sábado, 31 de dezembro de 2016

Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus - 2017

       1 – Cada novo ano civil se inicia sob o patrocínio de Maria, Mãe de Deus. Renovamos a esperança num mundo em que (re)nasça e cresça a paz e a alegria, a luz e a justiça e a ternura da Virgem Mãe.
       A vida de Jesus é envolvida pela docilidade e delicadeza, pela inclusão e pelo cuidado aos mais frágeis. Como lembra São Pedro, o Senhor Jesus passou fazendo o bem, sem fazer aceção de pessoas. Por certo não será difícil encontrar a doçura, a afetividade, a delicadeza em Maria e em toda a sagrada Família. A entreajuda nas tarefas de casa e nos compromissos sociais, a participação na vida da comunidade, os tempos de festa e de alegria, os momentos de dor, de perda e de luto, as grandes comemorações comunitárias e o ritmo semanal que culmina na reunião familiar, na refeição ritual, na ida à Sinagoga para agradecer a vida, para invocar as bênçãos de Deus para a família, para a aldeia e para o povo, para o trabalho e para os animais, que garantirão parte essencial da alimentação, para recordar a história e a aliança de Deus com o Seu povo e a promessa de novos tempos de prosperidade e de bênção.
       Pelo fruto se vê a árvore. E os frutos que Jesus vive e partilha clarificam e testemunham a vivência na Sua família humana. Em tempos difíceis, sob o domínio do império romano, as famílias e as comunidades apoiam-se mutuamente para sobreviverem. A elevada carga de impostos que têm de pagar às autoridades dificultam a vida mas fortalecem a união. Seguindo a Lei do Senhor, a atenção aos mais pobres, provendo agasalho, alimento e abrigo. Os dias de festa são para todos. Quem pode mais, ajuda quem se encontra em situação periclitante. Os estrangeiros e pedintes são acarinhados, lembrando-se que também foram estrangeiros. Esse auxílio agrada ao Senhor.
        2 – No Principezinho, o narrador inicia a sua história com um desenho: uma jiboia a digerir um elefante. Como os adultos não percebem o desenho, faz um segundo, colocando os contornos do elefante dentro da jiboia. Tinha então seis anos de idade e mostra o desenho 1 e depois o 2 para meter medo, mas para quem vê não passa de um chapéu. Dizem-lhe que deixe de brincar e se dedique à história, à geografia, à matemática e à gramática. Só mais tarde, muito mais tarde, já aviador, perdido no deserto do Saara, alguém, o pequeno Príncipe, percebe espontaneamente o seu desenho: uma jiboia a digerir um elefante! Afinal, as pessoas adultas são esquisitas, andam de um lado para o outro e nem sabem o que procuram!
       «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado…» (Lc 10, 21).
       Só os pequeninos, os pobres, os simples, os humildes de coração compreendem os mistérios de Deus e, quando não compreendem, confiam. Não admira, portanto, que sejam os pastores os primeiros a escutarem a luz e a voz que vem das alturas e a compreenderem que Aquele Menino é uma bênção de Deus dado à humanidade.
       Os pastores são gente simples, pobre, humilde! Aproximam-se rapidamente de Maria e de José, veem o Menino deitado na manjedoura e extravasam de alegria, relatando tudo o que ouviram acerca d'Aquele Menino. Todos ficam maravilhados. Têm o encanto do encontro e a alegria da partilha. Há de ser assim o nosso encontro com Jesus, contando-Lhe a nossa vida e confiando-Lhe os nossos anseios e preocupações, os nossos sonhos e projetos. Em simultâneo, atraiamos outros com o nosso entusiasmo em falar de Jesus, em viver perto de Jesus, em transparecer Jesus. Sempre que isso acontecer connosco, outros hão de escutar e hão de aproximar-se, farão a experiência do encontro e alegrar-se-ão a partilhar a boa Nova de Jesus.
       Sublinha-se, neste episódio, a importância da dimensão missionária. Os pastores escutam os Anjos. Diante de Jesus, Maria e José, dizem as razões da sua alegria. No regresso a suas casas continuam a anunciar Jesus e o que Deus fez a favor de todo o povo.
       3 – «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38) «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da sua serva...» (Lc 1, 46-55). As palavras de Maria sublinham a humildade com que acolhe e vive a Sua vocação de Se tornar a Mãe do Salvador. Como sublinhava o então Cardeal Ratzinger / Bento XVI, Maria engrandece o Senhor, não que Deus possa ser engrandecido, mas porque Maria, na Sua humildade e transparência, permite que a grandeza de Deus Se torne manifesta e visível para o mundo. É a Sua missão. Há de ser também a nossa: engrandecermos, com humildade, nas palavras e nos silêncios, nos gestos e nas obras, a presença de Deus, para que Ele, em nós e através de nós, continue a operar maravilhas.
       Maria é a Aurora da Salvação, a Estrela da Manhã, é Mãe de Deus e nossa Mãe, é Mãe da Igreja. É o primeiro sacrário da história, guarda em Si, no Seu ventre e no Seu coração, Aquele que há de ser para todos salvação e luz. É discípula e missionária da alegria, que comunica a Isabel, aquando da visitação, e que presencia no nascimento de Jesus e na visita dos Pastores e, mais tarde, dos Magos vindos do Oriente, vindos de toda a parte. Por vezes as palavras traduzem a alegria, o espanto, a admiração. Os pastores não disfarçam a a alegria deste encontro e têm urgência em comunicar tudo o que ouviram acerca deste Menino. E continuam pelo tempo fora a anunciar as palavras dos Anjos e a agradável surpresa do encontro com a Sagrada Família de Maria, José e Jesus.
       Maria deixa que as palavras saltem do coração, quando se encontra com Isabel. Hoje mantém-se atenta, a escutar com o coração, a meditar nas palavras proferidas pelos pastores. «Maria conservava todos estes acontecimentos, meditando-os em seu coração». Como reiteradamente tem salientado o nosso Bispo, D. António Couto, Maria não apenas escuta mas compõe as palavras e os acontecimentos que lhe chegam ao coração. É uma melodia nova que está a manifestar-Se ao mundo.
       4 – A chegada do Deus-Menino, Deus connosco, Jesus (= Aquele que salva), é a maior das bênçãos para a humanidade tantas vezes perdida em confusões e em conflitos, em que pessoas e povos se afirmam pela força. O primeiro dia do ano é também Dia Mundial da Paz. O Papa Francisco, reconhecendo que vivemos num mundo dilacerado pela violência, pela guerra «aos pedaços», terrorismo, criminalidade, ataques e abusos contra os migrantes e refugiados, tráfico humano, devastação ambiental, desafia: «Sejam a caridade e a não-violência a guiar o modo como nos tratamos uns aos outros nas relações interpessoais, sociais e internacionais… Desde o nível local e diário até ao nível da ordem mundial, possa a não-violência tornar-se o estilo caraterístico das nossas decisões, dos nossos relacionamentos, das nossas ações, da política em todas as suas formas».
       Na primeira leitura, Deus convoca Moisés para comunicar a bênção a todo o povo. Bênção é a mais bela oração que podemos proferir, pois as palavras comprometem a vida. Tornamo-nos fiadores do bem que professamos, pois o bem dito exige o bem a ser feito. "O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável. O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz".
       Se, com verdade, invocamos a bênção de Deus para nós, então ficamos comprometidos na partilha dessa bênção. Deus não abençoa sob reservas ou condições, com aceção de pessoas, mas abençoa a humanidade inteira. O Antigo Testamento deixa vir ao de cima este compromisso universal. Deus abençoa Abraão para que nele sejam abençoados os povos de toda a terra. Como recorda o velho Simeão, na apresentação de Jesus no Templo: os «meus olhos viram a Salvação que ofereceste a todos os povos, Luz para se revelar às nações» (Lc 2, 30-32).

       5 – Chegada a plenitude do tempo, Deus dá-nos o Seu Filho muito amado, para nos resgatar do pecado e da morte, das trevas e da escravidão da Lei. Faz-Se lei para nos tornar filhos adotivos, como sublinha São Paulo, e assim também nós, libertos das cadeias da injustiça e do mal, possamos trabalhar por um mundo mais humano e fraterno, mais pacífico e solidário, procurando que todos se sintam em casa, em segurança e alegria, confiantes no futuro e sobretudo confiando nos outros, que acolhemos como presença de Deus.
       Será um bom propósito para iniciar e viver este novo ano. Maria acompanha-nos, estimulando-nos a seguir Jesus, a acolher e amar Jesus, a multiplicarmos a graça que Deus nos dá em abundância, ou, como Ela, tornar-nos de tal modo transparentes que as maravilhas de Deus sejam visíveis em nós e em tudo o que façamos. A oração será o ponto de partida e o ambiente para vivermos, como Maria, ao jeito de Jesus. "Senhor nosso Deus, que, pela virgindade fecunda de Maria Santíssima, destes aos homens a salvação eterna, fazei-nos sentir a intercessão daquela que nos trouxe o Autor da vida, Jesus Cristo, vosso filho".
       Se nos predispomos a rezar, predispomo-nos a satisfazer em palavras e obras a vontade de Deus. Só assim a nossa oração é autêntica. Não pedimos a Deus para cumprir a nossa vontade, pedimos que nos ajude a compreender e a realizar a Sua vontade.
       "Deus Se compadeça de nós e nos dê a sua bênção, resplandeça sobre nós a luz do seu rosto… Alegrem-se e exultem as nações, porque julgais os povos com justiça... Deus nos dê a sua bênção e chegue o seu temor aos confins da terra" (salmo).

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (A): Num 6, 22-27; Sl 66 (67); Gal 4, 4-7; Lc 2, 16-21.

São Silvestre I, Papa

       Eleito bispo da Sé Romana no ano 314, governou a Igreja no tempo do imperador Constantino Magno, quando o cisma donatista e a heresia ariana provocavam graves danos ao povo cristão. Morreu em 335 e foi sepultado no cemitério de Priscila, na via Salária.
        Este Papa dos inícios da nossa Igreja era um homem piedoso e santo, mas de personalidade pouco marcada. São Silvestre I apagou-se ao lado de um Imperador culto e ousado como Constantino, o qual, mais que servi-lo, se terá antes servido dele, da sua simplicidade e humanidade, agindo por vezes como verdadeiro Bispo da Igreja, sobretudo no Oriente, onde recebe o nome de Isapóstolo, isto é, igual aos apóstolos.
       E na realidade, nos assuntos externos da Igreja, o Imperador considerava-se acima dos próprios Bispos, o Bispo dos Bispos, com inevitáveis intromissões nos próprios assuntos internos, uma vez que, com a sua mentalidade ainda pagã, não estava capacitado para entender e aceitar um poder espiritual diferente e acima do civil ou político. 
       E talvez São Silvestre, na sua simplicidade, tivesse sido o Papa ideal para a circunstância. Outro Papa mais exigente, mais cioso da sua autoridade, teria irritado a megalomania de Constantino, perdendo a sua proteção. Ainda estava muito viva a lembrança dos horrores por que passara a Igreja no reinado de Diocleciano, e São Silvestre, testemunha dessa perseguição que ameaçou subverter por completo a Igreja, terá preferido agradecer este dom inesperado da proteção imperial e agir com moderação e prudência.
        Constantino terá certamente exorbitado. Mas isso ter-se-á devido ao desejo de manter a paz no Império, ameaçada por dissenções ideológicas da Igreja, como na questão do donatismo que, apesar de já condenado no pontificado anterior, se vê de novo discutido, em 316, por iniciativa sua. 
       Dois anos depois, gerou-se nova agitação doutrinária mais perigosa, com origem na pregação de Ario, sacerdote alexandrino que negava a divindade da segunda Pessoa e, consequentemente, o mistério da Santíssima Trindade. Constantino, inteirado da agitação doutrinária, manda mais uma vez convocar os Bispos do Império para dirimirem a questão. Sabemos pelo Liber Pontificalis, por Eusébio e Santo Atanásio, que o Papa dá o seu acordo, e envia, como representantes seus, Ósio, Bispo de Córdova, acompanhado por dois presbíteros.
       Ele, como dignidade suprema, não se imiscuiria nas disputas, reservando-se a aprovação do veredito final. Além disso, não convinha parecer demasiado submisso ao Imperador. 
       Foi o primeiro Concílio Ecuménico (universal) que reuniu em Niceia, no ano 325, mais de 300 Bispos, com o próprio Imperador a presidir em lugar de honra. Os Padres conciliares não tiveram dificuldade em fazer prevalecer a doutrina recebida dos Apóstolos sobre a divindade de Cristo, proposta energicamente pelo Bispo de Alexandria, Santo Atanásio. A heresia de Ario foi condenada sem hesitação e a ortodoxia trinitária ficou exarada no chamado Símbolo Niceno ou Credo, ratificado por São Silvestre.
       Constantino, satisfeito com a união estabelecida, parte no ano seguinte para as margens do Bósforo onde, em 330, inaugura Constantinopla, a que seria a nova capital do Império, eixo nevrálgico entre o Oriente e o Ocidente, até à sua queda em poder dos turcos otomanos, em 1453.
        Data dessa altura a chamada doação constantiniana, mediante a qual o Imperador entrega à Igreja, na pessoa de São Silvestre, a Domus Faustae, Casa de Fausta, sua esposa, ou palácio imperial de Latrão (residência papal até Leão XI), junto ao qual se ergueria uma grandiosa basílica de cinco naves, dedicada a Cristo Salvador e mais tarde a São João Batista e São João Evangelista (futura e atual catedral episcopal de Roma, São João de Latrão). Mais tarde, doaria igualmente a própria cidade.
       Depois de um longo pontificado, cheio de acontecimentos e transformações profundas na vida da Igreja, morre S. Silvestre I no último dia do ano 335, dia em que a Igreja venera a sua memória. Sepultado no cemitério de Priscila, os seus restos mortais seriam transladados por Paulo I (757-767) para a igreja erguida em sua memória.

ORAÇÃO
        Vinde, Senhor, em auxílio do vosso povo, que confia na intercessão do papa São Silvestre, e conduzi-o ao longo desta vida presente, para que chegue um dia à felicidade da vida que não tem fim. Por Nosso Senhor.

O Verbo Se fez carne e veio habitar no meio de nós

       "No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio, Ele estava com Deus. Tudo se fez por meio d’Ele e sem Ele nada foi feito. N’Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas e as trevas não a receberam. Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João. Veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz. O Verbo era a luz verdadeira, que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem. Estava no mundo e o mundo, que foi feito por Ele, não O conheceu. Veio para o que era seu e os seus não O receberam. Mas àqueles que O receberam e acreditaram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. Estes não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós. Nós vimos a sua glória, glória que Lhe vem do Pai como Filho Unigénito, cheio de graça e de verdade. João dá testemunho d’Ele, exclamando: «Era deste que eu dizia: ‘O que vem depois de mim passou à minha frente, porque existia antes de mim’». Na verdade, foi da sua plenitude que todos nós recebemos graça sobre graça. Porque, se a Lei foi dada por meio de Moisés, a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. A Deus, nunca ninguém O viu. O Filho Unigénito, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer" (Jo 1, 1-18).
       O texto do Evangelho que nos é proposto para hoje é o mesmo do dia de Natal, revelando-nos que Jesus Cristo é o Verbo encarnada, a Palavra que Se faz pessoa. A palavra criadora de Deus é também palavra salvadora. É Jesus Cristo que em definitivo nos revela o rosto de Deus. Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida, é por Ele que vamos ao Pai a Quem jamais alguém viu, o Filho é que O dá a conhecer.
       A grande alegria pelo nascimento de Jesus Cristo, o Deus que Se despoja da Sua grandeza, para comungar a humanidade connosco e de novo nos conduzir pelo caminho da vida, deve motivar-nos a viver cada vez melhor, cada vez em maior sintonia com o Senhor Jesus.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Agora deixareis ir em paz o vosso servo...

       Ao chegarem os dias da purificação, segundo a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, para O apresentarem ao Senhor, como está escrito na Lei do Senhor: «Todo o filho primogénito varão será consagrado ao Senhor», e para oferecerem em sacrifício um par de rolas ou duas pombinhas, como se diz na Lei do Senhor. Vivia em Jerusalém um homem chamado Simeão, homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava nele. O Espírito Santo revelara-lhe que não morreria antes de ver o Messias do Senhor; e veio ao templo, movido pelo Espírito. Quando os pais de Jesus trouxeram o Menino para cumprirem as prescrições da Lei no que lhes dizia respeito, Simeão recebeu-O em seus braços e bendisse a Deus, exclamando: «Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, deixareis ir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a vossa salvação, que pusestes ao alcance de todos os povos: luz para se revelar às nações e glória de Israel, vosso povo». O pai e a mãe do Menino Jesus estavam admirados com o que d’Ele se dizia. Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua Mãe: «Este Menino foi estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em Israel e para ser sinal de contradição; – e uma espada trespassará a tua alma – assim se revelarão os pensamentos de todos os corações» (Lc 2, 22-35).
       Na apresentação de Jesus no Templo, cumprindo todas as exigências da Lei, destaca-se hoje no Evangelho a profecia do velho Simeão, homem justo e piedoso, que esperava a salvação de Israel. Depois e acolher o Messias em seus braços, cumpre com a vida, não há mais nada a esperar, chegou a plenitude do tempo e da história, o momento da morte pode agora chegar, o último dos desejos foi cumprido.
       Por outro lado, o velho Simeão diz a Maria que Aquele Menino Lhe trará muita dor, mas ao mesmo tempo a Sua vida será LUZ que revelará os corações, vem para evidenciar a salvação e salvar até o que está perdido...

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Santos Inocentes, Mártires

Nota Histórica:
       «Hoje celebramos o nascimento para o Céu das crianças que foram assassinadas por Herodes, o rei cruel» (S. Cesário de Arles).
       Ao venerar estas crianças, que proclamaram a glória de Deus, não com palavras mas com o seu sangue, a Igreja quer, em primeiro lugar, levar-nos à sua imitação sendo testemunhas de Cristo, através do martírio silencioso do cumprimento do dever quotidiano.
       Ao lembrar, em plena quadra natalícia, o sacrifício destas «flores dos mártires que se fecharam para sempre no seio do frio da infidelidade» (Sto. Agostinho), quer também dirigir um apelo para que se respeite a vida, em todas as suas manifestações, desde a sua origem até ao seu termo. Na verdade, como lembrou o Concílio Vaticano II, «Deus, Senhor da Vida, confiou aos homens a nobre missão de protegê-la: missão, que deve ser cumprida de modo digno do homem. Por isso, a vida, desde a concepção, deve ser amparada com o máximo cuidado: o aborto e o infanticídio são crimes abomináveis» (Gaudium et Spes: GS 51).

Oração de Coleta:
       Senhor nosso Deus, que neste dia fostes glorificado não pelas palavras mas pelo sangue dos Mártires Inocentes, fazei que a nossa vida dê testemunho da fé que os nossos lábios professam. Por Nosso Senhor Jesus Cristo vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Sermão de São Quodvultdeus, bispo 

Ainda não falam e já confessam a Cristo 

Nasceu o grande Rei, como um menino pequeno. Os Magos são atraídos de longes terras; vêm para adorar Aquele que ainda está no presépio, mas já reina no Céu e na terra. Quando os Magos anunciam que nasceu o Rei, Herodes perturba-se e, para não perder o reino, decide matar o recém-nascido; e, no entanto, se tivesse acreditado n’Ele, poderia reinar tranquilo na terra e para sempre na outra vida.
Que temes, Herodes, ao ouvir dizer que nasceu o Rei? Ele não veio para te destronar, mas para vencer o demónio. Tu, porém, não o compreendes; e por isso te perturbas e te enfureces, e, para que não escape aquele único Menino que buscas, te convertes em cruel assassino de tantas crianças.
Nem as lágrimas das mães nem o lamento dos pais pela morte de seus filhos, nem os gritos e gemidos das crianças te comovem. Matas o corpo das crianças, porque o temor te matou o coração; julgas que, se conseguires o teu propósito, poderás viver muito tempo, quando precisamente queres matar a própria Vida. 
Aquele que é a fonte da graça, que é pequeno e grande ao mesmo tempo, e que jaz no presépio, aterroriza o teu trono; por meio de ti, e sem que tu o saibas, realiza os seus desígnios e liberta as almas do cativeiro do demónio. Recebeu como filhos adoptivos os filhos dos que eram seus inimigos.
As crianças, sem o saberem, morrem por Cristo; os pais choram os mártires que morrem. Àqueles que ainda não podiam falar, Cristo os faz suas dignas testemunhas. Eis como reina Aquele que veio para reinar. Eis como já começa a conceder a liberdade Aquele que veio para libertar, e a dar a salvação Aquele que veio para salvar.
Mas tu, Herodes, ignorando tudo isto, perturbas-te e enfureces-te; e enquanto te enfureces contra aquele Menino, já estás a prestar-Lhe, sem o saberes, a tua homenagem.
Maravilhoso dom da graça! Que méritos tinham aquelas crianças para obterem tal triunfo? Ainda não falam e já confessam a Cristo. Ainda não podem mover os seus membros para travar batalha e já alcançam a palma da vitória.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

São João, Apóstolo e Evangelista

       Filho de Zebedeu, rico pescador de Bethsaida (Mc 1, 20; Mt 4, 18--22; Jo 1, 44), e de Salomé, que mais tarde se viria a consagrar ao serviço de Jesus e dos Apóstolos, foi educado, com o seu irmão Tiago, na seita dos zelotes. Tornado discípulo de João Baptista, por ele seria encaminhado para Jesus, vindo a ser bem depressa, um dos membros mais activos do grupo.
       A João confiou Jesus não só o maior número de missões, mas também os Seus mais íntimos segredos. A ele confiará igualmente Sua Mãe, que terminará os Seus dias na companhia do «Discípulo amado». Após uma longa vida apostólica, o Apóstolo do amor será exilado para a ilha de Patmos (Apoc. 1), no tempo de Domiciano, sendo o último dos Doze a deixar a terra.
       João é o autor de vários Cartas, do Apocalipse e do quarto Evangelho.

Oração de colecta:
       Deus todo-poderoso e eterno, que por meio do apóstolo São João nos revelastes os mistérios do Verbo, concedei-nos a graça de compreender e amar as maravilhas que ele nos fez conhecer. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.


Santo Agostinho, bispo, sobre a Primeira Epístola de São João 

A Vida manifestou-Se na carne 

O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos, o que tocámos com as nossas mãos acerca do Verbo da Vida. Quem poderia tocar com suas mãos o Verbo, se não fosse porque o Verbo Se fez carne e habitou entre nós?
O Verbo, que Se fez carne para poder ser tocado com as mãos, começou a ser carne no seio da Virgem Maria; mas não foi então que começou a ser o Verbo, porque, como diz São João, Ele era desde o princípio. Vede como a sua Epístola é confirmada pelas palavras do seu Evangelho que acabais de escutar: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus.
Talvez haja alguém que tome a expressão «Verbo da Vida» como se fosse referida a Cristo, mas não ao corpo de Cristo que podia ser tocado com as mãos. Reparai no que vem a seguir: E a Vida manifestou-Se. Portanto, Cristo é o Verbo da Vida.
E como Se manifestou? Era desde o princípio, mas não se tinha manifestado aos homens; apenas Se tinha manifestado aos Anjos, que O contemplavam e se alimentavam d’Ele como de seu pão. Mas que diz a Escritura? O homem comeu o pão dos Anjos.
Portanto, a Vida manifestou-Se na carne, para que, nesta manifestação, aquilo que só o coração podia ver, fosse visto também com os olhos e desta forma sarasse os corações. De facto o Verbo só pode ser visto com o coração, ao passo que a carne pode ser vista também com os olhos corporais. Éramos capazes de ver a carne, mas não éramos capazes de ver o Verbo. Por isso O Verbo Se fez carne que nós podemos ver, para sarar em nós aquilo que nos torna capazes de ver o Verbo.
Nós damos testemunho do Verbo e vos anunciamos a vida eterna, que estava junto do Pai e foi manifestada em nós, isto é, foi manifestada entre nós e, ainda mais claramente, foi-nos manifestada.
Nós vos anunciamos o que vimos e ouvimos. Prestai atenção: Nós vos anunciamos o que vimos e ouvimos. Eles viram o Senhor presente na carne, ouviram as palavras da sua boca e anunciaram-nas a nós. Por isso também nós ouvimos, mas não vimos.
Seremos nós, por isso, menos afortunados que aqueles que viram e ouviram? Mas então, porque acrescenta: Para que estejais também em comunhão connosco? Eles viram e nós não vimos; e, apesar disso, estamos em comunhão, porque temos uma fé comum.
E a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho, Jesus Cristo; e vos escrevemos isto, para que a vossa alegria seja completa. A alegria completa encontra-se, como ele diz, na mesma comunhão de vida, na mesma caridade, na mesma unidade.

Fonte: Secretariado Nacional da Liturgia.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Santo Estêvão, o primeiro mártir

Nota biográfica:
       Estêvão foi um dos primeiros sete Diáconos escolhidos pelos Apóstolos, com o fim de por eles serem aliviados de tarefas administrativas (Atos. 6, 1-6). Homem cheio do Espírito Santo, não limitou Estêvão o seu «diaconado» aos serviços caritativos. Com efeito, dedicou-se, com toda a sua alma, à evangelização, tornando-se testemunho de Cristo Ressuscitado. O livro dos Actos dos Apóstolos (Ato, 7) atribui-lhe um discurso, que, sendo o primeiro ensaio cristão da leitura dos textos do Antigo Testamento em função da vinda do Senhor, servirá de modelo aos primeiros arautos do Evangelho. Primeiro diácono, foi também o primeiro mártir da Igreja. Cerca do ano 36 da nossa era, com uma morte aceite com as mesmas disposições com que Jesus aceitou a Sua, Estêvão dava o supremo testemunho do Seu amor por Ele.
Oração de coleta:
       Ensinai-nos, Senhor, a imitar o que celebramos,amando os nossos inimigos, a exemplo do primeiro mártir, Santo Estêvão, que soube implorar o perdão para os seus perseguidores. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Atos dos Apóstolos:
       Naqueles dias, Estêvão, cheio de graça e fortaleza, fazia grandes prodígios e milagres entre o povo. Entretanto, alguns membros da sinagoga chamada dos Libertos, oriundos de Cirene, de Alexandria, da Cilícia e da Ásia, vieram discutir com Estêvão, mas não eram capazes de resistir à sabedoria e ao Espírito Santo com que ele falava. Ao ouvirem as suas palavras,estremeciam de raiva em seu coração e rangiam os dentes contra Estêvão. Mas Estêvão, cheio do Espírito Santo, de olhos fitos no Céu, viu a glória de Deus e Jesus de pé à sua direita e exclamou: «Vejo o Céu aberto e o Filho do homem de pé à direita de Deus». Então levantaram um grande clamor e taparam os ouvidos; depois atiraram-se todos contra ele, empurraram-no para fora da cidade e começaram a apedrejá-lo. As testemunhas colocaram os mantos aos pés de um jovem chamado Saulo. Enquanto o apedrejavam, Estêvão orava, dizendo: «Senhor Jesus, recebe o meu espírito» (6, 8-10; 7, 54-49).
São Fulgêncio de Ruspas, bispo

As armas da caridade

Ontem celebrámos o nascimento temporal do nosso Rei eterno; hoje celebramos o martírio triunfal do seu soldado. Ontem, o nosso rei, revestido com o manto da carne, saindo do seio virginal, dignou-Se visitar o mundo; hoje, o soldado, saindo do tabernáculo do seu corpo, entrou triunfante no Céu.
O nosso Rei, o Altíssimo, humilhou-Se por nós; mas a sua vinda não foi em vão: Ele trouxe grandes dons aos seus soldados, a quem não só enriqueceu abundantemente, mas também fortaleceu para serem invencíveis na luta. Trouxe o dom da caridade que torna os homens participantes da natureza divina.
Ao repartir tão liberalmente os seus dons, nem por isso ficou mais pobre: enriquecendo de modo admirável a pobreza dos seus fiéis, Ele conservou a plenitude dos seus tesouros inesgotáveis.
Assim, a mesma caridade que Cristo trouxe do Céu à terra, fez subir Estêvão da terra ao Céu. A mesma caridade que precedeu no Rei, resplandeceu depois no soldado.
Estêvão, para merecer a coroa que o seu nome significava, tomou como arma a caridade e com ela triunfava em toda a parte. Por amor de Deus não cedeu perante os judeus que o atacavam; por amor do próximo, intercedia pelos que o apedrejavam. Pela caridade, argumentava contra os que estavam no erro para que se corrigissem; pela caridade, orava pelos que o apedrejavam para que não fossem castigados.
Confiado na força da caridade, venceu a crueldade de Saulo e mereceu ter como companheiro no Céu aquele que na terra foi seu perseguidor. Movido pela santa e infatigável caridade, desejava conquistar com a sua oração aqueles que não pôde converter com as suas palavras.
E agora, Paulo alegra-se com Estêvão, com Estêvão goza da glória de Cristo, com Estêvão triunfa, com Estêvão reina. Onde entrou primeiro Estêvão, martirizado pelas pedras de Paulo, entrou depois Paulo, ajudado pelas orações de Estêvão.
Oh como é verdadeira aquela vida, meus irmãos, em que Paulo não fica confundido pela morte de Estêvão, e Estêvão se alegra pela companhia de Paulo, porque em ambos exulta a mesma caridade. A caridade de Estêvão superou a crueldade dos judeus, a caridade de Paulo cobriu a multidão dos seus pecados; pela caridade mereceram ambos possuir o reino dos Céus.
A caridade é a fonte e origem de todos os bens, é a mais segura protecção, é o caminho que leva ao Céu. Quem caminha na caridade não pode temer nem errar; ela dirige, protege e leva a bom termo.
Por isso, irmãos, uma vez que Jesus Cristo nos deu a escada da caridade pela qual todo o cristão pode subir ao Céu, conservai fielmente a caridade verdadeira, exercitai a uns com os outros e, subindo por ela, progredi sempre no caminho da perfeição.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Natal de Jesus Cristo - 2016

       1 – O maior poder não é o que se impõe pela força, mas pelo amor. Não o que se consegue pela supremacia, a partir do exterior, mas o que surge livre a partir do interior. O Natal vem de fora, vem da eternidade, mas não se impõe a partir do exterior ou a partir de cima, mas nasce, enraíza-Se, encarna, torna-Se carne da nossa carne e osso dos nossos ossos, identifica-Se e confunde-Se connosco, entranha-Se no mundo, mistura-Se com a humanidade.
       São João Paulo II desafiava os jovens a serem evangelizadores dos outros jovens, pois ninguém como eles estaria tão preparado para evangelizar os jovens da mesma idade: eles percebem os mesmos códigos linguísticos que, por ventura, escapam aos mais velhos. 
       Para compreendermos os outros precisamos de nos sentir próximos. Precisamos de nos colocar no lugar do outro, mesmo que isso seja impossível, pois o tempo e o espaço não são simultâneos para duas pessoas: ocupam espaços e tempos diferentes, não se sobrepõem. Nunca. Como duas linhas retas em paralelo que nunca se fundem uma na outra. Colocar-se no lugar do outro para o perceber, para sentir o seu sofrimento, as suas inquietações. É um esforço meritório, mas só alcançável por Deus. 
       “Põe-te no meu lugar”. Expressão que apela à compreensão, a sintonizar o ponto de vista do outro para tentar compreender as suas palavras, a sua atitude ou os seus gestos. Ninguém nos pede uma sobreposição ao outro, mas sincronização, aceitação, proximidade.
        Deus faz este “esforço” de aproximação. Ao longo dos tempos. Em Jesus, a aproximação de Deus é total, coloca-Se no nosso lugar, do nosso lado, passa a ver a partir de baixo e de dentro, a partir da fragilidade e da limitação humanas, identifica-Se connosco. É a Sua grandeza: faz-Se pequeno, do nosso tamanho, deixa-Se ver e ao mesmo tempo esconde-Se no meio de nós, confundindo-Se connosco. Deixa-Se perseguir e amar, deixa-Se prender e até matar. Tão grande que tem o poder de Se tornar pequeno. É a Sua fraqueza: amar até morrer, morrer para ressuscitar, para viver, amar sem limites. Deus, por amor, não desiste de nós. Nunca desiste. Nós podemos ignorá-l’O, fazer de conta que não existe e, no entanto, Deus continua do nosso lado, a amar-nos, a atrair-nos para Si. São Paulo, na primeira Carta aos Coríntios (9, 19-23), mostra como se fez tudo para todos, para ganhar alguns para Cristo. Assim faz Deus, faz tudo para nos (re)conquistar para o Seu Reino de Amor. Se deixarmos que Ele nos vença, vencemos nós, e será novamente Natal.
        2 – Visitando as páginas da Sagrada Escritura, nos textos propostos para esta solenidade, a acentuação do abaixamento de Deus que, em Cristo, assume a nossa frágil condição humana, com as suas limitações, com os seus sonhos e projetos, com os seus sofrimentos e desilusões.
       "No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio, Ele estava com Deus. Tudo se fez por meio d’Ele e sem Ele nada foi feito. N’Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas e as trevas não a receberam". Este é o mote dado pela Palavra de Deus. Jesus vem ao mundo, pre-existindo-lhe. À Sua frente vem um mensageiro, João Batista, que aponta para a Luz verdadeira, que é o Messias Jesus.
       O Filho de Deus Altíssimo, o Messias, não é de todo um desconhecido! Desde sempre nos conheceu. N’Ele foram criadas todas as coisas e sem Ele nada foi criado. Veio para o meio dos seus. Mas, diz o Evangelho, os seus não O reconheceram. Andavam atarefados com tantas coisas, distraídos, ou cheios de si, com corações de pedra. Quem O reconhece será salvo. A salvação consiste em conhecer Jesus, acolhê-l'O, para O amar e O viver, testemunhando-O, transparecendo-O.
       O profeta Isaías sublinha a beleza, a alegria, a rapidez do mensageiro que anuncia a boa nova da salvação. É tempo de largar as amarras da escravidão, do pecado e da morte. É tempo de júbilo, porque o Senhor está no meio de nós, irrompendo as cadeias das injustiças, restaurando as ruínas de Israel, consolando o Seu povo, "o Senhor descobre o seu santo braço à vista de todas as nações e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus".
       Deus está agora mais visível. É Pessoa, de carne e osso. Está sujeito à determinação do espaço e do tempo, como cada um de nós. Está ao alcance do nosso olhar e das nossas mãos. Podemos vê-l’O, podemos segui-l’O, podemos matá-l’O. Sabemos onde encontrá-l’O.
        Embrulhado em panos, perto dos animais, é irreconhecível para os distraídos, para os que confundem grandeza com ostentação e poder, para os que esperam um Messias saído de um palácio, nascido num berço de ouro. Ele entranha-Se na história dos homens e na própria natureza.
       3 – Com efeito, "muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos Profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu Filho, a quem fez herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o universo".
       Ele é o Filho Unigénito de Deus, o Seu Eleito, que transborda da eternidade para o tempo, do seio do Pai para a convivência daqueles que assume como irmãos. Para nos redimir. Para nos elevar. Deus nunca esteve longe de quantos O invocam de coração humilhado e contrito. Com Jesus a distância encurta-se, pois Ele próprio, é Deus connosco, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.
       Deus continua a falar-nos e a falar ao mundo. Hoje Deus fala através de nós, de mim e de ti. Somos os mensageiros que correm velozes a anunciar a paz. Por vales e montanhas, por aldeias e cidades, aquém e além-mar. Uma vez convertidos, restabelecidos pela misericórdia do Senhor, cabe-nos hoje, cabe-nos agora, anunciar o Evangelho, levar Jesus a todo o lado, a todos os ambientes. Deus continua a falar. Não fiquemos na praia, de braços cruzados, a ver as gaivotas a pousar, adentremo-nos na história, envolvamo-nos na transformação do mundo em que vivemos. Levemos o melhor de nós – Deus que nos habita –, para que o mundo possa testemunhar o nascimento de Jesus e a certeza de que Ele está vivo, no meio de nós.
       O mandato divino é para todos, é para mim e para ti, é para hoje, pois amanhã é tarde, demasiado tarde. O futuro a Deus pertence. A nós pertence o presente, para sermos o presente de alegria, de amor e de serviço uns para os outros. Ide e anunciai o Natal, a Boa Notícia, a toda a criatura.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (A): Is 52, 7-10; Sl 97 (98); Hebr 1, 1-6; Jo 1, 1-18.

Bendito seja o Senhor, Deus de Israel

Zacarias, pai de João Baptista, ficou cheio do Espírito Santo e profetizou dizendo:
«Bendito seja o Senhor, Deus de Israel,
que visitou e redimiu o seu povo
e nos deu um salvador poderoso
na casa de David, seu servo.
Assim prometera desde os tempos antigos,
pela boca dos seus santos Profetas,
que nos libertaria dos nossos inimigos
e das mãos de todos os que nos odeiam;
que teria compaixão dos nossos pais,
recordando a sua sagrada aliança
e o juramento que fizera a Abraão, nosso pai:
que nos concederia a graça de O servirmos
um dia sem temor, livres das mãos dos nossos inimigos,
em santidade e justiça, na sua presença,
todos os dias da nossa vida.
E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo,
porque irás à sua frente a preparar os seus caminhos,
para dar a conhecer ao seu povo a salvação,
pela remissão dos pecados;
graças ao coração misericordioso do nosso Deus,
que das alturas nos visita como sol nascente,
para iluminar os que vivem nas trevas e na sombra da morte
e dirigir os nossos passos no caminho da paz» (Lc 1, 67-79).
       É bem conhecido o cântico de louvor de Zacarias, Benedictus, colocado em paralelismo com o cântico de louvor de Nossa Senhora, Magnificat, propostos todos os dias na Liturgia das Horas, um nas Laudes e outro nas Vésperas.
       A propósito, têm alguns traços comuns, o louvor, o reconhecimento do Deus altíssimo, e do feitos realizados a favor do seu povo, a Sua proximidade. Neste cântico, proposto como leitura para a manhã do dia 24 de dezembro, horas antes da celebração festiva do Natal, nascimento de Jesus, sinal e expressão de Deus que vem até nós, é uma oração de louvor, de gratidão, de ação de graças pelas maravilhas que Deus continua a operar, no povo, através de mensageiros concretos, como será o caso do filho de Zacarias, João Batista, que vem para preparar os caminhos do Salvador...
       Preparemo-nos de todo o coração para receber o Messias, Deus que se faz homem!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Quem virá a ser este menino?

       Chegou a altura de Isabel ser mãe e deu à luz um filho. Os seus vizinhos e parentes souberam que o Senhor lhe tinha feito tão grande benefício e congratularam-se com ela. Oito dias depois, vieram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. Mas a mãe interveio e disse: «Não, ele vai chamar-se João». Disseram-lhe: «Não há ninguém da tua família que tenha esse nome». Perguntaram então ao pai, por meio de sinais, como queria que o menino se chamasse. O pai pediu uma tábua e escreveu: «O seu nome é João». Todos ficaram admirados. Imediatamente se lhe abriu a boca e se lhe soltou a língua e começou a falar, bendizendo a Deus. Todos os vizinhos se encheram de temor e por toda a região montanhosa da Judeia se divulgaram estes factos. Quantos os ouviam contar guardavam-nos em seu coração e diziam: «Quem virá a ser este menino?» Na verdade, a mão do Senhor estava com ele (Lc 1, 57-66).
       O Percursor do Messias desponta como a voz que clama no deserto. Ainda antes do nascimento já João experimenta a alegria pela vinda do Messias, saltando de alegria no momento em que a voz da saudação de Maria chega aos ouvidos de Isabel.
       O relato do nascimento de João envolve-nos na mesma alegria da proximidade de Jesus Cristo. Hoje, João, amanhã, o Messias de Deus, Jesus Cristo Salvador.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Homenagem do GJT e das Catequistas à D. Evinha

       No dia 17 de dezembro, Festa de Natal da Catequese, o Grupo de Jovens de Tabuaço (GJT) e o grupo de Catequistas prestou uma sentida homenagem à D. Evinha, pelo testemunho da vida e de vivência da fé, de empenhamento e alegria nos diferentes compromissos eclesiais e sociais.
       Nasceu a 10 de fevereiro de 1934, em Pinheiros, e faleceu no dia 30 de setembro de 2016, na Santa Casa da Misericórdia de Tabuaço. Funeral a 1 de outubro, na Igreja Matriz de Pinheiros.
       Poder-se-ia considerar cidadã do mundo. Depois dos primeiros estudos, continuou a sua formação na Escola Diocesana de Formação Social, em Lamego, e no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa; integrou o Ministério do Trabalho e da Solidariedade, comprometendo-se com a vida eclesial, em diferentes partes do mundo, Portugal, Espanha, Brasil, Uruguai, em diferentes zonas do país, de Bragança ao Algarve, dedicando-se na promoção da educação, da cultura, da saúde, no apoio às pessoas mais carenciadas, na catequese, na lógica da Ação Católica Rural, ver, julgar e agir, envolvendo as pessoas, para que fossem agentes e não apenas destinatários.
       Regressada do Brasil, fixando-se definitivamente em terras de Tabuaço, nunca desistiu de se empenhar, participando onde era necessário, na Igreja e na vida social e cultural. Sempre disponível, para mais oração, para mais formação, das crianças aos jovens e aos adultos, aos mais idosos, na catequese, nos grupos de jovens, como ministra extraordinária da comunhão, na vivência do Natal, da Páscoa, a cantar as Boas Festas, a visitar doentes, a dar conselhos com a delicadeza de uma mãe, preparando jovens para o crisma, intervindo nos tempos de formação, escrevendo, partilhando a vida, gastando-se… sempre ligada à vida da Igreja, sempre sintonizada com os sinais dos tempos.
       Como Pároco pude usufruir da sua amizade e dos seus conselhos, da sua ajuda e das suas sugestões. Uma das sugestões, no início no meu ministério sacerdotal: as homilias deveriam terminar sempre de forma positiva, para que fosse autêntico o “assim seja”…
       Que Deus lhe dê o merecido descanso e que o testemunho da sua vida, o empenho alegre, simples e generoso da sua fé e do seu compromisso eclesial, nos ajude ao mesmo compromisso nas nossas famílias e na nossa comunidade.
       Depois da presença no Velório e no Funeral, agora mais esta homenagem, em jeito de agradecimento pelas lições que a D. Evinha a todos deixou, a garra e a vontade de viver, a força e a agilidade para levar mais longe a vivência do Evangelho, num compromisso diário, constante, incentivando todos, sem descriminações, procurando estar onde era mais necessário.

Segue o vídeo, com fotos de D. Evinha. Depois do videoporama, as catequistas e os jovens deixaram o seu testemunho.


Visite o Álbum de fotos dedicado à D. Evinha,

Paróquia de Tabuaço | Festa de Natal | 2016

       A Festa de Natal da Catequese iniciou com a celebração da santa Missa, já com as crianças vestidas de branco. Ocuparam o lugar no presbitério, junto do pároco e dos acólitos. Durante a Eucaristia, a Caminhada do Advento-Natal.
       No final, sem grandes delongas, a intervenção dos mais pequeninos. Seguiram-se outros grupos, finalizando com a intervenção do Grupo de Jovens, integrando os adolescentes do 9.º ano de catequese (os do 10.º já integram o GJT).
       Para conclusão estava reservada a homenagem à D. Evinha, que ao longo dos últimos anos se dedicou por inteiro ao trabalho pastoral na Paróquia de Tabuaço, sempre solícita, empenhada, pronta para mais oração, mais convívio, mais formação, deixando marcas profundas nos jovens e nos adultos, na comunidade. O Grupo de Jovens e as Catequistas prestaram-lhe mais esta merecida homenagem. Foi preparado e passado um vídeo com fotos de várias atividades pastorais, ao longo dos anos. A segunda música do videoporama foi trazida pela D. Evinha para a nossa paróquia.


Fotos disponíveis na Paróquia de Tabuaço no Facebook

A minha alma glorifica o Senhor

       Maria disse:
       «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador. Porque pôs os olhos na humildade da sua serva: de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-poderoso fez em mim maravilhas, Santo é o seu nome. A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre».
       Maria ficou junto de Isabel cerca de três meses e depois regressou a sua casa (Lc 1, 46-56).
       No encontro de Nossa Senhora com a sua prima Isabel, a quem fora ajudar prontamente, quando soube que esta se encontrava grávida há seis meses, às palavras de alegria de Isabel, manifestando o próprio júbilo e o do filho (João Batista) que carrega no seio, Maria responde com esta belíssima oração.
       Maria expressa a grandeza de Deus, que ao longo do tempo realizou maravilhas em favor do Seu povo, na promoção dos mais frágeis, dos desprotegidos da sociedade e da religião, protegendo o Seu povo. A misericórdia divina está presente em todos os momentos, favoráveis e desfavoráveis, do povo da primeira aliança.
       Por outro lado, Maria reconhece, de novo, a sua pequenez, a humildade que Lhe permite escutar Deus, acolher o Seu mistério e dizer "sim" para toda a vida. Só a humildade nos salva. Só com humildade perscrutamos Deus na nossa vida, só a humildade nos abre ao mistério...

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Faça-se em mim segundo a tua palavra

       O Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José, da descendência de David. O nome da Virgem era Maria. Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?» O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril; porque a Deus nada é impossível». Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 26-38).
       Vivemos em ambiente de Natal. Façamos com que a celebração festiva do nascimento de Jesus não seja uma passagem apenas exterior, mas que a Luz do presépio, onde encontramos Maria, José e Jesus, nos aproxime dos outros, dentro de portas, em nossa casa, com a nossa família e desta paz em família a partilha da alegria com quem encontramos.
       Hoje, com Maria também nós queremos sentir-nos interpelados por Deus. Também nós, como Maria, tenhamos a humildade e a coragem de dizer ao Senhor: faça-se em mim segundo a Tua santa vontade.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Não temas, Zacarias, a tua súplica foi atendida...

       Zacarias ficou perturbado e encheu-se de temor. Mas o Anjo disse lhe: «Não temas, Zacarias, porque a tua súplica foi atendida. Isabel, tua esposa, dar-te-á um filho, ao qual porás o nome de João. Será para ti motivo de grande alegria e muitos hão-de alegrar-se com o seu nascimento, porque será grande aos olhos do Senhor. Não beberá vinho nem bebida alcoólica; será cheio do Espírito Santo desde o seio materno e reconduzirá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. Irá à frente do Senhor, com o espírito e o poder de Elias, para fazer voltar os corações dos pais a seus filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, a fim de preparar um povo para o Senhor». Zacarias disse ao Anjo: «Como hei-de saber que é assim, se eu estou velho e a minha esposa de idade avançada?». O Anjo respondeu-lhe: «Eu sou Gabriel, que assisto na presença de Deus e fui enviado para te anunciar esta boa nova. Mas tu vais guardar silêncio, sem poder falar, até ao dia em que tudo isto aconteça, por não teres acreditado nas minhas palavras, que se cumprirão a seu tempo» (Lc 1, 5-25).
       Na cultura judaica, a fertilidade/fecundidade do casal é sinal e expressão da bênção de Deus. Ao contrário, a infertilidade do casal é infortúnio e desonra. Sendo Zacarias sacerdote no templo fica mais exposto por não ter descendentes. Nem a proximidade de Deus o afastou desse opróbrio. Mas nem tudo está perdido, Deus olha para o Seu povo e neste caso específico para o Seu servo Zacarias, ele será pai e terá um descendente. Zacarias nem quer acreditar que a bênção de Deus se efetiva finalmente, num tempo em que já restava pouca esperança.
       O filho que vai nascer de Zacarias e Isabel será um sinal de salvação, do mistério de Deus que vem até à humanidade...

domingo, 18 de dezembro de 2016

Tabuaço: Festa de Natal da Catequese - 2016

       Com o aproximar do Natal e com as férias escolares, chega também a Festa de Natal da Catequese paroquial. Sábado, 17 de dezembro de 2016. Depois da novena e do grande dia da Festa da Padroeira, Nossa Senhora da Conceição, atenções para a festa de Natal. Por opção das catequistas, este ano, o espaço escolhido para a festa foi a Igreja Paroquial, facilitando a participação dos paroquianos, sobretudo dos mais idosos que, desta forma, ficaram mais aconchegadas.
       A Festa iniciou com a celebração da santa Missa, já com as crianças vestidas de branco. Ocuparam o lugar no presbitério, junto do pároco e dos acólitos. Durante a Eucaristia, a Caminhada do Advento-Natal. No final, sem grandes delongas, a intervenção dos mais pequeninos. Seguiram-se outros grupos, finalizando com a intervenção do Grupo de Jovens, integrando os adolescentes do 9.º ano de catequese (os do 10.º já integram o GJT).
        Para o final estava reservada a homenagem à D. Evinha, que ao longo dos últimos anos se dedicou por inteiro ao trabalho pastoral na Paróquia de Tabuaço, sempre solícita, empenhada, pronta para mais oração, mais convívio, mais formação, deixando marcas profundas nos jovens e nos adultos, na comunidade. O Grupo de Jovens e as Catequistas prestaram-lhe mais esta merecida homenagem. Foi preparado e passado um vídeo com fotos de várias atividades pastorais, ao longo dos anos. A segunda música do videoporama foi trazida pela D. Evinha para a nossa paróquia.
       Segue-se o vídeo e logo depois algumas fotos desta festa.


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