionário de Paulo e Barnabé que lhes foi confiado pela Igreja. Visível a conversão, a inserção à comunidade e o compromisso missionário a partir da comunidade. O Papa diz-nos que "a missão de Paulo e Barnabé é um exemplo desta disponibilidade eclesial. Enviados em missão pelo Espírito Santo e pela comunidade de Antioquia (cf. Atos 13, 1-4), regressaram depois à mesma comunidade e narraram aquilo que o Senhor fizera por meio deles (cf. Atos 14, 27). Os missionários são acompanhados e sustentados pela comunidade cristã, que permanece uma referência vital, como a pátria visível onde encontram segurança aqueles que realizam a peregrinação para a vida eterna".
       Entretanto a missão de Paulo e de Barnabé estende-se aos pagãos. A Boa Nova não está restringida aos judeus, mas destina-se a todas. As circunstâncias antecipam a Igreja em saída: «Era a vós que devia ser anunciada primeiro a palavra de Deus. Uma vez, porém, que a rejeitais e não vos julgais dignos da vida eterna, voltamo-nos para os gentios, pois assim nos mandou o Senhor: ‘Fiz de ti a luz das nações, para levares a salvação até aos confins da terra’». Os gentios rejubilam, mas os "principais da cidade" perseguem e expulsam, do seu território, Paulo e Barnabé. Eles continuam com alegria, e com o Espírito Santo, para outros lugares.


Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (C): Atos 13, 14. 43-52; Sal 99 (100); Ap 7, 9. 14b-17; Jo 10, 27-30.